Archive for agosto, 2016

BREVE INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE LUCAS

quinta-feira, agosto 4th, 2016

ESTUDOS NO EVANGELHO DE LUCAS

 Uma breve introdução ao evangelho de Lucas.

Pedro Triana*

 

 

Algumas chaves hermenêuticas

           a)      Época

A maioria dos especialistas bíblicos coincidem em afirmar que o evangelho de Lucas foi escrito aproximadamente no ano 85 d.C, provavelmente em Êfeso, Ásia Menor. Portanto, desde o tempo de Jesus até a redação do evangelho de Lucas há um período de 55 anos, ou seja, um salto da cultura judaica para a cultura greco-romana e um salto da cultura do campo para a cidade.

Lucas escreve sua obra no chamado período sub-apostólico (70-135 d.C.), durante o qual ocorreu a institucionalização dos diferentes modelos de igrejas.

Devemos também lembrar que quando o evangelho de Lucas está sendo redigido já aconteceu a queda de Jerusalém no ano 70 d.C. Lucas consegue recolher os momentos mais significativos deste longo caminho cronológico, geográfico e cultural.

Os dois eixos hermenêuticos fundamentais trabalhados por Lucas em seu evangelho foram:

  • a tensão entre os cristãos procedentes do paganismo e

os cristãos procedentes do judaísmo e

  •  a tensão entre ricos e pobres nas comunidades procedentes do paganismo.

 

              b)     Lucas/Atos: Uma obra só

É bem aceito pela pesquisa bíblica que o atual evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos tenham sido só uma obra. Mas realmente não sabemos quando as duas obras foram separadas, porém, é muito provável que isto aconteceu quando os quatro evangelhos formaram uma unidade na formação do cânon do NT já no final do século II.

 

             c)      Características literárias

As características escriturarias do evangelho respondem ao mundo helenista, devido a sua linguagem, estilo e mentalidade.  E ao que tudo indica a intenção da obra era mostrar ao mundo grego quem foi Jesus e o movimento gerado por Ele após a ressurreição.

A diferença dos outros evangelhos, Lucas explica a intenção e o objetivo de seu autor ao escrever sua obra (Lc 1, 1-4), além de ser o único evangelho que está dedicado a uma pessoa específica: Teófilo (Lc 1,3), cujo nome significa “amigo de Deus”. No entanto, ao ler Lucas se percebe que os verdadeiros destinatários são as comunidades cristãs espalhadas pelo Império Romano, comunidades de tradição paulina.

Ainda que a obra apresente erros de caráter geográfico, a geografia é um fator muito importante no texto lucano. Para o autor as indicações geográficas possuem um sentido teológico. Particularmente a «casa» e o «caminho» são lugares importantes e cotidianos.

O evangelho de Lucas às vezes tem proximidade com o quarto evangelho. O evangelista tem sua terminologia predileta: salvar-salvação, pobre, compaixão, mulher-criança, servo, pecado-pecador, levantar e ressurreição, caminho e caminhar, santo, senhor, professor, ensinar, espírito, servir, etc.

O autor coloca um paralelismo completo entre a perseguição de Jesus e a de sua comunidade de seguidores. A geografia de ambas as atividades proféticas se desenvolve em direção inversa, tendo a Jerusalém como ponto de chegada e de partida respectivamente.

Grandes partes dos materiais comuns aos três evangelhos sinóticos se encontram mais depurados em Lucas, devido ao domínio que este possuía do idioma grego. A amplitude de seus recursos estilísticos se manifesta inclusive quando com o fim de reproduzir com fidelidade determinada forma se fala em aramaico e introduz conscientemente semitismos ou palavras gregas que se afastam do nível cultural habitual.

Entre os temas mais relevantes se encontram: a irrupção do Espírito Santo, a libertação, e os temas relacionados à desigualdade social, as crianças e o papel das mulheres no ministério e no movimento de Jesus.

 

            d)     Características teológicas

O Espírito Santo é considerado o eixo teológico mais importante na obra lucana. Por isso, tanto o evangelho quanto o livro dos Atos são denominados o «Evangelho do Espírito Santo», dado que o atuar do mesmo está presente através de toda a obra, desde a anunciação do nascimento de Jesus, até a proclamação pelos apóstolos e discípulos da ressurreição de Jesus.

Lucas apresenta Jesus como:

– O Senhor (1,43).
– O Salvador do mundo (2,30-32).
– Alguém de muita ação e oração (6,12,11,1-13).
– O profeta de Deus (24,19).

Por outro lado, Lucas mostra que ser discípulo é:

– Caminhar com Jesus de Nazaré (9,57-62).
– Ser misericordioso (10,29-37).
– Ser servo do Senhor (12,35-49).
– Fazer o que Jesus fez seguindo-o em seu caminhar (14,25-33).

Propósito e autoria

Como já comentado, no prólogo histórico (Lc 1,1-4), que serve de introdução ao conjunto de Lucas-Atos, encontram-se expressos os propósitos e objetivos pelos quais o livro foi escrito e também o autor do evangelho. Trata-se da fé em Jesus Cristo vivida em um mundo marcado pelas divisões sociais, econômicas, políticas e religiosas.

Neste prólogo o autor tenta reconstruir as diferentes etapas históricas entre o chamado Jesus histórico, ou seja, o que as primeiras comunidades reconstruíram como o mais significativo do Jesus real, e a redação do próprio evangelho.

Aparecem cinco sujeitos históricos:

  1. O Jesus da historia, antes do ano 30, implícito neste prólogo más explicitado na reconstrução posterior do prólogo em Atos 1,1-6. Aqui, por «Jesus da historia» se entende, como já comentado, o que as primeiras comunidades cristãs reconstruíram como o mais significativo do Jesus real.
  2. As testemunhas– Constituem a primeira geração cristã, os homens e mulheres que entre os anos 30-60 transmitiram oralmente o que viram e escutaram diretamente de Jesus.
  3. Muitos– Esses «muitos» constituem a segunda geração cristã que entre os anos 60-80 iniciaram a tradição escrita.
  4. Eu [Lucas] – Autor do evangelho que se apresenta como uma pessoa instruída, um investigador-escritor-historiados profissional. Pensa-se que médico de profissão. Segundo o prólogo histórico, ele investigou tudo, desde a origem e escreve ordenadamente.
  5. Teófilo – É um homem já instruído na fé, a quem Lucas escreve o evangelho para que conheça a solidez dos ensinamentos nos quais já foi instruído. A pesquisa bíblica pensa que poderia ser uma pessoa concreta ou um nome coletivo para designar a todos aqueles que acolhem o evangelho, neste caso, seria a terceira geração cristã. Mas nessa terceira geração poderíamos estar incluídos também nós que hoje recebemos este evangelho.

 

Portanto, o prólogo histórico insere o evangelho na historia que vai desde o chamado Jesus da história até nosso presente, para que nós hoje, como novos Teófilos possamos participar de tal tradição.

 

Estrutura

Há diferentes maneiras e propostas para estruturar o evangelho. No entanto, vamos propor e assumir uma estrutura que ajude em nossa caminhada posterior:

  1. Prólogo histórico: Lc 1,1-4)
  2. Prólogo teológico: Lc  1,5-4,13
  3. Ministério de Jesus na Galileia: Lc 4,14-9,50
  4. Subida de Jesus da Galileia a Jerusalém: Lc 9,51-19,44
  5. Ministério de Jesus no Templo de Jerusalém: Lc 19,45-21,38
  6. Paixão e morte de Jesus: Lc 22-23
  7. Ressurreição de Jesus: Lc 24,1-49
  8. Testamento de Jesus: Lc 24,44-49 + At 1,6-8

Como já comentamos o prólogo histórico que marca os objetivos, propósitos e autoria da obra de Lucas-Atos, a seguir passamos a comentar as outras partes.

 

Prólogo teológico (Lc 1,5-4,13)

Evangelho da infância de João e Jesus (Lc 1,5-2,52). Aqui se contrapõem as figuras de João e Jesus. É a continuidade, mas ao mesmo tempo a ruptura entre dos períodos da historia da salvação: “A lei e os profetas chegaram até João, desde então se anuncia o reino de Deus” (Lc 16,16).

 

  1. Conteúdo: profecias, nascimento e crescimento de/sobre João e Jesus. Jesus no templo, batismo de Jesus, prisão e  morte de João, genealogia de Jesus (de José até Adão), tentação de Jesus no deserto.
  2. Contraposições: templo≠casa, sacerdote≠profeta, e contraposições sociológicas como orgulhosos≠poderosos≠ricos, por um lado, e os que temem a Deus/os humildes e os famintos, por outro. E nesta seção se destaca “O Magnificat”, texto litúrgico-teológico que constitui um preanuncio do Reino e da missão de Jesus.

 

Ministério de Jesus na Galileia (Lc 4,14-9,50)

  1. Conteúdo: Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc 4,16-24), curas/milagres em Cafarnaum (Lc 4,31-34), escolha dos doze discípulos e ensino das multidões (Lc 5,1-6,49), sinais/milagres e a fé dos discípulos e discípulas (Lc 7,1-8,56), missão dos doze (Lc 9,1-21)
  2. Destaques: Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc 4,16-24). Na seção onde escolhe os doze e ensina as multidões temos curas em sábado e controvérsias com fariseus e doutores da lei. Na seção de sinais/milagres e fé dos discípulos e discípulas aparecem oito mulheres.

 

Subida de Jesus da Galiléia a Jerusalém (Lc 9,51-19,44)

Começa a subida de Jesus da Galiléia para Jerusalém. Jesus vai a Jerusalém não como peregrino, mas para se defrontar profeticamente com o Templo. Geograficamente atravessa a região de Samaria, região considerada impura pelos judeus. Nos textos desta seção Jesus se refere positivamente aos Samaritanos. E mesmo que os Samaritanos não recebem positivamente a Jesus e seus discípulos, Jesus repreende os seus discípulos por sua atitude para com eles. Se os Samaritanos tivessem sabido que Jesus ia se defrontar com o Templo, talvez o tivessem recebido com entusiasmo. Esta subida da Galiléia a Jerusalém corresponde nos Atos à saída do «movimento de Jesus» de Jerusalém para Antioquia (At 7-15).

Conteúdos: Esta é uma longa seção com muitos e diferentes conteúdos onde se destacam textos sobre a oração, o confronto com fariseus e doutores da lei, diversas parábolas (o bom samaritano, a ovelha perdida, a dracma perdida, o pai misericordioso, o homem rico), assim como ações libertadoras em sábado/confronto com autoridades religiosas, um pequeno apocalipse com a temática do Reino de Deus….. etc.

Destaques:

  • Marta e Maria (Lc 10,38-42), onde estas mulheres não têm nada a ver com as irmãs de Lázaro no evangelho de João. Aqui podemos ver dois modelos de igreja:

a) a igreja de Marta, a igreja judeu-cristã, preocupada pelos que fazeres da lei;

b) a igreja de Maria, a igreja helenista de Lucas que escuta a palavra de Deus.

 

  • Outro destaque é o texto do Pai-nosso (Lc 11,2-4), que em Lucas é mais fiel à  fonte Q original que o texto de Mateus.

 

  • No  pequeno Apocalipsis (Lc 17,20-37) não se fala de «parusia» ou segunda vinda do Filho do Homen, senão de sua  manifestação o apocalipsis. Lucas nunca usa o termo grego «parusia». Esta manifestação ou apocalipsis acontece no meio das atividades da vida cotidiana: comer, beber, casar-se, comprar, vender, plantar, construir (Lc 17,26-30).

 

Ministério de Jesus no Templo (Lc 19,45-21,38)

A primeira coisa que Jesus faz ao entrar em Jerusalém é uma ação profética violenta no Templo: a expulsão dos vendedores e cambistas. Continuam as controvérsias com as autoridades  religiosas.

Destaques: O discurso sobre a destruição do templo tem uma importância especial. O texto de Lucas dá a impressão de falar de uma história que já aconteceu e que Marcos ainda não conhece (queda de Jerusalém e destruição do Templo 70 d.C.). Esta catástrofe mudou essencialmente a historia de povo judeu. Morre um projeto teocrático e nasce o judaísmo rabínico. E estas mudanças também exigiram a organização das igrejas à margem da Sinagoga.

 

Paixão e Morte (Lc 22-23)

Os textos desta parte falam das últimas atividades de Jesus:

Última Ceia,

prisão de Jesus,

julgamento,

crucifixão e

sepultura.

Ressurreição de Jesus (Lc 24,1-49)

Textos como o túmulo vazio,

anúncio das mulheres,

encontro de Jesus no caminho de Emaús

 

Testamento de Jesus (Lc 24,44-49+ At 1,6-8)

Quando o Evangelho e Atos dos Apóstolos formavam um só livro

Nota:

O texto de Lc 24,50-53 é um acréscimo posterior quando os dois livros foram separados.

 

Bibliografia básica consultada e recomendada para todos os estudos

GEORGE, Augustin, El evangelio según san Lucas, 3ra ed. Editorial Verbo Divino, Navarra, España, 1979.

