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RELIGIÕES

quarta-feira, agosto 26th, 2020

 

RELIGIÕES

**RELIGIÃO: EM BUSCA DO SENTIDO por leandro Karnal**

**RELIGIÕES**

01 – EM BUSCA DE SENTIDO por Leandro Carnal

 

02 – O JUDAÍSMO por Leandro Karnal

 

03 – CRISTIANISMO por Leandro Karnal

 

 

 

 

 

 

 

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Responsável por este trabalho:

Xavier Cutajar

xacute@uol.com.br       http://xacute1.com

GRUPO DE REFLEXÃO BÍBLICA SÃO JERÔNIMO

quarta-feira, agosto 19th, 2020

GRUPO DE REFLEXÃO BÍBLICA SÃO JERÔNIMO

 

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 Assista ao “GRUPO DE REFLEXÃO BIBLICA SÃO JERÔNIMO” no YouTube

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=10223892528762227&id=1266427159

 

** Aula 03 – CARTA AOS GÁLATAS – As contraposições: Lei-Fé, Carne-Espírito, Liberdade-Escravidão

Viver a carne na carne × Viver o Espírito na carne

Prof. Dr. Pe. Boris Agustín Nef Ulloa (PUC-SP)

https://youtu.be/cHVcEOn4eoc

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** A BATALHA DE MIGUEL E O DRAGÃO – Ap 12,7-12

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (SSCJ)

https://youtu.be/wp1MplfO7jc

 

** MIGUEL E A BATALHA ENTRE ANJOS BONS E MAUS – Ap 12,7-12

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (SSCJ)

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** Festa de Sâo Mateus (21/09/2021) Mt 9,9-13

Prof. Me. Pe. Paulo Cesar Mazzi (CEARP)

https://youtu.be/NIBxQF8_wHk

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** Veja vários subsídios sobre A CARTA AOS GÁLATAS

http://xacute1.com/?p=17845

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** A MULHER QUE LAVA OS PÉS DE JESUS em Lc 7,36-50

Prof. Dr. Pe. Heitor Carlos Santos Utrini (PUC – Rio) Lc 7,36-50

https://youtu.be/i9xiAG8PRvs

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** MARIA AO PÉ DA CRUZ – Jo 19,25-27

Prof. Me. Augusto Lívio Nogueira de Morais (FCRN)

https://youtu.be/J67N3Nc7-Ys

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** O QUE SIGNIFICA SER APÓSTOLO – Lc 6,12-19

Prof. Me. Frei Guilherme Pereira Anselmo Júnior (UNISAL)

https://youtu.be/pId7uP_URN4

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** SOBRE O DIVÓRCIO EM MATEUS – Mt 19,3-12

Prof. Dr. Pe. Heitor Carlos Santos Utrini (PUC Rio)

https://youtu.be/YDQVTaOxKvU

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** SOBRE O JEJUM E VINHO NOVO EM ODRES VELHOS – Lc 5,33-39
Prof. Dr. Pe. Junior Vasconcelos do Amaral (PUC Minas)

https://youtu.be/iSwDO-sxEfI

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** ESCUTA ISRAEL – SHEMA – Dt 6,4-13

Prof. Dr. Fabrizio Zandonadi Catenassi (PUCPR)

https://youtu.be/z8iLLDifsrk

Dt 6, 4-13 Moisés falou ao povo, dizendo:
4 Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor.
5 Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças.
6 E trarás gravadas em teu coração todas estas palavras que hoje te ordeno.

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** DOMINGOS DO TEMPO COMUM

http://xacute1.com/?p=18571

 

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** O QUE É O MANÁ: Ex 16,2-4.12-15

Prof. Dr. Pe. Arthur Francisco Juliatti dos Santos (Interdiocesano de Vitória)

https://youtu.be/7DQCWtVkDi8

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** A NOVA FAMÍLIA DE JESUS – Mt 12,46-50

Prof. Me. Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues (FCRN)

https://youtu.be/S2o-_ApNrR8

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** OS IRMÃOS DE JESUS E O ESCAPULÁRIO – Mt 12,46-50

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (SSCJ)

https://youtu.be/KnbtZiNhVcY

 

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** OS IRMÃOS DE JESUS  – Mt 13,54-58

Prof. Dr. Pe. Leonardo Agostini Fernandes (PUC Rio)

https://youtu.be/LnzXeBiKF4g

** QUEM SAO OS ESPÍRITOS IMPUROS – Mt 10,1-7

Prof. Dr. Pe. Isidoro Mazzarolo (PUCRS)

https://youtu.be/yBdhW-ObSUI

Mt 10,1-7
1 Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade.

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** NINGUÉM PODE SERVIR A DOIS SENHORES  – Mt 6,24-34

Prof. Me. Ir. Márcio Bezerra dos Santos (FCRN)

https://youtu.be/Wk9jPyBj-Ug

 

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** O PAI NOSSO – Mt 6, 7-15

Frei Ildo Perondi (PUCPR)

https://youtu.be/MRJ-6UxqvEE

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** ONDE ESTÁ O SEU TESOURO – Mt 6,19-23

Pros. Dr. Pe. Heitor Carlos Santos Utrini (PUC Rio)

https://youtu.be/U88DrrCfeFU

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** A PACIÊNCIA DA SEMENTE E O REINO DE DEUS – Mc 4,26-34

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (SSCJ)

https://youtu.be/mntTBNvuTxc

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** DEUS QUE CASTIGA E QUE SALVA EM TOBIAS – Tb 13,2-8

Prof. Dr. Pe. Jean Richard Lopes (PUC Minas)

https://youtu.be/lvIHEj-E2Hk

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** JESUS, FILHO DE DAVI? – Mc 12,35-37

Prof. Dr. Pe. Júnior Vasconcelos do Amaral (PUC Minas)

https://youtu.be/wW3WakAuW7E

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** Solenidade da Santíssima Trindade -Ano B – (30/05/2021) - Mt 28,26-30

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (SSCJ)

https://youtu.be/UVn8jYdketA

** SIMÃO PEDRO, TU ME AMAS MAIS.. – Jo 21,15-19

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (SSCJ)

https://youtu.be/sQF56ibbAGg

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** O GRUPO DE JESUS -  A QUEM JESUS APARECEU – 1Cor 15,1-8

Prof. Dr. Pe. Cássio Murilo Dias da Silva (PUCRS)

https://youtu.be/nCNaBNi0-b4

1 Irmãos, quero lembrar-vos o evangelho que vos preguei e que recebestes, e no qual estais firmes.
2 Por ele sois salvos, se o estais guardando tal qual ele vos foi pregado por mim. De outro modo, teríeis abraçado a fé em vão.
3 Com efeito, transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo tinha recebido, a saber: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras;
4 que foi sepultado; que, ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras;
5 e que apareceu a Cefas e, depois, aos Doze.
6 Mais tarde, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma vez. Destes, a maioria ainda vive e alguns já morreram.
7 Depois, apareceu a Tiago e, depois, apareceu aos apóstolos todos juntos.
8 Por último, apareceu também a mim, como a um abortivo.

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** O BOM PASTOR - Jo 10,11-18 (Cf. Salmo 22/23)

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (SSCJ)

https://youtu.be/wSXNhTpoA-g

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** FELIPE E O EUNUCO – At 8,26-40

Prof. Dr. Pe. Jean Richard Lopes (PUC Minas)

https://youtu.be/4UW92oTS__Y

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** TEOLOGIA DA RETRIBUIÇÃO: O que ela de fato significa? Como compreender essa lei muitas vezes controversa?

Por Prof. Dr. Pe. Carlos André da Cruz Leandro (UCSal)

https://youtu.be/BGiznl9lGlM

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** AMOR AOS INIMIGOS – Lc 6,27-38

Prof. Me. Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues (FCRN)

https://youtu.be/WsjHYxMgzK0

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** AMAR OS INIMIGOS – Mt 5,43-48

Prof. Me. Augusto Lívio (FCRN)

https://youtu.be/ZRBlnKeRVgo

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** CURA EM DIA DE SÁBADO – Mc 3,1-6

Dr. Pe. Cássio Murilo Dias da Silva (PUCRS)

https://youtu.be/Y7bQdpLofFo

 

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** SOBRE O SÁBADO – Lc 6,1-5

Prof. Dr. Pe. Isidoro Mazzarolo (PUCRS)

https://youtu.be/l7URqM6u93M

 

** O SÁBADO – Lc 13,10-17

Existem seis dias para trabalhar. Vinde, então, nesses dias para serdes curados, mas não em dia de sábado”.

Prof. Me. Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues (FCRN)

https://youtu.be/OqMnIXnDLOE

 

** Lc 13,10-17 – Jesus cura a mulher encurvada 18 anos no dia de Sábado - Profa. Ma. Patrícia Zaganin Carmilo Rosa (INSECH)

https://youtu.be/Mkec4tZDf2E

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** SOBRE O JEJUM – Mc 2,18-22

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (SSCJ)

https://youtu.be/_xK8DUHEUa4

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** DEUS É AMOR – 1Jo 4,7-10

Prof. Dr. Pe. Jean Richard Lopes (PUC Minas)

https://youtu.be/7aGIBqW5jSo

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Para quem quiser aprofundar a *1°Carta de João*, acesse:

http://xacute1.com/?p=6842

 

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** FALAVA A TODOS DO MENINO Lc 2, 25-40 – ‘AGORA, SENHOR’
Simeão e Ana sabem e proclamam que a salvação vem do menino por SANDRO GALLAZZI -  (Veja mais REFLEXÕES)

 

https://youtu.be/bFC-jizRvA0

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** CONSTRUIR UMA CASA PARA O SENHOR

** Construir uma Casa para o Senhor – Deus menino veio fazer história com seu povo/2 Sm 7,1-5.8-12.14.16/Lc 1,67-79- Manoel Godoy-24/12/20 - no canal de Frei Gilvander

https://youtu.be/tnSA9z-yL1c

 

** Jesus, seu nome: Deus salva! 2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16; Rm 16,25-27; Lc 1,26-38. Manoel Godoy -20/12/20 - no canal de Frei Gilvander

https://youtu.be/ghrUKUs4ZG4

2Sm 7,1-17: 1 O rei Davi foi morar no seu palácio e Javé o livrou de todos os inimigos ao redor. 2 Então ele disse ao profeta Natã: «Veja! Eu moro em palácio de cedro, enquanto a arca de Deus mora numa tenda!» 3 Natã respondeu ao rei: «Vá e faça tudo o que está pensando, porque Javé está com você». 4 Nessa mesma noite, porém, a palavra de Javé foi dirigida a Natã: 5 «Vá dizer ao meu servo Davi: Assim diz Javé: Você quer construir uma casa para eu morar? 6 Pois bem: eu não morei em casa nenhuma desde o dia em que tirei os filhos de Israel do Egito até hoje. Sempre andei errante sob uma tenda e um abrigo. 7 Durante todo o tempo em que caminhei junto com os filhos de Israel, por acaso eu disse para algum dos juízes de Israel, que estabeleci como pastores do meu povo: ‘Por que você não constrói uma casa de cedro para mim?’ 8 Portanto, diga ao meu servo Davi: Assim diz Javé dos exércitos: Eu tirei você do pastoreio, onde você cuidava das ovelhas, para fazê-lo chefe do meu povo Israel. 9 Estive com você em toda parte por onde você andava, e destruí na sua frente todos os seus inimigos. E eu darei a você um grande nome, como o nome dos grandes da terra. 10 Fixarei um lugar para o meu povo Israel, eu o firmarei, para que habite no seu lugar próprio. E assim ele não precisará mais andar errante. Os perversos não continuarão a oprimi-lo como antes, 11 como acontece desde o dia em que estabeleci juízes sobre o meu povo Israel. Eu livrarei você de todos os seus inimigos. Javé informa que vai fundar uma dinastia para você. 12 E quando esgotar seus dias e você repousar junto a seus antepassados, eu exaltarei a sua descendência depois de você, aquele que vai sair de você. E firmarei a realeza dele. 13 Ele é que vai construir uma casa para o meu nome. E eu estabelecerei o trono real dele para sempre. 14 Serei para ele um pai e ele será um filho para mim. Se ele falhar, eu o corrigirei com bastão e chicote, como se costuma fazer. 15 Mas eu não desistirei de ser fiel para com ele, como desisti de Saul, que tirei da frente de você. 16 A dinastia e a realeza dele permanecerão firmes para sempre diante de mim; e o seu trono será sólido para sempre».

17 Natã comunicou a Davi todas essas palavras e toda essa visão.

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** COMO SURGIU A CRENÇA EM ALMAS NA RELIGIÃO JUDAICA E NO CRISTIANISMO – Prof. Jonathan Matthies

https://youtu.be/a2vgfeemvU8

 

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** GENEALOGIA DE JESUS em Mt 1,1-17

Prof. Dr. Pe. Romeu Leite Izidório (PUC Campinas e Paulo VI)

https://youtu.be/wRA7-GD6UHQ

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** ÉS AQUELE QUE HÁ DE VIR? – Lc 7,19-23

Prof. Dr. Pe. Boris Augustín Nef Ulloa (PUC-SP)

https://youtu.be/yyzSXRz6CSQ

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** PROFETA BALAÃO – Nm 24

Prof. Dr. Cláudio Vianney Malzoni (UNICAP)

https://youtu.be/FbDuog_irdE

Nm 24,2-7.15-17a

2 Balaão levantou os olhos e viu Israel acampado por tribos. O espírito de Deus veio sobre ele,
3 e Balaão pronunciou seu poema: ‘Oráculo de Balaão, filho de Beor, oráculo do homem que tem os olhos abertos;
4 oráculo daquele que ouve as palavras de Deus, que vê o que o Poderoso lhe faz ver, que cai, e seus olhos se abrem.
5 Como são belas as tuas tendas, ó Jacó, e as tuas moradas, ó Israel!
6 Elas se estendem como vales, como jardins ao longo de um rio, como aloés que o Senhor plantou, como cedros junto das águas.
7 A água transborda de seus cântaros, e sua semente é ricamente regada. Seu rei é mais poderoso do que Agag, seu reino está em ascensão’.
15 E Balaão continuou pronunciando o seu poema: ‘Oráculo de Balaão, filho de Beor, oráculo do homem que tem os olhos abertos,
16 oráculo daquele que ouve as palavras de Deus, e conhece os pensamentos do Altíssimo, que vê o que o Poderoso lhe faz ver, que cai, e seus olhos se abrem.
17a Eu o vejo, mas não agora; e o contemplo, mas não de perto. Uma estrela sai de Jacó, e um cetro se levanta de Israel’.
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** SOU BOM PASTOR – SALMO 23/22, 1-6

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)

https://youtu.be/9G5VqkRvLyY

 

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** OS DONS DO ESPÍRITO SANTO – Is 11,1-10

Prof. Dr. Pe. Jaldemir Vitório (FAJE)

https://youtu.be/2KVBfkOhFME

 

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**ZAQUEU – Lc 19,1-10

¨HOJE A SALVAÇÃO ENTROU NESTA CASA”

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)

https://youtu.be/5JFRLXZ1VJg

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Ap 3,1-6.14-22 e Lc 19,1-10

“Hoje a salvação entra nesta casa” Zaqueu – Manoel Godoy

 

https://youtu.be/qh-0YD-BTGQ

 

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** O REINO DE DEUS ESTÁ ENTRE VÓS - Lc 17,20-25 e FM 7-20 e Sl 146

Prof. Dr. Valmor da Silva (PUC Goiás)

https://youtu.be/sOCRLinXM-Y

 

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** A VIDA DOS JUSTOS ESTÁ NA MÃO DE DEUS - SABEDORIA 3,1-9

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)

https://youtu.be/ma98lFUgpm4

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** A morte, o tempo e o amor: a tríade da vida

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)

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** A ARTE DO BEM-MORRER-INFERNO-PURGATÓRIO E SUA RELAÇÃO COM A DEVOÇÃO MARIANA NOS APÓCRIFOS

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)

https://youtu.be/LBiRBjY1TFo

 

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** A PAZ – Lc 12,49-53

NÃO VIM TRAZER A PAZ – AS CONSEQUÊNCIAS DO BATISMO DE JESUS

Prof. Dr. Pe. Leonardo Agostini Fernandes (PUC Rio)

https://youtu.be/DpOz3XqZ2j0

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** CRISTO É A NOSSA PAZ – Ef 2,12-22

Prof. Dr. Pe. Jean Richard Lopes (PUC Minas)

https://youtu.be/d1UljOTowio

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** AS BODAS DE CANAÃ – Jo 2,1-11

Solenidade de Nossa Senhora Aparecida

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)

https://youtu.be/jFFHZ2odrRc

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** BELZEBÚ – Lc 11,15-26

“É  por Belzebu, o príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios”

Prof. Dr. Pe. Cássio Murilo Dias da Silva (PUCRS):

https://youtu.be/fT0uWwkGsEg

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** JESUS EXORCISTA – Lc 11,15-26

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)

https://youtu.be/LPxSkzqPpXY

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**O BOM SAMARITANO – Lc 10,25-37

PARA HERDAR A VIDA ETERNA, FAZ O QUE O BOM SAMARITANO FEZ!

Prof. Dr. Pe. Johan Konings (FAJE)

https://youtu.be/xh9-dPOuCt0

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** A PARABOLA DA VINHA – Mt 21,33-43 

A ECOLOGIA dos dois Franciscos:  o Santo e o Papa relacionando com o tema da VINHA

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)

https://youtu.be/Il1e3jJIXcU

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** A ECOLOGIA dos dois Franciscos:  o Santo e o Papa

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)

https://www.otempo.com.br/opiniao/artigos/a-ecologia-dos-dois-franciscos-o-santo-e-o-papa-1.2393267

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** A IRA DE DEUS – Is 10,5-7.13-16

A IRA DE DEUS NO AT – COMO ENTENDER? – Prof. Dr. Pe. Jean Richard Lopes (PUC Minas)

https://youtu.be/-Q4L-CDVmYM

 

Is 10,5-7.13-16

5Ai de Assur, vara de minha cólera, bastão em minhas mãos, instrumento de minha indignação! 6Eu o envio contra uma nação ímpia e ordeno-lhe, contra um povo que me excita à ira, que o submeta à pilhagem e ao saque, que o calque aos pés como lama nas ruas. 7Mas ele assim não pensava, seu propósito não era esse; pelo contrário, sua intenção era esmagar e exterminar não poucas nações. 13Pois diz o rei da Assíria: ‘Realizei isso pela força da minha mão e com minha sagacidade, pois tenho experiência; aboli as fronteiras dos povos, saqueei seus tesouros, e derrubei de golpe os ocupantes de altos postos; 14minha mão empalmou como um ninho a riqueza dos povos; e como se apanha uma ninhada de ovos, assim ajuntei eu os povos da terra, e não houve quem batesse asa ou abrisse o bico e desse um pio’. 15Mas acaso gloria-se o machado, em detrimento do lenhador que com ele corta? Ou se exalta a serra contra o serrador que a maneja? Como se a vara movesse quem a levanta e um bastão erguesse aquele que não é madeira. 16Por isso, enviará o Dominador, Senhor dos exércitos, contra aqueles fortes guerreiros o raquitismo; e abalará sua glória com convulsões que queimam como fogo.

 

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**PEDRO, TU ME AMAS - Jo 21,15-19

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)

https://youtu.be/sQF56ibbAGg

 

** O AMOR: EROS, FILIA E ÁGAPE – 1Cor 12,31-13,13

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)

https://youtu.be/zC4SSwwyoCY

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** TUDO TEM SEU TEMPO Ecl 3, 1-11

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)

https://youtu.be/uQF1fPMp63w

TOCANFO EM FRENTE

*Ouça a canção*

https://youtu.be/b-x5Jy_leQY

 

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** CONHEÇA O LIVRO DE JÓ E SUA LIÇÃO – Jo 1,6-22

Prof. Dr. Pe. Johan Konings (FAJE)

https://youtu.be/3HEwcbRhxzU

 

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** Festa de Santa Maria Madalena - Jo 20,1-2.11-18

Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)

https://youtu.be/Z-XW9I2r6lE

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** MARIA MADALENA – Lc 8,1-3

Prof. Dr. Pe. Antônio Carlos Frizzo (ITESP)

https://youtu.be/0EzMHQdQCBk

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Veja mais informações sobre Maria Madalena em http://xacute1.com/?p=7742

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** TEB-TRADUÇÃO ECUMÊNICA DA BÍBLIA

https://youtu.be/72Wq4G6FQDc

 

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CURSO SOBRE O LIVRO DO DEUTERONÔMIO

Neste ano de 2020, a Igreja no Brasil comemora o Mês da Bíblia fundamentando-se no livro do Deuteronômio, com o lema “Abre tua mão para o teu irmão” (Dt 15,11). É um livro rico em reflexões morais e éticas, com leis para regular as relações com Deus e com o próximo. Por isso, em setembro, nós do Grupo de Reflexão Bíblica São Jerônimo ofereceremos, com exclusividade, pelo nosso canal do YouTube, um mini curso sobre o Deuteronômio, apresentando uma introdução geral ao livro, aos principais temas teológicos e à sua importância na literatura bíblica.

Inscreva-se em nossas redes sociais.

https://www.linktree.com.br/grbsaojeronimo

 

Aula 01 – Introdução ao livro do Deuteronômio Prof. Dr. Fabrizio Zandonadi Catenassi (PUCPR) - Veja no YouTube

 

https://youtu.be/9UUmcSeQGlU

 

Aula 02 – Temas teológicos do  livro do Deuteronômio:  Profa. Dra. Ir. Elizangela Chaves Dias (Pontifícia Universidade Urbaniana e SIMI) e Prof. Dr. Pe. Jean Richard Lopes (PUC Minas) - Veja no YouTube

https://youtu.be/vLf-0-rQIbE

 

 

AULA 03 – DEUTERONÔMIO: CONSTITUIÇÃO PARA ISRAEL – por Prof. Dr. Pe. Jaldemir Vitório - Veja no YouTube

https://youtu.be/cqgK31faClE

 

AULA 04 – DEUTERONÔMIO E ANTIGO TESTAMENTO por Prof. Dr. Pe. Cássio Murilo Dias da Silva (PUCRS) - Veja no YouTube

https://youtu.be/dmoCHf1BQZ8

 

 

 

 

Responsável por este trabalho:

Xavier Cutajar

xacute@uol.com.br       http://xacute1.com

 

 

 

 

 

 

ARQUEOLOGIA BÍBLICA

segunda-feira, julho 27th, 2020

 O QUE É ARQUEOLOGIA?

 

arqueologia é uma disciplina que se ocupa da investigação dos indícios, ou vestígios, de civilizações e culturas passadas. O termo é composto pelos radicais gregos Arkhé, que significa tanto “início/começo” quanto “ordem/organização”, e Logia, que significa, por sua vez, “estudo/ciência”.

As investigações arqueológicas têm por objetivo principal fornecer subsídios materiais, com datação temporal precisa, para a reconstrução do passado humano. Por isso essa ciência é tão importante para outras disciplinas, como a história e a antropologia.

VEJA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE ARQUEOLOGIA NA WIKIPÉDIA

 

O QUE É ARQUEOLOGIA BÍBLICA? – WIKIPÉDIA

arqueologia bíblica é um ramo da arqueologia especializado em estudos dos restos materiais relacionados direta ou indiretamente com os relatos bíblicos e com a história das religiões judaico-cristãs. A região mais estudada pela arqueologia bíblica, na perspectiva ocidental, é a denominada Terra Santa,[1] localizada no Médio Oriente.

Os principais elementos desta ciência arqueológica são, em sua maioria, referências teológicas e religiosas, sendo considerada uma ciência em toda a sua dimensão metodológica. Assim como se dá com os registros históricos de outras civilizações, os manuscritos descobertos devem ser comparados com outras sociedades contemporâneas da EuropaMesopotâmia e África.

As técnicas científicas empregadas são as mesmas da arqueologia em geral, com escavações[2] e datação radiométrica,[3] entre outras. Em contraste, a arqueologia do antigo Médio Oriente é mais ampla e generalizada, tratando simplesmente do Antigo Oriente sem tentar estabelecer uma relação específica entre as descobertas e a Bíblia.

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** Arqueologia e exegese por Sandro Galazzi

 

https://youtu.be/vBdu50EX2hQ

 

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ARQUEOLOGIA BIBLICA – VERBO FILMES

Este material traz importantes informações sobre o mundo da arqueologia bíblica, a partir de imagens e pesquisas recentes feitas nos principais sítios (Tel) de Israel e Jordânia. Este valioso material serve de referência para professores e alunos de teologia e arqueologia e para todos aqueles que anseiam por uma visualização dos locais onde aconteceram importantes fatos do mundo bíblico.

1. HAZOR – parte 1 - veja no Youtube

 

https://youtu.be/trZhbiehjEw

 

 

22. HAZOR – parte 2 - veja no Youtube

 

https://youtu.be/U4WWQ3lA6XA

2. HERODIUM - veja no Youtube

 

https://youtu.be/u8CFblZxlUk

 

 

3. JERICÓ - veja no Youtube

 

https://youtu.be/1K_YxkK-1Qk

 

 

4. LAQUIS - veja no Youtube

 

https://youtu.be/bMUiCj-V61A

 

 

5. MAR MORTO - veja no Youtube

 

https://youtu.be/2627FsARS2o

 

 

6. MASSADA - veja no Youtube

 

https://youtu.be/OLiYW9gPeuE

 

 

7. MEGUIDO - veja no Youtube

 

https://youtu.be/la8DQEzqG50

 

 

23. MEGUIDO – parte 2 - veja no Youtube

https://youtu.be/dITyskrmMhc

 

 

8. QUMRà- veja no Youtube

 

https://youtu.be/SNVw6kcGTFQ

 

 

9. TEL ARAD - veja no Youtube

 

https://youtu.be/m5i-wox7ZTo

 

 

10. BER SHE VA - veja no Youtube

 

https://youtu.be/2BKEcb0GOe4

 

 

11. BET SHEAN - veja no Youtube

 

https://youtu.be/dBmE3Ezs-8g

 

 

12. GUEZER – parte 1 - veja no Youtube

 

https://youtu.be/beXJ2Uu1Dz4

 

 

21. GUEZER – parte 2 - veja no Youtube

 

https://youtu.be/Geh-Oy71loM

13. BELÉM - veja no Youtube

 

https://youtu.be/Qxzcsd3si8o

 

 

14. CAFARNAUM - veja no Youtube

 

https://youtu.be/3bUW9aHAKJg

 

 

15. GERASA - veja no Youtube

 

https://youtu.be/g7jtB5uSkRQ

 

 

16. JERUSALÉM – parte 1 - veja no Youtube

 

https://youtu.be/pHYpvAZB8Kw

 

 

19. JERUSALÉM – parte 2 - veja no Youtube

 

https://youtu.be/pP2uDy94UFM

 

 

17. NAZARÉ - veja no Youtube

 

https://youtu.be/ZE9F5wn8O_8

 

 

18. PETRA - veja no Youtube

 

https://youtu.be/8sSLXwIIEgg

 

 

20. ARAD - veja no Youtube

 

https://youtu.be/ruxJyPeanew

 

 

24. JEZREEL - veja no Youtube

 

https://youtu.be/ZACyejPs-1c

 

 

25. REHOV - veja no Youtube

 

https://youtu.be/Q_e-HRH0v54

 

 

26. PELLA - veja no Youtube

 

https://youtu.be/atdDtesQu-Q

 

 

27. Dà- veja no Youtube

 

https://youtu.be/ltfnAjI2_Lw

 

 

28. ENTREVISTAS (Israel Finkelstein e Amihai Mazar) - veja no Youtube

 

https://youtu.be/7CjUequb_ys

 

 

 

Dialogos Biblicos en la ABIB Nº6/2021

Arqueologia e historia de Israel: castillos de arena

 

https://youtu.be/PEybd-41soY

 

 

 

 

 

 

Responsável por este trabalho:

Xavier Cutajar

xacute@uol.com.br       http://xacute1.com

 

 

 

 

Castillo, José Maria

domingo, julho 19th, 2020

 Pe CASTILLO – REFLEXÕES LITÚRGICAS

 

Sagrada Família de Jesus, Maria e José – Ano B – HOMILIA -  Evangelho: Lucas 2,22-40

 José María Castillo - Teólogo espanhol

Uma família muito diferente

A liturgia da Igreja dedica o domingo seguinte ao dia de Natal, para propor aos cristãos a recordação da família de Jesus como o modelo cabal, e o melhor exemplo do que deve ser e como deve ser uma família perfeita. O que tem a sua lógica. Porque, se estamos recordando a Virgem Maria, São José e o Menino Jesus, que família mais exemplar podemos propor aos cristãos e, em geral, a qualquer sociedade onde a instituição familiar esteja vigente? O que – se todo este assunto é pensado a partir das convicções de um crente – resulta bastante razoável.

No entanto, tudo isso traz consigo também um problema.

O problema consiste em que esta «idealização» da «Sagrada Família» é isso: uma representação ideal.

Porém, esse ideal corresponde à realidade ou, melhor, corresponde ao que as pessoas de mentalidade mais conservadora quiseram que fosse o real?

Nos evangelhos da infância, já se relatam coisas que, se aconteceram tal como relatadas, foram fatos que transtornaram a convivência, se é que era uma família de seres humanos. Maria ficou grávida sem que seu esposo, José, o soubesse. Este homem esteve a ponto de abandonar sua mulher. Quando o menino nasceu, imediatamente, viram-se ameaçados até o ponto de terem de sair correndo como fugitivos para um país distante, no qual ficaram não se sabe quanto tempo.

Ademais, a fuga para o Egito costumava-se fazer, na Antiguidade, de modo que aquilo era o que se chamava [em grego] de anachóresis, que era a fuga para o deserto daqueles que eram perseguidos pelas autoridades. Eram autênticos «fugitivos». E, quando já viviam em Nazaré, aconteceram coisas que não se compreendem facilmente, por exemplo, o menino ficar em Jerusalém sem dizer nada a seus pais, algo que estes não compreenderam.

E o mais grave que aconteceu nessa família ficou patente e notório quando Jesus deixou sua casa e sua família. E se pôs a dizer e fazer coisas, que as autoridades religiosas viram que eram um perigo e um assunto grave. Por isso, seus parentes diziam que Jesus estava louco (Mc 3,21) e não creram nele (Jo 7,5), de forma que até o desprezaram quando ele voltou ao seu povo, em Nazaré (Mc 6,1-6) e até os compatriotas quiseram matá-lo (Lc 4,22-30).

A família é a instituição fundamental para que nós, seres humanos, quando vimos a este mundo, nos integremos na sociedade e sejamos bons cidadãos.

A família deve satisfazer a necessidade de carinho e de educação nos valores fundamentais, sobretudo, os «Direitos Humanos».

Porém, não nos esqueçamos que a família é, em suas origens, uma «instituição econômica», que garante e sobre ela se legaliza o direito de propriedade. Daí, o perigo de que o interesse econômico se sobreponha aos demais interesses e valores.

Há de se cuidar dos valores da família. Porém esses valores se asseguram quando se cuida com esmero do carinho, do respeito, do bom trato, da bondade. Tendo em conta que estes valores não se asseguram quando a família se «politiza» até ser origem de conflitos e divisões.

 

4º Domingo do Advento – Ano B – HOMILIA

 Evangelho: Lucas 1,26-38

 José María Castillo, Teólogo espanhol

Deus se Faz Presente nos Humildes

local: aquilo que se conta aqui, tão transcendental para a humanidade, ocorre na Galileiaa região dos que, em Israel, eram considerados ignorantes, impuros, com os quais não se podia relacionar-se. O desprezo dos antigos pelos galileus era tão forte, que, no ano 362, o imperador Juliano escreveu uma carta ao governador do Eufrates, Artabio, na qual mencionava «a estupidez dos galileus». Era famoso o dito do rabino Yochanan ben Zakkai [época do Segundo Templo]: «Galileia, Galileia, tu odeias a Torá».

Pois bem, em um povoado perdido, de um tal lugar, Deus se faz presente. É o estilo de Deus que se revela em Jesus. Assim são os hábitos do Deus de Jesus.

pessoa: central no relato é Maria, uma mulher desconhecida e humilde, da qual se diz que era «virgem», uma palavra que, no judaísmo daquele tempo, designava uma menina, a partir de sua puberdade até sua primeira relação sexual. O relato de Lucas quer destacar que o fato prodigioso, que aconteceu em Maria, é muito mais importante que aquele de sua parente Isabel.

O texto não fala da virgindade biológica de Maria, mas de sua fidelidade total a Deus. O Magistério da Igreja pregou sempre a virgindade biológica de Maria. Porém, uma virgindade assim, a pode ter uma mulher a qual se fez uma inseminação artificial e, em seguida, se lhe realizou uma cesariana. Essa mulher seria «mãe» e «virgem», segundo Karl Rahner [1904-1984: teólogo jesuíta alemão, um dos mais influentes do século XX]. É evidente que a virgindade de Maria refere-se a uma qualidade superior que Deus lhe concedeu, ao ser a mãe de Jesus.

mensagem: de Maria nascerá o Messias que Israel esperava. E muito mais do que esperava. Este texto do evangelho de hoje foi escrito quando já se tinha consciência do que disse São Paulo em Rm 1,3-4: o filho de Davi foi constituído, «por sua ressurreição», Senhor e Filho de Deus. Ainda que Lucas não conhecesse este texto de Paulo, o que diz o texto era já conhecido na Igreja.

 Traduzido do espanhol por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: CASTILLO, José María. La religión de Jesús: comentario al evangelio diario – 2020. Bilbao: Desclée De Brouwer, 2019, páginas 446-447.

 

3º Domingo do Advento – Ano B – HOMILIA

  Evangelho: João 1,6-8.19-28

 José María Castillo, Teólogo espanhol

Autoridade da Vida e do Exemplo

Aqui fica claro que o ensinamento e o testemunho de João não coincidiam com o que ensinavam e queriam os dirigentes religiosos. Leve-se em conta que, no evangelho de João, a expressão “os judeus” designa (menos em 4,9.22 e 18,33.35.39; cf. 19,3.19.21) os homens que se identificavam totalmente com a religião, sobretudo os seus dirigentes religiosos (2,18; 5,10.16.18; 9,22; 11,47; 19,7.12) e especialmente as autoridades supremas do Templo (8,31; 11,19; 12,11).

Por isso, João dispara o alarme nos “judeus”, os quais mandam sacerdotes, levitas e fariseus para interrogar o Batista. Queriam saber quem era aquele estranho pregador que anunciava uma nova luz, na outra margem do rio Jordão, fora da cidade santa, o território da religião oficial, que não tolera que se anuncie uma luz à margem da instituição.

O que interessava aos dirigentes religiosos é qual título ou qual cargo tinha João para pregar e batizar. Os títulos e os cargos denotam poder. O poder é o que provoca obsessão nos sacerdotes. Porém, João não aceitou nem título nem cargos. João era um “joão-ninguém”. Sua autoridade era sua vida, seu exemplo, sua liberdade de tudo e em tudo. É somente uma voz que grita no deserto. Não se trata de humildade.

A chave está em que somente a partir do despojamento de toda pretensão pode alguém ser testemunha autorizada da Luz, que é o Senhor.

 João foi uma voz, ouvida e acolhida por alguns, “os publicanos e as prostitutas” (Mt 21,32), e rejeitada por outros, os “sacerdotes e anciãos do povo” (Mt 21,23). Os “zé-ninguém” escutam e acolhem a voz do Senhor. Os “titulados” a rejeitam.

O Evangelho transtorna as nossas seguranças. Jesus foi tão audaz que chegou a dizer aos supremos dirigentes religiosos que os publicanos e as prostitutas entram antes deles no Reino de Deus [cf. Mt 21,31].

Traduzido do espanhol por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: CASTILLO, José María. La religión de Jesús: Comentario al evangelio diario – 2020. Bilbao: Desclée De Brouwer, 2019, páginas 438-439.

1º Domingo do Advento – Ano B – HOMILIA

 Evangelho: Marcos 13,33-37

José María Castillo, Teólogo espanhol

Como nos Preparamos para a Vinda de Jesus

O Advento é o tempo de quatro semanas que dedicamos a preparar o Natal, o dia em que se recorda que Deus, em Jesus, fez-se presente na história. Preparar o Natal é, antes de tudo esperar a vinda de Jesus para acolhê-lo em nossas vidas. O Natal se reproduz e se repete todos os dias. Porque todos os dias Jesus se faz presente em nossa história, na vida de cada um de nós, no que fazemos e no que deixamos de fazer.

Jesus se faz presente na bondade, na amizade, na sinceridade, na honradez, no bem que fazemos e na felicidade que transmitimos àqueles que se sentem mal, tristes e necessitados.

Assim entra Jesus na história de cada pessoa, e na história da sociedade e da Igreja.

Porém, este evangelho nos diz algo muito mais forte. O chamado à vigilância, que aqui nos recorda Jesus, é a conclusão do discurso que, segundo Marcos, Jesus pronunciou antes de sua morte.  Neste discurso, Jesus anunciou duas coisas:

1ª) A destruição total do Templo (Mc 13,1-2).

2ª) A queda do sol, da lua e das estrelas (Mc 13,24-25) que indicam, segundo os profetas (Is 13,34; Jr 4,20-23; Ez 32,7 etc.), a ruína dos grandes impérios, os poderes opressores da humanidade.

Assim, o que o Evangelho nos diz é que a bondade, a honradez, a humanidade e a humildade, tudo isso tem tanta força que pode mais que a religião e a política. Queixamo-nos de quão mal está indo a Igreja, e quanto mal os políticos fazem.

Nossa bondade sem limites é a força que pode acabar com toda essa podridão.

O importante é que nos convençamos disto.

Preparar o Natal é, antes de tudo, reforçar nossa honradez, nossa humanidade, nossa integridade e a sensibilidade perante o sofrimento alheio. Porém, para isso, precisamos orarir a Jesus sem jamais nos cansarmos. Somente assim, estaremos vigilantes esperando a incessante entrada de Jesus na história de nossas vidas e das vidas de todos.

Traduzido do espanhol por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: CASTILLO, José María. La religión de Jesús: Comentario al evangelio diario – 2020. Bilbao: Desclée De Brouwer, 2019, páginas 421-422.

 

 

 

 

34º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo – HOMILIA

 Evangelho: Mateus 25,31-46

 José María Castillo

Teólogo espanhol

O Principal é Uma Vida de Bondade

No último domingo do ano litúrgico, a Igreja recorda aos cristãos que o Reinado de Deus alcança sua plenitude na recordação perigosa e na realização desconcertante do que foi a vida de Jesus. O evangelho de Mateus resumiu o aspecto central daquela vida no chamado «juízo final» ou «juízo das nações».

Este texto, como sabemos, foi objeto de incontáveis discussões e teorias. Discutiu-se se é uma profecia, uma parábola, o relato de um acontecimento que concluirá a história humana etc. Este não é o lugar nem o momento de explicar estas diversas teorias. E, menos ainda, podemos pretender esclarecer o que cada uma dessas teorias tem de verdadeiro e de falso.

O importante é deixar claro que se trata de ensinamento definitivo no qual o evangelho de Mateus nos condensa o essencial, o verdadeiramente central da mensagem que Jesus nos deixou como seu EVANGELHO, sua Boa Notícia.

Nessa passagem, Jesus responde a esta pergunta: o que é e em que consiste o «herdar o Reino de Deus»? A resposta:

Consiste em uma forma de viver CENTRADA NA BONDADE que contagia felicidade e alivia o sofrimento humano sempre e em todos.

Portanto:

1) O Reino de Deus não é uma religião.

2) Não consiste na aceitação doutrinal de dogmas, nem na prática de rituais sagrados, nem na submissão a preceitos ou mandamentos.

3) Tampouco, limita-se a pertencer a uma instituição que exige obediência ou submissão a uma autoridade suprema na terra.

 

O texto evangélico do juízo final não fala de nada disso! Nada disso, portanto, deve ser determinante para o juízo pelo qual cada ser humano teremos de passar, não agora perante a história, mas perante Deus. O juízo no qual cada um terá de responder sobre o que Jesus, o Senhor, representou para ele.

Nesse sentido, pode-se falar do cristianismo como religião. Porém, somente neste sentido. Jesus foi profundamente religioso. Porém, ele não centrou sua religiosidade na submissão da mente a alguns «dogmas» ou na observância de uns «ritos». Jesus centrou sua vida na BONDADE com os que sofrem. Nisso Jesus viu o Pai do Céu.

De acordo com o que se disse, duas coisas ficam patentes:

1) O central do cristianismo não é a crença em umas verdades ou a observância de uns rituais.

2) O mais perigoso para os seres humanos é o chamado «pecado de omissão». Isto é, o mais grave não é o que nós, mortais, fazemos, mas o que deixamos de fazer. Em outras palavras, o que mais prejudica no mundo não é o mal que cometemos.

A pior coisa que fazemos na vida é ignorar o mal que vemos e sentimos ao nosso redor.

Traduzido do espanhol por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: CASTILLO, José María. La religión de Jesús: Comentario al evangelio diario – 2020. Bilbao: Desclée De Brouwer, 2019, páginas 413-414.

32º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

  Evangelho: Mateus 25,1-13 

José María Castillo

Teólogo espanhol

 Jamais Perder a Alegria do Reino

Esta pequena história nos remete a alguma pregação de Jesus que foi recolhida por Mateus entre as parábolas do final de seus dias em Jerusalém. Pelo menos, é seguro que o redator deste evangelho viu que este era o lugar e o momento mais oportuno para recordar o significado de tal história.

Assim, mediante este relato, Jesus nos recorda que o perigo, a ameaça, o juízo, a condenação, o sofrimento e a morte, nada disso, por mais temível que possa ser, nunca deve constituir motivo para perder a alegria que sempre há de estar presente em nossa vida.

Aqui, Jesus não contou uma parábola sobre a parusia [a segunda vinda de Cristo] ou o final da História. A metáfora do «noivo» remete a Deus (Os 2,21s; Is 62,5; Jr 2,2). Tampouco, se trata de uma parábola do juízo, como fica claro na comparação com as bodas que evocam alegria  e não temor. Sem dúvida, como bem assinala Ulrich Luz [1938-2019: especialista suíço em Mateus, autor de um extenso comentário ao evangelho], a intenção última do redator foi uma advertência, na qual se queria dizer:

Aquele que não estiver preparado, pode perder o «momento» (kairós) da alegria! Por isso, deve-se estar vigilante para não o perder jamais.

Os Padres da Igreja viram no óleo, que mantém viva a nossa perseverança e esperança, a FÉ
A consequência é clara e motivadora: ser cristão e seguir Jesus é viver na alegria. Portanto, tudo quanto ameaça nossa alegria, nossa felicidade, assim como a alegria e felicidade dos outros, é algo que deve ser evitado, se é que desejamos esperar Jesus, o noivo da grande festa de bodas, que é o Reino de Deus, a alegria de Deus, a felicidade em que deve viver o cristão sempre.

E isso, ainda que haja «esquecidos» (como as virgens imprudentes) ou tenhamos conduta egoísta (como a das virgens «prudentes»). Que temos e teremos limitações e misérias, isso ninguém duvida, por mais boa vontade que tenhamos. Porém, nada disso nos deve retirar ou diminuir nossa constante alegria de vivermos na festa sem fim que é o Reino de Deus.

Traduzido do espanhol por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: CASTILLO, José María. La religión de Jesús: Comentario al evangelio diario – 2020. Bilbao: Desclée De Brouwer, 2019, página 396.

 

28º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

  Evangelho: Mateus 22,1-14 

 José María Castillo

 Teólogo espanhol

 O Reino é o Grande Banquete de Deus

Não é possível entender esta parábola, se não levamos em conta o que representava, nas cultura antigas o “simpósio”, o banquete festivo que se celebrava, desde o mundo judeu ao mundo romano, passando pela cultura dos gregos. Os biblistas “de ofício” costumam resistir à influência que o “simpósio” antigo teve nas origens da eucaristia. Porém, os dados históricos aí estão. E negar-se a aceitar tais dados produz a impressão de um certo “fundamentalismo bíblico”, que resiste aos fatos que viveram os primeiros cristãos.

Isto suposto, é certo que Jesus oferecia o Reino, antes de tudo, aos marginalizados através de sua mesa de fraternidade. Trata-se disso: para muitos acadêmicos, a comensalidade com os socialmente excluídos é essencial em toda reconstrução social do Jesus histórico que pretenda ser válida. Por exemplo, John Dominic Crossan afirma enfaticamente: «Minha teoria é que a magia e a comida ou o milagre e a mesa… proporcionam o ponto crucial do programa de Jesus. Se esta teoria não for verdadeira, eu teria que reescrever todo o livro» (O Jesus Histórico, Imago Editora, 1994). Quer dizer que, se arrancarmos dos evangelhos as refeições de Jesus, tudo aquilo que neles se diz perde sentido e seu significado para nós. Os cristãos devem sê-lo precisamente compartilhando o banquete da comida compartilhada com aqueles que aceitam participar dessa mesa, que, segundo a parábola, não são os ricos, mas os excluídos socialmente.

Nos tempos difíceis que estamos vivendo, quando tantos milhões de seres humanos não têm acesso ao mais elementar que nos pede a vida, a saúde e a alimentação, e isto superando qualquer forma de exclusão na sociedade, Jesus diz aos cristãos – e o diz à Igreja – que o central do Reino de Deus é a comensalidade.

Isto é, a mesa compartilhada com aqueles que não podem compartilhar nada mais que suas carências, suas exclusões, suas inseguranças e seus medos.

Assim, somente assim, poderemos fazer algo para que este mundo torne-se mais habitável. É isso que o Cristianismo tem a trazer para a humanidade neste momento.

26º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Mt 21, 1-27 – O Importante é Fazer não Falar

Depois da entrada de Jesus em Jerusalém e a violenta expulsão dos comerciantes do Templo (Mt 21,1-27), a grande «parodia do poder», o evangelho de Mateus coloca três parábolas tremendas, todas elas dirigidas contra os dirigentes religiosos (não contra o povo de Israel):

a) a parábola dos dois filhos (Mt 21,28-32);

b) a dos vinhateiros homicidas (Mt 21,33-46);

c) a do banquete do Reino (Mt 22,1-14).

Com essas parábolas, Jesus provoca mais tensão na situação de enfrentamento com os responsáveis pela religião. E chega ao ponto de lhes dizer que eles são:

1) os que não fazem aquilo que Deus quer;

2) os que se apoderaram do poder e assassinam aqueles que lhes estorvam;

3) os que não entrarão no banquete de Deus.

Compreende-se que, ali mesmo, quiseram matar Jesus (Mt 21,46a). E não o fizeram porque o povo estava da parte de Jesus e os homens do Templo tinham medo das pessoas (Mt 21,46b. Cf. Mc 11,18.32; 12,12; Mt 14,5; 21,26.46; Lc 20,19; 22,2). Aqueles homens tão religiosos, além de traidores, eram covardes.

A parábola é imediatamente compreendida: A ética de Jesus não é a ética dos propósitos e das palavras, mas a ética dos fatos.

Para Jesus o que «se diz» não conta; o que conta é o que «se faz». Sobretudo, quando o que se diz é exatamente o contrário do que se faz. Isso é o que aconteceu com os dois irmãos [da parábola deste domingo]. E é o que ocorre, tantas vezes, com a elite religiosa:

* em suas pregações falam contra o apego ao dinheiro, aqueles que se parecem com qualquer coisa, menos a um pobre;

* falam contra o orgulho aqueles que ocupam sedes de poder e honra;

* são severos censores do sexo aqueles que ocultam e protegem a delinquentes sexuais.

Jesus acentua a sua denúncia ao afirmar que os grupos mais depreciados pela elite religiosa (publicanos e prostitutas) estão à frente dessa elite no caminho para o Reino. É de se notar que o verbo [grego] «proágousin» (Mt 21,31b) está no tempo presente, isto é, «agora» os publicanos e as prostitutas «vão à vossa frente» no caminho para o Reino.

A juízo de Jesus, os mais recuados [atrasados] no caminho para Deus são, precisamente, os que acham estar à frente dos outros e aqueles que se veem a si mesmos como o exemplo a seguir.

Traduzido do espanhol por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: CASTILLO, José María. La religión de Jesús: Comentario al evangelio diario – 2020. Bilbao: Desclée De Brouwer, 2019, páginas 346-347.

 

24º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 18,21-35
José María Castillo
Teólogo espanhol
DEUS SERÁ CONOSCO COMO SOMOS PARA OS OUTROS
Jesus disse: «tratai os outros como quereis que eles vos tratem» (Lc 6,31). O critério de Jesus, então, é que cada um seja tratado por Deus do mesmo modo que essa pessoa trata os demais em sua vida cotidiana. Quer dizer, o comportamento de cada um com os outros é a medida do comportamento que Deus tem com cada ser humano.
Portanto, o respeito, a tolerância, a estima a capacidade de perdoar que cada ser humano tem com as pessoas com as quais convive, esse será o respeito, a tolerância, a estima e o perdão que receberá de Deus.
A tolerância e o perdão do «Senhor» ou «Rei» com seu «servo»/«escravo» alcança uma dimensão incrível, segundo a parábola. A dez mil talentos [cerca de 300 toneladas de ouro!] chegava a soma que Roma, com Pompeu, obteve da recém conquistada Judeia por volta do ano 60 a.C. (segundo o historiador Flávio Josefo). Herodes Antipas obteve duzentos talentos da Galileia e Pereia. Arquelau, seiscentos talentos da venda da Idumeia, Judeia e Samaria (segundo o historiador Flávio Josefo).
Assim sendo, a figura que propõe a parábola evoca a ação de Roma e reflete noções proverbiais sobre a riqueza dos reis. Por isso, é assombrosa a generosidade do «senhor/rei».  Como é assombrosa a ruindade e miséria do servo que, por pouco, chega a desejar matar a um desgraçado que lhe devia uma quantia miserável.
Tudo nesta parábola é exagerado, quase incrível. Como exagerada e surpreendente é a ruindade e a miséria de espírito que estamos vendo e vivendo na duríssima situação de crise atual. Jamais se viu tanta cobiça nos ricos e tanta incapacidade para perdoar «o dinheiro que me devem». A cobiça pelo dinheiro é a causa do que estamos sofrendo.
E, enquanto a Igreja não começar a tomar decisões exemplares, que seja capazes de comover o mundo, esta situação não muda. Especialmente nos países do sul da Europa, que são precisamente os países mais católicos. O mais urgente não é que se modifiquem as decisões econômicas, mas que se convertam os corações ambiciosos e a cobiça insaciável dos ricos, daqueles que manejam o poder político, daqueles que controlam o capital financeiro.
A chave não está na «economia», mas na «ética».
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: CASTILLO, José María. La religión de Jesús. Comentario al evangelio diário – 2020. Bilbao: Desclée De Brouwer, 2019, páginas 330-331.

 

22º Domingo do Tempo Comum – Homilia

Evangelho: Mateus 16,21-27
José María Castillo
Teólogo espanhol
JESUS, UM MESSIAS INESPERADO
A partir do momento em que os discípulos, pela boca de Pedro porta-voz deles, afirmam sua fé em Jesus como o Messias (Mc 8,27-30; Mt 16,13-16; Lc 9,18-21), este «começa» a explicar àqueles homens em que consistia seu messianismo e como iria se realizar.
Tal messianismo não seria uma carreira de êxitos, de triunfos, de poder e de fama. Totalmente o contrário. O messianismo que poderia trazer salvação e solução ao mundo, seria (tinha que ser) e se realizaria em uma vida que iria terminar no enfrentamento mortal com os poderes religiosos e políticos, até ver-se marginalizado, excluído e condenado por tais poderes.
Este fato, tal como historicamente aconteceu, pareceu intolerável a Pedro. Por isso, «repreendeu» Jesus. O que foi motivo de um enfrentamento duríssimo. Porque Jesus chegou a qualificar Pedro de «Satanás». Por que esse enfrentamento chegou a tal extremo? Estava em jogo o mais decisivo. Por quê?
O Messias, segundo o Antigo Testamento, era o «ungido». E ungidos eram o «sumo sacerdote» e o «rei». O messianismo estava associado, para qualquer judeu, ao mais digno, ao poder e à grandeza. A ideia de Messias estava, portanto, vinculada ao sobre-humano, ao governo glorioso do rei Davi (Is 9,1-6; 11,1ss; Mq 5,1-5). Talvez, na ideia do Messias estrasse, também, o conceito do «sagrado». Porém, é indubitável que a ideia judaica do messianismo estava vinculada à realeza, com o poder e dignidade que lhe corresponde, na qual encarna o papel e a grandeza da salvação do povo eleito.
Uma vez posto isso, e sendo essa a mentalidade do judaísmo proveniente do Antigo Testamento, compreende-se que Jesus, ao explicar seu messianismo (tal como de fato se consumou), teve de lançar mão de uma fórmula forte e direta: «o Messias tem de ir a Jerusalém e padecer muito lá». O texto utiliza o vocábulo grego «deï», que não tem equivalente semítico e que designa uma necessidade absoluta, inquestionável.
Porém, na história da interpretação bíblica, esta necessidade expôs um problema no qual a teologia ficou presa:
* Jesus «tinha que» padecer e morrer rejeitado pelas autoridades religiosas, porque assim Deus havia decidido?
Ou:
* Porque o próprio Jesus viveu de modo que aquela vida não poderia acabar senão em fracasso, em sofrimento e na morte de um subversivo?
Aqui está o problema capital para entender Jesus, para compreender o que significa o cristianismo, e para viver a fé cristã com coerência e segundo seu razoável significado.
O que isso quer dizer?
A afirmação forte, que faz Jesus, segundo a qual o Messias «tem que padecer muito» (grego: deï pollá pathein), associa o sofrimento e a morte de Cristo com «uma necessidade absoluta». O problema está em que o vocábulo «deï» («é necessário», «tem que») se associa no Novo Testamento com decretos divinos. Isto é que deu pé para se dizer que foi Deus quem decretou o sofrimento e a morte de Jesus.
Porém, se chegamos a esta conclusão, no fundo, o que estamos afirmando é que Deus necessitou de sofrimento e morte, nada menos do que a morte de seu Filho. O que equivale fazer de Deus um monstro de maldade e sadismo. Semelhante afirmação teológica é absolutamente intolerável e inaceitável. Em um Deus assim, não é possível crer.
Para pôr as coisas em seu lugar, é necessário saber:
1) No Novo Testamento se relaciona o vocábulo «deï» com normas de Deus para a ética e a piedade (At 5,29; 1Ts 4,1; Rm 8,26; 1Cor 8,2; 1Tm 3,2.7.15; Lc 13,14.16).
2) Nunca se relaciona com sofrimentos que Deus manda ou com decisões divinas relativas à morte de alguém.
3) E, claro, jamais se vincula a sofrimentos, violência e morte cuja origem esteja nas autoridades religiosas.
Deve-se dizer, portanto, o que dizem os evangelhos quando põem na boca de Jesus os anúncios da paixão: foram os sumos sacerdotes, os doutores da Lei e os senadores aqueles que decidiram torturar, humilhar e assassinar Jesus. Nesse sentido, pode-se afirmar que não foi Deus, mas que foi a Religião (por meio de seus representantes oficiais) que matou Jesus. O projeto de matar Jesus brotou dos observantes religiosos, os fariseus (Mc 3,6). E o consumou o Sinédrio das autoridades religiosas de Jerusalém (Jo 11,47-53).
Porém o que ocorreu, no cristianismo primitivo, é que os evangelhos foram redigidos e se difundiram (em sua redação definitiva) depois do ano 70, datação que está geralmente aceita e comprovada. Contudo, muito antes, entre os anos 41 e 51-52, as primeiras «igrejas», fundadas quase todas pelo apóstolo Paulo, receberam uma mensagem distinta àquela dos evangelhos. Foi a mensagem segundo a qual Cristo morreu crucificado, como «sacrifício» e «expiação» por nossos pecados. O que, a juízo de Paulo, foi um ato de generosidade de Deus. Foi o Pai quem entregou seu Filho para a nossa «justificação» e «redenção» (2Cor 5,21; Rm 3,24-26).
Estas duas interpretações da morte de Jesus, a dos evangelhos e a de Paulo, não se integraram devidamente na teologia cristã. Porém o fato histórico nos diz que Jesus morreu como um fracasso subversivo, por solidariedade para com todos os que sofrem neste mundo. Isto é o capital. E deveria ser o determinante para a Igreja.
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: CASTILLO, José María. La religión de Jesús: Comentario al evangelio diário – 2020. Bilbao: Desclée De Brouwer, 2019, páginas 312-314.

17º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 13,44-52
José María Castillo
Teólogo espanhol
O QUE PREENCHE O SER HUMANO
A primeira dessas parábolas compara a oferta de Jesus, o reinado de Deus, com um tesouro. Um tesouro tão valioso e que seduz tanto e produz tanta alegria, que aquele que o encontra, esquece-se de tudo o que tem, abandona tudo e vê nesse tesouro a única coisa que vale a pena neste mundo.
Como é lógico, isto quer dizer que quem encontra Jesus e sua mensagem, por esse motivo, muda radicalmente de vida. Uma novidade assim, não pode ser nem a prática religiosa, nem, muito menos, as obrigações que impõe a religião. Nem sequer, as promessas de felicidade para a outra vida. Nada disso é – para a grande maioria das pessoas – um tesouro que muda a forma de viver. A crença em uma esperança (incerta? insegura?) de futuro, normalmente, não modifica o presente visível, tangível.
O mesmo se deve dizer da pérola. No fundo, é a mesma comparação formulada com outras palavras. O que podem expressar o «tesouro» e a «pérola»?
Somente o que mais preenche os seres humanos:
um ambiente humano de respeitotolerânciaestimacarinho e segurança,
no qual damos felicidade e recebemos felicidade,
com a convicção de que isso é (e será) para sempre.
Somente isso pode significar o que, tal como são os humanos, Jesus oferece e afirma.
A comparação da rede e a separação última e definitiva dos peixes abre o horizonte das promessas de Jesus de tal maneira, que transcende todas as limitações inerentes à condição humana. A intenção de Mateus, ao colocar aqui esta comparação, é pôr uma «sentinela no horizonte» (Paul Ricoeur) último de todo o meramente humano, para superá-lo e transcendê-lo além de quanto nos atrevemos a imaginar ou suspeitar os mortais.
Em suma, a garantia mais segura de que o Evangelho está presente na vida é que essa nossa vida progrida e funcione impregnada de alegria pelo fato de ter conhecido e encontrado Jesus e seu Evangelho.
Traduzido do espanhol por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fontes:- CASTILLO, José María. La religión de Jesús: comentario al Evangelio diário 2020. Bilbao: Desclée De Brouwer, 2019, páginas 266-267.

16º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mt 13,24-43

José María Castillo
Teólogo espanhol
NINGUÉM É JUIZ DE NINGUÉM
O ensinamento desta parábola [do joio e do trigo] está claro: a juízo de Jesus, ninguém tem nesta vida o direito de erigir-se em juiz do bem e do mal. Ninguém tem, portanto, o direito de decidir onde está o bem (o trigo) e onde está o mal (o joio). E menos ainda, ninguém tem o direito de considerar-se com poder para pretender extirpar o mal pela raiz (arrancar o joio). Porque pode, muito bem, acontecer que, pensando que se arranca o joio, na realidade o que está se arrancando é o trigo.
Portanto, ninguém pode constituir-se em juiz dos demais. Ninguém tem direito de fazer isso. Ninguém pode condenar ninguém, rejeitar ninguém, reprovar a quem seja. Porque corre o perigo de equivocar-se. De modo que, pensando que faz uma boa coisa, na realidade o que leva a cabo é um dano.
Jesus condena, assim, o puritanismo e a intolerância. Todos corremos o perigo de incorrer nesse tipo de conduta. E nós sabemos, muito bem, até que ponto as pessoas andam por aí condenandorejeitandoofendendo, insultando… Porém, esse perigo aumenta, na medida em que, uma pessoa se faz mais religiosa, sobretudo, se sua religião é de caráter fundamentalista. Então, a intolerância supera todos os limites e chega a criar ambientes nos quais não se pode nem respirar.
Este mundo está repleto de fanáticos, que se consideram com o direito e o dever de obrigar que os outros mudem, até pensar e viver como pensa e vive o fanático intolerante. As pessoas «muito religiosas» dão medo! E tornam a vida insuportável e a convivência amarga.
No fundo, o problema está em que, no final das contas, o bem e o mal são categorias que dependem dos que tem poder para defini-lasFriedrich Nietzsche (filósofo alemão: 1844-1900) disse muito bem: «foram os bons mesmos, isto é, os nobres, os poderosos, os homens de posição superior… quem se sentiram e valorizaram a si mesmos e à sua obra como bons, ou seja, como algo de primeiro escalão, em contraposição a todo o baixo, abjeto, vulgar e plebeu» (Genealogia da moral I, 2).
E é, assim, que vamos limpar o campo do Senhor do suposto joio?
No final das contas, a essência do fanatismo consiste no desejo (e até no empenho) de «obrigar os outros a mudarem» (Amos Oz – escritor israelense: 1939-2018). Neste ponto coincidem todos os fanáticos do mundo, os quais, com frequência, degeneram para a violência e o terror.
Traduzido do espanhol por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fontes: Religión Digital – CASTILLO, José María. La religión de Jesús: comentario al Evangelio diário 2020. Bilbao: Desclée De Brouwer, 2019, páginas 257-258.

 

 

15º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 13,1-23

 José María Castillo
Teólogo espanhol
A FORÇA DO REINO ESTÁ ENTRE NÓS
Para entender esta parábola, a primeira coisa que se deve levar em conta, é que a «palavra» (em grego: logos; em hebraico: dâbâr), nas cultura do Oriente Antigo, não era meramente um «signo» que transmite uma «ideia», mas era uma «força» que transmitia uma «realidade». A realidade que expressava a palavra.
Nesta parábola, o que Jesus explica é porque muitas vezes a palavra 
não é força, mas se frustra e, por isso,
resulta ineficaz ou sua eficácia é diminuída, limitada.
Como isso é mencionado na Bíblia, a «palavra de Deus», não se associa ao sacerdote (Zacarias, o pai do Batista, ficou sem palavra, mudo: Lc 1,20), enquanto que a palavra veio sobre João, não no Templo, mas no deserto (Lc 3,2). E é que a palavra era o meio pelo qual os profetas comunicam sua força ao povo (Am 1,6).
Porém, com Jesus, o tema da palavra dá um passo adiante que se torna decisivo: a palavra de Deus é a palavra de Jesus: «Porém, eu vos digo» (Mt 5,22. 28…). A palavra de Jesus tem tal força, que:
* faz milagres (Mt 8,8.16; Jo 4,50-53),
* perdoa pecados (Mt 9,1-7 paralelos),
* transmite seu poder pessoal (Mt 18,18; Jo 20,23),
* perpetua sua presença (Mt 26,26-29 paralelos).
Pois bem, levando em consideração tudo aquilo que foi exposto, a pergunta que temos de afrontar é forte: Por que, com tanta frequência, a palavra do clero, dos catequistas, dos professores de religião, não é semente para nada?
Por que essa palavra torna-se tão inexpressiva,
tão pesada, tão incômoda, tão rotineira?
Não seria porque, no lugar de «profetas» da palavra, temos «funcionários» do templo? Isso tudo não indicará que nos apegamos a uma religião rotineira e cômoda, enquanto nos afastamos do Evangelho de Jesus?
Porém, se vamos até o fundo do que contém todo esse assunto, o que fica claro é que a Palavra, que disse Deus ao mundo, é o próprio Jesus e somente Jesus.
Porque a encarnação da Palavra não alude a Jesus como um enviado escatológico em quem Deus atua hoje, mas afirma a presença d0 próprio Deus na carne. Em outras palavras: a encarnação da Palavra significa a presença de Deus na pessoa de Jesus. Isto é, em Jesus, em sua VIDA, seus ATOS e suas PALAVRAS, é onde aprendemos:
* quem é Deus,
* como é Deus,
* o que temos de fazer para nos relacionarmos com Deus.

 

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Responsável por este trabalho:

Xavier Cutajar

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ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE FRANCISCANA

sexta-feira, maio 15th, 2020

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL – ANO B
Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF
Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló
Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE FRANCISCNA
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

 

31º Domingo do Tempo Comum
Dia: 31 de outubro de 2021
Primeira Leitura: Dt 6,2-6
Salmo: 18/17,2-3.4.47.50-51ab
Segunda Leitura: Hb 7,23-28
Evangelho: Mc 12,28b-34

 

O Evangelho

Na visão de Mc, o caso particular que o bom escriba representa é sublinhado em sua peculiaridade. Inserida em relatos que apresentam discussão e confronto com oponentes hostis (cf. 12, 35.38), a perícope mostra como um deles, com seu comportamento razoável, se distancia de seus colegas que rejeitam Jesus.

Antes de mais nada, as palavras da passagem sobre o culto adquirem uma dureza dentro do texto integral do Evangelho. Elas são pronunciadas na praça do templo, depois que Jesus o purificou dos vendedores e cambistas. Ao colocar a passagem no final dos diálogos, Mc enfatiza o significado positivo do amor a Deus e do amor ao próximo como a quintessência do ensino ético de Jesus. Quem ama a Deus com todas as suas forças e ao próximo como a si mesmo, está perto do reino de Deus que começa a ser realizado com a presença de Jesus. A pessoa não precisa mais de holocaustos e sacrifícios sangrentos para aproximar-se de Deus, mas deve se perguntar: quem é verdadeiramente este Jesus?

O escriba que se aproxima de Jesus é apresentado como uma testemunha nos diálogos anteriores. O que ele ouviu o impressionou e agora o leva a fazer uma pergunta a Jesus, mas não para tentá-lo como acontece em Mt 22,35. Ele não pergunta qual é o primeiro mandamento da Lei (como Mt 22,36), mas qual é o primeiro de todos os mandamentos (note-se em Lc 10,25 uma questão totalmente diferente). Ele quer saber se se pode identificar a quintessência do que constitui a vontade de Deus.

Em sua resposta, Jesus primeiro cita Dt 6,4s, a profissão de fé no único Deus com o mandamento do amor a Deus. A frase “Ouve, Israel”, enfatiza no AT o pensamento da singularidade de Yahweh no sentido que Deus é único contraste com as muitas divindades dos povos pagãos, ou no sentido de que há apenas um só Senhor em contraste com os muitos lugares diferentes de culto e das tradições de Yahweh que se diferenciavam entre si.

O amor por Yahweh foi a reação ao amor que Deus manifestou ao seu povo com a sua guia amorosa. No Deuteronômio, ele foi visto em analogia ao amor de filho. Em Oseias, em analogia ao amor conjugal. Na recitação deste texto – dito shema (escuta) -, que no tempo de Jesus todo israelita do sexo masculino tinha que pronunciar de manhã e à noite, se pensa com gratidão na eleição do povo. Uma notável mudança de acento ocorreu na citação de Dt 6,5. Enquanto o texto hebraico fala de coração, alma, força, Marcos apresenta uma série de quatro termos e, em vez de dynamis, usa dois termos derivados da área racional e psicológica. A dianoia enfatiza a força do intelecto. O termo ischys tornou-se uma palavra de natureza psíquica que designa todas as forças da alma. Amar o único Deus com todas as forças e aptidões é a síntese suprema da vontade de Deus. Jesus adiciona um segundo mandamento, o amor ao próximo. É verdade que em Mc este não está uniformado ao primeiro mandamento como em Mt 22,39 (homoia autē), mas a justaposição dos dois prepara a mesma avaliação. O amor a Deus e o amor ao próximo aparecem como uma densa explicação das duas tábuas da Lei.

O escriba concorda com Jesus com duas expressões de nítido teor grego (kalōs, ep’ alētheias). Variando e abreviando, ele repete a resposta de Jesus. Ao fazer isso ele enfatiza, em primeiro lugar, a singularidade de Deus. Em segundo lugar, identifica o amor a Deus e o amor ao próximo. Sua equivalência é expressa ainda mais fortemente. É singular a introdução de um novo termo (synesis substitui psychē e dianoia do v. 30), o que novamente sublinha o aspecto intelectual.

A postura do escriba aparece como um comentário que desenvolve a questão por meio de um acréscimo que atribui ao amor de Deus e ao próximo um valor mais alto do que todos os holocaustos e sacrifícios sangrentos. Com isso o culto no templo não vem abrogado, mas é significativamente relativizado.

Em Mc essa observação adquire relevância porque é feita por um teólogo judeu na praça do templo, ou seja, no local do sacrifício. Jesus observa a inteligência ou razoabilidade (nounechōs) da resposta e elogia muito o escriba. Se Jesus certifica que o doutor da lei não está longe do reino de Deus, significa que Jesus é caracterizado como o Mestre que possui autoridade e está autorizado a pronunciar tal julgamento. O reino de Deus aparece como uma entidade presente, do qual convém recordar que em Marcos tem um caráter cristológico (cf. 4,11).

Poder-se-ia esperar um chamado ao seguimento. Não é por acaso, no entanto, que isso esteja faltando, porque a preocupação central do diálogo é constituída pelo acordo entre a concepção de Jesus e as proposições fundamentais da fé judaica. Não há obstáculo fundamental para o judeu que o impeça de se juntar a Jesus. Note-se a ênfase no aspecto racional deste acordo. A observação passageira de que ninguém mais ousava questionar Jesus possui um caráter polêmico. Não depende de Jesus se os judeus não encontram acesso a ele e, na grande maioria, o rejeitam. Qualquer judeu poderia aceitar as pré-condições de seu ensinamento.

A insistência da Igreja primitiva sobre o mandamento do amor como pleno cumprimento da Lei (Rm 13,10; Gl 5,14; Mt 7,12) brota do ensinamento de Jesus e do seu exemplo de dedicação total, até o dom da vida pela salvação da humanidade. Ele revelou o verdadeiro amor de Deus e o tornou acessível à pessoa de fé. Essa, unida a Cristo, pode experimentar a beleza do Reino e viver antecipadamente no seu cotidiano a satisfação de uma vida fraterna/sororal, inspirada no exemplo de Jesus.