JEREMÍAS, Joaquín. Jerusalén en tiempos de Jesús. Ediciones Cristiandad, Madrid, 1980.

MORRIS, Leon I, Lucas. Introdução e Comentário, São Paulo, Vida Nova, 2000.

RICHARD, Pablo, “O evangelho de Lucas – Estrutura e chaves para uma interpretação global do evangelho”, em: Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Vozes, Petrópolis, 2003, No.44/1, p.7-36.

RICHARD, Pablo,  El movimiento de Jesús antes de la iglesia. Una interpretación liberadora de los Hechos de los Apóstoles. Editorial DEI, San José, Costa Rica, 1998.

LIMA VASCONCELLOS, Pedro, A boa notícia segundo a Comunidade de Lucas – “O espírito me ungiu para evangelizar os pobres”,CEBI, São Leopoldo, 1998. (Serie: A Palavra na vida, No.123/124)

MESTERS, Carlos e LOPES Mercedes, Querido Teófilo. Encuentros bíblicos sobre el evangelio de Lucas. Editorial Verbo Divino, Madrid, 2000.

MÍGUEZ, Néstor, “Lucas 1-2: Um olhar econômico, político e social”, em: Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Vozes, Petrópolis, No.53/1, 2006, p.54-64.

PIKASA, Javier, A teologia de Lucas, Edições Paulinas, Sâo Paulo, 1978. (Coleção “Teologia dos Evangelhos de Jesus” – 3)

________________

*Pedro Triana, Ave. Goiás 2547, Casa 20, Barcelona, São Caetano do Sul/SP, CEP: 09550-051,

E-mail:

triana231247@yahoo.es    e  pedro_triana_sp@hotmail.com

Tel: res. (11) 4225-1421    e   cel. (11) 8362-9220 (TIM)

 

5 DE DEZEMBRO DE 2011

https://revtriana.wordpress.com/2011/12/05/estudos-no-evangelho-de-lucas-i/

Ver mais sobre Lucas:

https://revtriana.wordpress.com/category/estudos-biblicos-o-evagelho-de-lucas/

 

QUEM FOI LUCAS – ZUCHETTO

quinta-feira, agosto 4th, 2016

Quem foi Lucas?

Pe. Mário Zuchetto

Lucas ou Lucano é natural de Antioquia da Síria, de família pagã (Cl 4,11 não está entre os circuncidados judeus). Médico (Cl 4,14). Convertido provavelmente pelos cristãos leigos que fugiram de Jerusalém (At 11,19-21). Tornou-se discípulo de
Paulo acompanhando-o desde a 2a viagem missionária do apóstolo, nos anos 49 a 53, de Trôade a Filipos (At 16,10-40), e na 3a viagem, nos anos 53 a 58, de Filipos a Jerusalém (At 20,5s e 21,15). Não abandonou Paulo na prisão dos anos 60 a 62 e de 66 a 67, quando o apóstolo foi decapitado em Roma (At 27,1s).

Alguns dos mais antigos escritores cristãos atestam que Lucas não se casou, que se deu inteiramente à evangelização e que morreu em Tebas (Beócia) com 84 anos de idade. É o único escritor não-judeu da Bíblia.
Lucas destinou seu Evangelho particularmente aos cristãos convertidos do paganismo. É por isso que ele omite certas frases duras para os pagãos (Mt 10,5):”não tomeis o caminho dos gentios”; Mt 15,24: “fui enviado SÓ às ovelhas de
Israel”), e abranda outras (Mt 5,47 compare com Lc 6,33-34 onde não aparece a palavra “pagãos”). Lucas encarece as parábolas da misericórdia, tão favoráveis aos pagãos.
O 3º Evangelho é o do universalismo (Jesus veio para ser luz de todas as nações 2,32), da misericórdia, dos pobres que são os prediletos de Deus, da mulher valorizada, da oração, do Espírito Santo, da alegria, do louvor.
Dos escritos do Novo Testamento (N.T.) em língua grega, Lucas oferece a linguagem mais apurada e elegante, revelando uma cultura elevada, como médico que era.

ROSTO DAS COMUNIDADES DE LUCAS

quinta-feira, agosto 4th, 2016

Rosto das comunidades de Lucas

Gilvander Luís Moreira[1]

As comunidades do Evangelho de Lucas e de Atos dos Apóstolos – obra lucana – apresentam um rosto diferente do rosto das comunidades da Judeia, da Samaria e da Galileia de cunho mais rural, comunidades dos Evangelhos de Marcos e Mateus. Eis, abaixo, seis características do rosto das Comunidades lucanas.

1. As comunidades de Lucas são predominantemente comunidades urbanas, melhor dizendo, das periferias das grandes cidades. No evangelho de Lucas, a palavra grega polis, que, em grego, significa cidade, aparece 40 vezes; em Mateus, 26; e em Marcos, 8. Nos evangelhos sinóticos (Mc, Mt e Lc), o ensinamento é realizado, basicamente, a partir de imagens da natureza, do campo e do trabalho rural (cf. ovelhas, pastores, videira, semente, semeador etc). No livro de Atos dos Apóstolos, essas imagens não aparecem. Isso dá a entender que são comunidades mais urbanas. De fato, no livro dos Atos dos Apóstolos, a palavra cidade aparece 42 vezes.

Comunidades de pobres com alguns ricos. Há um contraste que aparece, sobretudo, no evangelho de Lucas: de um lado, os pobres, famintos, perseguidos, aflitos (Lc 6,20-23) e, do outro, os ricos (Lc 12,16-21) que se banqueteiam sem se preocupar com a miséria dos outros (Lc 16,19-31). Para as comunidades lucanas era importante “não dar murro em ponta de faca”. No meio de uma correlação desigual de forças, melhor infiltrar-se do que confrontar-se com império gigante. Lucas é intransigente em face da opressão econômica e quanto à exigência ética do cristianismo, mas, para fazê-la prevalecer, não se nega ao diálogo cultural e político, a fim de canalizar para o bem a força histórica do mal. Lucas percebeu, muito antes de Paulo Freire, que a melhor forma de amar os opressores é tirar das mãos deles as armas da opressão.

Comunidades nas quais há cristãos que continuam ligados às instituições do Império Romano (Lc 7,1-10). Lucas não quer complicar ainda mais a situação dos cristãos que já estavam sendo perseguidos quando o Evangelho, primeira parte da sua obra, fora escrito. Ele demonstra simpatia pelos romanos ao dar a entender que a própria condenação de Jesus foi motivada pela ignorância romana.[2] Por uma tática de sobrevivência, Lucas tenta passar a ideia de que as comunidades cristãs não são revolucionárias, subversivas. Assim, não cutuca a onça com vara curta, mas se prepara para cutucar com vara grande.

Comunidades que revelam um contexto patriarcal e machista. As mulheres, de uma forma geral, eram desprezadas e marginalizadas na sociedade. Mas no Evangelho de Lucas, Jesus dá prioridade às mulheres,[3] valoriza sua presença e atuação nas comunidades e na sociedade. “Na narração do nascimento de João Batista e de Jesus (Lc 1,5–2,52) rompe-se o padrão que colocava o homem em primeiro plano e que deixava à margem tanto a mulher como a criança. Nessas narrativas, as crianças são apresentadas junto com a presença atuante de suas mães. Elas é que são protagonistas da novidade, anunciadoras das “grandes coisas que o Poderoso fez” (Lc 1,49),[4] mesmo vivendo em um contexto patriarcal e machista.

Comunidades com pessoas cansadas, medrosas, desanimadas e perdidas por causa da situação na qual viviam (Lc 24,13-24). Os cristãos são uma minoria perdida no meio de um imenso império, nas periferias das grandes cidades. Apenas alguns milhares no meio de um Império com cerca de 60 milhões de pessoas. Uns começam a abandonar as comunidades; outros duvidam que Jesus seja o Salvador, têm dificuldade de acreditar que seja possível viver em fraternidade e resistir ao império com suas seduções opressoras.

Comunidades com diversidade de dons os quais se articulavam por meio do cimento da solidariedade. Isso é ótimo, pois o Espírito não se deixa encurralar e não aceita ser engaiolado; sopra onde quer, como quer; é livre e liberta. Paulo reitera diversas vezes: “Não percam a liberdade cristã!” (2Cor 3,17); “Não entristeçam o Espírito Santo!” (Ef 4,30).

Oxalá esse simples texto ajude na compreensão do Evangelho de Lucas e, principalmente, nos inspire na construção de comunidades que, de fato, tenham um rosto parecido com o rosto das Primeiras comunidades cristãs.

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Belo Horizonte, MG, Brasil, 07 de janeiro de 2013.

[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutorando em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina; conselheiro do Conselho Estadual dos Direitos Humanos de Minas Gerais – CONEDH; e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br – www.gilvander.org.br – www.twitter.com/gilvanderluis – facebook: Gilvander Moreira

[2] Cf. Lc 23,34; At 3,17; 7,60; 13,27; 16,29-40; 18,12-17.

[3] Cf. Lc 7,36-50; 8,1-3; 10,38-42; 13,10-17; 15,8-10.

[4] Vasconcellos, P. L. A Boa Notícia segundo a comunidade de Lucas. São Leopoldo, cebi, 1998. p. 37. (Coleção A Palavra na Vida 123/124)

Fonte: http://www.gilvander.org.br/artigos/236-rosto-das-comunidades-de-lucas

Site do Frei Gilvander: http://www.gilvander.org.br/

SEGUIR JESUS EM LUCAS – GILVANDER

quinta-feira, agosto 4th, 2016

Seguir Jesus,

desafio que exige compromisso

(1ª parte)

 Frei Gilvander Luís Moreira

Da periferia ao centro!

Da solidariedade à justiça!

Para tratar do tema “Seguir Jesus, desafio que exige compromisso”, nos apoiaremos na 1ª parte da Viagem Lucana: Lc 9,51-13,21, que está inserida na coluna mestra do Evangelho de Lucas: Lc 9,51–19,27, onde estão os relatos da viagem de Jesus – e do seu Movimento (discípulos e discípulas) – para Jerusalém. Ao longo de quase dez capítulos, o autor da obra lucana relata, em uma típica apresentação, o “êxodo” (= saída, subida) de Jesus como uma grande viagem da Galileia a Jerusalém. Bem mais ampliado do que nos evangelhos de Marcos e Mateus, o relato ocupa a parte central do evangelho de Lucas. O trecho de Lc 9,51–18,14 é próprio de Lucas, o restante (Lc 18,15–19,27) provém do evangelho de Marcos e é semelhante à narrativa do evangelho de Mateus.

O autor do Evangelho de Lucas interpreta a vida, ações e ensinamentos de Jesus ao longo de uma grande caminhada da Galileia até Jerusalém, ou seja, da periferia geográfica e social ao centro econômico, político, cultural e religioso da Palestina. A Palavra, em Lucas, é a palavra de um leigo, de um camponês galileu, “alguém de Nazaré”, pessoa simples, pequena, alguém que vem da grande tribulação. Não é palavra de sumo sacerdote, nem do poder.

Nessa grande viagem, subida para Jerusalém, Jesus prioriza a formação dos discípulos e discípulas. Ele percebe que não tem mais aquela adesão incondicional da primeira hora. Jesus descobriu que para consolar os aflitos era necessário também incomodar os acomodados e denunciar pessoas e estruturas injustas e corruptas. Assim, o homem de Nazaré começou a perder apoio popular. Era necessário caprichar na formação de um grupo menor que pudesse garantir os enfrentamentos que se avolumavam. Jesus sabia muito bem que em Jerusalém estava o centro dos poderes religioso, econômico, político e judiciário. Lá travaria o maior embate.

Na época de Lucas – década de 80 do 1º século -, segundo a cultura helenista, o centro do mundo era a cidade de Roma, a capital do Império Romano. Todas as outras cidades do Império (Jerusalém, Antioquia, Alexandria etc) eram periféricas em relação a Roma. Logo, Jerusalém é cidade periférica em relação a Roma. Mas para o autor da obra lucana, Jerusalém, local da morte e ressurreição de Jesus, é o centro de irradiação da Palavra, pois é capital da Palestina. Jerusalém, a cidade de Davi, é centro em relação a Nazaré, na Galileia, onde Jesus iniciou sua missão pública, após viver uns 30 anos na região.

O Evangelho de Lucas diz: Jesus, cheio do Espírito, em uma proposta periférica alternativa, vai, em uma caminhada, de Nazaré a Jerusalém; ou seja, vai da periferia para o centro, caminhando no Espírito. Em Jerusalém acontece um confronto entre o projeto de Jesus e o projeto oficial. Este tenta matar o projeto de Jesus (e de seu movimento) condenando-o a pena de morte, na cruz. Mas o Espírito é mais forte que a morte. Jesus ressuscita. No final do Evangelho de Lucas, Jesus ressuscitado diz aos discípulos e discípulas: “Permaneçam em Jerusalém até a vinda do Espírito Santo” (Lc 24,49).