 

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

Domingo: Todos os Santos

Dia: 07 de novembro de 2021

Primeira Leitura: Ap. 7,2-4.9-14

Salmo: Sl 23, 1-4b. 5-6 (R. 6)

Segunda Leitura: 1Jo 3,1-3

Evangelho: Mt 5,1-12a

 

O Evangelho

O evangelho deste domingo encontra-se nos capítulos 5-7 do evangelho de Mateus. Eles formam “sermão da montanha. Mateus apresenta Jesus como o “novo Moisés” que dá a “nova Torah”.

As bem-aventuranças seguem sempre o mesmo esquema fixo: “bem-aventurados… porque”. Em cada um dos casos, o importante é o “porque”: os que têm fome (de justiça) são felizes, não porque têm fome (de justiça), mas “porque serão saciados”.

Os pobres em espírito…deles é o Reino dos Céus. A frase “pobres em espírito” provocou muita discussão e mal-entendidos. Com certeza não significa “gente ignorante”, também não significa “gente rica que é desapegada dos bens materiais”. Talvez seja mais bem compreendido se invertermos as palavras “bem-aventurado quem tem espírito de pobreza”, isto é, quem age com humildade. “Deles é o Reino”: porque têm disponibilidade para acolher a nova dinâmica proposta por Jesus.

Os que choram…serão consolados. Os que choram são os aflitos, sem ninguém que os defenda. Desses, o próprio Javé se faz resgatador. Por isso, eles serão consolados.

Os mansos…herdarão a terra. Ser manso não significa ser indiferente, e sim, ter autodomínio, conservar-se calmo, tranquilo e confiante na ação salvadora de Deus. A terra é a terra prometida: “herdar a terra” é ter a plena posse das promessas de Javé.

Os que têm fome e sede de justiça…serão saciados. Lembremo-nos que “fazer justiça” para Deus é dar ao ser humano o que ele necessita para viver e ter sentido na sua vida. “Ter fome e sede” dessa justiça não significa ficar só no desejo, mas não se contentar enquanto ela não se realiza, isto é, empenhar-se de modo concreto para que ela aconteça. A perseverança nesse compromisso efetivo será recompensada, isto é, essa fome-sede será saciada.

Os misericordiosos…serão tratados com misericórdia. “Misericórdia” não é só a sensibilidade no coração que nos leva a ter dó do sofrimento de alguém. Em hebraico, o termo correspondente é rahamîm, que vem de rehem, “ventre, útero”; daí que rahamîm é o sentimento que liga a mãe ao filho, é o sentimento de matriz, capaz de gerar ou ‘regerar’ alguém para uma vida nova, por meio do perdão e da solidariedade.

Os que fazem a paz…serão chamados filhos de Deus. A melhor tradução é: “aqueles que fazem a paz”. Acontece que a paz está ligada à justiça; com efeito, esta é uma das promessas messiânicas: “justiça e paz se abraçarão”. Portanto, “fazer a paz” significa não só promover a harmonia e a união entre quem se desentendeu, mas também, e principalmente, dar condições para quem está sofrendo a recomeçar a vida. Eles serão chamados “filhos de Deus”, porque é assim que Deus age: o Pai será reconhecido pela ação de seus filhos.

Os perseguidos por causa da justiça…deles é o Reino dos Céus. A “justiça” de Deus é sinal de seu Reino. Quem faz opção por esse Reino deve saber que há também quem não está interessado que ele venha. Ser “perseguido por causa da justiça” significa enfrentar a oposição de quem é contra o Reino de Deus. Quando o Reino chegar, quem optou por ele e por ele lutou, este entrará na posse de todos os dons que o Reino traz; quem trabalhou contra será excluído.

Em resumo, as bem-aventuranças descrevem vários aspectos do compromisso com a concretização do Reino de Deus. O importante, porém, é que as bem-aventuranças não são uma lei a ser cumprida na marra, e sim uma proposta, um objetivo que se deve buscar a cada dia, diante de cada nova situação.

Desde já os cristãos são santos, isto é, destinados à vitória contra as forças contrárias ao Reino. Quando Deus visitar o mundo e trouxer a salvação, será manifestada a verdadeira identidade de seus fiéis-filhos, que serão semelhantes a Deus e receberão todos os dons prometidos: a posse do Reino, a consolação, a saciedade de paz e justiça, a vida nova, a intimidade com Deus; em uma palavra, a vida eterna.

Um pouco sobre o Apocalipse de João

A mensagem do livro do Apocalipse pode ser resumida numa frase só: “Não tenham medo!”. Ou seja: não tenham medo porque esse governo que aí está um dia vai cair, nossos perseguidores serão derrotados e nós seremos vitoriosos. Para que isso aconteça, é necessário que estejamos firmes na nossa fé. Por isso, não tenham medo!

A mensagem dos livros apocalípticos é sempre atual e se aplica a qualquer forma de ditadura, de repressão, de perseguição contra a comunidade dos fiéis.

No Apocalipse de João, a comunidade é perseguida pelo Império Romano, que aparece “fantasiado” como um dragão.

A passagem desta celebração

A primeira leitura desta celebração é um bom exemplo da mensagem geral dos livros apocalípticos: “Não tenham medo! Nossos perseguidores vão cair, e nós seremos vitoriosos!”

Vejamos somente alguns detalhes, muito brevemente.

Vv. 2-3: O anjo é a personificação da vingança de Deus: ele (Deus) não abandonará seus fiéis. A destruição será terrível, mas os fiéis perseguidos serão assinalados nas frontes e restarão ilesos. É a realização do “não tenham medo”.

V. 4: 144.000 equivale a 12.000 de cada uma das 12 tribos de Israel. Não é um número exato, mas simbólico: uma enorme multidão, como um exército invencível.

V. 9: Uma multidão incalculável: são os não-israelitas. Devemos notar que o destino de ambos os grupos (os 144.000 e a multidão incalculável) é o mesmo: a libertação. Essa multidão traja “vestes brancas”, que são o símbolo do batismo e, portanto, da pertença à comunidade. Os que vestem branco são os que não se abateram nem abandonaram a fé por causa da perseguição.

V. 10: A salvação pertence ao nosso Deus e ao Cordeiro: são eles que realizam a salvação e a concedem a quem se mantém fiel.

V. 12: Sete coisas que devem ser concedidas a Deus (e só a ele): louvor, glória, sabedoria, ações de graças, honra, poder, força. Era tudo aquilo que o imperador romano exigia que os povos dominados dessem a ele. Esse versículo afirma: só Deus merece esses atributos; nada disso deve ser creditado ao Império Romano e a nenhum ditador de hoje. Por isso, Deus e seus fiéis sairão vitoriosos na batalha.

V. 13: Lavar as vestes no sangue do Cordeiro: tomar parte no seu martírio, derramar sangue por causa da fidelidade a ele. A veste branca não é a roupa de pano, mas o comportamento dos fiéis, que perseveram até as últimas consequências. Essa firmeza lava todos os defeitos do verdadeiro discípulo de Cristo.

 

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL

ANO B

 

Dia: 14 de novembro de 2021

33º Domingo do Tempo Comum

Evangelho: Mc 13, 24-32

Primeira Leitura: Dn 12, 1-3

Segunda Leitura: Hb 10, 11-14.18

Salmo:  15, 5.8.9-10.11

 

Evangelho: O “terror” escatológico e seu contexto

Sempre é bom lembrar que o Evangelho segundo a Comunidade de Marcos foi o primeiro a ser sistematizado, portanto, ali se “inauguram” algumas formas da narrativa evangélica, entre elas, o discurso escatológico. Mas, por que falar do fim dos tempos de forma tão aterradora? Alguns estudos chamam Mc 13 de “pequeno apocalipse”. Esta denominação tem seu sentido, não tanto na forma, mas no contexto. Assim como o Livro de Apocalipse, o Evangelho segundo a Comunidade de Marcos, reflete a primeira grande perseguição contra as pessoas cristãs e as trágicas e irreparáveis mortes dos apóstolos Paulo e Pedro. A memória desta comunidade carregava o horror de ver Roma pegando fogo, pessoas morrendo, e depois o horror de ser culpadas e perseguidas pela tragédia, levando a muitas pessoas queridas ao martírio. Mas, ainda podemos perguntar, por que a volta de Cristo, em princípio um evento glorioso e libertador, devia ser descrito assim? Porque descobriram que, assim como Jesus Cristo passou pela Cruz antes da Ressurreição e Ascenção, as comunidades cristãs seriam desafiadas a resistir a muitas formas de morte e de violência. Quem não aceitasse este caminho difícil não poderia aceder ao horizonte da vida, este sim glorioso e pleno.

O conjunto deste discurso inicia antes, desde o começo do capítulo 13, abrindo com o anúncio da destruição do Templo de Jerusalém (evento que esta comunidade não tinha testemunhado). Em 13,3-13 descreve como o próprio nome de Jesus será usado para enganar e até pessoas da sua família lhes entregarão à morte (nada que não estivesse na memória recente desta comunidade). Em 13,14-23, lembrando de Daniel na resistência contra a opressão grega de Antíoco 4º, quando a estátua de Zeus foi colocada no Templo (abominável desolação), resgata a tortura e perseguição sofrida por quem se negava a adorar o “deus César”, e de novo lembra que há pessoas usando o nome de Cristo para enganar (Mc 13,21; cf. 13,6). Trata-se de uma comunidade “cercada” entre a violência do império que busca eliminá-la e a mentira e engano de quem busca se aproveitar desta situação.

Tribulação e Glória (13,24-27): A narrativa começa dizendo “naqueles dias” (ekeinais tais emerais) que é a mesma expressão que está no centro da perícope anterior em 13,17b. Cita de novo o trecho anterior quando se refere à tribulação (tlipsis) mencionada em 13,19 (“haverá uma tribulação como nunca houve antes desde o começo da criação”). Portanto, Mc 13,24 adverte: “para compreender o que vamos falar agora leia primeiro as passagens anteriores e lembre-se do que está acontecendo no mundo”. A Glória, a reunião de todas as pessoas que lutaram pela vida e vitória final das forças divinas (anjos) acontecerá só depois da resistência. Qualquer outra previsão é enganadora.

Preparar-se observando/vigiando os sinais e não se deixar enganar (13,28-37): Assim como a natureza vive ciclos que podem ser observáveis como o da figueira com o verão, a comunidade – “esta geração” (13.30b) – é convidada a observar as relações de poder -  relações de vida e morte – ao seu redor como sinais de uma grande transformação e ser portadora desta “Boa Nova” para a terra e o céu (cf. 13,31). Duas qualificações são necessárias para atravessar o tempo da tribulação e alcançar a vitória final:

a. Não se deixar enganar por falsas previsões, porque ninguém sabe o dia, o importante é resistir e caminhar rumo à vitória final (13,31-32)

b. Ser vigilantes em relação à realidade para poder participar de forma ativa e efetiva quando chegar o momento (13,33-37).

Relacionando com os outros textos

A leitura de Daniel nos apresenta a fonte destes textos em Marcos, quando a luta contra a opressão de Antíoco 4º exigiu do povo em luta a visão de fé que lhe permitisse resistir e finalmente vencer o opressor.  A vitória de Miguel Arcanjo é a vitória do povo inscrito no livro, porém, a vida, ressurreição será para quem abraçou a causa da justiça (Dn 12,1-3).

Já a Epístola aos Hebreus reafirma o sacrifício vicário de Cristo (que se colocou no lugar do povo) e só assim pode vencer ao lado de Deus. Sacrifício que destrói o poder do pecado – morte, destruição, violência – e prepara/capacita para derrota de todos os inimigos da vida.

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF

Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló

Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

34 Domingo do Tempo Comum: Cristo Rei

Dia: 21 de 11 de 2021

Primeira Leitura: Dn 7,13-14

Salmo: 92,1ab.1c-2.5

Segunda Leitura: Ap 1,5-8

Evangelho: Jo 18,33b-37

 

O Evangelho

O que entender por Jesus, rei? A arte sacra representou Jesus como os reis deste mundo, formando uma mentalidade triunfalista. Mas é bem isto que o texto de hoje reprova. Jesus recusou as perspectivas messiânica dos seguidores (Jo 6,15; Mc 8,31; 10,35-45). Somente diante da morte iminente ele assume ser rei (Jo 18,37; Mc 14,62). Mas um outro tipo de rei, bem diferente dos reis deste mundo.

O evangelho de João fala pouco do Reino de Deus (Jo 3,3.5). Nisto ele diverge dos evangelhos sinóticos. Porém, fala do reino de Israel/judeus (Jo 1,49. 6,15; 12,13; 18,33.36-37.39; 19,3.12.14.15.19.21). O conceito de rei de Israel/judeus é um conceito diferente do Reino de Deus. O primeiro tem conotação política, o segundo tem conotação teológica. No texto de hoje, Pilatos pensa no sentido de rei de Israel/judeu e Jesus, em sua resposta, sai desta área para o conceito de Reino de Deus; ou ainda, o diálogo de Jo 18,33-37 culmina e reinterpreta toda questão da realeza que se começa a insinuar a partir de Jo 1,49; 6,15; 12,13. A realeza de Jesus só se pode entender à luz da cruz.

Pilatos, em suas indagações, orientado pelos chefes religiosos, pensa num rei político (Jo 6,15; 12,13) que poderia significar uma ameaça ao império Romano. Jesus, porém, não se enquadra neste esquema. Seu reino não é hereditário de Davi (João não menciona a suposta descendência davídica de Jesus, como Mt 1,1-17; Lc 3,23-38). Mas vem do alto (Jo 3,13; 8,23). Logo, sua realeza não é imposta pela força, mas requer adesão livre. Não tem soldados, mas seguidores.

Quando Jesus alega que seu reino não é deste mundo (desta ordem), ele não está falando de um reino fora da história. Mas mostra que há dois critérios: as autoridades judaicas, assim como as romanas, são daqui de baixo; Jesus e seu reino vêm do alto (Jo 8,23s). Os valores daqui de baixo (deste mundo) são a força, as armas, a violência, a injustiça. Os valores do alto são o servir, a doação da vida em prol do ser humano, sem apelo à força e às armas (Jo 18,11). Jesus não terá trono, tropas, armas (v.36), mas é o reino que testemunha a verdade (v.37).

Aqui convém indagar, como Pilatos: “o que é a verdade?” Os reis desta terra dominam, exercem poder (Mc 10,42ss). Esta é a grande mentira. A verdade da qual a realeza de Jesus dá testemunho, é o oposto: o servir como os últimos (Mc 10,43-45). Ele é a realização do projeto de Deus na história. Ele é a resposta à aspiração central do ser humano, o desejo de realização plena. Desta forma, Jesus é a plena verdade de Deus e a plena verdade do ser humano, o que os reinos deste mundo negam pela sua ambição, força e domínio.

Assim seria um erro entender o reino de Jesus como algo fora da história, mas antes, este reino diferente dos reinos deste mundo, é a verdadeira orientação da história para que todos tenham vida plenamente (Jo 10,10). Por isto mesmo, os discípulos de Jesus estão no mundo, mas não na lógica do mundo (Jo 17,14-16), pois não o devem reproduzir: “Entre vós não seja assim” (Mc 10,43). O Reino de Jesus não é fuga do mundo, mas a quebra da lógica dos poderes mundanos, é a superação das forças malignas. Dir-se-ia, então, que a verdade que, nem Pilatos e nem os interlocutores judeus puderam entender, é a nova lógica do amor e da doação da vida para a fraternidade universal. Quem é da verdade, isto é, da fraternidade, adere a Jesus, ou vice-versa. Tanto Pilatos, como as autoridades religiosas viviam na mentira e por isto rejeitaram Jesus e seu reino.

Reino de Deus, ou de Jesus é a realização na história daquilo que Deus desde a eternidade projetou para a vida do mundo. Por isto mesmo, celebrar Jesus, Rei do Universo é, mais do que pensar na eternidade, pensar na vida já aqui neste mundo.

Relação com as outras leituras

Como no evangelho, também em Dn 7 (1ª leitura) se contrapõem dois reinos. Os reinos deste mundo com suas violências (7,2-8) e um outro reino que vem do alto, isto é, de Deus. Ele derrota os reinos do mundo. Na segunda leitura se acena para a realização final do reinado de Cristo que é o príncipe dos reis da terra. Ou seja, a realeza de Cristo começa na história e culmina na eternidade.

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF

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Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO C

 

1º Dom. do Advento

Dia: 28 de novembro de 2021

Primeira Leitura: Jr 33,14-16

Salmo: 24, 4bc-5ab.8-9.10.14

Segunda Leitura: 1Ts 3,12-4,2

Evangelho: Lc 21,25-28.34-36

 

O 1º. dom. do advento, ano C, inicia com a proclamação do evangelho segundo Lucas. Nos domingos seguintes, teremos evidenciadas através das perícope bíblicas as dimensões próprias do advento: espera ativa, oração, mudança de atitudes.

Enquanto Mc (13,24-27) conecta a destruição de Jerusalém ao fim do mundo, Lc distancia os dois eventos, distinguindo nitidamente os sinais apocalípticos que precederão o aparecimento do Filho da Humanidade como juiz dos fatos históricos concernentes à catástrofe da Cidade Santa. Ao tempo de Israel, dará prosseguimento o tempo dos pagãos, kairoi ethnōn (v.24) e, finalmente, o julgamento universal acontecerá, após uma série assustadora de convulsões cósmicas que assumirão um valor positivo para os crentes, como um prelúdio para sua próxima libertação (v.28). Na passagem anterior (vv. 20-24) Lc referia-se apenas ao fato histórico da queda de Jerusalém. Agora amplia o horizonte para todas as nações e todas as pessoas na terra habitada (oikoumenē).

Apesar das notáveis diferenças redacionais, a mensagem teológica de Lc corresponde àquela de Mc e é constituída pela vinda do Filho da Humanidade para a salvação definitiva dos fiéis. No entanto, Lc enfatiza em sentido otimista o contraste entre a angústia e o medo dos adversários pelas revoltas assustadoras que pré-anunciarão o fim, e a atitude de segurança e alegria dos que vivem a fé, porque para eles esses sinais terríveis irão apontar para a proximidade de sua libertação e salvação.

Os vv. 25-26 descrevem os fenômenos cósmicos que precederão o fim com estruturas simétricas perfeitas que manifestam sua capacidade literária, mesmo que se refira a clichês apocalípticos correntes no ambiente semita. Sinais no sol, na lua e nas estrelas: convém recordar que os oponentes de Jesus pediram um “sinal do céu” (11,16) e que os discípulos perguntaram qual era o “sinal” de que essas coisas estavam prestes a acontecer. A repetição, aqui, de sēmeion marca a passagem à parte estritamente escatológica do discurso de Jesus.

Nos vv. 27-28, a vinda final do Filho da Humanidade, em plena posse de seus atributos divinos de poder e muita glória, marcará o triunfo daqueles que seguem Jesus: “Começando, porém, estas coisas a acontecer, olhai para cima e erguei as vossas cabeças”. Os cristãos não deverão se assustar com as convulsões cósmicas finais, mas, depois de tanto sofrimento, perseguição e pressão que os esmagou, finalmente poderão levantar-se e erguer a cabeça com confiança, sendo esse gesto o sinal da realização de sua esperança. Pode-se relacionar, aqui, o texto de Jr 33,15: “farei brotar… um broto justo, que exercerá o direito e a justiça no país”. Embora no v. 27 esteja implícito o julgamento de condenação para os inimigos, Lc, no entanto, coloca em destaque o sentido salvífico da vinda do Filho da Humanidade, dando à perícope um valor parenético de esperança confiante. O evangelista omite qualquer referência à atividade judicial do Filho da Humanidade na sua parusia (cf. Mc 13,27), para focar a atenção apenas na libertação (apolýtrōsis, redenção v. 28) daqueles que creem. Para eles, o fim do mundo não constitui motivo de angústia e medo, mas de alegria por sua redenção e pelo fim de tribulações e perseguições, como aconteceu aos hebreus a noite de Páscoa na libertação de escravidão do Egito. O termo apolýtrōsis é cognato a lýtrōsis, que é o resgate de escravidão.

Nos vv. 24-36, Lc se afasta do modelo marcano. A convicção de que o fim do mundo não está próximo o leva a acentuar a exortação à vigilância e à oração, “para ficar de pé diante do Filho da Humanidade” (v.36). O texto consiste em uma advertência para evitar relaxamento (v.34); segue-se a motivação que reafirma a certeza do fim repentino (v.35); uma exortação urgente à vigilância e oração em todos os momentos conclui todo o discurso escatológico (v.36). A oração, um tema particularmente caro a Lc, deve ser a atitude fundamental do cristão esperando o retorno do Senhor.

A frase contida no v. 34 – “Não aconteça que o vosso coração se encha”, fique embotado (barēthōsin hymōn hai kardiai) – corresponde à expressão usada para descrever o endurecimento do coração do faraó (Ex 7,14). Observe-se, entretanto, que a exortação de Jesus vincula essa frase à devassidão e à embriaguez (en kraipalē kai methē), sugerindo que o que está em vista aqui é a falta de vigilância, e não a dureza de coração. A exortação inclui uma advertência contra a embriaguez propriamente dita, mas o sentido primordial é metafórico, advertindo os discípulos e discípulas a que não sucumbam às atrações inebriantes do pecado. Note-se a relação com a 2ª. leitura: “a fim de que o vosso coração permaneça firme” (eis to stērixai hymōn tas kardias).

O segmento “como uma armadilha” (hōs pagis) finaliza a oração precedente – “[Cuidai de vós mesmos; não aconteça que] aquele dia vos surpreenda como uma armadilha” – e liga-se ao começo da oração seguinte – “[aquele dia] surpreenderá como uma armadilha sobre todos os que habitam na face da terra”. Lc formula a profecia de Jesus sobre o juízo universal, advertindo os discípulos e discípulas de que só escaparão do juízo do dia do Senhor, que recairá sobre todos os habitantes da terra, se “cuidarem” de si mesmos.

O v. 36 traz “Velai em cada estação”, que devido à polissemia de kairós, pode ser entendido como “velai em cada oportunidade, cada tempo”.

Este final do discurso escatológico em Lc difere consideravelmente daquele dos outros sinóticos. Mc insiste na vigilância para não ser encontrado dormindo quando o proprietário chega de repente; Mt conclui o discurso com a impressionante cenografia do Juízo Final, separando o bom do mau (25,31-46). Lc não menciona explicitamente o julgamento, mas exorta à oração vigilante para comparecer diante do Filho da Humanidade. O discurso escatológico assume, assim, uma característica parenética tranquilizadora, que situa a esperança cristã na salvação, e não na ameaça da condenação inapelável dos pecadores no dia do julgamento final.

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF

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30º Domingo do Tempo Comum
Dia: 24 de Outubro de 2021
Primeira Leitura: Jr 31,7-9
Salmo: 126/125, 1-2ab.2cd-3.4-5.6
Segunda Leitura: Hb 5,1-6
Evangelho: Mc 10,46-52

 

Evangelho

Marcos tem dois relatos de cura de cego: Betsaida (8,22-26) e Jericó (10,46-52). Estes relatos estão dispostos de tal maneira, que por si só, já transmitem uma cristologia própria. Quanto ao relato do cego de Betsaida (8,22-26), é importante situá-lo como conclusão da unidade anterior (6,6b-8,26) e início da subida para Jerusalém, onde Jesus enfrentará a prisão e a cruz. Esta caminhada exige abrir os olhos. Assim, Marcos dispôs seus dois relatos de cura de cegos para emoldurar a cegueira dos discípulos que não compreendem o messianismo de Jesus.

A cegueira é um dos motivos fortes na cristologia de Marcos. Em Mc 3,6 os fariseus e herodianos, em sua cegueira, pensam eliminar Jesus. Esta cegueira também se faz sentir em seus conterrâneos que, estupefatos, se mostram atônitos diante de seu antigo colega (Mc 6,1-6). A mesma cegueira também se verifica nos discípulos que ainda não abriram os olhos (Mc 8,14-21) e recebem esta repreensão: “Vós tendes olhos: não vedes? Tendes ouvidos: não ouvis? (Mc 8,18).

Agora que o caminho ruma para Jerusalém, onde se dá o desfecho, é preciso abrir os olhos dos seguidores para a dura realidade. Marcos coloca os dois relatos de cura de cego como moldura para ilustrar a cegueira daqueles que terão de aprender da cruz o verdadeiro messianismo de Jesus.

A primeira moldura é o cego de Betsaida (Mc 8,22-26). Tudo o que vem a seguir tem a ver com cegueira e iluminação. Jesus pergunta: quem dizem que eu sou (Mc 8,27-30). Pedro professa: “Tu és o Cristo”. Doutrina correta, mas compreensão errada (cegueira). Jesus vai corrigir esta cegueira por três vezes anunciando sua paixão (Mc 8,31; 9,30s; 10,32ss). Três vezes os discípulos se mostram cegos. A primeira vez Pedro quer impedir a cruz (Mc 8,32). A segunda vez são os discípulos que discutem quem será o maior (Mc 9,33s). A terceira manifestação de cegueira se dá no pedido dos filhos de Zebedeu que ambicionam os primeiros lugares (Mc 10,35ss). Três vezes Jesus terá de corrigir a cegueira de seus seguidores. A primeira iluminação se dá contra a cegueira de Pedro (Mc 8,32ss). A segunda iluminação se aplica à ambição dos discípulos (Mc 9,35ss) e a terceira iluminação se faz sobre o pedido de Tiago e João (Mc 10,42-45).

Pedro, os discípulos, bem como os Zebedeus, olhando para Jesus, imaginavam algo muito diferente daquilo que ele realizaria. Como poderiam eles aceitar o aparente fracasso na cruz? Marcos, com habilidade, corrige esta cristologia triunfalista, mostrando que ambicionar um messianismo nacionalista é uma cegueira. Por isto mesmo, coloca uma segunda e última moldura: o relato do cego de Jericó (Mc 10,46-52). Este cego, ao chamar Jesus de “Filho de Davi” demonstra cegueira, pois neste conceito estava embutido um messianismo nacionalista não compatível com o Reino. Porém, sua fé e o tirou de sua compreensão errada e o tornou apto a seguir Jesus no caminho, que a partir de Mc 11 chega a Jerusalém onde se dá o desfecho da paixão, morte e ressurreição. Este cego é o protótipo dos discípulos que, ao aderir a Cristo tinham uma perspectiva nacionalista, mas aos poucos foram corrigindo esta cegueira. Fenômeno comum nos tempos de Marcos.

Aproximando-se, com fé, da pessoa de Jesus, os homens e mulheres de todos os tempos precisam aprender o verdadeiro sentido do messianismo de Jesus que vai além de ambições nacionalistas, pessoais, milagreiras, para abraçar com ele o projeto da cruz que compromete os discípulos a instaurar o Reino no mundo.

Relação com as demais leituras

A liturgia propõe um caminho de iluminação. Os israelitas, retornando do cativeiro (1ª leitura) serão iluminados, rumo à liberdade: cegos, aleijados, parturientes, todos terão seu lugar. Os cristãos verão Jesus como Sumo Sacerdote superior ao antigo (2ª leitura). Ele é quem faz a caminhada com o povo.

 

29º Domingo do Tempo Comum
Dia: 17 de Outubro de 2021
Evangelho: Mc 10, 35-45
Primeira Leitura: Is 53, 10-11
Segunda Leitura: Hb 4, 14-16
Salmo: 33/32, 4-5.18-19.20.21

 

O Evangelho e seu contexto literário

Este episódio também aparece em Mt 20,20-21, onde a “mulher de Zebedeu”, isto é, a mãe de Tiago e João – que não são mencionados nominalmente como aqui – pede que eles, no Reino, se assentem a sua direita e esquerda. Já a comunidade de Marcos não “culpa” a mãe ou “mulher” por esta pretensão, mas responsabiliza os dois discípulos, que tem destaque, assim como Pedro, entre o grupo dos doze (1,29;5,37;9,2). Assim se busca prevenir que outras pessoas usem o nome ou seguimento de Cristo como instrumento de prevalecimento sobre outras pessoas, o que potencialmente pode transformar o Evangelho em instrumento de opressão e morte.

O texto em si

Este Evangelho tem um estilo simples com repetição rítmica de conjunções e artigos, estrutura a narrativa. Neste caso, a partícula estruturante é “ho”, em grego um artigo definido que pode ser traduzido ao português como “o” ou “a”, mas também como pronome demonstrativo “este” ou “aquele”. Vejamos o texto, colocando em negrito a partícula estruturante de forma resumida:

A. Introdução.

v.35 – “E (kai) proximaram-se os filhos de Zebedeu, Tiago e João, Mestre queremos que nos atendas/concedas”.

B. Ensinamento do mestre.

v.36 – “Este/aquele – Jesus – então disse a eles…”; v.38 – “Este/aquele Jesus, então disse a eles”; v.39 – “Este/aquele Jesus, então disse a eles”.

C. O critério sapiencial do ensinamento de Jesus.

v.40 – “Quando a se assentar a minha direita ou minha esquerda não cabe a mim conceder, porque é para quem está preparado.

B’. Resposta ao ensinamento do mestre

v.41 – “E (kai) ouvindo os dez ficaram indignados com Tiago e João”.

v.42 – “Este Jesus, então, chamando-os, lhes falou…”

A’. Jesus, servo.

v.45 – “E (kai) pois o Filho do Ser Humano não veio para ser servido, mas para servir”

A aproximação: Como vemos na estrutura acima, os versículos 35 e 45, partes A e A’, Jesus é apresentado de duas formas diferentes. Primeiro é chamado de “Mestre” e depois se auto-apresenta como “Filho do Ser Humano” e aquele que veio para servir. Assim, dentro da estrutura quiástica, este é o caminho de reaproximação de Jesus: não como detentor do poder hierárquico, mas como promotor do serviço como relação alternativa ao poder excludente do prevalecimento de quem domina sobre as pessoas dominadas.

O caminho sacramental do seguimento:  Já as partes sinalizadas com B e B’ trazem o caminho percorrido por Jesus e por quem lhe segue diante do poder da morte. A isto se refere Jesus quando afirma que não sabem do “cálice”, isto é a perseguição, a tortura, o martírio, que será o preço ser pago por se apresentar como alternativa ao poder da morte. O “batismo” relacionado ao “cálice” (os dois sacramentos principais da Igreja Cristã) deixa claro que este caminho de doação e entrega da vida na luta contra o poder da morte, será o caminho de todas as pessoas que seguirão Jesus como servo.

O critério sapiencial: No v. 40 aparece um critério sapiencial que resgata a primazia do projeto divino sobre as “vontades” de poder humanas. Não só para indicar porque as disputas pelo poder hierárquico são inúteis e estranhas ao projeto do reinado divino, mas para dar segurança de que há um plano divino, através do serviço, capaz de vencer todos os poderes de morte. O projeto não está na relação estreita de Jesus com as pessoas mais próximas – “não cabe a mim conceder” – mas com toda a humanidade: o “Filho do Ser Humano” que serve e dá sua vida “em resgate de muitos” (v.45).

Relacionando com os outros textos

A leitura de Isaías ou “Deutero-Isaías”, escrito no final do Exílio Babilônico, traz o final de um dos Cânticos do Servo Sofredor. Nestes textos se fala de alguém que sofre a serviço de todo o povo, resistindo à opressão babilônica e animando o povo seguir o caminho do serviço na reconstrução do povo cativo.

Já a Carta aos Hebreus apresenta um “sumo sacerdote” que se compadece das fraquezas, porque ele mesmo passa por elas, apontando assim para Jesus, servo e solidário.

 

28º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia: 10 de outubro de 2021
Primeira Leitura: Sb 7,7-11
Salmo: 90/89, 12-13.14-15.16-17
Segunda Leitura: Hb 4,12-13
Evangelho: Mc 10,17-30

 

O Evangelho

A seção consiste em três partes: a história do encontro com o homem rico (vv. 17-22) a admoestação aos discípulos (vv. 23-27) e o episódio que introduz o tema da recompensa do/a discípulo/a (vv. 28-30).

Pode ser surpreendente que apenas na última frase este homem seja apresentado como rico. Sem a riqueza e sem o problema da propriedade terrestre em segundo plano, a narrativa permaneceria apagada. Os mandamentos citados derivam da segunda tábua, portanto, eles se referem à relação com o próximo. O pedido de renúncia à propriedade terrena é sentido precisamente neste contexto. O fato de que tal pedido chegue surpreendentemente se enquadra nos efeitos do conjunto do texto. O v. 21 contém um convite para o seguimento e aproxima a perícope dos relatos de vocação.

O texto do treinamento dos discípulos (vv. 23-27) não é uma unidade. O desânimo dos discípulos é repetido (v. 24a e v. 26), assim também para o loghion ameaçador de Jesus sobre entrar no reino de Deus (v. 23 e v. 24b). No entanto, v. 24b estende a todos as dificuldades existentes para os ricos. O desânimo dos discípulos no v. 26 foi acentuado em comparação com v. 24. Isso se tornou necessário para a dramaticidade da cena. O interesse no grupo de discípulos na graça onipotente de Deus (cf. 9,23) é próprio de Mc.

Nos vv. 23 e 25 o caso do rico é referido a todos, pois todos são advertidos dos riscos da propriedade. Do ponto de vista narrativo, a perícope do homem rico é um tanto estranha. É caracterizada por uma descrição minuciosa atraente (derivada do uso de particípios). Há aqui seis palavras que Mc não usa em outro lugar: klēronomeō, apostereō, thēsauros, deuro, stygnazō, ktēma. Elas se sucedem uma à outra com vivacidade de perguntas e respostas. O texto mostra duas reações do homem: uma provisória, que o faz aparecer sob melhor luz; outra definitiva, que o torna um exemplo negativo.

Nos vv. 20-21 vem relatado que o homem já sabia o que escuta agora de Jesus. Ele pode ficar satisfeito em ter observado os mandamentos indicados (diferentemente em Mt 19,20). O olhar e o gesto amoroso de Jesus preparam o que se segue. Não um reconhecimento do que o homem “fez”, mas um convite. Vender tudo o que possui para dar aos pobres expressa demanda radicalmente nova e surpreendente. Está vinculada ao convite ao seguimento. Um e outro vão consideravelmente além da observância dos mandamentos a qual foi limitada às primeiras informações (v.19). Para este homem (e para nós ouvintes da Palavra) significam abertura à vontade de Deus. O desapego da propriedade terrena cria um tesouro no céu.

Esta imagem tipicamente judaica parte da ideia de que a esmola e as boas obras terão uma recompensa correspondente no mundo celestial. Mas o que possui primariamente importância soteriológica é o seguimento de Jesus, ao qual a renúncia à propriedade é subordinada ou preordenada.

O fato de que os discípulos são chamados de “filhos” (encontrado só em Mc) significa que a afirmação é dirigida principalmente a eles. O evangelista prepara o significado da cena seguinte com Pedro colocando a necessidade de recorrer a Deus mesmo para aqueles que não são ricos. A proverbial frase do camelo e do buraco da agulha expressa a impossibilidade que existe para os ricos de entrar no reino de Deus.

Os discípulos reagem novamente com desânimo e perguntam com razão quem verdadeiramente pode ser salvo. A pergunta tem objetivo idêntico à do homem rico no v. 17. Mas agora ela pressupõe o conhecimento da rejeição. Visto que o desânimo dos discípulos se refere tanto à sentença geral do v. 24b como à dura sentença do buraco da agulha no v. 25, o rico se torna o exemplo que pode ser aplicado a casos semelhantes.

Existem outros obstáculos, além das riquezas, que tornam impossível a entrada no reino de Deus. Certos poderes terrenos se opõem energicamente a alcançar esse objetivo. Cabe ao ser humano tornar verdadeiramente pequeno o que é pequeno aos olhos de Deus; mas, em última análise, é Deus que torna isso possível. Com esta resposta, que evoca formulações do Antigo Testamento e talvez de modo particular a Jó (Jó 42,2; cf. Gn 18,14; Zc 18,6), Jesus tira os discípulos/as da angústia pelo futuro de onde nasceu a pergunta. Assim, a preocupação do ser humano com a salvação resulta em uma referência total à graça de Deus. Ela será acessível a quem segue Jesus.

Mc usa os versos finais como uma continuação do ensino direto aos discípulos. Nos vv. 23-27, eles são instruídos sobre as condições de entrada no Reino. No final é mencionada a situação de seus seguidores. Eles já entraram no seguimento e devem estar cientes de que as renúncias feitas não são para mérito pessoal, mas para a criação de uma nova comunhão, uma comunidade como fraternidade/sororidade (cf. 3,33-35). Mais tarde, eles podem encontrar perseguições a que serão expostos.

Relacionando com as outras leituras

A leitura do livro da Sabedoria relaciona-se perfeitamente com o Evangelho ao mostrar que a pessoa sábia não apenas despreza os bens da terra. O protagonista escolhe e prefere a Sabedoria, fonte de todas as riquezas. Sabe que os bens terrenos têm valor relativo e por isso os compara com a Sabedoria. O elenco dos verbos é eloquente por si mesmo: desejei, supliquei, a preferi, não a equiparei, a quis. Os bens que a Sabedoria traz consigo são do mais elevado valor. Não exclui os bens temporais, mas os inclui, relativizando-os, comunicando-lhes nova luz.

 

 

27º Domingo do Tempo comum

03 de outubro de 2021
Primeira Leitura:Gn 2,18-24
Salmo: 128/127,1-2.3.4-5.6
Segunda Leitura: Hb 2,9-11
Evangelho: Mc 10,2-16

 

O texto pertence ao bloco de Marcos centrado na formação dos discípulos. O tema central é o divórcio. São três cenas:

  1. a pergunta dos fariseus e a resposta de Jesus (vv. 2-9);
  2. a pergunta dos discípulos e a resposta de Jesus (vv. 10-12);
  3. a bênção das crianças (vv. 13-16).

As duas primeiras cenas têm como pano de fundo a lei do divórcio, formulada em Dt 24,1-3:

“Se alguém se casa com uma mulher e não gosta dela, porque descobre nela algo vergonhoso, escreve-lhe a certidão de divórcio, dá-lhe e deixando-a sair de sua casa…”

Esta lei é formulada do ponto de vista masculino e a mulher é só um objeto. A dificuldade para interpretar e aplicar esta lei é que não está claro em que consiste o “algo vergonhoso”: é um problema moral ou um defeito físico? Na literatura rabínica, a discussão é recheada com exemplos do que pode ser considerado “vergonhoso” e motivo para o homem de se divorciar.

  • Na esfera pública: a mulher sai de sua casa com os cabelos soltos; bebe ou come algo na rua; se alimentou de algo cujo dízimo não foi pago; amamenta o filho na rua; cochicha com outras mulheres.
  • No âmbito familiar: queima a comida; fala alto com o marido; não gerou filhos após dez anos de casada; tem mau hálito ou cheiro forte de suor…
  • Várias outras circunstâncias justificam o divórcio que, com raras exceções, é sempre uma iniciativa do homem. Como já dissemos, o divórcio é um ponto polêmico na literatura rabínica, com opiniões que vão desde a mais rígidas até as mais brandas.

Esse conhecimento dos costumes da época é fundamental para entender o trecho do Evangelho de hoje. Na primeira cena (vv. 2-9), Jesus debate com os fariseus acerca do assunto. Os fariseus se aproximam e perguntam: É permitido ao marido repudiar a mulher? O evangelista diz que o interesse dos fariseus é colocar Jesus à prova. Eles não estão interessados em discutir o assunto, e sim colocar Jesus em um dilema: ele deve escolher entre a dignidade da mulher e a fidelidade à Lei de Moisés. No entendimento deles, para se manter fiel à Lei, Jesus deve declarar a superioridade e o domínio do homem sobre a mulher.

Jesus responde interpretando a própria Lei: Moisés escreveu esse mandamento por causa da vossa dureza de coração (v. 5). A palavra sklērokardía indica o coração dessensibilizado às instruções divinas como consequência da contínua desobediência. A mesma crítica já havia sido feita por Ezequiel: “Dei-lhes então estatutos que não eram bons e normas pelas quais não alcançariam a vida” (Ez 20,25). Devemos recordar que, no mundo antigo, o coração não era a sede dos sentimentos, mas da inteligência, do entendimento. Então, “ter o coração duro” equivale a “ser incapaz de compreender e de aprender”. O coração duro é insensível e resiste a aceitar e entender o projeto de Deus. O coração duro é a mente obstinada que transforma a mulher em um objeto que pode ser comprado e, caso não agrade, devolvido ou descartado. Jesus diz que o projeto de Deus é igualitário: e os dois se tornarão uma só carne (v. 8). Trata-se da união de duas pessoas que se completam e são destinadas uma à outra por Deus. A frase “uma só carne” indica que não há diferença entre ela e ele. Tal é o projeto amoroso de Deus que os criou na reciprocidade inseparável.

No v. 9 está a frase mais citada na doutrina da Igreja acerca do matrimônio: O que Deus uniu, o homem não separe. Mas é necessário lembrar que, quando o Evangelho de Marcos foi escrito, a prática sacramental da Igreja era muito diferente do que é hoje e não havia um “sacramento do matrimônio”. Na época, não havia nem mesmo um ritual para o casamento. É no período posterior a Jesus, aos apóstolos e à redação do NT que surgiu o sacramento do matrimônio para responder às necessidades práticas das comunidades cristãs. Além da discussão da história dos sacramentos, é necessário perguntar: quando e como Deus une duas pessoas? É algo que acontece mecanicamente, no rito do casamento, com a forma canônica? Basta “casar na Igreja” para que Deus una os dois? Que dizer, então, de tantos casos de feminicídio, filicídio e parricídio, em famílias de pessoas que se casaram na Igreja. Não basta o juramento perante um ministro. É necessário reciprocidade, ternura e respeito! Em outras palavras, “Deus une”, não em um ato pontual e mágico, mas ao longo da vida. São necessários anos para se dizer que Deus uniu de tal modo duas pessoas que ninguém consegue quebrar essa relação.

A resposta de Jesus provocou assombro nos fariseus e também em seus discípulos. Na segunda cena do trecho (vv. 10-12), os discípulos questionam Jesus. A eles, Jesus apresenta as conclusões práticas para quem se divorcia, tanto para o homem, quanto para a mulher. A resposta de Jesus – Se ela repudia o marido e se casa com outro, comete adultério (v. 10) – tem como pano de fundo o fato de a Lei judaica facultar à mulher o direito de tomar a iniciativa do divórcio em alguns casos específicos, como, por exemplo, se o marido é curtidor e o cheiro dele torna insuportável conviver sob o mesmo teto. Mas pode ter também como referência a lei romana, que permitia à mulher maior liberdade para pedir o divórcio. Para os estudiosos que consideram a comunidade de Roma o berço do Evangelho de Marcos, é esta a realidade na qual se insere a igreja marcana e, a ela, é igualmente necessário responder.

Terceira cena – a bênção das crianças (vv. 13-16). Ela acontece na casa em que Jesus está com os discípulos. É uma cena do cotidiano que provoca a reação dos discípulos e um novo ensinamento de Jesus. Era comum levar crianças para serem abençoadas por figuras religiosas. Os discípulos querem impedir que isso aconteça. A cena está presente também em Mateus e Lucas, mas nenhum explica por que os discípulos têm uma reação tão negativa. A ideia é de que as crianças não são importantes. Jesus toma a atitude dos discípulos como ponto de partida para mais um ensinamento: pois o Reino de Deus é deste tipo de pessoas (v. 14). A afirmação de Jesus é um tanto enigmática: Quem não acolher o Reino de Deus como criança, absolutamente não entrará nele (v. 15). A frase poder ser interpretada de dois modos:

  • (a) o Reino de Deus deve ser acolhido como se acolhe uma criança;
  • (b) para acolher o Reino de Deus devemos nos tornar semelhante a crianças.

No primeiro caso, para entrar no Reino é necessário aceitar sempre a novidade e o que escapa aos esquemas préconcebidos. No segundo, é necessário estar livre de qualquer preconceito e barreira. As duas possibilidades se assemelham: só poderá participar do Reino quem superar prejulgamentos, intolerâncias, fanatismos e opiniões estreitas e fechadas. Ao abençoar as crianças (v. 16), Jesus demonstra que o Reino de Deus não é caracterizado pela rigidez de uma religião de medo, mas pela alegria, pela esperança e pela gratuidade. Quanto à primeira leitura (Gn 2,18-24), cabe uma breve reflexão. No segundo relato da criação (Gn 2,7), não há nenhuma referência à ordem dada no primeiro relato (Gn 1,28: “sede fecundos e multiplicai-vos”). Em outras palavras, não se fala em procriação. O narrador foca na alegria que a mulher traz ao homem. Em Gn 2,7, Javé Deus age como um oleiro e cria o homem, modelando-o com a argila do solo. Mas o homem está só. Para criar a mulher, Javé Deus “muda de profissão” e age como um cirurgião: parte o homem em dois e, com um dos lados, cria a mulher. A palavra hebraica tzēlāh, normalmente traduzida como “costela”, na verdade significa “lado”. Javé Deus cortou um lado (= metade?) do homem e com ele fez a mulher. Entende-se por que “os dois serão uma só carne”: são dois pedaços que só formam um todo quando estão unidos. A mulher é formada da mesma matéria e substância do homem: ela é companheira, parceira, cúmplice, igual. Ela não foi criada com o dedinho de um dos pés, porque Deus não a quer oprimida pelo homem. Também não foi criada com um fio de cabelo, porque Deus também não quer que ela submeta o homem. Deus a criou com o lado, para que um esteja sempre próximo ao coração do outro, para que ambos caminhem lado a lado e, juntos e unidos, deem sentido à vida um do outro e à toda a criação. Mulher e homem são um para o outro revelação do amor e da ternura de Deus. Só esta relação de amor e entrega permite vivenciar o mistério humano: a mulher é mistério de Deus para o homem, assim como ele é mistério de Deus para ela. Isso tudo permite afirmar que, quando o homem nega à mulher a igualdade, a dignidade e o respeito, ele está negando a ação criadora de Deus. Discriminar a mulher e cometer violência sexista é cometer uma agressão a Deus criador.

 

 

 

26º Domingo do Tempo Comum
Dia: 26 de Setembro, de 2021
Primeira Leitura: Nm 11,25-29
Salmo: 19/18,8.10.12-13.14
Segunda Leitura: Tg 5,1-6
Evangelho: Mc 9,38-48

 

Evangelho

Pode-se dividir o texto em três partes: o exorcista estranho (vv.38-40), a recompensa pela acolhida (v.41) e o escândalo (42-48). Convém lembrar que os vv. 44.46 são omitidos em muitos manuscritos, pois dizem o mesmo que será lido no v.48.

Vv.38-40: sempre houve taumaturgos fazendo curas e exorcismos (At 19,13-14) que invocavam anjos, demônios, pessoas famosas, como Salomão para expulsar os males. Na época da redação do evangelho, muitos já invocavam o nome de Jesus. João, provavelmente um zelote sectário, ficou com ciúmes, pois este exorcista estranho não seguia os discípulos. Note-se, que a preocupação de João não é o fato de ele não seguir Jesus, mas o fato de “não nos seguir”. Ele parece estar mais preocupado com o grupo: “nós”, do que com o evangelho. O texto se inspira em Nm 11,25ss e ensina que Jesus não é propriedade particular dos discípulos. Quem testemunha Jesus, mesmo não sendo da grei, faz o bem (Fl 1,15-18). Ser do grupo de Cristo é graça, não monopólio. A Igreja deve anunciar Cristo e nunca tentar enjaulá-lo em seus domínios. Um belo exemplo para ilustrar isto, pode ser Gandhi, um não cristão, que propagou valores cristãos com seu testemunho de vida. Os cristãos não devem impedir tais pessoas em sua missão, mas estar abertos a todos que têm o mesmo ideal a favor da vida. Todo fechamento sectário, é contra o Reino. Os discípulos nem sempre conseguem expulsar demônios (Mc 9,18ss), mas o estranho conseguiu (Mc 9,38). Deus age também fora da Igreja. A resposta de Jesus liberta a comunidade do sectarismo.

Aqui não se deve ver contradição com Mt 12,30, pois o contexto é outro. Marcos fala do anúncio do Reino, Mateus fala do poder do maligno.

V.41: o doador de um copo de água é alguém de fora, isto é, um não cristão, já que diz: “quem der… por serdes de Cristo”. Em Mc 9,33-37 se fala sobre a acolhida à criança e em 9,41 da acolhida aos discípulos. Acolher aqueles que não contam: crianças e discípulos, tem promessa de recompensa, mesmo não sendo oficialmente do grupo de Cristo, a Igreja.

Vv.42-28: as palavras duras de Jesus sobre o escândalo aos pequeninos, que aqui não são crianças, mas neófitos, ainda não maduros na fé, que facilmente se escandalizam e se desviam do caminho (cfr. 1Cor 8,1ss; Rm 15,1), querem mostrar a gravidade deste ato. Morrer no mar é algo extremamente humilhante, pois na cosmovisão da época, não ser sepultado era a suma desventura. Em 9,42 o escândalo é contra os outros, a partir do v.43 o escândalo é para si próprio. Amputar os membros tem o sentido de erradicar o mal pela raiz. Mão, pé e olho valem menos do que evitar o escândalo. Os olhos são a fonte da ambição, as mãos são as que se apoderam e os pés levam ao ato mau. Convém lembrar Gn 3,6. Eva viu (olhos), pegou (mãos) e levou para o marido (pés). Portanto, não se trata de se amputar membros do corpo, mas de erradicar a fonte do mal pela raiz. Ou melhor, não se trata de automutilação, mas antes de auto superação. Ou ainda, enfrentar até o martírio, em vista do Reino.

Geena era um antigo santuário pagão onde se fazia sacrifícios humanos. Era o vale onde se queimava o lixo de Jerusalém (2Rs 23,10), e por isto, sempre havia fogo. Neste vale Acaz queimou crianças (2Rs16,3; 21,6). Onde o verme não morre e o fogo não se extingue (cfr. Is 66,24; Jt 16,17; Eclo 7,17-19; Sl 21,10) é mais outra humilhação, pois serão, como no caso da morte no mar, corpos insepultos: extrema humilhação. Não é descrição do inferno.  Antes, é uma descrição da gravidade do escândalo.

Relação com as outras leituras

Ninguém deve se sentir dono do Espírito de Deus, como queria o auxiliar de Moisés (1ª leitura), como também queria o apóstolo João (evangelho). Isto mostra que há tentações de poder dentro do povo de Deus e há, também realizadores das obras de Deus, fora do grupo dos discípulos. Assim como há cristãos que praticam a exploração contra os fracos (2ª leitura), há também gente de fora que é sensível aos valores da justiça e da solidariedade. Não queiramos o monopólio sobre o Reino.

25 Domingo do Tempo Comum
Dia: 19 de Setembro de 2021
Evangelho: Mc 9, 30-37
Primeira Leitura: Sb 2, 12.17-20
Segunda Leitura: Tg 3, 16–4,3
Salmo: 54/53, 3-4.5.6.8

 

Evangelho

A seleção do Evangelho segundo a comunidade de Marcos traz dois elementos: o anúncio da Paixão (v. 30-32) e a comunidade dos discípulos (9.33-37), sendo que este segundo tema é novamente tratado em 10,36-45. Nos paralelos do anúncio da paixão (Mt 17,22-23; Lc 9,43b-45) percebemos que somente neste Evangelho se anuncia simultaneamente a morte e ressurreição. Já em relação à questão sobre “maior/primeiro” tendo a criança como mediação, os paralelos encontram-se em Mt 18,-5 e Lc 9,46-48. No entanto, a frase, ou “máxima”, apresentada em Mc 9.35 (“qualquer que queira ser o primeiro deverá ser o último de todos e servir a todos), e no caso de Lucas não inclui os termos “primeiro” e “servo” (protos/diáconos), colocando no lugar “menor” e “grande” não citando o serviço. Mt trata do “primeiro/último” e “servo” no marco da discussão provocada por Tiago e João. Mc, na narrativa da discussão entre Tiago e João, repetirá: “quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos” (10.44). Já Lucas apresentará a máxima dentro da metáfora da “porta estreita” (Lc 13.22-30) concluindo: “contudo, há últimos que virão ser os primeiros que serão últimos”. Estas observações levantam questões como: por que o anúncio da morte não estava completo sem o anúncio da ressurreição, e por que Mc reafirma o serviço com vínculo de autoridade na proclamação de Jesus?

Morte e Ressurreição na comunidade perseguida (9,30-32)

O primeiro texto, que aqui devemos chamar de “anúncio da paixão e ressurreição” (9.30-32) começa dizendo que Jesus estava indo secretamente para a Galileia, como um “fugitivo”, situação vivida por esta comunidade após a perseguição promovida por Nero em Roma (aprox.64 d.C.), coisa que não aparece em nenhum dos paralelos sinóticos. Assim devemos entender a denúncia das forças de morte, de perseguição e violência, quando o “Filho do Ser Humano” e estregue nas mãos dos “homens”, isto é, aquelas pessoas que sendo feitas irmãs em Cristo negam sua própria humanidade oprimindo, matando, discriminando, excluindo, outras pessoas. Desta forma a ressurreição é essencial para, no meio da perseguição e morte, manter a esperança do surgimento ou ressurgimento de uma humanidade de irmãs e irmãos.

O poder do serviço à luz da presença das crianças (9,33-37)

v.33 – O questionamento: A segunda parte começa com dizendo que Jesus “interrogou/perguntou” (eperóta). A interrogação é um conhecido método de mestres da antiguidade, que nenhum Evangelho menciona mais do que este. A pergunta de Jesus é a pergunta da comunidade (representada pelos discípulos) é sobre qual seria a liderança adequada diante de uma situação de morte e violência, dentro de um sistema opressor, excludente e desigual?

v.34 – O silêncio: Ao questionamento lhe segue o “silêncio”, porque haviam “discutido” (dilektesan) pelo “caminho”. O “caminho” é outra característica desta narrativa, que não aparece nos outros sinóticos, de novo marca de uma comunidade à caminho, entre a dor da violência e da morte e o horizonte de um mundo novo e melhor.

v. 35 – Jesus ouve e orienta a comunidade perseguida: Jesus, que caminha junto a comunidade perseguida, consegue ouvir aquilo que é comentado com receio, aquilo que não é possível discutir abertamente, e então apresenta o princípio orientador: “Quem quiser ser o primeiro seja o último de todos e servo de todos” (v.35b, do grego). O poder da vida, o anti-poder da morte, é aquele que emerge das pessoas que no sistema desigual e excludente são as últimas e que se constrói no serviço, diaconia, na ação compassiva e solidária.

v.36 – A criança, imagem da nova humanidade: As crianças, que são apresentadas de diversas formas no Segundo Testamento, desde crianças de colo até jovens, aqui são chamadas “paidon”(crianças muito novas, nenéns). A criança é o símbolo do esperançar (da qual falava Paulo Freire), totalmente indefesa e dependente, na mesma situação das pessoas perseguidas, excluídas, querendo o colo da segurança, da proteção, da partilha do pão e do afeto.

v. 37 – Acolhimento solidário, espaço de resistência e superação: O poder do serviço se exerce no acolhimento. As comunidades perseguidas devem ser comunidades que abraçam todas as pessoas vulneráveis, todas a vítimas da violência, todas as excluídas e discriminadas, e proclamam a igualdade de acesso a tudo, inclusive ao amor.

A conexão com as outras leituras

A leitura do Livro de Sabedoria, reflete a época do domínio grego, início do domínio romano, descrevendo como as forças de morte querem a morte da pessoa justa que lhes incomoda, que lhes faz lembrar da necessidade de justiça e igualdade (Sb 2,12), Já A Carta de Tiago nos traz outra máxima para o caminho de resistência contra os poderes de morte e para o exercício do poder do serviço: “é em paz que se semeia o fruto da justiça, para quem promove a paz” (Tg 3,18). A diaconia e a opção pelas pessoas últimas são ação de semear a verdadeira e douradora paz, a paz que não exclui, mas acolhe.

 

 

24º Domingo do Tempo Comum
Dia: 12 de setembro de 2021
Primeira Leitura: Is 50,5-9a
Salmo: 116/114, 1-2.3-4.5-6.8-9
Segunda Leitura: Tg 2,14-18
Evangelho: Mc 8,27-35

 

O Evangelho

A perícope evangélica pode ser definida como um diálogo com os discípulos. A primeira parte (vv. 27-30) é uma unidade narrativa fechada em si mesma, na qual são colocadas em contraste as opiniões das pessoas sobre Jesus e a profissão de fé dos discípulos. Estilisticamente, as duas perguntas de Jesus nos vv. 27b e 29a são semelhantes. Há concordância substancial entre as opiniões populares dos v. 28 e aquelas de 6,14b.15. O v. 28 surpreende pela concisão das informações prestadas pelos discípulos. O loghion sobre o Filho da Humanidade que sofre e ressuscita (v.31) tem analogias nos dois anúncios subsequentes da paixão (9,31; 10,33s.) e devem ser comparados com as fórmulas curtas do anúncio da paixão em 9,12; 14,21.41 (cf. o anúncio da ressurreição em 9,9). Todas as passagens citadas concordam no uso do título “Filho da Humanidade”. As três predições em 8,12; 9,31; 10,33s. concordam em mencionar a morte e ressurreição após três dias. A expressão de 8,31 difere dos outros dois anúncios da paixão porque considera o caminho de Jesus para a morte como uma necessidade (dei) e, ao contrário dos outros dois, evita a ideia de entrega (paradidonai).

No início e no final estão os discípulos e, entre eles, Pedro como porta-voz. No centro temos a afirmação sobre o destino do Filho da Humanidade. Tudo acontece na rua. Um novo grupo de oponentes entra em cena. Se até agora os oponentes eram principalmente os fariseus e escribas, ouvimos pela primeira vez sobre o destino da morte que começa a ser preparado pelos anciãos, os principais sacerdotes e os escribas. Parte daqui um arco que se estenderá até a paixão. A perícope é caracterizada pelos verbos do diálogo. O questionar, o falar, o responder, o comandar, o ensinar e repreender tornam vivo esse diálogo. Deve-se notar que a confissão de Pedro – apenas aqui nesta seção – é caracterizada como uma resposta. O diálogo vivaz entre Jesus e Pedro constitui o clímax dramático da história.

Resta notar que a morte e ressurreição de Jesus são interpretadas cristologicamente e não soteriologicamente no primeiro anúncio da paixão. A relevância do anúncio da paixão é sublinhada pela constatação de que Jesus falou a palavra com franqueza. A parresia não está em contradição com a proibição de falar. Essa se refere ao falar com aqueles de fora. A franqueza do discurso de Jesus é direcionada ao grupo de discípulos. A parresia é a franqueza no falar, aquela franqueza de que nada fica em silêncio ou se esconde. Em 4,33, foi dito que Jesus falava ao povo em parábolas, agora ele fala livremente aos discípulos. A evolução do pensamento reside no fato de que a palavra da pregação recebe um conteúdo cristológico nítido graças ao anúncio da Paixão e da Ressurreição. Os discípulos e discípulas, que um dia terão que espalhar o evangelho, devem ver em Jesus a fonte de palavra que deve ser levada a outros.

No curto episódio que se segue, Pedro, que pouco antes havia reconhecido Jesus como o Cristo, agora protesta contra a ideia da paixão. Visto que Jesus já está decidido em seu caminho, ele se volta para os discípulos e para Pedro. Segundo Mc também os discípulos, atingidos pelo olhar de Jesus, recebem sua reprovação. A ordem “para trás mim” (cf. 1,17.20; 8,34) quer chamar o discípulo de volta ao seguimento e, portanto, a seguir o caminho que Jesus já está percorrendo. O discípulo ameaça se desviar. O fato de Satanás ser reprovado indica que estamos nos referindo à tentação que existe na objeção de Pedro. Certamente o Filho da Humanidade não pode mais ser desviado de seu caminho. Satanás indica o oponente que pode estar presente em muitos. Ele é aquele que distorce a verdade e conta a mentira. Já no início da era cristã, os hereges são considerados instrumentos e filhos do diabo (Rm 16,17-20; 2Cor 11,13-15; At 13,10).

O perigo mais grave para os discípulos e a comunidade é rejeitar o Crucificado.

Jesus anuncia o genuíno logos do Evangelho. Pedro, que deve ser visto novamente junto com os discípulos e discípulas, se rebela contra o caminho da paixão. Por isso o seu “ser-discípulo”, correu sério perigo e é reprovado e tratado como Satanás; isso significa que o/a discípulo/a deve reconhecer o caminho de Jesus rumo à paixão e aceitá-lo como seu. Jesus só pode ser totalmente compreendido depois de concluído o seu caminho. À época de Mc, quando esplêndidas figuras de redentores eram esperadas, a pregação do Filho da Humanidade rejeitado e morto era indesejável e escandalosa. Mas esta mensagem toca intimamente os crentes, se observarmos que eles são colocados no mesmo plano de Jesus. A profissão de fé externa pode ser fácil, mas sua implementação é difícil. O Evangelho pode ajudar a garantir que a profissão de fé expressa com os lábios amadureça na fé autêntica.

Jesus ordena que à multidão venha até ele com os discípulos. A reunião da multidão e dos discípulos prepara 9,14: mais concretamente significa que depois do protesto de Pedro, os/as discípulos/as foram confrontados com uma nova decisão. Depois do anúncio da paixão do Filho da Humanidade, podemos entender o que significa ser discípulo e discípula. Quem se decide a segui-lo, deve satisfazer duas condições. A primeira condição é negar-se, renunciar-se, colocar a existência de discípulo/a acima dos próprios desejos e projetos. A segunda condição é a disposição de aceitar a cruz. O “siga-me” (opisō mou) está ligado à reprovação de Pedro (8,33) e ao primeiro chamado ao seguimento (1,17).

O “tomar a sua cruz” expande a necessidade de prontidão para morrer a fim de seguir Jesus e inclui todas as tribulações e tentações que podem acontecer com o/a discípulo/a. A palavra de Jesus avança na ideia de que a salvação da vida agora depende da união com ele. Assim, o seguimento da cruz aparece sob uma nova luz. O fato de Mc introduzir o acréscimo do Evangelho como critério de decisão manifesta a situação de vida das comunidades. De agora em diante, o Jesus terreno está acessível a nós por meio do Evangelho.

A leitura do Cântico do Servo em Is ajuda a perceber o pano de fundo veterotestamentário da serenidade de Jesus em afrontar sua missão e torna nítida a identificação que Jesus faz, em sua pessoa, do Filho da Humanidade e do Servo.

 

 

 

23º Domingo do Tempo Comum
Dia: 05 de setembro de 2021
Primeira Leitura: Is 35, 4-7a
Salmo: 145, 7.8-9a.9bc-10
Segunda Leitura: Tg 2, 1-5
Evangelho: Mc 7, 31-37

O Evangelho

O Evangelho de hoje inicia com um percurso muito estranho de Jesus: Saindo de Tiro, ele veio por Sidônia até o mar da Galileia, através dos territórios da Decápole (v. 31)Este trajeto seria como se alguém para ir do Rio de janeiro a São Paulo passasse por Brasília, ou fosse de Porto Alegre a Pelotas e passasse por Passo Fundo!

Trouxeram‑lhe um surdo e gago (v. 32). O surdo e gago (em algumas traduções, mudo) não se aproxima de Jesus e nem pede a cura, mas é trazido por pessoas anônimas. A surdez, na tradição profética (Is 42,18-19; Jr 5,21; Ez 12,2), é símbolo da resistência à mensagem de Deus. Neste evangelho, semelhantemente, ela é relida como símbolo de resistência a ouvir o anúncio e a proclamar a boa nova.

Levando‑o em particular, para longe da multidão (v. 33a). No evangelho de Marcos, a expressão em particular é aplicada sempre aos discípulos (4,34; 6,31-32; 9,2.28; 13,3): quando necessário para dissipar dificuldades provocadas por seu ensinamento, Jesus explica tudo novamente a seus discípulos “em particular”, isto é, separadamente e de forma exclusiva. Mas o que é ensinado “em particular” serve para fortalecer os discípulos na sua missão. Por isso, o mal que pode afligir a comunidade e o discípulo é não proclamar a boa nova a todos os povos.

No v. 33b, Jesus põe seus dedos nos ouvidos do surdo-gago, cospe na língua dele, ora e dá uma ordem. O gesto de cuspir na língua do surdo-gago/mudo, para nós, é algo estranho e, para alguns, até nojento. Na Antiguidade, porém, a saliva era considerada um elemento medicinal, ainda mais a saliva de um profeta. Ou seja, trata-se de uma ação que deve ser lida no conjunto dos ritos de cura do mundo antigo.

O gesto curandeiro de Jesus produz seu efeito e o rapaz começa a ouvir e a falar com desenvoltura. Não obstante, Jesus recomendou-lhes que não dissessem nada a ninguém (v. 36). Como em diversas ocasiões, o Jesus de Marcos ordena que não se divulgue por aí o que ele faz. É o chamado “segredo messiânico”.

Por que essa mania de segredo? O evangelho não nos responde. Aliás, já desde 1,1 estamos cientes do messianismo de Jesus. No evangelho de Marcos, vários títulos judaicos são dados a Jesus, mas, nenhum título é suficientemente denso para exprimir o real significado de Jesus de Nazaré. A finalidade desse “segredo messiânico parece ser o seguinte: corrigir progressivamente a falsa ideia que os judeus e os discípulos tinham em relação ao Messias. Com efeito, a revelação de quem Jesus realmente é só será concluída e plena após sua morte e ressurreição, isto é, somente após a experiência pascal os discípulos compreenderão perfeitamente quem é Jesus: sua pessoa, sua obra, sua doutrina. Por isso, a ordem de silêncio está unida à cruz e à ressurreição.

Ele faz surdos ouvir e mudos falar (v. 37). Na trama do evangelho de Marcos, para levar os discípulos a reconhecer que Jesus é o Messias, este milagre tem valor simbólico: é surdo-gago/mudo quem não é discípula/o. Em outras palavras, ouvir e falar livremente, é necessário tornar-se discípula/o. Não basta a palavra, é necessário um contato íntimo com aquele que cura. O contato é cada vez mais íntimo: dedo nos ouvidos, saliva na língua, palavra nos ouvidos. Tanto a saliva quanto a palavra saem da boca de Jesus para criar as condições necessárias para a fé. Só pode ser discípula/o quem tem intimidade com Jesus; só pode ser discípula/o quem deixa que Jesus coloque suas palavras nos ouvidos e na língua.

No Antigo Testamento

Na primeira leitura, o profeta Isaias (35,4-7a) anuncia a chegada de Yhwh como o go’el de Israel. No Antigo Testamento, a palavra go’el significa, primeiramente, “resgatador”. Trata-se de um parente próximo (irmão, primo, tio) que tem vários encargos, entre eles, casar-se com a viúva de seu parente, para suscitar uma descendência ao falecido (cf. o caso de Booz e Rute); resgatar uma propriedade da família, caso tal propriedade (casa ou campo) tenha sido tomada como pagamento de uma dívida e socorrer um parente que sofre violência.

No Antigo Testamento, Yhwh é chamado de “o go’el de Israel”, porque ele vem resgatar Israel da escravidão e humilhar os inimigos de seu povo. Por isso o profeta proclama “Coragem! Não temais” (v. 4) e “Vosso Deus vem salvar-vos” (v. 5). A chegada de Yhwh e sua atividade como go’el do povo humilhado é motivo para recobrar a coragem e a esperança, porque ele fará acontecer uma realidade nova: desaparecerão as enfermidades e as deficiências físicas (vv. 5-6a), “o sertão vai virar mar” (vv. 6a-7a), será expulso tudo o que é ameaçador (v. 7b). O juízo de Yhwh será contra os inimigos do seu povo.

Hoje

Vemos como este anúncio profético é atual: em tempos de pandemia, o profeta nos convida a acreditar que Yhwh sabe muito bem que, por causa do desrespeito à dignidade humana, o povo sofre. O profeta nos convida a esperar: nosso Deus é o Deus da vida e não deixará de se vingar dos que promovem o sofrimento e a morte.

 

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

 

22º Domingo do Tempo comum

Dia: 29 de 08 de 2021

Primeira Leitura: Dt 4,1-2.6-8

Salmo: 14,2-3a.3cd-4ab.5

Segunda Leitura: Tg 1,17-18.21b-22.27

Evangelho: Mc 7,1-8.14-15.21-23

 

Evangelho

A perícope se situa entre as duas multiplicações do pão (Mc 6,30-44 e 8,1-10), como consequências da compreensão cristã do pão partilhado para todos, enfrentando o reducionismo excludente farisaico de Jerusalém. O pão partilhado deixa os discípulos alimentados sem preocupação com as leis da pureza e as tradições que os fariseus e escribas criaram como cerca ao redor da lei, interpretando-a de acordo com sua visão rigorista. Para Jesus, o que conta é o amor, ilustrado pelo pão partilhado. Porém, os representantes da religião oficial têm outro projeto. Eles estão presos às leis e tradições que se tornaram um fardo para o povo pobre iletrado, para os doentes, deficientes e estrangeiros. Para escribas e fariseus importavam mais as leis e as tradições do que o alimento do povo. Era uma prática religiosa que só olhava para o céu e se esquecia das carências do povo. Na sua visão, se as leis da pureza forem observadas Deus está bem servido, sem nenhuma preocupação com os necessitados.

A prática de Jesus lembra que uma religião apenas preocupada com leis e tradições perdeu o espírito original da lei e já não satisfaz os desígnios de Deus. A lei, na sua origem, devia favorecer a vida do povo, porém, com o passar do tempo, foi-se esquecendo o espírito da lei, ficando apenas na letra morta e, além disto, depois do Exílio, os escribas criaram mil e uma tradições para explicar e interpretar a lei. Assim sendo, a lei resumida em 613 mandamentos vem agora acrescida com mais penduricalhos da tradição, seu número ficou astronômico. Davam a estas tradições o mesmo valor da lei. Só um expert seria capaz de observar as exigências da religião. O povo simples, que ignorava esta coleção de leis e tradições, era visto como maldito (Jo 7,49).

Um dos pontos da lei que os escribas levavam ao extremo, foi a questão da pureza (cfr. Ex 40,12-32; Lv 15), que originalmente se destinava aos sacerdotes, mas os escribas e fariseus universalizaram. Na sua compreensão, este era o nó górdio do acesso a Deus. Como o povo simples não podia observar tudo isto, se via privado de Deus. Este é o contexto de Mc 7,1-23.

Jesus não se preocupa nada com estas leis e tradições. Ele toca no leproso (Mc 1,41 = Lv 13,43s), se deixa tocar pela mulher hemorrágica (Mc 5,27 = Lv 15,19), come com pecadores (Mc 2,19ss), etc. No relato de hoje se desenha o choque da prática de Jesus com a dos escribas e fariseus. Fica evidente que agora, o eixo está deslocado. Para Jesus não contam práticas externas, leis e tradições, mas tão somente, o amor ao próximo que é o verdadeiro culto a Deus.

A questão da pureza, não era, para os fariseus, uma questão de higiene, mas apenas uma questão ritual, pois julgavam todos os pecadores impuros e, entrando em contato com qualquer objeto tocado por tais pessoas, tornaria os observantes impuros. Logo, ao se lavar, não pensavam em eliminar germes de doenças, mas queriam estar livres do contato com outras pessoas que julgavam impuras, o que por si só, já era uma discriminação e falta de amor. Então, na resposta de Jesus se mostra que a impureza não está no contato exterior com pessoas, ou com alimentos, mas naquilo que vem de dentro do coração. Antes de pensar em fazer abluções, o fariseu já estava contaminado pelo preconceito que nasceu em seu coração elitista e condenava os que não podiam observar as leis. Vinha de dentro.

Jesus, portanto, não apenas aboliu as tradições dos fariseus e escribas, mas também as leis alimentares que se encontram em Lv 11 e Dt 14, pois ele declarava tudo puro (cfr. At 10,15). Isto tudo era uma superação dos estreitos caminhos de uma igreja ainda atrelada ao AT e que agora, devia se abrir aos povos estrangeiros que desconheciam tais observâncias.

Relação com as outras leituras

Quando a lei leva à proximidade com Deus e à justiça, ela é boa, como se lê em Dt 4,6-8 (1ª leit.). A religião pura, que agrada a Deus, é cuidar dos órfãos e viúvas, ou seja, amor aos carentes (2ª leit.). Portanto, não são leis externas que levam os fiéis a Deus, mas o compromisso com os sofredores.

 

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

 

21º Domingo do Tempo Comum

Dia: 22 de Agosto de 2021

Evangelho: Jo 6, 60-69
Primeira Leitura: Js 24, 1-2a.15-17.18b
Segunda Leitura: Ef 5, 21-32
Salmo: 34/33, 2-3.16-17.18-19.20-21.22-23

 

Evangelho

O Quarto Evangelho tem como uma das suas características trabalhar a revelação de Jesus Cristo (Palavra Encarnada; cf. Jo 1) através de sinais que se concentram nos primeiros doze capítulos. Por outro lado, podemos dizer que o capítulo 6 deste Evangelho se dedica à comensalidade, com temas como a partilha (6,1-15), Jesus como Pão da Vida/Corpo e Sangue (6,22-59), e as reações dos discípulos a esta teologia (6,60-71). Portanto, o Evangelho deste domingo deve ser entendido neste contexto. No contexto maior este Evangelho descreve tensões e divisões entre as pessoas que formavam a comunidade de Jesus como reflexo de tendências que começavam a se configurar na igreja dos primeiros tempos. Neste sentido é bem significativa a afirmação “muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele” (6,66). Assim o Evangelho explicita a quebra da comunhão sacramental como consequência da incompreensão do mistério de “Jesus/Pão da Vida/Corpo e Sangue”.

O texto em si

A primeira questão a ser levantada é a delimitação da perícope. Sem dúvida, o versículo 60 abre a parte da narrativa que reflete a reação dentro da comunidade de Jesus em relação às “duras palavras” (skleros estin outos o logos). Reação que se conclui com afirmação de Pedro (“Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo”, v. 69). A narrativa vai concluir com o anúncio da traição de Judas (v.70-71).

Vejamos como se dá o tecido de palavras neste texto que aborda o tema delicado da partilha e do mistério eucarístico:

Muitos dos discípulos – “Os muitos discípulos que ouviram e se escandalizaram” (poloi) nos versículos 60-61, se conecta no v. 66 com os “muitos discípulos que voltaram atrás”. Espírito e Vida – No versículo 63 aparece duas vezes a palavra “Espírito” (pneuma) e vida em duas formas: vivifica/dá vida (zoopoiyoun de Zoe = Vida + poyeuo = Fazer/Produzir), rodeado pela referência ao Filho (do Ser Humano, v. 61), Jesus (v.64) e o Pai (v.66).

Palavras/declaração/falar/dizer – Outro aspecto interessante é a diversidade de termos para se referir à forma como Jesus comunica o mistério em cada uma destas partes. Primeiro (v.60) diz que são “duras são estas palavras” (logos). Nos vs. 63 e 68, se refere a “declaração/discurso” (remata) de Jesus como Espírito e Vida (Eterna). No v. 65 Jesus fala (eleguen) e afirma ou “reafirma” (eireka). Esta diversidade de formas para se referir a apresentação do mistério mostra a dificuldade do assunto abordado. A palavra (sentido duro do mistério) – v. 60 – se transforma em declaração que manifesta o Espírito que dá Vida (v.63) e permite, então, dizer e reafirmar o caminho de duas mãos entre o Filho e o Pai (v.65).

A dificuldade de participar do novo discipulado eucarístico.

É importante observar que este discurso (cf. 6.59) foi feito em uma Sinagoga, onde não havia espaço para o mistério eucarístico apresentado em Jesus. Mas, por outro lado entre o grupo dos “discípulos” também havia pessoas que tinham dificuldade de descontruir dentro a visão legalista (da carne) e abraçar o mistério e partilha que se revelam no Jesus eucarístico, como entendia a comunidade de João.

Relacionando com os outros textos

A primeira leitura é a conclusão do Livro de Josué onde todo o processo da dádiva divina da terra é consumado na aliança entre as tribos e este Deus que luta junto ao seu povo. O chamado a unidade presente no discurso de Josué está centrado na escolha entre as divindades que justificavam as monarquias derrotadas pelas tribos e o Deus Libertador do Egito e força na luta pela terra, a partir da própria experiência de luta de partilha descrita neste livro (Js 24,15-16). Aqui, semelhante à proposta da comunidade de João, a Palavra da Aliança se traduz em espírito e vida para o povo. O sentido da unidade da mesa não pode ser o sentido patriarcal da sinagoga, mas o novo sentido da igual dignidade de todas as pessoas na mesa eucarística. No texto da Carta aos Efésios (5,21-32) os primeiros quatro versículos falam de uma teologia de submissão da mulher diante do homem (v.21-24), no entanto, esta teologia e relativizada ou até desconstruídas pelos seguintes (v.25-33), onde a mulher deve ser considerada pelo homem como seu próprio corpo. De novo a alternativa entre seguir os velhos padrões ou abraçar o mistério que é Espírito e Vida.

 

20º Domingo do Tempo Comum. Nossa Senhora da Assunção
Dia: 15 de agosto de 2021
Primeira Leitura: Ap 11,19a;12,1.3-6a.10ab
Salmo: 45/44,10bc.11.12ab.16
Segunda Leitura: 1Cor 15,20-27a
Evangelho: Lc 1,39-56

 

Os textos da Sagrada Escritura aqui relacionados, inserem-se numa visão redentora da humanidade. A celebração da assunção de Maria acontece motivada por perícopes bíblicas que compõem este quadro maior da obra redentora de Cristo, sem a qual não entenderemos o papel desempenhado por Maria.

O texto do Apocalipse abre o pórtico da atuação da Mulher/figura da Igreja/Maria, no plano escatológico. Aqui, a maternidade de Maria é teologicamente apreciada como maternidade messiânica.

O capítulo 15 de 1Cor, direciona nossa atenção para a chave interpretativa que une os textos desta celebração: “em Cristo todos receberão a vida”.

O louvor de Maria dá início aos cânticos de exaltação do NT. Em Lc 1 e 2 há cinco deles:

  1. Magnificat (Lc 1,46-55);
  2. Benedictus (Lc 1,68-79);
  3. Gloria in excelsis (Lc 2,14);
  4. Nunc dimittis (Lc 2,29-32);
  5. o louvor da profetisa Ana (Lc 2,38).

Os hinos em Lc têm a função de explicar pneumatologicamente os acontecimentos. Maria é convocada a interpretar o evento escatológico do qual, agora, faz experiência o povo de Deus. Não fala só de si mesma; aqui toda a salmodia do povo de Deus do antigo pacto atinge o seu vértice e é superada.

Acrescentemos ainda o seguinte: o Magnificat é um cântico com franco teor escatológico. Por essa razão, é digno de nota justamente que a maioria das formas esteja no aoristo, isto é, na forma verbal do pretérito, embora se trate primordialmente de eventos cujo cumprimento ainda estava por vir.

Em Lc 1,42 a frase

  • “bendita és tu entre as mulheres”, faz ecoar palavras de bênção semelhantes a Jz 5,24 e Jt 13,18; e
  • “bendito é o fruto do teu ventre” ecoa a bênção mosaica prometida aos obedientes, em Dt 28,1.4.

Esses ecos possibilitam ver que o foco recaía, além de Maria individualmente, também sobre o povo de Deus como um todo.

O v.43 com a expressão “meu Senhor” (tou kyriou mou) ecoa o estilo do Sl 110,1 (veja o paralelo em Lc 20,41-44; At 2,34) e, portanto, aponta para a natureza messiânica de Jesus. O v. também faz ecoar 2Sm 6,9, embora a relação entre Maria e a arca da aliança não seja tão evidente.

O conjunto a seguir, formado pelos vv. 46-55, compõe o conhecido Magnificat que, tanto na forma quanto no conteúdo se baseia em vários hinos do AT.  Da perspectiva do conteúdo, o correspondente mais próximo talvez seja o cântico de Ana em 1Sm 2,1-10, em que se encontra o tema da libertação, quando o Deus santo de Israel olha para o estado humilde de sua serva. Em ambos os textos, esse foco pessoal se transforma no tema geral da inversão, quando Deus exalta os humildes e humilha os poderosos. Na forma do texto encontramos paralelos com vários Salmos (note-se a influência dos Sl 34; 35; 89; 103).

No v. 48 a referência à “condição humilde” (tapeinōsis) tem sido compreendida como uma referência à humilhação sofrida pela virgem prometida em casamento que agora engravidou; mas nem o contexto, nem os correspondentes mais amplos com os relatos de nascimento do AT apoiam essa interpretação. Um correspondente mais próximo acha-se em 1Sm 1,11, em que o termo aparece em referência ao reverso da sorte de Ana em sua gravidez. Porém, como no cântico de Ana, em 1Sm 2,1-10, tapeinōsis também pode referir-se à humilhação do povo de Deus oprimido. Ou seja, evidencia-se uma importante conexão entre a sorte do indivíduo e o destino do povo de Deus. No v. 52, a expressão, hypsōsen tapeinous “exaltou os humildes” se pode denominar uma expressão estilizada, convencional (cf. Jó 5,11). O adjetivo tapeinous (“os humildes”) funciona como rótulo de status econômico e, também, como identificação que se refere ao povo de Deus.

Não pode ser desconsiderada a importância do reverso da sorte do “pobre” (ptōchos) em todo esse Evangelho (cf. 4,18; 6,20; 7,22; 14,13.21; 16,20-22).

Entre os vv. 49-51 aparecem explícitas referências que conectam este cântico ao AT. No AT, o título “o Poderoso” (ho dynatos) é usado em referência ao Deus guerreiro (cf. Sf 3,17) e “grandes coisas” (megala) lembra os feitos poderosos de Deus durante o êxodo (Dt 10,21). A expressão “sua misericórdia” (to eleos autou) pressupõe o relacionamento da aliança entre Deus e seu povo, e a afirmação de que “sua misericórdia passa de geração para geração para os que o temem” pertence à linguagem das tradições litúrgicas de Israel. Tanto nas tradições do êxodo (Ex 6,1-6; Dt 3,24; 7,12) quanto nas do novo êxodo (Is 51,5.9; 53,1), encontram-se as figuras do braço/mão de Deus em referência ao seu poder. O uso aqui do tempo aoristo (e em outros lugares do Magnificat) pode ser interpretado como afirmação de certeza dos atos escatológicos de Deus.

Três passagens do AT fornecem o contexto para o desfecho do Magnificat: Is 41,8-9; Sl 98,3 e Mq 7,20. Todas as três estabelecem a conexão entre as promessas abraâmicas e o ato redentor de Deus em favor de seu povo. As ideias (misericórdia, promessa aos antepassados, Abraão) apontam para a esperança escatológica da libertação definitiva, da qual a noção teológica da Assunção da mãe de Jesus é sinal prenhe de esperança.

 

 

19º Domingo do Tempo comum
Dia: 08 de agosto de 2021
Primeira Leitura: 1Reis 19,4-8
Salmo: 34/33,2-3.4-5.6-7.8-9
Segunda Leitura: Ef 4,30 – 5,2
Evangelho: Jo 6, 41-51

 

Jesus

O Evangelho de hoje pertence ao chamado “discurso do pão da vida” (Jo 6,26-59), que é uma releitura do episódio do maná, no início da peregrinação pelo deserto, em Êxodo 16.

A afirmação de que os judeus murmuravam (v. 41) é claramente uma releitura de Ex 16,2-8. Há, no entanto, diferenças. No Êxodo, o motivo da murmuração era a falta de pão; em João, os judeus murmuram porque Jesus afirmou: “Eu sou o pão que desceu do céu” (vv. 35 e 38). Eles não aceitam a origem celeste, proclamada por Jesus, porque partem da evidência da condição humana: Este não é Jesus o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? (v. 42). Esta incongruência faz parte do estilo de narração próprio de João chamado de “técnica do mal-entendido”: Jesus fala uma coisa, o interlocutor entende outra, e este engano provoca uma discussão catequética. Assim acontece com Nicodemos (Jo 3,1-21) e com a samaritana (Jo 4,7-42).

No v. 44, Jesus interrompe a murmuração e recomeça os ensinamentos: Ninguém pode vir a mim a não ser que o atraia o Pai que me mandou. Isso significa que, para chegar até Jesus, é preciso deixar-se levar pelo Pai. Sem dúvida, a fé tem como fonte primeira a iniciativa de Deus, mas não exclui a responsabilidade do ser humano. A ação de Jesus e a do Pai são circulares e interligadas: tudo passa por Jesus e, no entanto, tudo procede do Pai e no Pai terminará. O evangelista utiliza o verbo grego hélkō (atrair), que denota o uso de força, como sugere Os 11,4: Eu os atraía com vínculos humanos, com laços de amor. Esta afirmação de Oseias tem como pano de fundo a resistência humana à ação divina: o ser humano resiste a uma atração repleta de amor.

O mesmo v. 44 termina com a promessa sobre o destino de quem aceita entrar nesta dinâmica circular da ação divina. Jesus afirma: eu o ressuscitarei no último dia. A ressureição era aceita e defendida pelos fariseus como prêmio final para os que obedeciam a Lei. Para Jesus, a condição para a ressureição é adesão a ele: Em verdade, em verdade vos digo: quem crê tem a vida eterna. Esta ideia está repetida logo adiante, no v. 47 e em Jo 8,51; 11,25.

Para fundamentar sua afirmação, Jesus cita o profeta Isaias: E todos serão instruídos por Deus (54,13). Com isso, Jesus garante que a vontade salvífica do Pai é universal e não exclui ninguém: nem gênero, nem raça, nem credo. Jesus anuncia que a nova comunidade estará aberta a todos os que escutam e colocam em prática os ensinamentos do Pai (vv. 45-47).

No v. 48, Jesus repete o que já havia dito nos v. 35: eu sou o pão da vida. No Evangelho de João, o termo grego zōê (vida) não significa unicamente a vida física; define, mais adequadamente, qualidade de vida que é definitiva e que, portanto, não está sujeita à morte. Desde a criação, o Projeto de Deus é dar a vida. Este projeto de vida tem seu ápice na encarnação e missão do Filho (Jo 1,1-4). Por isso, Jesus – eu sou o pão da vida – deve ser entendida como “eu sou o pão que liberta da morte e faz participar da vida definitiva em Deus”. Fica clara a contraposição entre Jesus, como pão da vida, e o maná e a Lei. Na compreensão rabínica, a Lei é a fonte da vida e, por isso, é chamada de “pão”. Mas a vida trazida pela Lei não é eterna: um dia termina. O projeto salvífico do Pai realizado pelo Filho, o pão que desce do céu, supera a vida conforme a Lei: Quem comer deste pão viverá para sempre (v. 51b).

A condição para receber a vida é reconhecer o amor de Deus expresso no projeto de Jesus e aderir a ele. O evangelista usa metáforas para explicitar o que significa tal adesão: escutar a voz do Filho de Deus (5,25), aproxima-se dele (6,37), aceitar suas exigências (6,63), comer o pão da vida (6,50). Portanto, a missão de todos os cristãos é levar a vida definitiva a todos os seres humanos; para isso, é necessário demonstrar concretamente o amor na partilha (6,5-13).

A técnica do mal-entendido está na base dos vv. 51-58 e envolve a palavra “carne”. Convém recordar que, no evangelho de João, o que se poderia chamar de “instituição da Eucaristia”, não é ocorre na última ceia (Jo 13–16), como em Mt 26,26-29; Mc 14,22-25 e Lc 22,14-38, mas sim no capítulo 6, no “discurso do pão da vida”. No v. 51, Jesus afirma: O pão eu darei é a minha carne para a vida do mundo”. O pão dado por Jesus é agora qualificado como carne (sárx) e não corpo (sōma). Jesus retoma o que já fora afirmado no prólogo do Quarto Evangelho (Jo 1,14): O verbo tornou-se carne. Ao dizer “o pão é a minha carne” e “quem come minha carne”, Jesus afirma que a Eucaristia faz parte do mistério da sua encarnação; por isso, celebrar a Eucaristia não tem a finalidade de produzir objetos de culto e adoração (hóstias consagradas), mas consagrar o alimento que fortalece os cristãos para que possam se comprometer com o projeto de vida e libertação proposto por Jesus. Em outras palavras, quando celebramos a Eucaristia e comemos o pão-carne de Jesus, renovamos e atualizamos nossa opção de realizar o projeto de amor de Jesus em defesa da vida plena.

Isaías

A Eucaristia – a carne e o sangue de Jesus (cf. Jo 6,51-58) dão vida e coragem para o cristão, da mesma forma que, na primeira leitura de hoje, o pão e a água trazidos pelo anjo do Senhor fortaleceram Elias. Este profeta desenvolveu sua atividade no Reino do Norte, durante os governos de Acab (874-853 a.C.) e Ocozias (853-852 a.C.). Em hebraico, o nome Elias é ’ēliyyāhû e significa “Meu Deus é Yahweh”. O nome se torna o lema de seu trabalho: lutar contra os ídolos que legitimam a opressão do povo.

O chamado “ciclo do profeta Elias” ocupa poucos capítulos na Bíblia: 1Rs 17–21 + 2Rs 1–2. Todo ele é marcado pela luta contra o uso da religião para legitimar desmandos, arbitrariedades e assassinatos que provocavam o aumentou da pobreza e da injustiça. Os dois reis citados – Acab e Ocozias – sacrificaram a vida do povo para impulsionar a economia e o comércio internacional. Com a desculpa de enriquecer o país, esfolavam a população. Contra tal situação Elias se levanta em nome da fé dos antepassados: para ele, a religião ancestral, isto é, o javismo autêntico (“Meu Deus é Yahweh”), é um projeto de vida e dignidade para todos. Qualquer governante que não lute por isso é idólatra e genocida.

A primeira leitura de hoje (1Rs 19,4-8) mostra Elias fugindo da rainha Jezabel. Ele havia desmascarado o projeto idolátrico desta rainha e ela não perde tempo: manda perseguir e matar Elias. O texto é duplamente irônico. Primeiro, porque Elias tem o poder para fazer vir fogo do céu e devorar os representantes religiosos de Baal (1Rs 18,20-40), mas se sente fraco para enfrentar a rainha. A segunda ironia é que, para salvar sua vida, Elias foge para o deserto, o lugar da morte (19,4).

Estas ironias têm a função de demonstrar que o profeta é uma pessoa real, não desfigurada por um sentimento devocional falso, comum em quem pratica uma religião desencarnada. O narrador quer mostrar que a força de Elias não vem de uma imagem fantasiosa que ele faz de si mesmo, mas da consciência que tem de ser dependente de Yahweh. Isso está expresso na aparição do Anjo e no alimento trazido: Mas eis que um anjo o tocou e disse-lhe: “Levanta-te e come” (…), havia um pão cozido sobre pedras quentes e um jarro de água (vv. 5-6). O mesmo Deus que salvou o povo no deserto interrompe o esgotamento físico e mental de Elias, enviando duas vezes um anjo trazendo pão e água (v. 7). Fortalecido o profeta caminha quarenta dias e quarenta noites (v. 8) até a montanha de Deus, o Horeb. Ali Elias terá respostas para seus questionamentos. Mas sua missão continua, pois o “longo caminho a percorrer” ainda não acabou.

 

 

18º Domingo do Tempo Comum
Dia 1º de agosto de 2021
Primeira Leitura: Ex 16,2-4.12-15
Salmo: 78/77,3.4bc.23-24.25.54
Segunda Leitura: Ef 4,17.20-24
Evangelho: Jo 6,24-35

Evangelho

O texto vem na sequência da multiplicação dos pães e do caminhar sobre as águas (6,1-21). Assim sendo, pode-se ver os versículos 22-25 como transição entre estes relatos e o discurso do pão da vida (6,26-51a). A multidão que procura Jesus, não entendeu o sinal da multiplicação dos pães. Os saciados viram o milagre apenas no sentido material. Não foram capazes de transcender. Ao querer torná-lo rei (v.15a), eles esperam vida fácil, uma religião mágica. Buscaram em Jesus a solução de seus problemas, sem assimilar seu projeto de vida e se comprometer com ele. A luta pelo pão é necessária, mas não de forma mágica. Entender o gesto de Jesus e aderir pela fé (v. 29) é não esperar um milagre, mas entrar na lógica dele e com ele construir a sociedade onde já não falte o pão para ninguém. Se este projeto já estivesse em vigor, todos teriam pão e Jesus nem precisaria multiplicar o pão.

Jesus não cede ao pedido dos que o procuram em vista do milagre. Ele os conduz a outra realidade: procurar o alimento para a vida eterna (v.27). Ele inaugura uma nova realidade, novas relações com Deus e com as pessoas. Nesta nova realidade, o pão será partilhado (doze cestos – 6,13) e esta realidade conduz à vida eterna. Para que esta nova realidade aconteça, não se requer obras, como na lógica de Moisés (v.28), mas uma só obra: crer em Jesus, o enviado, o que tem o selo do Pai (v.29). Porém, crer é mais do que saber o que ele ensinou, mas é aderir e se envolver no seu programa de vida.

Os interlocutores de Jesus ainda não entenderam o sinal do dia anterior. Querem mais um sinal (v.30). Aludem a Moisés (v.31). Muita semelhança com certas pretensões hodiernas que querem testar cientificamente as verdades da fé. João se vale deste desejo para transmitir seu ensino. O verdadeiro alimento não foi o maná, mas o pão doado por Jesus, isto é, sua vida. Deus, por meio de Moisés, deu o maná, mas por meio de seu filho, que desceu do céu, deu o verdadeiro alimento para a vida do mundo. O maná, dado aos israelitas, é prefiguração do que o Pai realizou na pessoa de Jesus, a plenificação da revelação de Deus. Nele se realiza totalmente o projeto do Pai que conduz à vida plena que inicia aqui e culmina na eternidade. O maná foi o alimento que possibilitou ao antigo povo chegar à terra prometida, onde pode ganhar o pão com o suor de seu rosto. A multiplicação também deveria ser vista como a transição para uma nova realidade, onde não faltasse o pão a ninguém. O verdadeiro pão que Jesus dá, não era aquele da multiplicação, mas o espírito daí resultante: a partilha e o compromisso de todos com todos

João, de forma pedagógica, como já o fizera no diálogo da samaritana, também aqui aponta que a proposta de Jesus não é entendida. A samaritana quer água para lhe facilitar a vida (4,15), os interlocutores pedem deste pão com o mesmo intuito (v.34).

O v. 35 coroa esta lição. Não se trata de um determinado pão, mas do próprio Jesus que, aceito na fé se torna a realização plena dos anseios humanos. Fome e sede saciados são sinais messiânicos (Is 55,1ss). Aqui, porém, o pão ainda não é uma referência à eucaristia, que só se dará a partir de 6,51. O pão aqui é símbolo do ensino e da sabedoria de Deus (Pv 15,3; Eclo 15,3; 24,21(29). Portanto, aderindo a Jesus, pela fé, realiza-se a vida plena desejada pelo Pai, simbolizada pela não fome e não sede (v.35).

Relação com as outras leituras

Tanto a primeira, como a segunda leituras apelam à conversão. Em Ef 4,17 se exorta a não viver como os pagãos. Em Ex 16 se mostra que, ao coletar o maná, havia gananciosos que queriam acumular (16,16ss). Moisés, como Paulo exortam a evoluir no compromisso da fé. No evangelho percebe-se um crescendo: procura por pão, o que fazer para trabalhar nas obras de Deus, para ouvir de Jesus que se deve superar tudo isto e aderir totalmente ao Filho, o enviado do Pai. Conversão é, antes de tudo, mudança de mentalidade.

 

17º Domingo do Tempo Comum
Dia: 25 de julho de 2021
Evangelho: Jo 6, 1-15
Primeira Leitura: 2Rs 4, 42-44
Segunda Leitura: Ef 4, 1-6
Salmo: 145/144, 10-11.15-16.17-18

 

A comensalidade em João 6

O Quarto Evangelho, ou o Evangelho da Comunidade do Discípulo Amado tem algumas características contextuais que este autor resume em quatro fases:

  1. a) é uma comunidade de pessoas que tinham sido expulsas das sinagogas e tinham testemunhado a destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C.;
  2. b) ela busca, portanto uma identidade própria, gerando uma “cristologia mais alta” (da pré-existência da Palavra/Verbo/Logos), que busca dialogar com um mundo “pluralístico de crentes e não crentes”;
  3. c) há uma divisão entre dois grupos de discípulos de João que estão interpretando o Evangelho de maneiras opostas no que se refere à cristologia, à ética, à escatologia, e à pneumatologia”; c. a incorporação da teologia da pré-existência do Logos, fez com que da “aceitação joanina da estrutura autoritária de ensino da Igreja, provavelmente porque (…) o princípio do Paráclito como mestre não ofereceu defesa suficiente contra os separatistas. A comensalidade se transforma, então em um método, onde Jesus constrói a relação de amizade e amor que permite a comunhão além das diferenças (João 15,13-15). Vejamos como isto acontece em João 6,1-15.

Estrutura do texto

6,1-4. Apresenta apenas Jesus – sem a comunidade de discipulado – e a “multidão” (um termo usado com frequência neste capítulo para se referia ao mundo “pluralístico” do entorno da comunidade), colocado no contexto da “Páscoa dos judeus” (com a qual a comunidade expulsa da sinagoga não mais se identifica, por isso “dos judeus”).

6,5-9. Jesus foca na “multidão” e envolve a comunidade através de Felipe, representando as controvérsias que dividam a comunidade (é de Betsaida, como André e Pedro e promove o diálogo/conversão do Fariseu Natanael, superando o preconceito em relação às pessoas da Galileia; cf. 1,44-48). Também Felipe, depois, participa na controvérsia cristológica quando diz “mostra-nos o Pai e isso nos basta” (14,8).

6.10-13. Jesus apresenta o método da comensalidade:

  1. a. cria um “foco” comum de ação pedindo para as pessoas sem diferenciar “mulheres e crianças” como em Mateus (antropos/seres humanos) se assentarem, lembrando do número, certamente referência dos Evangelhos Sinóticos (Mt 14,21; Mc 6,44; Lc 9,14);
  2. b. celebra a Eucaristia (“dando graças”, eucaristésas, mesmo termo usado em Mc 8,6 – para a mesma ação – e em 14,23 para o Sacramento; cf. Mt 26,27; Lc 22,17.19).

6.11-15. De novo fazendo referência às narrativas dos Sinóticos, indica que sobraram doze cestos (um número sempre simbólico) indicando que este método é capaz de reunir todas as comunidades de discípulas e discípulos (cf. Mc 6,43; Mt 14,20; Lc 9,17).

A contribuição da comunidade joanina ao método da comensalidade

O Quarto Evangelho resgata o método da comensalidade já apresentado nos Sinóticos. Esta comunidade que percebe melhor a pluralidade dentro de fora da comunidade de fé, e que conhece as agruras da divisão e da perseguição, enfatiza que a mesa da partilha, que é ao mesmo tempo concreta – alimentando a quem tem fome de pão – e simbólica – alimentando a quem tem fome do amor de Deus, é capaz de unir as pessoas em sua diversidade.

Relação com os outros textos do Domingo

A narrativa de 2 Rs 4,42-44, levanta o milagre da partilha através do profeta Eliseu, algo semelhante ao que acontece com Elias, viúva de Serepta e seu filho (1 Rs 17,9-14). Não se trata de magia, mas da confiança de que através da partilha pode se transformar o mundo onde as pessoas acumulam riqueza sozinhas e morrem de fome sozinhas. Na leitura de Efésios se apresenta o princípio: “com toda humildade e mansidão, e com paciência, suportai-vos mutuamente em amor”, sendo que o termo “suportar” corresponde à palavra grega “anexo” que é a união de “ana” (entre) e “exo” (ter), o que seria “ter entre, ou ter mutuamente”. Portanto, não há como viver o amor sem partilhar o que temos, o que somos, em comunidade.

 

 

16º Domingo do Tempo Comum

Dia: 18 de julho de 2021
Primeira Leitura: Jr 23,1-6
Salmo: 23/22,1-3a.3b-4.5.6
Segunda Leitura: Ef 2,13-18
Evangelho: Mc 6,30-34

 

Mc não nos informa sobre o êxito da primeira experiência missionária dos apóstolos e tampouco nos diz o que Jesus teria feito neste intervalo. Sua intenção é mostrar a estreita ligação entre a ação dos Doze e o Mestre que é o ponto de referência para seu ministério.

O v. 30, com sua breve menção sobre o retorno dos apóstolos, se relaciona com o relato da missão.  É o único caso no qual Mc denomina os Doze como apóstolos. O seu status de ser-estado-enviado é realçado. A obra e o ensinamento dos enviados, “tudo o que tinham feito e ensinado”, se refere a 6,12s.

Em 1,35.45 encontramos o retiro a um lugar solitário como motivo redacional. Também a multidão que acorre (6,33), pode ser considerada frequentemente como uma preocupação do evangelista (2,2; 3,7s.20; 4,1s). O fato de eles não encontrarem tempo para comer é uma anotação que havia sido feita de forma introdutória em 3,20 a propósito de Jesus e de seus discípulos.

Segundo Mc, a partida a um lugar solitário tem sua origem na intenção de Jesus de procurar para os discípulos um pouco de refresco e repouso. Este gesto muito humano encontra em Mc uma explicação típica: eram tantas as pessoas que acorriam que eles “não tinham tempo nem de comer” (v.31). A solicitude de Jesus em conceder aos apóstolos um pouco de repouso é anotada só por Marcos.

Jesus e seus discípulos partem sobre a barca e são notados por muitos. A grande multidão é mais rápida que a barca e a precede (v.32). As pessoas que têm sucesso em chegar antes que a barca, se colocam em singular contraste com os discípulos que, na barca, não conseguem preceder Jesus (cf 6,45s).

O v. 34 fazendo referência ao ensinamento de Jesus, subordina a misericórdia de Jesus ao seu ensinamento. Descendo da barca, Jesus se dá conta da grande multidão. A sua misericórdia é mais que uma simpatia humana. Como no Antigo Testamento, a misericórdia é uma qualidade de Deus. Na(s) atitude(s) de Jesus se anuncia a compaixão de Deus pelos seres humanos.

A motivação geral se serve da imagem das ovelhas e do pastor. A ideia do rebanho sem pastor foi usada frequentemente na Bíblia. Como acusação, atinge os pastores que esqueceram seu dever (Jr 23,1; Ez 34,5; 1Rs 22,17) ou faz o povo compreender a punição divina (Zc 13,7). Moisés havia providenciado a nomeação de seu sucessor “para que a comunidade de Iahweh não seja como um rebanho sem pastor” (Nm 27,17).

Relação com as outras leituras

A Primeiera Leitura e o Salmo refletem essa realidade da importância do pastoreio como imagem escatológica do Pastor que reúne e guia o povo de Deus com ensinamento, oferecendo-lhe comida. Ao tema do pastor ausente ou malvado, a liturgia contrapõe a compaixão de Jesus para com a multidão.

A observação em Mc 6,34 que Jesus começa a ensinar o povo, indica em que coisa consista, antes de tudo, a sua atividade de pastor. Assim fazendo, o milagre que vem a seguir (banquete da multidão em 6,35-44) é colocado sob uma luz precisa, o milagre é subordinado ao ensinamento e inserido nele.

 

 

15º Domingo do Tempo Comum
Dia: 11 de julho de 2021
Primeira Leitura: Am 7,12-15
Salmo: 85/84,9ab-10.11-12.13-14
Segunda Leitura: Ef 1,3-14
Evangelho: Mc 6,7-13

O evangelho deste domingo pertence ao bloco conhecido como “Jesus e os discípulos” (6,6b–8,30). Para compreendermos bem o trecho que lemos nesta liturgia (6,7-13) e sua conclusão no próximo domingo (6,30-34), é necessário observar que Marcos usa a técnica das intercalações. Esta técnica consiste em inserir, entre o início e o fim de um episódio, outra cena. No nosso caso, ele insere outras duas narrações – Herodes ouve falar de Jesus (6,14-16) e a decapitação de João Batista (6,17-29) – com a finalidade de dar um tempo para que o processo chegue a seu fim: Jesus envia os doze (vv. 7-13), os doze retornam da missão (vv. 30-32).

V. 7a: E convocou os Doze e começou a enviá-los dois a dois. Em 3,13-15, Jesus havia constituído sua comunidade com duas finalidades: “para que estivessem com ele, para enviá‑los a pregar”. Até agora, o evangelho havia narrado o aprendizado com Jesus: “estar com ele”. Chegou o momento de os discípulos partirem em missão.

Por que enviá-los “dois a dois” (v.7b)? Já no Antigo Testamento, para uma afirmação ter credibilidade, era necessário o testemunho de ao menos duas pessoas (Dt 19,15). Tal prática foi assumida no início da Igreja, para dar à palavra proclamada peso e valor. É também um modo de dizer que as comunidades dão testemunho de igualdade e de solidariedade.

Ao enviar seus discípulos, Jesus lhes dá autoridade sobre os espíritos impuros. Devemos notar que não se fala de expulsar demônios, mas apenas de autoridade sobre os espíritos impuros. Ao evitar o termo “demônios”, o autor quer incluir também os próprios enviados: eles devem controlar seu próprio fanatismo e suas pretensões de superioridade sobre o povo. Tais sentimentos são obstáculos para o anúncio da boa nova

Nos vv. 8-9, um pequeno elenco de recomendações: Ordenou-lhes que não levassem nada no caminho, a não ser um bastão: nem pão, nem sacola, nem dinheiro no cinturão; mas, fossem calçados de sandálias e não usassem duas túnicas. Tais diretrizes podem ser lidas na perspectiva social: bem mais do que despojamento, o que está em jogo é a proteção da vida dos discípulos missionários. Nos tempos de Jesus, as estradas regionais que ligavam as aldeias eram muito perigosas: além de frequentadas também por animais selvagens que poderiam atacar os viajantes, os caminhos eram campo aberto para ladrões, bandidos armados e arruaceiros. Portanto, a sacola com dinheiro e os pertences extras despertariam o interesse dos salteadores, como se vê na parábola do samaritano misericordioso (Lc 10,30). O bastão era para autoproteção, contra animais e eventuais agressores.

V. 10: Onde quer que entreis numa casa, ficai ali até sairdes de lá. Na tradição judaica, a hospitalidade era muito valorizada. O Antigo Testamento apresenta Deus como o anfitrião que protege e alimenta seu povo no deserto (Sl 23). Por tal razão, Israel considera uma obrigação demonstrar hospitalidade para com os estrangeiros. Para o judaísmo antigo, este era um compromisso supremo, que deveria beneficiar sobretudo pobres e estrangeiros. A orientação dada por Jesus supõe que o senhor da casa proteja e alimente os discípulos missionários. Como agradecimento, o hóspede, se tivesses condições, agradecia com um presente; caso contrário, deixava apenas uma oração e uma invocação de bençãos.

V. 11: Sacudi a poeira da sola dos vossos pés em testemunho contra eles. Trata-se de um gesto de ruptura (At 10,51), isto é, daquela casa, povoado ou cidade que não pratica a hospitalidade e se recusa a receber o Evangelho, não se leva nada, nem mesmo a poeira grudada na sola dos calçados. Esta é uma ação simbólica, feita para levar o povo local a pensar; uma ação simbólica bem mais eficaz do que um ato de violência verbal.

V. 12: E saindo, eles proclamaram que se convertessem. O evangelista não diz o nome das aldeias, nem quanto tempo dura a missão; apenas que se colocam a caminho. Este anúncio, porém, não está explicitado no v. 7, que descreve o conteúdo da missão como “deu-lhes autoridade sobre os espíritos impuros”. O leitor agora é informado que o foco da missão não é a multiplicação de milagres e exorcismos, e sim o arrependimento. As curas e a expulsão dos muitos demônios (citados explicitamente somente no v. 13) são ações potenciadoras do anúncio, mas não o elemento mais importante e necessário.

14° Domingo do Tempo Comum
Dia: 04 de Julho de 2021
Primeira Leitura: Ez 2,2-5
Salmo: 123/122,1-2a.2bcd.3-4
Segunda Leitura: 2Cor 12,7-10
Evangelho: Mc 6,1-6

 

Evangelho

O relato poder ser a continuação lógica de Mc 3,20-35, quando Jesus se confronta com os familiares. Aqui ele se confronta com os conterrâneos de Nazaré e os parentes são novamente citados, agora, até pelo nome.

A perícope faz ligação com a seção dos milagres (4,35-5,43) e a seção da incompreensão (6,7-8,26). Reflete o ensino que se prolongará na próxima seção (v.2-3a) e os milagres da seção anterior (v.3b). Tanto o ensino, como os milagres impressionam, porém isto se choca com a imagem de Deus que os conterrâneos têm oriunda do Antigo Testamento. Eles professam um Deus forte, todo poderoso, justiceiro e vingador, cujo nome – Yahweh – não se poderia pronunciar. Daí resulta que o messias por ele enviado, deveria se enquadrar neste mesmo conceito: forte, imbatível, vingativo e justiceiro. Um messias vencedor.

Jesus, nem de longe se enquadrou nesta ideia de Deus e, por isto mesmo, sua função de messias, também nada tinha a ver com tal concepção. O messias, pensavam seus conterrâneos, vem de lugar desconhecido (Jo 7,27). Ele, no entanto, é o carpinteiro de origem humilde e conhecida. É citado como o filho de Maria, o que pode ser um desprezo, pois israelita que se preza é citado como filho de varão. Citar a mãe, indica viuvez da mesma, ou alguém que nem nome de pai tem. Não obstante sua origem humilde, ele realiza sinais (ensino e milagres) que causam espanto. Daí o escândalo. Sabem que Jesus nunca estudou (Jo 7,15) e acreditam que Deus não permite a um pecador fazer milagres (Jo 9,31). Como entender tudo isto? Pode, Deus se manifestar numa pessoa tão simples e frágil assim?

Esta cosmovisão religiosa dos conterrâneos foi o grande empecilho para aderir a Jesus, pois tal adesão, além de exigir conversão de mentalidade, exige fé. Sem a fé, nem o ensino e, menos ainda os milagres levam a aceitar Jesus. Os milagres nunca foram, em Jesus, espetáculos para convencer curiosos do sobrenatural. Sem a fé, os milagres não existem. Por isto, diante da incredulidade dos conterrâneos, Jesus ficou sem fazer milagres. Os conterrâneos não conseguiram entrar na lógica da cruz (1Cor 1,22-25). Sua messianidade não é apenas a encarnação humana, mas inserir-se na última situação em que vivem os humanos: a fraqueza desde o nascimento até a cruz. Diante disto se constata que o povo simples adere (Mc 1,22; 2,1ss; 3,20s), mas outros se recusam: as autoridades (Mc 3,6), os parentes (Mc 3,20ss), os conterrâneos (Mc 6,1ss). Talvez se possa explicar esta adesão/recusa de duas maneiras. 1) o povo simples sofre e por isto procura libertação; 2) o povo não estava tão condicionado pela teologia oficial que afastava o povo de Deus e Deus do povo. Já a elite, com sua visão teológica viciada, incorreu na frase de Is 6,9-10: tem olhos e não veem e, ouvindo, não entendem (Mc 4,12).

Jesus já ensinara na sinagoga de Cafarnaum (Mc 1,21ss). Tanto lá, como em Nazaré, ele ensina e causa boa impressão. Marcos não diz o que ele ensinava, mostra apenas o ensino com a prática libertadora. O texto paralelo de Lc 4,14-30 traz algumas ideias do seu ensino. Nazaré é a última ida de Jesus à sinagoga. Mais tarde, irá ao templo para o confronto final (Mc 11-12). Tanto no encontro com os parentes, como no presente relato, encontra-se um eco daquilo que mais tarde, nos anos 90, o quarto evangelho escreve: “Veio para o que era seu, mas os seus não o acolheram” (Jo 1,11).

Relação com as outras leituras

O profeta Ezequiel, apenas um filho de homem, mero homem, foi enviado aos israelitas para lembrar a palavra de Deus. Devido a sua humilde condição, não o ouvirão, como também os conterrâneos de Jesus. Estes, como aqueles, desprezam os apelos de Deus que se manifestam nos pequenos. O mesmo se percebe em Paulo que, não se gloria de suas grandezas, mas justamente de suas fraquezas. Ele mostra que Deus não precisa de homens fortes para realizar seus planos. Ele não escolhe os autossuficientes, mas dá a graça aos fracos e com eles realiza seus desígnios salvíficos. Esta é a lógica de Deus que se revela nas três leituras da liturgia deste domingo.

 

         13º Domingo do Tempo Comum

27 de junho de 2021
Evangelho: Mc 5, 21-43
Primeira Leitura: Sb 1, 13-15; 2, 23-24
Segunda Leitura: 2 Cor 8, 7.9.13-15
Salmo: 30/29, 2.4.5-6.11.12a.13b

 

Particularidades da narrativa em Marcos em relação aos demais sinóticos.

Esta narrativa que inclui a “Mulher com hemorragia” e “Jairo e Talita” apresenta uma construção particular. Possivelmente originada no Evangelho da comunidade de Marcos, também se apresenta nos outros sinóticos (Mt 9,18-26, Lc 8,40-56). Sendo assim, foi uma tradição comum, introduzida primeiramente por este Evangelho. Acontece que a comunidade de Mateus não se interessa tanto por esta narrativa e a apresenta de forma resumida, omitindo especialmente os detalhes referentes a Jairo (o diálogo com Jesus), os discípulos que lhe acompanharam ao aposento da menina e a ordem para que lhe dessem de comer, entre outros. Já Lucas se aproxima mais da narrativa da comunidade de Marcos, apenas omitindo as palavras em aramaico “Talita cumi” (Mc 5,41). Então, qual seria a intensão da comunidade de Marcos e manter com tanta fidelidade esta costura narrativa ao ponto de incluir a expressão em aramaico?

A costura narrativa e o sentido da inclusão além do “senso comum”

Marcos 5,21-43 apresenta dois milagres, ambos envolvendo mulheres, literalmente costurados em uma única narrativa, o que não pode ter sido por acaso. A costura é feita através de expressões estruturantes:

A- As apresentações – (v.21-26) Jesus passa para “o outro lado”, encontra “muita gente comum” (óxlos polús) em contraste como o “chefe/primeiro/principal da sinagoga” (archisunagógon) “Jairo” que “cai aos seus pés”. No versículo 23 é apresentada a “pequena/jovem filha” (tugáter).  Jesus vai junto com este homem, sendo seguido/acolitado (ekouloútei) e “apertado” pela “muita gente comum”. “Uma mulher que tinha um fluxo de sangue há doze anos” é apresentada. E logo se narra seu sofrimento, passando por muitos médicos (iatros), gastando/perdendo tudo o que tinha, e ficando ainda pior. Mas a chave simbólica está no número de anos!

B A primeira ação questionada pela presença da multidão – (v.27-33) Dá-se a primeira ação: a mulher anônima se apropria da bênção tocando nas vestes. Aqui aparecem novos personagens: os discípulos, que questionam Jesus sobre a reação após ser tocado pela mulher.

C – A fé exemplar da pessoa que excluída que se torna filha - (v.34-35) A mulher conta o que fez e sua fé é reconhecida por Jesus, chamando-a de “pequena/jovem filha” (o mesmo termo usado para a filha de Jairo em 5,23).

B’ – (v.35-37) – A segunda ação questionada pela morte da filha -  Chega a notícia da morte que a “pequena/jovem filha” está morta e, diante do que as pessoas da sinagoga questionam sobre a necessidade de “incomodar o Mestre” (em Marcos, Jesus é chamado de “Mestre” 12 vezes, estando apenas atrás de Lucas, 18 vezes). Com o apelo à fé (que a mulher já demostrou ter): “não tenhas medo, somente crê” (v.36b). Escolhendo, os mesmos discípulos que lhe acompanharam no monte da transfiguração (v.37; cf. 9,2).

A’ – (v.37-43) – A apresentação da menina/mulher -Agora a “pequena/jovem filha” é chamada, por primeira vez, de “menina” (paidou), o que corresponde ao termo aramaico “Talita” (v.39.40.41). Mencionando que a menina tinha doze anos, isto é, estava se tornando “mulher” (próxima ao tempo da menstruação).

Como vemos na descrição da costura narrativa apresentada acima, ela carrega o enfrentamento da incompreensão do sentido inclusivo da fé. A situação apresentada por estas mulheres/filinhas e seus desdobramentos é a forma de Jesus ensinar sobre isto, por isso é chamado de Mestre (didaskalon). O número doze une ambas as situações, ambas ações, o grupo dos discípulos e, portanto, a missão da comunidade de Jesus como um todo. É uma lição que se aprende a partir das pessoas anônimas, quando se está no meio das pessoas simples, quando se atravessa “para outro lado”, daquilo que o “senso comum” (o que geralmente é aceito como “normal” ou “possível”). Daí os questionamentos tanto do grupo de discípulos quanto do grupo da sinagoga. Se estabelece, então, o direito de ir além do senso comum! A mulher, embora tremendo de medo, se atreve a tocar nas vestes e tem sua fé reconhecida como capaz de promover cura, vida e inclusão. O chefe da sinagoga tem de suplicar, superar o medo, ter fé, para que sua filinha seja salva, o que só acontece quando Jesus revela a capacidade de levantar por si mesma, assumindo, inclusive, sua identidade e ancestralidade cultural, aramaica, daí a importância da expressão: “Talita cumi”.

A relação com os outros textos para este Domingo

O livro de Sabedoria aponta para o sentido vital de tudo o criado, inclusive tendo sentido terapêutico, assim como o sentido vital da existência humana. No entanto, este princípio sapiencial só é possível quando as pessoas antes excluídas, silenciadas, mantidas no anonimato, são reconhecidas em suas ações, que se atrevem a furar o cerco da exclusão e se negam a aceitar a morte como realidade insuperável. Na Segunda Carta aos Coríntios, neste sentido, chama a atenção a sensibilidade da igreja dos primeiros tempos em relação as exclusões e desigualdade a serem superadas pelo “sincero amor”, quando afirma: “Não se trata de que outros vivam tranquilamente e a vocês falte, mas que haja igualdade” (2 Cor 13-14a).

 

 

12º Domingo do Tempo Comum
Dia: 20 de junho de 2021
Primeira Leitura: Jó 38,1.8-11
Salmo: 107/106,23-24.25-26.28-29.30-31
Segunda Leitura: 2Cor 5,14-17
Evangelho: Mc 4,35-41

 

No início da perícope Marcos se preocupou em criar uma ligação com a cena anterior da grande pregação no lago. A barca com a qual Jesus atravessa o lago é a mesma que havia lhe havia servido de púlpito. As outras barcas presentes não serão mais mencionadas. A tarde que termina (escuridão que chega) funciona como pano de fundo eficaz ao relato.

O milagre da tempestade acalmada evoca a luta primordial de Deus contra o oceano, concebido no Antigo Testamento como aquele que devorava os seres humanos, submergindo-os no abismo. Somente Deus pôde domá-lo com a sua onipotência quando criou o mundo. Por isso a primeira leitura traz o discurso que o Senhor faz a Jó.

O relato apresenta numerosas afinidades com a história de Jonas e relaciona-se com salvações milagrosas proclamadas no Sl 106. Na descrição é recorrente o motivo do poder do Senhor sobre ondas, tempestades e sobre o mar, repetidamente descrito e celebrado no Antigo Testamento. Domina a ideia que Deus salva da angústia: “Na sua angústia invocaram o Senhor, e Ele salvou-os da aflição. Transformou o temporal em brisa suave, e as ondas do mar amainaram” (Sl 106,28).

Literariamente a perícope tem afinidades com o relato do primeiro exorcismo operado por Jesus na sinagoga de Cafarnaum (1,21-28). Os elementos, vento e água, se rebelam. Jesus ordena que se acalmem e eles obedecem. Temos aqui um autêntico exorcismo sobre as forças “diabólicas” do vento e do mar.

O episódio assume um forte sentido cristológico: Jesus será submerso na tempestade da Paixão, a sua morte é aqui simbolizada pelo sono. A tempestade acalmada preludiava sua vitória sobre a morte. Cristo ressuscitado salva a humanidade das jornadas de abismo, doando a vida eterna.

Com a tempestade, descrita em detalhes, a barca é ameaçada de afundar. Em contraste com tudo isso, Jesus dorme na popa do barco. Seu sono é expressão da sua soberania e segurança. Contrariamente a Jesus, os discípulos estão excitados e o acordam com uma imprecação.

Além do acentuado caráter cristológico, percebe-se no relato uma intenção eclesiológica. A repreensão pela falta de fé dirigida por Jesus aos discípulos que estavam com ele na barca é endereçada pelo evangelista aos cristãos da sua comunidade desacorçoados no seu amor a Cristo. Note-se que a repreensão de Jesus no v.40: “Por que tendes medo? Ainda não tendes fé?” soa como resposta à repreensão que os discípulos haviam dirigido a ele anteriormente (v. 38): “Mestre, não te importa que pereçamos?”

Com os vers. 39-41 chega-se à culminação do drama. Jesus não reage ainda à bronca dos discípulos, mas pronuncia a palavra milagrosa. Aqui a tempestade e o mar são interpelados como seres viventes e lhes é ordenado de acalmarem-se.

É importante observar que a autoridade atribuída no Antigo Testamento a Javé (a prerrogativa de aplacar as tempestades era exclusiva do Criador), é concedida a Jesus, o qual não faz acontecer o prodígio por meio de uma oração, mas pela plenitude do seu poder. Somente depois de haver completado o milagre Jesus se dirige aos discípulos. Lamentando-se pela sua pusilanimidade e incredulidade. Onde está, então, a verdadeira falha dos discípulos? O seu erro consiste em pensar somente em si e não estarem prontos a partilhar os perigos entre eles e Jesus. A situação se repetira na sua fuga da Cruz. No comportamento de Pedro em Mc 8, 32s se exprime o mesmo espírito.

Os discípulos descritos por Marcos tornam-se um exemplo de advertência para a comunidade não cair não mesma incredulidade.

A incredulidade inicia onde os cristãos, por pusilanimidade e medo, não estão disponíveis a assumir os perigos junto com Jesus e com as outras pessoas. Quem crê segue Jesus na obscuridade do sofrimento. Assim, pode também esperar em comunhão com a Igreja.

 

 

11º Domingo do Tempo Comum
Dia: 13 de junho de 2021
Primeira Leitura: Ez 17, 22-24
Salmo: 92/91, 2-3.13-14.15-16
Segunda Leitura: 2 Cor 5, 6-l0
Evangelho: Mc 4, 26-34

 

O Evangelho de hoje conta duas parábolas. A parábola, no mundo judaico, era a forma para ensinar o povo simples. Mas a parábola ao mesmo tempo que revela, esconde, porque é sempre uma comparação com imagens. Só entende a parábola quem conhece as imagens. Quem conta a parábola parte de uma realidade conhecida pelos ouvintes e os leva a tirar uma conclusão, por vezes julgando os fatos e os personagens da história contada.

As parábolas do evangelho deste domingo apresentam dois aspectos do Reino de Deus. Na primeira parábola, um aspecto individual (Mc 4,26-29); na segunda parábola, um aspecto comunitário (Mc 4,30-34). As duas parábolas de hoje falam do ambiente rural, pois a maior parte da população da Judeia nos tempos de Jesus morava e trabalhava no campo. Para compreendê-las melhor, é necessário ter algumas informações.

As duas parábolas falam de um solo fértil. Nos tempos de Jesus, os terrenos mais férteis e produtivos encontravam-se na Galileia. Aliás, é onde Jesus reúne uma multidão para ensinar em parábolas (Mc 4,1).  Mas já havia naquele tempo uma concentração de propriedades rurais, em modo semelhante ao que hoje chamamos de “latifúndios”. Em alguns casos, os donos viviam longe (na Judeia ou até mesmo em Roma) e quem trabalhava a terra eram os diaristas, que recebiam baixos salários: uma dacma grega ou um denário romano. Ambas as moedas tinham valor equivalente: cerca de 4 gramas de prata (menos de R$ 20,00!). Este dinheiro era suficiente apenas para alimentar quatro pessoas por um dia.

A primeira parábola (4,26-29) é exclusiva de Marcos, isto é, não é encontrada nos outros evangelhos. Nela, o Reino de Deus é como o homem “que joga a semente na terra”. Devemos notar: é como o agricultor, e não como a semente. Não obstante, o desenvolvimento do Reino é um mistério: não depende do agricultor, e sim da força da terra: “Quer ele durma, quer desperte, noite e dia, a semente germina e cresce” (v.27). Isso não significa que a parábola estimule a acomodação e a preguiça; ao contrário, convoca à esperança: a semente semeada produzirá frutos e haverá colheita, pois o Reino tem sua própria dinâmica e sua própria força, independente dos conhecimentos e da vontade de quem trabalha por ele.

Para os hebreus, desde a germinação até o amadurecimento das plantas, o sucesso da lavoura dependia de uma intervenção direta de Deus. A colheita, portanto, era um dom divino. Por meio desta parábola, Jesus expressa sua certeza de que o Reino de Deus chegará, porque é obra do próprio Deus. A ação de quem se compromete com o Reino não substitui a ação de Deus: o discípulo planta, rega, mas quem dá o crescimento é Deus (mesma imagem usada por Paulo, em 1Cor 3,6). Por outro lado, Deus também não dispensa a colaboração das mulheres e dos homens comprometidos com a transformação da história e da sociedade.

A primeira parábola termina com a afirmação de que, “quando o fruto está pronto, imediatamente passa‑se a foice, porque chegou a colheita” (v. 29). O símbolo da colheita tem grande significado na tradição bíblica: é o tempo da festa e da alegria, é o tempo em que Deus presenteia seu povo com os frutos (Is 9,2; 17,5-7).

A segunda parábola (vv. 30-32) não fala da semente em geral, mas fala especificamente do grão de mostarda. Também não fala do crescimento misterioso do Reino, mas do contraste entre a situação inicial e o resultado. O ponto de comparação não é o sabor da mostarda, mas a força escondida no grão. A interpretação usualmente feita refere-se à menor semente que se torna a maior das hortaliças. De fato, as plantas de mostarda encontradas ao redor do lago da Galileia são arbustos que podem chegar a três metros de altura. Mas talvez haja outra possibilidade de ler esta parábola.

O escritor romano Plínio, o velho, (23-79 d.C.) escreveu que a mostarda, com seu sabor extremamente picante, era uma planta silvestre que se propagava e fugia rapidamente do controle, principalmente nas terras férteis da Galileia. O grão minúsculo era levado pelos ventos e os pés de mostarda se multiplicavam a ponto de ocupar as terras em que não era desejada e impedir o crescimento de outras plantas.

A mostarda, portanto, tem ao menos três características – o sabor marcante, o crescimento acima do aparente e a expansão além do terreno semeado – que ajudam a compreender a força do Reino de Deus: embora a ação dos cristãos seja modesta e aparentemente inútil, o Reino se realizará com toda a sua grandeza. Para quem espera um reino que chega em modo triunfal e com cataclismos cósmicos, Jesus afirma que a ação de Deus já está acontecendo, no ministério humilde e pouco espetacular dos discípulos.

Os vv. 33-34 são a conclusão do discurso parabólico do capítulo 4 do evangelho de Marcos. Devemos notar a diferença entre “multidão” e “discípulos”. A multidão é o povo em geral, que seguia Jesus e que, apesar de ouvir seus ensinamentos, não se comprometia com ele. Os discípulos são os que pertencem a um grupo mais próximo, que acompanha Jesus e recebe uma instrução mais aprofundada.  O texto não diz que Jesus fala o que o povo quer ouvir, nem o que o povo tem a capacidade de aceitar. Ao contrário, Jesus usa a linguagem que o povo entende até mesmo para repreender o povo. Mesmo assim, para a multidão, as parábolas permanecem um certo enigma, porque ao mesmo tempo em que revelam, escondem. Aos discípulos, porém, Jesus reserva um ensinamento mais explícito: desde o início, ele os prepara para a missão.

 

 

10º Domingo do Tempo Comum
Dia: 06 de Junho de 2021
Primeira Leitura: Gn 3,9-15
Salmo: 130/129, 1-2.3-4ab.4c-6.7-8
Segunda Leitura: 2Cor 4,13-5,1
Evangelho: Mc 3,20-35

Evangelho

O texto, como também o relato da filha de Jairo (Mc 5,21-43), vem na forma de sanduíche. Começa com o confronto com parentes (20-21), intercala o conflito com os escribas (22-30) e volta a falar dos parentes (31-35).

Para a compreensão do texto convém começar com a contraposição dos de dentro da casa que ouvem Jesus (v.20) e os de fora (v.31ss) que não ouvem. Os de dentro compreendem, os de fora, não (Mc 4,11). O povo simples entra na casa, como já o fizera em Mc 2,1ss para ouvi-lo, mas os consanguíneos ficam de fora e o julgam sem juízo. A lógica do Reino não é compreendida pelos laços familiares, mas por aqueles que acolhem Jesus e fazem a vontade do Pai que ele revela.

A nova família difere da velha. Na primeira importa a descendência de Abraão: laços sanguíneos. Na segunda, o que importa é aproximar-se de Jesus e fazer a vontade de Deus. Os da nova família, entram dentro da casa e se aglomeram para ouvir sem os critérios da oficialidade religiosa. Estão ávidos de assimilar a Boa Nova. Os da velha família de sangue, ficam fora, distantes, pois julgam a prática de Jesus como loucura. Qualquer semelhança com os irmãos da parábola do filho pródigo (Lc 15,11ss) não é mera coincidência. O filho mais velho, o que pratica a Lei, tem dificuldades diante da Boa Nova de Jesus que revela um Deus diferente daquele da religião oficial. Diante desta realidade, formam-se outras relações: nova família. Nesta não se entra por descendência, mas tão somente pela acolhida de Jesus e de seu evangelho.

O conflito com os escribas (22-30) é mais uma vez o conflito com a oficialidade religiosa. Para eles, a Boa Nova (Mc 1,1) destinada aos pobres e excluídos (cf. Lc 4,18-19) é um escândalo, por isto, atribuem-na a Beelzebu (Beel é uma variante de Baal, deus cananeu). Quando a Boa Nova da libertação dos sofredores é encarada como obra do diabo, então a pessoa que assim procede, cortou o canal de graça que vem de Deus por seu Filho que age no Espírito Santo (Mc 1,10). Isto é um pecado contra a ação do Espírito Santo que se manifesta em Jesus. Pecado este, que não tem perdão. Isto não significa que, quem uma vez assim pecou está irremediavelmente condenado ao inferno. O que o texto quer dizer é que todos os pecados que se cometa, podem ser vistos como lapsos, fraquezas e por isto mesmo, passíveis de perdão. Quem, porém, se fechar contra a Boa Nova de Jesus e atribuir isto ao demônio, a não ser que mude, rompeu com a graça, isto a lógica do Reino. Esta pessoa se auto exclui, e assim não chega ao perdão. Note-se que, neste caso não é Deus que condena, é a pessoa que se fecha ao amor de Deus.

Na resposta que Jesus dá aos escribas sobre entrar na casa do homem forte, amarrá-lo e saquear seus bens (v.27) está o ensino de que Jesus entra na posse do diabo (homem forte) e como mais forte do que ele, amarra-o e o vence (cf. Is 49,24s), como também o dirá em Jo 12,31 e 16,11, quando o príncipe deste mundo será derrotado: “eu venci o mundo” (Jo 16,33b). Ou seja, Jesus, na cruz, destruiu o que o demônio havia amealhado.

A Boa Nova de Jesus (Mc 1,1) é incompreendida, tanto pela parentela que quer detê-lo – nota apenas trazida por Marcos – como pelos escribas que, mais do que incompreendê-lo, atribuem sua ação ao demônio.

Reação com as demais leituras

Não entrar na lógica de Deus já foi um problema nas origens. Adão e Eva queriam prescindir de Deus, como os escribas queriam prescindir da Boa Nova de Deus revelado por Jesus. Isto leva à ruína (primeira leitura). A nova lógica de Jesus também se reflete na reflexão de Paulo quando contrapõem o homem exterior ao interior e nele vê a realização das esperanças cristãs.

 

 

Dia: 30 de Maio de 2021
Domingo da Santíssima Trindade
Evangelho: Mt 28, 16-20
Primeira Leitura: Dt 4,32-34.39-40
Segunda Leitura: Rm 8, 14-17
Salmo: Sl 33/32, 4-5.6.9.18.19.20.22

 

Evangelho

O Evangelho deste Domingo da Santíssima Trindade, segundo Gillermo Hendriksen (El Evangelio según San Mateo) recebe três nomes diferentes: “a grande declaração”, “o grande mandato” ou “a grande consolação”. Na verdade este autor capta bem esse tríplice sentido com que culmina o Evangelho de uma igreja perseguida e abatida pela violência que parece não ter fim. Uma “declaração”, porque anuncia o “poder/autoridade” (exousia) que lhe é dado no céu e na terra (26.18). Um “mandato”, porque tem o “ide/vai” (poreutentes) e “discipulai/fazei discípulos/as” (mateteusate) em 26.19. E uma “consolação”: “estarei com vocês todos os dias até o fim do tempo” (eon).

Podemos dizer que o final do Evangelho segundo a comunidade de Mateus é um abraço trinitário que empodera, envia e anima. Por outro lado, a formulação única da Trindade neste texto – único em que aparece a fórmula “do Pai e do Filho e do Espírito Santo” – chama a atenção e gera questionamentos: como será que esta comunidade chegou a esta fórmula trinitária tão clara e vinculada ao batismo? Certamente, foi fruto deste abraço particular com que Jesus reencontra seus discípulos onde tudo começou: na Galileia.

Não esquecer o ponto de partida (26,16)

O texto faz questão de criar um contexto. Enfim, a declaração, o mandato e a consolação poderiam ter sido ditas em qualquer lugar, até mesmo em Jerusalém. Mas, a Jerusalém que esta comunidade lembra está destruída e banhada em sangue (inclusive de pessoas das comunidades cristãs). No versículo 16, diz que “quando os discípulos foram para Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha ordenado”. Jesus é que “ordena” (etassato) buscar o ponto de partida – princípio depois adotado por Santa Clara de Assis – e a uma montanha onde tudo pode se ver e compreender em amplitude e profundidade (assim como no sermão em Mt 5-7 ou na transfiguração Mt 17.1-9, lugar que é mais lembrado neste Evangelho do que em qualquer outro).

Viver a adoração e superar a dúvida (26,17)

A atitude de “adorar” (proskineo) também é mais usada neste Evangelho do que em qualquer outro. Os primeiro a adorá-lo foram os Sábios de Oriente (Mt 2,2.8.11). Jesus lembra do mandamento de “adorar somente ao Senhor teu Deus” para vencer Satanás (Mt 4.10), às pessoas lhe adoraram pedindo cura para si ou para outras pessoas (Mt 8,2;9,18;15,25), e também os próprios discípulos e discípulas reconhecendo sua divindade e ressurreição (Mt 14,33;20,20, 28,9). Mas, tem aquelas pessoas que ainda duvidavam (edistaxan), uma palavra que aparece somente neste Evangelho e apenas duas vezes, aqui e quando Pedro afundava na água por duvidar (14,31). Esta comunidade tinha fé (adorava), mas isso não apagava a dor, a dúvida, a incerteza, que precisava ser empoderada, enviada para a missão e animada pela presença permanente de Jesus.

O abraço trinitário do discipulado e do batismo (26,18-20)

A revelação da Trindade emerge do abraço amoroso do Senhor Crucificado/Ressuscitado. Desde a montanha onde tudo começou, onde Jesus abraça esta comunidade fragilizada pela dor, cheia de fé e dúvidas, se dá ordem da caminhada final, até o fim deste tempo de violência e injustiça, de desamor e abandono. Por isso Jesus “chega perto”, se “aproxima”, “senta junto”, todos significados da expressão proselton, em grego. Então lhes declara que eles têm, em seu nome, “todo o poder” (contra o qual poder algum poderá, nem mesmo estes que agora causam tanto sofrimento. v. 18), lhes envia a dar esse mesmo abraço parental, fraternal e empoderador. Abraço que se partilha discipulando e batizando, sem exclusão (a todas as nações) e, consolando, pois não acaba enquanto este tempo (eon) carente amor, justiça e paz, durar (v.20).

Relacionando com os outros textos

A Santíssima Trindade é Deus que abraça, da mesma forma que desde a criação abraçou amorosamente a humanidade e depois abraçou o povo oprimido e sem terra, dando um rumo e um sentido para sua caminhada (Dt 4.32-34.39-40). Abraço trinitário que se revela através do Espírito de adoção e não de escravidão que o apóstolo Paulo apresenta para a comunidade de Roma (Rm 8,15-16).

 

 

Pentecostes
Dia: 23 de maio de 2021
Primeira Leitura: At 2,1-11
Salmo: 104/103, 1ab e 24ac.29bc-30.31.34
Segunda Leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13
Evangelho: Jo 20,19-23

O texto do Evangelho de João se compõe de duas partes: reconhecimento de Jesus (vers. 19-20) e mandato missionário aos discípulos com a efusão do Espírito (vers. 21-22). Os dois momentos são articulados através da saudação: “a paz esteja convosco”.

Jesus havia aparecido a Maria Madalena junto ao sepulcro no domingo da ressurreição pela manhã. À tarde comparece, de repente, em um local onde as portas estão fechadas. As portas fechadas são um dado importante para percebermos a concepção que o evangelista quer transmitir de como o corpo de Jesus se transformou a ponto de passar através de portas fechadas. No entanto, mantém a imanência das marcas da crucifixão nas mãos e no flanco.

Jesus aparece aos discípulos para inaugurar o tempo escatológico, marcado pelo dom do Espírito. Ao medo dos discípulos, refugiados num espaço fechado, se contrapõe a liberdade do Ressuscitado que entra de supetão ignorando as portas fechadas.

A expressão “a paz esteja convosco”, repetida duas vezes não é uma simples saudação: expressa a concessão do dom messiânico por excelência, a paz.

Jesus retornou a seus discípulos pouco depois de sua partida, como havia prometido durante a última ceia (16,16-22), mas não no mesmo estado precedente de caducidade terrena, mas com o corpo transfigurado. A paz e a alegria representam os dons preditos pelos profetas para o tempo messiânico. Bastou que Jesus se fizesse reconhecer, mostrando as feridas nas mãos e o flanco perfurado, para os discípulos ficarem “cheios de alegria”. Curioso o fato de não se mencionarem os pés (como em Lc 24,40, em que, no entanto, não se menciona o flanco, em virtude de só em João o flanco de Jesus ser trespassado pela lança do soldado).

Jesus confere aos discípulos o encargo missionário: “Como o Pai me enviou, eu envio a vós” (v.21). Jo estabelece um paralelo entre a missão que Jesus havia recebido do Pai e o mandato que ele agora ele confia aos apóstolos. O advérbio kathōs, “como”, não indica somente semelhança, mas também fundamento. Os discípulos devem continuar a missão confiada pelo Pai a Jesus, tendo ele como modelo e buscando dele a força para seu ministério.

A santificação dos discípulos advém mediante a palavra reveladora de Jesus e a ação do Espírito Santo. Por isso a necessidade da efusão do Espírito como princípio da vida nova e como animador e auxílio indispensável para a missão.