Segundo o livro de Atos dos Apóstolos, as comunidades cristãs, testemunhas da ressurreição de Jesus e cheias do Espírito Santo, levam a Palavra de Jerusalém a Roma, o coração do Império. Assim a palavra faz caminho da periferia do Império Romano até o seu centro, a cidade de Roma. Quando o apóstolo Paulo, cheio do Espírito Santo, chega a Roma, como prisioneiro, estando em uma casa alugada e anunciando o reino de Deus, o livro de Atos dos Apóstolos termina. De casa em casa a Palavra faz estrada.

Quais foram os antecedentes da subida de Jesus e seu movimento para Jerusalém? Após enviar os discípulos em missão (Lc 9,1-6), Jesus começa a inquietar inclusive o governador Herodes (Lc 9,7-9). Vários discípulos querem se esquivar da responsabilidade diante da fome dos pobres: “Despede a multidão. Assim eles podem ir aos povoados e campos vizinhos para procurar alojamento e comida, pois estamos em um lugar deserto” (Lc 9,12). Mas Jesus começa a mostrar que segui-lo é um desafio que exige compromisso: “Vocês é que têm de lhes dar de comer.” (Lc 9,13). E mostra o caminho: organizar os pobres, reconhecer a bênção do Deus da vida que envolve tudo e partilhar o pão com a participação de todos no processo (Lc 9,10-17).

Lucas faz questão de mostrar que Jesus é o Messias, mas não do jeito que muitos interpretavam. Nascido de mulher (Gálatas 4,4), Jesus se torna messias, mas como servo sofredor. Por isso, não basta aceitar Jesus. É preciso, também, abraçar o projeto de Jesus e se comprometer com a luta por justiça, o que implica consolar os aflitos e afligir os consolados. Já se sentindo ameaçado de morte – e de ressurreição -, segundo uma eloquente narrativa, Jesus se transfigura no meio de conflitos e ameaças de morte, na presença memorial de Elias e Moisés, dois profetas representantes da profecia e do que há de melhor na Lei mosaica (Lc 9,28-36).

Ameaçado de morte, Jesus expulsa espíritos impuros (Lc 9,37-43) e alerta: “Prestem atenção ao que eu vou dizer: O Filho do Homem vai ser entregue na mão dos homens”. (Lc 9,44). Jesus sendo perseguido e discípulos disputando para ser “o maior” (Lc 9,46). Que contradição! Nesse contexto, Lucas faz questão de mostrar que não dá para continuar só com solidariedade, com religião de panos quentes, isto é, religião burguesa, aquela que, como calmante, tranquiliza a consciência, mas se omite diante de muitas injustiças. É preciso subir para Jerusalém. Jesus não vai só, vai com seu movimento.

Assim, Jesus de Nazaré nos ensina a caminhar da periferia ao centro, da solidariedade à justiça!

Belo Horizonte, MG, Brasil, 14 de julho de 2013.

 

EVANGELHO DE LUCAS – MÊS BÍBLICO 2013

quinta-feira, agosto 4th, 2016

MÊS BÍBLICO 2013 – Evangelho de Lucas

 

Tema: “Discípulos e missionários a partir do Evangelho de Lucas”

Lema: “Alegrai-vos comigo, encontrei o que estava perdido” (Lc 15).

 

Caros leitores e leitoras,

Graça e Paz!

A sociedade e a cultura greco-romanas e, particularmente, o império romano – que marcaram profundamente o contexto do Evangelho de Lucas – anunciavam e prometiam a paz e a segurança vindas dos poderosos, do centro para a periferia. A realidade, entretanto, era bem outra: sofrimento da periferia em proveito do bem-estar do centro. O caminho de Jesus, no Evangelho de Lucas, contrapõe-se a isso: Jesus anuncia a boa-nova e convoca à solidariedade e à justiça social, indo da periferia para o centro.

O domínio do império romano era exercido por meio de guerras constantes pelo poder e de numerosos impostos, que caíam pesadamente sobre a população pobre, 90% da qual composta de camponeses. Muitas pessoas se endividavam, perdiam suas terras e acabavam tendo de trabalhar como arrendatárias, meeiras e diaristas, isso quando não ficavam sem trabalho (cf. Lc 14,12-14). Além de os impostos serem altos, havia trabalhos forçados para sustentar as obras e os exércitos do império. O Templo, em grande medida, era conivente com essa situação e também cobrava inúmeras taxas. A vida do povo tornava-se cada vez mais precária e dura.

Toda essa realidade afetava a comunidade cristã de Lucas, seja pela adoção da mesma cultura de falta de solidariedade e conformação com as injustiças, seja pela experiência direta da opressão. São muitas as evidências disso em todo o evangelho: a parábola que fala de um abismo entre o pobre Lázaro e o rico epulão (texto exclusivo de Lucas); o canto de Maria profetizando a derrubada dos poderosos e a elevação dos humildes; Jesus apresentado como o ungido pelo Espírito para anunciar a boa-nova aos pobres e oprimidos; as bem-aventuranças anunciadas aos pobres e os “ais” dirigidos aos ricos que se fecham à compaixão, à solidariedade e à justiça social (lembs bem-aventuranças de Mateus não há a parte dos “ais”)…

Também nas primeiras comunidades cristãs, assim como hoje, havia o problema dos marginalizados, os conflitos sociais e o individualismo e indiferentismo religioso. As comunidades cristãs entraram em crise, sentiam-se sem rumo, inseguras, perdiam a identidade, crescia o desânimo pela demora da realização do reino de Deus, alguns caíam na descrença e tendiam a abandonar o caminho. Era necessario fazer uma releitura da Palavra e da prática de Jesus à luz da realidade da comunidade, reavivando a “solidez dos ensinamentos recebidos” (Lc 1,4), voltando às origens a fim de encontrar luzes para o momento presente e retomar a prática da partilha e da solidariedade.

Por isso o Evangelho de Lucas dá atenção especial às pessoas pobres e marginalizadas, chamando os ricos à conversão (como no caso de Zaqueu – cf. Lc 19,1-10) e ressaltando a importância da solidariedade e da partilha: a riqueza só é bênção de Deus se for partilhada (cf. Lc 12,13-21; 16,19-31). Esse evangelho reforça a necessidade da oração perseverante e insiste na conversão permanente, pois a salvação começa no hoje da história para as pessoas que se abrem ao projeto de Deus misericordioso.

Que a reflexão e a oração suscitadas por esse evangelho nos ajudem – a nós que vivemos em um país tão desigual – a abrir o coração para a solidariedade e a justiça social, dando nosso apoio e participação em iniciativas e políticas públicas que promovam a redistribuição de renda, sem desanimar diante das dificuldades. Lembremos aquilo que dizia dom Hélder Câmara: falar das causas das injustiças sociais e denunciá-las não é comunismo, como algumas vezes se acusa injustamente, é Evangelho de Jesus Cristo.

Pe. Jakson Ferreira de Alencar, ssp

Editor da Revista Vida Pastoral

 

1- Caminho aberto para o próximo

 

“Visto que muitos já tentaram compor uma narração dos fatos que se cumpriram entre nós – conforme no-los transmitiram os que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da Palavra – a mim também pareceu conveniente, após acurada investigação de tudo desde o princípio, escrever-te de modo ordenado, ilustre Teófilo, para que verifiques a solidez dos ensinamentos que recebeste” (Lc 1,1-4).

Conforme as regras literárias do século I, o autor explica o motivo de sua obra, método, destinatário e objetivo.

A obra lucana é composta por dois livros: evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos. O primeiro livro apresenta a vida, as atividades e os ensinamentos de Jesus, desde a Galileia até Jerusalém. O segundo livro narra a vida e o desenvolvimento das primeiras comunidades cristãs de Jerusalém até Roma. Essa obra descreve o caminho da Palavra: da periferia para o centro; do ambiente do campo para a cidade; do mundo judaico para um ambiente de cultura grega. Segundo a compreensão romana, o reino de César anunciava que a paz e a segurança vinham dos poderosos, do centro para a periferia.

Como historiador, o escritor se propõe a fazer uma investigação cuidadosa, retomando os acontecimentos desde as origens. Ele recolhe informações de outras fontes, como, por exemplo, do evangelho de Marcos, do evangelho Q e da tradição das comunidades. A obra de Lucas é destinada a Teófilo, nome que pode indicar uma pessoa importante, alguém que deve ter financiado o seu trabalho. Mas o nome Teófilo também significa aquele que ama a Deus. É possível que essa obra tenha sido dedicada às amigas e aos amigos de Deus.

De acordo com a apresentação, o objetivo é claro: “para que verifiques a solidez dos ensinamentos que recebeste” (Lc 1,4). A finalidade dessa obra é animar as comunidades que estão enfrentando desânimo, cansaço, insegurança e descrença. Muitas pessoas estão abandonando a comunidade (Lc 24,13). É preciso reavivar a fé das comunidades cristãs e retomar o fervor missionário.

Para conhecer a mensagem e os possíveis destinatários do evangelho de Lucas, vamos  apresentar algumas palavras-chave desse livro.

 

Mensagem e destinatários

Ao apresentar a sua narrativa, o autor utiliza com frequência as seguintes palavras: cidade, pobres, multidão, oração, salvação, conversão e misericórdia.

 

a) Cidade

É usada cerca de trinta e nove vezes no evangelho de Lucas; em Mateus, vinte e seis vezes, e em Marcos, nove. A cidade é a sede da organização e o lugar dos poderosos (Lc 2,1-3; 3,1-2). A constante repetição da palavra cidade nos faz pensar que o terceiro evangelho foi escrito para pessoas e comunidades localizadas nas cidades, com a presença de ricos e pobres (Lc 19,1-2).

 

b) Pobres

Desde o início, no cântico de Maria, ouvimos: “Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias” (Lc 1,52-53). De acordo  com o evangelho de Lucas, a missão de Jesus é evangelizar os pobres: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para evangelizar os pobres” (Lc 4,18). Os pobres são os preferidos de Deus: “Ide contar a João o que vedes e ouvis: os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciado o Evangelho” (Lc 7,22; cf. 6,20). De maneira dura, Jesus critica a avareza dos ricos, o acúmulo e a falta de compaixão e solidariedade com os pobres (Lc 12,16-21; 16,19-31).

 

c) Multidão/multidões

É muita gente ao redor de Jesus: “as multidões se aglomeravam a ponto de sufocá-lo” (Lc 8,42; cf. 5,1.3.15; 19.29; 8,19.45; 11,29; 12,1; 14,25). Em Lucas, o discurso das bem-aventuranças foi proclamado diante de uma imensa multidão (Lc 6,17-19). A multidão testemunha os gestos de Jesus ao curar o servo de um centurião, ao ressuscitar o filho único da viúva de Naim, ao libertar as pessoas de espíritos impuros (Lc 7,9.11-12; 11,14). Por diversas vezes, Jesus se dirige à multidão (Lc 7,24; 8,4; 12,54), que sempre o acompanha (Lc 18,36; 19,3). A multidão acolhe Jesus, e ele também acolhe as multidões (Lc 8,40; 9,11.37). Jesus é solidário com a multidão faminta no deserto (Lc 9,12.16). As multidões seguem Jesus e procuram definir quem é ele (Lc 9,18-21). A multidão se alegra com as maravilhas realizadas por Jesus (Lc 13,17).

 

d) Oração

Palavra que é usada cerca de setenta vezes no evangelho de Lucas! É o evangelho que mais apresenta Jesus rezando e convida a comunidade a rezar. Só Lucas coloca Jesus rezando no batismo (Lc 3,21), após o milagre (Lc 5,16), antes da escolha dos Doze (Lc 6,12) e da confissão de Pedro (Lc 9,18), no momento da transfiguração (Lc 9,28-29) e no Getsêmani (Lc 22,46). Esse evangelho insiste na necessidade de ser perseverante na oração (Lc 11,5-8; 18,1), especialmente nos momentos de dificuldades (Lc 22,40.46). É um evangelho que reforça a necessidade de buscar a vontade de Deus e não simplesmente o cumprimento da Lei (Lc 18,2 14).

e) A salvação “hoje”

“Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo-Senhor” (Lc 2,11). Em Cristo, Deus nos oferece a salvação no tempo presente: “Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura” (Lc 4,21). Na casa de Zaqueu, Jesus afirma: “Hoje a salvação entrou nesta casa” (Lc 19,9). E mesmo na cruz, Jesus promete ao bom ladrão: “Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43). É um convite para acolher Deus que em Jesus visita o seu povo. O evangelho de Lucas nos ajuda a viver o seguimento de Jesus no hoje de nossas vidas!

 

f) Conversão

Em muitas passagens, o evangelho de Lucas destaca a salvação dos pecadores, mas exige que a pessoa esteja disposta a mudar de vida: “não vim chamar os justos, mas sim os pecadores, ao arrependimento” (Lc 5,32). A salvação não está garantida unicamente pelo cumprimento das exigências da Lei, mas é um processo permanente (Lc 13,1-5; 6-9).  Deus é paciente e nos espera sempre, como podemos ler na parábola da figueira: “Senhor, deixa-a ainda este ano para que cave ao redor e coloque adubo. Depois, talvez, dê frutos… Caso contrário, tu a cortarás” (Lc 13,8-9). Sempre há mais uma chance. Converter-se exige levantar, voltar, reconhecer a sua condição e pedir perdão… é reviver: “este meu filho estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi reencontrado” (Lc 15,24.32).