A simetria da expressão ao início dos vers. 20 e 22 (“e dizendo isso”) assinala o nexo estreito entre a ostensão do flanco perfurado e o dom do Espírito Santo: a sua ação é inseparável daquela de Cristo. A efusão do Espírito Santo antecipada simbolicamente pela saída do sangue e água do costado de Cristo representa o ponto culminante da missão de Jesus. O sopro de Jesus sobre os discípulos se conecta ao testemunho inicial de João Batista no Jordão, quando o proclamou: “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo’ e o apresentou como “Aquele que batiza com o Espírito Santo” (1,29.33).

O verbo “soprou” (enephýsēsen = insuflou) evoca a obra da criação, quando Deus plasmou o ser humano com o barro e soprou (enephýsēsen) em suas narinas um hálito de vida, tornando-o um ser vivente (Gn 2,7; Sl 103,29-30; cf. Sb 15,11; Ez 37,9). O gesto em Jo 20,22 significa que Jesus suscita nos discípulos uma vida nova no Espírito Santo. As palavras do Ressuscitado tornam explícito o que fora insinuado na cena do Calvário: o Espírito provém do corpo traspassado e glorificado do Senhor, como seu dom à humanidade. Ele será comunicado plenamente, porém, só em Pentecostes (At 2,1-11).

A perícope se conclui relacionando o dom do Espírito Santo com a remissão dos pecados. Em Jo o poder de “reter” ou “perdoar” os pecados tem como objetivo a reconciliação e o retorno dos pecadores a Deus.

 

 

Domingo Ascenção do Senhor
Dia: 16 de maio de 2021
Primeira Leitura: At 1,1-11
Salmo: 46,2-3.6-9
Segunda Leitura: Ef 1,17-23
Evangelho: Mc 16,15-20

 

Evangelho: Marcos 16,15-20

O relato da ascensão em Marcos faz parte da aparição de Jesus aos Onze, o grupo ao qual Jesus confia a responsabilidade da missão. Onze pessoas não poderiam “ir ao mundo todo”. Assim, a manifestação aos Onze é um relato simbólico da entrega da missão a todas as discípulas/os.

Pregação e batismo vv. 15-16: Jesus não diz explicitamente “batizai”, mas o v. 16 deixa claro que o batizar faz parte da missão dos discípulos. Por outro lado, a combinação “fé + batismo = salvação”, e o contrário “não-fé = não-salvação” lembra o diálogo de Jesus com Nicodemos (Jo 3) e vários trechos de Paulo. O que temos, então, é um reflexo da pregação e da prática do início da Igreja.

Os sinais que acompanharão os fiéis vv. 17-18: São cinco sinais e, exceto a resistência ao veneno, todos são atestados na história e na vida da comunidade primitiva. São sinais que acompanharão os fiéis em geral, e não apenas os Onze. Tais sinais confirmam a palavra anunciada. Confirmação que acontece em quem acolhe, e não apenas em quem anuncia. Apenas um comentário: “falar línguas novas” não significa o “falar em línguas inexprimíveis”. É a afirmação de que os discípulos, para levar o evangelho a toda criatura, deverão aprender a língua dos ouvintes….

Jesus foi elevado ao céu e sentou-se à direita de Deus v. 19: Os discípulos podem ter visto Jesus subindo, mas… sentar-se à direita de Deus? Esta é mais profissão de fé do que algo realmente visto. Ressurreição, ascensão/assunção e instalação à direita do Pai são artigos da fé da Igreja. Quem ofereceu o instrumental para crer nisso foi a literatura apocalíptica: Jesus venceu a morte, foi elevado acima dos poderes humanos e cósmicos, e agora é juiz do cosmo e da história.

Jesus, o Senhor, acompanhava os discípulos v. 20: Parece haver uma contradição: Jesus está nos céus, sentado à direita do Pai, mas ao mesmo tempo acompanha os discípulos na terra. Note-se que não é o Espírito quem acompanha os pregadores, mas o próprio Senhor! Esta “bi locação” de Jesus à direita do Pai e, ao mesmo tempo, junto aos discípulos exprime um ponto forte na fé da Igreja: o fato de Jesus estar no céu, à direita do Pai, permite que ele esteja também com todos os anunciadores do evangelho, algo que seria impossível se ele tivesse permanecido fisicamente na terra. O poder com que operam os anunciadores do evangelho provém, por meio de Jesus, do próprio Deus.

Em outras palavras, a Ascensão não é só o remate necessário para a história terrena de Jesus, mas também o complemento necessário para o milagre da Páscoa: o Homem-Deus, já vitorioso sobre a morte, começa a exercer seu poder de justiça e de paz, e oferece a todos a mensagem da salvação, por meio da pregação das/os discípulas/os.

Primeira Leitura: At 1,1-11

A primeira leitura deste domingo pode ser dividida em duas partes: o endereçamento do livro (vv. 1-2) e a narrativa propriamente dita (vv. 3-11). De fato, no v. 2, em apenas uma linha, Lucas faz um resumo de todo o evangelho. Mas é necessário notar também que, no v. 4, as palavras do narrador, de repente, se transformam nas palavras de Jesus: mandou “que esperassem ‘a promessa do Pai, a qual de mim ouvistes’”. Trata-se de um recurso literário pelo qual o narrador elimina a distância entre o leitor e os acontecimentos que vai narrar.

No v. 5, a distinção “batismo com água x batismo no Espírito Santo” marca a diferença entre o batismo de João e o batismo da comunidade cristã. No entanto, a comunidade cristã continua batizando com água. Sem água não se batiza! Qual a diferença?

A frase “batismo no Espírito Santo” indica que as profecias foram cumpridas, enquanto “batismo com água” é expressão para falar que essas mesmas profecias estão prestes a se realizar. Em outras palavras, “batismo com água” = preparação para o cumprimento das promessas; “batismo no Espírito Santo” = cumprimento efetivo das promessas.

É por isso que os discípulos se confundem e não entendem nada! Jesus fala de uma coisa, os discípulos perguntam por outra. Jesus fala da promessa do reino escatológico; os discípulos perguntam se é naquele exato momento que se cumprirá a promessa de que Israel voltará a ser um reino poderoso, um império (v. 6).

A resposta de Jesus parece mal-educada: “não é da conta de vocês quando será tempo cronológico exato (chrónos) nem o momento oportuno (kairós)…” (v. 7). Em outras palavras: “vocês têm algo mais importante pra fazer do que se preocuparem com isso!” E o que é mais importante? É o testemunho sobre Jesus. Por isso, o v. 8 já emenda a promessa do Espírito Santo, que dará as condições necessárias para isso.

Enfim, a cena específica da Ascensão. Note-se como o acontecimento é descrito: Jesus FOI ELEVADO, uma nuvem O ENCOBRIU (o levou), ele FOI ASSUNTO (vv. 9.11). É necessário lembrar que o mesmo acontece a respeito da ressurreição: é dito que “o Pai ressuscitou Jesus”, isto é, Jesus foi ressuscitado, e não ressuscitou por si mesmo! Convém repetir: trata-se da primeira compreensão da comunidade cristã. Só num segundo momento (mas que não vai demorar muito) é que se passa a enfatizar a ação própria de Jesus: ele ressuscitou (e não “foi ressuscitado”) dos mortos e subiu (e não “foi elevado”) aos céus.

No livro dos Atos, a Ascensão/Assunção de Jesus é descrita em tons apocalípticos: uma nuvem encobre Jesus e aparecem dois homens vestidos de branco.

A nuvem é o típico elemento das manifestações de Deus. Mas é também, na apocalíptica, o veículo do Filho do Homem (cf. Dn 7,13). Paulo acredita que, no dia da parusia, Jesus VOLTARÁ e, com ele, todos os mortos ressuscitados e os vivos irão surfando sobre uma nuvem sabe-se lá para onde (1Ts 4,16-17)!

Os homens de branco são os anjos que sempre aparecem em visões apocalípticas para explicar o sentido dos acontecimentos. Normalmente, quem tem a visão não entende nada e um mensageiro divino precisa explicar tudo. Mas os homens-anjos não explicam nada, e sim fazem uma pergunta e uma promessa: “Por que vocês ficam olhando o céu? Ele voltará da mesma maneira como partiu!”  Em outras palavras, a ascensão-sumiço de alguém provoca a esperança de que tal personagem voltará. As palavras dos homens-anjos garantem que tal esperança será realizada.

Mas, Jesus voltará sobre as nuvens? A apocalíptica diz que sim! No entanto, o importante é o contraste: “não fiquem aí olhando para o alto e babando… voltem o olhar para a terra, porque é a hora da missão…”

 

 

6º  Domingo da Páscoa
Dia: 09 de Maio, de 2021
Primeira Leitura: At 10,25-26.34-35
Salmo: 98/97,1.2-3ab.3cd-4
Segunda Leitura: 1Jo 4,710
Evangelho: Jo 15, 9-17

 

Evangelho

O texto deve ser lido dentro do discurso de despedida de Jesus (Jo 13-17) e, portanto, tem valor de testamento. Alguns biblistas creem que estes capítulos receberam influência das celebrações eucarísticas narradas nos evangelhos sinóticos (Mc 14,22-25; Mt 26,26-29; Lc 22,15-20), onde se renova a Aliança. Ora, a Antiga Aliança era a observância das leis. Jo 15,9-17 ilustra esta observância a partir na perspectiva de Jesus, onde há apenas uma lei: o amor.

A presente perícope é o desdobramento da alegoria da videira verdadeira (Jo 15,1-8). A palavra chave que perpassa a perícope, pode ser definida como “permanecer”: no amor de Jesus, no amor do Pai e no amor da comunidade. O amor, síntese de toda Lei, é o elo  deste “permanecer”. Assim sendo:

a)     Vv 9-10 – o amor entre o Pai e o Filho se expressa na comunidade através dos discípulos que amam. O amor do Pai no Filho produz a comunidade, portanto, nela se faz a experiência do amor de Deus através de Jesus, que é a imagem (Cl 1,15) e o resplendor do Pai (Hb 1,3). Este amor requer da comunidade, frutos. O membro da comunidade que não se deixa atingir pelo amor do Pai no Filho, se exclui a si mesmo como o ramo decepado que não recebe a seiva do tronco;

b)     V 11 – O amor traduzido em compromisso, gera a felicidade, tema muito presente no evangelho de João (Jo 3,29; 14,28) e chega à culminância durante a experiência da ressurreição, quando os amedrontados discípulos se enchem de alegria (Jo 20,20);

c)     Vv. 12-13 – Já no AT existe o mandamento do amor (Lv 19,18). Porém, aqui se substituiu “o amar como a si mesmo” por “amar como eu vos amei”. Este preceito remete à experiência da cruz.  Amor que levou Jesus a assumir a doação total deve ser a máxima para os seguidores. A cruz é a marca maior do amor de Jesus: doar a vida pelos amigos;

d)     Vv.14-17 – O amor de Cristo vivido na comunidade muda as relações de servos em amigos, isto é, comunidade sem distinção com comunhão total. Amigos diferem de servos nas relações. Esta novidade é iniciativa de Jesus, pois foi ele que escolheu os amigos. A estes cabe responder na gratuidade, dando frutos que são a consequência do amor.

Na concepção do AT, havia 623 leis com comentários explicativos que tornavam a prática religiosa um peso insuportável (Mt 11,28) que nem Pedro conseguiu suportar (Gl 2,14). Observando todas estas leis, o fiel estaria cumprindo com fidelidade a vontade de Deus. Jesus, em Mc 12,29-31 resume todas estas leis em dois mandamentos: amor a Deus e amor ao próximo. Já no quarto evangelho ele reduz tudo a um único mandamento: o amor ao próximo, como também em se lê em Gl 5,15. João, porém, acrescenta “como eu vos amei”. Portanto, na nova aliança, não é preciso conhecer 613 leis, nem seus comentários detalhados. Basta apenas permanecer no amor de Jesus, pois assim, sintoniza com o Pai e se produz frutos na comunidade e se cumpre tudo o que a velha Lei nunca conseguiu.

No amor do discípulo, manifesta-se o amor de Deus revelado em seu Filho na doação da vida e aí os frutos serão a lógica do caminho da cruz. Como o ramo produz frutos ao receber a seiva do tronco (Jesus), cultivado pelo agricultor (Pai), a pessoa de fé produz frutos oriundos do amor de Jesus que tem sua origem no amor do Pai. Aqui as boas obras não são méritos humanos para agradar a Deus, mas antes, são as consequências de quem mergulhou no amor de Deus que perpassa toda a vida da comunidade.

Relação com as outras leituras

O amor de Deus manifestado em Jesus (1Jo 4,10) chega a todas as pessoas indistintamente, o que não era assim entendido pelos primeiros discípulos de origem judaica, pois achavam que a salvação era só para os circuncisos. Ora, se este amor gratuito chega a todos, Pedro (At 10,25-26.34-35) é o primeiro a fazer a passagem de uma visão exclusivista e racial para uma nova realidade: o pagão Cornélio, um oficial romano, é admitido na comunidade. É o amor de Deus revelado em Jesus que produz frutos entre os discípulos que agora acolhem a todos.

Dia: 2 de Maio de 2021
5º Domingo da Páscoa
Evangelho: Jo 3, 18-24 ??? Jo 15,1-8
Primeira Leitura: At 9,26-31
Segunda Leitura: 1 Jo 3, 18-24
Salmo: Sl 21, 26b-27.28.30.31-32 

Evangelho

O capítulo 3 do Evangelho de João é um dos lugares onde se trabalham os conflitos entre uma visão humanizada e inclusiva de Jesus e outra visão desumanizada e indiferente em relação à condição humana. A inclusão proposta por Jesus, segundo se apresenta aqui, se dá pela fé, como diz a perícope anterior: “todo aquele que crê”. Crer que se expressa na práxis de amor. A partir do versículo 18, também se fala de quem “não crê”, o que não deve ser interpretado como sendo uma pessoa “ateia”, possibilidade impensada na época, mas aquelas pessoas que não crendo no amor inclusivo de Jesus não entendiam a prática amorosa e solidária como exercício da fé. Vejamos como se apresenta o texto:

A. Quem crê não é condenado, quem não crê é condenado, poia não crê no Filho de Deus (v.18).

B. A prática que quem não crê leva para as trevas, pois quem faz mal odeia a luz contra quem pratica a verdade está na luz (v.19 -21).

A’. O Batismo por Jesus (na Judéia) e o Batismo de João (em Enom) antes da prisão deste último (v.22-24).

O esquema acima evidencia que há, no texto, a abordagem de algumas discussões soteriológicas (de salvação/condenação) e cristológicas (sobre a natureza e missão de Jesus Cristo). O versículo 18 (A) se refere ao “Filho de Deus” e o v. 22 fala “Jesus”. Assim se mostra que não há diferença entre o divino “Filho de Deus” e o humano “Jesus”. É o reconhecimento do sentido completo da encarnação que liberta da condenação. A reconhecer a divindade/humanidade da Palavra Encarnada, ser reconhece que todas as pessoas são igualmente dignas de crer e de dar/receber amor.

No centro (B) a prática excludente e desumana – não solidária que despreza outras pessoas ou sua forma de viver a fé – colabora com as trevas. Pessoas que não conseguem ver a luz, que inclui pela fé condenam-se a viver nas trevas do ódio.

Condenação como consequência da prática excludente

A palavra grega que aqui traduzimos como “condenação” tem o sentido de “julgamento” (do verbo krino que é usado geralmente no sentido de “julgar”). No próprio Evangelho de João, só em 3,17-18 é colocado esta conotação condenatória. Em todas as outras vezes em que é usada, significa “julgar”. Tal sentido é bem claro em Jo 12,47: “E se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo”. Então, a condenação é a consequência de uma prática motivada pelo julgamento exclusivista, excludente, discriminatório. Tais atitudes revelam o não crer, o permanecer nas trevas e não ver o amor de Jesus que vem para salvar o mundo.

O sentido do Batismo

Certamente havia, nas primeiras comunidades cristãs, alguma tensão interna entre o batismo de Jesus e o batismo de João Batista. Possivelmente João não batizava gentios e os seguidores de João Batista, presentes nas primeiras comunidades cristãs, continuavam com esta prática discriminatória. Eles continuavam separando os judeus dos gentios. Estes “separatistas” não negavam a humanidade de Jesus, mas a viam como algo secundário. Para eles Jesus teria passado pela humanidade apenas para salvar o que é eterno.

Para os que se identificam com o batismo de Jesus, este deve ser vivido com a prática inclusiva, humana, solidária da luz, vendendo assim o julgamento excludente das trevas.

Relacionando com os outros textos

Na narrativa lucana dos Atos dos Apóstolos, Paulo enfrenta a barreira de não ser reconhecido como discípulo. Bernabé, solidário com Paulo, o acompanha para que o apóstolo dos pagãos pudesse mostrar, através de sua ação evangelizadora, que era igualmente discípulo de Jesus (9,26-27). A Primeira Carta de João, por sua vez, exorta as comunidades a não amar apenas de palavra, mas com gestos concretos que dignificam e acolhem a todas as pessoas como iguais, pois ali reside a verdade que nos salva, mutuamente, da condenação (1 Jo 3,18-20).

 

 

4º Domingo da Páscoa
Dia: 25 de abril de 2021
Primeira Leitura: At 4,8-12
Salmo: 118/117,1 e 8-9.21-23.26.28cd.29
Segunda Leitura: 1Jo 3, 1-2
Evangelho: Jo 10, 11-18

 

No contexto jubiloso da festa das Tendas, o evangelista sublinha a messianidade e a identidade sobrenatural de Jesus. Na seção 7,1–10,21 há um progresso na revelação do mistério de Cristo, concomitante ao agravamento da hostilidade contra ele da parte das autoridades judaicas. As articulações mais significativas são três: o debate no templo (7,1–8,59); a cura do cego de nascença (9,1-41); o discurso de Jesus sobre o bom pastor (10,1-18).

Os chefes dos sacerdotes haviam expulso o cego curado (9,34), mas ele é acolhido por Jesus (9,35-38), o bom pastor que ama e guia com solicitude. A imagem do verdadeiro pastor, que ocorre frequentemente nas Escrituras (Ez 34; Jr 23,1-6; Zc 11,4-17), é referida a Jesus também nos sinóticos (Mc 6,34; Mt 9,36; 10,6; 15,24; 26,31). Note-se a sugestiva parábola da ovelha perdida (Lc 15,4-7). Jo reelabora de modo original esse tema da pregação de Jesus.

Nos vers. 11-13 vêm ilustrada a imagem do pastor. Jesus se identifica duas vezes com o bom pastor (vers. 11.14) em contraposição à figura do mercenário. O adjetivo grego é kalós (literalmente “belo” = “ideal”, “bom”, “generoso”), que, significando secundariamente “bom”, tem como sentido primário “belo”. Jesus é o “belo pastor” à maneira de Davi, como se lê em 1Sm 16,11-12. Nesse episódio do Antigo Testamento, Samuel pergunta a Jessé pelo filho ausente. Jessé responde: “está apascentando as ovelhas”. Samuel ordena que Davi seja chamado. “Jessé mandou então buscá-lo. Davi era de belo semblante e admirável presença”.

O bom pastor, “se despoja (tithēsin) de sua vida pelas suas ovelhas”, ao invés de “dar a vida”. A terminologia também é usada para as vestes de Jesus na Ceia com os discípulos (13,4). O termo acentua, de modo particular, a liberdade e a voluntariedade e, ao mesmo tempo, o amor e a generosidade. A expressão “despoja” (tithēsin), revela a consciência e a liberdade com as quais Jesus “se despoja” da própria vida como uma veste (13,4.12) para depois retomá-la na ressurreição. Ele expõe a sua vida pelas (hyper, em favor) suas ovelhas. Em oposição, o comportamento do mercenário se contrapõe radicalmente ao do bom pastor.

O evangelista sublinha a bondade do Pastor/Jesus com uma segunda motivação: ele além de expor a sua vida por suas ovelhas, conhece-as, ou seja, ama-as profundamente. Entre o Pastor e as ovelhas subsiste uma comunhão de vida, que possui como modelo o amor recíproco com o Pai. Na linguagem semítica, o sentido de “conhecer” ultrapassa o saber cognitivo, indicando uma experiência concreta de relacionamento íntimo. Este “conhecimento” é desde agora, para nós, a vida eterna (2ª. Leitura 1Jo 3,2).

O v. 16 introduz o tema da salvação universal: todos os povos formarão um só rebanho. A comunidade messiânica será composta por todos aqueles que escutarão a voz de Jesus, crendo nele. O texto fala em mia poimnē,  “um rebanho”. Não se diz “um só aprisco”, porque a unidade não é considerada do ponto de vista externo e institucional, mas interior e dinâmico (genēsontai “haverá”, literalmente “se tornarão)

Nos vers. 17-18 aparece a ideia da plena adesão de Jesus à vontade do Pai. Jesus despoja-se de sua vida com a certeza de poder retomá-la de novo. Nos sinóticos é o Pai que “entrega” o Filho. Em João, Jesus mesmo oferece livremente sua vida. Ele possui o poder de doá-la, mas também o poder/direito de resgatá-la.

A liturgia do 4º. Dom de Páscoa com a 1ª leitura (At 4,11) e o Sl 117,22, ao elencar o tema da pedra rejeitada que se torna pedra angular  faz uma nítida alusão à ressurreição de Jesus.

 

Domingo 3ºda Páscoa
Dia: 18 de 04 de 2021
Primeira Leitura: At 3,13-15.17-19
Salmo: 4,2.4.7.9
Segunda Leitura: 1Jo 2,1-5a
Evangelho: Lc 24,35-48.

 

No capítulo 24, os relatos das aparições do Ressuscitado constituem a solene conclusão do evangelho lucano.  Este capítulo está dividido em três seções: o anúncio da ressurreição às mulheres (vv. 1-12); a aparição aos discípulos de Emaús (vv. 13-35) e a aparição final de Jesus aos onze (vv. 36-53). O autor demonstra duas preocupações: provar que as Escrituras revelam o plano salvífico de Deus em Jesus e atribuir ao próprio Jesus a iniciativa missionária dos discípulos, que marcará a comunidade de Lucas e, de modo mais abrangente, toda a Igreja. Por isso, o evangelista finaliza seu primeiro livro respondendo às dúvidas e dificuldades dos discípulos a respeito da ressurreição de Jesus.

No trecho de hoje, as primeiras palavras que Jesus ressuscitado aos discípulos são “paz a vós” (v. 36). No evangelho de Lucas, o tema “paz” é muito importante e está presente em todo o livro. A palavra grega eirēnē é usada 14 vezes em Lucas e está associada intimamente à ação do Messias: ele guiará o povo de Deus para a verdadeira paz (Lc 1,79), que é dom de Deus a quem é fiel (Lc 2,14.29), mas também é fruto da ação de Jesus como aquele que cura as enfermidades físicas (7,50; 8,48). Por isso, a invocação da paz faz parte da missão dos apóstolos (10,5-6). Estes breves exemplos demonstram que, em Lucas, o projeto de Jesus está intimamente associado à paz.

Para compreendermos mais claramente isso, é necessário situar no contexto do Império Romano não apenas a pessoa e as palavras de Jesus, mas também a comunidade lucana. O Terceiro Evangelho foi escrito em torno do ano 85 de nossa era. A dominação romana era fortemente propagandeada como “pacificação”: Roma impuna a chamada Pax Romana, um projeto de paz caracterizado pela submissão dos que se opunham à dominação imperial, uma paz manchada de sangue, garantida pela força das armas e pelo acúmulo de cadáveres. A Pax Romana foi estabelecida e consolidada por Otaviano, o primeiro imperador. Ele mudou seu próprio nome para César Augusto e se fazia chamar de “Salvador”, porque suas vitórias evitaram que o enorme território conquistado pelos romanos se fragmentasse. Neste sentido, ele “salvou” o império.

Lucas não se cansa de afirmr que César Augusto não é o Salvador (aliás, esta é a afirmação do anjo, em Lc 2,11: “o verdadeiro salvador está em Belém, não em Roma”) e que a verdadeira paz não é aquela imposta violentamente por Roma, mas aquela que Deus oferece para quem com liberdade a aceita (Lc 2,14). Em outras palavras, Lucas desmascara a mentira de uma paz banhada no sangue dos que não se submentem ao imperador romano. Por isso, as primeiras palavras de Jesus Ressuscitado são “Paz a vós”. Esta saudação, porém, provoca não apenas o reconhecimento de que Jesus está ali presente, mas também medo e dúvida: “eles pensavam ver um espírito” (v.37).

A comunidade lucana vive no ambiente grego e, conforme a compreensão da época, quando alguém morre, seu espírito se separa do corpo. Por isso, é necessário demonstrar que Jesus Ressuscitado não é um espírito desencarnado que vaga e aparece a seus amigos e parentes. Jesus não é um fantasma e, por tal razão, os discípulos podem vê-lo, ouvi-lo e tocá-lo. O evangelista ainda acrescenta o detalhe de que ele se alimenta na presença dos discípulos, como modo de garantir que não é uma “alma penada”. Ao contrário, os discípulos constatam que o mesmo Jesus que morreu na cruz está agora ressuscitado: “Vede minhas mãos e meus pés. Sou eu mesmo” (v. 39).

Jesus se apresenta não como alguém glorioso (como se fazia representar o imperador), mas como aquele que carrega os sinais da crucifixão. As marcas dos cravos nas mãos e nos pés são os resultados das escolhas e da coerência de Jesus. Ao mostrá-las a seus discípulos, Jesus quer convencê-los de que seus ideais, suas ações, suas lutas em defesa da vida e da verdade não morreram na cruz nem podem ser apagadas pela tirania do império. Mais ainda: ele convida os discípulos e toda a Igreja a se engajarem no seu projeto de paz, marcado pela vida, pelo perdão, pela verdade, pelo acolhimento e pela justiça.

No v. 44, Jesus afirma: “é necessário que se cumpra tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Deste modo, ele faz os discípulos compreender o significado dos acontecimentos à luz das Escrituras: “Então, abriu‑lhes a mente para que compreendessem as Escrituras” (v. 45). A exemplo do que acontece no episódio de Emaús, temos reminiscências eucarísticas: Jesus se faz presente no meio da comunidade reunida e toma refeição com os discípulos. Antes de partir, porém, ele explica o sentido das Escrituras numa linguagem que todos possam entender e aplica a eles as antigas profecias, acerca do anúncio da conversão a todas as nações (vv. 46-47), de modo que, a partir desta aparição, eles se tornem as testemunhas (v. 48) de um novo projeto de paz e vida plena.

 

 2º Domingo do Tempo da Páscoa

Dia: 11 de abril de 2021
Primeira Leitura: At 4,32-35
Salmo: 118/117,1-2.16ab-18.22-24
Segunda Leitura: 1Jo 5,1-6
Evangelho: Jo 20,19-31

 

Evangelho

O texto deve ser lido dentro do capítulo 20, pois todo ele é perpassado por uma cristologia e eclesiologia joanina: a ressurreição, a comunidade dos discípulos que se reúne no primeiro dia (20,1.19.26) e a missão, para a qual se requer a fé que se obtém ao participar da comunidade.

Pode-se dividir o texto em três partes: 1) a experiência do Ressuscitado (vv.19-23); 2) Tomé: a crise de fé (vv.24-29); epílogo (vv.30-31).

1) A experiência do Ressuscitado (19-23.26). A comunidade se reunia aos domingos (1º dia) de tarde para a celebração, embora ainda não tivesse uma fé madura, pois por medo, mantinha as portas fechadas. É neste ambiente reunido que o Ressuscitado se manifesta e confirma a fé dos discípulos. Agora a sua presença extrapola as leis da física, pois entra com as portas fechadas, mas ainda é o mesmo e para provar isto, mostra as chagas. O Ressuscitado é o crucificado redivivo. Ele deseja a paz, como prometera antes da paixão (Jo 14.27) e os discípulos se alegram (cf. Jo 15,11;16,20-24;17,13). Uma vez que a fé está confirmada, começa a missão: “como Pai me enviou, eu vos envio”. A igreja continua a obra do Pai que se manifesta em seu Filho. Para tanto, os discípulos são batizados no Espírito (sopro que lembra a criação – Gn 2,7; Sb 15,11; Ez 37). O Espírito vem de Jesus (cf. Jo 7,37-39; 19,34) e recria a comunidade dos apóstolos para a missão. Eles recebem, o poder de perdoar e reter os pecados, que é a continuação da missão do cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo 1.29; Jr 31,34). Trata-se de pregar e denunciar, mas também de receber de volta aquelas pessoas que se afastaram de Jesus, o que na concepção joanina é o pecado por excelência. Perdoar os pecados é anunciar Jesus, pois quem nele crê, não é julgado e reter os pecados é declarar que alguém ainda não possui a fé para receber a graça de Jesus através da igreja.

2) Tomé e a crise de fé (24-29). Todos os discípulos tiveram crise de fé (Mt 28,17; Mc 16,14; Lc 24,38). Em Jo 20,24-29, como também nos sinóticos, está um retrato falado das comunidades cristãs do período pós-pascal, que não conheceram o Jesus histórico. Muitos se questionavam: ele de fato está vivo? João centra as dúvidas das comunidades na pessoa de Tomé. Através do relato, mostra que a experiência do Ressuscitado é feita pelo testemunho da comunidade que se reúne no primeiro dia da semana: domingo vv.19.26). Estar em comunidade, no primeiro dia é fundamental para crer na ressurreição. Tomé não estava na comunidade, por isto teve de esperar mais oito dias (v.26), portanto, novamente o primeiro dia e estar com a comunidade, para enfim, fazer a experiência de fé que os demais já haviam feito antes. Aqui convém pensar nos leitores de João, dos anos 90. O texto quer conscientizar que é preciso crer sem ter visto, mas para isto, duas coisas são necessárias: a comunidade que celebra no primeiro dia e o testemunho desta mesma comunidade. É neste ambiente que se encontra o Ressuscitado. É então que Tomé faz a grande profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus”. Na comunidade celebrativa se professa Jesus como o Senhor e Deus (cf. Jo 1,1.18). O título duplo “Senhor e Deus” vem de “Javé Elohim” (2Sm 7,28; 1Rs 18,39). As comunidades cristãs devem passar do ver, para o crer sem ter visto. A verdadeira fé já não mais se baseia nas relações físicas, pois estas, são somente sinais que adquirem sentido, apenas com a fé. Sem a fé, os sinais são vazios.

3) Epílogo (30-31). Provavelmente a conclusão original da obra de João, antes do acréscimo do capítulo 21. Apresenta a ação de Jesus, para que a comunidade creia e receba a vida eterna.

 

Relação com as outras leituras

A fé no Ressuscitado não era apenas uma formulação dogmática. Ela era encarnada e transformava os discípulos que relativizavam tudo para tornar real a obra de Jesus, colocando tudo em comum (At 4,32ss). Esta fé já é a vitória e produz o amor ao próximo. Os neo-convertidos, pela fé em Cristo, amavam a Deus e ao próximo. Portanto, a fé no Ressuscitado transforma as relações humanas (1Jo 5,1-5).

 

Domingo da Páscoa

Dia: 04 de abril de 2021

Primeira Leitura: At 10,34.37-43

Salmo: 118/117 1-2.16ab-17.22-23

Segunda Leitura: Col 3,1-4

Evangelho: Jo 20,1-9

 

Os relatos joaninos da ressurreição e das primeiras aparições formam os dois quadros de um díptico. O primeiro encontra-se no capítulo 20, o segundo no capítulo 21. Cada um deles, por sua vez, é composto por várias cenas. Nesta liturgia, lemos Jo 20,1-9. Trata-se da primeira cena: Maria Madalena e os dois discípulos no sepulcro. O narrador começa falando de Maria Madalena (vv. 1-2a), mas muda rapidamente seu foco para os dois discípulos que correm até o sepulcro.

O primeiro dia da semana (v. 1): No Quarto Evangelho, a ressurreição de Jesus é uma nova criação. A primeira criação terminou em 19,30. De fato, Jesus afirma: “Tudo está consumado”. Após uma noite e uma manhã (referência ao primeiro relato da criação, em Gn 1), a descoberta do sepulcro vazia marca o início de um novo ciclo. O texto afira que “ainda estava escuro”. Literalmente: “ainda havia trevas”. Esta afirmação pode ser compreendida de vários modos. Pode ser uma escuridão cronológica (o sol ainda não tinha nascido), uma escuridão espiritual (Madalena ainda não tinha experimentado a ressurreição e tudo para ela estava sombrio, triste e sem perspectivas), uma escuridão ideológica (no Quarto Evangelho, as “trevas” são as forças contrárias à verdade e à vida, isto é, as forças ideológicas da morte que aparentemente venceram), uma escuridão criacional (conforme Gn 1,2; “as trevas cobriam o abismo”). O evangelista parece não querer que o leitor opte por uma delas e, por isso, o relato pode ser interpretado em todas essas dimensões ao mesmo tempo.

Por outro lado, a afirmação de Maria Madalena – “Não sabemos onde o colocaram” (v. 2) –e, logo em seguida, a busca frustrada dos discípulos (vv. 4-10) remetem o leitor a Cântico dos Cânticos 3,1: “Em meu leito, pela noite, procurei o amado de minha alma. Procurei-o e não o encontrei!… Pelas ruas e pelas praças… não o encontrei”. O vínculo com Cântico dos Cânticos ficará ainda mais explícito nos vv. 11-18 (que não fazem parte desta liturgia).

Diferente do que é narrado nos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), Maria Madalena vai sozinha ao túmulo. Ninguém está lá para explicar o que aconteceu. Por isso, ela sai de lá desconsertada e vai contar o fato a dois líderes dos discípulos: “Vai a Simão Pedro e ao outro discípulo, que Jesus amava” (v. 2). É também só no Quarto Evangelho que estes dois discípulos vão sozinhos ao sepulcro.

O evangelista preocupa-se em esclarecer que “os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa” (v. 4). O “outro discípulo” é aquele que está na origem da tradição joanina e que neste relato é identificado como “o discípulo amado”. Mas o texto não afirma unicamente que quem ama mais corre mais depressa e chega na frente. O evangelista quer evitar que seu relato promova uma competição entre os membros das comunidades e, de modo mais amplo, entre as próprias comunidades. Por isso, o discípulo que chega primeiro não entra no túmulo. Ele sabe que o líder do grupo dos discípulos é Pedro e respeita esta liderança e autoridade: o discípulo amado esperou Pedro e deixou que ele entrasse antes (vv. 5-6a).

O evangelista não poupa outros detalhes: o discípulo amado “vê os panos de linho por terra e o sudário… enrolado em um lugar à parte” (vv. 6b-7). O sepulcro é descrito como um quarto nupcial, no qual a vida e a fecundidade anulam a morte. A minúcia de que o lenço que cobria a cabeça estava cuidadosamente dobrado em um lugar à parte confirma o fato de que o desaparecimento do corpo de Jesus não foi obra de um ladrão. Mais ainda, é também uma alusão ao véu que cobria o rosto de Moisés depois que ele falou com Deus em Ex 34,33. Pode também estar ligado ao que Paulo afirma em 2 Cor 3,7-18: o véu que escondia a glória de Deus foi removido por Cristo.

O evangelista não revela o que Pedro pensou acerca do que viu. Pelo contrário, diz explicitamente qual foi o sentimento do discípulo amado: “ele viu e acreditou” (v. 8). O texto, aliás, afirma que o discípulo amado viu duas vezes: no v. 5, antes de entrar, ele olha para dentro do túmulo e vê; no v. 6, quando Pedro chega, entra e vê, o discípulo amado também entre e novamente vê e, desta vez, crê. É forte, portanto, a relação entre ver e crer. Trata-se de uma visão apenas física ou de uma descoberta espiritual? O evangelista parece induzir o leitor a considerar que é necessário estar em comunhão com Pedro para que a visão física (v. 5) se torne a visão da fé (v. 6).

Não obstante, o v. 9 parece enigmático: “Eles ainda não tinham compreendido a Escritura”. Sem dúvida, temos a surpresa provocada por algo inesperado e novo. Mas devemos também levar em conta a dificuldade dos discípulos de compreender que, segundo a Escritura, Jesus deveria ressuscitar.

No versículo seguinte ao trecho que é lido hoje, o evangelista afirma que “os discípulos voltaram para casa” (v. 10). Eles não compreenderam nada e, por isso, não sabem explicar para si mesmos nem para seu grupo o que havia acontecido; muito menos anunciar a alguém de fora. Afinal, para engajar-se na missão é necessário antes experimentar a presença de Jesus ressuscitado. Ele se manifestará à comunidade dos discípulos somente na tarde daquele dia, nos vv. 19-23. Até lá, Pedro e o discípulo amado ruminarão a dúvida, enquanto Maria Madalena, que inesperadamente reaparece junto ao túmulo. Mas esta já é outra cena, além dos limites do trecho de hoje (vv. 11-18).

 

 DOMINGO DE RAMOS

Dia: 28 de março de 2021
Leitura antes da procissão: Mc 11,1-10
Primeira Leitura: Is 50,4-7
Salmo: 21,8-9.17-18a.19-20.23-24
Segunda Leitura: Fl 2,6-11
Evangelho: Mc 14, 1– 15,47;

Mc 11,1-10

O evangelho proclamado no início da celebração de Ramos manifesta uma orientação messiânica não somente na aclamação do povo, mas ainda pela deposição das vestes no caminho (2Rs 9,13). Mc apresenta uma história de Cristo, anunciando Jesus como Messias, fazendo referência ao Antigo Testamento.

Jerusalém é citada em primeiro lugar. Das duas grafias recorrentes na Escritura, Hierosolyma e Hierousalēm, Marcos usa sempre a primeira. Enquanto a segunda possui dignidade e tons sacros, a primeira forma (helenizada) é o termo profano usual para designar a cidade. A escolha de Mc não é casual, visto que Jerusalém é para ele a sede dos adversários de Jesus (3,22; 7,1), onde estes o matarão (10,32; 15,41). Tampouco é sem intenção se depois da primeira visita à cidade Jesus se retira (11,11). O relato acena ao fato que a cidade lhe pertence enquanto descendente de Davi, mas a mesma cidade lhe oporá recusa.

De Betfagé pouco sabemos com exatidão. Betânia é expressamente nomeada junto ao Monte das Oliveiras devido ao significado que este monte possui no AT como lugar de oração (Ez 11,23; 2Sm 15,32). Segundo Zc 14,4 no dia do juízo o Senhor se revelará sobre o Monte das Oliveiras e fenderá em dois o monte.

A tarefa misteriosa confiada aos dois discípulos (vers. 2-3) é compreendida a partir de Zc 9,9 e Gn 49,11. Segundo Zc 9,9s o rei messiânico cavalga um jumento e trará paz aos povos. A montaria amarrada é uma reminiscência de Gn 49,11, onde a bênção de Jacó sobre Judá menciona o surgimento daquele que possuirá o cetro de comando. O jumento escolhido para a tarefa de levar o Messias é adequado também porque ninguém ainda o montou. No judaísmo a integridade é o pressuposto para o uso dos animais na esfera religiosa e cultual. Assim, p. ex., segundo 1Sm 6,7 somente vacas de leite sobre as quais não tenha sido colocada canga podem puxar o carro da Arca da Aliança.

Com a tarefa dada aos discípulos, Jesus inicia o cumprimento daquilo que foi dito nas Escrituras a propósito do Messias, e anuncia, assim, que já na entrada da cidade ele se atém totalmente à vontade de Deus.

Mc faz referência ao Kyrios (Senhor) que necessita do jumento. Kyrios é um predicado cristológico que quer fazer conhecer o poder que ele possui. Talvez, o contraste paradoxal, que contemporaneamente se manifesta em relação a este poder, deseje destacar a pobreza deste Senhor.

São colocados sobre o animal vestidos a modo de ornamentos e Jesus o monta. Este gesto e a cena toda a seguir recorda uma entronização do rei em Israel (1Rs 1,38-40; 2Rs 9,13).

Nos vers. 8-10 são mencionadas pessoas que saúdam Jesus. Mc dá a entender (v.9: “iam à frente dele e o seguiam”) que a multidão não vem da cidade para dar-lhe as boas vindas (comparar com Jo 12,13), mas se trata daquelas pessoas que vieram com ele da Galileia.

Estender vestes pelo caminho – para Mc é a estrada que conduz à Paixão – faz uma certa tensão com os ramos apanhados nos campos. A história se conecta com a crucifixão de Jesus como rei dos judeus.

O cortejo que acompanha Jesus lhe grita Hosana e o saúda com as palavras do Sl 117,26. Hosana literalmente significa “salva-nos” que é o sentido próprio do Sl 117,25 (2Sm 14,4; 2Rs 6,26).

O significado do ingresso é esclarecido com o aceno ao “Reino do nosso pai Davi” (v.10) que vem com Jesus. Tal reino era nostalgicamente esperado no judaísmo. O reino de Davi devia ser restaurado. Jesus entra na cidade (de Davi) realizando as promessas messiânicas. No entanto, não vem para satisfazer expectativas políticas. A ausência do título de rei não é um acaso (comparar com Lc 19,38; Jo 12,13), este é reservado ao relato da paixão no qual se manifesta a verdadeira dignidade real de Jesus. Certamente poder real de Davi aguarda a Jesus, mas o modo do seu reino não pode ser compreendido ainda por ninguém. Será o título da cruz a proclamá-lo.

Mc 14,1—15,47

No domingo que antecede à Páscoa, lemos a história da Paixão de Jesus. Para as histórias da Paixão, nos quatro evangelhos, surpreende o fato que apareça um mesmo decurso dos acontecimentos, que vão da captura de Jesus ao interrogatório judaico, ao processo diante de Pilatos, à crucifixão, à morte em cruz, à sepultura até a descoberta do sepulcro vazio.

A Paixão em Mc está relacionada também temporalmente com o cômputo dos dias e com a passagem da noite para a manhã: dois dias antes da Páscoa, os chefes buscam uma razão para matar Jesus (14,1); no dia da preparação da páscoa são enviados à cidade dois discípulos (14,12); ao cair da tarde, chega Jesus com os Doze (14,17); ao canto do galo, Pedro renega o seu Mestre (14,72); pela manhã Jesus é entregue a Pilatos (15,1). Crucifixão e morte são colocadas cada uma em uma série de três horas (15,25.33s) e, à tarde, Jesus é sepultado (15,42). Ao início e ao final da Paixão aparecem a unção de Jesus da parte de uma mulher (14,3) e, respectivamente, a intenção de algumas mulheres ungirem o cadáver (16,1).

Uma outra característica dos relatos da Paixão é a frequência de precisas indicações de lugar. A cena se desenvolve, sobretudo, em Jerusalém, mas a unção acontece em Betânia, na casa de Simão, o leproso (14,3), a agonia e a captura no Getsêmani (14,32), a crucifixão sobre o Gólgota (15,22). Sabia-se, além  disso, onde era o lugar do sepulcro de Jesus.

À história da Paixão são relacionados diversos personagens. Aparecem, em primeiro plano, os já conhecidos membros do grupo de discípulos. Pensa-se a Pedro, que renega Jesus e Judas Iscariotes que o trai. Os Sumos Sacerdotes e os membros do Sinédrio da parte judaica e Pilatos da parte romana, são os atores principais alinhados contra Jesus. A esses se adicionam o centurião do pelotão de execução e os soldados, como também os servos e servas do sumo sacerdote. A acompanhar Jesus pela estrada do seu sofrimento estão Simão Cirineu (15,21), Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago (15,40), outra mulheres (15,41), talvez, também, José de Arimateia (15,42s).

É característica a influência de citações veterotestamentárias que são tomadas dos Salmos que tratam do Servo Sofredor (em particular o Sl 21). Se, por um lado, desse modo, vem indicada uma precisa diretriz para a interpretação da Paixão de Jesus, por outro, o discurso vem completado na primeira parte da narrativa da Paixão sublinhando seja que Jesus conhecia antecipadamente o sofrimento que o esperava, seja que ele naquela ocasião foi capaz de anunciar as coisas, em vez de ordená-las (14,7.13-15.18.20s.25.27s.30.41s).

Grandeza e humilhação, portanto, se encontram próximas uma da outra. Note-se a interpretação paulina associando o mistério da encarnação com a realidade da crucifixão em Fl 2,6-11.

A poderosa palavra de Jesus se cumpre do mesmo modo (14,72) que a palavra da Escritura que o Crucificado cita com seu grito de morte (15,34). O caminho de Jesus na estrada do sofrimento é um itinerário de solidão que atinge uma intensidade dramática envolvente.

 

5º Domingo da Quaresma

Dia: 21 de março de 2021
Primeira Leitura: Jr 31,31-34
Salmo: 51/50,3-4.12-13.14-15
Segunda Leitura: Hb 5,7-9
Evangelho: Jo 12,20-33

O capítulo 12 de João é composto por várias pequenas cenas que encerram o chamado “Livro dos Sinais” (Jo 2–12). O evangelho deste 5º domingo da Quaresma, Jo 12,20-33, é a quarta cena. Trata-se de um discurso dialogado em que Jesus revela sua missão como doador da vida e, ao mesmo tempo, explicita a missão da comunidade.

O início narrativo (v. 20) fala de gregos que subiram a Jerusalém para participar dos festejos da Páscoa. Estes gregos não são judeus da diáspora, mas simpatizantes do judaísmo, isto é, não judeus que querem percorrer um caminho de fé. Todavia, não são ainda circuncidados e, por isso, não são considerados membros a pleno direito da comunidade judaica. No v. 21 essas pessoas vão ter com Felipe e André. Estes dois discípulos desempenham um papel importante no evangelho de João. André é um dos discípulos de João Batista que se juntam a Jesus. Após permanecer todo um dia com Jesus, André apresenta seu novo Mestre a Pedro (Jo 1,41-42). Filipe é o primeiro ser chamado diretamente por Jesus e depois o anuncia a Natanael. André e Filipe são protótipos do discípulo-missionário: o encontro pessoal com Jesus impulsiona o discípulo ao anúncio. Este anúncio, todavia, não é uma imposição amarga e legalista, mas uma partilha entusiasmada e aberta, que deixa a pessoa que a recebe totalmente livre para questionar, para fazer sua própria experiência antes de aderir à proposta de Jesus.

O desejo dos gregos é ver Jesus (v. 22). Não é o desejo dos bisbilhoteiros que querem “tirar uma selfie e postar nas redes sociais”. No Quarto Evangelho, o verbo “ver” designa a descoberta do que está além das aparências, até alcançar o mistério. Por isso, um dos temas centrais é a “visão”, que equivale à experiência pessoal com Jesus e a resposta de adesão.

Ao ser informado deste desejo dos gregos, Jesus dá uma resposta estranha e parece ignorar o pedido daquelas pessoas. Suas palavras, no entanto, conduzem o leitor ao âmago do pedido. O que ele diz nos vv. 23b-24 indica o caminho para o discipulado.

Jesus começa afirmando: É chegada a hora de o Filho do Homem ser glorificado (v. 23b): Jesus declara que a hora chegou e que ela conduz à glória (vv. 23.28). Desde o início do Evangelho de João, há uma expectativa acerca da “hora de Jesus”. Em Jo 2,4, 7,30 e 8,20, afirma-se que a sua hora ainda não havia chegado. Mas agora, em 12,23 “a hora chegou”, porque o fato de os gregos buscarem Jesus indica o rompimento das barreiras raciais e culturais e o universalismo da mensagem do cristianismo.

Em seguida, ele usa uma metáfora para dar o sentido dos acontecimentos: Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo que caiu na terra não morre, permanece só. Mas, se morre, produz muito fruto (v. 24). Esta afirmação de Jesus faz lembrar a parábola do semeador (Mc 4,3-9 e paralelos). Nos sinóticos, a semente é usada como símbolo tanto da Palavra como do Reino de Deus. Em João, porém, a semente/grão é Jesus mesmo, que aqui faz entender o significado de sua morte. A morte é a condição para que se libere toda a energia vital que a semente contém: o fruto começa no grão que morre. Esta dinâmica é a própria vida-morte-ressurreição de Jesus, é a história da Salvação.

O v. 25 completa a metáfora: Quem quer bem a sua vida a perde, e quem odeia sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna. Jesus afirma que morre, não como ato final, mas como passo necessário para recuperar qualidade de vida. Portanto, o amor-próprio e o sentimento egoísta são incompatíveis com a adesão ao compromisso; são limitações que levam ao insucesso o projeto de Jesus pela “vida de sobra”. O egoísmo e o apego à vida levam a ceder diante das ameaças e, portanto, não só tornarão impossível amar sem limite, mas também acabarão cedendo ao mecanismo da injustiça.

No relato joanino da Paixão (Jo 18–19) não há nenhuma cena de agonia como nos sinóticos (Mc 14,21-42 e paralelos). A única referência em João a uma crise pessoal de Jesus diante de seu destino é o v. 27 do evangelho de hoje: Neste momento minha alma está perturbada. E, que direi? Pai, salva-me desta hora? Não obstante, Jesus manifesta a plena adesão ao projeto do Pai: Mas foi para isto que cheguei a esta hora. Esta é a hora para a qual sua vida está orientada desde o início. No Quarto Evangelho fica claro o conceito de que a cruz é o fruto de uma decisão consciente, um ato de doação livremente assumido.

Jesus continua: Pai, glorifica o teu nome! (v. 28), o que corresponde ao pedido do Pai Nosso “Santificado seja teu nome” (Mt 6,9). Este pedido não é que que os homens glorifiquem a Deus, mas o próprio Deus se faça conhecer ao mundo.

O Pai responde. Para Jesus (e para os leitores) a resposta é clara: Já o glorifiquei e o glorificarei ainda (v. 28). Para os presentes, porém, tudo parece um trovão. A voz/ trovão recorda as antigas teofanias em que Deus se dirigia ao povo por meio de um porta-voz (Ex 19,16.19). No êxodo do Egito, os israelitas e o próprio Moisés não puderam ver a glória de Deus (Ex 33,18; 34,29). Agora, porém, o Pai se manifesta diferentemente: com autoridade de Filho de Deus, Jesus promete acesso direto a esta nova teofania, para que, ali onde ele está, estejam também as suas discipulas e seus discípulos (v. 26). Não há mais, portanto, necessidade de mediador: a glória de Deus será visível em Jesus (Jo 12,45; 14,9). De certo modo, isso é cumprimento do que está na primeira leitura de hoje (Jr 31,31-34), mais especificamente o v. 34: Eles não terão mais de instruir seu próximo ou seu irmão, dizendo “Conhecei a Yhwh!”, porque todos me conhecerão, dos menores aos maiores.

 

4o Domingo da Quaresma Ano B
Dia: 14 de março de 2021
Primeira Leitura: 2Cr 36,14-16.19-23
Salmo: 137/136,1-2.3.4-5.6
Segunda Leitura: Ef 2,4-10
Evangelho: Jo 3,14-21

Evangelho

O texto da liturgia de hoje faz parte do diálogo de Jesus com Nicodemos (Jo 3,1-21). No entanto, os versículos 11-21 já não parecem diálogo, mas um monólogo do mestre. Nele, o evangelista apresenta uma cristologia pós-pascal sobre o papel de Jesus, aquele que desceu do céu (v.13), o revelador máximo do amor de Deus. A perícope da presente liturgia se divide em duas partes:

a) Os vv.14-15 referem-se à crucificação (hypsóo - elevado/exaltado) de Jesus, tema já presente no diálogo com Nicodemos: nascer do alto (vv.3.5). Para tanto, o autor se vale do relato da serpente de bronze (Nm 21,4-9), talvez um antigo culto idolátrico que os rabinos reinterpretaram, dizendo que a cura não acontecia pela serpente, mas pelo fato de as pessoas se voltarem para Deus. Os mordidos eram salvos pelo Senhor e não pelo objeto contemplado (Sb 16,7). O texto de João, se vale desta memória como uma prefiguração da crucificação. Como outrora as vítimas das cobras, agora, quem contemplar o Filho de Deus exaltado na cruz e nele crer, tem a vida eterna.

Crer no elevado, porém, não é um ato mágico, mas implica em assimilar a lógica da cruz (1Cor 1,17ss; 2,6-9). Crer é entrar no caminho escandaloso do que será elevado. A salvação não se dá de forma automática. Embora oferecida de forma gratuita no Filho elevado, ela requer a relativização de tudo até às últimas consequências, inclusive na doação da própria vida. Gesto este que só se consegue pela fé na pessoa de Jesus. Olhar para o crucificado e crer nele é mais do que sentimento de piedade. É revestir-se da lógica que animou o Filho de Deus.

b) Os vv.16-21 tiram as consequências desta elevação. O que se vê no elevado (cruz) é o símbolo máximo do amor de Deus. Assim, o Filho, o que desceu do céu, é a autoridade impar para demonstrar o amor do Pai. Quem nele crê, tem a vida. Crer nele, assimilar a sua lógica é entrar no projeto de Deus que conduz à vida eterna. Não crer nele, é optar contra a vida. Logo, não é Jesus que condena, mas a opção de quem não crê e, portanto, não opta pela vida e assim, zela sua própria sorte.

Nos textos joaninos, mundo tem mais de um sentido. Aqui, mundo é o lugar humano onde o amor de Deus chega com sua graça através do Filho. Deus busca as pessoas na situação em que elas se encontram, pois, sua graça é o antídoto para todo pecado, fato ilustrado por Paulo, quando queria se ver livre do espinho na carne e recebeu de Deus a resposta: “basta-te a minha graça” (2Cor 12,9). Jesus é esta graça de Deus em meio ao mundo. Estes versículos mudam a compreensão que se tinha de Deus no Antigo Testamento e que ainda persiste nas mentes moralistas de todos os tempos. Deus não quer a condenação de ninguém, mas a pessoa tem de aceitar pela fé esta proposta que se manifesta naquele que desceu do céu.

Nos sinóticos, o julgamento se realiza no fim dos tempos (Mt 26,31-46). Em João isto já se realiza na história: aceitar pela fé, ou rejeitar é o julgamento (v.18).

Jesus se apresenta como luz do mundo (Jo 8,12). Assim, preferir as trevas (vv.19-20) é claramente optar contra o projeto de Deus revelado em Jesus. Não se trata, pois, de um pecado, ou ato isolado, fruto das fraquezas humanas. Antes, trata-se de opção clara contra Jesus, o revelador do Pai. Isto é, opção contra Deus. O mesmo se dá com ‘praticar a verdade” (v.21). Esta verdade não é conceito cognitivo segundo a concepção grega, mas antes, aderir à luz, manifestada na exaltação de Jesus, que, em última análise, é o caminho de Deus para este mundo.

Relação com as outras leituras (2Cr 36,14-16.19-23 e Ef 2,4-10)

Tanto na primeira leitura como em Efésios, mostra-se a situação de pecado do ser humano. Mas Deus, rico em misericórdia, não olhando os merecimentos do povo, em sua bondade envia a graça: a volta do exílio (primeira leitura) e a remissão quando estávamos em pecado (segunda leitura). A iniciativa sempre é dele. Por isto. Ele enviou ao mundo o seu Filho amado, não para condenar, mas para salvar.

 

Dia: 07 de março de 2021
3º Domingo da Quaresma
Evangelho: Jo 2,13-25
Primeira Leitura: Ex 20,1-17
Segunda Leitura: 1 Cor 1,22-25.
Salmo: Sl 19/18,8.9.10.11

 

 

Evangelho

Esta passagem do Cap. 2 do Quarto Evangelho tem uma estrutura interna bem marcada. A referência à festa da Páscoa abre e fecha a perícope:

  • v.13-17 (expulsão dos mercadores do templo durante a festa da Páscoa);
  • v.18-22 (destruição do templo e apresentação do Corpo como espaço de unidade);
  • v.23-25 (fechamento como nova menção da festa da Páscoa e o verdadeiro caráter destes representantes da religião dominante).

Como vemos, no centro, está a nova proposta da passagem do sentido do “templo” e para o sentido do “corpo”. O conjunto e, nele, a presença do episódio da expulsão dos mercadores no começo do Evangelho, à diferença dos Sinóticos (Mt, Mc, Lc), reflete o fato do Templo já ter sido destruído e a necessidade das comunidades cristãs se construir como referências, isto é, “Corpo de Cristo”.

A Páscoa evidencia a oposição entre mercado e libertação (v.13-17)

A Páscoa é o referencial teológico através do qual o Quarto Evangelho estrutura toda sua narrativa de início ao fim. Neste Cap. 2 é chamada de “Páscoa dos judeus” (paska tôn ioudaion) no v.13, mas no versículo 23 (já no anúncio do novo sentido da Páscoa/Ressurreição, cf. v.22) aparece apenas “Páscoa”. Esta diferenciação vai aparecer novamente em 6,4, literalmente, “estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus”, preparando o sentido eucarístico da nova comunhão entre as comunidades do discipulado amoroso que se desenvolve nesse capítulo, ligada novamente à Cruz-Ressurreição (cf. 6,54). O mesmo acontece em 11,55 e 12,1 (fazendo menção a ressurreição de Lázaro e à preparação de Jesus para a Cruz Ressurreição), em 13,1 (abrindo as falas do legado de Jesus na mesa eucarística), até chegarmos à narrativa em si em 18,28.39 e 19.14). O templo, como centro de um “mercado da fé” perdeu totalmente seu sentido pascal, isto é, libertador. O zelo que “consome” Jesus é um zelo do sentido da revelação do caráter libertador de Deus na Páscoa, sentido que será resgatado na Cruz-Ressurreição.

Corpo do Crucificado-Ressuscitado, caminho de libertação e vida (v.18-22)

O anúncio da destruição, ou melhor desconstrução-reconstrução, deixa bem clara a referência à Cruz-Ressurreição, “em três dias o levantarei” e a glosa (explicação) “mas ele falava do templo do seu próprio corpo” (2,19.21).

Neste Evangelho o verbo “levantar” (egeíro) é usado frequentemente para sinalizar a superação sofrimento e da morte ou para falar da ressurreição em si (cf. v.22; 5,8.21; 12,1.9.17;21.14).

A expressão é “o templo do seu próprio corpo”, apresenta o Corpo de Cristo – seja em referência à Eucaristia, seja em referência à Comunidade – como o lugar onde a morte se transforma em vida, a opressão e o sofrimento dão lugar à alegria da libertação; onde o mercado se transforma em partilha. Esta transformação, ou reconstrução da referência de fé, foi o caminho (quaresmal) que preparou aquelas pessoas que seguiam Cristo para crerem, inclusive, no testemunho da “Escritura” (grafê) e nas “palavras” (logon), isto é, reconhecer a presença do “logos” ressuscitado (v.22).

Sinais de Jesus geram a nova comunidade e desmascaram a hipocrisia (v.23-25)

Os “sinais” (semeion) são o caminho da revelação de Cristo no Quarto Evangelho aparecendo 17 vezes, mais do que em qualquer outro escrito do Segundo Testamento. A palavra semeion também pode ser traduzida como “milagre”, mas, embora no Quarto Evangelho todo milagre seja um sinal, nem todo sinal é um milagre. Aqui por exemplo, quais seriam estes sinais? Mesmo que inclua o milagre das Bodas de Caná da Galileia (2.1-12) não se refere somente a ele, mas também ao “sinal” de ter acabado com a mercantilização da fé no templo e ter apontado para o corpo crucificado ressuscitado como referência da fé libertadora. Por outro lado, havia quem, diante desses sinais, ficavam em um silêncio omisso, numa “tolerância” conveniente… Diante da situação de perseguição e morte vividas pelas comunidades do final do primeiro século, época em que foi escrito o Evangelho, essa atitude devia ser denunciada, pois passava uma imagem enganosa que depois se revelaria entregando as irmãs e os irmãos à morte.

Relacionando com os outros textos

A primeira leitura nos traz a versão mais conhecida dos 10 mandamentos (sendo que há outra em Dt 5,6-21), que iniciam com o sentido libertador da revelação divina: “Eu sou Javé teu Deus que tirou da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20,2). Assim estes mandamentos, muito além de uma mera regra moral, são a carta de princípios do projeto libertador de Deus para seu povo. A Páscoa que o Quarto Evangelho toma como referência para a desconstrução da mercantilização da fé e reconstrução do sentido do “corpo”, aqui também apoia a leitura libertadora dos mandamentos como projeto econômico, político e social. Páscoa libertadora da exploração do mercado, reveladora do “templo-corpo”, espaço de encontro das pessoas que creem neste projeto que, diante das estruturas opressivas e repressivas, se apresenta como loucura ou escândalo (1 Cor 1,22-25).

 

 

Segundo Domingo da Quaresma
Dia: 28 de fevereiro de 2021
Primeira Leitura: Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18
Salmo: 115, 10 e 15. 16-17.18-19
Segunda Leitura: Rm 8,31b-34
Evangelho: Mc 9,2-10

 

O Evangelho

O episódio da transfiguração é estreitamente relacionado ao batismo de Jesus, quando Ele foi denominado por Deus “filho amado”. Agora, enquanto Jesus está para empreender o caminho em direção à cruz, o Pai o credita diante dos três discípulos privilegiados, Pedro, Tiago e João, exortando-os a escutá-lo. A profissão de fé de Pedro (8,29) que havia reconhecido Jesus como o Cristo, é confirmada pelo Pai, que o proclama de novo seu “filho amado” (9,7→1,11).

A perícope se abre com a ambientação cênica (v.2); segue a descrição da transfiguração de Jesus e a aparição de Elias com Moisés (v.4). Depois da reação de Pedro (v.5), Deus desvela o significado do evento (v.7). A parte conclusiva menciona o fim repentino da visão (v.8), a ordem do silêncio (v.9) e a execução da parte dos discípulos com a dúvida sobre a ressurreição.

Pela forma do relato, podemos compará-lo a Ex 24,1-9. Da mesma forma que Moisés, Jesus sobe o monte e leva consigo três acompanhantes expressamente nominados. Ao sétimo dia chega a Moisés a voz de Deus. Daqui se explicam os seis dias transcorridos para Jesus subir o monte (v. 2). A nuvem é, como em Ex 24,16s, sinal da presença de Deus. Uma concordância importante é verificada pelo fato que a voz de Deus ressoa da nuvem. Estes elementos são suficientes para caracterizar a perícope como narrativa de teofania: Jesus é envolto na aparição celeste, da qual os discípulos são testemunhas. A voz escutada o declara como Filho de Deus. Assim, o conjunto do relato se transforma em uma entronização. Jesus é apresentado como ser celeste do mundo transfigurado.

O termo “transfiguração” que habitualmente vem empregado para referir esse momento epifânico, devia, a rigor, ser substituído por “metamorfose”, já que esse é o vocábulo usado explicitamente por Mc 9,2 e Mt 17,2 quando referem que Jesus foi mudado de forma (metemorphōthē) à frente dos três discípulos. Ademais o verbo grego metamorphoūn tem um significado não-moral, como em Rm 12,2, mas físico. Denota uma mudança, ainda que momentânea, das qualidades externas de Jesus.

À transfiguração de Jesus se acrescenta a aparição de dois personagens do Antigo Testamento. A aparição, dirigida aos discípulos, vem descrita com as mesmas palavras que se usam para as aparições pascais do Ressuscitado (ōphthē: 1Cor 15,5; Lc 24,34) e para as aparições do anjo (Lc 1,11; 22,43; At 7,30). As pessoas que aparecem falam com Jesus, o transfigurado. No evangelho de Marcos, nada se diz sobre o conteúdo do colóquio (diversamente de Lc 9,31). Note-se que no v. 4, contrariamente ao que acontece no v. 5, Elias é nomeado primeiro que Moisés. Mc introduz essa mudança para pôr em evidência o seu interesse por Elias. É sabido que no judaísmo existia/existe a expectativa que Elias é o precursor do tempo messiânico. O evangelista, ao colocar Elias em primeiro, revela que para ele é mais importante o componente escatológico: Jesus introduz o fim dos tempos.

A palavra que Pedro dirige a Jesus é apresentada como resposta e reação ao que está acontecendo. Ele se dirige a Jesus com o termo Rabi (Mt 17,4: Senhor; Lc 9,33: Mestre). A exclamação “é bonito estarmos aqui” faz pensar na antecipação da bem-aventurança celeste que os discípulos experimentam. Mc interessa-se pela resistência do discípulo em compreender. A falta de compreensão de Pedro está no mesmo nível de 8,32s. Querendo reter a bem-aventurança celeste, o discípulo se defende novamente da necessidade do sofrimento.

Relacionando com as outras leituras

Devemos buscar o significado do texto na aceitação positiva da sua mensagem de fé e na disponibilidade em seguir Jesus no itinerário da cruz, sabendo que o percurso não se conclui com a cruz. Aqui a conexão com primeira leitura é nítida, pois o sacrifício de Isaac é figura da Paixão de Jesus, o Filho único. Podemos considerar que a perícope constitui a soma das experiências relacionadas à história de Jesus, que considera a sua atividade um evento escatológico-histórico.

 

 

 

1º Domingo da quaresma
Dia: 21 de fevereiro de 2021
Primeira Leitura: Gn 9,8-15
Salmo: 25/24, 4bc-5ab. 6-7bc. 8-9
Segunda Leitura: 1Pd3,18-22
Evangelho: Mc 1,12-15

O evangelho deste primeiro domingo da Quaresma é composto por dois pequenos blocos: a tentação de Jesus (vv. 12-13) e o início do ministério de Jesus na Galileia (vv. 14-15).

O relato marcano da tentação de Jesus no deserto é extremamente sumário: apenas dois versículos (vv. 12-13). No entanto, no plano narrativo de Marcos é de extrema importância: primeiro Jesus vence a tentação e só depois começa a expulsar o mal que ameaça o projeto do Reino de Deus.

O v. 12 afirma que, após Jesus ser batizado, o Espírito o conduz ao deserto. O deserto, mais do que um lugar geográfico, é o espaço que desperta a memória da experiencia libertadora do Êxodo como proteção divina (Ex 15,22–18,27). O deserto é também o lugar do encontro com Deus (Dt 32,10), é o lugar para refazer a aliança (Os 2,16). Os profetas do exílio recorreram à imagem do deserto para anunciar que, como no passado, Deus viria salvar seu povo e fazer com ele um “novo êxodo” (Is 40,3). Todos esses elementos ajudam a compreender a importância do deserto na vida de Jesus: é a transição da vida oculta para a vida pública, para o tempo em que Jesus atua a salvação prometida por Deus pelos profetas.

O v. 13 afirma que Jesus permaneceu no deserto quarenta dias. Quarenta é um número simbólico, como muitos exemplos na tradição bíblica (Ex 34,28; Dt 8,2; 1Rs 19,8 etc.). No Antigo Testamento, o livro dos Números narra a tentação de Israel no deserto; agora, Jesus refaz simbolicamente o caminho de Israel no deserto (40 anos / 40 dias). Mas, a atitude de Jesus é totalmente diferente da atitude do povo da Antiga Aliança: Israel caiu na tentação da rebeldia e da murmuração; Jesus, ao contrário, vence a tentação. A liturgia cristã apropriou-se deste simbolismo e instituiu um tempo de 40 dias – a “quaresma” – de penitência e preparação para a Páscoa.

O mesmo v. 13 afirma que Jesus era tentado por Satanás, o inimigo de Deus e dos seres humanos. A palavra “satanás” tem o significado de “advogado de acusação; adversário, inimigo”. Este não é o único confronto entre Jesus e Satanás no evangelho de Marcos. Em outras ocasiões, Satanás tentará frustrar o projeto do Reino de Deus (3,23.26; 8,33).

O v. 13 termina com a conclusão de que Jesus estava no meio das feras e os anjos o serviam. É uma referência a textos do profeta Isaías que falam da paz prometida para o tempo messiânico (Is 11,6-9; 65,25;). Desse modo, Jesus é apresentado como o Messias que realiza o projeto de Deus, caracterizado pela vitória sobre o poder do mal e pela completa harmonia e paz na criação.

Ao derrotar o poder do mal em si mesmo, Jesus começa a derrotar o poder do mal no mundo. Os vv. 14-15 são um sumário, um resumo do projeto teológico de todo o livro de Marcos.

Não é à toa que Jesus inicia este anúncio crítico depois que João tinha sido entregue, isto é, depois que o Batista tinha sido aprisionado por criticar o Herodes Agripa, um rei fantoche e subserviente ao imperador Tibério César. A prisão do profeta João Batista é vista como o ápice da iniquidade de Herodes Agripa e sinal de que havia chegado o momento da intervenção de Deus para libertar seu povo. Por isso, o v. 15 afirma claramente:  Completou‑se o tempo oportuno e o Reino de Deus se aproximou. Convertei‑vos e crede no Evangelho.

O texto grego usa a palavra kairós: não se trata do tempo cronológico, mas do momento oportuno: a intervenção de Deus é agora!  Na continuação, Jesus diz que o Reino de Deus se fez próximo. A palavra kairós na primeira frase do versículo pode levar ao engano de interpretar que Jesus esteja falando da proximidade do tempo. Mas não: o verbo “aproximou-se” aqui não tem a ver com tempo, mas com espaço: o Reino de Deus está aqui, está ao alcance da nossa mão. Então, o Reino acontece agora (kairós, momento oportuno) e aqui (está ao nosso alcance).

Neste contexto devem ser lidos os dois imperativos do v. 15: Convertei-vos e crede no Evangelho. Converter-se, aqui, significa mudar de mentalidade, deixar de acreditar nas promessas enganosas do Império Romano, para acreditar no Evangelho de Deus. Em outras palavras, não se trata apenas de não mais ter medo do Império, mas também de não assumir como projeto pessoal e comunitário uma paz baseada no sangue e nos cadáveres dos inimigos e derrotados. A verdadeira força que salva não é a opressão do Imperador, mas o compromisso com o Reino de Deus!

6º Domingo Do Tempo Comum

Dia: 14 de fevereiro de 2021
Primeira Leitura: Lv 13,1-2.44-46
Salmo: 32/31,1-2.5.7.11
Segunda Leitura: 1Cor 10,31-11.1
Evangelho: Mc 1,40-45

 

Evangelho

Na tradição do Antigo Testamento (Lv 13-14) pode-se descrever a lepra como um mal aterrorizante. Além da questão sanitária, havia o problema teológico. O leproso era impuro, tanto no sentido biológico como moral. Via-se esta doença como uma maldição de Deus. Portanto, a lepra era uma sentença de morte muito desoladora, pois o acometido deste mal perdia seu lar e sua comunidade, vivendo em lugares retirados até a terrível morte no abandono e ainda era julgado amaldiçoado por Deus. Pode-se dizer, o leproso era um excomungado, sem acesso à vida social e sem acesso a Deus. Ele devia esperar a morte abandonado por todos e sem perdão. Não havia cura, pois os recursos da medicina de então não alcançavam este mal. Curar um leproso, só aconteceria mesmo por milagre e equivalia a ressuscitar um morto. Por isto mesmo, ao leproso não restava nenhuma esperança. Os sacerdotes eram os encarregados de examinar as pessoas para constatar a lepra e também e uma eventual cura.

Na leitura do evangelho de hoje, algo de novo acontece: um leproso que, apesar de toda esta situação, ainda tem esperança. Ele se liberta da cosmovisão comum da época. Buscou em Jesus o que sabia que não encontraria no Deus domesticado pelos sacerdotes do templo. Busca a cura, não na instituição sacerdotal, mas na pessoa de Jesus. Ele se aproxima e, portanto, desobedece ao Lv 13,45-46 que estabelecia que ele deveria viver afastado e alertar as pessoas de que estava impuro (Lv 13,45s). Ele não se afasta, mas vai ao encontro do homem que, mais do que a instituição sacerdotal, podia lhe dar esperança e, com fé, diz: “se queres, podes…”. Por sua vez, também Jesus quebra as prescrições do Levítico. Toca no suposto impuro e amaldiçoado, mostrando que seu Deus não é aquele dos sacerdotes e escribas. Ele não exclui os impuros, mas derruba a cosmovisão teológica da oficialidade.

Algumas Bíblias traduzem o v. 41 como: “Jesus sentiu compaixão”. Outras traduzem, como “irado”. As duas são possíveis. Talvez esta última tradução nos chame atenção para o mais importante na ação de Jesus. Jesus não manifesta ira contra o leproso, mas contra o sistema excludente que condenava os “impuros” ao ostracismo.

Como instaurador do Reino, Jesus mostra sinais messiânicos já apontados pelos profetas (Is 35,5ss; 61,1ss). Ele apresenta as curas como a chegada deste Reino (Mt 11,5), quando a velha lei será superada. Isto, na comunidade Marcos, reflete a passagem de uma religião legalista para a nova práxis cristã, onde, mais do que um milagre no sentido de superação das leis da natureza, se supera uma visão teológica viciada e excludente.

Nesta nova realidade, o que conta é a compaixão que, na visão cristã, está acima da lei. Jesus mostra que o serviço ao ser humano supera a lei, pois como Ele ensina, a lei (sábado) foi feita para o ser humano e não o ser humano para a lei. Por isto ele cura e reintegra o ser humano contrariando a lei. Nisto consiste sua autoridade: ele revela o verdadeiro rosto de Deus e, para tanto, pode contrariar a lei.

Ao mandar o curado aos sacerdotes para testemunhar sua nova condição, Jesus confronta o sistema de pureza legal representado por eles. Eles devem perceber que os tempos messiânicos, preanunciados por Isaías, estão chegando. O Reino de Deus está próximo.

Como conseqüência de sua ação de superação do sistema preconceituoso, o leproso volta para o convívio dos seus e Jesus vai para o lugar do leproso, pois fica retirado dos locais públicos. Percebe-se aqui uma consequência de Is 53,4: “ele carregava nossas doenças”.

Relação com Lv 13,1-2.44-46

A descrição que Lv 13 e 14 faz dos leprosos mostra, no mínimo duas coisas: a preocupação de não contaminar as demais pessoas e, ao mesmo tempo, a grave situação de exclusão que os contaminados viviam, bem como seus familiares que perdiam seus entes queridos. O NT, na pessoa de Jesus, supera completamente esta visão. Os cristãos também devem cuidar para não contaminar ninguém, mas tiram dos ombros dos doentes, a grave chaga da maldição divina, dando-lhe atendimento e acolhida.

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

5º Domingo do Tempo Comum
Dia: 7 de Fevereiro de 2021
Primeira Leitura: Jó 7,1-7.
Salmo: 146,1-2.3-4.5-6.
Segunda Leitura: I Cor 9,16-19.22-23.
Evangelho: Mc 1,29-39

 

Introdução: Intimidade e Empatia.

O Evangelho deste domingo mostra as ligações entre intimidade, empatia e solidariedade popular. Na intimidade e a empatia vivenciada no círculo pessoal/familiar da casa de Simão e André se gera a comunidade de serviço em favor das pessoas mais vulneráveis. A intimidade da consciência humana em Jó lança o desafio empático com as pessoas que são vítimas de relações de opressão e escravização. Paulo parte de sua experiência pessoal de missão e declara a vivência empática entre as pessoas fracas. Um domingo onde as leituras bíblicas ligam a vivência pessoal da fé com o compromisso social e político.

Marcos: intimidade e empatia

Em Mc 1,29  está o final de uma narrativa da “sinagoga de Cafarnaum”, que inicia em 1,21. Embora em outras narrativas se fale que Jesus entrou em sinagogas (3,1), pregou (1,39) e ensinou (6,2), este é o único texto onde se menciona que ele e os discípulos “saíram da sinagoga” indo para a “casa” (oikia). Este movimento marca quando a comunidade de Marcos visualiza o surgimento da comunidade “cristã”. Na intimidade da casa, a comunidade vive o encontro com Jesus. A casa aparece novamente em 9,33; quando “partindo para Cafarnaum” entraram na casa. Na casa Jesus se revela como “servo de todos” (9,35). A casa tem como referência inicial Simão e seu irmão André (portanto é a casa materna/paterna de ambos, 1,16). Simão ainda não é conhecido como “Pedro” (cf. 3,16). O texto dá entender que ambos falaram para Jesus (intercederam) pela sogra de Simão, que estava acamada (1,30). Esta mulher vulnerável é imagem de toda a comunidade de Marcos, perseguida, ferida, frustrada. Jesus a toma pela mão (outro gesto de profunda intimidade e ternura) e a febre desaparece imediatamente. A mulher/comunidade tocada por Jesus, começou a servir!

Na segunda parte do texto, a “casa” se torna referência para todas as pessoas vulneráveis, doentes e excluídas. A referência “quando o sol se pôs”, indica que o sábado passou, o que permite que, sem exclusão, “todas” as pessoas doentes ou “possuídas” vão ao encontro de Jesus (1,32), ampliando-se no versículo seguinte quando “toda a cidade” se reúne na porta da casa (1,33). Verifica-se um movimento de igreja de saída, que vai da intimidade empática, para a empatia inclusiva em relação às pessoas mais vulneráveis, e daí parte para a missão que faz a ação política solidária (cidade/pólis).

Uma primeira conclusão em 1,34 substitui “todos/as” (pas), por “muitos/as” (polús). Os “demônios” como forças espirituais da morte e do sofrimento perceberem quem era Jesus (eído, de “ver”, não de “saber”), mas ele não deixa estes “falar” (laleo). Esta é uma prévia do chamado “segredo messiânico” em Marcos. As forças de morte percebem logo quem é Jesus e qual é sua missão, mas esta missão deve ser desenvolvida a partir da comunidade, da intimidade, da empatia e do compromisso social e político. Jesus é o Messias que emerge da comunidade, não imposto ou implantado por nenhum poder.

O dia em que a comunidade foi gerada segue. Ainda escuro, no amanhecer do primeiro dia da semana – dia da ressurreição, como é dito em Mc 16,2- Jesus se afasta, gerando, na comunidade, um sentimento de abandono muito semelhante ao da sua morte (1,35). A comunidade, liderada por Simão, sai em busca de Jesus, como no episódio da ressurreição (1,36-37; cf. 16,7). Jesus anuncia a missão de compromisso social e político a partir da comunidade, dizendo literalmente “dentro disso, pois eu vim/vou” (eis touto exelton). Jesus provoca a “eclesiogênese” (cf. Clodovis e Leonardo Boff) desde a intimidade, passando pela empatia e projetando o compromisso social e político. Jesus continua pregando por toda a Galileia, nas “sinagogas deles” (sunagogas auton), mas sempre voltando para a casa/comunidade como referência, expulsando as forças de morte (1,39).

Ligação com os outros textos

O texto de Jó exige o mesmo cuidado do que o texto de Marcos, em não ver na pessoa (sogra de Pedro) apenas ela, mas a expressão de muitas outras na mesma situação. Assim quando no livro de Jó se pergunta: “não está o homem condenado a trabalhos forçados aqui na terra?” (7,1-3), não se conecta a intimidade do sofrimento humano, com a empatia e o compromisso social e político? Quando ao apóstolo Paulo afirma “para os fracos, fiz-me fraco, a fim de ganhar os fracos”, não expressa ali, através da sua intimidade de fé, a empatia e o compromisso social e político? Assim podemos ver, através destas leituras, que este é o caminho da fé, da construção comunitária e da missão de Deus.

 

 

Quarto Domingo do Tempo Comum
Dia: 31 de Janeiro de 2021
Primeira Leitura: Dt 18,15-20
Salmo: 94,1-2.6-9
Segunda Leitura: 1Cor 7,32-35
Evangelho: Mc 1,21-28

 No Evangelho de Marcos, Jesus inicia sua atividade em público com um exorcismo. Marcos inicia a perícope com dados situacionais: Cafarnaum, sábado, sinagoga. No v. 22 é constatado o ensinamento cheio de autoridade de Jesus e a reação de quem o escuta. No entanto, nada se diz sobre o conteúdo do ensinamento. É nítido o contraste/confronto com o ensinamento dos escribas. A autorizada doutrina de Jesus, que ultrapassa a doutrina dos escribas, pode fundar-se sobre o fato que Jesus fala por autoridade direta, enquanto que os escribas simplesmente explicam a Lei e a tradição.

Os vers. 23-28 contam uma clássica história de exorcismo, cujos elementos essenciais são: entrada em cena do endemoninhado, tentativa de defesa, ordem e expulsão por parte do exorcista, saída do espírito impuro e reação afirmativa das pessoas presentes.

Os personagens em ação são Jesus, o espírito impuro e aqueles que estão presente na sinagoga. O homem endemoninhado é como que um coadjuvante do espírito impuro que o possui. Aos discípulos se faz alusão somente na frase inicial como acompanhantes de Jesus.

É digno de nota que aquilo que o espírito impuro reconhece é justo, Jesus é “o Santo de Deus”. O reconhecimento se torna uma revelação. A expressão “santo de Deus” pode ser encontrada também em Lc 4,34; Jo 6,69 (cf., ainda Dt 7,6; Jz 16,17; 2sm 17,18; Sl 105,16; Sb 11,1). A pergunta subentendida é: basta reconhecer o senhorio de Jesus? Ecoa o convite do salmista: “não endureçais vossos corações” (Sl 94,8).

O grito se articula em repulsa–profissão de fé (vers. 23-24) e suplício (v.26; comparar com 9,26). Ao espírito impuro é ordenado de manter para si a sua consciência sobre Jesus. Sobre a epifania se baixa o véu do mistério.  Marcos nos convida a cotejar os gritos do espírito impuro (vers. 23-24.26) com a voz de comando de Jesus (v.25). A dessemelhança é reveladora. Esta diferença faz compreender a intenção de apresentar Jesus, conectado à imagem veterotestamentária, como o senhor da natureza e das forças que nela operam.

O fato que os espíritos impuros reconheçam Jesus constitui uma característica usual em Mc (3,11; 5,7). A pergunta “o que há entre nós e ti?” contém aspecto de repulsa que é formal e recorrente no Antigo Testamento (Jz 11,12; 2Sm 16,10; 1Rs 17,18; 2Rs 9,18).

A referência à vinda de Jesus (v.24) é geral e não diz respeito somente à sua chegada na sinagoga de Cafarnaum. A sua missão tem como meta a aniquilação do ser demoníaco.

A reação dos presentes na sinagoga é de surpresa e admiração. O raro ethambēthēsan (“ficaram estupefactos”), pode descrever também o espanto dos discípulos por uma palavra de Jesus (10,24.32). O novo ensinamento, dotado de autoridade e confirmado pela multidão (v.27), se manifestou na obediência dos espíritos impuros ao comando de Jesus. A reação torna transparente o conjunto do relato: ele se apresenta como história de missão, enquanto na reação confluem em um único gesto a assembleia da sinagoga e a assembleia cristã missionária. Também a difusão da fama de Jesus na circunvizinhança vai entendida como notícia relacionada à missão.

O texto do Dt mostra que os judeus esperavam um Messias que fosse como um novo Moisés. “As palavras de Deus em sua boca” (Dt 18,18) evidenciam o paralelismo entre Jesus e Moisés.

Para Mc a autoridade da palavra de Jesus aparece referendada pelo o fato de estar acompanhada por ações poderosas. A ação torna explícita a palavra. A história do exorcismo deve ser lida com esse pano de fundo. A derrota dos espíritos malignos anuncia que chegou o senhorio de Deus.

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF

Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló

Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

 

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

3º Domingo do Tempo comum

Dia: 24 de janeiro de 2021

Primeira Leitura: Jn 3,1-5.10
Salmo: 24,4ab.6-7bc.8-9
Segunda Leitura: 1Cor 7,29-31
Evangelho: Mc1,14-20

 

O evangelho deste domingo pertence ao bloco conhecido como “Ministério de Jesus na Galileia” (1,14–7,23). Para compreendermos bem os versículos que lemos nesta liturgia (1,14-20), é necessário dividi-los em dois pequenos blocos.

O primeiro (vv. 14-15) é um sumário, no qual está resumido o projeto teológico de todo o livro de Marcos. Nesses dois versículos, ganha destaque o termo “evangelho”. Esta palavra não foi inventada por Jesus nem pelos cristãos. Ela já era usada na língua grega e seu significado nós sabemos: “boa notícia”. A questão é saber: Que tipo de boa notícia? Ou melhor: Boa notícia para quem?

No mundo greco-romano, “evangelho” era qualquer notícia ligada ao poder de Roma e do imperador: vitórias militares e derrota dos inimigos, bem como a entronização do imperador. Em suas cartas, Paulo se apropria deste termo e muda totalmente o significado: o conteúdo do “evangelho” é a salvação atuada por Jesus Cristo. O primeiro a usar aquela palavra para designar um livro é Marcos (Mc 1,1). Este autor diz abertamente que o evangelho que Jesus anuncia não é uma boa notícia do Império Romano, mas é “de Deus”. Com este acréscimo, o evangelista diz claramente que a boa notícia de Deus não é a boa notícia do Império; pois o que o Império oferece não é a salvação, e sim a chamada Pax Romana, um sistema de dominação baseado na violência e na destruição.

Não é à toa que Jesus inicia este anúncio crítico depois que João tinha sido entregue, isto é, depois que o Batista tinha sido aprisionado por criticar o Herodes Agripa, um rei fantoche e subserviente ao imperador Tibério César. A prisão do profeta João Batista é vista como o ápice da iniquidade de Herodes Agripa e sinal de que havia chegado o momento da intervenção de Deus para libertar seu povo. Por isso, o v. 15 afirma claramente:  Completou‑se o tempo oportuno e o Reino de Deus se aproximou. Convertei‑vos e crede no Evangelho.

O texto grego usa a palavra kairós: não se trata do tempo cronológico, mas do momento oportuno: a intervenção de Deus é agora!  Na continuação, Jesus diz que o Reino de Deus se fez próximo. A palavra kairós na primeira frase do versículo pode levar ao engano de interpretar que Jesus esteja falando da proximidade do tempo. Mas não: o verbo “aproximou-se” aqui não tem a ver com tempo, mas com espaço: o Reino de Deus está aqui, está ao alcance da nossa mão. Então, o Reino acontece agora (kairós, momento oportuno) e aqui (está ao nosso alcance).

Neste contexto devem ser lidos os dois imperativos do v. 15: Convertei-vos e crede no Evangelho. Converter-se, aqui, significa mudar de mentalidade, deixar de acreditar nas promessas enganosas do Império Romano, para acreditar no Evangelho de Deus. Em outras palavras, não se trata apenas de não mais ter medo do Império, mas também de não assumir como projeto pessoal e comunitário a Pax Romana, que, como vimos, é uma paz baseada no sangue e nos cadáveres dos inimigos e derrotados. A verdadeira força que salva não é a opressão do Imperador, mas o compromisso com o Reino de Deus!

O fato de Jesus ter escolhido como primeiros membros de seu grupo quatro pescadores, bem como as palavras que dirige a Simão e a André – Vinde após mim, e eu vos farei ser pescadores de homens – também merecem nossa atenção.

Nos vv.16-20 temos duas cenas semelhantes, narradas como típicos relatos de vocação: enquanto caminha, Jesus vê trabalhadores e os convida a deixar tudo e segui-lo. A eleição de pescadores e a insistência de Marcos neste particular vão além do sentido simbólico superficial, isto é, congregar pessoas para que recebam o perdão e a salvação. O convite a pescadores liga este episódio a dois textos proféticos, Am 4,2 e Jr 16,16, nos quais os pescadores simbolizam os exércitos inimigos que invadem Israel e Judá. A ação daqueles pescadores era a de dispersar e devorar o povo. Nos tempos de Jesus, assim agia o Império Romano. Ao qualificar seus primeiros discípulos como pescadores, Jesus os convida a agir de modo contrário, isto é, reunir e salvar o povo. Os discípulos, portanto, são convocados a se unir a ele na sua luta para restaurar a dignidade das pessoas e de toda a nação. Muitas vezes, isso implica deixar e combater privilégios ancorados na dominação romana. Por isso, o evangelista insiste que os primeiros vocacionados deixaram imediatamente redes e barcos, não para fugir do mundo, e sim para se inserir numa prática social alternativa, baseada não em vantagens interesseiras, mas na liberdade diante da vida e do futuro.

 

 

 

 

 

 

Segundo Domingo do Tempo Comum
Dia: 17 de janeiro de 2021

Primeira Leitura: 1Sm 3,3b-10.19
Salmo: 39,2.7-10
Segunda Leitura: 1Cor 6,13c-15a.17-20
Evangelho: Jo 1,35-42

 

Evangelho

O texto deve ser lido dentro da unidade maior (Jo 1,19-2,11) que se apresenta como uma semana teológica, parafraseando Gn 1,1-2,4a. Assim, em Jo 1,19-28 se relata o primeiro dia: testemunho de João Batista diante dos enviados de Jerusalém. Em Jo 1,29-34 está o segundo dia: testemunho de João diante de Jesus, como Cordeiro de Deus, sobre o qual viu descer o Espírito. No terceiro dia (Jo 1,35-39) o Batista testemunha diante dos discípulos que aderem a Jesus. Já no quarto dia (Jo 1,40-42), André testemunha diante de Simão. No quinto dia (Jo 1,43-51) Filipe testemunha diante de Natanael. A culminância desta semana teológica acontece no sétimo dia, ou seja, no terceiro dia, ou dois dias depois do quinto dia (Jo 2,1-11) quando a glória plena de Jesus se revela e os discípulos creem nele (2,11).

Nesta semana teológica, a dinâmica geradora da comunidade de fé, é o testemunho. Num primeiro momento, é João que dá seu testemunho: “eis o Cordeiro de Deus”, conceito haurido de Ex 12 e Is 53. No segundo momento, os dois discípulos que passaram de João a Jesus, atribuem a ele o conceito de Mestre (Rabi). Um destes discípulos, depois de ter permanecido o dia na Sua presença, apresenta-O a Simão, como o Messias/Cristo. Se continuarmos a leitura na próxima perícope, Filipe o apresenta a Natanael como “aquele de quem está escrito na lei de Moisés e nos profetas” (v.45). Por fim Natanael o define como “rabi, Filho de Deus e rei de Israel” (v.49). Ao que o próprio Jesus completa: “vereis o céu aberto… sobre o Filho do Homem” (v.51 cf. Gn 28,12 – visão de Jacó). Como se percebe, é uma cristologia crescente que culmina com o testemunho dos discípulos e é completada pela palavra de Jesus.

A cena se dá onde João batiza. Ele, como o último representante da antiga Lei, dá testemunho sobre Jesus e, imediatamente, dois de seus discípulos, passam da antiga Lei para a pessoa de Jesus. João está parado e Jesus anda. Isto é, o papel de João está chegando ao fim, o Antigo Testamento cumpriu sua função. João dirá, logo adiante: “É preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). Agora inicia a missão de Jesus. Os fiéis do antigo Povo de Deus chegam a Jesus pelo testemunho de João e o testemunho dos que já aderiram é a dinâmica para trazer outras pessoas (cf. At 1,6-8). Assim, João (AT) entende que não deve formar discípulos para si, mas encaminhá-los ao verdadeiro esposo (Jo 3,29ss).

Os conceitos usados: Cordeiro de Deus, Mestre, Messias, etc. são conceitos pós-pascais, quando a comunidade relê Jesus à luz do AT. O cristão que tem esta fé passa tranquilamente da antiga Aliança para a pessoa de Jesus e está apto a testemunhar e assumir a missão de evangelizar. Esta dinâmica fica clara na ação daqueles que usufruíram do primeiro testemunho e levaram a missão de João até Natanael, passando por Pedro.

Assim, parafraseando o primeiro relato da criação, o evangelista mostra que a nova criação está acontecendo de forma plena na pessoa de Jesus. Claro, para isto conta o testemunho vindo do AT que prepara a missão de Jesus e este, por sua vez, requer a adesão dos discípulos que, agora, continuam a missão através do testemunho. Dir-se-ia: só pela adesão a Jesus, a plenitude da revelação de Deus (cf. Gl 4,1ss; Hb 1,1ss; Ef 1,10; Cl 1,19) a criação preconizada em Gn 1 chega à plenitude.

Relação com 1Sm 3,3b-10.19

Como os discípulos de Jesus, também Samuel faz a experiência de Deus que o chama para a missão. Assim como os discípulos chegaram a Jesus pelo testemunho de João, de André e de Filipe, também Samuel, ouvindo a voz de Deus, precisou do testemunho e da orientação de Eli. A verdadeira fé é um dom de Deus, mas este não cai do céu. Se expressa na comunidade e, para chegar à verdade, precisa do testemunho das pessoas disponíveis a Deus. Samuel teve sua fé amadurecida por Eli, os discípulos chegaram à verdade pelo testemunho de João e dos demais. Hoje, a verdadeira fé vem pelo testemunho da igreja, isto é, pelo povo que vive com autenticidade os valores revelados na Bíblia e plenificados na pessoa de Jesus Cristo.

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF

Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló

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Batismo do Senhor – Ano B

Dia 10 de Janeiro de 2021

Primeira Leitura: Is 42,1-4.6-7

Salmo: 28,1a.2.3ac-43b.9b.-10

Segunda Leitura: At 10,34-38

Evangelho: Mc1,7-11

Introdução

O Evangelho da comunidade de Marcos é o pioneiro no gênero literário chamado “evangelho”. Comparado com os outros dois Evangelhos Sinóticos (Mt e Lc) é quase um sumário. É claro que devemos lembrar que os primeiros textos do Novo Testamento foram as Cartas de Paulo, que podem ter influenciado esta primeira narrativa sobre a trajetória ministerial de Jesus Cristo sob o título “Evangelho” (cf. Gl 1,6-9; Rm 1,3s; 1 Cor 9,14;15,3-5). Mas, este termo tinha uma origem anterior nas narrativas do Império Helenista de Alexandre e no Império Romano quando se anunciava o nascimento de um imperador como “deus”. O Batismo de Jesus, por sua vez, faz parte das narrativas confessionais da comunidade que busca descrever a glória única e incomparável de Jesus com auxílio de traços lendários. Elas também sinalizam o Batismo como a necessidade de estabelecer o vínculo de continuidade entre os movimentos proféticos de João Batista e de Jesus de Nazaré (Mc 1,2-11 e 6,14-19).

O texto em si

A narrativa tem duas partes, claramente diferenciadas: 1,7-8 (Pregação de João Batista sobre “aquele que é mais forte do que eu”) e 1,9-11 (Narrativa do Batismo). A primeira parte refere-se à continuidade entre os movimentos proféticos de João Batista e Jesus. Quando João Batista afirma que Jesus é “mais forte” (termo que usará depois em 3,27 para falar da casa de um homem “forte”). A dimensão comparativa entre os dois movimentos usando a expressão geralmente traduzida como “eu não mereço”, mas a palavra grega hikanós não se refere ao “mérito”, mas à “quantidade”, isto é, “não tenho o suficiente para…” ou “não tenho a capacidade de…” (cf. Mc 10.46, “numerosa”; 15,15; “multidão”). Aqui fica claro que João Batista e Jesus simbolizam seus movimentos proféticos!  João Batista declara que seu movimento – cuja marca era o batismo nas águas do rio Jordão, por onde o povo ingressou à Terra Prometida – deve se incorporar ao movimento de Jesus – cuja marca é a ação do Espírito Santo – para completar a missão transformadora. Chegou a hora de aderir a um novo movimento, um novo batismo que incorpora a força divina.

A segunda parte é uma declaração de fé da comunidade de Marcos, aberta pelo título formal “naqueles dias”. Este tipo de introdução aparece neste Evangelho para falar de grandes sinais de Jesus como em 8,1 quando Jesus faz o gesto eucarístico da partilha com multidão, ou ainda em 13,24 quando se anuncia a volta do “Filho do ser humano” após a “grande tribulação”. Jesus, apresentado em relação à Nazaré da Galileia, e não como “Cristo” (cf. Mc 1,1), mostra que o movimento profético do Evangelho emerge do chão da história. Com Jesus, batizar – lavar, desconstruir a relação de pecado – assume o sentido maior da entrega na Cruz (central na teologia de Marcos; cf. 10.38-39).

Relacionando os textos

A alegria que se proclama neste Domingo - Gaudete - está em Jesus, Logos criativo, que é Vida Luz e chama para um testemunho profético que se vive no chão de nossa história concreta, como foi com João Batista e Jesus, e vai além dos estreitos limites de nossos parâmetros “religiosos”. A leituras proclamam a alegria de anunciar a “boa notícia para as pessoas pobres” (Is 61,1) e, como Maria, se alegrar “em Deus meu/nosso Salvador” (Lc 1,47) pois, Ele “encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias” (Lc 1,53). Se alegrar na oração e no discernimento que reside em “não apagar o Espírito”, “não desprezar as profecias” e “reter o que é bom”, se abstendo “de toda forma de mal” (cf. 1 Ts 5.16,19-22). Este alegre movimento da profecia só pode ser realizado quando nossa prática de fé não se fecha em parâmetros estreitos, limitando a revelação ao nosso poder como “autoridade religiosa”, mas se abre o sentido (Logos) da Vida e da Luz, capaz de iluminar as trevas de quem perdeu a capacidade de testemunhar e acolher.

 

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Pe Gilvan – REFLEXÕES LITÚRGICAS

sábado, maio 9th, 2020

REFLEXÕES de Pe. Gilvan  Leite  de  Araujo

30º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

            A liturgia deste domingo possui rica e profunda expressão espiritual e missionária. Uma das mais belas canções de Israel apresenta o seguinte refrão: “Jerusalém toda de ouro, de bronze e de luz. Por que não ser eu o violino para todas as suas canções?… Voltamos aos poços de água ao mercado e à praça, o chofar chama no monte do templo na cidade velha. E em cavernas nas montanhas. Milhares de sóis brilham. Descemos novamente ao Mar Morto pelo caminho de Jericó”. A cidade de Jericó (=perfumado) foi a primeira cidade com a qual os israelitas tiveram contato quando entraram na Terra Prometida. Conhecida como a cidade das Palmeiras é descrita como uma das mais antigas cidades povoadas da história.

As narrativas bíblicas descrevem a figura de Raab auxiliando os israelitas a ingressarem na Terra Prometida; bem como na linhagem genealógica de Jesus, através do seu filho Booz, bisavô de Davi (Mt 1,5). Portanto, Jericó possui certa importância no contexto da própria pessoa de Jesus.

Na conquista de Jericó se descreve, ainda, a figura angélica do “chefe do exército de Iahweh” que combate com os israelitas pela conquista da cidade descrita como “lugar santo” (Js 5,13-15).

A narrativa do Evangelho de Marcos descreve Jesus subindo de Jericó rumo a Jerusalém, distante aproximadamente 27 Km, quando ocorre o encontro com o cego Bartimeu. Os dados acima sobre a história de Jericó e de Raab auxiliam na compreensão da súplica de Bartimeu: “Jesus, filho de Davi”. Ele não parte do ocaso, mas de um reconhecimento de que o “nazareno” é o judaita filho de Davi. Tanto Raab como Davi se apresentam na história bíblica como protetores e libertadores de Israel. Portanto, só um descendente de Raab e de Davi será capaz de proteger e libertar Bartimeu.

O nome “Bartimeu” é proveniente do aramaico com o significado de “bar” = filho e “timeu” = estimado; honrado. Portanto, o nome significa “filho estimado/honrado”. Este “filho estimado” de Israel encontra-se “à beira do caminho”, ou seja, a margem de tudo, abandonado. Escutando Jesus, ele sente a esperança de libertação e, por isso, põe-se a gritar. A reação dos passantes é silenciá-lo. Mas este homem que já vive a beira do caminho, não se deixa silenciar, levando ao chamado de Jesus.

No grito de Bartimeu encontra-se a menor oração da Bíblia; além de ser a menor, é a oração de toda pessoa humana, independente de religião, cultura ou nação: “tem piedade de mim!”. A menor oração da Bíblia é também profunda; ela implica na íntima busca de salvação; daquele que pode ser o “redentor”. Assim, Jesus, enquanto “nazareno” se apresenta como o “redentor” de Bartimeu, assim como Davi foi “redentor” de Israel. Quando chamado por Jesus, Bartimeu se levanta e “joga o manto por terra”. A ação possui um forte significado, ou seja, a roupa ou ausência dela pode ter significado moral ou social. Aqui, na narrativa marcana, implica num processo de conversão e mudança de vida. Bartimeu deixa a vida, que tinha até então, de lado. No encontro com Jesus, a sua vida será outra, ou seja, uma nova vida.

O jogar o manto e levantar-se ao encontro de Jesus indica a fé que o leva à cura. Sua fé o faz agora sair de uma vida “à margem do caminho” para o seguimento de Jesus “no caminho”. A sua oração chegou ao Senhor que lhe permite, agora, sair da “marginalidade do caminho” para se tornar o fiel seguidor no caminho.

Este contexto de vida nova em Cristo é descrito como a realização daqueles que viviam na escravidão, conforme profetiza Jeremias, em vista daqueles que se tornaram exilado. Os filhos de Israel se encontram sem alento e esperança numa terra distante. Jeremias lhes anuncia que a sua redenção está próxima. É tempo de alegra-se, pois Deus se lembrou do seu povo; como proclama o Profeta Isaías: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz raiou para os que habitavam uma terra sombria como a da morte” (Is 9,1). Para aqueles os quais não havia esperança, esta renasce e vibra: é tempo de gritar; é tempo de cantar, pois: “maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria… parecíamos sonhar” (Sl 125[126]).

A Carta aos Hebreus, amplia a dimensão “Redentor” de Jesus Cristo na qualidade de “Salvador”. Enquanto “redentor” possui a qualidade real de libertar através de acordo e paga, a qualidade de “salvador” possui contexto cultual/sacrificial. Jesus é o Rei-Sacerdote capaz de ser Redentor e Salvador do seu povo, que se compadece, escuta o seu clamor os liberta para uma vida nova.

O grito do Bartimeu se configura como o grito de todos aqueles que se encontram à beira do caminho do mundo, sem alegria, sem alento e sem esperança e que são calados quando gritam por vida nova. Mas a súplica do justo sempre chega aos ouvidos daquele que pode salvar. Bartimeu continua hoje gritando esperando por libertação na voz daqueles que clamam: “tem piedade de mim!

29º Domingo do TC

Pe. Gilvan Leite de Araujo

            Quando rezamos a oração do Creio, a certo momento professamos Jesus sentado a direita do Pai. No livro do Apocalipse narra-se o seguinte:

eis que havia um trono no céu, e no trono, Alguém sentado… Ao redor desse trono estavam dispostos vinte e quatro tronos, e neles assentavam-se vinte e quatro Anciãos, vestidos de branco e com coroas de ouro sobre a cabeça… E, a cada vez que os Seres vivos dão glória, honra e ação de graças àquele que está sentado no trono e que vive pelos séculos dos séculos, os vinte e quatro Anciãos se prostram diante daquele que está sentado no trono para adorarem aquele que vive pelos séculos dos séculos, depondo suas coroas diante do trono…” (Ap 4,2.4.9-10)

No sistema de dominação da Babilônia e da Pérsia havia o chamado Conselho do Grande Rei. Este Conselho era formado pelos representantes do governo central e pelos reis vassalos. A disposição dos membros no Conselho também indicava o grau de prestígio e poder que possuíam. Portanto, o estar sentado a direita ou a esquerda indicava o prestígio que possuía o representante do governo, o príncipe e/ou o rei vassalo.

Sabe-se pelas narrativas Bíblicas que durante o exílio da Babilônia o rei Joaquin de Judá (Jeconias: 2Rs 24-25) após ser exilado foi conduzido para o cárcere, mas em seguida foi libertado e mantido prisioneiro no palácio real da Babilônia e se tornou membro do Conselho do Grande Rei da Babilônia. Após a sua morte, seu filho, Zorobabel irá assumir tal função. Retornando para Jerusalém, Zorobabel virá com o título de príncipe e/ou governador, conforme narrado pelos livros de Esdras e Neemias. Contudo, ele é o rei legítimo rei de Judá, descendente do trono de Davi, que assumirá o governo de Judá através de um sistema de diarquia, junto com Josué. Tal governo diarquico resultará numa guerra civil em Jerusalém, com o assassinato de Zorobabel e a ascensão de um governo Ierocrático.

O processo histórico acima permite compreender o estar sentado direita ou a esquerda do Grande Rei. Em todo caso, pressupõe prestígio e autoridade.

O Evangelho deste domingo apresenta os filhos de Zebedeu que pedem à Jesus a dignidade de sentar-se a sua direita e a sua esquerda quando estiver na glória (Mc 10,35-45). Na narrativa mateana o pedido é feito pela mãe do dois (cf. Mt 20,20-28). Independente se originalmente o pedido tenha sido feito pelos dois irmãos ou por sua mãe é claro que isto gerou um mal-estar no grupo dos apóstolos. Além disso, descreve-se incompreensão sobre a modalidade do Reino de Deus.

A atitude de Jesus é demonstrar que o Reino de Deus passa por outra modalidade. Não se trata do exercício do poder, mas do exercício da diaconia. Não passa pelo autoritarismo, mas pela autoridade enquanto serviço: “…aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir…” (Mc 10,43-45). Além disso, a dignidade é conferida pelo Pai e não pelo Filho. De fato, Jesus anuncia que existe uma hierarquia no Reino de Deus, não de poder, mas de serviço.

Na hierarquia de serviço, a 1ª Leitura evoca o tema do servo sofredor, capaz de sofrer e doar a vida em favor de muitos, não em vista de si próprio, não em vista da sua glória, mas como disponibilidade total ao Pai e em vista do bem de todos (Is 53,10-11: Quarto Canto do Servo). O Canto do Servo Sofredor não é um canto messiânico, mas indica a sorte daqueles que são fiéis à Deus, ou seja, serão perseguidos por sua fidelidade. Assim, o Filho sofrerá a mesma sorte dos profetas que foram perseguidos e, muitos, martirizados, por permanecerem fiéis.

A 2ª Leitura afirma esta condição de fidelidade e sua consequência, descrevendo Jesus Cristo na condição de sumo-sacerdote. Tal dignidade lhe é atribuída porque sendo Filho se abaixou fazendo a experiência humana e sofrendo a sorte daqueles que foram fiéis a Deus. Fazendo-se humano, Jesus conhece as alegrias e as angústias, os vícios e as virtudes que envolvem a pessoa humana, por isso, ele é capaz de compreender plenamente a realidade humana e salvá-la através do seu sacrifício único e perfeito. O aprender a se abaixar, cria espaço para descobrir o outro e o Altíssimo.

A sua autoridade deriva justamente da sua capacidade de pôr-se a serviço dos demais, fiel a seu Pai. O Reino de Deus, passará por esta compreensão “política”, ou seja, o exercício da autoridade como serviço doativo pelo bem de todos: “À frente do trono, havia como que um mar vítreo, semelhante ao cristal” (Ap 4,6), ou seja, o exercício do domínio do Pai não passa pela opressão, pelo autoritarismo ou acordo espúrios, mas pela capacidade de governar “com transparência em favor do bem de todos.

O tema da sabedoria para bem viver a fé cristã perpassou os últimos domingos. Neste final de semana, a liturgia destaca a capacidade do exercício de governo que se aplica em todas as instâncias. Além disso, trata-se de como a pessoa seja capaz de cuidar e/ou organizar e assumir o que se encontra sobre a sua responsabilidade. Jesus propõe aos discípulos beber do cálice que ele mesmo beberá. A resposta é imediata: “Podemos!”. Contudo, isto não ocorrerá de fato, pois no momento da cruz, em Marcos, todos os discípulos se dispersam. Uma coisa é a “prontidão para”, outra é o assumir de fato. O Reino de Deus, passa pelo exercício total confiança e doação, não pelo modelo imperialista e repressores do governo do mundo. A comunidade cristã será cristã de verdade enquanto for capaz de colocar o outro como referência de missão, onde tudo se transforma em diaconia.

 

28º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

           As leituras dos evangelhos dos últimos domingos colocam Jesus saindo da Galileia rumo a Jerusalém. O tema do Reino de Deus é sublinhado. Após a segunda Multiplicação dos Pães (Mc 8,1-10) e da Transfiguração (Mc 9,2-8), Jesus começa a descrever o modelo do discipulado, que passa pela imagem das crianças (27º DTC). Assim, o seguimento não passa pelas habilidades, comportamento humanos ou condição social da parte daquele que deseja entrar no Reino de Deus, mas pelo princípio da humanidade, típica das crianças, não pela dureza do coração, ou seja, sensibilidade humana para o acolhimento que é tratado no 28º Domingo do TC.

1ª Leitura: Sb 7,7-11

A sabedoria primitiva de Israel passava pelo conceito de conhecimento e prática da Lei através dos princípios “lembra-cumpra!”. Portanto, o sábio era aquele que conhecia a Lei e a colocava em prática. O justo era aquele que prescrutava e Lei e a colocava em prática, tornando-o sujeito dos favores divinos. O ímpio era justamente aquele que não conhecia a Lei e, portanto, não a praticava, assim, este era sujeito à desgraça. Tal concepção será questionada diante da realidade do sofrimento do justo e da prosperidade do ímpio.

A Literatura Sapiencial posterior irá repropor o modelo do justo, que passará a ser aquele que “Teme o Senhor”. Assim, o sábio será aquele que teme o Senhor Deus. Nesta perspectiva, o estudo da Lei será um valor enquanto norteada pelo temor do Senhor Deus: Quem é o justo? Quem é o sábio? É aquele que teme o Senhor Deus e pratica a sua vontade.

O capítulo 7 do Livro da Sabedoria aproxima o tema da sabedoria ao Espírito Santo. Alguns textos anteriores já buscavam realizar tal aproximação. Assim, Isaías anunciava: “Sobre ele repousará o espírito de Iahweh, espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Iahweh: no temor de Iahweh estará a sua inspiração. Ele não julgará segundo a aparência. Ele não dará sentença apenas por ouvir dizer” (11,2-3). Na mesma linha o Livro da Sabedoria expõe: “A Sabedoria é um espírito amigo dos homens, não deixa impune o blasfemo por seus propósitos; porque Deus é a testemunha de seus rins, perscruta seu coração segundo a verdade e ouve o que diz a sua língua” (1,6). Prossegue a obra comentando: “Nela há um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, imaculado, lúcido, invulnerável, amigo do bem, agudo, incoercível, benfazejo, amigo dos homens, firme, seguro, sereno, tudo podendo, tudo abrangendo, que penetra todos os espíritos inteligentes, puros, os mais sutis…” (7,22-23), ficando claro tal aproximação a partir da seguinte referência “Quem conhecerá tua vontade, se não lhe dás Sabedoria enviando dos céus teu santo Espírito?” (9,17).

Lógico que a aproximação sabedoria-Espírito passa por algumas considerações. Pr 8 e Eclo 1,10 e 24,3-22 descrevem a sabedoria como originada por Deus e Sb 7 busca situá-la na esfera divina: “Ela é um eflúvio do poder de Deus, uma emanação puríssima da gloria do Onipotente, pelo que nada de impuro nela se introduz. Pois ela é um reflexo da luz eterna, um espelho nítido da atividade de Deus e uma imagem de sua bondade” (Sb 7,25-26). O autor procura corrigir qualquer concepção equivocada, principalmente daquela proveniente da filosofia grega. Neste sentido, ele afirma que “o espírito do Senhor enche o universo, dá consistência a todas as coisas, não ignora nenhum som” (Sb 1,7) e “todos levam teu espírito incorruptível!” (Sb 12,1). Para o autor a Sabedoria exerce atividade cósmica e histórica. Na criação do mundo, ela possui papel ativo (7,12.22; 8,6; 9,1-2) e continua a penetrá-lo totalmente (7,22-24), renová-lo (7,26) e regê-lo (8,1). Portanto, ela tem acesso à pessoa humana (6,12-16), desde que não seja rejeitada (1,4), tornando aqueles que a recebem, amigos de Deus (7,27).

Um mistério que se destaca é que o sábio será seu esposo: “Eu a quis, a rodeei desde a minha juventude, pretendi tomá-la como esposa, enamorado de sua formosura… Decidi, pois, unir nossas vidas, sabendo que me seria conselheiro para o bem e alívio nas agruras e tristeza… Ao entrar em casa repousarei ao seu lado…” (Sb 8,2.9.16). Este viés serve de referência para o Evangelho do 27º DTC quando foi tratado o tema do divórcio e realiza a ponte para a liturgia deste domingo. Entre o sábio e a sabedoria, o Livro da Sabedoria descreve uma relação marital que, portanto, implica em fidelidade. Mas, se o sábio a rejeita (1,4) é como um homem que repudia a sua mulher se divorciando dela, tornando a sua posteridade testemunha dos seus crimes: “os filhos que nascem de sonos ilegítimos são testemunhas da perversidade de seus pais quando eles forem julgados” (Sb 4,6).

Evangelho: Mc 10,17-30

O Evangelho descreve um jovem que busca a vida eterna. Jesus responde dizendo que basta a simplicidade daquilo que ele já faz. Nada além disso… observe a Lei e isto basta. Contudo, o jovem não acha suficiente, precisa de coisas maiores e melhores. Neste sentido, Jesus propõe algo radical: “se desfazer de tudo para alcançar tudo”. Mas, na realidade, o coração do jovem está na materialidade das coisas, o que o faz se sentir incapaz.

A eternidade buscada pelo jovem passa pelo viés da sabedoria, ou seja, ele prescruta a Lei. Mas se a sabedoria é algo que desce do alto, é um dom, ela será concedida para aqueles que conseguem superar a materialidade até alcançar a espiritualidade perfeita. Esta é proposta feita por Jesus, que o jovem não a compreende. Pode-se ilustra esta passagem através de figuras como Francisco de Assis e Domingos de Gusmão que abdicam da materialidade e assumem na totalidade o Evangelho e se tornam, de fato, amigos de Deus. Tanto um como o outro fazem a experiência da mística da luz.

O jovem busca justificar-se: “Isto já faço desde a minha juventude” (cf. Sb 8). Como um jovem que busca a amada de sua alma (Ct 4,1.9), o jovem busca a eternidade prescrutando as Escrituras, em busca da Sabedoria, mas não é capaz de deixar aquilo que é perecível (riqueza) por aquilo que é imperecível (sabedoria). Mesmo que busque a sabedoria como um jovem que busca da amada, ele não é capaz de assumi-la, pois não é capaz de abdicar de algo para assumir nova realidade. Na verdade, não confia totalmente na amada.

2ª Leitura: Hb 4,12-13

A leitura da Carta aos Hebreus passa pelo tema da sabedoria, agora descrevendo a Palavra de Deus, apresentando-a como “fruto” da Sabedoria. Somente aquele que “desposou” a sabedoria será capaz de compreender o mistério da Palavra de Deus e pô-la em prática. O tema sapiencial reaparece com toda a sua força. Quem deseja prescrutar a Palavra de Deus deverá se tornar amigo da sabedoria, mais ainda, desposá-la. Tomá-la como esposa permitirá ao sábio compreender o Mistério da qual vislumbra e empurra para a eternidade. Tal processo exigirá deixar tudo para possuir tudo: “na verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, filhos ou terras por minha causa ou por causa do Evangelho, que não receba cem vezes mais desde agora, neste tempo, casas, irmãos e irmãs, mãe e filhos e terras, com perseguições; e, no mundo futuro, a vida eterna” (Mc 10,29). Lógico que tal processo não depende unicamente do esforço humano: “aos homens é impossível, mas não a Deus, pois para Deus tudo e possível” (Mc 10,27). Isto, o jovem rico que buscava a sabedoria não compreendeu.

 

26º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

1ª Leitura: Nm 11,25-27

O capítulo 11 do livro dos Números descreve a situação diante da sobrecarga de trabalho sobre Moisés. Este não suporta mais o peso da missão e se lamenta diante de Deus: “Não posso, eu sozinho, levar todo este povo; é muito pesado para mim. Se queres tratar-me assim, dá-me antes a morte! Ah! se eu tivesse encontrado graça a teus olhos, para não ver a minha desventura!” (Nm 11,14-15). O Senhor Deus responde à Moisés pedindo que reúna setenta anciãos de Israel qualificados, a fim de que seja partilhado o Espírito que repousa sobre Moisés, tornando-os aptos para auxiliar Moisés na missão de conduzir o Povo de Deus (Nm 11,17). Contudo, dos que foram convidados, dois não compareceram à Tenda da Reunião, mas o Espírito também repousará sobre eles. A reação de um jovem que se encontra no acampamento é o de informar a Moisés o fato, solicitando que os dois homens deixem de profetizar. A resposta de Moisés é o desejo que todos profetizem.

Eldad (=Deus Amou) e Medad (=Amado) são identificados pelo nome e apesar de não terem comparecido para receber a missão, a recebem, pois Moisés os havia nomeado para tal. Aqui transparece um dado vocacional, ou seja, se desconhece o motivo pelo qual não compareceram à Tenda da Reunião, mas haviam sido nomeados. Portanto, a missão será conferida independente da vontade dos dois.

No conjunto, existe uma situação concreta: Moisés se sente sobrecarregado e tem o desejo de abandonar tudo: “dá-me a morte!” (Nm 11,15). O mesmo ocorrerá com Elias e Deus colocará Eliseu para auxiliá-lo (cf. 1Rs 19). A ação de Deus é partilhar as tarefas com pessoas adequadas tirando a sobrecarga daquele que lidera. Tal prática se aplica em relação a conduzir uma Diocese (=bispo) ou uma Paróquia (=Pároco) ou uma pastoral, movimento ou associação. As tarefas precisam ser partilhadas para que não sobrecarregue aquele que lidera, caso contrário ele/a não será capaz de executar a missão. Contudo, tendo confiado a missão, quem lidera deve ter a capacidade de acompanhar e deixar que os responsáveis cumpram suas tarefas, caso contrário atribuir função de liderança e continuar liderando é sinal que não confia na pessoa que recebeu o encargo, impedindo-a de trabalhar e acaba sobrecarregado. Isto acontece com muitos bispos, padres, superiores/as, quando atribuem funções, mas não deixam que a/as pessoa/s que recebeu/ram a tarefa a cumpra.

Outro importante fator é o desgaste da pessoa que está na função de liderança. Neste ponto, evoco o período de pandemia que deixou muito bispos, padres, superiores/as, além de sobrecarregados com suas funções, desanimados e sem direção e com vontade de abandonar tudo. Este é um perigo real. Principalmente quando sente que está no meio de uma tempestade e parece que o barco vai afundar. A este problema surge outro mais complexo: o tempo de pandemia deixou o mundo doente física, mental e espiritualmente. Parece que a sociedade vive na ansiedade e numa esquizofrenia. Assim, qual é o lugar do bispo, do padre do superior/ar, quando deve lidar com todos estes fatores. Apenas fazer a sua função com competência e zelo. Nada além disso, quem procurar inventar coisas, vai se perder. Cito um exemplo, neste tempo, quem lidera deverá ser como um farol. Será assolado por ventos, tempestades, ondar fortes, mas permanecerá estável fazendo com zelo e competência aquilo para qual foi designado, ou seja, ser uma luz em meio as trevas. Quem estiver perdido no turbilhão das tempestades terá o farol como referência para encontrar um caminho seguro. Portanto, para os irmãos bispos, padres, superiores, digo que seja tu este farol sereno e seguro em meio as tempestades, quem estiver perdido encontrará em ti o porto seguro.

Evangelho: Mc 9,38-43.45.47-48

No Evangelho, Jesus continua a mensagem da 1ª Leitura. Contudo, amplia colocando em destaque a idoneidade da pessoa que recebe um encargo, ou seja, ela deve ter caráter e modo de ação irrepreensível, para não colocar em risco a missão que lhe foi confiada.

Jesus, em Marcos, aponta que o que leva alguém a abandonar a fé não é o que vem de fora diretamente, mas o que vem de dentro da comunidade. Portanto, quem escandaliza não é aquele que realiza obras boas fora da comunidade cristã, mas aquele ao interno da comunidade cristã que possui um coração perverso ou que escandaliza a comunidade. Sobre estes é que se aplica o “provérbio” de Jesus construído através da fórmula “melhor isto… do que aquilo…”.

As imagens da mão, pé e olho estão ligados ao aspecto jurídico da ação cometida pela pessoa. Assim, o roubo (repetidas vezes), a violência (contra o outro) e a fornicação (adultério…) possuem por sentenças a pena de amputação no lugar da pena capital, segundo algumas tradições de Israel. Lógico que Jesus aplica a situação num contexto escatológico, ou seja, é melhor privar-se de algo do que perder tudo, no caso, a vida eterna. Assim, arrancar a mão ou o pé ou o olho possui um sentido metafórico de privar-se daquilo que possa levar ao escândalo. Renunciar a algo que parece interessante para a pessoa em favor da comunidade é “uma santa renúncia”. A Igreja e o Povo de Deus devem ser o referencial primário do bispo, do padre, do/a superior/a. Renunciar a algo pessoal em prol do Senhor é uma grandeza, mesmo que seja difícil, mas será sempre edificante, e dará liberdade e a verdadeira felicidade.

Os v. 49-50, que não estão presente na narrativa deste domingo, concluem toda a narrativa da questão do escândalo: “Pois todos serão salgados com fogo. O sal é bom. Mas se o sal se tornar insípido, como retemperá-lo? Tende sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros” (Mc 9,49-50). Aqui a função do sal é o de conferir sabor e privar da corrupção, ou seja, proteger. Assim, o cristão possui a responsabilidade de “dar sabor ao mundo” e “protegê-lo” da corrupção, mas para isto ele deve ser uma pessoa de paz, caso contrário, toda sua obra será em vão.

2ª Leitura: Tg 5,1-6

A narrativa da Carta de Tiago aborda um dos temas centrais da carta, ou seja, a questão do pobre e do rico. Para o autor, a questão não reside no fato de ser rico, mas sobre como ocorre a aquisição da riqueza e o uso desta. Caso a riqueza seja proveniente de ações ilícitas/desonestas e o seu uso não vise o bem comum, tal riqueza está fadada à desgraça de quem a possui. Sobre o primeiro ponto, ou seja, a aquisição da riqueza, Tiago aponta uma riqueza formada pelo não pagamento do salário do trabalhador.

O Livro de Levítico diz “Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás: o salário do operário não ficará contigo até a manhã seguinte” (19,13). O Livro do Deuteronômio prossegue dizendo: “Não oprimirás um assalariado pobre, necessitado, seja ele um dos teus irmãos ou um estrangeiro que mora em tua terra, em tua cidade. Pagar-lhe-ás o salário a cada dia, antes que o sol se ponha, porque ele é pobre e disso depende a sua vida. Deste modo, ele não clamará a Iahweh contra ti, e em ti não haverá pecado” (24,14-15).

Na literatura sapiencial, o Eclesiástico diz “O Altíssimo não se agrada com as oferendas dos ímpios e nem é pela abundância das vítimas que ele perdoa os pecados. Como o que imola o filho na presença de seu pai, assim é o que oferece um sacrifício com os bens dos pobres. Escasso alimento é o sustento do pobre, quem dele o priva é um homem sanguinário. Mata o próximo o que lhe tira o sustento, derrama sangue o que priva do salário o diarista” (Eclo 34,23-27). O Profeta Jeremias prossegue: “Ai daquele que constrói a sua casa sem justiça e seus aposentos sem direito, que faz o seu próximo trabalhar de graça e não lhe dá o seu salário” (22,13).

No conjunto das leituras veterotestamentárias destaca-se o direito do salário como um direito divino, no qual privar um trabalhador é uma ofensa que clama aos céus. A Carta de Tiago resgata a temática descrevendo a riqueza como fruto da privação do salário do trabalhador. Portanto, se trata de dinheiro roubado que resultará na condenação do rico nos tempos escatológico. O salário roubado dos pobres pode gerar falsas alegrias terrenas para os ricos, mas resultará na condenação eterna, pois condenou famílias à fome e a morte.

Na temática da liturgia deste domingo, a 2ª Leitura pode ser vista, também, na perspectiva da riqueza proveniente dos dons espirituais. Aquele que cumpre funções, o faz por ter recebido dons próprios para cumpri-los. Mas se não houver zelo, ele/a roubará o direito de vida eterna daqueles que estão sob sua responsabilidade.

Síntese

A 1ª Leitura apresentava uma situação de sobrecarga para quem lidera, o que leva à partilha do trabalho, aliviando a carga da responsabilidade. Jesus, amplia o tema, descrevendo o papel daquele que lidera. Na realidade, entra o tema da autoridade enquanto diaconia, ou seja, tudo na comunidade cristã é serviço ao outro, até o exercício da autoridade. Portanto, o exercício da autoridade não admite autoritarismo, mas o tornar-se modelo para os demais. Isto implica em saber partilhar o trabalho, atribuindo funções e confiando e dirigindo aqueles os quais os trabalhos foram confiados. Além disso, quem exerce autoridade deve possuir moral irrepreensível, garantindo, assim, que todos o respeitem, pelo seu modo de trabalhar e pelo seu testemunho de vida. A pessoa que possui a autoridade deve ser um modelo para os demais, que irão se espelhar e desejar ser guiado, bem como contribuir para o sucesso da missão/trabalho a ser realizado.

A Carta de Tiago, aprofunda a questão, ao tratar do tema do direito assalariado. No qual a riqueza proveniente da ganância, da corrupção, da opressão é dinheiro maldito e desgraça para aquele que acumulou. Nisto se descreve, também, o exercício da autoridade enquanto autoritarismo e opressão, que é destrutivo para a sociedade e para a comunidade cristã. Assim, na comunidade cristã, quem deseja autoridade, seja o servidor e o modelo para os demais: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (Mc 9,35), assim, no seu zelo e sua competência, será uma luz a brilhar para o mundo, será o sal que dá novo sabor a humanidade, será uma estrela a brilhar na escuridão do céu guiando todos ao Senhor Jesus Cristo.

 

25º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

1ª Leitura: Sb 2,12.17-20

Na primeira parte da obra (1-6) o autor do livro da Sabedoria inicia dando a palavra aos ímpios; para estes, a vida não tem nenhuma perspectiva de além; na morte, o espírito se dissipa como o ar; motivo pelo qual os ímpios preferem gozar desenfreadamente o tempo presente (2,1-9). Contudo, a simples presença do justo, sua fidelidade e sua firmeza ao afirmar que Deus os protege no fim, leva os ímpios a persegui-los, condenando-os a morte para ver como reagem (2,10-20).

Para o autor, as criaturas são portadoras de salvação e Deus criou o homem imortal e incorruptível (1,13-13; 2,21-24). Estas duas afirmações são aplicadas pelo autor a três categorias de justos, cuja existência, aos olhos do mundo, é uma desgraça: 1) os justos que morrem no sofrimento (3,1-9); 2) a mulher estéril ou o eunuco (3,11-15; 4,1-2); e, 3) o justo que morre na flor da idade (4,7-14). Nenhum deles terá conhecido aqui na terra a felicidade, mas receberão, como recompensa, a visita de Deus após sua partida. Por outro lado, os ímpios, confrontados, serão castigados (3,10.16-19…). No final os justos se encontram com os ímpios (5,1-3). O autor concede novamente a palavra aos ímpios para expressarem o espanto diante da felicidade do justo (5,4-5) e o vazio de suas vidas (5,6-13). Após isto, Deus intervirá diretamente contra os ímpios em favor dos justos utilizando-se das forças do cosmo (5,14-23).

Na 1ª leitura se encontra justamente a palavra dos ímpios contra os justos, pois sua simples presença é uma ameaça ao seu modo dissoluto de viver. Portanto, eles se voltam contra os justos com violência afim de manter o seu status. Mas o martírio do justo resulta na derrocada dos ímpios.

Esta concepção se coloca como moldura para a paixão de Jesus. O justo perseguido e morto, mas seu sangue derramado na cruz se torna potência de queda para os ímpios.

O restante da primeira parte da obra é dirigido aos que exercem governo (reis e príncipes), pois estes terão o julgamento mais severos que os demais por serem mais poderosos (6,1-20). O exercício da autoridade exige sabedoria, que será apresentada no restante da obra. Um governante insensato pode destruir uma nação e levar um povo à miséria e ao sofrimento.

Evangelho: Mc 9,30-37

Na primeira parte, Jesus se apresenta como o justo que morrerá na flor da idade nas mãos dos insensatos que exercem autoridade: “O justo que morre condena os ímpios que vivem, e a juventude em breve consumada, a velhice longa do injusto” (Sb 4,16). Mas sua fidelidade será motivo de vitória (=ressurreição: “Agradou a Deus, Deus o amou” [Sb 4,19]). Por outro lado, os discípulos desejam justamente a autoridade daqueles que levarão o seu mestre à morte. Jesus demonstra que na comunidade cristã a autoridade passa pelo princípio da diaconia, ou seja, trata-se de um serviço a favor dos demais.

O colocar a criança (=o pequeno) no centro é justamente inverter o centro do poder, ou seja, o centro da pessoa não é nem o seu “umbigo”, e nem aqueles que exercem poder, mas o outro, descrito no modelo da criança. É aquele que precisa de cuidado e proteção. Neste sentido, o exercício do poder na comunidade cristã é uma prática em favor dos pequenos, que implica em proteger, cuidar, edificar.

2ª Leitura: Tg 3,16-4,3

A narrativa da Carta de Tiago resgata o tema da 1ª Leitura sobre o sábio e o insensato. O Livro de Provérbios começa narrando que “O temor de Iahweh é princípio de conhecimento: os insensatos desprezam sabedoria e disciplina” (1,7), bem como o Libro do Eclesiástico: “O princípio da sabedoria é temer ao Senhor… A coroa da sabedoria é o temor do Senhor, ela faz florescer o bem-estar e a saúde” (1,14.18).

Na Carta de Tiago, somente a conduta de vida moralmente responsável, que se expressa nas obras, é uma prova de sabedoria. O destaque na narrativa é a serenidade da pessoa, descrito por meio de alguns adjetivos, como um modo de vida discreto, por meio do qual deixa espaço para o outro. Dirá o Livro de Eclesiástico “Filho, conduze teus negócios com doçura e serás amado mais do que um homem generoso. Quanto mais fores importante, tanto mais humilha-te para achares graça diante do Senhor” (3,17-18). Assim, a sabedoria se torna incompatível com a arrogância, a prepotência e a violência, que pode configurar uma “pseudo-sabedoria”, descrita por Tiago como coisa terrena. Tiago vai na linha de Eclesiástico, quando este afirma: “É melhor ser pouco inteligente com temor do que muito inteligente, mas transgressor da lei” (19,24). Nesta linha, Paulo dirá que a verdadeira sabedoria é aquela que vem do alto: “Desses dons não falamos segundo a linguagem ensinada pela sabedoria humana, mas segundo aquela que o Espírito ensina, exprimindo realidades espirituais em termos espirituais. O homem psíquico não aceita o que vem do Espírito de Deus. É loucura para ele; não pode compreender, pois isso deve ser julgado espiritualmente. O homem espiritual, ao contrário, julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado. Pois quem conheceu o pensamento do Senhor para poder instruí-lo? Nós, porém, temos o pensamento de Cristo” (1Cor 2,13-16).

Paulo distingue entre os homens espirituais e os homens carnais. Os primeiros são aqueles que recebem a sabedoria do alto, enquanto os homens carnais recebem as instruções da terra, tornando-os incapazes de reconhecer o que é do “alto”: “Pois há muitos, dos quais muitas vezes eu vos disse e agora repito, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo: seu fim é a destruição, seu deus é o ventre, sua glória está no que é vergonhoso, e seus pensamentos no que está sobre a terra” (Fl 3,18).

Na relação entre os pressupostos paulinos e de Tiago se apresenta a distinção entre os homens espirituais e os homens carnais. Tanto um como o outro podem possuir profunda inteligência, mas os homens espirituais se configuram como sábios por possuírem o temor de Deus, enquanto os homens carnais são configurados como insensatos, por depositarem a sua confiança naquilo é efêmero, naquilo que é terreno.

O justo, por sua discrição, pois coloca o outro como centro da sua missão, e como temente ao Senhor, produz obras de justiça, sendo descrito por Tiago como semeador da paz.

 

 

24º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

            A liturgia do 24º Domingo apresenta um ponto de guinada da catequese do Evangelho de Marcos. Até o momento, Jesus vem realizando a sua missão, ou seja, evangelizando, operando milagres… Contudo, apenas os espíritos malignos o reconhecem como o “Santo de Deus” ou o “Filho de Deus”, enquanto o próprio Jesus se apresenta como o “Filho do Homem”. Mas, chegando ao capítulo oitavo, Pedro professa Jesus como “O Cristo” e a partir deste momento os espíritos malignos se calam. No contexto do capítulo oitavo de Marcos, a profissão de fé da Igreja silencia o tumulto dos espíritos impuros. A Profissão de Fé implica, no entanto, na dimensão do testemunho, da qual a liturgia de hoje aponta.

1ª Leitura: Is 50,5-9a

A leitura proposta é o Terceiro Cântico do Servo Sofredor[1] da profecia de Isaías e que, naturalmente, foi aplicado à pessoa de Jesus Cristo. Contudo, ele não é uma narrativa messiânica.

Na segunda parte da Profecia de Isaías (40-55) encontra-se a palavra “servo/servidor”, sempre no singular (exceção 54,17), 21 vezes em sentido honorífico. Por 14 vezes a palavra “servo” se refere diretamente à Israel ou Jacó, as demais se subentendem que se refira ao Povo de Deus. Lógico que a palavra usada no singular gere dificuldade para compreendê-la no sentido de coletividade. O NT ao utilizá-la em relação à pessoa de Jesus, o faz compreendendo-a no individual. Em todo caso, a expressão “servo” pode ser compreendida no sentido de coletividade, sendo aplica à Israel ou à parte dela (um grupo em particular); A interpretação individual tende a apontar para um personagem histórico, que poderia se referir ao próprio Isaías, ou a Jeremias ou outro personagem; existe, também, uma interpretação mista, a qual identifica o “servo” como um rei, que por sua vez representa o povo.

Os Cânticos do Servo Sofredor foram aplicados, pelo Novo Testamento, diretamente à pessoa de Jesus: Mt 12,18-21, aplica o 1º Cântico; Mt 8,17; Lc 22,37; At 8,32ss; 1Pd 2,22.24 aplicam o 4º Cântico. Contudo, os quatro Cânticos do Servo Sofredor de Isaías não possuem conotação messiânica e nem estão vinculados a este tema. Os cânticos descrevem a sorte daquele que é modelo de fidelidade à Deus. Neste sentido, sendo aplicado à Jesus, indica que Ele é perfeito modelo de fidelidade ao Pai, cuja sorte será à dos profetas que foram “homens de Deus” e, portanto, foram perseguidos e mortos.

Tal perspectiva se abre para uma dimensão eclesial, no sentido de que aqueles que forem fiéis no seguimento do Mestre, sofrerão a mesma sorte, ou seja, serão mártires por sua fidelidade.

Evangelho: Mc 8,27-35

Partindo do esquema da 1ª Leitura, a catequese do Evangelho sublinha o tema do seguimento, o que exige uma opção fundamental pelo Cristo. Neste sentido, a pergunta de Jesus “quem dizem os homens que eu sou” não se trata de uma questão retórica ou de curiosidade, mas uma exigência “E vós, quem dizeis que eu sou”, mas exatamente, uma profissão de fé, o que implica num compromisso.

Pedro afirmará ser Jesus o Messias. Jesus, portanto, anuncia que a sua missão de ser O Messias, resultará em consequências, ou seja, será perseguido, morto, mas ressuscitará. Pedro não aceita tal proposta, pois pensa numa glória segundo critérios humanos. A tradução proposta do que segue está errada: “vai para longe de mim Satanás”. A tradução correta é “vai para trás, Satanás”. O que está em jogo é “quem segue quem?”, ou seja, é Pedro que segue Jesus ou seria Jesus que deveria seguir Pedro? Por este motivo, é que Jesus afirma, vai para trás, ou seja, é você [Pedro] que me segue, não o contrário. A expressão “Satanás” usada aqui por Jesus, indica a função do diabo de “acusador”, evidenciando alguém contrário aos projetos de Deus. Tal ideia aparece no livro do Gênesis, no qual a serpente se configura como acusador, sendo reafirmado no Apocalipse, quando é descrito “o Dragão, a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás… aquele que acusava dia e noite diante de Deus” (cf. Ap 12,9.10). Neste sentido, Satanás se coloca à frente de Deus, após a criação, para confundir a Palavra de Deus (esta é a verdadeira ação do Diabo), gerando a dúvida com suas consequências. Pedro, ao agir do mesmo modo é equiparado, portanto, à Satanás ao querer confundir as palavras de Jesus.

Prosseguirá Jesus, afirmando que o seguimento implicará na mesma sorte. Assim como os profetas foram perseguidos e mortos por sua fidelidade à Deus; assim como Jesus será perseguido e morte por sua fidelidade ao Pai, o discípulo que, for fiel seguidor de Jesus, sofrerá a mesma sorte do Mestre. Contudo, o destino dos profetas é contemplar a glória de Deus, a de Jesus a de ressuscitar e retornar ao Pai e a dos discípulos, por sua fidelidade ao Evangelho, é, também, de ressuscitar para a glória eterna.

2ª Leitura: Tg 2,14-18

A 2ª Leitura coroa a reflexão, ao explicitar que a opção pelo Cristo pressupõe o testemunho. A profissão de fé, não se trata de mera afirmação retórica, mas de um exercício de seguimento. A fé em Cristo Jesus é verificável na atuação cristã no mundo, caso contrário, não terá nenhum efeito e nenhum sentido.

A narrativa de Tiago propõe como modelo de fé o seguimento que se desdobra no amor praticado, no qual não apenas se faz o anúncio da Boa Nova, mas transforma o mundo efetivamente, sendo sinal de vida e de esperança. Lógico que tal postura de ser “sal e luz” do mundo implicará em temor e tremor, como foi Jesus Cristo, ou seja, para aqueles que buscavam o caminho do bem, Jesus se tornou o modelo; mas para aqueles que trilhavam o caminho do mal, Jesus se tornou uma ameaça a ser eliminada, alguém a ser temido e, portanto, eliminado. Assim será o cristão se verdadeiramente for fiel ao Evangelho.

Síntese

A Profissão de Fé em Jesus Cristo passa pelo assumir, no mundo, o testemunho verdadeiro e coerente. O negar as implicações do seguimento, ou seja, o desafio da cruz, é colocar-se a frente do Senhor, assim como fez Satanás na criação. Na realidade, não existe ressurreição sem paixão. Portanto, muitas das mensagens que hoje são anunciadas não são evangélicas, mas satânicas e isto é um perigo. Mensagens nas quais se oferecem isto ou aquilo ou que Jesus vai fazer isto ou aquilo, não são mensagens evangélicas, ou seja, a maioria daquilo que é veiculado nas mídias católicas e evangélicas não são cristãs. Uma mensagem que não passe pelo testemunho, que não assuma a cruz, que não passa pela entrega deve ser vista com suspeita. O verdadeiro seguimento passará pela cruz e pela ressurreição. Trata-se de seguir os passos do Mestre; se ele deixar de ser o referencial e se tornar instrumentalizado com interesses não cristãos, a mensagem poderá ser bonita, mas inútil.



[1] 1º Cântico: Is 42,1-4; 2º Cântico: 49,1-5; 3º Cântico: 50,4-9; e, 4º Cântico: 52,13-53,12.

 

 

23º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

            Entre os capítulos 6 a 8 de Marcos encontram-se duas narrativas de milagre de Multiplicação dos Pães, a primeira ocorre na região da Galileia (6,30-44) e a segunda fora da Galileia (8,1-10). Entre as duas narrativas, também, se encontram duas curas operadas por Jesus: a cura da filha de uma mulher sírio-fenícia (7,24-30) e a cura do surdo-gago (7,31-37). Ambos os miraculados são gentios. Leva-se em conta que, na narrativa marcana, Jesus está operando milagres em favor do Povo Eleito e em favor dos gentios. Assim, a primeira multiplicação dos pães ocorre em favor dos Galileus e a segunda em favor dos gentios. Em consonância com as curas, observa-se o olhar misericordioso de Jesus por todos, independente de pertencer ou não ao Povo Eleito. Este deve ser o fio condutor da liturgia hodierna; além do tema da manifestação da Glória de Deus.