 

g) Misericórdia

O evangelho de Lucas reforça a misericórdia de Deus: “Graças ao misericordioso coração do nosso Deus, pelo qual nos visita o Astro das alturas” (Lc 1,78). Um coração que ama a partir das entranhas, amor que se manifesta no perdão e na acolhida: é como o pastor que procura a ovelha perdida e faz festa quando a encontra; ou como a mulher que procura a moeda perdida e quando a encontra reúne e celebra com suas amigas e vizinhas; é como o pai da parábola que acolhe seus filhos de maneira incondicional (Lc 15,1-32). Mesmo no momento da morte, Jesus pede a Deus que perdoe seus inimigos: “Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem” (Lc 23,43).

O evangelho de Lucas apresenta Jesus realizando a sua missão na cidade e, preferencialmente, no meio de pessoas pobres, doentes, mulheres, estrangeiras, samaritanas e pecadoras. Gente excluída e à margem da sociedade.

Esse evangelho reforça a necessidade da oração perseverante e insiste na conversão permanente, pois a salvação acontece no hoje da história para as pessoas que se abrem ao projeto de Deus misericordioso.

Desde a pregação de Jesus nos anos 30 até os anos 80, as comunidades aguardam a chegada do Reino de Deus. E nada… Ao contrário, há muito sofrimento, dominação e exploração. A desconfiança e a dúvida se instalam na comunidade cristã, e muitas pessoas estão a prática de Jesus. Nesse contexto, o autor faz uma releitura da vida e da prática de Jesus; ele reforça o compromisso com as pessoas marginalizadas e combate o ritualismo e o legalismo, insistindo na prática da misericórdia. Conhecendo um pouco mais o projeto do evangelho de Lucas, vejamos quem é o autor desta obra.

Autor do evangelho de Lucas

Cada evangelho surgiu numa comunidade específica que conhecia quem era o seu autor  ou os seus autores. Os nomes dos autores não constavam no texto porque não era preciso.

Assim, circularam de forma anônima, mais ou menos, até o ano 150 d.C., quando começava-se a definir a lista dos livros considerados inspirados do  Novo Testamento. É nesse  momento que os evangelhos foram atribuídos a Marcos, Mateus, Lucas e João. O nome Lucas é citado na carta de Paulo a Filêmon (v. 24), e aparece mais duas vezes: uma em Cl 4,14 e outra em 2Tm 4,11, que são cartas escritas por discípulos de Paulo.

Ao compararmos Lucas e Atos com as Cartas de Paulo, encontraremos diferenças importantes que nos levam a crer que o Evangelho e os Atos não foram escritos por esse Lucas que foi companheiro de Paulo. Em Atos dos Apóstolos, Paulo é descrito como um missionário que tem poder de curar doentes, de expulsar demônios e ressuscitar mortos (At 14,3.8-10; 16,16-18.25-34; 20,4), mas não é considerado um apóstolo.

Nas cartas, como em 2Cor 12,5-10, o próprio Paulo se apresenta como uma pessoa frágil, sem poder algum, mas afirma ser apóstolo, chamado e enviado por Jesus, que por amor a Cristo crucificado faz-se solidário com os crucificados da história. Além disso, em Atos dos Apóstolos, Paulo é muito semelhante a Pedro, é mais inclinado a se adaptar diante das exigências dos judeus, e se apresenta como cidadão romano, o que não acontece nas cartas paulinas.

O autor de Lucas e Atos deve ter sido outra pessoa. Ele não era da Palestina, pois se atrapalha ao falar da geografia da região. Possivelmente um admirador de Paulo, talvez membro de uma das comunidades de origem paulina ou um prosélito grego, alguém que entrou em contato com a religião judaica, estudou a fundo as Escrituras e mais tarde aderiu ao evangelho de Jesus Cristo.No fim do século, as comunidades vivem um momento crítico em sua caminhada, correm o risco de abandonar o projeto de Jesus e assimilar os valores propostos pela sociedade greco-romana. Algumas pessoas caem na descrença e no desânimo, abandonando a caminhada (Lc 24,13.21). Diante dos desafios de seu tempo, o autor procura reavivar a memória da prática de Jesus tendo como objetivo principal “verificar a solidez dos ensinamentos recebidos” (Lc 1,4). Para isso, ele apresenta quem é Jesus de Nazaré e o que é preciso fazer para segui-lo.

 

Pisando o chão das comunidades de Lucas

A obra lucana teve a sua redação final por volta do ano 85. Essa obra pode ter sido escrita na cidade de Antioquia da Síria, Éfeso, ou mesmo numa cidade da Grécia. Para nós, o mais importante é saber que surgiu numa cidade grande, sob o domínio do império romano e em comunidades fundadas por Paulo, compostas por estrangeiros/as e judeus cristãos. A grande maioria era pobre, mas havia também algumas pessoas ricas (cf. 1Cor 4,13). Essa mistura gerou vários conflitos internos. Além das dificuldades internas, as comunidades há muito tempo enfrentavam várias situações de sofrimento. O domínio do império romano foi marcado por guerras constantes pelo poder e por numerosos impostos. A situação do povo foi piorando cada vez mais.

Muitas pessoas ficaram endividadas, perderam suas terras e acabaram tendo que trabalhar como arrendatárias, meeiras, diaristas ou mesmo sem trabalho (Lc 14,12-14). Vivendo nessa realidade, as comunidades cristãs entraram em crise. Eis alguns acontecimentos que marcaram profundamente a vida dessas comunidades:

 

• Em 64 d.C., Nero começou a perseguir os cristãos em Roma.

• Entre os anos 66 e 73 d.C., aconteceu a Guerra Judaica, tendo como consequência  o desaparecimento de vários grupos influentes na vida do povo judeu.

• Por volta do ano 70 d.C., o templo e a cidade de Jerusalém foram destruídos. Os únicos grupos que sobreviveram foram o dos fariseus e o dos cristãos, que fugiram para as regiões vizinhas.

• Por volta de 85 d.C., começa uma perseguição contra os grupos de judeus hereges;  entre eles está o grupo de cristãos, que é expulso da sinagoga.

 

Após a Guerra Judaica, o grupo de judeus-fariseus procurou reconstruir e reorganizar o povo judeu na sinagoga. Pouco a pouco, esse grupo ganhou força, foi reconhecido pelo poder romano e recebeu o direito de cobrar tributo do povo judeu. Participar da sinagoga era uma espécie de carteira de identidade. As autoridades judaicas retomaram a rigorosa observância da Lei judaica, e quem desobedecia ou discordava era perseguido e eliminado. Foi o que aconteceu com o grupo de judeu-cristãos. Nesse período, as primeiras lideranças das comunidades cristãs, como Pedro, Paulo, Maria Madalena, já haviam morrido. As cristãs e os cristãos estavam vivendo num ambiente de mentalidade grega. Na cidade reinava a lógica  do lucro, do dinheiro e do comércio, inclusive de vidas humanas. O sistema escravista era predominante nas cidades greco-romanas. A competição, a ganância e o acúmulo de riquezas criaram um verdadeiro abismo entre ricos e pobres (Lc 16,19-31). A prática da partilha e  da solidariedade foi deixada de lado. Tornou-se um ideal muito distante. As comunidades cristãs sentiam-se perdidas, inseguras e sem rumo. Havia uma forte crise de identidade. Nesse contexto, era necessário fazer uma releitura da palavra e da prática de Jesus a partir da realidade da comunidade.

Era preciso voltar às origens, procurando encontrar luzes para viver o momento presente. A realidade das comunidades exige atualizar a prática de Jesus. A existência de ricos cada vez mais ricos e a presença de miseráveis nas comunidades cristãs mostram que é preciso retomar a prática da partilha e da solidariedade (Lc 6,20-38). Por isso, o evangelho de Lucas e o livro dos Atos dos Apóstolos dão uma atenção especial às pessoas pobres e marginalizadas, insistindo na importância da partilha.

 

Conhecendo a propostado evangelho de Lucas

Espírito, conversão dos ricos, imagem de Deus misericordioso e caminho são elementos importantes para conhecermos qual é a proposta do evangelho de Lucas.

 

a) Espírito

A presença do Espírito é constante. Ele atua na vida de João Batista e na de Jesus antes de eles nascerem (Lc 1,15.35). Esse mesmo Espírito se faz presente no momento do batismo (Lc 3,22). É o Espírito quem conduz Jesus ao deserto e em seu ministério na Galileia (Lc Em Lucas, Jesus é apresentado como ungido pelo Espírito para anunciar a Boa-nova aos pobres e oprimidos (Lc 4,17-20). A partir do momento que Jesus inicia a sua missão, pouco se fala do Espírito, pois ele está presente em Jesus e age a partir dele. De acordo com a promessa de Jesus, o Espírito Santo estará presente nos momentos de perseguição e na realização da missão (Lc 12,12; 24,49).

Diante do medo e da insegurança das comunidades cristãs, o autor tenta reavivar a fé da comunidade, reforçando que o Espírito de Deus atua em Jesus e em cada pessoa que adere à prática da partilha e da solidariedade com as pessoas pobres e excluídas.

 

b) Conversão dos ricos

No evangelho de Lucas, há uma catequese que convoca os ricos à solidariedade. A  riqueza só é bênção de Deus se for partilhada (Lc 12,13-21; 16,19-31). Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos, ao encontrar Jesus realiza a partilha e é reintegrado na sociedade; ele é “filho de Abraão”, ou seja, ele também tem direito de pertencer ao povo de Deus (Lc 19,1-10). Trata-se de uma catequese para os ricos se abrirem ao projeto da partilha e da solidariedade, convite estendido a todas as pessoas cristãs.

 

c) Deus misericordioso

As páginas do evangelho de Lucas nos revelam o rosto misericordioso de Deus, que age em Jesus. Um Deus que nos ama de maneira incondicional e que está sempre aberto para acolher suas filhas e seus filhos (Lc 15,1-32). Em Jesus, Deus oferece o perdão às pessoas pecadoras. A mulher é perdoada porque muito amou; o mesmo acontece com Zaqueu, que se dispõe a mudar de vida (Lc 7,36-50; 19,1-10). Diante do homem necessitado, o samaritano “moveu-se de compaixão” (Lc 10,29-37). O samaritano é como Jesus, que sente a dor do outro a partir das entranhas e se aproxima de seus semelhantes.

 

d) Caminho

A obra lucana segue o caminho da periferia para o centro: as atividades de Jesus começam na Galileia e terminam em Jerusalém, e o livro dos Atos começa em Jerusalém e termina em Roma. É no caminho que Jesus ensina as exigências do discipulado, tendo como pontos centrais a oração, a misericórdia e a partilha. E quanto mais se aproxima do centro – Jerusalém ou Roma – lugar da morte, da ressurreição e da missão, é preciso coragem para não recuar. É o caminho da Palavra! É o caminho de cada pessoa que adere à prática de Jesus.

Uma leitura atenta do evangelho de Lucas nos traz muitos apelos, e o principal é o da misericórdia. É um convite a nos deixar mover pela compaixão. Assim estaremos no caminho de Jesus.

 

Conhecendo a estrutura do texto

O autor do evangelho de Lucas tem grande habilidade para escrever, conhece e emprega muito bem as regras literárias do seu tempo. Ele está preocupado em apresentar, de maneira ordenada e clara, os acontecimentos a respeito de Jesus desde as origens. Por meio de seu escrito, a pessoa que lê é transportada para o contexto e o tempo de Jesus na Judeia e na Galileia.

Olhando o conjunto do evangelho de Lucas acerca das atividades de Jesus, podemos perceber que há uma organização geográfica cujo percurso é a Galileia, o caminho, ou a subida para Jerusalém, e a cidade de Jerusalém. A partir desse ponto de vista, após a apresentação do nascimento de João Batista e de Jesus (Lc 1,5-2,52) e a preparação para o ministério de Jesus (Lc 3,1-4,13), o evangelho pode ser dividido em três partes:

 

1 • A atividade de Jesus na Galileia (Lc 4,14–9,50).

2 • A viagem para Jerusalém(Lc 9,51–19,28).

3 • Em Jerusalém(Lc 19,29–24,53).

 

Na primeira parte, acompanhamos os passos de Jesus na Galileia não como os fariseus e os doutores que murmuram e armam ciladas para Jesus,  mas com a disposição de aprender dele a solidariedade com as pessoas marginalizadas. Impulsionado pelo Espírito, Jesus parte de Nazaré para Cafarnaum (Lc 4,31), anuncia a palavra de Deus à  margem do lago da Galileia (Lc 5,1), percorre cidades e aldeias (Lc 5,12; 8,1), sobe à montanha  para rezar (Lc 6,12), anuncia num lugar plano (Lc 6,17), retorna a Cafarnaum (Lc 7,1) e, em seguida, vai  para Naim (Lc 7,11). Entrando na segunda parte, viajamos com Jesus para Jerusalém. No caminho, Jesus ensina a seus discípulos o amor ao próximo, a importância de ouvir e praticar a palavra, o valor da oração, o cuidado com a administração dos bens, a misericórdia e o cuidado especial com as pessoas pobres e marginalizadas. Em vários momentos, o autor reforça que Jesus segue para Jerusalém (Lc 9,51.53; 13,22; 17,11; 19,11.28.41).

Chegando a Jerusalém, entramos na terceira parte, Jesus aparece no Templo e enfrenta as autoridades judaicas: “Minha casa será uma casa de oração. Vós, porém, fizestes dela um covil de ladrões” (Lc 19,46). Jesus permanece na cidade até o fim de sua vida. Aí vive o mistério de sua paixão, morte e ressurreição.

Seguir Jesus significa colocar-se ao lado das pessoas marginalizadas e excluídas da história. Mesmo correndo risco de morte, Jesus não recua, mas segue adiante e paga com sua própria vida: ele é crucificado. Mas a morte não tem a última palavra: ele ressuscita, está vivo e caminha conosco. A missão continua amparada pelo Espírito de Deus.

 

Um roteiro para ler o evangelho de Lucas

Desde as primeiras páginas do evangelho de Lucas, Jesus é proclamado o Salvador enviado por Deus (Lc 1,46b-47). É tempo de renovar a esperança e a fé na presença de Deus que visita o seu povo. Esse evangelho apresenta uma releitura da vida e da prática de Jesus com a intenção de ajudar as comunidades cristãs a retomar o seguimento de Jesus. Acompanhando os passos de Jesus nesse evangelho, descobrimos a presença de um Deus amoroso e compassivo.

 

O evangelho de Lucas é conhecido como o evangelho do caminho.

No caminho, Jesus transmite seus principais ensinamentos a seus seguidores e seguidoras. Seguir Jesus exige deixar-se mover pela compaixão e aproximar-se das pessoas marginalizadas  e excluídas. Esse foi o caminho de Jesus, e o da pessoa cristã não pode ser diferente.Entre as muitas possibilidades de leitura desse evangelho, eis o caminho que propomos: o encontro entre Maria e Isabel (Lc 1,39-56) é um convite para acreditarmos na solidariedade fraterna que gera comunhão de vida. Com Maria, queremos celebrar a presença de Deus na história do seu povo e em nossa história. Como Maria, que se coloca a caminho para servir Isabel, que sai da periferia para o centro, a comunidade cristã do século I e nossas comunidades hoje são chamadas a seguir Jesus, fazendo-se solidárias com as pessoas necessitadas.

O evangelho de Lucas proclama quatro bem-aventuranças aos pobres e quatro maldições contra os ricos, ou seja, são advertências contra a sociedade individualista e a busca desenfreada de riquezas (Lc 6,20-26).

Nesse contexto, as bem-aventuranças anunciam a transformação de uma sociedade injusta e o projeto de inclusão social para as pessoas marginalizadas e excluídas. A prática do amor e da justiça exige de cada pessoa cristã o compromisso com a construção de uma sociedade justa e fraterna.

Outro texto que nos ajuda a retomar a prática da misericórdia é a parábola do samaritano (Lc 10,25-37). No tempo de Jesus e das primeiras comunidades, ainda havia um excessivo apego às leis. Um judeu, para ser puro diante de Deus, devia cumprir as exigências da Lei: pagar dízimo, dar esmolas, orar, jejuar, guardar o sábado e não manter contato com as pessoas que eram consideradas impuras, por exemplo: deficientes físicos, doentes, pobres, indigentes e estrangeiros, como o samaritano, por exemplo.

“Quem é o meu próximo” é a perspectiva de quem se preocupa com o cumprimento da Lei; a parábola inverte a questão: “quem se tornou próximo daquele  que caiu nas mãos dos  assaltantes?” (Lc 10,36). É uma parábola que provoca uma revisão de nossas atitudes e preconceitos. É um espelho que nos ajuda a refletir se vivemos a compaixão e a solidariedade ou se ainda continuamos apegadas/os às normas e prescrições que, muitas vezes, nos impedem de vivermos a fraternidade.

A leitura da parábola do pai misericordioso (Lc 15,11-32), que ama seus filhos de maneira incondicional, contém um forte apelo para vivermos a misericórdia. No tempo de Jesus, a teologia oficial, conhecida como a teologia da retribuição, afirmava que Deus recompensava uma pessoa justa com riqueza, vida longa e descendência, e uma pessoa injusta com pobreza, esterilidade e sofrimentos. Os pobres, os doentes, as pessoas com alguma deficiência física e os estrangeiros eram considerados impuros (Ex 20,5; Sl 38,2-6).

De acordo com a Lei oficial, era proibido o contato com pessoas impuras. Indo na contramão da teologia oficial, muitos grupos continuaram afirmando que Deus não abandona os pobres, mas caminha com as pessoas que sofrem, ele “protege o estrangeiro, sustenta o órfão e a viúva” (Sl 146,9). Não é o Deus do sacrifício, mas o Deus da misericórdia. É esse o rosto de Deus que Jesus nos revela na parábola do pai misericordioso. É preciso entrar e participar da festa da vida, “pois esse teu irmão estava morto e voltou a viver”.

Será que nós entraremos nessa festa?Para coroar a leitura do evangelho, propomos a narrativa dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35).

A decepção e a frustração estão presentes nos sentimentos dos discípulos de Emaús: “Nós esperávamos que fosse Jesus, o nazareno, quem libertaria Israel”. Os discípulos e o povo esperavam um messias-rei que fosse forte e derrotasse o império romano, dando liberdade para o povo judeu e restabelecendo a realeza de Israel. Esse ensinamento fazia parte da catequese oficial dos judeus e era a maneira de pensar de muitas pessoas. Por isso, os seguidores e as seguidoras de Jesus tiveram dificuldade de entender a maneira de agir de Jesus. Nessa realidade de dúvida e descrença, a comunidade de Lucas descreve como fez a experiência de Jesus ressuscitado na comunidade. Que o Espírito de Deus nos dê abertura para vivermos a partilha e a solidariedade e, assim, renovar a certeza de que o Ressuscitado está vivo entre nós.

O caminho de Jesus é o caminho da compaixão e da solidariedade. É caminho aberto

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Fonte http://leituraorante.comunidades.net/1-caminho-aberto-para-o-proximo

 

SENHOR EM LUCAS

quinta-feira, agosto 4th, 2016

QUEM É  ‘O SENHOR’? (Lc 1-2)

DEUS    -    JESUS

Lc 1,  6  Obedeciam fielmente a todos os mandamentos e ordens do Senhor. (________)

Lc 1,  9   ele foi sorteado para entrar no Santuário do Senhor, (____________)

Lc 1, 11   apareceu a Zacarias um anjo do Senhor. (____________)

Lc 1, 15  porque ele vai ser grande diante do Senhor. (____________)

Lc 1, 16  Ele reconduzira muitos do povo de Israel ao Senhor seu Deus.

Lc 1, 17  preparando para o Senhor (____________) um povo bem disposto.»

Lc 1, 25 Ela dizia: «Eis o que o Senhor (____________) fez por mim,

Lc 1, 28 Alegre-se, cheia de graça! O Senhor  (____________) está com você!»

Lc 1, 32 será chamado Filho do Altíssimo. E o Senhor  (____________) dará a ele

Lc 1, 38 «Eis a escrava do Senhor  (____________). Faça-se em mim segundo

Lc 1, 43 Como posso merecer que a mãe do meu Senhor  (__________) venha me visitar?

Lc 1, 45 porque vai acontecer o que o Senhor  (____________) lhe prometeu.»

Lc 1, 46 A minha alma proclama a grandeza do Senhor, (____________)

Lc 1, 58 ..ouviram dizer como o Senhor (____________) tinha sido bom para Isabel,

Lc 1, 66 De fato, a mão do Senhor  (____________) estava com ele.

Lc 1, 68 «Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo

Lc 1, 76 porque irá à frente do Senhor, (____________) para preparar-lhe os caminhos

Lc 2, 9 Um anjo do Senhor  (____________) apareceu aos pastores;

Lc 2, 9  a glória do Senhor  (____________) os envolveu em luz,

Lc 2, 11 nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor (____________).

Lc 2, 15 ver esse acontecimento que o Senhor  (____________) nos revelou.»

Lc 2, 22  Terminados os dias da purificação deles, conforme a Lei de Moisés, levaram o menino para Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor (____________),          23 conforme está escrito na Lei do Senhor (____________): «Todo primogênito de sexo masculino será consagrado ao Senhor (____________).»

Lc 2,24 Foram também para oferecer em sacrifício: um par de rolas ou dois pombinhos, conforme ordena a Lei do Senhor (____________).

Lc 2, 26  não morreria sem primeiro ver o Messias prometido pelo Senhor. (__________)

Lc 2, 29   «Agora, Senhor, (____________) conforme a tua promessa,

Lc 2, 39  Quando acabaram de cumprir conforme a Lei do Senhor, (____________)

 

  1. Quantas vezes aparece a palavra ‘SENHOR’?  ____________
  2. Quantas vezes aparece a ‘Lei, mandamento, ou ordem do SENHOR’? ___________
  3. Qual é a diferença entre ‘a Lei do Senhor’ e  ‘a Lei de Moisés’ (2,22)?
  4. Descreve “O que é do Senhor”?__________________________________________

____________________________________________________________________

____________________________________________________________________

  1. Descreve “Quem é o Senhor”?___________________________________________

____________________________________________________________________

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QUEM É  ‘O SENHOR’? Lc 3-24

DEUS    -    JESUS   -   (PATRÃO, DONO ou ADMINISTRADOR)

Lc 3, 4  preparem o caminho do Senhor (____________), endireitem suas estradas.

Lc 4, 8  Escritura diz: ‘Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele

Lc 4, 12Escritura diz: ‘Não tente o Senhor seu Deus’.»

Lc 4, 18 «O Espírito do Senhor (____________) está sobre mim,

Lc 4, 19  proclamar um ano de graça do Senhor (____________).

Lc 5,8  Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: «Senhor (____________), afasta-te de mim, porque sou um pecador

Lc 5,12 O leproso caiu aos pés de Jesus e pediu: «Senhor (____________), se queres,      tu tens o poder de me purificar!

Lc 5,17  E o poder do Senhor (____________) estava em Jesus, fazendo-o realizar curas.

Lc 6, 5 «O Filho do Homem é Senhor (____________) do sábado.

Lc 6, 46  Por que vocês me chamam: ‘Senhor! Senhor!’ (____________), e não fazem o que eu digo?

Lc 7, 6 O centurião:  «Senhor (____________), não te incomodes, pois eu não sou digno de que entres em minha casa…

Lc 7,13    Ao vê-la, o Senhor(____________) teve compaixão dela, e lhe

Lc 7,19    João Batista os mandou perguntar ao Senhor (____________): «És tu aquele que há de vir ou devemos esperar por outro?

Lc 9,54   Tiago e João disseram: «Senhor (____________), queres que mandemos descer fogo do céu para acabar com eles?

Lc 9,59   Ele, porém, respondeu: (Senhor) (____________), permite-me ir primeiro sepultar meu pai.

Lc 9,61    disse: «Eu te seguirei, Senhor (____________), mas deixa primeiro que eu vá me despedir do pessoal da minha casa.

Lc10,1      O Senhor (____________) escolheu outros setenta e dois discípulos….

Lc10, 2     “… Rogai, pois, ao Senhor (____________) da seara que mande trabalhadores para a sua seara.”

Lc 10,17  Os setenta e dois voltaram muito alegres, dizendo: «Senhor (____________), até os demônios obedecem a nós por causa de seu nome!

Lc 10,21  Jesus disse: “Eu te louvo, Pai, Senhor (____________) do céu e da terra….”

Lc 10,27  o doutor da lei então respondeu: “Ame  ao Senhor, seu Deus, com todo o seu coração…”

Lc 10,39   Maria, sentou-se aos pés do Senhor (____________), e ficou escutando a sua palavra…

Lc 10,40   Marta aproximou-se e falou: “Senhor (____________), não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço?…”

Lc 10,41   O Senhor (____________), porém, respondeu: «Marta, Marta!…..

Lc 11,1       um dos discípulos pediu: “Senhor (____________), ensina-nos a rezar, como João também ensinou os discípulos dele!”

Lc 11,39   O Senhor (____________) disse ao fariseu: “Vocês, limpam o copo…”

Lc 12, 35  «Estejam com os rins cingidos e com as lâmpadas acesas. 36 Sejam como homens que estão esperando o seu Senhor (____________)  voltar da festa de casamento: tão logo ele chega e bate, eles imediatamente vão abrir a porta.   37 Felizes dos empregados que o Senhor (____________) encontra acordados quando chega. Eu garanto a vocês: ele mesmo se cingirá, os fará sentar à mesa, e, passando, os servirá. 38 E caso ele chegue à meia-noite ou às três da madrugada, felizes serão se assim os encontra! 39 Mas, fiquem certos: se o dono da casa  soubesse a hora em que o ladrão iria chegar, não deixaria que lhe arrombasse a casa. 40 Vocês também estejam preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que vocês menos esperarem.»