1ª Leitura: Is 35,4-7a

A narrativa da 1ª Leitura pertence ao “Hino da Alegria” que está em posição antagônica ao “Hino do Juízo” (Is 34). O Hino do Juízo se compõe pela sequência: ira do Senhor – sua espada – matança do Senhor – dia da vingança do Senhor, na sua primeira parte. Por sua vez, o Hino da Alegria é composto pelo seguinte esquema:

Deserto Águas Cegos Glória
Ermo Torrentes Surdos Beleza
Páramo Brejo Coxos Glória
Baldio Manancial Mudos Beleza

 

O esquema hínico se conclui do seguinte modo:

Líbano Mãos
Carmelo Joelhos
Saron Corações

 

Na totalidade, a tonalidade do gozo maior é a renovação que atinge as fraquezas do corpo mutilado, a fraqueza do ânimo humilhado, a fraqueza da natureza desolada. Uma torrente de alegria atravessa, irriga e vivifica tudo. A razão do gozo é a Glória do Senhor; a sua recompensa; a sua redenção.

No deserto, já estão redimidos, resgatados e ainda marcham a caminho de Sião. Mesmo marchando, a esperança é tão segura, a presença do Senhor tão manifesta, que o deserto se transfigura em terra prometida e em paraíso reencontrado. A Glória do Senhor não está restrita em Jerusalém, ela pode viajar para o exílio (Ez 1) e manifestar-se no deserto; ali pode contagiar o povo (Sl 34,6). O profeta parou para contemplar a marcha pelo deserto. O povo continua marchando, porque o futuro de plena alegria, enquanto se vislumbra, já está presente.

Evangelho: Mc 7,31-37

A cura do surdo-gago operado por Jesus ocorre na região tipicamente helenística, chamada Decápole, atual Jordânia. A caminhada de Jesus, passando por Tiro, Sidônia e região da Decápole expressa justamente o oráculo isaiano da Glória do Senhor que vai ao encontro do seu povo no deserto. Portanto, a cura da filha da mulher sírio-fenícia e do surdo-gago é a expressão messiânica da Glória do Senhor que se manifesta, transformando tal realidade em Hino de Alegria, pois a esperança agora é certa. Os pagãos foram “contagiados” pela presença do Senhor, permitindo à eles terem esperança, aonde ela não existia.

A forma de cura remete as tradições gregas, ou seja, o tocar a língua do surdo-gago com a sua saliva, tida como poder miraculoso particular. Jesus, então, não se afasta das tradições culturais destes povos, mas as transforma numa perspectiva de fé e salvação em sua pessoa. Existe sensibilidade em todos os níveis, abrindo para aqueles que não tinham esperança a certeza de que o Senhor caminha com eles.

2ª Leitura: Tg 2,1-5

A Carta de Tiago evoca o eixo central da Glória do Senhor, manifesta em Cristo Jesus, que se abre para todos os povos, raças, línguas, nações e classes sociais, tornando-os filhos e filhas de Deus. A acepção de pessoa se torna, portanto, um juízo maligno, pois impede que o Senhor chegue a todos indistintamente. De fato, o Cristo Ressuscitado se torna esperança para todos aqueles não tinham esperança, mas o simples gesto de exaltar um membro da comunidade e desprezar outro, se configura como um testemunho contrário a própria razão de ser do Evangelho. Assim, se configura como uma ação perversa e maligna, pois mata a esperança de um irmão.

A Glória do Senhor, começa a se manifestar na simplicidade do cotidiano. Os pequenos gestos tornam-se testemunhos de que Deus se lembrou, de que Ele está presente. Portanto, a esperança de salvação se torna visível na cotidianidade da vida, parâmetro mestre para um processo de beatificação e canonização, ou seja, como aquele homem ou aquela mulher viveu o cotidiano iluminado/a pelas virtudes teologais.

O cotidiano se torna o lugar do testemunho da manifestação da Glória de Deus nas pequenas coisas. No corriqueiro, no amor praticado.

21º Domingo do TC Ano B 2021

A quarta parte do tema da Eucaristia, seria fundamental para a afirmação teológica da Igreja Católica a respeito da Transubstanciação, corrigindo a percepção Protestante de Consubstanciação. Os autores Protestantes, em vista de atenuar a importância eucarística, em termos de ceia, adotam tal teologia corroborada pelas narrativas da Instituição da Eucaristia dos Sinóticos e de 1Coríntios 11. Tal teologia Protestante é totalmente contestada a partir de Jo 6,52-59. Neste bloco, que não foi meditado este ano por causa da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora (15/08), o autor afirma categoricamente o ato de comer e o ato de “mastigar” efetivamente. Enquanto, na primeira parte do Capítulo 6, a expressão “comer” pode ter um sentido simbólico (ex. “comer a palavra…”), no v. 54, o autor do Quarto Evangelho afirma categoricamente o ato de “mastigar” (verbo trogo), eliminando qualquer compreensão contrária ao ato, de fato, de “comer (verbo estio) a sua carne e beber o seu sangue”. O v. 54 é fundamental para a teologia Católica e Ortodoxa da Transubstanciação.

O tema central, deste domingo, é a escolha diante da proposta da Eucaristia. Neste sentido, o tema eucarístico, no Quarto Evangelho assume algumas características próprias:

a) Eucaristia implica diretamente “comer” da carne e “beber” do sangue de Cristo, afirmado a partir dos verbos “comer” (= estio) e “mastigar” (= trogo), eliminando qualquer possibilidade de mero sentido espiritual ou tipológico, como “comer a palavra…”;

b) Comungar resulta num compromisso com o Cristo, isto significa, doar a própria vida;

Partindo destes dois pressupostos a “vida eucarística” é o alimentar-se de Cristo e viver como Cristo, “que tendo amado os seus amou até o fim…” Assim, a vida eucarística passa pelo processo de adesão (=entrega total).

1ª Leitura: Js 24,1-2a.15-17.18b

A 1ª Leitura situa o tema da escolha livre e radical “a quem quereis servir…” (Js 24,15). A narrativa pertence ao último capítulo do Livro de Josué, o qual narrava todo o processo de tomada de posse da Terra Prometida. Tendo concluído todo o “processo do Êxodo”, Israel deve se posicionar sobre qual sociedade deseja construir. Neste sentido, na chamada Assembleia de Siquém, o Povo de Israel deve se posicionar entre YWHW, que os libertou da escravidão do Egito, fez uma Aliança, conduziu pelo deserto durante quarenta anos e os fixou na Terra Prometida, ou escolher um deus e uma cultura pagã.

Na realidade, a grande questão é o Povo de Israel deseja viver radicalmente uma vida nova modelada pela proposta de YWHW ou deseja retornar à vida de escravidão de outrora no Egito? Neste sentido, o habitar a Terra Prometida exige um processo de conversão radical: uma sociedade norteada pelos princípios da liberdade proposta por YWHW ou uma sociedade nortada pelos princípios da opressão e escravidão, como viviam no Egito.

O resultado da Assembleia é um voto positivo pelo projeto do Deus Libertador de Israel.

Evangelho: 6,60-69

Durante os últimos domingos (17º; 18º; 19º) a liturgia realizou uma pausa na meditação sequenciada do Evangelho de Marcos, para desenvolver do tema da Eucarística a partir da narrativa da Multiplicação dos Pães de Jo 6.

A narrativa tem início fazendo menção direta a Páscoa dos Judeus, que servirá, portanto, de pano-de-fundo para toda a construção desse capítulo. Assim, meditamos que Deus havia dado a Terra Prometida, na qual não poderia haver as angústias e sofrimentos de outrora quando habitavam o Egito: “lembra-te que fostes escravos no Egito…entre vós não poderá ser assim”. Contudo, a narrativa apresenta Jesus em cidades riquíssimas, mas com um povo em estado de miséria; situação que gera compaixão por parte de Jesus. Além disso, este povo deveria, estando celebrando a Páscoa Judaica, em Jerusalém levando os dons para serem apresentadas à YWHW em reconhecimento que agora possuem e em abundância, um sinal de gratidão. Mas, na realidade, este povo está numa situação de extrema miséria, fome, abandono. Isto é um grande escândalo, pois na Terra Prometida não se admite a fome e a injustiça. Inicialmente, Jesus os alimenta, mas depois os convida a uma vida nova, que passa no “comer/mastigar a sua carne” e “beber o seu sangue” e, não somente isso, assumir um compromisso pela vida. Após expor esta condição, os discípulos que o acompanhavam abandonam o seguimento, afirmando que tal discurso é impossível de ser assumido.

A reação de Jesus é radical, ou seja, ele se dirige aos Doze e dá a liberdade para que também partam: “Não quereis também vós partir?” (6,67). A proposta do Reino não permite meio-termo, ou assume ou vai embora. Trata-se de uma opção radical pelo Reino de Deus, que implica em seguir os passos do Mestre até as últimas consequências.

Pedro compreende a situação e faz a opção pela vida ofertada por Jesus: “Senhor, a quem iremos? Tens mensagem de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (6,68-69), ou seja, a proposta eucarística é uma proposta pela vida e isto não é negociável.

2ª Leitura Ef 5,21-32

A Carta aos Efésios está no contexto da “moral doméstica paulina” e propõe, neste domingo, um modelo eclesial, que não parte pelo conceito de submissão, mas de missão. Cada um é chamado à uma vocação e tem no outro a possibilidade de edificação e santificação. Muitas vezes este texto foi utilizado para afirmar conceito de submissão da mulher dentro de um universo machista e/ou patriarcal. Contudo, o próprio texto desmente isto:

submetei-vos uns aos outros no termo de Cristo

As mulheres sejam para os seus maridos como ao Senhor

A tradução é bem diferente da leitura que o Lecionário propõe:

Vós temeis a Cristo, sede solícitos uns para com os outros.

As mulheres sejam submissas aos seus maridos como ao Senhor

Portanto, a condição da mulher não é de jugo, mas de missão na construção da casa, assim como a Igreja deve cumprir a sua missão em relação a Jesus Cristo, a cabeça da Igreja. A narrativa se constrói, portanto, a partir da seguinte estrutura:

a) temor de Cristo (admirar/imitar)

b) submeter-se uns aos outros = ter o outro em grau de importância e colocar-se a serviço

c) As mulheres sejam para os maridos como ao Cristo

d) os maridos estejam a serviço das mulheres como protetores e edificadores

e) união Igreja/Cristo – homem/mulher = mistério (possui contexto divino)

Este modelo de moral doméstica paulina deseja situar a práxis eucarística, no qual aquele que comunga se abre para a edificação do outro a começar pela própria casa. O princípio norteador e o “doar-se por amor” ou “dar a vida por amor”. Assim, a vocação matrimonial possui uma expressão eucarística: Cristo se doou por amor à sua Igreja e esta é toda dele, reverenciando-o porque Cristo, O Esposo, foi capaz de dar a sua vida em favor da sua esposa (= a Igreja). Assim, a relação da Igreja/esposa não é de escravidão, mas de submissão amorosa àquele que a ama incondicionalmente e é capaz de dar a vida por ela. Portanto, ela se sente amada e protegida e deseja ser toda dele. É um “mistério”, ou seja, é coisa de Deus.

A mútua edificação da esposa e do esposo se torna uma expressão eucarística, na qual o amor emana de forma singular e se torna “um sinal de vida” para a humanidade e uma esperança certa.

Síntese

Israel se comprometera com o Projeto proposto por Josué, cuja base estava em toda trajetória liderada por Moisés. Contudo, Jesus encontrará uma situação contrária à proposta da Terra Prometida. Num primeiro momento ele responde à situação atual de fome e miséria. Mas é preciso um processo de mudança radical que passe pela adesão à sua pessoa e vivência segundo tal adesão. Mas a resposta imediata é negativa, querem apenas alguém que sacie a fome, mas não faça exigências.

Pedro compreende tal pressuposto confirmando que através do “Santo de Deus” a humanidade encontrará a verdadeira libertação e, portanto, assumir Jesus, é assumir um Projeto de Vida, que tem sua configuração na vida eucarística.

Solenidade da Assunção de Nossa Senhora Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

          Muitas comunidades pelo Brasil, durante a semana-santa possuem o costume de realizar a procissão do encontro, através de duas procissões, uma com a imagem de Nossa Senhora e outra com a imagem de Jesus. Contudo, tal prática remonta as tradições celebrativas medievais de Nossa Senhora que ocorriam no dia 15 de agosto. Sendo uma tradição antiguíssima da Igreja a Solenidade da Imaculada será afirmada, de fato, pela Igreja somente em 1954 através da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, pelo Papa Pio XII.

O contexto histórico da definição dogmática da Assunção de Nossa Senhora é o pós-guerra, no qual o mundo vive o drama de sentido da pessoa humana, após tantas vidas terem sido perdidas e tanto sangue derramado. Neste sentido, o que é a pessoa humana? Para o existencialismo filosófico francês Jean-Paul Sartre, a vida humana (em-si/para-si) é uma experiência, que pode ser descrita, angustiante e o destino do homem é o nada. Por outro lado, o Dogma da Assunção de Nossa Senhora proclama que o sentido da vida humana é o abrir-se para o outro, num edificante estar a serviço do outro. Estando a pessoa humana edificando o outro o seu destino é encontra-se com o seu Criador, que desde a eternidade está à serviço por amor.

As leituras propostas para a Solenidade descrevem justamente esta dinâmica cristã do ir ao encontro do outro para servir por amor (Evangelho) e a certeza de que aqueles que se tornaram todo de Cristo, terá como destino ser acolhido por Ele na eternidade (2ª Leitura). Portanto, a vida no mundo deixa de ser uma angústia para ser uma possibilidade, mesmo que passe pelas dificuldades da vida humana, e o destino humano deixa de ser um nada para ser um todo em Cristo.

A Constituição Apostólica evoca a figura do Papa Sergio I (650-701 d.C.) que prescrevera as ladainhas nas festas de Nossa Senhora (Natividade, Anunciação, Purificação e Dormição). Já ao tempo do Papa Leão IV (790-855 d.C.), se celebrava a Solenidade da Dormição de Nossa Senhora com o nome de Assunção da Bem-Aventurada Mãe de Deus.

Originalmente, de fato, a solenidade fazia memória da “santa morte” (Pausatio; Dormitio; Depositio; Natale Transitus B.M.V.) e a gloriosa assunção em corpo e alma ao céu de Nossa Senhora. Lógico que se desconhece quando Ela tenha dado o “último respiro”. Autores patrísticos, como Eusébio, chegaram a sugerir o ano de 48 d.C., alguns outros autores sugeriram que Ela teria a idade de 63 ou 69 anos, outros, mesmo sem nenhum fundamento, chegaram a sugerir que ela tenha sido martirizada ou ainda que ela nem tenha morrido. Sobre esta questões Santo Epifânio chega a seguinte conclusão: “ninguém sabe qual tenha sido o fim terrestre da Mãe de Deus” (Haeres. 78,24/PG 42,737). O que se conhece, de fato, é que após a morte de Jesus, o Quarto Evangelho afirma que Nossa Senhora foi acolhida pelo discípulo Amado (cf. Jo 19,27), bem como o Atos dos Apóstolos à descreve junto com os Apóstolos no dia de Pentecostes em Jerusalém (cf. At 1,14).

Partindo do contexto Joanino a permanece a questão do lugar da morte de Nossa Senhora: Éfeso ou Jerusalém? Os dois lugares disputam a honra de possuir a sua tumba. Em todo caso, a partir do testemunho de Santo Antonino de Piacenza, Jerusalém é mais bem acreditado. Além do mais, as primeiras referências a data de 15 de agosto são provenientes da Cidade Santa, através da figura do Bispo Juvenal de Jerusalém (séc. IV d.C.), na qual se celebrava o dia da Maria, Mãe de Deus, bem como, com a ajuda de “uma nobre senhora de Jerusalém”, foi edificada a Capela Kathisma (=repouso) próximo da cidade de Belém. Alguns autores sugerem a data de 15 de agosto como a data da consagração desta capela.

Independente das questões sobre a origem, a Solenidade da “Dormição” e “Assunção de Nossa Senhora em Corpo e Alma”, entra na tradição popular cristã[1] como um Solenidade de especial importância, percorrendo os séculos até a Proclamação do Dogma no séc. XX.

Evangelho: Lc 1,39-56

Maria, enquanto vocacionada, é aquela que parte em missão “apressadamente[2]”. Ela, Maria, parte “plena do Espírito Santo” e portando Jesus no seu ventre. Contexto profundo do mistério que começa a se desenrolar em Maria e para o mundo. Portanto, Quando ela entra na casa de Zacarias e Isabel, esta casa se torna plena da presença do Espírito, gerando a exaltação da mãe e do filho (Isabel e João Batista). O resultado da exaltação é a expressão orante, ou seja, sua casa se transformam em lugar de oração, como se pode observar pela berakah judaica de Izabel: “Bendita…”, que se torna o segundo refrão da oração da Ave Maria. A casa sacerdotal, uma casa de oração, agora exalta com a chegada de Maria que traz o Filho e o Espírito. O verbo utilizado no v. 44 por Isabel é “agalliao” que significa “estar cheio de alegria”, “exultar” ou “jubilar” por causa de algo. Neste sentido, Isabel e João “exultam” porque ficaram pleno do Espírito e receberam a visita do Senhor por meio de Maria. As palavras de Isabel indicam esta realidade. Ela não se sente digna de receber a Mãe do Senhor. Sensível gesto de humildade e de contemplação.

Maria não responde à Isabel, mas se lança totalmente nas mãos de Deus num abandonar-se confiante de entrega. Ela está na casa sacerdotal, e se faz pequena, mesmo sabendo o que ela porta.

As palavras que seguem de Maria evocam o canto de Ana (1Sm 2), a pequena que encontra graça diante do Altíssimo. Ana gerou aquele que salvará Israel, libertando do julgo filisteu, restabelecendo a unidade de Israel e resgatando a confiança perdida em Iahweh. Maria gera Aquele que redimirá Israel e toda humanidade. Além disso, Maria compreende nas palavras proféticas de Isabel o mistério que ora se desvela.

Maria entra na intimidade de sua alma, num gesto de contemplação que exalta soberanamente Deus, por sua ação salvífica na história da humanidade. O início do canto começa com a seguinte exclamação:

a) Dilata minha alma // No Senhor

b) Exulta meu espírito // Em Deus meu Salvador

Porque Ele contemplou a “humildade” (pequenez) da sua serva, eis porque, desde agora, todas as gerações me chamarão de bem-aventurada”: Na frase o ser Bem-Aventurada estar no ser “pequena/humilde” diante de Deus, por meio do qual ela se torna toda do seu Senhor e permitindo que Ele realize seus projetos por meio dela, conforme segue: “porque fez grande coisas em mim”. Mas Ele pode realizar tais coisas (=encarnação do Filho)? Sim, porque Ele é O Poderoso”.

Nos primeiros versículos, aparece a designação de Senhor, Deus meu Salvador e Poderoso, mas qual é o seu nome? Maria se conserva na tradição judaica e se limita apenas a dizer que o nome de Deus é Santo, salvaguardando a alteridade divina. Esta característica será retomada por Jesus Cristo na oração do Pai-Nosso: “…santificado seja o vosso Nome…” Na realidade existe todo um contexto teológico por trás desta afirmação que expressa o ser de Deus em toda a Escritura.

Na sequência, Maria apresenta as características de Deus que o configuram como Santo:

a) Ele é misericordioso para com aqueles que o temem;

b) Usou de força violenta sobre os orgulhosos e poderosos;

c) Levantou os pequenos/humildes

d) Saciou os famintos e expulsou os ricos

e) Socorreu Israel com quem fez Aliança (Aliança de Abraão e Aliança de Moisés)

Portanto, as ações realizadas por Deus o configuram como “O Santo” e são expressões da sua santidade. Além disso, Aquele que agiu no passado, continua agindo no presente por meio daquela que é pequena.

Maria foi contemplada por Deus justamente pelo seu ser “pequena/humilde”, simples, serena, disponível, fiel. O ser “humilde” no sentido de ser “simples” é que a torna bem-aventurada (1,45) e plena da graça (1,28). Assim, ela é modelo de temor, que é a qualidade do sábio, ou seja, sábio, na tradição sapiencial posterior é aquele que “teme o Senhor”. Profunda relação entre “humildade” e “sabedoria”, que Maria expressa plenamente no seu “Sim!” de humilde e sábia serva. Deus a contempla e ela se abaixa para servir.

1ª Leitura: Ap 11,19a; 12,1-6a.10ab

A 1ª Leitura descreve o Templo de Deus e a Mulher. No contexto do Apocalipse de João trata-se da correlação entre o Templo de Jerusalém e a Igreja. O Templo era, por excelência o lugar para abrigar o “Nome de Deus” (cf. 1Rs 8), enquanto Maria e a Igreja “é” o lugar que abriga o Filho de Deus. Não por menos, a Lumen Gentium (LG 8) relaciona Maria e Igreja. Seguindo a narrativa do Apocalipse, tanto Maria como a Igreja estão revestidas de sol (=plena do Espírito Santo); coroadas de doze estrelas (= 12 apóstolos e 12 tribos de Israel); tendo a luz sob os pés (=dominam o tempo e a história).

Em oposição ao mistério de Maria e da Igreja está o Dragão, descrito como “a antiga Serpente, o chamado Diabo ou Satanás… aquele que acusava dia e noite diante do nosso Deus” (Ap 12,9.10). Diferente da Mulher, ele possui apenas um diadema, indicando a subordinação de seu poder, ou seja, coroa indica poder pleno, enquanto diadema indica poder subordinado. Portanto, pouco poder. Na sua fraqueza ele não terá poder sobre a Mulher, que se refugia no deserto (12,6.14 =poder da oração/universo espiritual), enquanto a Serpente vomita água (12,15 = poder imperialista). A serpente, tendo sido vencida por Miguel e seus anjos (12,7) e não tendo poder sobre a Mulher (está protegida pela “grande águia” = Deus: 12,14//Ex 19,4), passa a perseguir as testemunhas de Jesus Cristo (12,17). Porém, o testemunho dos cristãos será a vitória sobre o Diabo no Apocalipse de João.

Neste sentido, aqueles que foram fiéis à Cristo, em primeiro lugar Maria, terão como destino unir-se à Ele para celebrar as Núpcias do Cordeiro na Jerusalém Celeste.

2ª Leitura: 1Cor 15,20-26.28

Paulo, escrevendo para a comunidade de Corinto, afirma que o “primado” da Ressurreição de Cristo é algo que nos afeta diretamente, tendo em vista que todos ressuscitação, alguns para a vida e outros para a morte eterna. Tal ressurreição é possível e certa por causa de Jesus Cristo. Tendo morrido e destruído do corpo do pecado (cf. Rm 6), abriu as portas da graça e a possibilidade da vida eterna aos que creem. A Carta coloca Jesus como poderoso, que por meio da sua morte e ressurreição atua, na origem, no tempo presente e na consumação da história, momento, este último, no qual a morte será destruída com todas as suas consequências. Tais operações são possíveis pelo poder soberano do próprio Senhor (seus pés).

Síntese

No conjunto das leituras, Maria aparece como “protótipo” da Igreja e, portanto, modelo de e para os cristãos (Evangelho e 1ª Leitura). Neste sentido, após Cristo, ela é destinada à ressureição e à eternidade, assim como todos aqueles que se tornaram, como ela, tementes e seguidores fiéis do Senhor. Celebrar a Solenidade da Assunção implica num assumir um compromisso com o mundo, ou seja, correr para ir ao encontro do outro, até que se possa dizer como Paulo: “Quanto a mim, já fui oferecido em libação, e chegou o tempo de minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Desde já me está reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, justo Juiz, naquele Dia; e não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor a sua Aparição” (2Tm 4,6-8)



[1] Na tradição popular, principalmente durante a Idade Média, era costume portar ervas medicinais para a missa, as quais eram benzidas ao final da celebração da Solenidade.

[2] Apressadamente = simboliza a potência do Espírito Santo atuando em Maria

 

19º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

          Dando sequência ao tema Eucarístico que iniciamos no 17º Domingo do TC, o foco deste domingo recai o murmúrio dos judeus após afirmar Jesus ser o Pão do Céu. Na realidade, os judeus indagam sobre a pretensão divina de Jesus, tendo em vista ele ser humano e ter seus familiares entre eles. Na Literatura Joanina, transparece a questão entre a humanidade e a divindade da pessoa de Jesus e a incapacidade dos judeus em reconhecerem a ação de Deus. Neste último ponto se desenvolve muito da chamada “ironia joanina”, que perpassa todo o Evangelho. De fato, para os judeus, como compreender que este Jesus, cujo familiares estão entre eles, poderia ser uma realidade divina? Jesus não responde, mas, ao contrário, afirma a necessidade de se comer a sua carne.

Em todo caso, na liturgia deste domingo o ato Eucarístico está em relação em assumir a fé em Cristo Jesus e abertura para salvação (=vida eterna).

1ª Leitura: 1Rs 19,4-8

O século VIII a.C. é o período de esplendor do Reino do Norte. Israel vive em total opulência, ao lado de uma extrema miséria. Profetas, como Amós, denuncia esta situação de desigualdade. Os profetas não estão preocupados com a riqueza, mas sobre a sua proveniência e o seu uso, este é o problema central. Neste quadro, encontra-se a figura de Elias em confronto direto com a “Casa” (dinastia) de Acaz. Este casara-se com a rainha Jezabel. Nas cortes do Sul (Judá) e do Norte (Israel) era comum os reis cassarem-se com princesas estrangeiras e tais princesas mantinham as suas respectivas tradições culturais e religiosas. Portanto, uma princesa estrangeira podia cultuar as suas divindades em Judá ou Israel, absolutamente sem nenhum problema. Portanto, qual foi o problema em relação a Jezabel? Foi o fato dela impor a sua religião, ou seja, o balismo, como religião oficial do Estado de Israel, e estabelecer a proibição formal, sob pena capital, do culto da religião oficial do Estado de Israel, ou seja, o Javismo. Isto irá resultar no confronto direto entre Jezabel e o Profeta Elias. Leva-se em conta que a nata política e religiosa da capital aderiu, sem nenhum problema, a imposição da rainha. Isto não mudou nos tempos atuais, quando vontades e vaidades de líderes políticos, econômicos e religiosos são impostas como “verdades” e “direitos”, quem não os aceita, sofrerá perseguição.

Recusando aceitar a imposição de Jezabel, Elias encontra-se em Judá totalmente sozinho e com a cabeça a prêmio, isto o leva a ter que fugir.

Durante a fuga, Elias se depara com duas situações: 1) todos abandonaram YWHW, restando apenas ele; 2) sua cabeça está a prêmio. Diante disto, Elias se sente fracassado e abandonado e, como resultado, deseja apenas morrer. De fato, para ele, se todos abandonaram a sua fé e suas tradições, restando apenas ele… não estaria ele errado e os outros certos. Estão, o melhor = abandonar a missão, melhor ainda = que Deus lhe conceda a morte, assim, todos os problemas estão resolvidos. Contudo, YWHW é o Deus da vida e não pode ser contrário a si mesmo e a seu servo (= Elias) ele concede conforto, comida, proteção.

Todos podem ter abandonado YWHW, mas Elias permaneceu fiel e Deus permaneceu ao lado do seu servo confirmando a sua missão. Elias é o Profeta do Zelo (1Rs 19,10.14; Eclo 48,2), o desânimo diante da missão o leva querer deixar tudo e pedir a morte. Deus o fortalece com o “alimento do céu”, na força deste alimento, ele vai ao encontro de Deus no Horeb e resgata a fé de Israel no Deus Libertador e Verdadeiro.

2ª Leitura Ef 4,30-5,2

O tema do Espírito Santo encontra reminiscências da Profecia de Isaías: “Mas eles se rebelaram e magoaram o seu Espírito Santo. Foi então que ele se transformou em seu inimigo e guerreou contra eles. Mas depois lembrou-se dos tempos antigos, de Moisés, seu servo” (Is 63,10-11). Na narrativa isaiana, o Espírito foi magoado pelo ato de rebeldia dos judeus contra a Lei, rompendo a Aliança estabelecida por Deus. Portanto, entra o conceito de infidelidade. Mas, qual a relação entre a Aliança do Sinai e o Espírito Santo? Isaías afirma que Deus pusera o seu Espírito no seu Povo Eleito: “Onde está aquele que pôs o seu Espírito santo no seio do povo?” (Is 63,11). Nesta linha entende-se as palavras de Jesus sobre o pecado contra o Espírito: “Na verdade eu vos digo: tudo será perdoado aos filhos dos homens, os pecados e todas as blasfêmias que tiverem proferido. Aquele, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo, não terá remissão para sempre” (Mc 3,28-29). Paulo, também, convida a não sufocar o Espírito (1Ts 5,19). Na Carta aos Efésios, acentua as relações interpessoais como caminho de infidelidade à Deus que libertou (=redimiu) por meio do seu Filho. A “maldade” surge como raiz de todos os demais vícios elencados e define o clima de toda lista de vícios apresentados. Por outro lado, o perdão serve de raiz e define o clima da lista de virtudes apresentada. Na imitação a ser seguida, o Pai é apresentado como um pai amoroso e o Filho, como aquele que se entregou, como sacrifício, ao Pai, em nosso favor.

A ideia de oblação e sacrifício de suave odor (Ef 5,2) está baseada na proposta de oblação associada à holocausto (cf. Nm 15,1-16). Tal aproximação entre oferta de cereais e sacrifício está em relação entre o rito da Páscoa (vida nômade) e rito dos Ázimos (vida sedentária) celebradas ora jutas ora separadas. Após a queda do segundo Templo os dois foram unidos numa única celebração a partir do Ritual de Seder de Pessach. No campo cristão, a Eucaristia assimilou, também, os dois ritos: a matéria da liturgia Eucarística é proveniente do Rito de Ázimos (pão e vinho) e a Teologia Eucarística é o Rito da Páscoa (cordeiro imolado). O sacrífico do Filho é, por excelência, um sacrifício oblativo redentor de suave odor (= oferta-sacrifício, redenção-gratidão).

Partindo destes pressupostos, a relação com a liturgia deste domingo está no tema “tornar-se eucaristia”. Tal realidade passa pelo agir cristão que se torna referência para a humanidade, ou seja, o cristão, como “imitador” de Cristo, deve tornar-se eucarístico.

Jo 6, 41-51

O Maná fortaleceu o povo em sua caminhada pelo deserto. O “pão dos anjos” fortaleceu Elias no seu caminho ao encontro com Deus e cumprir a sua missão. Jesus, agora, se apresenta como o pão verdadeiro descido do céu e possibilidade para a libertação.

A Eucaristia evidencia a possibilidade de libertação e vida nova. Portanto, exige conversão, deixar o Egito//o homem velho para assumir radicalmente a vida nova. Isto implica em assumir a missão ou não. Não existe meio termo: “Muitos de seus discípulos, ouvindo-o, disseram: “Essa palavra é dura! Quem pode escutá-la?… A partir daí, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele” (Jo 6,60.66). Portanto, a vida eucarística implica numa opção pelo Reino, anunciado e vivenciado por Nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo que isto implique em doar-se totalmente em sacrifício.

 

18º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

           A liturgia do décimo oitavo domingo do Tempo Comum dá continuidade ao tema Eucarística a partir da narrativa de Jo 6. Enquanto o 17º Domingo do TC desenvolvia o tema da Multiplicação dos Pães (Jo 6 + 2Rs 4,42-44), a temática deste domingo gira em torno do Maná do Deserto: 1ª leitura: Ex 16,2-4.12-15 + Jo 6,24-35.

1ª Leitura 2ª Leitura Evangelho
18º Ex 16,2-4.12-15 Ef 4,17.20-24 Jo 6,24-35

Maná do Deserto

Vida Nova em Cristo

Jesus o Pão da Vida

 

1ª Leitura: Ex 16,2-4.12-15

Na narrativa da 1ª Leitura se destacam algumas características interessantes:

a) murmúrio do povo

b) Maná do deserto

c) codornizes

No geral, quando se trata do caminho do deserto se descrevem caminhos possíveis: 1) Partindo da menção à fenômenos vulcânicos (cf. Ex 19,16-19), alguns estudiosos situam a caminhada a partir do Golfo de Ácaba, no noroeste da Arábia (Madiã); 2) outros preferem situar na parte norte da Península do Sinai (cf. Ex 17,8-16; Nm 14,43-45; Ex 15,22; Jz 11,16); e, finalmente, se sugerem a localização ao sul (cf. Jz 1,16). Em particular, a segunda hipótese, situa um percurso ao longo da costa do Mediterrâneo, o que combina com a história das codornizes (11,31ss). Independente do percurso tomado pelos israelitas após a travessia do mar de Junco (ou vermelho), houve uma incitação popular comparando a antiga situação no Egito como escravos, mas com comida e livres, mas com escassos recursos. O “murmúrio” expressa esta reação popular, vista, por Deus, como expressão de “rebeldia” ou “um povo de cabeça dura”, que permanecerá no consciente popular de Israel.

Evangelho: Jo 6,24-35

A sequência da Narrativa da Multiplicação dos Pães ocorre na Sinagoga de Cafarnaum (Jo 6,59). A menção inicial “do outro lado do mar” (v. 25) situa a narrativa em paralelo que a narrativa da saída do Egito (Ex 14-15) e a travessia do Jordão (Js 3,14-17)[1]. Contudo, o discurso de Jesus ocorre na Sinagoga de Cafarnaum.

A antiga cidade de Cafarnaum (Këfar Nahum), ou Vila/Aldeia de Naim, está localizada na costa noroeste do Mar da Galileia a uns quinze quilômetros ao norte da cidade de Tiberíades, às margens do lago de Genesaré e fazia fronteira entre as regiões de Filipe e de Herodes Antipas, configurando-a como cidade fronteiriça e possuidora de alfândega (cf. Mt 9,9). O status de maior centro do governo romano na Palestina, também é indicado pela presença de tropas romanas. Tropas e oficiais romanos eram mantidos constantemente alocados nesta cidade (Mt 8,5; Lc 7,2). Além disso, era, ao mesmo tempo, a maior cidade da Galileia e o mais importante centro no entorno do perímetro do mar da Galileia. Cafarnaum era o maior centro populacional e comercial da costa noroeste do Mar da Galileia e uma das mais empreendedoras e promissoras cidades da indústria pesqueira. Além disso, ela abrigava a produção e a manutenção de embarcações e redes para pesca. Somando a atividade agrícola com a atividade pesqueira, a cidade de Cafarnaum desempenhava importante papel na atividade comercial, favorecida, principalmente, pela sua posição geográfica, localizada na rota comercial internacional que situava a Palestina entre Egito, Síria e Mesopotâmia. Isto significava intenso movimento de caravanas circulando pela cidade. Cafarnaum torna-se, assim, um porto de entrada e posto alfandegário do governo romano e um importante centro de transações e comércio na Galileia. Este papel se reflete na história do chamado de Levi, o cobrador de impostos, que se tornou discípulo de Jesus (Mt 9,9). Tais características podem ter sido o motivo pelo qual Jesus escolheu essa cidade como centro de sua missão (cf. Mt 4,13; 9,1). A maior parte da atividade pública de Jesus ocorre nesta cidade (cf. Mt 4,12; Mc 1,14; Lc 4,14). Os textos evangélicos informam que Jesus se move de Nazaré, sua cidade natal, para Cafarnaum, a cidade Pedro, André, Tiago e João, os primeiros discípulos (cf. Mt 4,18-22) e a assume como sua moradia (cf. Mt 4,13; Mc 2,1), onde ensinava e curava na Sinagoga (Mc 1,21). Diversas outras atividades ali foram realizadas, como a cura da sogra de Pedro e diversas outras pessoas (Mc 1,29-31.32-34; 2,1-12). Nesta cidade, também, reside o filho do funcionário real, curado por Jesus (Jo 4,46). Apesar de ter sido palco de muitas das atividades de Jesus, esta cidade não produziu frutos significativos, motivo pelo qual Jesus a condena emitindo o seu juízo, segundo o qual, o seu julgamento será rigoroso e ela será lançada ao inferno por não ter acreditado nos milagres que nela se realizaram (Mt 11,23-24; Lc 13-15).

Como descrito acima, Cafarnaum se tornara o centro da atividade messiânica de Jesus, mas com poucos resultados significativos. Portanto, a pregação de Jesus assume uma característica peculiar, ou seja, implica numa adesão à sua pessoa. Ele informa que, mesmo estando numa das maiores e mais rica metrópoles do Império Romano na Palestina, existe uma multidão faminta e escrava que encontrará liberdade e saciedade somente assumindo a sua pessoa. Esta perspectiva se fundamenta com o tema do deserto, no qual Deus fizera uma Aliança, mas os israelitas preferem a escravidão do Egito a uma vida livre que exige comprometimento (murmúrio). Isto ficará evidente no final da narrativa joanina, quando Jesus impor a Eucaristia e suas exigências como condição, resultando no repúdio popular (cf. Jo 6,66-67).

2ª Leitura: Ef 4,17.20-24

A 2ª Leitura corrobora esta relação de compromisso, entre deixar o passado e assumir a proposta da vida nova em Jesus Cristo. Paulo convida os cristãos de Filipos a uma nova vida em Cristo afirmando “Renunciando à vossa existência passada, despojai-vos do homem velho, que se corrompe sob o efeito das paixões enganadoras, e renovai o vosso espírito e a vossa mentalidade. Revesti o homem novo, criado à imagem de Deus…” (Fl 4,22-24). Isto se baseia no conceito que Paulo observa da comunidade “não continueis a viver como vivem os pagãos, cuja inteligência os leva para o nada” (Fl 4,17). A mesma questão se encontra entre os israelitas saídos do Egito e os galileus convidados por Jesus para uma vida nova em sua pessoa. A fé cristã implica numa opção radical entre a “liberdade em Cristo Jesus” e a escravidão de outrora. Portanto, a vida Eucarística passa pela opção radical à Jesus Cristo e sua proposta e isto é inegociável: “Não quereis também vós partir? Simão Pedro respondeu-lhe: Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6,67-69). Deve-se lembrar que outro Israel dissera “Tudo o que YWHW falou, nós o faremos e obedeceremos” (Ex 24,7) mas não o fizeram resultando no Exílio da Babilônia.



[1] As duas narrativas são idêntica e descrevem mudança radical de uma realidade para outra.

17º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan leite de Araujo

            Durante o Ano Litúrgico, a catequese do Evangelho de Marcos estabelece uma pausa quando entra no tema da Eucaristia. De fato, diferente do Ano A (Mateus) e C (Lucas), o Ano B irá meditar o tema a partir da narrativa da Multiplicação dos Pães em Jo 6. A catequese sobre a eucaristia abrangerá do décimo sétimo ao vigésimo primeiro domingo, com exceção da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora (15/08). Neste sentido a liturgia dominical terá o seguinte esquema:

1ª Leitura 2ª Leitura Evangelho
17º 2Rs 4,42-44 Ef 4,1-6 Jo 6,1-15
18º Ex 16,2-4.12-15 Ef 4,17.20-24 Jo 6,24-35
19º 1Rs 19,4-8 Ef 4,30-5,2 Jo 6,41-51
(20º DTC) // Solenidade da Assunção de Nossa Senhor 15/08
21º Js 24,1-2ª.15-17.18b Ef 5,21-32 Jo 6,60-69

Do esquema de Jo 6 a liturgia não abordará a narrativa da travessia do mar (Jo 6,16-21) e parte do grande discurso sobre o pão da vida (Jo 6,52-59). A primeira narrativa descreve o segundo milagre, ou seja, Jesus que caminha sobre as águas do mar. Enquanto a segunda narrativa se torna mais problemática, pois ela afirma da Teologia da Transubstanciação, negando a teologia evangélica da consubstanciação. Lógico, só é possível evidenciar a questão a partir do original grego, pois a tradução elimina as distinções do vocabulário joanino. Leva-se em conta que, a tradução proposta no Lecionário para o 17º Domingo para a língua Portuguesa possui imprecisões de tradução, o que gera certa dificuldade dentro da teologia do Quarto Evangelho.

Leitura Vertical

1ª Leitura

2Rs 4,42-44 Eliseu – Multiplicação dos Pães
Ex 16,2-4.12-15 Maná do Deserto
1Rs 19,4-8 Elias – Deus dá de Comer
Js 24,1-2a.15-17.18b Josué – Serviremos ao Senhor (Compromisso)

 

2ª Leitura

Ef 4,1-6 Unidade Cristã – Um só Batismo
Ef 4,17.20-24 Vida Nova em Cristo
Ef 4,30-5,2 Princípio da Misericórdia – Imitadores de Cristo
Ef 5,21-32 Moral Cristã

 

Evangelho

Jo 6,1-15 Multiplicação dos Pães
Jo 6,24-35 Jesus o Pão da Vida
Jo 6,41-51 Jesus – Quem comer deste pão viverá para sempre
Jo 6,60-69 Eucaristia – Serviremos ao Senhor (Compromisso)

 

Leitura Horizontal

1ª Leitura 2ª Leitura Evangelho
17º 2Rs 4,42-44 Ef 4,1-6 Jo 6,1-15

Eliseu – Multiplicação dos Pães

Unidade Cristã – Um só Batismo

Multiplicação dos Pães

 

1ª Leitura 2ª Leitura Evangelho
18º Ex 16,2-4.12-15 Ef 4,17.20-24 Jo 6,24-35

Maná do Deserto

Vida Nova em Cristo

Jesus o Pão da Vida

 

1ª Leitura 2ª Leitura Evangelho
19º 1Rs 19,4-8 Ef 4,30-5,2 Jo 6,41-51

Elias – Deus dá de Comer

Princípio da Misericórdia – Imitadores de Cristo

Jesus – Quem comer deste pão viverá para sempre

 

1ª Leitura 2ª Leitura Evangelho
21º Js 24,1-2ª.15-17.18b Ef 5,21-32 Jo 6,60-69

Josué – Serviremos ao Senhor (Compromisso)

Moral Cristã

Pedro – Serviremos ao Senhor (Compromisso)

 

O início da narrativa do capítulo seis de João descreve o Milagre da Multiplicação dos Pães (Jo 6,1-15). Os quatro primeiros versículos apresentam uma breve descrição da narrativa do Êxodo situado, agora, a partir da figura de Jesus, o Novo Moisés//Josué.

O foco central é um escândalo. Segundo as normas jurídicas de Israel, todo homem deve subir três vezes à Jerusalém durante as Festas de Israel (Páscoa, Pentecoste e Tendas) portando os dons a serem apresentados à Deus como reconhecimento que possuem e em abundância, porque o Senhor Deus deu a terra, deu a Lei e deu liberdade. Contudo, Jesus se encontra diante de uma multidão faminta, ou seja, existe uma multidão que está sendo privada dos seus direitos e o “direito à vida” agora passa pelo dinheiro, quem não o possui não tem direito de viver. Diante da situação, Jesus indaga Filipe sobre como comprar comida para alimentar a multidão, tendo a resposta que é necessário muito dinheiro, portanto, nada pode ser feito pelos pobres. Por sua vez, mesmo com certa incredulidade, André apresenta um “menininho”, com cinco pães e dois “peixinhos”. Parece impossível que tão pouco possa ser suficiente para saciar a fome de uma grande multidão (cinco mil homens).

A narrativa se inspira na figura de Eliseu (2Rs 4,42-44: 1ª Leitura). Muitos autores latino-americanos procuram descrever que se trata de um tipo de “lanche-comunitário” no qual os pobres partilham os seus bens, resultando que a eucaristia seja fruto da ação humana. Esta é uma visão equivocada, pois da Eucaristia nasce o princípio da partilha, não o contrário. Além do mais, se busca eliminar o princípio de milagre, ou seja, tudo é ação do homem e Deus não opera nada. Diante destas premissas, a narrativa é de milagre, ou seja, após o ato de Jesus de “Dar Graças” (que está no contexto da Oração Eucarística: cf. 1Cor 11,23-27), os dons apresentados são multiplicados, saciando a fome de uma grande multidão e resultando em abundância (comeu e ainda sobrou). Isto se coloca dentro da novidade messiânica, o tema da saciedade e da abundância.

A 2ª Leitura evoca o tema da vocação cristã que passa pelo critério da unidade. Assim, a vida eucarística se expressa no princípio da paz, onde Jesus Cristo é o centro de tudo. De fato, a diversidade (línguas, povos, nações, culturas, religiões…) é fruto do Espírito Santo. Portanto, o diferente não pode ser uma ameaça, mas um princípio de riqueza. Contudo, toda diversidade possui a unidade na pessoa de Jesus Cristo, ponto de partida e ponto de chegada de tudo e de todos. Na perspectiva Eucarística, a comunidade cristã é formada pela diversidade de pessoas, de ministérios, de pastorais, de movimentos, mas diante do altar tudo se cala, pois é Cristo o centro de tudo.

Síntese

No conjunto das Leituras, A Multiplicação dos Pães, inspirada na Multiplicação dos Pães à época de Eliseu, denuncia um escândalo em Israel, os filhos de Deus estão passando fome; e evoca o tema da Saciedade, própria dos tempos messiânicos. Jesus opera, de fato, um milagre, que está na linha do tema Eucarístico, como se abordado nas semanas seguintes.

A vida Eucarística pressupõe o tema da Unidade, como testemunho da vida em e com Cristo, eliminando toda barreira de ódio, discriminação, intolerância… e abrindo a possibilidade para que todos cheguem a vida em Cristo Jesus.

 

 

15º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

1ª Leitura: Am 7,12-15

Amós é concebido, por alguns estudiosos, como um camponês (agricultor e pastor) e, para outros, como um homem de negócios. Independente da sua condição social e profissional, é certo que sua obra se configura como o primeiro “tratado” de Diplomacia Internacional, no qual o profeta evoca o direito e a corresponsabilidade das nações; mais exatamente, as nações grandes e poderosas possuem a obrigação de tutelar e proteger as nações pequenas e pobres.

Na leitura de hoje, a narrativa apresenta o diálogo entre Amós e Amasias sobre a atividade profética. Muitos utilizavam a “função” profética como um meio profissional e, portanto, um meio de ganhar a vida. Amasias, vê em Amós um destes tantos “falsos profetas” que procuram ganhar dinheiro através da atividade religiosa, aconselhando-o a exercer profetismo e, portanto, ganhar o seu dinheiro, em outro lugar. Amós responde que não se trata de um meio de sobrevivência, mas de um chamado divino, ou seja, trata-se de uma vocação assumida, no qual ele abdica dos seus direitos para servir ao Senhor.

Este é o elemento fundamental da 1ª Leitura, ou seja, assumir a vocação, o chamado divino, deixando tudo para servir ao Senhor. Esta perspectiva se vincula a missão dos discípulos descrito no Evangelho.

Evangelho: Mc 6,7-13

O Evangelho apresenta o envio dos discípulos, em duplas com recomendações próprias que assegurem a fluidez e a eficácia da missão:

a) poder sobre os espíritos impuros;

Atributo de Jesus agora conferido aos discípulos. Isto significa que o missionário é revestido de autoridade para a missão. Mais exatamente, como expressa Paulo, o missionário é um embaixador. Portanto, age com autoridade em Nome de Cristo.

b) não levar nada, apenas um cajado e uma túnica;

Sobriedade e confiança na providência divina, que confere liberdade para missão. O missionário não pode estar preso a nada que o impeça de cumprir a sua vocação. Tal perspectiva continua presente na vida da Igreja, segundo o qual, o vocacionado deve estar totalmente livre para servir ao Senhor.

c) andar de sandálias;

Prerrogativa curiosa, pois a sandália configura valor jurídico: posse de propriedade; originalmente direito matrimonial (Dt 25,5-10; Rt 4,7). O estar sem sandália podia significar luto (2Sm 15,30; Ez 24,17) ou ser prisioneiro (2Cr 28,15; Is 20,2). O estar calçado, também, pode significar o estar pronto para partir em missão (Ex 12,11; At 12,8; Ef 6,15). No contexto do Evangelho, o primeiro e o último elemento se unem, no sentido de que o missionário deve partir e com autoridade.

d) ficar na casa que for acolhido e rejeitar a poeira da casa a qual não for acolhido.

Indicar sobriedade do missionário que se contenta com aquilo que lhe é oferecido. Tal despojamento se torna referencial de verdade daquilo que é anunciado, ou seja, a gratuidade da salvação oferecida por Deus é evidenciado/testemunhado na gratuidade do missionário.

A partir do que foi apresentado na 1ª Leitura e no Evangelho, surge uma questão: qual o objeto do anúncio? Isto é descrito na 2ª Leitura.

2ª Leitura Ef 1,3-14

A 2ª Leitura se enquadra na tradição das Orações Judaicas (beraká), porém alongada. Nesta beraká se evidencia o seguinte desenvolvimento:

1,4: Vocação: gratuidade à santidade

Descreve a iniciativa gratuita e soberana de Deus, mediante o tema da eleição. A expressão “em Cristo” indica a esfera espiritual na qual a vocação salvífica. O compromisso com Cristo e sua missão, nos configura no compromisso de Abraão para com Deus, garantindo a benção a todos os povos.

1,5-6: Participação no estatuto filial de Cristo

O processo salvífico, que está sob o sinal da benção inicial, se realiza por meio de Jesus Cristo, e consiste na participação dos fiéis na sua dignidade de filho único e amado. O tema da adoção enfatiza a novidade da relação com a filiação de Jesus, modelo e fonte da filiação dos demais filhos. O objeto último de todo o processo salvífico é a manifestação e o reconhecimento da “potência salvífica do amor gratuito”.

1,7-8: Libertação como perdão dos pecados e experiência de amor

Tal processo salvífico se realiza efetivamente na história e não fora ou acima dela, ou seja, não se trata de uma abstração. Ela está dentro dos valores e das contradições históricas e aponta que todos os males que assolam a pessoa humana que configura como pecado que separa da fonte da vida e do amor (=Deus). Neste processo entra a expressão “redenção”, que possui o sentido de “resgate a preço de…”. Na história Bíblica se destaca o Êxodo e a Paixão-Ressurreição de Jesus Cristo (escravidão//libertação; morte//vida; pecado//graça). Nesta ótica, a morte de Jesus Cristo é o gesto máximo de fidelidade e solidariedade, que arranca o homem da sua alienação ou escravidão e o põe em comunhão com Deus, na condição de filho.

1,9-10: O projeto revelado, o Cristo, dá unidade e sentido a tudo

Os temas do hino estão concatenados em forma de cascata. O projeto salvífico é, antes de tudo, eleição, depois filiação, resultando em libertação. O vértice de tudo isso é a plena revelação em Cristo.

Destaca-se a expressão “mistério” que funciona como revelação divina, mais exatamente, revelação do plano salvífico em Cristo Jesus, sendo Ele, a cabeça de tudo.

1,11-12: O caminho de Israel para a salvação

A tríplice repetição “nele” desenvolve a ideia da unificação e do sentido da história em Cristo. Graças a Jesus e em união com ele, a humanidade encontra o eixo de unidade e passam a participar do processo de salvífico. O Povo da Aliança continua com seu “privilégio específico”. Contudo, não mais a partir do caráter étnico/genealógico. É uma precedência gratuita de Deus, mas tudo agora é orientando para Cristo e por meio dele.

1,13-14: O caminho dos pagãos para a salvação na Igreja

Jesus Cristo, como eixo unificador, abre para os pagãos o caminho para a redenção; libertação definitiva prometida por Deus e garantida pelo Espírito Santo. A “Palavra da Verdade” tem em si a força para salvar. Não se trata de uma informação cultural ou de doutrinamento religioso. A Palavra que revela a realidade autêntica de Deus e do homem é Jesus Cristo em pessoa, o filho que liberta e dá sentido à vida humana. A fé madura recebe o “selo” do Espírito Santo (promessa, selo e garantia). Portanto, o Espírito Santo comunicado aos fiéis é prova da fidelidade de Deus à sua promessa.

Síntese

A atividade missionária parte de um chamado (vocação: 1ª Leitura). Aquele que é chamado é enviado com recomendações próprias, a fim de executar uma determinada tarefa, ou seja, realizar um anúncio (Evangelho). O objeto da missão cristã é o anúncio de Jesus Cristo, o Filho do Deus Libertador (Êxodo) que se tornou o Redentor de todos os povos (Paixão-Morte-Ressurreição). Estes, agora, são chamados à filiação divina por meio do Filho Amado. Toda missão é exercida na potência do Espírito Santo, que é a garantia (=selo) da promessa (2ª Leitura).

 

 

Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo

Pe. Gilvan Leite de Araujo

            A data de 29 de junho evoca a memória do martírio dos Apóstolos Pedro e Paulo. Alguns estudiosos concebem a data como memória do translado para as catacumbas da Via Ápia, outros como memória do martírio deles, sendo que esta concepção é o foco principal da solenidade.

1ª Leitura: At 12,1-11

A 1ª Leitura está centrada na missão de Pedro na Palestina, na qual se destaca o livramento de Pedro e o efeito disto sobre os fiéis (v. 12-17) e sobre os soldados (v. 18-19), concluindo com a morte de Herodes (v. 20-23). Entre Pedro e Herodes está a figura do “anjo do Senhor”, que assume a função de cooperador da Igreja em vista da evangelização, seja protegendo os seus membros (Pedro), como eliminando o rei ímpio.

Pedro, com a ajuda do anjo, é conduzido para a liberdade (v. 10), enquanto Herodes, pela ação do anjo, expira, carcomido pelos vermes (v. 23). Além disso, Pedro reconhece a ação divina afirmando que Deus enviou o seu anjo para o libertar das mãos de Herodes. Por outro lado, Herodes cai em ruína por não dar glória à Deus, ou seja, não reconhece o senhorio divino de Deus.

Toda a narrativa da 1ª Leitura é acompanhada pela oração da Igreja. Este é um elemento que perpassa todo o livro do Atos dos Apóstolos, ou seja, a Igreja é sempre descrita como uma comunidade orante. Os judeus são descritos em Atos envolvidos nas mortes de Estevão e de Tiago. Contudo, a comunidade orante, apesar das adversidades, é sustentada pela força da oração, que também a mantem unida.

2ª Leitura: 2Tm 4,6-8.17-18

O tema da libertação é retomado na 2ª Leitura, na qual Paulo reconhece a ação de Deus em seu favor, permitindo que a missão fosse cumprida.

Paulo tendo concluído a sua missão vislumbra a eternidade. Esta é uma perspectiva totalmente contrária aquela que foi apresentada em relação a Herodes. Este é visto como um deus que fala (At 12,22) mas seu destino é a desgraça (v. 23), enquanto Paulo exalta e reconhece o senhorio divino: “esteve ao meu lado… o justo Juiz…; e seu destino será a salvação no Reino definitivo. Além disso, Herodes possui o poder da realeza terrestre, enquanto Paulo vislumbra o Reino Eterno de Deus. A conclusão de Paulo é de que o Senhor esteve, em todos os momentos da sua vida, ao seu lado, o fortaleceu, o libertou e, agora, o aguarda para a vida eterna. Diferente de Herodes, que também esteve ao lado de Pedro, para persegui-lo, humilhá-lo e atentar contra a sua vida, mas o verdadeiro Senhor, o libertou das mãos de Herodes.

Evangelho: Mt 16,13-19

A narrativa do Evangelho parte do questionamento sobre a pessoa de Jesus. A pergunta não é simples, pois implica em adesão, ou seja, os apóstolos seguem a quem? Portanto, assumem qual projeto e vislumbram qual reino? A profissão de fé de Pedro indica a escolha pelo Projeto do Reino de Deus, posteriormente configurado pela oração do Pai-Nosso.

O pleno reconhecimento da pessoa de Jesus, como ungido de Deus, coloca Pedro numa missão, ou seja, o de ser a pedra visível da pedra invisível. Tal missão petrina é viabilizada pelo “deixar de ser de Pedro” para o “ser todo de Cristo”. Além disso, o tema das chaves, implica no “poder” petrino de derimir sobre questões terrestres e celestes, naquilo que diga respeito a verdade da fé cristã. Lógico que tal “poder petrino” gerará longos debates, no decorrer dos séculos, sobre a sua aplicação e a sua extensão.

No conjunto se deve ressaltar o tema da “proteção divina”, ou mais exatamente, o “estar presente”, “estar junto”, ou seja, o discípulo goza da proteção e da presença do Senhor enquanto desenvolve a sua missão. Lógico que isto implica na escolha: Jesus ou Herodes? A quem o discípulo deseja verdadeiramente seguir?

O discípulo e a discípula podem sofrer todo tipo de adversidade: “Eu servi ao Senhor com toda a humildade, com lágrimas, e no meio das provações que me sobrevieram pelas ciladas dos judeus…” (At 20,19). Contudo, ele está nas mãos do Senhor, e todo o seu empenho, em favor da Igreja, será confirmado, o Senhor Justo Juiz dará a coroa da Justiça a quem for fiel.

A solenidade evoca outra questão, ou seja, sobre o papel petrino na Igreja hoje. Ponto de partida: não se pode pensar a Igreja atual sem as figuras de João XXIII, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Existe a ação do Espírito Santo que suscitou estes papas no tempo certo para missões específicas. Contudo, existe certa polarização bom ou mal papa. Esta polarização não é de escolha deste ou daquele, mas é uma questão pneumatológica, mas exatamente, é não reconhecer a ação do Espírito Santo na Igreja e criticar a sua ação. Portanto, é um problema mais grave. Neste sentido, deve compreender a ação do Espírito Santo guiando a Igreja do Senhor, para que a sua missão se realize no tempo e na história. A Igreja não é um gueto, mas uma realidade celeste que perpassa a nossa compreensão. Sendo uma realidade divina, a Igreja é linda e é santa e o “poder do inferno não prevalecerá sobre ela” (Mt 16,18).

13º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

           “A única certeza que temos é a morte”. Esta frase escutamos corriqueiramente. Mas se fomos criados para a vida, como explicar que a única certeza que temos é a morte? Parece contraditório, e é de fato!

1ª Leitura: Sb 1,13-15; 2,23-24

O livro da Sabedoria descreve a morte como fruto do pecado suscitado pelo diabo. Neste sentido, a humanidade teria como única certeza a “Boa Nova” do diabo?

O Livro da Sabedoria de Salomão, conhecida na tradição latina apenas como Livro da Sabedoria, é um dos últimos livros do Antigo Testamento foi escrito em grego e confronta a cultura helenista. O livro tem início com uma interpelação do autor dirigida aos leitores, chamados a “amar a justiça” e a “procurar o Senhor” (1,1). Na sequência da obra, o autor dá a palavra aos ímpios, que afirmam que não existe nada no além vida: na morte o espírito se dissipa com o ar, portanto, se deve gozar o tempo presente (2,1-9). Contudo, a simples presença do justo, sua fidelidade às tradições dos antepassados e suas censuras aos ímpios incomodam os ímpios (2,10-20).

A 1ª leitura se insere no bloco “Projeto dos Ímpios” (1,13-2,24), no qual se encontra a “crítica dos ímpios” (1,13-16: Introdução – criação e imortalidade) e “crítica dos ímpios” (2,21-24: Conclusão – criação e incorruptibilidade).

Os ímpios perseguem os justos, mas estes são protegidos por Deus. Toda esta questão é emoldurada por duas reflexões fundamentais: as criaturas são portadoras de salvação e Deus criou o homem imortal e incorruptível (1,13-16; 2,21-24). Estas afirmações são aplicadas a três categorias de justos, cuja existência parece uma desgraça: a) os justos que morrem no sofrimento (3,1-9); b) a mulher estéril ou o eunuco (3,11-15; 4,1-2); e c) o justo que morre jovem (4,7-14). Nenhum deles terá conhecido a felicidade aqui na terra, mas receberão a “visita de Deus” após a morte, enquanto os ímpios serão confrontados caso-a-caso (3,10.16-19; 4,2-6.14b-20). A narrativa do Evangelho de hoje evoca justamente o segundo e o terceiro caso.

O autor imagina o encontro dos justos e dos ímpios no além (5,1-3), no qual este últimos se afligirão ao contemplarem a felicidade eterna dos justos (5,4-5) e reconhecerem que fizeram a escolha errada (5,6-13). Finalmente, Deus intervirá diretamente contra os ímpios e em favor dos justos (5,14-23).

Evangelho: Mc 5,21-43

Em consonância com a 1ª Leitura, o Evangelho de hoje apresenta a narrativa da cura de duas mulheres: uma mulher doente a 12 anos e uma menina que morre aos 12. No primeiro caso, a mulher sofre de hemorragia a 12 anos, tinha sido explorada pelos médicos, gastando tudo que possuía. No segundo caso, uma menina que está entrando na puberdade, tornando-se uma mulher. A narrativa é construída em forma de sanduiche da seguinte forma:

Mc 5,21-24: Filha de Jairo

Mc 5,25-34: Mulher

Mc 5,35-43: Filha de Jairo

Neste sentido, o autor descreve dois milagres de curas. Tais narrativas possuem, no geral, este esquema: a) alguém necessitado que pede ajuda; b) pedido de ajuda; c) cura; d) constatação da cura; e) demonstração; e, f) admiração. Além disso, as duas narrativas evocam a antiga tradição de Elias e Eliseu.

A 1ª narrativa tem início com a súplica de Jairo. O nome de um dos chefes da Sinagoga que se aproxima de Jesus é sugestivo. De fato, Jairo/Jair é um nome hebraico com significados aproximados de: “resplenda a divindade” // “Ele, Deus Ressuscitará”. Assim, o nome do pai da menina pode ser compreendido como uma promessa. Sua atitude é ajoelhar-se aos pés de Jesus suplicando pela vida de sua filha que está a beira da morte, solicitando que que venha impor as mãos sobre ela e a cure. Tal gesto é curioso, pois não pertence a tradição de curas veterotestamentária o impor as mãos sobre o doente, como se pode evidenciar na narrativa da cura de Naamã que se irrita contra Eliseu por não o receber pessoalmente e nem mesmo impor as mãos sobre ele como esperado (cf. 2Rs 5,11).

A narrativa é quebrada com a entrada em cena da narrativa de mulher com fluxo de sangue. A situação da mulher é descrita da seguinte forma: a) uma mulher sofrendo de hemorragia a doze anos; b) tinha sofrido nas mãos de muitos médicos; c) gastou tudo que possui, sem sucesso e sempre piorando.

Segundo o livro de Levítico, ela se configura na seguinte situação:

a) “Quando uma mulher tiver um fluxo de sangue e que seja fluxo de sangue do seu corpo, permanecerá durante sete dias na impureza das suas regras. Quem a tocar ficará impuro até a tarde” (Lv 15,19);

b) “Quando uma mulher tiver um fluxo de sangue de diversos dias, fora do tempo das suas regras, ou se as suas regras se prolongarem, estará, durante toda a duração do fluxo, no mesmo estado de impureza em que esteve durante o tempo das suas regras. Assim será para todo leito sobre o qual ela se deitar, durante todo o tempo de seu fluxo, como o foi para o leito em que se deitou quando das suas regras. Todo móvel sobre o qual se assentar ficará impuro, como quando das suas regras.” (Lv 15,25-26)

Neste sentido, estando a mulher doente por doze anos, significado que durante todo este tempo ela está ritualmente impura e, portanto, excluída da vida da comunidade. Além disso, tudo o que ela toca torna-se impuro. Este fato pode ajudar a compreender o temor desta mulher ao tocar Jesus, pois ritualmente o tornaria impuro, bem como poderia sofrer consequências pelo seu ato.

Assim como Jairo, ela também se ajoelha diante de Jesus. Também neste caso, ela é chamada de “filha”. Assim, estamos diante da “filha de Jairo” e “de uma filha de Israel” (cf. Rt 2,8; 3,10; Sl 45,11). Uma doente aos doze anos e outra a doze anos doente. O número doze, na Bíblia, se aplica a cinco categorias: 1) sociológica: eleição; 2) biológica: maturidade; 3) antropológica: dia-noite (cf. Jo 11,9-10); 4) cultual: sacrifícios (cf. Nm 7,3.84-86…); e, 5) cósmico: medida do tempo e espaço (1Rs 7,23-25; 2Cr 4,2-4). Os autores no geral ignoram o número doze e outros transitam entre a segunda e a terceira categoria, mas a primeira categoria é sugestiva, a medida que Israel e Judá são descritas através da imagem da mulher. No caso da menina, ela está entrando na puberdade, sendo já acolhida como adulta, portanto, pronta para geração de filhos, segundo perspectiva de época; a segunda está impedida de gerar filhos por causa da doença. Nos dois casos, a ação de Jesus é conferir a vida, portanto, novamente, as duas poderão “gerar vida” ao terem a vida restituída. Indiretamente se pode observar uma ressonância batismal, o renascer novamente.

A mulher esperava uma dura repreensão de Jesus, mas este carinhosamente se dirige a ela e diz que a fé a salvou, enquanto para Jairo, Jesus diz para não ter medo, mas fé, que o leva ao gesto sensível de um pai ou uma mãe que acorda um filho chamando-o para se levantar; uma cena bem corriqueira de um pai e uma mãe que acorda um filho e lhe dá o café da manhã. Tal sensibilidade de Jesus se encontra na 2ª Leitura (2Cor 8,7.9.13-13), quando Paulo chama para a vida da caridade e da partilha. Sensibilidade do coração, que também evoca o profeta Elias, na narrativa da viúva de Sarepta (1Rs 17).

Escuta e a sensibilidade: Jesus se tornou, para com os pequenos, uma promessa para eles: Deus Ressuscitará = Jairo. Certeza que os justos possuem, como descrito no Livro da Sabedoria

 

 

 

12º Domingo do TC Ano B 2021

 

Evangelho Mc 4,35-41

A expressão “Mar da Galileia e de Tiberíades” é típica da tradição joanina, em referência ao Lago de Genesaré (Lc 5,1). O nome “Genesaré” é proveniente da homônima cidade. A tradição veterotestamentária identifica como “mar de Quineret” (Nm 34,11; 3,17; Js 12,3; 13,27). Mateus e Marcos preferem designá-lo como “Mar da Galileia” (Mt 4,18; 15,29; Mc 1,16; 7,31) ou simplesmente “mar” (Mt 8,26.32; Mc 4,39; 5,13). Lucas, no entanto, como escreve para um público fora da Palestina, prefere manter a expressão “lago” (Lc 5,1s; 8,22s.33), de fato, apesar de ser chamado de “mar” o Lago de Genesaré é uma grande reserva de água doce. A referência joanina de 25 ou 30 estádios indica exatamente o meio e o ponto mais profundo do lago da parte norte. Devido a sua posição geográfica, a região onde se encontra o lago de Genesaré, durante o verão, pode sofrer grandes variações climáticas o que implica em forte ventanias e, portanto, agitação das águas, formando ondas altas (Mt 8,24; Mc 4,37; Lc 8,23; Jo 6,18). O mais perigoso é, no entanto, o chamado, em árabe, vento sarkiye, um vento proveniente do oriente (Mt 14,22-24; Mc 6,45-48) que ocorre principalmente no período da Páscoa (março/abril: Mc 6,39; Jo 6,4).[1] A narrativa deste domingo ocorre justamente aqui no “Mar da Galileia”.

A narrativa marcana da Tempestade Acalmada possui estreita relação com a Profecia de Jonas e se enquadra do gênero literário das curas e exorcismos. De fato, o desenvolvimento da narrativa segue o padrão do exorcismo:

v. 37: situação de perigo

v. 38bc: invocação de ajuda

v. 39ab: ação de salvação/exorcismo

v. 39cd: constatação do milagre

v. 41a: admiração

v. 41bc: aclamação

Além disso, a narrativa possui, como pano de fundo, a narrativa da tempestade descrita na Profecia de Jonas. Aproximando as duas narrativas temos o seguinte esquema:

Marcos

Jonas

tempestade tempestade
Jesus dorme Jonas dorme
Súplica dos discípulos Súplica do comandante
Jesus ordena que o vento e o mar se acalmem Jonas ordena que ele seja lançado ao mar
Os discípulos sentem medo Os marinheiros invocam o Deus de Israel
Os discípulos se admiram Os marinheiros são tomados de temor

 

Na narrativa de Jonas, se reconhece que Deus possui o domínio sobre as forças da natureza, na narrativa de Marcos, os discípulos reconhecem em Jesus o poder sobre as forças naturais.

Aproximando as narrativas de Jonas e de Marcos se observa que Deus e Jesus possuem o mesmo domínio sobre a criação.

Pode-se indagar sobre a relação entre Jonas e Jesus. Jonas se recusa assumir a missão confiada por Deus. Portanto, ele começa um processo de decida e afastamento: desce para Jope; desce para o fundo do barco e, finalmente, desce para o fundo do mar na barriga de um peixe. Somente quando aceita assumir a missão, se estabelece um processo de subida até Nínive.

Na narrativa de Marcos, Jesus assume a missão confiada pelo Pai e dá início a um processo de subida: a) da Galileia para Jerusalém; b) da cruz para o céu.

O tema do “domínio sobre a criação” reaparece na 1ª Leitura, proveniente da Profecia de Jó.

1ª Leitura: Jó 38,1.8-11

A 1ª Leitura pertence ao Livro de Jó. Este é um homem fiel a Deus e passa a ser tentado por Satanás. A questão central da obra é a compreensão da teologia da retribuição, segundo a qual o justo deveria prosperar e o ímpio sofrer. Contudo, a história apresentava uma realidade totalmente contrária, ou seja, o sofrimento do justo e a prosperidade do ímpio.

Quando se abate a desgraça sobre Jó, este é questionado sobre quais erros teria cometido e, ao mesmo tempo, passa a questionar Deus pelo sofrimento. A certa altura do embate entre Jó e Deus, este questiona Jó: a) quem é o autor de toda criação? b) que tem o domínio sobre a criação? Tais indagações leva Jó a reconhecer o senhorio divino, resultando na afirmação divina de sua presença em todos os momentos da vida de Jó, mesmo na desgraça. Em síntese: a obra descreve que aquele que cria é aquele que cuida da criação (Deus é criador e provedor), pois é Senhor da Criação. Tal temática é, também, desenvolvida no Salmo 106(107) que exalta, justamente, o domínio divino sobre a Criação, por ser o Criador. Esta perspectiva passará a fazer parte do Credo, no qual se reconhece Deus não a partir do Credo primitivo de Israel, ou seja, Deus Libertador, mas como o Deus Criador de todas as coisas.

2ª Leitura 2Cor 5,14-17

A 2ª Leitura está inserida no bloco no qual Paulo repreende a comunidade de Corinto por acusá-lo de ser leviano, mais exatamente, um homem sem palavra. Tal acusação surge devido à mudança nos planos de viagem (cf. 1Cor 1,15-17). Diante da questão dos planos de viagem, Paulo passa a abordar os desafios da missão:

2,12-4,6: ministério apostólico

4,7-5,10: desafios do ministério

5,11-6,10: exercício do ministério apostólico

Particularmente no bloco de 5,11 a 7,16 Paulo desenvolve a temática do “Ministério da Reconciliação”, dividido em duas partes: a) 5,11-6,10: fundamentos do Ministério da Reconciliação; b) 6,11-7,16: parênese sobre o tema. Deste modo, a narrativa deste domingo se encontra nos fundamentos.

Paulo vem desenvolvendo o tema do ministério, explicando que ninguém está apto para a missão se Deus não o estabelecer (cf. 2Cor 3,1-6). De fato, o ministério confere a vida verdadeira através da união com Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo (cf. 2Cor 3,7-18). Isto não fica claro para alguns porque o “Príncipe deste Mundo” impede que se perceba a obra de Deus realizada em Cristo e resplandecente nos Apóstolos (cf. 2Cor 4,1-6). Tal anúncio passa pelo testemunho dos Apóstolos em favor dos fiéis (cf. 2Cor 4,7-18). Paulo exorta os fiéis que tal missão é operada por pessoas concretas e reais, no qual o corpo pode definhar com o tempo, mas o espírito se eleva (4,7-5,10), tendo em vista o “penhor do Espírito” que garante a atividade do fiel (5,5). A atividade missionária vai se desenvolvendo com a perspectiva que tudo é renovado em Cristo. Portanto, a criação passa por um processo de reconciliação, cujo tema é desenvolvido na leitura de hoje, ao tratar o tema do “ministério da reconciliação”.

O elemento fundamental da narrativa encontra-se no v. 21, quando Paulo afirma que “aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado”. Isto evoca o tema da cruz, no qual, segundo a ótica paulina, Jesus se fez o corpo do pecado para destruir o pecado. Disto deriva a teologia paulina do Pecado Original. Toda a criação estando sujeita ao pecado, foi libertada por Jesus Cristo no evento da cruz.

Tendo Jesus destruído o corpo do pecado, toda a criação é “recriada” em Cristo. Portanto, a história da humanidade é “cristificada” em Cristo Jesus, que se torna a possibilidade da vida nova.

 



[1] Reisner R. Lago di Genezaret. Grande Enciclopedia Illustrata della Bibbia. Torino: Piemme 1997. Vol. 2. p. 26-27.

 

 

10º Domingo do TC Ano B 2021

 

Após o período Pascal, a Liturgia retorna para o Tempo Comum a partir da 10ª Semana do Tempo Comum. Efetivamente da 10ª à 14ª Semana do TC (3,7-6,6) será meditado a escolha e a instrução dos discípulos por meio de parábolas e prodígios. A narrativa de Mc 3,7-12 apresenta um sumário no qual descreve que os ensinamentos de Jesus atingem os confins da Galileia, tendo em Mc 3,13-19 Jesus subindo a montanha e chamando os 12 Apóstolos. A partir deste momento toda atividade de Jesus se realizará “com” os Doze, estabelecendo estreito vínculo entre a sua missão e a missão Igreja.

1ª Leitura: Gn 3,9-15

Na 1ª Leitura o fato central é o diabo que lança a dúvida no coração da pessoa humana. De fato, o fator que leva o homem e a mulher ao pecado é oferecer algo que eles já possuem (= sabedoria // são imagem e semelhança de Deus) e confundir a Palavra de Deus, ou seja, o diabo manipula o sentido da Palavra. Durante o decorrer das narrativas bíblicas se observará como o diabo inverte o sentido da Palavra de Deus, fazendo com que a pessoa humana se confunda e cai no engano.

O silêncio do Pai e do Filho na cruz expressa exatamente o rompimento com a astúcia de Satanás. A vida doada é força de vida e amor. Na cruz o Filho não se justifica, buscando a si próprio, mas não tendo pecado, se fez corpo do pecado para destruí-lo através da sua vida doada em favor todos.

2ª Leitura: 2Cor 4,13-5,1

São Paulo, escrevendo para a comunidade de Corinto sublinha, na narrativa de hoje, a dimensão do homem interior que acolheu a Palavra. Mas quem é a Palavra? É, justamente, o Crucificado que é o Ressuscitado. Esta confiança inabalável permite que o “homem interior” evolua, mesmo que o homem exterior decline, pois o olhar voltado para as coisas espirituais que ilumina, também, as realidades humanas.

Na descrição do pecado, na 1ª Leitura, existe um processo de “crise” do homem e a mulher entre optar pela Palavra de Deus e a palavra do diabo. São Paulo insiste que pela fé no Cristo Ressuscitado, o Filho de Deus, fica estabelecido uma direção clara para o batizado. Portanto, Jesus Cristo se torna o referencial e o critério base para que o cristão possa nortear a sua vida e os seus passos. Tal perspectiva possui clareza no Evangelho, no qual se define quem são os verdadeiros familiares de Jesus, ou seja, aqueles que fazem a “vontade de Deus”, que tem como primazia acolher e tomar como modelo o filho Amado.

Evangelho: Mc 3,20-25

Na narrativa de Mc 3,20-35 (10º Domingo TC) se observa o método de estruturar narrativa, típica de Marcos, o qual consiste no intercalar dois episódios com outro entre eles, na forma de um “sanduiche”. No caso encontramos os parentes de Jesus que não compreendem a sua missão e sua dinâmica frenética de trabalho que não deixa tempo livre nem para comer (3,20-21), Marcos intercala uma disputa com os escribas vindos de Jerusalém (3,22-30). A objeção dos parentes corresponde diretamente as objeções dos escribas (“está fora de si” // possuído por Beelzebu). Terminado a disputa os parentes chegam a Cafarnaum (3,31-35). Contudo, a Proclamação do Reino está em ato e os que o desejam seguir deverão optar pela vontade Deus e cumprí-la.

Assumir o Projeto de Deus implica na dedicação integral e na radicalidade ao Projeto do Reino que exige novo modelo de relação familiar e distinto agir na sociedade. Não atuando mais por critérios de sangue e nem por modelos sociais imposto, mas na imitação do Crucificado, que é o Ressuscitado, o cristão será causa de incompreensão, mas exatamente, de temor e de tremor. Temor para aqueles que estão no caminho do bem e tremor para aqueles que estão no caminho do mal.

A intercalação da narrativa com a disputa com os escribas expõe a temática do Reino, no qual Jesus coloca em evidência que o Reino de Satanás está em direta oposição ao Reino de Deus. A parábola do homem forte e do homem mais forte estabelece paralelo antagônico entre satanás (forte) e Jesus (mais forte). O diabo propõe um reino que possui por usurpação, Jesus propõe o Reino de seu Pai, não constituído por processo de usurpações e tiranias, mas um reino de vida, mas exatamente de vida eterna.

Síntese

Na 1ª Leitura, o diabo pôs a dúvida no coração do homem e da mulher, sobre a Palavra de Deus e a sua palavra. Eles foram obrigados a optar por uma ou por outra. No conjunto da narrativa da criação no livro do Gênesis, Deus pede ao homem e a mulher para não comer da árvore do bem e do mal (cf. Gn 2,17); atitude própria de um pai que adverte o filho sobre um determinado perigo, por exemplo, quando um pai ou uma mãe adverte o filho para não usar drogas. O diabo, por sua vez, deturba o coração do homem e da mulher, insinuando que Deus os enganou: “Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal” (Gn 3,4-5). A mesma coisa quando alguém tenta induzir uma pessoa, como no exemplo acima, no consumo de drogas ou outro erro: “isto não vai fazer mal…”. Portanto, caberá a pessoa discernir entre a palavra dos pais, visto como repressores, e da pessoa que a induz ao erro.

No Evangelho, Jesus está diante da sua família que o considera “fora de si”, dos escribas que o considera um possesso e a vontade do Pai. No conjunto, Jesus irá afirmar que prefere acolher a vontade do seu Pai e que, seus familiares e amigos, serão aqueles que fizerem a mesma opção, como a sua própria mãe: “faça-se em mim segundo a vossa palavra” (Lc 2,38).

Na 2ª leitura, Paulo exorta a comunidade de Corinto a escolher entre “o homem espiritual” e o “homem carnal”. Para uma sociedade acostumada e predisposta as “coisas carnais” (= promiscuidade, pluralidade de religiões e culturas) a comunidade de Corinto é convidada a fazer uma escolha evitando, assim, os vícios do passado, isto implica, portanto, num ato de fé, no caso, a opção pelo Cristo Ressuscitado, na certeza de que “Aquele que ressuscitou Jesus no ressuscitará”.

Solenidade da Santíssima Trindade Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

           Celebramos hoje a Solenidade da Santíssima Trindade, ou seja, a festa do ser de Deus. Unidade na Trindade; Trindade Única: Pai, Filho, Espírito, mistério de um único Deus, pois Deus é Um.

1ª Leitura: Dt 4,32-34.39-40

Na 1ª Leitura, Moisés descreve o ser de Deus a partir das suas ações. A novidade é que as divindades eram descritas como seres “necessitados de ajuda”, ou seja, cabia aos homens servirem aos deuses sob pena de ira divina, habitualmente através de alguma catástrofe natural. A leitura descreve que o Deus Israel é alguém que se relaciona diretamente com a sua criação e, além disso, não tem necessidade de ser servido, mas Ele mesmo é que serve, cuida, cria, defende… Portanto, a novidade do Deus de Israel é a sua sensibilidade em “cuidar” e que se esforça pelo bem daqueles que Ele escolhe. Mas quem Ele escolhe para servir? O menor e o mais fraco entre todos os povos. Assim, Deus é sensível aos pequenos, porque estes não possuem ninguém em seu favor. É Deus que olha com carinho e protege. Israel não foi escolhido por ser o maior e o melhor entre todos os povos, mas justamente o contrário. A partir disto, também se manifestam outras características divinas, ou seja, Deus é amor e misericórdia.

2ª Leitura: Rm 8,14-17

Retornando a realidade da 1ª Leitura, Paulo descreve que os deuses pagãos possuíam a sua força e razão de existir através de imposição de medo, tornando a humanidade “escravos” de suas vaidades e vontades. Paulo, irá explicar aos romanos que a força da fé cristã não reside no incutir medo e subserviência, mas de relação filial, no qual os cristãos possuem um Pai que os ama e cuida dos seus filhos.

A experiência cristã acontece na liberdade de filhos amados que, como herdeiros, se sentem chamados para o amor. Amor que se doa, no qual Jesus Cristo, o Filho Amado, não poupa a sua própria vida em favor daqueles que buscam o bem. Novamente subentra a ideia de Deus servindo e não sendo servido, pois Ele, sendo Deus, não precisa que alguém o sirva para que seja Deus, mas o contrário, sendo Deus possui as condições de ser e de servir. Assim, Ele passa a ser descrito e assumido como “Pai”.

Evangelho: Mt 28,16-20

Tendo a concepção que o seguimento não passa pelo crivo do medo, mas do temor, aquele que é chamado para o seguimento é a pessoa que aprende com Deus a colocar-se a serviço em favor da humanidade. Neste sentido a Trindade se torna referencial de “amor praticado” e, seguindo este modelo o cristão se empenha para levar a toda a humanidade a mensagem de esperança, ou seja, que existe um Deus que tudo criou e, portanto, cuida e protege a sua criação com carinho. Um Deus que deus seu Filho Amado, pois muito nos amou. Um Filho que deu a sua vida, tendo amado até o fim e, finalmente, um Espírito Santo de amor dado pelo Pai e pelo Filho, que percorre o universo santificando a humanidade.

Santo Agostinho explicava a Trindade dizendo que: Deus é amor, que o Filho é o amado e que o Espírito Santo é o amante. Comunhão de amor que se doa. Comunhão de amor que cria, salva e santifica a humanidade. Desta maneira, nós que somos a imagem e semelhança de Deus assumimos a responsabilidade de recriar a humanidade, de salvar a humanidade e de santificar a humanidade. Ser no mundo amor que se doa. Temos em nós a mesma responsabilidade de amor verso a criação e a mesma responsabilidade de amor verso Deus Uno e Trino.

Síntese

Para as primeiras comunidades, como para nós hoje, a Trindade era o modelo, a base e a referência do agir cristão, assim, antes de explicá-la, eles fizeram a experiência da Trindade, de um Deus Criador, de um Filho Redentor e de um Espírito Santificador.

Na história da Igreja a compreensão da Santíssima Trindade foi alvo de calorosos debates. Na origem da Igreja, a busca pela compreensão sobre a Trindade levou muito estudiosos a compreensões equívocas ao tentar manter a ideia de Monoteísmo diante do mistério do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Dentre os diversos erros de compreensão sobre a Santíssima Trindade, encontramos o “Modalismo”, na qual afirmava que a Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eram apenas modos de se revelar de Deus. Esta heresia salvava o conceito de Monoteísmo, mas, por outro lado, destruía a própria Trindade. Em sentido inverso o “Triteísmo” afirmava a absoluta distinção das pessoas da Trindade. Se no modalismo o monoteísmo era salvaguardado, aqui ele era totalmente negado caindo no politeísmo. Outra solução foi o “Subordinasionismo”. Segundo esta heresia, o Filho e o Espírito Santo seriam inferiores ao Pai e superiores aos homens, tornando o Filho e o Espírito apenas criaturas criadas por Deus.

Diante disto pode-se perguntar então: “O que é a Santíssima Trindade”. Em primeiro lugar, a Trindade é Deus e Deus é Pai, é Filho e é Espírito Santo; e Deus é UM.

Procurando compreender o mistério do Ser de Deus, a Igreja, inspirada pelo Espírito Santo, convocou alguns concílios ecumênicos. O primeiro foi o de Nicéia (325), no qual declarou que o Filho, Jesus Cristo, é gerado do Pai, não foi criado e, portanto, não é inferior ao Pai. Sendo gerado do Pai, o Filho Jesus Cristo, possui a mesma natureza divina do Pai. Portanto, é consubstancial ao Pai, ou seja, possui a mesma natureza divina de Deus: “Eu e o Pai somos Um. Tudo o que o Pai possui é meu. Eu estou no Pai e o Pai está em mim…” (Jo 8).

O Concílio de Nicéia nos deu a verdadeira compreensão sobre Jesus Cristo no mistério da Trindade. Porém, faltava explicar qual era o lugar do Espírito Santo dentro da Trindade. Somente alguns anos mais tarde, ou seja, durante o Concílio de Constantinopla (381) é que a Santa Igreja explica o Espírito Santo a partir da sua relação com a encarnação de Jesus Cristo, proclamando que Ele é “Senhor e doador de Vida, que procede do Pai, com o Pai e o Filho é adorado e glorificado e falou por meio dos profetas”.

De tudo o que falamos até aqui, é importante relembrar que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são distintos um do outro, mesmo sendo possuidores de uma única natureza divina. Assim podemos dizer que a Trindade são três pessoas, não três máscaras; três pessoas, mas não três deuses, mas possuidores de uma única natureza divina. A Trindade está em comunhão perfeita, indivisível e um existe no outro, um está em relação com o outro, de modo que podemos falar de comunhão perfeita, sem confusão e sem separação: O Pai ama o Filho e o Espírito Santo; O Filho ama o Pai e o Espírito Santo; e o Espírito Santo ama o Pai e o Filho. Tal qual é o Pai, tal qual é o Filho, tal qual é o Espírito Santo. Incriado Pai, incriado Filho e incriado Espírito Santo. Grandíssimo Pai, grandíssimo Filho, grandíssimo Espírito Santo. Eterno Pai, eterno Filho e eterno Espírito Santo. Santíssimo Pai, santíssimo Filho e santíssimo Espírito Santo. Contudo, não são os três incriados, não são os três grandíssimos, não são os três eternos e não são os três santíssimos. Somente Um é incriado, somente Um é grandíssimo; somente Um é eterno e somente Um é santíssimo. Somente Um é Deus e Deus é Um. Somente Um é Deus e Deus é Trino.

A primeira comunidade cristã fez a experiência da Trindade antes de tentar explicá-la. De fato, para os primeiros cristãos, a Santíssima Trindade não era uma “Teoria Celeste”, uma ideia abstrata, mas uma experiência de vida, a parte fundamental da sua existência. Na realidade para os primeiros cristãos, como para nós hoje, a Santíssima Trindade era: lugar de amor, ambiente de oração, referência constante do agir cristão, motivo de fé e de esperança; estímulo a caridade; fundamento de salvação.

Objeto de Amor: Na Santíssima Trindade não encontramos divisão e nem separação, pois o Pai está para o Filho, como o Filho está para o Pai; o Pai ama o Filho, como o Filho ama o Pai; o Pai e o Filho amam o Espírito; como o Espírito Santo ama o Pai e o Filho. Nenhuma das pessoas da Trindade age sozinha, isolada, pois na Trindade não existe solidão, egoísmo, pois tudo é comunhão de amor doado. A vida cristã tem o seu agir justamente na experiência da Santíssima Trindade, ou seja, ela é modelo, inspiração para a vida cristã, que não olha para si mesmo, mas um doar-se totalmente a Deus, nos irmãos até o martírio.

Lugar de Oração: Toda a vida cristã é vida de comunidade. Comunidade de amor, porque possui como modelo a Santíssima Trindade, que é comunidade Perfeita. Assim, toda a mística e toda espiritualidade e toda oração cristã é plenamente comunitária e centrada na Trindade. Toda e qualquer oração cristã acontece através, pela e na Trindade. Na fé cristã não existe oração solitária, porque é sempre comunitária, mesmo quando rezamos sozinhos.

Motivo de Fé e de Esperança: A Santíssima Trindade é a porta de entrada para a vida divina; motivo pelo qual somos batizados em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Na medida que progredimos no caminho da santidade e caminhamos para a pátria celeste, aprendemos com a Trindade a vida de amor no amor; a fim de contemplar e viver eternamente no Eterno, que é a fonte de vida. Através do Batismo nos tornamos santos e a cada dia trabalhamos para ser santo, como Deus é Santo.

Estímulo a Caridade: A Trindade como modelo de amor e serviço é para o cristão o principal ponto de referência. Na Trindade encontramos um esforço, um desejo, uma vontade imensa de criar, de salvar e de santificar. Criar, salvar e santificar quem? A mim, a ti a todos aqueles que são dignos de se chamarem Filhos de Deus; e nós o somos graças Aquele que nos amou e nos criou por seu amor, que nos salvou e nos santificou. Do mesmo modo aprendamos a amar, a criar e a santificar a vida onde a vida é roubada, onde a vida é desfigurada pela fome, pela violência, pelo abandono, pela injustiça. Recriemos no olhar das crianças abandonada, nos jovens drogados, na humanidade sofrida o olhar amoroso do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

 

 

Solenidade de Pentecostes Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

          A Festa de Pentecostes é uma solenidade tipicamente judaica. Vinculada à celebração da Páscoa Judaica, ela celebra as primícias do solo. Originalmente, as três grandes festas de Israel, celebravam a vida do campo: preparação do solo e sementes lançadas (Páscoa); as primícias do solo colhida cinquenta dias após (Pentecostes) e a colheita dos grãos ao final do ano agrícola (Tendas). Neste sentido, Semanas ou Pentecostes, mesmo após o processo de historização (Páscoa = saída do Egito; Tendas = 40 anos de caminhada pelo deserto sob a proteção de Deus) jamais perdeu a sua característica agrícola. Somente a partir do cristianismo, assume a ideia de Aliança e Lei do Sinai.[1]

A Solenidade Judaica é um momento pelo qual Israel pode apresentar seus dons a Deus como gratidão. A partir da Pentecostes cristão acontece uma inversão, não é mais Israel que oferece seus dons, mas Deus que oferece o seu dom (=Espírito Santo) à Igreja e ao mundo e o Espírito Santo, enquanto Dom, que oferece o seus dons.

A sua liturgia é descrita em Dt 26,3-10:

Virás ao Sacerdote em função naqueles dias e lhe dirás: Declaro hoje a Iahweh meu Deus que entrei na terra que Iahweh, sob juramento, prometera aos nossos pais que nos daria! O sacerdote receberá o cesto de tua mão, colocá-lo-á diante do altar de Iahweh teu Deus, e, tomando a palavra, tu dirás diante de Iahweh teu Deus: Meu pai era um arameu errante: ele desceu ao Egito e ali residiu com poucas pessoas; depois tornou-se uma nação grande, forte e numerosa. os egípcios, porém, nos maltrataram e nos humilharam, impondo-nos uma dura escravidão. Gritamos então a Iahweh, Deus dos nossos pais, e Iahweh ouviu a nossa voz: viu nossa miséria, nosso sofrimento e nossa opressão. E Iahweh nos fez sair do Egito com mão forte e braço estendido, em meio a grande terror, com sinais e prodígios, e nos trouxe a este lugar, dando-nos esta terra, uma terra onde mana leite e mel. E agora, eis que trago as primícias dos frutos do solo que tu me deste, Iahweh. E as depositarás diante de Iahweh teu Deus, e te prostrarás diante de Iahweh teu Deus.

Na obra lucana, o Evangelho conclui-se com o relato da Ascensão do Senhor aos céus com algumas recomendações e, entre elas, a de aguardarem a força “do alto” a ser enviada por ele cumprindo a promessa do Pai (cf. Lc 24,44-53). O livro dos Atos dos Apóstolos tem início justamente com o tema da Ascensão com esta conclusão do terceiro Evangelho (cf. At 1,6- 11). Particularmente em Atos no diálogo entre Jesus e os Apóstolos estes o questionam a respeito da restauração de Israel (cf. At 1,6-7), no qual Jesus afirma que o tempo pertence ao Pai e prossegue anunciando que os Apóstolos receberão “uma força”, que corresponde ao Espírito Santo que descerá sobre eles, tornando-os testemunhas em Jerusalém e por toda a terra (cf. At 1,8).

1ª Leitura: At 2,1-11

O livro dos Atos dos Apóstolos dedica um amplo espaço para o tema da Festa de Pentecostes, no qual apresenta o que antecede à vinda do Espírito Santo, o evento propriamente dito, e a consequência disto. Pode-se observar o seguinte esquema: 1. Promessa do Pentecostes (1,4-8); 2. Preparação para o Pentecostes (1,12-26); 3. As provas do Pentecostes (2,1-4); 4. As pessoas do Pentecostes (2,5-13); 5. A profecia do Pentecostes (2,17-21); 6. A pregação sobre o Pentecostes (2,22- 40); e, 7. A proposta do Pentecostes (2,41-47). Assim, com a Ascensão de Jesus, a primeira iniciativa dos Apóstolos é a de recompor o grupo dos doze com a escolha de Matias para o lugar de Judas Iscariotes. Após a reestruturação do grupo dos Doze, Lucas descreve o evento do Pentecostes (cf. At 2,1-13), seguida pela explicação de Pedro à multidão sobre o que ocorreu e o fenômeno das línguas a partir das tradições de Israel (cf At 2,14-36), seguida pela conversão de muitos (cf. At 2,37-41) e a consequência para a comunidade cristã (cf. At 2,42-47). Na narrativa lucana de At 1-2 o Pentecostes confere aos Apóstolos o Espírito Santo e, investidos da “força do alto” estes também recebem o “dom de línguas” capacitando-os para a pregação da Boa Nova aos povos de diversas línguas. Deve-se sublinhar, então, que ocorrem dois fatos: a efusão do Espírito Santo e a concessão do dom de línguas, ou seja, os Apóstolos, tendo recebido o Espírito Santo como dom, recebem do próprio Espírito o dom de línguas em vista da missão. Apesar de Lucas se basear na profecia de Joel sobre a promessa do Espírito Santo para os tempos futuros, permitindo àqueles que receberiam o dom de profetizar, o relato enfatiza o tema do testemunho, baseando-se na profecia de Isaías (cf. Is 43,3.10; 44,8; 32,10; 59,21).

2ª Leitura 1Cor 12,3b.12-13 (+ LG 12)

O Concílio Vaticano II ao tratar do tema “carisma” distingue dois conceitos diversos: a) dom extraordinário, dado por Deus de modo excepcional, e, b) dom qualquer, dado por Deus para a edificação da Igreja. O documento conciliar Lumen Gentium (capitulo1§4), falando da obra do Espírito na Igreja, expressa que: “A Igreja, que Ele conduz à verdade total (cfr. Jo 16,13) e unifica na comunhão e no ministério, enriquece-a Ele e guia-a com diversos dons hierárquicos e carismáticos e adorna-a com os seus frutos (cfr. Ef 4,11-12; 1Cor 12,4; Gl 5,22).”

Podemos perceber que o Documento salienta uma distinção entre dons hierárquicos e carismáticos. Igualmente no §7 que trata da Igreja como Corpo de Cristo, expressa em referência a 1Cor 12,1-11: “Assim como os membros do corpo humano, apesar de serem muitos, formam um corpo único, assim também os fiéis, em Cristo (cf. 1Cor 12,12). Também na edificação do Corpo de Cristo há diversidade de membros e de funções. Único é o Espirito que para bem da Igreja (cf. 1Cor 12,1-11) distribui os seus vários dons conforme as suas riqueza e a necessidade de cada ministério (cf. 1Cor 12,1-11)… Ele (Cristo) distribui continuamente ao seu corpo, que é a Igreja, os dons dos diversos ministérios”.

Também na construção do Corpo de Cristo vigora uma diversidade de membros e ofícios. Um é o Espírito, o qual distribui para a utilidade da Igreja a variedade dos seus dons segundo a sua riqueza e as necessidades dos ministérios (cf. 1Cor 12,1-11). Entre estes dons sobressai a graça (gratia) dos apóstolos, cuja autoridade o mesmo Espírito submete os carismas (carismáticos) (cf. 1Cor 14). Aqui se encontram três expressões diversas: dons, graça e carismas. A última frase pode sugerir que os apóstolos não façam parte dos carismas.

O §12 trata amplamente dos carismas e adota o substantivo “charismata”. Este parágrafo encontra-se no segundo capítulo [O Povo de Deus], logo após o parágrafo sobre do “sacerdócio comum”. O tema inicial do parágrafo é sobre o ofício profético do Povo de Deus. O discurso de Pedro no dia de Pentecostes (cf. At 2,16-21) proclama a atuação do oráculo de Joel, o qual anunciava que todos receberiam o Espírito de Deus e profetizariam (cf. 3,1-5). A LG não ressalta o aspecto real do Povo de Deus, como se pode perceber, apenas a dignidade sacerdotal e profética; é nesta dignidade (sacerdotal e profética) que vem anexado a presença dos carismas:

…o mesmo Espírito Santo não se limita a santificar e a dirigir o Povo de Deus por meio dos sacramentos e dos ministérios, e a orná-los com as virtudes, mas também, nos fiéis de todas as classes, ‘distribui individualmente e a cada um, conforme entende’, os seus dons (1Cor 12,11), e as graças especiais, que os tornam aptos e disponíveis para assumir os diversos cargos e ofícios úteis à renovação e maior incremento da Igreja, segundo aquelas palavras: ‘A cada qual se concede a manifestação do Espírito para utilidade comum’ (1Cor 12,7). Devem aceitar-se estes carismas com ação de graças e consolação, pois todos, desde os mais extraordinários aos mais simples e comuns, são perfeitamente acomodados e úteis às necessidades da Igreja.

Aqui também encontramos três temas: dons, graças especais e carisma. O Documento Conciliar específica a natureza dos carismas, que se trata de dons funcionais. Temos assim que, “atividade” e “serviço se relacionam e assumem a função de utilidade. Assim, o dom é concedido para a Utilidade da Igreja, conforme 1Cor 12,7, entendendo Igreja como Corpo de Cristo, Luz para o Mundo ou Sacramento de Salvação.

A novidade do Concílio é a distinção entre “administração ordinária da graça” e “iniciativas novas”. Por “administração ordinária”, o Espírito se serve dos sacramentos e dos ministérios institucionais, enquanto para “iniciativas novas”, se serve dos carismas.

Podemos dizer que o carisma é por natureza funcional, não implicando diretamente na santificação de quem o possui[2], subentendendo que esta utilidade não está exclusa. A utilidade para a edificação da comunidade é o critério para julgar se um carisma é mais ou menos importante.

1Cor 12 nos apresenta duas listas de dons e carismas, ambas são complementares. Contudo, São Paulo faz referência aos ministérios (diaconia) e modos de ação (energêmata) que são atividades do próprio Deus, através do Espírito, tendo Jesus Cristo como modelo (cf. vv. 4-6):

4Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo;

5diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo

6diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos.

 

Os dons dados pelo Espírito não são para a glória pessoal de quem o recebe, ou oportunidade de sobrepor-se aos demais, mas representam a oportunidade para o ministério ou para o serviço à comunidade e através desta o serviço à Deus. Todo serviço ou ministério parte de Deus e o resultado deste serviço converge para Deus.

 

Evangelho Jo 20,19-23

O Evangelho para a Solenidade de Pentecostes é sempre a narrativa do encontro de Jesus Ressuscitado com os Apóstolos conferindo-lhes o Espírito Santo, como “dom” e com este, uma prerrogativa particular de Deus, ou seja, o de perdoar pecados. A partir desta dimensão, a remissão dos pecados passa diretamente para o ato sacramental. O próprio Jesus havia usado a prerrogativa do Pai de perdoar pecados gerando controvérsias entre os judeus e acusação de blasfêmia. Agora um atributo próprio de Deus é atribuído aos Apóstolos.

Em jogo esta a novidade da ressurreição próxima da ideia da nova criação, na qual o homem redimido pode se tornar apto de Deus. Na tradição protestante entra a negação do ato sacramental e a ideia de ligação direta com Deus (Eu e Deus) junto com expor a realidade do pecado para a comunidade. A situação de pecado pode ser exposta ao público, mas não haverá remissão dos pecados e a matéria do pecado permanecerá sobre o pecador, algo que é anulado através do ato sacramental. Tirando outras questões que envolvem a questão, a essência principal do “poder” de perdoar os pecados dada pelo Senhor aos Apóstolos esta em vista de libertar a pessoa possibilitando-a de se tornar toda de Deus sem reservas ou impedimentos.

Levando em consideração que o Espírito Santo possui a missão de conduzir tudo e todos à Cristo e este ao Pai, o tornar a pessoa apta e o abrir o caminho e a possibilidade do seguimento e da atividade missionária, no qual o homem/mulher deixa de ser escravo do pecado para se tornar servo de Deus (cf. Rm 6) em favor da humanidade.

A Solenidade de Pentecostes celebra o envio da Igreja ao mundo com a “potência” do Espírito Santo guiando-a e capacitando-a para a missão a ser realizada. Tendo ela sido gerada no chamado dos 12 Apóstolos, ao início da missão de Jesus na Galileia e nascida no dia da Ressurreição, agora é enviada em missão, configurada ao seu Senhor e fortalecida pela ação do Espírito Santo.



[1] Araujo, Gilvan Leite de. A Festa de Shavuot. Revista de Teologia e Ciências da Religião da UNICAP. p. 363-384.

[2] O único dom de santificação pessoal é o da glossolalia (cf. 1Cor 14,4). Contudo, junto com o dom da profecia, o dom de língua “angélica” (≠ do dom de língua em At 2), é individual e possui órgão de controle, ou seja, só pode ser exercido o dom se autorizado por aquele que preside a assembleia e é o possuidor do dom do discernimento (cf. 1Cor 12,10; 14,26-32.39)

Solenidade da Ascensão do Senhor Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

            A Solenidade da Ascensão do Senhor se coloca no ciclo pascal como a quadragésima que está em relação com o Domingo da Páscoa e a quinquagésima, ou seja, o dia de Pentecostes. Portanto, esta Solenidade é um marco entre a “subida de Cristo da morte” (Ressurreição) e a “descida do Espírito Santo” sobre os Apóstolos. Na estreita relação com o Pentecostes temos a “subida de Jesus Cristo aos céus” e a “descida do Espírito Santo sobre a terra”.

A narrativa lucana termina anunciando a Ascensão de Jesus aos céus na região de Betânia (Lc 24,50-52). Esta informação cria certe dificuldade com a narrativa marcano que coloca a Ascensão na região da Galileia (cf. Mc 16,7). Outro problema de narrativa é quanto ao momento da Ascensão. Na narrativa lucana dá-se a impressão que a Ascensão ocorre no mesmo dia da Ressurreição. Contudo, a narrativa de Atos dos Apóstolos corrigi a questão informando que Jesus permaneceu quarenta dias (quadragésima) com os Apóstolos (cf. At 1,3). Quanto ao lugar da Ascensão permanece a questão entre a tradição de Marcos e de Lucas. A Igreja Primitiva, no entanto, tendeu a seguir a narrativa lucana como é indicado através de duas Basílicas: Eleona (=oliveira) e Imbomon (=altura), sendo que esta última passará a ser conhecida como Basílica da Ascensão de Jesus (±380 d.C.).

A partir da Igreja Primitiva se estabelece uma estreita relação entre Ascensão de Jesus e Descida do Espírito Santo, inspirada pelas palavras de Jesus: “Não compete a vós conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade. Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e a Samaria, e até os confins da terra” (At 1,7-8). Portanto, Ascensão fica diretamente relacionada com Pentecostes.

A tradição cristão primitiva colocava em relação duas Grutas/Basílicas: a da Natividade e a da Eleona-Imbomon, partindo do pressuposto que, na primeira, Cristo desceu e da segunda, Cristo subiu. Criando uma relação entre Nascimento e Ascensão de Jesus. Outra particularidade primitiva é o direcionar-se, durante a oração, para o oriente, pois a Ascensão implica num anúncio de retorno. Portanto, se estabelece uma perspectiva escatológica, a Parusia.

Quanto à liturgia, a Igreja sempre optou pela narrativa de Marcos, mesmo tendo a narrativa de Lucas maior expressividade. Tal fato se deve pela seguinte frase: “o Senhor Jesus… foi arrebatado ao céu e sentou-se à direita de Deus” (Mc 16,19), na qual é afirmado a entrada de Jesus na glória eterna de seu Pai. Portanto, o contexto teológico de “estar sentado à direita do Pai, como se proclama no Credo.

São Pio V estabelece a rubrica do “apagar o Círio Pascal” ao término da proclamação do Evangelho. Na tradição latina, a oitava da Ascensão era dedicada ao tema da “Glória de Cristo” na expectativa de Pentecostes, suprimida posteriormente com a reforma litúrgica do Vaticano II.

1ª Leitura: At 1,1-11

O primeiro capítulo do Livro do Atos dos Apóstolos descreve a reorganização da comunidade dos Doze, após a morte de Judas Iscariotes. Assim, o tema central é o da organização/ordem. Isto está em vista da descida do Espírito Santo, bem como evoca a narrativa da criação no livro do Gênesis.

Em Gn 1, antes da criação, existia o “caos” (sem forma, vazia, escura) até que o “espírito de Deus começa a pairar” (Gn 1,2). A partir do momento que o Espírito de Deus começa a pairar e Deus começa a falar, o caos é transformado em “jardim/paraíso”. Sendo a Igreja a imagem da nova criação, o Espírito irá pairar sobre ela quando estiver “ordenada/organizada”. Portanto, tanto na narrativa da criação como do envio da Igreja, o tema da harmonia/ordem estará em relação com o Espírito Santo.

Na narrativa deste domingo, o Prólogo dirigido a Teófilo (=amigo de Deus) apresenta uma síntese dos pontos principais do Evangelho de Lucas, preparando para o que seguirá. O ponto principal é o anúncio do “batismo” com o Espírito Santo, conferindo um “poder” particular potencializando para a missão, que ocorrerá após a ascensão de Jesus. Assim, a narrativa está vinculando o tema do Pentecostes com o da Ascensão, bem como abrindo para uma perspectiva futura, com o tema da Parusia.

2ª Leitura: Ef 1,17-23

A 2ª Leitura está sublinhando a figura de Deus Pai, que conferiu a Glória ao Filho, ao ressuscitá-lo e colocando-o como Cabeça da Igreja. Este mesmo Deus é o que concede o Espírito Santo, junto com o Filho, ao que creem e se tornam membros do Corpo.

No conjunto da leitura um primeiro elemento é o dom do Espírito Santo a ser dado aos que creem. Outro elemento fundamental, é o tema eclesial. Ela é descrita como membros do Corpo, cuja cabeça é o próprio Cristo. Portanto, a Igreja é uma realidade divina e sua missão, sob a guia do Espírito Santos, é conduzir tudo e todos para Cristo. Tendo Cristo a Plenitude Universal, a missão, consequentemente, assume uma perspectiva universal. Portanto, a missão e a evangelização são elementos substanciais da vida da Igreja, que abrange todo batizado.

Evangelho: Mc 16,15-20

A perspectiva universal da missão da Igreja se apoia na própria “ordem” dada pelo Senhor: Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15).

Para que a missão se realize, o Senhor confere o Espírito Santos, como força e guia da missão evangelizadora. Neste sentido, o dom do Espírito Santo não é em vista de quem o recebe e nem para o seu deleite particular, mas está em vista da Igreja e da missão. Assim, o Espírito Santo, irá potencializar o batizado colocando-o para “trabalhar” literalmente.

Um dos eixos principais do Evangelho próprio da Solenidade da Ascensão é esta: “o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao céu e sentou-se à direita de Deus” (Mc 16,19), ou seja, se destaca dois pontos: o ser elevado aos céus e o estar sentado a direita do Pai, como ficará configurado na profissão de fé cristã. O ser ressuscitado e o ser elevado ao céu, está em vista daqueles que creem, configurando uma promessa futura, como a Igreja irá pressupor através do dogma da Assunção de Nossa Senhora, na ideia das primícias daqueles que estiveram próximos do Senhor que se estende a todos. Quanto ao tema do “estar sentado à direita”, se configura como um elemento político de exercício de poder, ou seja, a ideia é proveniente da forma de governo babilônico e persa, no qual o grande rei presidia o colegiado dos reis subordinados. Assim, Deus é aquele que preside o “Conselho” do Reino Celeste e Universal, ao lado do Filho. Lógico que quando a mãe dos filhos de Zebedeu solicitam que seus filhos se sentem a direita e a esquerda no reino futuro, Jesus desmonta a ideia de poderio autoritário e apresenta a ideia de poder enquanto serviço (diaconia) que, também, será referencial para todo exercício de poder na Igreja.

Jesus Cristo, enquanto aquele que “deu a vida em favor” dos seus, estando sentado a direita do Pai, é aquele que exerce seu poder como um serviço em favor da humanidade, “para que todos tenham vida e a tenham em plenitude”. Para que isto se efetive, a Igreja é enviada em missão para abrir as portas e os corações para uma vida nova: como o Senhor foi elevado ao céu e está a direita do Pai, a Igreja anuncia que um dia seremos, pelo menos desejamos, elevados ao céu e contemplaremos Deus face-a-face.

 

6o Domingo da Páscoa Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

1ª Leitura: At 10,25-26.34-35.44-48

O décimo capítulo do Livro do Atos do Apóstolos narra a história do centurião romano chamado Cornélio. Descrito como homem piedoso, temente a Deus e generoso para com o povo. A narrativa tem início com a visita do anjo de Deus, durante a oração da hora nona, anunciando que Deus o havia agraciado escutando suas orações e solicitando que Pedro fosse chamado a sua casa.

A narrativa descreve um gentio reto, justo e bondoso que encontra graça diante de Deus. Tal descrição abre as portas para a universalidade cristã que será confirmada pelo dom do Espírito Santo que se derrama sobre a casa de Cornélio.

Singularmente se observa que o dom do Espírito Santo é dado antes do Batismo. Neste sentido, o Livro de Atos descreve o Espírito Santo sendo derramado ora após o batismo e ora antes do batismo. O que esta ocorrendo é que Deus está indicando, através do Dom do Espírito Santo, que os gentios também são aptos e são ambiente de missão, ou seja, Deus abre a missão universal da Igreja tendo o Espírito Santo à sua frente, guiando, assim, a Igreja. A ação do Espírito Santo sobre os gentios será a evidência concreta para definir se as prerrogativas judaicas, como a circuncisão, sejam exigidas aos gentios ou não para se tornarem cristãos, conforme é narrado no Concílio de Jerusalém (cf. At 15).

Deve-se notar, ainda, a presença do anjo de Deus. No livro do Atos dos Apóstolos os anjos cumprem a tarefa de cooperadores da Igreja. Neste sentido, os anjos são equiparados aos santos e ambos exercem a tarefa de intercessores e cooperadores. O gesto de Cornélio de se ajoelhar diante de Pedro evoca a narrativa do Livro do Apocalipse de João, no qual o vidente de Patmos se ajoelha diante do anjo e é convidado a não o fazer, pois o anjo é, também, servidor: “Caí então a seus pés para adorá-lo, mas ele me disse: Não! Não o faças! Sou servo como tu e como teus irmãos que têm o testemunho de Jesus. É a Deus que deves adorar!” (Ap 19,10; 22,8-9).

No conjunto, a presença do anjo e de Pedro e a ação do Espírito Santo convergem para o tema da Missão da Igreja, o qual anuncia, a todos indistintamente, Jesus Cristo, Morto e Ressuscitado.

2ª Leitura: 1Jo 4,7-10

A dinâmica missionária e universal da Igreja circunscreve uma dinâmica de amor. Contudo, tal amor não se reduz ao mero sentimentalismo, mas ação concreta diante do mundo. Sendo Jesus o sinal do amor do Pai para com toda a criação, o crê nele implica em ato de justiça. Além disso, o crer em Jesus se traduz em ação concreta em favor da humanidade. Tudo parte do primado do amor divino: “Deus nos amou por primeiro”.

Relacionando com a narrativa de Cornélio, se evidencia a distinção entre piedade e pietismo. Na própria fala de Pedro: “Bem sabeis que é ilícito a um judeu relacionar-se com um estrangeiro ou mesmo dirigir-se à sua casa. Mas Deus acaba de mostrar-me que a nenhum homem se deve chamar de profano ou impuro” (At 10,28). Assim, o que “teme a Deus e prática a justiça” (At 10,35) se torna, segundo a ótica petrina, agradável à Deus. Cornélio se configura como modelo daquele que ama a Deus a partir da sua prática.

Além disso, a abertura aos gentios possui ressonância do Segundo Isaías, no qual o profeta abre o judaísmo para acolher os gentios. Contudo, aqui, os cristãos é que vão ao encontro dos gentios e não o contrário. As Constituições Gaudium et Spes e Lumen Gentium são boas referências neste processo.

Evangelho: Jo 15,9-17

O capítulo quinze de João continua como a descrição do agir da Igreja. Na narrativa de hoje, Jesus afirma que o ato de o conhecer resulta em se tornar amigo, como se pode verificar na narrativa da missão petrina, no qual Jesus pergunta sobre amor e Pedro responder sobre amizade, indicando que, agora, ele está apto para o seguimento, indicado por Jesus a partir do apascentar o rebanho/cordeiros (Jo 21,15-18).

Jesus, como mestre, preparou os seus discípulos para a missão, agora é o momento da sua partida e ele indica como será o agir da Igreja após a sua partida (Jo 13-17). Singularmente, a missão terá como guia o próprio Espírito Santo, na Literatura Joanina, apresentado como Aquele que atua vinculando à pessoa de Jesus Cristo. Sob a força do Espírito Santo, o amor cristão será vincular a humanidade à pessoa de Jesus Cristo, partindo do testemunho. No tema do amor sub-entra o tema do Testemunho, pois será este que permitirá a anuência de todos os homens e mulheres em favor de Jesus Cristo e para o seu seguimento. O agir cristão expressa o amor divino e se torna, portanto, testemunho. Sem este testemunho concreto o processo missionário e evangelizador ficaria prejudicado.

O testemunho é o elemento vital no processo missionário da Igreja Primitiva, é ele que cativa e seduz para o seguimento de Cristo, caso contrário pode-se cair no racionalismo radical de palavras e imposições, transformando Deus num produto comerciável. O fundamentalismo impõe, enquanto a evangelização cativa pelo amor.

 

5º Domingo da Páscoa Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

1ª leitura: At 9,26-31

A 1ª Leitura narra a questão surgida referente a conversão de Paulo. De fato, nas narrativas do livro do Atos dos Apóstolos, ele é descrito como feroz perseguidor e, agora, do nada, surge como um convertido. Tal conversão seria uma estratégia para se descobrir quem era cristão? Além disso, a partir da conversão, Paulo passa ser odiado pelos judeus, temido pelos cristãos e tido como agitador pelos romanos. Portanto, a sua situação não era muito favorável.

Paulo nasceu de uma família judia, originária da cidade de Giscala (Galileia), mas de ascendência Benjaminita e residente em Tarso. O nome Saulo exalta o membro mais ilustre da Tribo de Benjamim, ou seja, Saul, o primeiro rei de Israel (cf. At 9,4). Segundo as indicações do próprio Paulo, ele era proveniente de uma família abastarda, tendo em vista possuir cidadania em Tarso (cf. At 21,39) e cidadania romana (cf. At 22), este é outro fato, que corrobora para o status da família de Paulo. Em todo caso, sendo proveniente de uma família abastarda isto lhe possibilitou elevada formação intelectual tanto das tradições judaicas (escola de Gamaliel em Jerusalém[1]) quanto gentílica. A elevada formação intelectual somada ao brilhante intelecto forjou um homem de elevadas qualidades.

A formação judaica e gentílica, principalmente da filosofia grega, é perceptível nas pregações e nas cartas por ele escritas (vocabulário, sensibilidade cultural, conhecimento do público, coesão…). Falando sobre sua pessoa, Paulo afirma: “Aliás, eu poderia até confiar na carne. Se algum outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível” (Fl 3,4-6). Isto coloca Paulo, em relação aos judeus e aos gentios, acima da média. Lógico que contava em seu desfavor aspectos físicos. A obra apócrifa chamada “Atos de Paulo e Tecla” descreve Paulo como uma pessoa mediana, calvo, pernas levemente curvadas, grandes olhos, sobrancelhas unidas e nariz grande”. Além disso, o próprio Paulo afirma sobre si mesmo: “Não quero dar a impressão de incutir-vos medo por minhas cartas, pois as cartas, dizem, são severas e enérgicas, mas ele, uma vez presente, é um homem fraco e a sua linguagem é desprezível” (2Cor 2,9-10). Todos estes fatores acima acabavam depondo contra Paulo. Contudo, se deve perguntar: Por que o Senhor escolheu justamente Paulo???

Todos estes dados acima, fornecem um quadro geral sobre a pessoa de Paulo, poderia não gozar de certos atributos físicos, mas gozava de uma mente privilegiada e caráter forte. Características necessárias essenciais para a missão que deverá assumir: tornar-se Apóstolo dos Gentios (cf. Ef 3). Tarefa que exigia caráter forte e determinado, eloquência intelectual, precisão, organização e fidelidade inquestionável e isto, Paulo tinha de sobra.

A 1ª leitura de hoje narra a temporada de Paulo em Jerusalém logo após a conversão. Todo convertido tende a ser radical e Paulo se destaca neste sentido. Chegando a Jerusalém, criará diversos problemas, motivo pelo qual os Apóstolos o enviam para Tarso, permitindo que Jerusalém voltasse a ficar em paz (cf. At 9,31), onde permanecerá por quase dez anos até o início da sua missão, um bom tempo para se assentar. Não se pode esquecer que os judeus irão se referir à Paulo nestes termos: “Verificamos que este homem é uma peste: ele suscita conflitos entre todos os judeus do mundo inteiro, e é um dos da linha-de-frente da seita dos nazareus” (At 24,5).

Sintetizando o que foi exposto acima, o que se pode falar efetivamente sobre a pessoa de Paulo: “UM HOMEM APAIXONADO PELO EVANGELHO”. Esta é a melhor descrição da pessoa de Paulo. Esta será a característica própria dos santos da Igreja, ou seja, o que são os santos? Homens e mulheres apaixonados pelo Evangelho, como se pode notar em Francisco de Assis, Teresa D’Avila, Antonio da Padova…

2ª Leitura: 1Jo 3,18-24

A sombra do que foi exposto acima é que se deve compreender a vida cristã. O cristão é aquele que se deixa transformar pelo Evangelho e, assim, torna Jesus Cristo, a medida da sua vida (cf. Ef 4,7-13).

Crer e professar Jesus Cristo, na Literatura Joanina, não se trata de meras palavras, mas de atitudes efetivas. Neste sentido, a medida da fé em Cristo é feita em relação ao irmão. Assim, na Literatura Joanina, o amor é sempre um ato, não palavra, tendo em vista que Deus é Amor, o amar é edificar o outro e cuidar da criação, ou seja, se trata de “amor praticado”, até que o próximo, que estiver desfigurado, alcance a imagem e semelhança do Criador.

Na Primeira Carta de João, o autor descreve que só existe fé, caso ele seja manifestado na vida do mundo, ou seja, caso ele seja praticado: “Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso: pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar. E este é o mandamento que dele recebemos: aquele que ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4,20-21).

Evangelho: 15,1-8

O Evangelho de hoje está em relação com a narrativa paulina da Igreja como Corpo de Cristo (1Cor 12), com suas respectivas distinções. No Quarto Evangelho constantemente aparece o verbo “permanecer”. Este verbo servirá, no capítulo quinze para descrever a configuração eclesial joanina. O membro da Igreja é aquele que permanece vinculado à pessoa de Jesus Cristo, apresentado na leitura, através da imagem da videira e dos ramos ou na imagem paulina da cabeça e membros do corpo. Nos dois modelos a vitalidade essencial do ramo/membro é proveniente da videira/cabeça. Disto deriva que o estar vinculado à Cristo é princípio de liberdade, não de cerceamento; de possibilidade de ação: produzir frutos (João) pois possui os dons (Paulo).

Tanto na perspectiva joanina como a paulina o ser ou o agir cristão não está em vista da própria pessoa, mas do outro. Nisto se constrói uma eclesiologia de comunhão e de serviço, tendo Cristo como cabeça de tudo. Cristo, de fato, é o ponto de partida e o ponto de chegada de toda vida eclesial e o estar nele vinculado implica necessariamente na missão (evangelização) e no serviço (diaconia).

Iluminado pela 1ª leitura, teremos Paulo como este modelo. Tendo Cristo como centro da sua vida, o que era outrora, não importa mais. O que importa, agora, é o olhar para frente. Não se deixando impedir por limites físicos, psicológicos, ele coloca os seus dons à serviço da Igreja, em pleno diálogo com a sua cabeça. O que importa para Paulo é Jesus Cristo, o Crucificado, que é o Ressuscitado, na sua Igreja. Paulo como Apóstolo dos Gentios, professa a sua fé efetivamente servindo a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo para o bem da humanidade.



[1] Existem dúvidas, no entanto, se Gamaliel era discípulo de Hillel ou de Shamai. Indícios paulinos, indicam maior proximidade com a escola de Hillel.

4º Domingo da Páscoa Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

1ª Leitura: At 4,8-12

A pregação de Pedro evidencia duas características teológicas da pessoa de Jesus Cristo, o tema do “Nome” e o tema da “pedra angular”. O primeiro tema evoca a natureza divina e o segundo a messianidade do Senhor.

A teologia da “Nome” aparece pela primeira vez no primeiro livro dos Reis. A obra descreve, pela boca de Salomão, que o Templo de Jerusalém foi construído para abrigar “o Nome do Senhor Deus” (cf. 1Rs 8).

Durante o rito de consagração do Templo de Jerusalém, Salomão dirige a palavra a toda assembleia reunida, após Deus tomar posse do recinto sagrado (1Rs 8,10-13) e anuncia que o Templo fora construído para abrigar o “Nome” de Deus retomando as palavras do Senhor Deus à Davi:

Desde o dia em que fiz sair meu povo do Egito, não escolhi uma cidade, dentre todas as tribos de Israel, para nela se construir uma casa onde estaria meu Nome, mas escolhi Davi para comandar Israel, meu povo. Meu pai Davi teve a intenção de construir uma casa para o Nome de Iahweh, Deus de Israel, mas Iahweh disse a meu pai Davi: Planejaste edificar uma casa para meu Nome e fizeste bem. Contudo, não serás tu quem edificará esta casa, e sim teu filho, saído de tuas entranhas, é que construirá a casa para meu Nome. (1Rs 8, 16-19; cf. 2Cr 6)

A narrativa da consagração do Templo sublinha que o Templo fora construída para abrigar o “Nome” e que, na realidade, não seria Davi a construir uma casa para Deus, mas sim, Deus a construir uma casa para Davi (=genealogia). Neste sentido surgem dois conceitos: 1) Nome = presença real de Deus em meio ao seu povo; 2) casa = Deus edificará uma casa/genealogia para Davi. Partindo do segundo tema, deve-se ressaltar que a promessa feita à Davi de uma casa, desenvolve a ideia de “trono eterno de Davi”, do qual nasce o tema do Messias Davídico, que, também, será aplicado a pessoa da Jesus. O primeiro tema é de interesse para a liturgia deste domingo, ou seja, o “Nome”.

Conforme mencionado acima, a primeira vez que surge o tema é em relação ao Templo de Jerusalém. Neste sentido, o Templo foi construído para abrigar o “Nome”, o que implicava em presença real de Deus em meio ao seu povo.

A proibição formal de “não tomar o santo Nome em vão” está relacionado a ideia primordial de real presença. Neste sentido se estabelece o processo de contradição entre estar diante de Deus (=Nome) e usurpar ou depreciar sua presença. Assim, evocar o Nome de Deus, significa, dentro da tradição de Israel, estabelecer e afirmar a real presença divina.

Jesus reafirma esta teologia ao propor a oração do Pai Nosso. De fato, a oração tem início com o tema da santificação do nome: “Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso Nome”. Esta primeira parte corresponde diretamente as palavras de Deus e de Davi no livro primeiro livro dos Reis:

Mas será verdade que Deus habita com os homens nesta terra? Se os céus e os céus dos céus não te podem conter, muito menos esta casa que construí! Sê atento à prece e à súplica de teu servo, Iahweh, meu Deus, escuta o clamor e a prece que teu servo faz hoje diante de ti! Que teus olhos estejam abertos dia e noite sobre esta casa, sobre este lugar do qual disseste: Meu Nome estará lá. Ouve a prece que teu servo fará neste lugar. Escuta as súplicas de teu servo e de teu povo Israel, quando orarem neste lugar. Escuta do lugar onde resides, no céu, escuta e perdoa. (1Rs 8,27-30)

Deus habitando os céus se faz presente em meio ao seu povo através do seu Nome. Neste sentido, a oração do Pai Nosso evoca esta real presença de Deus no meio do seu povo. Posteriormente, a Igreja Primitiva irá resgatar a Teologia do Nome e aplicá-la a pessoa de Jesus, obedientes, ainda, a vontade do Senhor. Jesus utiliza diversas vezes o tema do nome para indicar sua presença e ação:

Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18,20)

Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19)

Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome!” (Lc 10,17)

Mas a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus: aos que creem em seu nome” (Jo 1,12)

E o que pedirdes em meu Nome, eu o farei a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes algo em meu Nome, eu o farei” (Jo 14,13-14)

Tanto na tradição judaica como a cristã a invocação do Nome implica na real presença. Tal presença que atua em favor daquele/s que o invoca/m.

2ª Leitura: 1João 3,1-2

A narrativa da 1ª João evidencia o tema da filiação, mais exatamente o tornar-se “filhos de Deus”. Este é um tema típico do Quarto Evangelho. De fato, no Prólogo Joanino, o hagiógrafo abre o seu Evangelho afirmando: “a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus: aos que creem em seu nome” (Jo 1,12). Segundo a perspectiva joanina o crer em Jesus resulta em filiação divina. Neste sentido, quando o autor da carta afirma dizendo “sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1Jo 3,12), na realidade está afirmando que, através do Filho, nos tornaremos filhos, configurando, assim, Deus enquanto Pai Amoroso.

A título de curiosidade, no Quarto Evangelho Nossa Senhora, nunca é indicada pelo nome, apenas pela sua “função”, ou seja, ela é a mãe do Senhor. Unindo a ideia de filiação com a de mãe é que se compreende quando Jesus, na cruz, entrega o discípulo à sua mãe e ela ao discípulo. Isto é em favor de todos os que creem em Jesus, se tornando, assim, filhos de Deus, visibilizado na figura da Mãe do Senhor, motivo pelo qual podemos chamar Maria de “nossa mãe”.

Evangelho: Jo 10,11-18

O capítulo dez de João é construído entorno da solenidade judaica de Chanucá [Hanucá]. Esta solenidade, descrita no primeiro e segundo livro dos Macabeus, surgiu como desdobramento da Festa de Deus (=Tendas/Sucot) e com a finalidade de celebrar a vitória dos Judeus sobre os Sírios (dinastia Selêucida).

A figura do imperador Antíoco IV Epífanes é a figura antagônica em relação a Matatias Macabeus. De fato, Antíoco publica um édito proibindo, sob pena capital, o culto judaico e a leitura das Escrituras Sagradas de Israel. Por sua vez, Matatias representa a figura daquele que permanece fiel as suas tradições judaicas, rejeitando o édito e dando início à revolta popular que se tornará na Guerra dos Macabeus.

Matatias é sacerdote da linhagem de Joiarib (cf. 1Mc 2,1) e figura do bom pastor de Israel em direto contraste, também, com Jasão e Menelau. Jasão forço a deposição e exílio do sumo-sacerdote legítimo Onias III. Usurpando, através de alianças com Antíoco, do cargo de sumo-sacerdote. Menelau oferece melhores favores à Antíoco, tomando o cargo. Os dois são imagens dos falsos pastores de Israel.

A narrativa do Bom Pastor possui este contexto histórico. Neste sentido, Antíoco IV Epífanes, Jasão, Menelau são descritos, indiretamente, como: ladrão, assaltante (10,1.8.10) e mercenário (10,12.13). O mesmo contexto está sendo atualizado, por Jesus, ao Sinédrio de Jerusalém, através de suas alianças com o império romano [Então, os chefes dos sacerdotes e os fariseus reuniram o Conselho e disseram: Que faremos? Esse homem realiza muitos sinais. Se o deixarmos assim, todos crerão nele e os romanos virão, destruindo o nosso lugar santo e à nação: Jo 11,47-48] e dos abusos que ocorriam no Templo (“Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio”: Jo 2, 13-22).

Jesus assume a identidade do Bom Pastor, subvertendo a ordem do pastoreio, ou seja, não é o pastor que irá tirar proveito do rebanho, mas o rebanho que tirará proveito do pastor. Ele é o modelo do rebanho que busca a ovelha perdida, socorre a ovelha ferida, chama as suas ovelhas e as reúne e, principalmente, dá a sua própria vida em favor das suas ovelhas, porque as conhece e as ama.

Síntese:

Enquanto os grandes de Israel rejeitam a pedra angular (“muitos chefes creram nele, mas, por causa dos fariseus, não o confessavam, para não serem expulsos do Sinédrio, pois amaram mais a glória dos homens do que a de Deus”: Jo 12,42-43), preferindo alianças através de acordo de interesses, Jesus se apresenta como aquele que age em favor dos seus, dando a própria vida. Isto exige uma opção radical por parte do indivíduo entre a proposta do Ressuscitado ou dos “Grandes deste Mundo”:

Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,42-45)

A filiação divina, a partir do ato de crer em Jesus, implica agir como o mestre. Neste sentido, enquanto o Bom Pastor é aquele que cuida do rebanho e dá a sua própria vida em favor dele, o fiel cristão será aquele que adotará a mesma conduta de amor e cuidado do rebanho. Além disso, afirmar que a “salvação” se encontra somente na pessoa de Jesus (cf. At 4,12), significa que ele é o que deu a vida e ressuscitou e, portanto, se torna a esperança do rebanho. Esperança única e verdadeira.

Como Filho Unigênito, Ele se torna presente em meio ao seu povo através do seu Nome, chamando-nos para pastagens verdejantes e para nos tornar filhos amados do Pai, que nos amou por primeiro e deu o seu Filho Amado.

Seguindo a perspectiva pascal (Igreja orante, diaconal e anunciadora) o 4ª Domingo da Páscoa reforça a temática do anúncio como eixo elementar da vida cristã, frisando o objeto central do anúncio cristão, ou seja, a pessoa de Jesus Cristo,

 

3º Domingo da Páscoa Ano B 2021

 

1ª Leitura: At 3,13-15.17-19

A 1ª Leitura é parte da pregação de Pedro aos judeus após a cura de um aleijado no Templo de Jerusalém ocorrida enquanto orava (At 3). Como parte da pregação, Pedro apresenta Jesus como servo do “Deus dos antepassados”. Na pregação, Pedro faz uma acusação direta os judeus por condenarem um justo e inocente e libertarem um assassino (Barrabás), afirmando que, através da escolha realizada, o povo judeu matou o “autor da vida”. Contudo, ele reconhece que o povo procedeu assim por ignorância e os chama ao arrependimento e à conversão. O tema do arrependimento e conversão reaparece na 2ª Leitura, no qual o autor da 1João apresenta a figura de Jesus como o “advogado de defesa” diante do Pai, em favor daqueles que se abrem a Boa Nova.

Durante a pregação, dentro da continuidade lucana, Pedro destaca o tema do “sofrimento do Messias”, que reaparece no Evangelho.

2ª Leitura: 1Jo 2,1-5a

O eixo principal da narrativa da 1ª Leitura é a apresentação de Jesus como o “paráclito”. Típico da teologia joanina, tanto o Espírito como o Filho são descritos como “defensores”. O princípio de acusa/defesa da lei judaica passava pelo testemunho de duas pessoas. A literatura joanina resgata o tema do acusador, que é o Diabo (= Gn 3 + Ap 12,7-10 + Jo 8,44) e do defensor, descritos através das figuras do Espírito Santo (Jo 14,16.26; 15,26; 16,7) e de Jesus (1Jo 2,1). Jesus, no Quarto Evangelho exprime que primariamente o “paráclito” é a sua pessoa, seguido pelo Espírito santo: “rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito” (Jo 14,16), lógico que não consiste em grau de superioridade, mas de primazia, na qualidade do “enviado” do Pai ao mundo. Na tradição judaico rabínico e cristã, a expressão assume o significado de “advogado” ou “intercessor”, sempre com conotação jurídica, mais exatamente, função de advogado de defesa num tribunal.

Enquanto o diabo é apresentado do Livro do Gênesis ao Apocalipse de João como o “acusador”, Jesus e o Espírito Santo assume, diante do Pai (=Justo Juiz) a função de “advogado de defesa”. Esta ideia está bem clara na 1João, onde diretamente Jesus é apresentado como o “defensor” diante do Pai. O que conta a seu favor, no ato de defesa, é a sua paixão e morte (= vítima de expiação: 1Jo 2,2).

A narrativa de 1João está trabalhando a ideia de pecado e mandamentos. No contexto Joanino, guardar os mandamentos é compreender e apreender a pessoa de Jesus (“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”: Jo 14,6), entendendo “caminho” como a Lei (halakah). Portanto, é o cumprimento da Lei de Israel. Tal ideia aparece justamente no último capítulo de Lucas, no qual Jesus afirma categoricamente que “começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito… era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24,27.44), ou seja, as Escrituras estavam em vista de Jesus Cristo e nele possuem a sua realização. Mais exatamente, o conceito de caminho e de lei se equivalem, como se pode compreender no diálogo entre Pilatos e Jesus: “Respondeu Jesus: Tu o dizes eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz, Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade?” (Jo 18,37-38). Neste diálogo entre Pilatos e Jesus, entram em jogo o conceito de verdade para os judeus (Torá=Lei), para os Romanos (Lex Romana) e Jesus (sua pessoa), no qual Jesus expressa em suas palavras e ações, que a verdade (=Lei) tem sua razão de ser na sua pessoa.

Evangelho: Lc 24,35-48

Jesus, na narrativa lucana sobre suas aparições após a ressurreição, descreve algumas caraterísticas próprias. O Evangelho do 3º Domingo da Páscoa, apresenta a continuidade da narrativa dos discípulos de Emaús (missa vespertina do Domingo de Páscoa). Neste caso, narra o retorno e o reencontro dos discípulos com os Apóstolos, contando-lhes o que ocorreu enquanto faziam o caminho de volta para as suas casas. Segue a presença de Jesus com os seus e a típica saudação pascal: “a paz esteja convosco”.

Curiosamente, os discípulos estavam caminhando com Jesus e não sabiam que era ele, o reconhecem ao partir do pão, quando Jesus se faz ausente. Agora estão contando aos Apóstolos tudo que ocorreu, quando Jesus se faz presente no meio deles e o grupo pensa tratar-se de um fantasma. O gesto de Jesus é apresentar as marcas da paixão como sinal visível da sua corporeidade ressuscitado, seguindo com o comer um pedaço de peixe e terminando com ensinamentos.

O tema lucano da “presença-ausente e ausente-presença” que acompanhava a narrativa dos discípulos de Emaús reaparece. Jesus se coloca no meio deles, mas estes não o reconhecem, é necessário que Jesus reafirme a sua presença.

O ato de comer de Jesus (que se torna uma das Quaestiones Disputatae) possui a função de explicitar a realidade do ressuscitado. Não se trata de um fantasma ou um corpo angélico, mas exatamente do “corpo glorificado”. O capítulo 12 do Livro de Tobias narra o momento no qual Rafael, até então usando o nome de Azaris se revela, anunciando ser um ano enviado por Deus. No diálogo, ele afirma duas coisas: a) ser um anjo (Tb 12,11-150 e b) enquanto anjo, ele não come (Tb 12,19). Além disso, anuncia: “Não tenhais medo, a paz esteja convosco!” (Tb 12,17), ou seja, a expressão utilizada por Jesus após a Ressurreição. Na narrativa de Tobias, diferente da lucana, o anjo Rafael afirma não comer porque possui natureza angélica, enquanto Jesus pede algo para comer e come na frente deles. Neste sentido, se estabelece a distinção entre corpo angélico e corpo glorificado.

Outra questão que aparece na narrativa lucana é o anúncio do “sofrimento do Messias” (At 3,18; Lc 24,26.46) segundo as escrituras. Contudo, as Escrituras não fazem absolutamente nenhuma menção ao sofrimento do Messias futuro. O tema da ressurreição tem início no século II a.C. a partir da Profecia de Daniel e Livro do Sonhos (Enoc Etíope 91-105). Para o autor do Livro dos Sonhos, a ressurreição diz respeito apenas aos justos da última geração, enquanto, para Daniel ela abrange todos os justos, de todas as épocas.

Quanto ao tema do sofrimento (Lc 24,26.46) a compreensão se encontra não naquilo que os profetas anunciam, mas sobre a sorte dos profetas, ou seja, todos aqueles que foram fiéis a Deus foram perseguidos, desprezados e, muitos, assassinados. Sendo Jesus o modelo de fidelidade ao Pai, ele irá, também, sofrer a sorte dos que são fiéis. Portanto, sendo o Messias, o homem da fidelidade por excelência à Deus, ele sofrerá a perseguição.

A narrativa constrói a tipologia messiânica, que servirá de modelo para os discípulos, enquanto testemunhas fidedignas.

Síntese

O foco do 3º Domingo da Páscoa se encontra no tema do Anúncio, no qual os discípulos são “testemunhas do Ressuscitado (Evangelho) e, portanto, anunciam com vigor a Boa Nova, convidando ao arrependimento e à conversão (1ª Leitura), pois o Ressuscitado é digno de fé, por ter sofrido, morrido e ressuscitado em favor de todos e, por sua morte e ressurreição, assume o papel de Paráclito junto ao Pai em favor daqueles que buscam a verdade. E todos aqueles que o buscam de coração sincero se lhes abre a possibilidade da vida nova, vivendo segundo os critérios evangélicos.

2º Domingo da Páscoa

1ª Leitura – At 4,32-35

A 1ª Leitura propõe o modelo ideal de comunidade cristã, no qual se destaca:

a) Princípio de unidade: a comunidade se reúne em torno dos Apóstolos que testemunham a sua unidade na pessoa de Jesus Cristo. Encontra-se aqui, o sinal que acompanhará a Igreja, ou seja, o princípio de colegialidade episcopal e colegialidade presbiteral que se torna o modelo de referência para a comunidade de batizados e para o mundo.

b) Comunidade evangelizada e evangelizadora: a comunidade de batizados é por excelência evangelizadora e missionária. Aquele que foi evangelizado se torna evangelizador e, naturalmente, missionário. Esta é uma das características naturais de todo cristão batizado. Nota-se na leitura que, à frente da missão, estão os Apóstolos como “guardiões” da sã doutrina, ou seja, eles são as referências ao serem, eles mesmos, testemunhas do Cristo Ressuscitado.

c) Comunidade solidária e servidora: a dimensão diaconal se torna natural na vida da comunidade cristã. Tendo Jesus Cristo como o “Diaconal do Pai”, aqueles que os seguem se tornam servidores da humanidade. Disto se estabelece os princípios da moral cristã e da Doutrina Social da Igreja. De fato, muitos dos primeiros cristãos foram martirizados, não somente porque professavam a fé em Jesus Cristo, mas pelo modo de agir nos diversos seguimentos da sociedade que acaba se chocando com situações contrárias expondo, naturalmente, injustiças, corrupções, outros.