Lc 12,41    Então Pedro disse a Jesus: «Senhor (____________), estás contando essa parábola só para nós, ou para todos?»

Lc 12,42   E o Senhor (____________)  respondeu: «Quem é o administrador fiel e prudente, que o Senhor (____________) coloca à frente do pessoal de sua casa, para dar a comida a todos na hora certa? 43 Feliz o empregado que o Senhor (____________), ao chegar, encontra fazendo isso! 44 Em verdade, eu digo a vocês: ele lhe confiará a administração de todos os seus bens. 45 Mas, se esse empregado pensar: ‘Meu Senhor (____________) está demorando’, e se puser a surrar os criados e criadas, a comer, beber, e embriagar-se, 46 o Senhor (____________) desse empregado chegará num dia inesperado e numa hora imprevista e  o expulsará de casa, e o fará tomar parte do destino dos infiéis.

Lc 12,47  Todavia  aquele  empregado que,  mesmo  conhecendo a vontade do seu Senhor (____________), não ficou preparado, nem agiu conforme a vontade dele, será chicoteado muitas vezes. 48 Mas, o empregado que não sabia, e fez coisas que merecem castigo, será chicoteado poucas vezes. A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido.»

Lc 13,8      o agricultor respondeu: ‘Senhor (____________), deixa a figueira ainda este ano…’

Lc 13,15    O Senhor (____________) lhe respondeu:  “Hipócritas! …”

Lc 13,23   Alguém lhe perguntou: «Senhor (____________), é verdade que são poucos os que se salvam?”

Lc 13,25   …e começarão a bater na porta, dizendo: ‘Senhor (____________),  abre a porta para nós!’

Lc 13,35  “…Bendito aquele que vem em nome do Senhor.” (____________)

Lc 14, 21    Voltando o servo, tudo contou ao seu Senhor (____________).

Lc 14,22    O empregado disse: ‘Senhor (____________), o que mandaste fazer, foi feito e ainda há lugar!

Lc 14,23    Respondeu-lhe o Senhor (____________): Sai pelos caminhos e atalhos e

Lc 16,1 Jesus dizia aos discípulos:

«Um homem rico tinha um administrador que foi denunciado por estar esbanjando os bens dele. 2 Então o chamou, e lhe disse: ‘O que é isso que ouço contar de você? Preste contas da sua administração, porque você não pode mais ser o meu administrador’. 3 Então o administrador começou a refletir:     ‘O Senhor (____________)  vai tirar de mim a administração. E o que vou fazer? Para cavar, não tenho forças; de mendigar, tenho vergonha. 4 Ah! Já sei o que vou fazer para que, quando me afastarem da administração tenha quem me receba na própria casa’. 5 E começou a chamar um por um os que estavam devendo ao seu Senhor. (____________) Perguntou ao primeiro: ‘Quanto é que você deve ao Senhor ? ’ (____________) 6 Ele respondeu: ‘Cem barris de óleo!’ O administrador disse: ‘Pegue a sua conta, sente-se depressa, e escreva cinqüenta’. 7 Depois perguntou a outro: ‘E você, quanto está devendo?’ Ele respondeu: ‘Cem sacas de trigo’. O administrador disse: ‘Pegue a sua conta, e escreva oitenta’ ».

Lc 16,8 E o Senhor (____________) elogiou o administrador desonesto, porque este agiu com esperteza. De fato, os que pertencem a este mundo são mais espertos, com a sua gente, do que aqueles que pertencem à luz.

Lc 17,5      Os apóstolos disseram ao Senhor (____________): «Aumenta a nossa fé!»

Lc 17,6      O Senhor (____________) respondeu: “Se vocês tivessem a fé…”

Lc 17,37     Os discípulos perguntaram: «Senhor (____________), onde acontecerá isso?»

Lc 18,6     E o Senhor (____________) acrescentou: «Escutem o que está dizendo

Lc 18,41   O cego respondeu: «Senhor (____________), eu quero ver de novo.»

Lc 19,8    Zaqueu ficou de pé, e disse ao Senhor (____________): «A metade dos meus bens, Senhor, (____________) eu dou aos pobres;

Lc 19,16  O  primeiro chegou, e disse: ‘Senhor (____________), as cem moedas renderam

Lc 19,18  O segundo chegou, e disse: ‘Senhor (____________), as cem moedas renderam

Lc 19,20  Chegou o outro empregado, e disse: ‘Senhor (____________), aqui estão as cem moedas

Lc 19,25   Os presentes disseram: ‘Senhor (____________), esse já tem mil moedas!’

Lc  19,31   vocês responderão: ‘Porque o Senhor (____________) precisa dele’.»

Lc 19,34  Os discípulos responderam: «Porque o Senhor (____________) precisa dele.»

Lc 19,38     A multidão dizia:  “Bendito seja aquele que  vem como Rei, em nome do Senhor (____________)! Paz no céu e glória no mais alto do céu!”

Lc 20,13    Então, disse o Senhor (____________)  da vinha: Que farei?

Lc 20,15    Que lhes fará, pois, o Senhor (____________)  da vinha?

Lc 20,37 E que os mortos ressuscitam, já Moisés indica na passagem da sarça, quando chama o Senhor (____________)  de ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’

Lc 20, 41  Então Jesus disse a eles: «Como podem dizer que o Messias é filho de Davi?      42 Pois o próprio Davi diz no livro dos Salmos: ‘O Senhor (____________) disse ao meu Senhor (____________): Sente-se à minha direita, 43 até que eu ponha seus inimigos como lugar onde você apóia os pés’. 44 Portanto, Davi o chamou de Senhor (____________). Como pode, então, o Messias ser filho dele?»

Lc 22,33   Mas Simão falou: «Senhor (____________), contigo estou pronto para ir até mesmo para a prisão e para a morte!»

Lc 22,38   Eles disseram: «Senhor (____________), aqui estão duas espadas.»

Lc 22,49  Os que  estavam com Jesus disseram: «Senhor (____________), vamos atacar com a espada?»

Lc 22,61   Então o Senhor (____________) se voltou, e olhou para Pedro se lembrou de que o Senhor (____________) lhe havia dito: “Hoje, antes que o galo cante…”

Lc 24,3     Mas, ao entrar não encontraram o corpo do Senhor Jesus,

Lc 24,34  E estes confirmaram: “Realmente, o Senhor (____________) ressuscitou, e apareceu a Simão!”

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VEJA SENHOR NA BÍBLIA

 

GILVANDER – OS POBRES NA OBRA DE LUCAS

quinta-feira, agosto 4th, 2016

Os pobres na obra de Lucas (Lc e At). E em nós?

Frei Gilvander Luís Moreira* (04-02-2013)

Os pobres, hoje, incomodam muitos, comovem outros. Muitos se tornam indiferentes diante da dor e dos clamores dos pobres. Uns pensam que basta fazer filantropia. Outros se comprometem com a causa dos pobres e por eles doam a vida. Como o evangelho de Lucas e o livro de Atos dos Apóstolos encaram os pobres?

No evangelho de Lucas (Lc) os pobres não são espiritualizados, como o evangelho de Mateus pode sugerir à primeira vista, mas têm conotações concretas. São carentes economicamente, marginalizados e excluídos socialmente. Não têm relevância na sociedade.    Os  Atos dos Apóstolos (At),      2º volume da obra lucana, aprofundam mais essa radicalidade. O apóstolo Pedro, por exemplo, declara-se em absoluta pobreza, não tendo nem prata e nem ouro, mas somente a Palavra que revigora e reanima os cansados (At 3,6).

O contraste entre ricos e pobres transcende as dimensões socioeconômicas. A categoria pobre compreende presos, cegos, oprimidos (Lc 4,18), famintos, desolados, aborrecidos, difamados, perseguidos, marginalizados (Lc 6,20-22), coxos, leprosos, surdos e até mortos (Lc 7,22). Para a ideologia hegemônica, que é sempre a da classe dominante, pobres são a escória, os dejetos e a imundície da sociedade. São usados e não amados. A riqueza é, quase sempre, uma armadilha mortal para a pessoa humana, pois, muitas vezes, envolve a pessoa em um processo de desumanização, ao prometer estabilidade, reforçar a auto-suficiência e causar muitas injustiças.

No evangelho de Lucas, as bem-aventuranças têm uma orientação social (Lc 6,20-23). Dirigem-se aos discípulos como os verdadeiramente pobres, famintos, aflitos, injustiçados e excluídos do mundo onde há organização para uma minoria e caos para a maioria. Lucas não tende a espiritualizar a condição dos seus discípulos, como à primeira vista faz Mateus nas bem-aventuranças (Mt 5,1-12). As prescrições que Mateus acrescenta — pobres em espírito, fome e sede de justiça — respeitam a condição de diversos membros da comunidade mista a quem a narração evangélica é dirigida. Em Lucas a pobreza, a fome, a aflição, o ódio e o exílio caracterizam a situação concreta e existencial dos discípulos e das discípulas de Jesus Cristo, que é quem Jesus declara feliz.

No evangelho segundo Lucas aparece nitidamente uma opção pelos pobres, contra a pobreza. Os ricos não são excluídos a priori, mas são convidados a abandonar a idolatria do capital e do poder e a tornarem-se pobres. O servo sofredor padre Alfredinho dizia: “O mundo vai virar um paraíso no dia em que os ricos desejarem passar fome”. Lucas é duro contra os ricos e a riqueza (Lc 6,24).

“Cuidem dos enfraquecidos!” (At 20,35). Eis um apelo forte do apóstolo Paulo no seu testamento espiritual, escrito por Lucas, que conservava na mente e no coração a imagem de Paulo como alguém que dava atenção especial aos empobrecidos. É provável que nas comunidades de Lucas, no fim do século I, um desejo grande de fidelidade ao passado estivesse gerando esquecimento dos empobrecidos e excluídos. Estes nem sempre podem respeitar as regras da comunidade. Para Paulo, o sinal por excelência da autenticidade do ministério era o amor desinteressado e gratuito aos pobres.  Essa opção aparece de modo muito eloquente quando Paulo diz às comunidades de Antioquia que a única coisa que a Assembleia de Jerusalém fez questão de alertar foi: “Nós só deveríamos nos lembrar dos pobres…” (Gálatas 2,10). No discurso aos presbíteros, em At 20,17-35, Lucas alerta para o cuidado com os pobres, porque provavelmente os presbíteros estavam preocupando-se menos com aqueles e agindo mais como “os falsos pastores que apascentam a si mesmos e devoram as ovelhas” (Ezequiel 34,8-10). Estariam eles gastando mais energias com os ritos do que com a promoção humana dos excluídos e com a luta por justiça?

A teologia lucana propõe uma mística evangélica que seja uma Boa Notícia para os pobres, isto é, para cegos, surdos, mudos, presos, alienados, doentes e pecadores; enfim, para marginalizados e excluídos. Lucas é muito realista, porque percebe que a Boa Notícia para os pobres é, normalmente, péssima notícia para os opressores e violentadores dos pobres. Lucas defende não toda e qualquer notícia, mas apenas aquela que traz qualidade de vida para todos e para tudo, a partir dos oprimidos.

Jesus de Nazaré, segundo Lucas, encontra-se com os pobres e com eles se compromete. Sua vida, que conhecemos também por suas posturas e ensinamentos, caracteriza-se por encontros com pessoas do seu círculo de amizade e com pessoas do mundo dos excluídos. Jesus foi sempre um inconformado com as injustiças e com os sistemas injustos, um sonhador que cultivava a utopia bonita do Reino de Deus no nosso meio. Jesus tinha os pés no chão, mas o coração nos céus. Era um profeta, alguém sensível, capaz de captar os sussurros e os apelos de Deus por meio das entranhas dos fatos históricos. O Galileu foi uma testemunha, um mártir, que não apenas disse verdades, mas doou a vida pelas verdades que defendia.

Jesus e seu movimento, em uma postura altamente irreverente, deixam-se envolver, apaixonar-se, compadecer-se pelo povo sofrido e revelam um grande esforço de transformação. Desmistificam o que é mistificado pelo senso comum. Des-idolatram deuses e ídolos que concorrem em uma imensa gritaria tentando seduzir as pessoas para projetos escravizadores. Des-sacralizam o poder, desmascarando o poder religioso, o político e o econômico que, endeusados, promovem grandes atrocidades. Des-dualizam a forma de encarar a realidade — com Jesus, “o véu do templo se rasga” (Lc 23,45) e “ninguém deve chamar de impuro aquilo que Deus criou” (At 10,15). Não há mais separação entre puro e impuro, entre santo e pecador, entre transcendência e imanência, entre dentro e fora, entre sagrado e profano, entre céu e terra, entre humano e animal etc. Tudo e todos são banhados pela dimensão divina e transcendente da vida. Em cada um(a) de nós estão o feminino e o masculino, o bem e o mal, o sagrado e o profano.

Enfim, oxalá esta rápida retrospectiva sobre a relação de Jesus e seus discípulos/as com os pobres nos inspirem na construção de uma sociedade para além do capitalismo e para além do capital.

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*Frei Gilvander Luís Moreira, padre da Ordem dos carmelitas, mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblica, de Roma, Itália; é professor de Teologia Bíblica; assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT, assessor do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI, assessor do Serviço de Animação Bíblica – SAB e da Via Campesina em Minas Gerais,

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/517442-os-pobres-na-obra-de-lucas-lc-e-at-e-em-nos                 Site do Frei Gilvander: http://www.gilvander.org.br/

ILDO PERONDI – O EVANGELHO DE LUCAS

quinta-feira, agosto 4th, 2016

O EVANGELHO DE LUCAS

Frei Ildo Perondi – ildo.perondi@pucpr.br

1. Introdução

 

Lucas é o autor do Terceiro Evangelho e também do Livro dos Atos dos Apóstolos. Lucas é médico (cf. Cl 4,14) e acompanhou o Apóstolo Paulo em sua missão. Ele é grego e não conheceu Jesus pessoalmente. Porém, para escrever seu Evangelho, ele fez uma pesquisa muito bem feita (cf. Lc 1,1-4). No esquema de Lucas, o Antigo Testamento foi o tempo da Promessa e da preparação de um povo. Com Jesus temos o anúncio do Reino de Deus. Jesus é o cumprimento das promessas. Em seguida começa o tempo em que o Reino e a mensagem de Jesus devem ir pelo mundo todo. É o tempo da Igreja. Poderíamos ver o seguinte esquema:

 

Antigo Testamento

DEUS PAI

Evangelho de Lucas

JESUS CRISTO (FILHO)

Atos dos Apóstolos

ESPÍRITO SANTO

Tempo da Promessa e Aliança

Preparação do povo de Deus

Reinado de Deus

Tempo de Jesus

Vinda e atividade de Jesus

Anúncio do Reino de Deus

Tempo da Igreja

Primeiras Comunidades

Expansão a todo o mundo

 

O Evangelho de Jesus inicia e termina no Templo (1,5s; 24,53). Lucas narra os dois anúncios de nascimentos em forma paralela. Existem semelhanças e diferenças significativas:

 

Algumas semelhanças

Algumas diferenças

- Os dois anúncios são feitos pelo Anjo Gabriel.

- Os dois anúncios são sobre nascimento de

crianças

- Em ambos o Anjo diz: “não tenha medo”.

- Nos dois anúncio, já vem a missão daquele que

vai nascer.

- O primeiro anúncio é ao pai; o segundo à mãe.

- O primeiro se dá no templo e o segundo é feito

em uma casa.

- A origem de João é humana; de Jesus é divina;

- Zacarias duvida e por isso fica mudo. Maria

questiona, mas não duvida.

 

2. Preparação e tentações:

 

Encontramos João Batista que faz a preparação para a atividade de Jesus. Depois vemos que Jesus também se prepara. Vai ao deserto. No Antigo Testamento, o deserto foi o lugar onde o povo de Deus se preparou para a entrada na Terra Prometida. Jesus também vai ao deserto. Ali fica em oração, jejua, depois volta sempre conduzido pelo Espírito. É assim “abastecido” que Jesus enfrenta as tentações: ter, poder, prazer… Interessante notar como o tentador utiliza a Escritura para tentar Jesus. O diabo perde e deixa Jesus, mas o Evangelista adverte que ele voltará no tempo oportuno (22,3.53), isto é, na Paixão de Jesus, tentando fazer Jesus abandonar o seu projeto. Mas Jesus é fiel aqui no início e será também lá na hora da cruz.

3. O projeto de Jesus (Lc 4,14-22):

 

Jesus volta do deserto e não vai para Jerusalém, isto é, para o centro do poder. Ele vai para a Galiléia, que é a periferia, onde moram e vivem os pobres e onde a opressão é maior. É da periferia que Jesus faz irromper seu projeto na história e não do centro.

Jesus vai a sinagoga em dia de Sábado. Este dia era importante para os judeus, pois foi o Dia em que Deus descansou da sua obra. Os judeus também repousavam neste dia e iam à sinagoga rezar e estudar a Torá (Lei). Na sinagoga Jesus faz a segunda leitura (a primeira era do Pentateuco e não podia ser mudada, no decorrer de um ano eles liam todos os cinco primeiros livros da Bíblia). A segunda leitura podia ser escolhida. Jesus escolhe o texto de Is 61,1-4 (Lucas cita com algumas modificações). Depois da leitura todos ficaram olhando para Jesus. Eles conheciam o texto que Jesus leu. A expectativa era para ver qual era a interpretação que ele iria dar. Jesus diz: “Hoje se cumpriu esta passagem”. Ou seja, Jesus assumiu o compromisso de viver e levar adiante o projeto anunciado por Isaías, que consistia em:

a) Anunciar a boa notícia aos pobres. O Reino de Deus é dos pobres e eles são os destinatários privilegiados por Jesus. Não devemos aqui buscar os “pobres em espírito” ou espiritualizar o texto.

b) Proclamar a libertação dos presos: Na região da Galiléia havia muitos presos, sobretudo políticos, porque aí haviam revoltas contra os romanos e aí atuavam os zelotes. Portanto, era uma notícia que interessava a muitas famílias da região que possuíam algum filho ou parente preso.

c) Recuperar a vista aos cegos: Devemos entender os três tipos de cegos que existiam: cegos que tinham problemas de saúde e não enxergavam bem; cegos por causas políticas (os romanos algumas vezes furavam o olho de quem passava pelas prisões); e os alienados, que não enxergavam “um palmo na frente do nariz”, isto é, vítimas da opressão e que não percebiam a dominação.

d) A liberdade aos oprimidos: A opressão era sentida pelos pobres, mas também por todo o povo. Era a opressão romana, do império estrangeiro (como os USA fazem hoje no mundo), mas também a repressão de Herodes, governador da Galiléia e que era judeu. E havia a opressão da Lei, isto é, da religião que exigia tantas coisas que o povo não podia cumprir[1].

e) Proclamar o Ano da Graça do Senhor: Este talvez era o ponto mais importante. O Ano Jubilar devia acontecer a cada 50 anos (cf. o Levítico 25). Porém nunca havia mesmo sido colocado em prática. Seria o tempo em que a terra voltaria aos seus antigos donos; os presos e escravos seriam libertados; e as dívidas seriam perdoadas… Quem não gostaria que isso acontecesse?

Este anúncio deixou todos “admirados”… Em Lucas esta expressão aparece muitas vezes. Vamos ver que tudo o que Jesus diz ou faz deixa o povo “admirado”…

4. A prática na Sinagoga (Lc 6,6-11):

Jesus está de novo na sinagoga e outra vez em dia de sábado. E ali ensinava. Estavam ali alguns que não queria ouvi-lo, mas queriam espiar, isto é, ver bem o que ele ia fazer. Neste dia estava presente um homem com uma mão atrofiada. Estava sentado no chão, fora do grupo. Não foi o homem que pediu para ser curado. Ele sabia que não podia fazer isso em dia de sábado. Mas foi Jesus que tomou a iniciativa. Jesus pediu que o homem ficasse de pé e que viesse para o meio da assembléia. Jesus começa a falar e depois ordena que o homem estenda a mão e ela ficou curada. Os espiões não ficaram “admirados”, mas começaram a tramar o que deveriam fazer com Jesus.

A atitude de Jesus com o homem é bonita. Jesus vê quem está fora do grupo, excluído da assembléia. Lembramos que a iniciativa foi de Jesus, pois não foi o homem que pediu para ser curado. “Perceber quem está fora; levantar os caídos e colocá-los no meio, incluí-los na sociedade!”  esta é nossa tarefa também. É tarefa da nossa Igreja hoje, ainda que sempre existam aqueles que espiam.

 

5. O Reino de Deus:

 

Jesus dá um nome ao projeto que ele vem anunciar: o Reino de Deus! Esta expressão é usada em Lucas e Marcos[2]. Já no Antigo Testamento, quando o povo de Deus saiu da escravidão do Egito e entrou na Terra Prometida, se dizia que era Deus que reinava sobre o povo, e se falava do Reinado de Deus. Esta sociedade se chamava tribalismo. Mas depois de um tempo veio a monarquia. E parece que esta mudança não agradou muito a Deus (veja o texto de 1Sm 8,1-22. Veja também Jz 8,23). Portanto, o povo de Deus queria livrar-se da opressão e esperava que Deus outra vez voltasse a reinar no meio do povo.

Jesus não só anuncia o Reino de Deus, mas começa a colocá-lo em prática e por isso, vai até os pobres e abandonados, defende os oprimidos, cura os doentes, e toda a sua prática é em vista do Reino de Deus.

 

6. As Bem-aventuranças (Lc 6,20-26):

Em Lucas 6,20-23 também encontramos as Bem-aventuranças. Porém, o texto é bastante diferente daquele de Mateus (veja Mt 5,1-12). Em Mateus as bem-aventuranças são anunciadas no monte; em Lucas o anúncio é na planície. Em Lucas são apenas quatro as bem-aventuranças e logo em seguida temos também as maldições (Lc 6,24-26), ou seja, um “ai de vós”, correspondente a cada uma das bem-aventuranças.

Com este anúncio Jesus quer nos mostrar que o Reino de Deus deve ser de alegria, deve trazer esperança aos pobres, a quem tem fome, a quem hoje chora e a quem está sendo perseguido por causa de Jesus.

 

7. O Pai Nosso (Lc 11,1-4)

Muitos biblistas pensam que esta fórmula do Pai Nosso seja aquela que Jesus rezou. Ela é mais curta do que a oração que está no Evangelho de Mateus que já pode ter incluído o modo como o Pai Nosso era rezado na Igreja primitiva (Mt 6,9-13). Em Lc o texto é mais sintético.

Em primeiro lugar, a oração é dirigida a Deus Pai, seu Nome deve ser santificado. Assim Jesus segue a tradição judaica de ter respeito com o nome de Deus, e acompanha o Profeta Isaías que defendi tanto a santidade de Deus. Deus é “Santo, Santo, Santo” (Is 6,3) e por isso o povo também deve ser santo.

Depois devemos pedir que o Reino venha. O Reino é antes de tudo de Deus e por isso, devemos pedi-lo. Mas, o reino é também nosso, e por isso devemos anunciá-lo e colocá-lo em prática.

Pedimos a Deus o pão cotidiano, de cada dia, ou “o pão de amanhã”, como sugerem algumas traduções. Aqui Jesus continua seguindo fiel ao AT. Lá na dura caminhada pelo deserto foi o Senhor Deus que mandou o maná para saciar a fome do povo. Deus continua sendo o Deus que acompanha o seu povo.

Pedimos também a Deus o perdão dos nossos pecados. Jesus sabe que somos humanos, e que por mais santos que sejamos, sempre teremos os nossos pecados contra os outros e contra Deus. Mas Jesus dá uma condição: nós queremos que Deus nos perdoe do mesmo modo que nós perdoamos os nossos irmãos. Por isso, para sermos perdoados por Deus, precisamos também perdoar.

Por fim, Jesus pede que Deus não nos deixe cair na tentação. Ele mesmo foi tentado e venceu. Todos estamos sujeitos s sermos tentados (poder, ter e prazer). Jesus não pede que não tenhamos tentações, mas que tenhamos forças para não cair nelas…

 

8. A compaixão e misericórdia de Jesus:

Lucas é um médico e por isso se interessa muito pelas emoções das pessoas, e por isso freqüentemente mostra como Jesus tem compaixão e misericórdia do povo, sobretudo dos mais pobres e dos doentes.

Lucas também faz questão de dizer que no momento da oração no Horto das Oliveiras Jesus “suou sangue” (22,44). Só um médico poderia afirmar isso, com certeza.

 

9. Jesus caminha conosco! (Lc 24,13-35)

 

O texto de Lucas 24,13-35 (é mais conhecido como “Os discípulos de Emaús”) e é um dos mais bonitos da Bíblia e que pode ser interpretado de tantas maneiras, e que tanto pode nos ajudar na nossa caminhada. Vamos ver alguns pontos importantes que nos ajudam a entender melhor a sua mensagem:

 

1.         Dois discípulos caminham e estão com medo (motivos para o medo é que não faltam!). Fogem da cidade grande, fogem do lugar onde mataram o Mestre. Só sabemos o nome de um deles (poderiam muito bem ser um casal, pois só um fala -  homem; no final da caminhada entram numa casa, estão á mesa).

2.         Jesus se “aproxima” deles. A iniciativa é de Jesus. E começa a caminhar com eles.

3.         Jesus faz uma perguntinha. Nem precisava, Ele conhecia o problema e o medo deles. Mas Jesus se faz de desconhecido. Chega até a receber uma repreensão: “És o único forasteiro que não sabes?”. Os olhos deles estão fechados. E seu rosto está sombrio.