Salmo – Sl 117(118),2-4.16ab-18.22-24

O Salmo 117(118) continua sendo proclamado, cujo tema principal é o “grande dia”: “este é o dia que o Senhor fez para nós” (Sl 118,24). Na realidade a proclamação anuncia que não se trata de um dia cronológico, mas de um tempo favorável, segundo as bases da profecia de Zacarias: “Haverá um único dia – Iahweh o conhece -, sem dia e sem noite” (Zc 14,7). A liturgia cristã vê na Ressurreição de Jesus Cristo a realização desta profecia, no qual se estabelece o tempo da salvação. Tudo é, agora, perpassado por Cristo. O Cristo Ressuscitado se torna o “pano de fundo” da história.

2ª Leitura – 1Jo 5,1-6

A 2a Leitura durante o Tempo Pacal, ano B, é sempre da Primeira Carta de João. O autor enfrenta uma situação particular, ou seja, um grupo rompeu com a comunidade e se proclamavam os legítimos detentores da verdade. Diante da situação pastoral, o autor deseja reunificar a comunidade através de duas técnicas:

a) sensibilidade de vocabulário. O autor utiliza uma linguagem amigável, diplomática, com palavras suaves, tentando se aproximar e não condenar o rechaçar o outro, com animosidades;

b) Apresenta claramente os equívocos e suas consequências. Deste modo o autor, mesmo usando de toda diplomacia, é capaz de demonstrar onde está o erro e quais são as consequências da persistência no erro.

Os dissidentes se apoiam numa questão doutrinal, ou seja, a questão da humanidade e da divindade de Jesus Cristo, mais exatamente, eles praticamente negam a humanidade de Jesus Cristo. O autor da Carta irá corrigir este erro doutrinal. Contudo, não sabemos se a tentativa do autor em reunificar a comunidade obteve êxito, mas ele deixa um legado de como enfrentar situações pastorais adversas.

A 2a Leitura de hoje apresenta a questão doutrinal que levou um grupo a romper com a comunidade, formando uma nova comunidade, o problema é justamente a questão doutrinal sobre a relação humanidade-divindade de Jesus Cristo. Assim, o autor afirma que “Jesus” é o Filho de Deus. Mais exatamente, Jesus Cristo “veio” pela água e pelo sangue, que significa: Jesus Cristo é verdadeiramente humano (=sangue) e verdadeiramente Deus (=água). Portanto, Jesus Cristo é humano e divino, sem separação e sem confusão, como proclamará a Igreja posteriormente. Neste sentido, o verdadeiro cristão é aquele que professa que Jesus Cristo é o Filho de Deus que se encarnou.

Evangelho – Jo 20,19-31

A missa vespertina do Domingo de Páscoa narrava a história dos discípulos de Emaús. Na liturgia do 2o Domingo da Páscoa é retomado o tema do dia da Ressurreição, agora com foco do encontro do Senhor Ressuscitado com os Apóstolos reunidos.

A narrativa de João se constrói relacionando o Dia da Ressurreição e a oitava da Páscoa. Sublinha-se que os discípulos estão reunidos nestes dois dias. Na primeira parte da narrativa, o destaque está na ação de Jesus Cristo, ou seja, soprar sobre os Apóstolos infundindo o Espírito Santo e, nesta ação, conferindo a eles um dom particular, ou seja, o de perdoar os pecados. O perdão dos pecados é um atributo exclusivo do Pai, que será exercido pelo Filho e, agora, transmitido aos Apóstolos. Neste sentido, a remissão dos pecados passa, a partir deste momento pelo viés sacramental. Portanto, no cristianismo não se admite perdão de pecado “eu e Deus”, pois, seguindo a ótica da 1João, quem não crê no que é visível, não crê no que é invisível. Em todo caso, a narrativa fornece os fundamentos para o sacramento da penitência. Outra característica importante desta primeira parte da narrativa é a efusão do Espírito Santo. A primeira ocorre durante a crucificação, quando ao ser transpassado jorrou sangue e água. A segunda efusão do Espírito Santo é para conferir um dom particular por vontade divina.

A segunda parte da narrativa ocorre oito dias após o dia da Ressurreição. Novamente os discípulos estão reunidos. Este é outro elemento importante, a comunidade que se reúne habitualmente “no primeiro dia de semana” que, posteriormente, receberá o nome de “Dia do Senhor” ou “domingo”. Nesta parte da narrativa o foco recai sobre o encontro de Jesus com Tomé, ausente na semana anterior. O encontro com o Ressuscitado leva a maior Proclamação de Fé: “meu Senhor e meu Deus”. Na realidade Tomé está resgatando a tradição do Nome de Deus e aplicando à pessoa de Jesus Cristo:

a) “meu Senhor” = meu Iahweh/Adonai

b) “meu Deus” = meu Elohim

Neste sentido Tomé afirma a divindade de Jesus Cristo, segundo as tradições de Israel.

No Quarto Evangelho, diferente dos Sinóticos, a fé não se dá apenas pela escuta, mas, também, pela visão. Assim, os Apóstolos, discípulos e discípulas são aqueles que “viram” e “creram” no Senhor. A novidade da narrativa é que, a partir de agora, aqueles que foram “testemunhas oculares” se tornarão anunciadores. Através do qual, palavras e exemplos, levarão outros a fé.

Ressalta-se a dinâmica do reunir-se no primeiro dia semana, como espaço litúrgico por excelência da vida cristã. Na 1a Leitura o foco estava nas dimensões missionária e diaconal. O Evangelho aproxima a dimensão orante da vida cristã.

Outro elemento que relaciona a Liturgia Vespertina do Domingo de Páscoa com o 2o Domingo da Páscoa é a presença-ausente e a ausente-presença do Ressuscitado no meio da comunidade cristã. De fato, na narrativa dos Discípulos de Emaús, Jesus caminha com os Discípulos sem ser reconhecido, e quando parte o pão é reconhecido e se torna ausente. O Evangelho de hoje desenvolve esta ideia também. Durante a semana os discípulos estão reunidos, mas não veem o Senhor, mas Ele está com os seus e tem ciência da conversa que tiveram enquanto estavam reunidos. Além disso, o tema evoca as ideias de comunidade reunida com o Senhor presente no meio dela e a presença eucarística do Senhor na sua Igreja.

 

Tempo Pascal

Pe. Gilvan Leite de Araujo

 

Por tempo pascal se compreende o período que vai desde o domingo da Ressurreição de Jesus Cristo até o domingo de Pentecostes. Portanto, compreende um período de 50 (cinquenta) dias. Este período era chamado por São Basílio de “sete semanas do Santo Pentecostes” ou “Grande Domingo” por Santo Atanásio ou, ainda, “o gozoso tempo” por Tertuliano. Nisto se subentende que Páscoa não se trata de um único dia, mas um grande dia que se prolonga por um tempo simbólico, ou seja, sete semanas ou cinquenta dias.

Contexto Histórico

No calendário judaico do AT, cinquenta dias após a Páscoa, é celebrada a Festa das Semanas (Shavuot=Pentecostes: Ex 19,1), em origem, uma festa agrícola.

O Tempo Pascal compreende, portanto, cinquenta dias que abarca a Ressurreição (início), a Ascensão do Senhor (expectativa) e Pentecostes (conclusão). No NT os cinquenta dias assume a seguinte perspectiva: a quadragésima, que compreende o Domingo da Ressurreição até o Domingo da Ascensão, que se prolonga até a quinquagésima, com o Domingo de Pentecostes. O sentido primário da quadragésima são os quarenta dias que o Senhor Ressuscitado permaneceu com os Apóstolos, discípulos e discípulas até a Ascensão aos céus, e quinquagésima, justamente a vinda do Espírito Santo. Deste modo, os Santos Padres sublinham o paralelismo entre a Lei e o Espírito, Antiga e Nova Aliança.

O início do Tempo Pascal se dá com o Domingo da Pascoa com a oitava da Páscoa. A concepção primária é de que a “semana da Páscoa” (=oitava) compreende um único dia, de fato, durante a semana percorre o refrão “este é o dia que o Senhor fez para nós” (Sl 118,24), no lugar do Responsório da Liturgia da Horas.

Liturgia

Durante o Tempo Pascal, a Palavra de Deus apresente uma seleção de leituras do livro dos Atos dos Apóstolos, do Evangelho de João e outras leituras com foco sobre o tema batismal, com referências à vida nova com projeção à vida escatológica (1Pedro; 1João e Apocalipse de João).

A escolha do livro do Atos do Apóstolos e do Evangelho de João possui, ainda, uma perspectiva sacramental, portanto, a vida nova pressupõe um caminho sacramental, que será desenvolvido durante o período.

Algumas características teológicas que acompanham o período Pascal

A liturgia dominical irá desenvolver o esquema padrão da vida cristã a partir da tríade:

  • vida orante/litúrgica;
  • vida diaconal e
  • vida missionária,

que são características próprias da atuação batismal. Esta tríade é iluminada pelas virtudes teologais: fé, esperança e caridade que norteiam a vida batismal. Assim, durante o Tempo Pascal a Liturgia Dominical irá desenvolver estas perspectivas, domingo a domingo.

Lecionário Dominical

Até o 3º Domingo da Páscoa, as leituras do evangelho relatam as aparições de Jesus Cristo Ressuscitado. A leitura do Bom-Pastor está alocada no 4º Domingo. Nos Domingos seguintes se lê narrativas do discurso e da oração do Senhor após a última ceia. No ciclo trienal, a 1ª leitura é sempre textos do livro do Atos dos Apóstolos, de modo paralelo e progressivo. A 2ª Leitura varia conforme o Ano Litúrgico: no Ano A se utiliza a 1Pedro, Ano B, a 1João, e no Ano C o Apocalipse de João. Tais narrativas estão de acordo com o espírito de alegria e fé, próprio do tempo (OLM 100).

Sábado Santo: Vigília Pascal

A Proclamação da Palavra de Deus acontece a Luz do Cristo Ressuscitado, centro do Cosmo e da História. A Leituras atuais possuem um tríplice caráter simbólico: a) são Leituras progressivas da História da salvação; b) possuem um caráter cristológico e c) estão em estreita relação com o batismo. A leitura segue o salmo ou cântico, a Oração da Igreja expressa o sentido tipológico da leitura.

Antigo Testamento:

1ª Leitura: Gn 1,1-2,2: Criação

Sl 104: As maravilhas da Criação

Oração: memória da criação e da recriação em Cristo

2ª Leitura: Gn 22,1-18: Sacrifício de Abraão

Sl 16: referências messiânicas a Cristo Ressuscitado

Oração: Da fé de Abraão à fé dos batizados em Cristo

3ª Leitura: Ex 14,15-15,1: Passagem do Mar, Páscoa de Israel

Cântico: Ex 15: Cântico de Moisés

Oração: Passagem do Mar figura do batismo cristão

4ª Leitura: Is 54,5-14: Fidelidade de Deus Criador e Redentor

Sl 30: Deus misericordioso e salvador

Oração: da paternidade de Deus à esperança da salvação

5ª Leitura: Is 55,1-11: vocação e uma Aliança Eterna

Cântico: Is 12,2.4.6: Deus é nossa Salvação!

Oração: Os Profetas anunciaram a salvação no Espírito

6ª Leitura: Br 3,9-15.32-4,4: No esplendor da Luz Sapiencial

Sl 19: Bondade e beleza da Lei do Senhor

Oração: A Igreja cresça com novos filhos

7ª Leitura: Ez 36,16-17a.18-28: Uma aliança Nova, um coração novo

Sl 42: Sede de Água Viva, do Deus Vivente

Oração: Hoje se cumpre estas promessas

Novo Testamento

8ª Leitura ou Epístola: Rm 6,3-11: Batismo, mistério pascal

Sl 118: A Vitória Pascal de Cristo. Este é o dia que o Senhor fez para nós

Evangelho: Ano A: Mt 28,1-10: Ressurreição

Domingo de Páscoa

A liturgia da palavra se estrutura partindo do Atos do Apóstolos, substituindo o Antigo Testamento, segundo o costume da Igreja Primitiva.

1ª Leitura: At 10,34a.37-43: os Apóstolos, Testemunhas da Ressureição

Sl 118: Este é o dia que o Senhor fez para nós

2ª Leitura:

Cl 3,1-4: Ressuscitar com Cristo

1Cor 5,6-8: Cristo nossa Páscoa foi Imolado

Evangelho:

Missa matutina: Jo 20,1-9: Ressurreição

Missa vespertina: Lc 24,13-35: Discípulos de Emaús

 

A missa matutina do Domingo de Páscoa apresenta o tema do testemunho da Ressurreição de Jesus Cristo. O Discípulo Amado, enquanto sacerdote, mesmo temendo (um levita não pode tocar num cadáver), mas tendo a afirmação de Pedro entra no túmulo, sinal de que este se encontra vazio. A 1ª Leitura afirma os Apóstolos como “Testemunhas” da Ressurreição a partir da pregação de Pedro cujo conteúdo se expressa na 2ª Leitura que converge para a ressurreição de todos que aderem Jesus Cristo pela fé.

A missa vespertina possui o foco sobre o tema do 1º Dia da Semana, como indicativo da identidade cristã, ou seja, reunir-se no 1º Dia da Semana que passa a ser compreendido como “Dia do Senhor” (=Domingo) em virtude da Ressurreição de Cristo.

 

Semana Santa – Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

O Domingo de Ramos

Na celebração do Domingo de Ramos convergem a tradição jerosoluminatana da procissão de ramos, proveniente da Festa das Tendas (Sucot), que se torna o pano de fundo para a Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém. Une-se a celebração a tradição romana que orienta os fiéis com a liturgia da palavra centrada no tema da Paixão do Senhor.

Leva-se em conta que o complexo festivo da Festa das Tendas será destrinchado nas celebrações da Semana Santa. Disto advém o costume da procissão de Ramos (domingo) junto com a prisão de Jesus no Monte das Oliveiras (Sexta-Feira Santa) que possuem a função de identificar que Jesus é de fato o Messias, segundo a profecia de Zc 9 e 14. O Salmo 118 serve de moldura para Semana Santa (Domingo de Ramos; Sábado-Santo; Domingo de Páscoa). Proveniente da Festa das Tendas será a Benção do Fogo e a Benção da Água, durante a Liturgia do Sábado Santo. Á Festa Judaica das Tendas é importante no complexo da Semana Santa pelos seguintes motivos: a) é a festa da expectativa messiânica de Israel; b) possui contexto escatológico; c) é a festa da eternidade; e, acima de tudo, d) é a Festa de Deus por excelência, entre outras características.

No Domingo de Ramos, a primeira parte consta do Evangelho que narra a Entrada de Jesus em Jerusalém (Mc 11,1-10), seguido da procissão em honra de Cristo Rei (cf. Sl 118).

Características do Domingo de Ramos

Procissão Judaica de Ramos: Momento da manifestação do rei-messias (Zc 14)

Monte da Oliveiras: Lugar da Manifestação do rei-messias (Zc 14,4)

Jumentinho: Indicação da dignidade real do rei-messias (1Rs 1,28-40; Zc 9,9)

Qualidades do rei-messias: justo, vitorioso, humilde e guerreiro (Zc 9,9-10)

A segunda parte narra-se o tema do Servo Sofredor na Primeira Leitura (Is 50,4-7), com o Salmo do Abandono na Cruz (Sl 21), a segunda Leitura é o Hino Cristológico de Fl 2,6-11 e a narrativa da Paixão (Mc 14,1-15,47). O Hino de Filipenses exalta o comandante de tropas que doa a sua vida para salvar o seu povo. Tendo “caído em batalha” ele recebe as honras e dignidades do “herói combatente”. Tal “vitória em batalha” é descrita na narrativa da paixão, que o apresenta a partir da imagem do Servo Sofredor de Isaías que portará consigo a vitória.

Segunda, Terça e Quarta-feira Santa

Mantem-se o caráter Cristológicos da quaresma, seguindo a leitura das semanas anteriores. Leituras proféticas de Isaías e evangélicas de João, com exceção da Quarta, quando se narra a Traição de Judas, segundo Mateus (Mt 26,14-25).

Missa Crismal – Quinta-Feira Santa

Habitualmente celebrada na Quinta-Feira, pela manhã, possui um caráter sacerdotal. Lê-se Is 61,11-3ab.6a.8b-9, sobre o Messias consagrado pelo Espírito; Ap 1,5-7 sobre a realeza de sacerdotes por Jesus Cristo A e W; Lc 4,16-21 sobre a missão de Jesus, ungido pelo Espírito, anunciando na Sinagoga de Nazaré.

Tríduo-Pascal

Quinta-Feira Santa: Missa do Lava-Pés

A Primeira Leitura (Ex 12,1-8.11-14) recorda o ambiente pascal no qual se desenvolverá a Ceia de Jesus e o caráter pascal de sua imolação. A segunda (1Cor 11,23-26) transmite o ensinamento Apostólico a respeito da Instituição da Eucaristia e o Evangelho de João introduz o tema da Caridade (Jo 13,1-15).

Sexta-Feira Santa: Celebração da Paixão

A estrutura atual, fruto de uma síntese de diferentes tradições pode ser justificada deste modo:

Paixão Proclamada: Liturgia da Palavra

Paixão Invocada: Orações Solenes

Paixão Venerada: Veneração da Cruz

Paixão Comunicada: Comunhão Eucarística

Após uma breve e austera procissão penitencial é proclamada a Paixão nesta perspectiva:

1ª Leitura: Is 52,13-53,12 – A Profecia do Servo de Javé

2ª Leitura: Hb 4,14-16;5,7-9 – Obediência do Filho

Evangelho: Jo 18,1-19,42 – Paixão de Jesus

Na Primeira Leitura lê-se a proclamação profética do Servo do Deutero-Isaías, realizada na Paixão de Jesus. Na Segunda Leitura a Carta aos Hebreus aborda, em perspectiva sacerdotal a obediência do Filho. João narra “a liturgia” da Cruz, onde Jesus Imolado aparece em sua exaltação sobre a Cruz, o Cordeiro Imolado e Rei.

5º Domingo da Quaresma Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

Jr 31,31-34

A teologia da Profecia de Jeremias e de Isaías possui algumas características próprias em relação aos profetas anteriores a eles, ou seja, até o momento os profetas tinham sido enviados para tentar reajustar ou concertar as coisas. Contudo, tais iniciativas não obtiveram resultados. Assim, Jeremias e Isaias surgem como os profetas que descrevem o limite da “paciência divina”. Deus não vai tentar mais “concertar” as coisas, agora é o tempo de deixar que tudo seja destruído para dar início a um novo recomeço, como se pode observar na vocação de Jeremias “Eu te constituo, neste dia, sobre as nações e sobre os reinos, para arrancar e para destruir, para exterminar e para demolir, para construir e para plantar” (Jr 1,10). O mesmo ocorre na narrativa da vocação de Isaías “Vai e dize a este povo: Podeis ouvir certamente, mas não haveis de entender; podeis ver certamente, mas não o haveis de compreender. Embota o coração deste povo, torna pesados os seus ouvidos, tapa-lhe os olhos, para que não veja com os olhos, e não ouça com os ouvidos, e não suceda que o seu coração venha a compreender, que ele se converta e consiga cura” (Is 6,9-10). Portanto, a mensagem de Isaías e de Jeremias é de “destruição” e de “novo recomeço”. Nesta perspectiva se insere o tema da “Nova Aliança”.

Tendo em vista que a primeira Aliança era firmada através de um “contrato” (=Lei) isto implicava num acordo entre duas partes (Deus e Israel), no qual Deus concedia a Terra Prometida e Israel se oferecia, selando “materialmente” o acordo entre partes. Contudo, tal “posse” era condicionada. A não observância da Lei implicava em sanção, sobre Deus, seria perder o direito de posse do povo de Israel, e sobre o Povo de Israel, o direito de posse da Terra.

A trajetória histórica do Povo de Israel, no entanto, demonstra sequencias de infidelidades através de injustiças sociais (cf. 1 e 2Samuel; 1 e 2Reis; 1 e 2Crônicas; + profetas pré-exílicos). Deus procura remediar as coisas, mas sem sucesso. Finalmente, Deus decide romper com uma situação “viciada” e recomeçar tudo. A queda de Israel em 722 e a queda de Judá (598/586), com exílio da Babilônia, são consequências da sanção aplicada.

Mesmo tendo sido imposto a sanção da Lei, Deus não abandonará o seu Povo Eleito. Mas proporá uma Nova Aliança. Tal promessa se realizará a partir e por meio de Jesus Cristo, o Filho Amado do Pai.

Outra característica importante será a perspectiva teológica que se desenvolve a partir de Jeremias e Isaías. A tradição sapiencial descreve o sofrimento por meio do castigo divino, como se poderá observar, principalmente, através do livro de Jó. Com jeremias e Isaías a conceção mudará radicalmente. O sofrimento deixa de ser visto como um castigo imputado por Deus, e passa a ser concebido como um espaço para a ação divina. Deste modo, o sofrimento humano pode ser um lugar para a redenção, um lugar para a graça divina. Tal perspectiva será fundamental para a compreensão do mistério da paixão e morte de Jesus Cristo. De fato, a cruz deixa de ser concebida como maldição e, a partir da pessoa de Jesus Cristo, passa a ser concebida como lugar de redenção. Tal perspectiva teológica é um legado de Jeremias e Isaías e será o eixo para a compreensão do sofrimento dentro do cristianismo, o sofrimento pode se tornar um espaço para a manifestação da graça.

Hb 5,7-9

A narrativa da Carta aos Hebreus apresenta o tema da obediência do Filho ao Pai por meio dos sofrimentos terrenos. A narrativa descreve o modo como Jesus enfrenta a experiência do sofrimento, transformando-o em espaço para a ação do Pai. Assim a expressão “na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,9) o autor está resgatando o tema da paixão e morte de Jesus, como ato e como modelo da experiência da redenção. Assim a paixão e morte, dentro da perspectiva de Jeremias e Isaías, se configuram como lugar para a ação do Pai e do Filho que vem para salvar: “não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” (Jo 12,47)

Jo 12,20-33

A partir do capítulo 12 de João tem início o tema da “gloria” de Jesus Cristo. Tal glória se manifesta na sua “hora”, ou seja, durante a paixão e morte. A narrativa começa com os gregos querendo “ver” Jesus. Tal interesse possui o significado de conhecimento. Além disso, o foco sobre os gregos possui um sentido universalista. Dentro do tema da Nova Aliança entra a perspectiva universal, ela abarca, agora, não apenas um povo em particular, mas “homens e mulheres de todas as raças, línguas e nações…”.

Na sequência, Jesus descreve o tema do grão de trigo, no qual só pode dar frutos quando “cai na terra” (=morre), ilustrando como o princípio de doar a vida se torna elemento basilar do seguimento, por meio do qual o nome do Pai é glorificado.

O ato de doar a vida resulta na queda de Satanás, o qual promove o individualismo a qualquer custo, mesmo a custo do sangue inocente. Satanás seduz oferecendo falsos valores. Pelo contrário, a cruz seduzirá oferecendo o verdadeiro valor, a vida humana. Aqui entra o choque entre o individualismo e o bem comum. Caso o centro da pessoa for ele próprio, ele se tornará deus de si mesmo, o que acarretará a sua queda. Mas, se o centro da pessoa se deslocar para o outro, ele passa a ser gerador de vida. Portanto, a cruz se torna referência de salvação, porque ela diz respeito a salvação de todos. Neste sentido, na cruz, a Glória de Deus se manifesta através do Filho Amado. O Pai que doa o Filho e o Filho que se doa.

Síntese:

O tema da Nova Aliança anunciada por Jeremias será estabelecido por Jesus Cristo Crucificado e Ressuscitado. Enquanto a antiga Aliança era restrita a um povo particular, a nova se abre para todos os “homens e mulheres de boa vontade”. Enquanto a Antiga Aliança se alargava (= 10 mandamentos), a Nova Lei se restringe a dois mandamentos: “amar a Deus e amar o próximo”. Desse modo, a paixão e morte de cruz de Jesus expressa este conceito de amor doado e estabelece a Nova Aliança, que passa a vigorar a partir do princípio do amor, que se configura como Lei Régia.

Além disso, o tema da paixão e morte de cruz, dentro da perspectiva de Jeremias e Isaías, assume a compreensão de redenção, ou seja, como espaço no qual Deus pode agir em favor da humanidade e não mais como castigo/condenação. Assim, o sofrimento humano passa a se configurar como espaço no qual Deus pode agir em nosso favor, torna-se uma possibilidade para Deus.

 

 

4º Domingo da Quaresma Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

2Cr 36,14-16.19-23

Os Livros das Crônicas surgem como um tipo de Diário Oficial do Estado. Neste sentido, a obra desenvolve as atividades da monarquia sob a ótica divina, a qual está subordinada em virtude da Aliança e da Lei. As obras estão em paralelo com os livros dos Reis, porém, as narrativas são ampliadas em relação a estes. O teor dos livros das Crônicas e de Reis é compreender o que levou ao colapso do Reino do Norte (Israel) em 722 e do Reino do Sul (Judá) em 598/586. Particularmente, o segundo livro das Crônicas, em paralelo com as Profecias de Isaías e de Jeremias, narra o fim do exílio, a partir do declínio da Babilônia, com a ascensão do império Persa.

A narrativa deste domingo é o último capítulo do segundo livro das Crônicas e narra a queda e ressurgimento do reino do sul (Judá).

O motivo dado para a queda de Judá é a “multiplicação das infidelidades” e “não escuta dos mensageiros enviados por Deus” (=profetas). Como resultado, Deus decide não mais concertar ou remediar as coisas, mas deixar que tudo se quebre para reconstruir novamente. Para que isto ocorra, Nabucodonosor será descrito como “instrumento de castigo” e Ciro como “instrumento de Salvação” nas mãos de Deus.

Duas características:

a) Concepção Jurídica: A Aliança entre Deus e Israel foi sancionada através de um contrato entre as partes, cuja quebra do acordo resultaria em sanção contra a parte transgressora. Neste sentido, os Livros das Crônicas e Reis descrevem as transgressões de Israel/Judá a partir das suas autoridades (=reis), a fim de compreender o motivo da queda do Norte (722 a.C.) e do Sul (598/586). Nesta linha, o retorno e permanência na Terra Prometida é concebido a partir da estrita observância da Lei (=embates entre os fariseus e mestres da Lei com Jesus)

b) Penitencial: O exílio da Babilônia visto como um processo penitencial em vista da conversão de Judá (=Livro das Lamentações). Nesta linha, o retorno é descrito como um “novo Êxodo”, no qual se evidencia nova aliança (cf. Is 40-55).

A narrativa de 2Crônicas descreve um processo: Jerusalém-Exílio-Jerusalém. Tal processo que pode ser concebido na linha penitencial através do tema do “repouso sabático”, no qual a Terra Prometida foi “purificada” das suas injustiças.

Sl 136

O Salmo 136 resgata a memória. O processo penitencial, como caminho de conversão implica em avaliar, superar os erros e firmar os passos no essencial. Nesta perspectiva, Jerusalém surge como modelo ideal e referência para o processo de transformação.

Ef 2,4-10

A narrativa da 2ª Leitura evidencia, a partir da tipologia batismal, a transição da morte para a vida a partir da salvação operada em Cristo através da sua morte e ressurreição.

No paralelo com a 1ª Leitura, a passagem do exílio para a Terra Prometida é descrita a partir da ótica penitencial. Além disso, a possibilidade de renascer para uma vida nova não se dá pela capacidade/mérito humano, mas pela livre gratuidade divina em sua misericórdia, no qual é cobrado apenas “a união com Cristo” (Ef 2,5-6). Portanto, uma salvação operada mediante a fé, o que nos predispõe para “as boas obras”, não como artífices, mas como instrumentos do sumo-artífice (Ef 2,10).

Jo 3,14-21

O diálogo entre Jesus e Nicodemos se desenvolve a partir do renascimento, no qual Jesus indica o “nascer de novo/do alto”. Tal “nascer de novo/do alto” apresentado como “nascer da água e do Espírito” (Jo 3,3-5) como um processo da fé no Filho do Homem (= Jesus Cristo). Mas, qual Cristo se deposita a fé? Jesus responde que é naquele que “será elevado” como o foi a serpente do deserto. Portanto, a fé no Cristo Crucificado que será o Ressuscitado. O crer no crucificado/ressuscitado se torna condição para a vida eterna, pois o crucificado manifesta a plenitude do amor divino: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Único” (Jo 3,16). Além disso, a fé exige assumir uma conduta moral e um compromisso orante, diaconal e evangelizador. Tais princípios não esvaziam a fé em meras palavras, mas a confirma como empenho.

Sendo o Crucificado a expressão suprema do pleno amor misericordioso de Deus, não existe outro caminho para a vida eterna que não passe pelo Cristo e nele se modele. Aqui surge a distinção entre os “filhos da luz” e os “filhos das trevas”. Mas quem são os “filhos das trevas” no Quarto Evangelho? Jesus responde que são os homicidas e mentirosos (cf. Jo 8,44-47), o que ocorre quando as lideranças em Israel condenam o inocente (=Jesus) à morte mentindo ao falsear a Lei (cf. Jo 19). Curiosamente, estas lideranças, no Quarto Evangelho, conhecem Jesus, mas não o acolhem nem o professam “muitos chefes creram nele, mas, por causa dos fariseus, não o confessavam, para não serem expulsos do Sinédrio, pois amaram mais a glória dos homens do que a de Deus” (Jo 12,42-43).

Síntese

Na antiga Aliança Deus estabelecera um acordo entre Ele e Israel. Assim, a pertença ao povo da Aliança se dava através do processo de genealogia e na estrita observância da Lei. No pós-exílio ser judeu significava observar o sábado, a Lei e a circuncisão, mesmo permanecendo o critério genealógico como condição primária. A Nova Aliança estabelece o critério da Fé no Crucificado que é o Ressuscitado. Leva-se em conta que o Ato de Fé não é apenas uma afirmação, mas um exercício contínuo através da vida na graça.

O processo batismal que, através da fé e renascimento, implica na renúncia do pecado/morte para a graça/vida (cf. Rm 6).

O 5º Domingo da Quaresma tratará do tema da Nova Aliança. Portanto, o 4º Domingo está justamente trabalhando a catequese sobre a transição da Lei Mosaica para a Nova Lei em Cristo. Assim, fica estabelecido, na catequese, a transição:

 

Moisés

Jesus

Terra do Egito Pecado
Travessia do Mar Batismo
Aliança do Sinai/Deserto Vida na Graça
Travessia do Jordão Passagem
Terra Prometida Vida Eterna

 

Os paralelos com a catequese deste domingo se configuram do seguinte modo:

Moisés

Ciro

Jesus

Terra do Egito Babilônia Pecado
Travessia do Mar Édito de retorno Batismo
Aliança do Sinai/Deserto Ano Sabático Vida na Graça
Travessia do Jordão Retorno/Caminho Passagem
Terra Prometida Templo de Jerusalém Vida Eterna

 

No conjunto, o modelo do Êxodo se torna referencial. Na Literatura Profética, o Exílio da Babilônia é descrito como um “anti-êxodo”, enquanto o retorno da Babilônia para Jerusalém é descrito na linha de um “Novo Êxodo”. Ampliando para uma leitura penitencial, tem-se a concepção da experiência do sofrimento (Egito-Babilônia-Terra do Pecado) como possibilidade da graça de Deus, assim como a paixão e cruz de Cristo, que poderia ser visto como castigo, é concebido como possibilidade para a ação de Deus (=Ressurreição), a transformação da desgraça como espaço para a graça: Terra do Egito para a Terra Prometida // Babilônia para Jerusalém = transformação da desgraça em espaço para a graça de Deus. Como este movimento pode ser vislumbrado nos tempos atuais?

  

3º DOMINGO DA QUARESMA 2021

ALIANÇA MOSAICA – ALIANÇA BATISMAL
Pe. Gilvan Leite de Araujo

Ex 20,1-17

O 3º Domingo da Quaresma continua desenvolvendo o tema da Aliança e da Tipologia Batismal. Assim, tendo refletido a Aliança com Noé (1º domingo) e a Aliança com Abraão (2º Domingo), o 3º Domingo desenvolve a teologia da Aliança “maior”, que é a Aliança com Moisés. Esta Aliança se destaca das demais pelo fato de ser estabelecida através de um contrato entre parte (Deus//Israel).

Portanto, com Moisés, Deus estabelece uma Aliança (Ex 19) e a sanciona através do contrato entre as partes (Ex 24). Sendo firmada através de contrato, tal Aliança implica em direitos, deveres e sanções. Pelo contrato (=Lei) Israel se torna um povo particular. As partes se obrigam em oferecer algo que “abone” a Aliança sancionada pela Lei, neste sentido, Deus oferece a Terra Prometida e Israel a si próprio. Trata-se de direito condicionada. A não observância das cláusulas da Lei implica na perda do direito, ou seja, caso Deus quebre uma das cláusulas ele perde o direito de “posse” de Israel. Caso Israel quebre uma das cláusulas, ele perde o direito de posse da Terra Prometida (=exílio da Babilônia [cf. Livro das Lamentações; Jeremias e Is 1-39; 1 e 2Reis]).

A 1ª Leitura apresenta justamente a segunda parte, ou seja, as cláusulas contratuais da Lei de Israel, habitualmente designadas como Decálogo, ou “Dez Palavras”.

Na construção do Decálogo, as quatro primeiras normas são de direito divino, ou seja, dizem diretamente à Deus, enquanto as outras seis se referem a questões humanas.

Curiosamente as narrativas dos Evangelhos sobre os Dez Mandamentos tendem a fazer uma separação entre as normas divinas e as normas humanas. Neste sentido, Jesus evoca como regra para alcançar o céu a segunda parte do Decálogo: “Não matarás, não adulterarás, não roubarás, não levantarás falso testemunho; honra pai e mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 19,18-19; cf. Mc 10,19; Lc 18,18).

Mas, por outro lado, quando se trata da Lei Régia (Tg 2,8) a questão muda: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Ele respondeu: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o maior e primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22,34-40; cf. Mc 12,28-34; Lc 25-28). Aqui se vai ao cerne de toda Lei, no qual implica o “direito” divino e o “direito” humano, um evoca o outro.

Na liturgia deste 3º Domingo da Quaresma o foco recai sobre o estabelecer a Aliança através de um compromisso formal (=Lei).

Na perspectiva batismal o neófito, ao ser batizado, ele estabelece uma Aliança e, ao renunciar o mal/diabo, ele professa a fé na Trindade, tal profissão de fé implica num compromisso formal, que deverá ser observado pelo batizado. Ele é batizado em nome da Trindade e vinculado, no caso, dentro da Igreja Católica. Fica estabelecido um compromisso.
1Cor 1,22-25

O problema central da 1Coríntios é de ordem pastoral. Diversos fatores práticos estão criando discórdias e divisões dentro da própria comunidade de Corinto (cf. 1,10-11). A primeira é justamente sobre a pessoa de Paulo, o qual a comunidade o acusa de ser fingido, sem palavra, mentiroso e ladrão (1 e 2Coríntios). Um dos pontos de discórdias é entre as preferências pessoais. Alguns preferem as pregações de Paulo e outros de Apolo (1Cor 1,12ss). De fato, Apolo é descrito como eloquente pregador (cf. At 18,24-26), enquanto Paulo é descrito como péssimo pregador (cf. 1Cor 10,9-10; 11,6). Discutindo a questão, Paulo descreve Apolo como “apollô” (=destruidor: 1Cor 1,19-20 [não claramente visível em língua portuguesa]) caso o foco da comunidade não seja o centro, ou seja, a pessoa de Jesus Cristo. Portanto, se para os coríntios a força do Evangelho reside em poder de eloquência pessoal, Apolo para eles é uma destruição. Disto provêm a indagação de Paulo “onde está o sábio? Onde está o homem culto?” (1Cor 1,20). Mas onde está a loucura da pregação por parte de Deus (1Cor 1,21)? Paulo irá demonstrar que a fé cristã reside primariamente na centralidade da pessoa de Jesus Cristo, ponto de partida e de chegada, eixo central da vida cristã.
Jo 2,13-25

O tema central do Evangelho é a pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus, que estabelece, a partir do evento da paixão, morte e ressurreição, o “Santuário/Templo” de Deus entre os homens. Leva-se em consideração que o Santuário/Templo é o local da sua presença entre os homens, seja, durante a caminhada do deserto (=Santuário) ou estabelecida em Jerusalém, Garizim, Leontópolis e Elefantina (=Templo).

Os quatros templos judeus funcionavam como lugar da presença divina. Alguns, equivocamente, afirmam que Jesus era contra o Templo, esta afirmação é absolutamente falsa.

Jesus é contrário aqueles que trabalhavam no Templo e, nesta narrativa, os condena, quando sacrificam o povo (cf. Jo 10) e não os animais, através de um sistema exploratório, onde a gratuidade divina era taxada: “Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (Jo 2,16), evocando a profecia de Zacarias quando afirma: “Não haverá mais vendedor na casa de Iahweh dos Exércitos, naquele dia” (Zc 14,21).

No conjunto da liturgia, a comunidade de batizado se reúne, a partir de agora, não mais no Templo físico de Jerusalém, mas na pessoa de Jesus Cristo. Aqui abre a dimensão eucarística da vida batismal. Deste modo, A “Igreja” é primariamente a comunidade cristã que se reúne no espaço sagrado. Lógico que se estabelece uma correlação entre o batizado, enquanto morada de Deus, e a comunidade de batizados que se reúne “na casa de Deus”.
Pelo batismo, o cristão é incorporado na Igreja que tem como eixo central a Trindade, dentro de uma dinâmica cristocentrica. O cristão passa a ter um “compromisso” com Cristo, na sua Igreja, em vista da salvação eterna (=Terra Prometida) o que implica na sua dimensão evangelizadora (=sal e luz da terra), abrindo a possibilidade desta salvação a todos os homens e mulheres. Neste sentido, a vida eclesial pressupõe algumas características:

a)  vida orante (liturgia)

b)  vida diaconal (servir a humanidade)

c)   vida evangelizadora (anunciar o ressuscitado a todos os povos).

Tudo isto norteado pelos critérios das virtudes teologais (fé, esperança e caridade). Portanto, estando na “graça” o cristão é Templo de Deus entre os homens e, como “santos”, se reúnem na Casa de Deus.

 

** PASCOA-ou-PASCOAS-JUDAICAS-Gilvan em PDF

** ESSE NÃO mas BARRABÁS – Jo 18,40 – Gilvan Leite de Araujo - em PDF

** A festa da DEDICAÇÃO em Jerusalém – Jo 10,22 – Gilvan Leite de Araujo - em PDF

** MARIA MADALENA – Gilvan Leite de Araujo - em PDF

** A MULHER ADÚLTERA NO EVANGELHO DE JOÃO-Gilvan Leite de Araujo - em PDF

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ECONOMIA DO PAPA FRANCISCO

segunda-feira, fevereiro 17th, 2020

 

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BASILICA DE SAO FRANCISCO EM ASSIS onde vai ser o encontro

☆☆ Encontro Internacional de Economia de Francisco e Clara com participação dos jovens, 19-21 de novembro de 2002,
Ao vivo, diretamente de Assis

 

☆☆ 2° dia do encontro da ECONOMIA DE FRANCISVO. Pesença dos brasileiros frei Leonardo Boff e padre Vilson Groh dialogando sobre o tema “Socioambiental e jovens brasileiros”. A conferência ainda receberá o prêmio Nobel da Paz Muhammad Yunus falando sobre “Finanças e criação de valor”

 

☆☆ Economia de Francisco: último dia de trabalhos

 

 

☆☆ Canção “REALMAR”em homenagem ao evento convocado pelo Papa Francisco aos jovens economistas e empresários do mundo todo, que acontecerá em Assis, no final de março.

 

☆☆ Economia de Francisco. A construção de uma economia que faz viver e não mata

 

- Com MS. Klaus da Silva Raupp – Boston College; MS. Cláudia de Andrade Silva – USP; Esp. Tatiana Vasconcellos Fleming Machado – UFJF e PUC-Rio; Bel. Lucas Feres Prates – Unicamp; Bel. Roberto Jefferson.

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** Economia de Francisco: possibilidades para uma outra economia Coluna de artigos sobre a Economia de Francisco: “Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco”

Confira os artigos já publicados na coluna

** “Vão, Jovens de Francisco, e reconstruam a nossa economia, que, como veem, cai em ruínas!”

Leia mais

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** Economia de Francisco. “Gerar” não apenas produzir: a economia de cuidar

Leia mais

 

** A Economia de Francisco não é o protagonismo dos jovens, é a inauguração de uma nova forma de trabalhar. Artigo de Alessandra Smerilli

Leia mais

 

☆☆ “Economia de Francisco” adiado para 21 de novembro de 2020

☆☆ Economia de Francisco e Clara: A produção de entidades nacionais

 

 

☆☆ A economia de Francisco: construir novos caminhos

☆☆ Mais de 2 mil jovens já inscritos para “A Economia de Francisco” – Vatican News” - 01/2020

☆☆ A economia de Francisco - Artigo de Frei Betto - 14 de agosto de 2019

☆☆  Papa Francisco propõe um sistema econômico mais justo e sustentável – Carta Capital – 9 de Dezembro de 2019

☆☆ Reunião mundial debate proposta do Papa Francisco por ‘economia que dá vida e não mata’ – RDB - 12 de Dezembro de 2019

☆☆ VIDEO – Reunião mundial debate proposta do Papa Francisco por ‘economia que dá vida e não mata’. Assista ao vídeo do Papa Francisco.

☆☆ Jovens economistas atendem ao apelo do Papa Francisco de uma nova economia – Canção Nova -14 de Fevereiro de 2020

 

☆☆ Reunião liderada pelo Papa Francisco propõe uma nova economia global – Rede Vida – 17 de Dezembro de 2019

 

☆☆ Economia de Francisco – MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O EVENTO – IHU – 13 de Maio de 2019

☆☆ PAPA LANÇA UM PACTO GLOBAL PARA MUDAR O MODELO DA ECONOMIA – IHU – 13 de Maio de 2019

☆☆ Economia de Francisco: Uma proposta do Papa para «pôr as pessoas no centro de tudo» - 16 de Fevereiro de 2020

☆ VÍDEO – Economia de Francisco: Uma proposta do Papa para «pôr as pessoas no centro de tudo»

 

☆☆ PAPA FRANCISCO SALVARA A ECONOMIA E O PLANETA?

☆☆ A ECONOMIA DE FRANCISCO: CONSTRUIR NOVOS CAMINHOS

 

☆☆Vamos ouvir este papo dos jovens da Americalatina que já estão participando da “ECONOMIA DE FRANCISCO E CLARA” Nesta conversa com Leonardo Boff e toda inspiração do Papa Francisco. Tire um tempo para escutar e beber nesta fonte franciscana que escuta os povos da terra – MÃE TERRA

 

 

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OUTROS DOCUMENTOS DO PAPA FRANCISCO

** FRATELLI TUTTI – Papa Francisco

** A ALEGRIA DO EVANGELHO – Papa Francisco

** DIA MUNDIAL DA PAZ – MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO – 2019

** DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÃO SOCIAIS-53

** Discurso do Papa em Abu Dhabi

** Homilia do Papa Francisco no Santuário de Guadalupe

** I DIA MUNDIAL DOS POBRES – 2017 – PAPA FRANCISCO

** II DIA MUNDIAL DOS POBRES – 2018 – PAPA FRANCISCO

** MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO 27º Dia Mundial do Enfermo-2019

** PAPA A CARITAS INTERNACIONAL

** Papa aos Cardeiais

** PAPA FRANCISCO-CARTA APOSTOLICA ABRIU-LHES

** Quem sou para julgar-Papa Francisco-Ebook

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VEJA MAIS SUBSÍDIOS SOBRE O SÍNODO DA AMAZÔNIA

 

 

 

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ESCOLAS DE SAMBA

sábado, fevereiro 8th, 2020

 

BASTA

Veja o clipe oficial do Samba-Enredo 2021 dos Gaviões da Fiel:

 

https://youtu.be/EmixQ1JfTZU

 

Letra:

Sou eu….
O filho dessa pátria-mãe hostil
Herdeiro da senzala Brasil
Refém da maculada inquisição
Axé meu irmão!
O pai de mais um João e de mais um Miguel
Na mira da cega justiça
Que enxerga o negro como réu
Sou eu o clamor da favela
O canto da aldeia, a fome do gueto
Meu punho é luz de Mandela
No samba o levante do novo Soweto
Cacique Raoni da minha gente
Guerreiro GAVIÃO, presente!

Essa terra é de quem tem mais
Conquistada através da dor
As migalhas que você me oferece
Só aumentam minha força pra mostrar o meu valor

Meu lugar de fala, a voz destemida
Cabeça erguida por nossos direitos
Quando o fascismo do asfalto
É opressor à militância por respeito
O ventre das mazelas sociais
Ante ao preconceito vai se libertar
Vidas negras nos importam
O grito da mulher não vão calar
Meu Gavião chegou o dia da revolução
Onde a democracia desse meu Brasil
Faça o amor cantar mais alto que o fuzil

Escute o meu clamor
Oh pátria amada
É hora da luta sair do papel
Basta é o grito que embala o povo
Eu sou Gaviões, sou a voz da Fiel

 

 

 

 

 

https://youtu.be/YYaUwQR7PaE

☆☆ ASSISTA AO DESFILE DA MANGUEIRA

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☆☆ CONFIRA TODA A EVOLUÇÃO DA COMISSÃO DE FRENTE QUE A GLOBO NÃO MOSTRA.E OS APLAUSOS.

https://youtu.be/qCUVJA6d1t4

 

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☆☆ Mangueira desmascara os “messias” e profetas da intolerância e do ódio no Portal Vermelho

☆☆ Jesus da gente: ‘Só ame!’ – Profecia da Mangueira no Carnaval de 2020 – Frei Gilvander no Dom Total

☆☆ “Jesus da Gente”: uma oportunidade de revisão da vida – Magali Cunha na Carta Capital

☆☆ “Esse foi o Jesus dos evangelhos e dos excluídos”, diz monge beneditino Marcelo Barros no Brasil De Fato

☆☆ Mangueira levou para a avenida o “Jesus da Gente”, não o do ódio fundamentalista. Por Joaquim de Carvalho no DCM

☆☆ “E se Jesus fosse mulher? Seu coração aceita? Seus olhos enxergam? Seu amor te limita?”, indaga a rainha de bateria da Mangueira – Evelyn Bastos na revista FORUM

☆☆ Samba-enredo da Mangueira mostra que Jesus não estaria ao lado da intolerância - Vencedora do Carnaval do Rio de 2019, escola de samba reforça a história de luta de Cristo contra o estado opressor por Nara Lacerda no Brasil de Fato

☆☆ A festa religiosa do Carnaval: a resistência alegre dos povos periféricos contra o conservadorismo elitista. Apesar do preconceito de parte da população, Festa de Momo continua sendo ferramenta política de combate à injustiça social. Entrevista especial com Aydano André Motta NA IHU

☆☆ CURSO DE HISTÓRIA: JESUS DA HISTÓRIA A PARTIR DO SAMBA ENREDO DA MANGUEIRA – do Canal PAZ E BEM DO CANAL 247 COM Pedro Lima Vasconcellos

https://youtu.be/wP6Z_ChBGOE

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☆☆ ASSISTA AO VIDEO DO SAMBA ENREDO DA MANGUEIRA

https://youtu.be/gPHsDX3R9MQ

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☆☆ VEJA A LETRA DO SAMBA-ENREDO DA MANGUEIRA 2020

O samba da Mangueira é uma ORAÇÃO. Um salmo atualizado:

Mangueira – Samba-Enredo 2020: “A Verdade Vos Fará Livre”

Compositores:-  Manu da Cuíca e Luis Carlos Máximo

Senhor, tenha piedade
Olhai para a terra
Veja quanta maldade

Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra no buraco quente
Meu nome é Jesus da Gente

Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro, desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil

Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque, de novo, cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais na escuridão

Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão

Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E ressurgi pro cordão da liberdade

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☆☆ Análise da letra do Samba Enredo da Mangueira de 2020

https://www.youtube.com/watch?v=ug2skzscMa0

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☆☆ Papo Mangueira : entrevista com o carnavalesco Leandro Vieira

https://youtu.be/2pNi0D2ByBk

 

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☆☆ DESTRINCHANDO O SAMBA – MANGUEIRA – 2020 - Explicação pelos próprios autores do Samba- Enredo

https://youtu.be/q1APcXzkNek

 

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☆☆ Pastor Henrique Vieira comenta o enredo da Estação Primeira de Mangueira que fala sobre Jesus

https://youtu.be/u0L7OnAoMK0

 

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☆☆ CAIO FÁBIO DIZ “AMÉM” AO SAMBA-ENREDO DA MANGUEIRA

https://youtu.be/NQYdvVtVrcU

 

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☆☆ CONVERSA DE COMENTARISTA – MANGUEIRA 2020

https://youtu.be/T8A0qGya_EM

 

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☆☆ ENTENDA O SAMBA-ENREDO DA MANGUEIRA - Mangueira ameaçada por enredo sobre Jesus – por Renata Arruda

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☆☆ A MANGUEIRA É AMEAÇADA POR ENREDO SOBRE JESUS. - Blog da Cidadania

 

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☆☆ “Jesus é índio, negro, mulher também. Jesus para a gente não tem gênero”  - O carnavalesco Leandro Vieira, da Mangueira, dá detalhes do desfile político (e polêmico) que a escola levará para a Sapucaí em 2020 - da CARTA CAPITAL

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☆☆ Reflexão do CEBI sobre o samba enredo da Mangueira

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☆☆ LEONARDO BOFF :- O enredo da Escola de Samba da Mangueira: os ultra-conservadores representam os que tramaram a condenação de Jesus

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☆☆ Boff: Brasil não aceita Jesus retratado pela Mangueira, que andava com pobres

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☆☆ O CARNAVAL DA MANGUEIRA 2020 E OS “CATOLIBÃS” (O PERIGO ATUAL DAS MENTES TERRIVELMENTE CATÓLICAS) - “Deixa a Mangueira passar!” Por: Padre Gegê

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☆☆ Testemunho de Dom Celso, Bispo emérito da Igreja Anglicana no Rio de Janeiro sobre o Samba-enredo da Mangueira.

Sobre o samba da Mangueira “A Verdade Vos Fará Livre”, que interpreta Jesus neste Carnaval – “Não existe ‘Messias’ de arma na mão”.
O comentário de Dom Celso Franco de Oliveira, Bispo Emérito da Igreja Episcopal Anglicana no Rio de Janeiro. Diante dos que distorcem a imagem de Jesus fazendo do Homem de Nazaré um objeto de ouro…pregando um Cristo dissociado da vida, arrogante e de mãos dados com o desastre ético e cultural que que está tomando conta do nosso País: “Se estes se calarem as pedras falarão. O Evangelho vem agora sendo proclamado na contramão dos que se dizem seguidores de Jesus. Vem da Mangueira, Vem de fora, não vem de teólogos..vem de poetas do povo (Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo) da Mangueira que de forma sábia anunciam o Jesus dos pobres, .. dos que não são incluídos. ….Viva a Estação Primeira da Mangueira. Quando as cercas caírem no chão, eu vou sambar. Viva o Evangelho libertador que rompe com os grilhões da intolerância e da violência. Quero sambar com vocês no Bloco da Vida e da Esperança. Somos todos irmãos e filhos do mesmo Pai. Amém”.

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☆☆ A jornalista Denise Assis, a teóloga e pastora luterana Lusmarina Campos Garcia conta detalhes sobre o grupo de 20 lideranças religiosas que abrirá o carnaval da Mangueira. “Eles estarão dizendo ao público que Cristo é um só. Qualquer que seja a crença”, diz Assis

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**A verdade vos fará livres’: o samba-enredo da esperançaÉ preciso fazer como Cristo, se quisermos ser cristãos: colocarmo-nos ao lado dos crucificados e lutar com eles  – Eduardo César no DOM TOTAL

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** A Verdade vos fará livre: sobre o samba-enredo da Mangueira – Tratar a pessoa humana como descarte é blasfemar contra Deus.- Élio Gasda no DOM TOTAL

 

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☆☆ Sobre o Samba enredo da Mangueira - Do Pe Geraldo Natalino (Gegê)*

“Sou padre há 25 anos (jubileu) na diocese do Rio de Janeiro, mestre em teologia sistemático-pastoral pela PUC-RJ e doutor em ciência da religião pela PUC-SP. Como religioso católico, acolho a notícia do samba enredo da Mangueiira para o carnaval de 2020 como uma provocação às igrejas cristãs amordaçadas neste momento dramático e trágico na história do Brasil. Provocar (“provocare”) é “chamar para a briga”, incitar, desafiar… Desse modo, o enredo da Mangueira de 2020 “A VERDADE VOS FARÁ LIVRES” pode constituir um desafio aos que se dizem cristãos!

Certa feita, num livro antigo de Leonardo Boff, conheci o termo “profecia externa”. Para o teólogo, a expressão se referia a possibilidade de a sociedade, de diversificada forma, exercer a profecia, isso é, falar em nome de Deus na defesa da vida. Dizendo de outro modo, pessoas e grupos, como, por exemplo, movimentos sociais, em princípio, não religiosos, podem, as vezes com mais coragem do que os que se dizem seguidores ou seguidoras de Jesus, viver e lutar por um mundo de amor, justiça, igualdade, democracia e paz.

Nesse horizonte, recebo o enredo da Mangueira como “profecia externa”. O último pleito eleitoral revelou setores cristãos (católicos e evangélicos) despudoradamente aliados à grupos políticos promotores da violência e da matança dos pobres e indefesos. De forma explícita e velada grupos cristãos se apresentaram como coniventes dos esquadrões da morte. E todos esses grupos tem hoje nas mãos o sangue dos Wajãpi e responderão no juízo final por suas vidas brutalmente ceifadas. Muitos cristãos, sobretudo da hierarquia religiosa, jamais seriam capazes de assassinar, mas isso não os impede de amolar a faca para que outros o façam.

Em resumo, a capacidade de o cristianismo ser aliado dos vitimizados da história foi mais uma vez, terrivelmente, posta em cheque. De que lado estão os cristãos: do lado das vítimas ou dos carrascos? A Bíblia está repleta da denúncia acerca de profetas que se venderam e se calaram diante das atrocidades da história . O próprio Jesus aventou a possibilidade de, em face do silenciamento dos profetas, as pedras se pronunciarem na defesa da vida (“as pedras gritarão”). Então, é na contramão da apresentação, por parte de muitos cristãos, de um Jesus Cristo “açucarado”, conivente e insensível ante a dor dos pobres e segregados de toda sorte (indígenas, negros, mulheres, gays, terreiros etc..), que a Estacão Primeira de Mangueira, a meu juízo, profeticamente, pode estar mais próxima do Jesus dos Evangelhos do que muitos que não tiram a Bíblia debaixo dos braços e sabem citar de cor quaisquer capítulos ou versículos. Terá a narrativa da Mangueira mais pertinência e relevância que a dos doutos (e quase sempre arrolhados e encastelados) biblistas?

A propósito, o termo “Evangelho” quer dizer notícia feliz, interessante, oportuna e significante… De certo, é razoável pensar que o que interessa às vítimas seja diametralmente oposto ao que interessa aos verdugos; a notícia oportuna a senzala não é a mesma desejada pela casa grande. Considerando que Jesus não é propriedade privada de nenhuma igreja e que o Espirito Santo é livre e, por isso, fala onde quer e como quer, é possível pensar num Deus falando na Sapucaí, infelizmente, as vezes de forma mais potente do que nas igrejas.

Ler o Evangelho é também um ato político, uma interpretação que nasce de um “lugar de fala”, nos termos de Djamila Ribeiro. E não existe leitura – inclusive, bíblica – neutra! Praza Deus, o discurso da Mangueira, como diz Conceição Evaristo, consiga, na potência evangélica do samba, acordar a casa grande de seus sonos injustos! A Verdade que liberta o oprimido, ao mesmo tempo, desnuda e denuncia as mentiras do opressor!

Desejo, pois, que as igrejas cristãs se convertam do olhar colonialista , preconceituoso e racista para com o carnaval e tantas outras expressões culturais e religiosas afro-brasileiras. É hora de passarmos de uma política vincadamente policialesca para uma política do diálogo e da troca positiva. Ademais, o samba também evangeliza, inclusive aos que se dizem cristãos! Se as “pedras” podem profetizar, por que o samba não pode? Vale repetir: o Espírito Santo é livre e sopra onde quer! As vezes fala onde menos se espera… Deus é desconcertante! Da minha parte, como pesquisador das religiosidades das populações subalternizadas, estou, pessoal e visceralmente, ansioso e esperançoso para ver/ouvir a exegese bíblica do Samba, a versão, a hermenêutica decolonial de Leandro Vieira – o Evangelho de Jesus segundo a Estacão Primeira de Mangueira!”

*Padre Geraldo Natalino – mestre em teologia e doutor em ciência da religião – é conhecido popularmente no Complexo de Manguinhos como Padre “Gegê”.

 

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☆☆ Samba-enredo da Mangueira – Posicionamento da IECLB

 

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☆☆ ESCUTA O SAMBA ENREDO DA MANGUEIRA 2020

 

https://youtu.be/MlJ8P6lYKJA

 

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☆☆ CONHEÇA A ESTAÇÃO PRIMEIRA DA MANGUEIRA pela Wikipidia

 

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** Carnaval e encarnação da profecia – A profecia saiu do ambiente religioso e se fez valer do carnaval por Felipe Magalhães Francisco do DOM TOTAL

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** Alegria, alegria! – Carnaval, fé e política são eixos da nossa humanidade que, somente pelo amor e pela tolerância, é capaz de se tornar semelhante à humanidade de Cristo por Daniel Couto do DOM TOTAL

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** Vozes proféticas nos extramuros da Igreja – Em tempos sombrios, é preciso assumir a subjetividade profética contida em todo homem e toda mulher por Rodrigo Ferreira da Costa do DOM TOTAL

 

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☆☆ DOM HÉLDER CÂMARA E O CARNAVAL

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☆☆ DOM HÉLDER CÂMARA RECEBE O BLOCO DA SAUDADE

https://youtu.be/DZzyX8gqDa8

 

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CARLOS MESTERS e BÍBLIA

quinta-feira, janeiro 23rd, 2020

BÍBLIA – VÍDEOS – CARLOS MESTERS

☆☆ Frei Carlos Mesters, junto com Frei Geraldo D’Abadia comparando o Povo no Cativeiro Bíblico com nossa situação hoje frente a Conona virus.

 

☆☆ Frei Carlos Mesters fala sobre o Livro do Deuteronômio em entrevista a frei Gilvander – 15/01/2020

 

☆☆ VIDEO: A VIVÊNCIA DA SABEDORIA NOS CONDUZ A DEUS. FREI CARLOS MESTERS, DO CEBI, EM ENTREVISTA A FREI GILVANDER: MÊS DA BÍBLIA. 19/8/2018.

https://youtu.be/O0qkX-bC2co

 

☆☆ A LEITURA POPULAR DA BÍBLIA. VÍDEO DE FREI CARLOS MESTERS.

☆☆ FREI CARLOS MESTERS: Comunidade-02

 

☆☆  PALAVRA ‘ÉTICA’ COM CARLOS MESTERS

 

 

 

☆☆ Frei Carlos Mesters fala sobre o Mês da Bíblia e sobre o Evangelho de Marcos. 24/09/2012

 

 

☆☆ PESSOAS QUE RECEBERAM VOCAÇÃO NA BÍBLIA

 

 

☆☆ A12 entrevista com o biblista Frei Carlos Mesters

 

☆☆ A VIVÊNCIA DA SABEDORIA NOS CONDUZ À DEUS

 

☆☆ Frei CARLOS MESTERS NO SERTÃO VIVO 17/05/2015

 

☆☆ Frei Carlos Mesters no VII Encontro Mineiro de CEBs, Unaí, de 18 a 20 09 15: Jesus e as CEBs

 

☆☆ Frei Carlos Mesters sobre SAGRADAS FAMÍLIAS DA BÍBLIA, do Gênesis ao Apocalipse. CEBI/12/12/15

 

☆☆ Frei Carlos Mesters (2a parte): SAGRADAS FAMÍLIAS DA BÍBLIA, do Gênesis ao Apocalipse. CEBI/12/12/15

 

☆☆ SEMINÁRIO SOBRE O EVANGELHO DE JOÃO – SINAL NAO É MILAGRE

 

☆☆ SEMINÁRIO SOBRE O EVANGELHO DE JOÃO – JESUS É O CORDEIRO

 

☆☆ XIII Intereclesial das CEBs/Juazeiro do Norte/CE: Carlos Mesters-CEBs e Jesus de Nazaré. 10/01/2014

 

☆☆ Como nasceu o CEBI – Por frei Carlos Mesters – 19/8/2018.

 

☆☆ FORMAÇÃO BÍBLICA CARLOS MESTERS: APOCALIPSE DE JOÃO

 

☆☆ Frei Carlos Mesters e Francisco Orofino sobre a família

 

 

☆☆ Livro “Levitas”, Frei Carlos Mesters

 

☆☆ CEBI-PR: Leitura da Bíblia na ótica da mulher e do/da idoso(a). Carlos Mesters, Tea e Wânia. 19/8/18

 

☆☆ PENTECOSTES: Frei Carlos Mesters

 

 

☆☆ Bíblia: Deus Vivo – Parte 1 – Pastor Milton Schwantes

☆☆ Bíblia: Deus Vivo – Parte 2 – Frei Carlos Mesters

 

OUTROS VIDEOS SOBRE A BIBLIA SAGRADA

** OS MANUSCRITOS DO MAR MORTO – Dr Edson de Faria Francisco

 

SÉRIE INTRODUÇÃO À BÍBLIA

01. Diferença entre a Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã Dom Paulo Jackson, bispo de Garanhuns

 

02. Bíblia Católica,  Ortodoxa e Protestante – Dom Paulo Jackson, bispo de Garanhuns

 

03. MANUSCRITOS DA Bíblia – Dom Paulo Jackson, bispo de Garanhuns

 

04. GEOGRAFIA BÍBLICA – Dom Paulo Jackson, bispo de Garanhuns

 

05. GALILEIA NO TEMPO DE JESUS – Dom Paulo Jackson, BISPO DE Garanhuns

 

06. COMO FAZER UMA CITAÇÃO BÍBLICA – Dom Paulo Jackson, BISPO DE Garanhuns

 

 

07. A BÍBLIA E A HISTÓRIA DE ISRAEL – Dom Paulo Jackson, BISPO DE Garanhuns

 

 

 

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EVIDÊNCIAS  NT

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BV BOOKS Editora

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CRÍTICA TEXTUAL DA BÍBLIA HEBRAICA – Edson de Farias Francisco

https://youtu.be/A2OVGeJTPpU

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** Teologia e Capitalismo como Religião – Debates com o teólogo Jung Mo SunG no YOUTUBE

** Teologia e Capitalismo como Religião – Debates com o teólogo Jung Mo Sung no FACEBOOK

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CAMPANHA DA FRATERNIDADE

sexta-feira, janeiro 17th, 2020

CAMPANHA DA FRATERNIDADE

HISTÓRICO

** CNBB faz consulta eletrônica sobre Campanhas da Fraternidade 2023 e 2024

Se inscreva aqui

 

 

** Campanha da Fraternidade (CF) é estudada em pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)  

CNBB Uma pesquisa de doutorado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) buscou entender a Campanha da Fraternidade (CF), iniciativa realizada em âmbito nacional, sob os cuidados da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O responsável pela pesquisa foi o Adailton Antônio Galiza Nunes

Baixe a pesquisa completa em pdf

SEGUE A ENTREVISTA DE ADAILTON NA RÁDIO

 

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2022 - CAMPANHA DA FRATERNIDADE – 2022

TEMA – FRATERNIDADE E EDUCAÇÃO

LEMA – FALA COM SABEDORIA, ENSINA COM AMOR (Pr 31,26)

 

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2021 - CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2021 – ECUMÊNICA

TEMA: FRATERNIDADE E DIÁLOGO: COMPROMISSO DE AMOR

LEMA: “CRISTO É A NOSSA PAZ: DO QUE ERA DIVIDIDO, FEZ UMA UNIDADE” (Ef 2,14)

 

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2020 - CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2020

TEMA: FRATERNIDADE E VIDA: DOM E COMPROMISSO

LEMA: “VIU, SENTIU COMPAIXÃO E CUIDOU DELE” Lc 10,33-34

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2019 - CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2019

TEMA: FRATERNIDADE E POLÍTICAS PÚBLICAS

LEMA: SERÁS LIBERTO PELO DIREITO E PELA JUSTIÇA Is 1,27

 

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2018 - CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2018

TEMA: FRATERNIDADE E SUPERAÇÃO DA VIOLÊNCIA

LEMA: VÓS SOIS TODOS IRMÃOS Mt 23,8

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2017 - CAMPANHA DA FRATERNIDADE – 2017

TEMA: FRATERNIDADE: BIOMAS BRASILEIROS E DEFESA DA VIDA

LEMA: CULTIVAR E GUARDAR A CRIAÇÃO  Gn 2,15

 

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2016 – Tema: Casa comum, nossa responsabilidade

Lema: Quero ver o direito brotar

 

 

 TODOS OS TEMAS DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE DESDE 1964

1964 - Tema: Igreja em Renovação
            Lema: Lembre-se: você também é Igreja
1965 - Tema: Paróquia em Renovação
            Lema: Faça de sua paróquia uma Comunidade de fé, culto e amor
1966 - Tema: Fraternidade
            Lema: Somos responsáveis uns pelos outros.
1967 - Tema: Co-responsabilidade
            Lema: Somos todos iguais, somos todos irmãos.
1968 - Tema: Doação
            Lema: Crer com as mãos.
1969 - Tema: Descoberta
            Lema: Para o outro, o próximo é você.
1970 - Tema: Participação
            Lema: Participar.
1971 - Tema: Reconciliação
            Lema: Reconciliar.
1972 - Tema: Serviço e Vocação
            Lema: Descubra a felicidade de servir.
1973 - Tema: Fraternidade e Libertação
            Lema: O egoísmo escraviza, o amor liberta
1974 - Tema: Reconstruir a Vida
            Lema: Onde está teu irmão?
1975 - Tema: Fraternidade é Repartir
            Lema: Repartir o Pão
1976 - Tema: Fraternidade e Comunidade
            Lema: Caminhar juntos
1977 - Tema: Fraternidade na Família
            Lema: Comece em sua casa
1978 - Tema: Fraternidade no Mundo do Trabalho
            Lema: Trabalho e justiça para todos
1979 - Tema: Por um mundo mais humano
            Lema: Preserve o que é de todos
1980 - Tema: Fraternidade no mundo das Migrações Exigência da Eucaristia
            Lema: Para onde vais?
1981 - Tema: Saúde e Fraternidade
            Lema: Saúde para todos
1982 - Tema: Educação e Fraternidade
            Lema: A verdade vos libertará
1983 - Tema: Fraternidade e Violência
            Lema: Fraternidade sim, violência não
1984 - Tema: Fraternidade e Vida
            Lema: Para que todos tenham Vida
1985 - Tema: Fraternidade e fome
            Lema: Pão para quem tem fome
1986 - Tema: Fraternidade e terra
            Lema: Terra de Deus, terra de irmãos
1987 - Tema: A Fraternidade e o Menor
            Lema: Quem acolhe o menor, a Mim acolhe
1988 - Tema: A Fraternidade e o Negro
            Lema: Ouvi o clamor deste povo!
1989 - Tema: A Fraternidade e a Comunicação
            Lema: Comunicação para a verdade e a paz
1990 - Tema: A Fraternidade e a Mulher
            Lema: Mulher e homem: imagem de Deus
1991 - Tema: A Fraternidade e o Mundo do Trabalho
            Lema: Solidários na dignidade do trabalho
1992 - Tema: Fraternidade e Juventude
            Lema: Juventude – caminho aberto
1993 - Tema: Fraternidade e Moradia
            Lema: Onde moras?
1994 - Tema: A Fraternidade e a Família
            Lema: A família, como vai?
1995 - Tema: A Fraternidade e os Excluídos
            Lema: Eras tu, Senhor?
1996 - Tema: A Fraternidade e a Política
            Lema: Justiça e paz se abraçarão!
1997 - Tema: A Fraternidade e os Encarcerados
            Lema: Cristo liberta de todas as prisões.
1998 - Tema: Fraternidade e educação
            Lema: A serviço da vida e da esperança
1999 - Tema: Fraternidade e os desempregados
            Lema: Sem trabalho… Por quê?
2000 - Tema: Dignidade humana e paz
            Lema: Novo milênio sem exclusões
2001 - Tema e Lema: Vida sim, drogas não!
2002 - Tema: Fraternidade e povos indígenas
            Lema: Por uma terra sem males!
2003 - Tema: A fraternidade e as pessoas idosas
            Lema: Vida, dignidade e esperança.
2004 - Tema: A fraternidade e a água
            Lema: Água, fonte de vida.
2005 - Tema: Campanha da fraternidade ecumênica
            Lema: Felizes os que promovem a paz!
2006 - Tema: Fraternidade e pessoas com deficiência
            Lema: Levanta- te e vem para o meio!
2007 - Tema: Fraternidade e Amazônia
            Lema: Vida e missão neste chão.
2008 - Tema: Fraternidade e Defesa da Vida
            Lema: Escolhe, pois, a Vida .
2009 - Tema: Fraternidade e segurança pública
            Lema: A paz é fruto da justiça
2010 - Tema: Economia e vida
            Lema: Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro.
2011-  Tema: Fraternidade e vida no planeta
            Lema: A criação geme em dores de parto
2012 - Tema: Fraternidade e saúde pública
            Lema: Que a saúde se difunda sobre a terra
2013 – Tema: Fraternidade e Juventude
Lema: “Eis-me aqui, envia-me”
2014 – Tema: Fraternidade e tráfico humano
Lema: É para a liberdade que Cristo nos libertou
2015 – Tema: Fraternidade, igreja e sociedade
Lema: Eu vim para servir
2016 – Tema: Casa comum, nossa responsabilidade
Lema: Quero ver o direito brotar

 

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Responsável por este trabalho:

Xavier Cutajar

xacute@uol.com.br       http://xacute1.com