 

4.         Jesus escuta, gasta tempo em ouvir a história deles. Só um deles fala. Vejam por quanto tempo Jesus ficou escutando… Quem está angustiado e com medo, precisa ser escutado, para depois ser animado.

 

5.         Chegou a vez de Jesus também dar uma repreensão a eles: “Como vocês são lerdos para entender!”. O medo muitas vezes existe dentro de nós, porque deixamos que ele nos feche os olhos.

 

6.         Jesus começa a usar a Bíblia. Jesus mostra que conhece bem a Bíblia. Jesus começa por Moisés e percorre todos os Profetas (isso significa todo o AT). Usa o texto certo, na hora certa, para as pessoas certas, do jeito certo (como a canção do Pe. Zezinho).

 

7.         Chegam à encruzilhada. Jesus faz de conta que vai embora. Eles o convidam à entrar na casa: “Fica conosco…” Isso mostra que ele já não é um estranho. Só convidamos para entrar na casa quem nós conhecemos…

 

8.         Jesus abençoa e parte o pão. Assim como a Palavra alimentou o espírito deles, o corpo também precisa ser alimentado e nutrido. Pão a ser partilhado, deve ser pão abençoado.

 

9.         Quando Jesus se torna refeição, entra dentro deles e por isso “pode ir embora fisicamente”. Mesmo ficando invisível, Jesus continua com eles.

 

10.      Eles então começam a refletir. Lembram-se dele, como Ele caminhou com eles, das coisas que Ele falou…

 

11.      Os discípulos recordam o efeito da Palavra “ela fez o coração arder” – “pegar fogo!”.    Mas o que fez eles abrirem os olhos foi o gesto da partilha.

 

12.      Então decidem retornar. Voltar de onde partiram. Agora já é noite. Mas já não existe    mais o medo. Voltam para a cidade assassina. Vão encontrar os outros irmãos que      estão com medo.

 

13.      Jesus caminhou com os discípulos que estavam tristes e com medo. E Jesus caminha conosco e podemos encontrá-lo sempre:

a) quando fazemos as nossas caminhadas (sobretudo se estamos tristes e com medo);

b) quando ouvimos a Palavra de Deus;

c) quando o convidamos para entrar na nossa casa e no nosso coração;

d) quando comungamos e partimos o pão;

e) quando vamos à comunidade que se encontra reunida.



[1] Segundo os escribas e fariseus, o reino de Deus e o Messias só viriam quando o povo conhecesse e cumprisse a Lei. Havia 613 preceitos que todo “bom judeu” devia cumprir. 365 preceitos (número dos dias do ano) eram negativos: “Tu não farás…” e 248 (número total de ossos do corpo) eram positivos (“Tu farás…”).

[2] No Evangelho de Mateus, a mesma expressão tem o nome de Reino dos Céus (ou “do Céu”, que é a mesma coisa. No hebraico a palavra é “há-shamaim” é plural e pode ser traduzida por “céu” ou “céus”). Mateus usa Reino “dos Céus” pois escreve a judeus, e evita de pronunciar o nome de Deus, como era costume entre os judeus daquele tempo. No Evangelho de João “Reino de Deus” só aparece duas vezes e no sentido escatológico. João prefere usar a palavra “vida” para indicar o projeto de Jesus “Eu vim para que todos tenham Vida e Vida em abundância” (Jo 10,10).

INTRODUÇÃO DA BÍBLIA DOS CAPUCHINOS

quinta-feira, agosto 4th, 2016

Introdução ao Evangelho de São Lucas

Tradução da Difusora Bíblica – Capuchinos

O terceiro Evangelho é atribuído a Lucas, que também é o autor dos Actos dos Apóstolos. Segue os usos dos historiógrafos do seu tempo, mas a história que ele deseja apresentar é uma história iluminada pela fé no mistério da Paixão e Ressurreição do Senhor Jesus. O seu livro é um Evangelho, uma história santa, uma obra que apresenta a Boa-Nova da salvação centrada na pessoa de Jesus Cristo.

DIVISÃO E CONTEÚDO

O esquema geral do livro é o mesmo que se encontra em Mateus e em Marcos: uma introdução, a pregação de Jesus na Galileia, a sua viagem para Jerusalém, a Paixão e Ressurreição como cumprimento final da sua missão. A construção literária é elaborada com cuidado e reflecte grande sensibilidade, procurando salientar os tempos e lugares da História da Salvação e pondo em evidência a projecção existencial do projecto evangélico.

Prólogo (1,1-4) em que anuncia o tema, o método e o fim da sua obra. Lucas expõe por ordem o que se refere à vida e à mensagem de Jesus de Nazaré, filho de Maria, Filho de Deus.

  1. Evangelho da infância (1,5-2,52) de João Baptista e de Jesus.
  2. Prelúdio da missão messiânica de Jesus (3,1-4,13).
  3. Ministério de Jesus na Galileia (4,14-9,50): a sua atitude face às multidões, aos primeiros discípulos e aos adversários (4,31-6,11); o seu ensino aos discípulos (6,12-7,50); a associação estreita dos Doze à sua missão (8,1-9,50).
  4. Subida de Jesus a Jerusalém (9,51-19,28). O esquema literário de Lucas é, ao mesmo tempo, original, mas artificial, sem continuidade geográfica nem progressão doutrinal. Tal quadro permite ao autor reunir uma série de elementos, em parte convergentes com os de Mateus e Marcos, colocando-os na perspectiva do evento pascal, a consumar-se na cidade de Jerusalém. Jesus dirige-se a Israel, chamando-o à conversão; mas é, sobretudo, para os discípulos que os seus ensinamentos se orientam, tendo em conta o tempo em que já não estará presente entre eles.
  5. Ministério de Jesus em Jerusalém (19,29-21,38): o ensino de Jesus no templo (20,1-21,37).
  6. Paixão, morte e ressurreição de Jesus (22,1-24,53): a narração da Paixão e as narrações da Páscoa (22,1-24,53). Omitindo a tradição das aparições na Galileia e situando todos os eventos pascais em Jerusalém, Lucas põe em evidência o lugar central daquela cidade na História da Salvação. De lá vai irradiar também a mensagem evangélica, relatada pelo mesmo autor no livro dos Actos.

 

O TEMPO DE JESUS E O TEMPO DA IGREJA

Uma das ideias-chave de Lucas é distinguir o tempo de Jesus e o tempo da Igreja. Sem esquecer a singularidade única do acontecimento salvífico de Jesus Cristo, põe em relevo as etapas da obra de Deus na História. Mais do que Mateus e Marcos, ao falar de Jesus e dos discípulos, Lucas pensa já na Igreja, cujos membros se sentem interpelados a acolher a mensagem salvífica na alegria e na conversão do coração. É isso que faz deste livro o Evangelho da misericórdia, da alegria, da solidariedade e da oração. No respeito pelo ser humano, a salvação evangélica transforma a vida das pessoas, com reflexos no seu interior, nos seus comportamentos sociais e no uso que fazem dos bens terrenos.

Jesus anuncia a sua vinda no fim dos tempos, o qual, segundo Lucas, coincidirá com o termo do tempo da Igreja. Mas a insistência deste evangelista na salvação presente, na realeza pascal do Senhor Jesus, na acção do Espírito Santo na Igreja, contribuem para atenuar a tensão relativa à iminente Parusia. A própria destruição de Jerusalém, vista como um acontecimento histórico, despojando-o da sua projecção escatológica, presente em Mateus e Marcos, é sinal de uma consciência viva do dom da salvação presente no tempo da Igreja.

 

COMPOSIÇÃO E DATA

Na composição do seu Evangelho, Lucas utilizou grande parte de materiais comuns a Marcos e Mateus, além dos que lhe são próprios e dos contactos com o Evangelho de João. Todos os materiais da tradição estão marcados pelo trabalho do autor, que se reflecte quer na sua ordenação, quer no vocabulário, quer no estilo. A arte e a sensibilidade de Lucas manifestam-se na sobriedade das suas observações, na delicadeza de atitudes, no dramatismo de certas narrações, na atmosfera de misericórdia das cenas com pecadores, mulheres e estrangeiros. A composição deste Evangelho é situada por volta dos anos 80-90, porque Lucas deve ter conhecido o cerco e a destruição da cidade de Jerusalém por Tito, no ano 70.

 

DEDICATÓRIA E AUTOR

O livro é dedicado a Teófilo, mas destina-se a leitores cristãos de cultura grega, como se vê pela língua, pelo cuidado em explicar a geografia e usos da Palestina, pela omissão de discussões judaicas, pela consideração que tem pelos gentios.

Segundo uma tradição antiga (Santo Ireneu), o autor é Lucas, médico, discípulo de Paulo. Pelas suas características, este Evangelho encontra-se mais próximo da mentalidade do homem moderno: pela sua clareza, pelo cuidado nas explicações, pela sensibilidade e pela arte do seu autor. Lucas mostra o Filho de Deus como Salvador de todos os homens, com particular atenção aos pequeninos, pobres, pecadores e pagãos. Para ele, o Senhor é Mestre de vida, com todas as suas exigências e com o dom da graça, que o discípulo só pode acolher de coração aberto.

Por isso, Lucas é o Evangelho da Salvação universal, anunciada pelo Profeta dos últimos tempos que convida discípulos profetas, aos quais envia o Espírito Santo, para que, por sua vez, sejam os profetas de todos os tempos e lugares (Lc 24,45-49; Act 1,8).

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INTRODUÇÃO DA BÍBLIA PASTORAL

quinta-feira, agosto 4th, 2016

INTRODUÇÃO AO EVANGELHO SEGUNDO SÃO LUCAS

BÍBLIA PASTORAL

COM JESUS NASCE UMA NOVA HISTÓRIA

O terceiro Evangelho é a primeira parte de uma obra desde o início concebida como um todo; sua continuação é o livro dos Atos dos Apóstolos (Lc 1,1-4; At 1,1ss). No Evangelho, Lucas apresenta o caminho de Jesus; em Atos, temos o caminho da Igreja. Juntos, formam o caminho da salvação, com o centro de referência em Jerusalém. Esta cidade é o ponto de chegada do caminho de Jesus. Aí ele vai morrer, ressuscitar e subir ao céu, terminando a sua missão. É também o ponto de partida do caminho da Igreja que prossegue a missão de Jesus até os confins da terra (At 1,8).

O Evangelho de Lucas apresenta o caminho de Jesus como caminho que se realiza na história. Para percorrê-lo, o Filho do Altíssimo (1,32) se faz homem em Jesus de Nazaré (2,1-7), trazendo para dentro da história humana o projeto de salvação que Deus tinha revelado, conforme a promessa feita no Antigo Testamento (1,68-70).

O caminho de Jesus inicia o processo de libertação na história, e por isso realiza nova história: a história dos pobres e oprimidos que são libertos para usufruírem a vida dentro de novas relações entre os homens. O programa da ação libertadora de Jesus é apresentado no seu discurso na sinagoga de Nazaré (4,16-22). Por essa razão, o caminho provoca confronto, choque com aqueles que julgam a história como já realizada e querem manter o sistema organizado. Tal sistema, porém, mostra apenas a história tal como é contada pelos ricos e poderosos, que exploram e oprimem o povo, reduzindo-o à miséria e fraqueza. O caminho de Jesus força a revisão dessa história, e começa a contar a história a ser construída pelos pobres (1,46-55; 1,67-79). Desse modo, surge entre os homens o caminho da salvação, que é o caminho da paz (1,79).

O ápice do terceiro Evangelho está nas palavras de Jesus na cruz: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (23,46). A morte de Jesus é a sua libertação nas mãos de Deus. É a conseqüência da sua vida e atividade voltada para os pobres e oprimidos, provocando toda a violência do sistema baseado na riqueza e no poder. Mas a morte é também a libertação, é o resultado da obediência total e confiante a Deus. Por isso Lucas vê a morte de Jesus como «assunção», o ápice do caminho de Jesus para o mistério de Deus. Jesus faz da sua vida e morte ato de humilde entrega a Deus. E Deus responde com a ressurreição (At 2,22-24; 3,15), que revela e legitima o caminho de Jesus como o caminho da vida.

O caminho de Jesus é, portanto, a pedagogia que ensina a fazer a história dos pobres que buscam um mundo mais justo e mais humano. Com efeito, Jesus traz o projeto para uma ordem nova, a libertação que leva os homens à relação de partilha e fraternidade, substituindo as relações de exploração e dominação. Eis o motivo por que o caminho-vida de Jesus e «todos os acontecimentos desta vida» (At 5,20) são importantes para revelar as dimensões de uma vida nova e educar o homem para um novo modo de ser e agir. Tal como Jesus educa seus discípulos durante a longa viagem relatada por Lucas (9,51-19,28). Nesse sentido, encontramos antes da viagem o convite fundamental para a vida: «Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga» (9,23ss). Jesus é o educador que mostra, pela sua palavra e ação, pela sua morte, ressurreição e ascensão, o caminho que leva à salvação e comunhão com o Pai, fonte e fim de toda a vida.

–Fonte: http://www.paulus.com.br/BP/_PWG.HTM