Archive for março, 2017

EU SOU A LUZ DO MUNDO – TOMAZ HUGHES

sexta-feira, março 31st, 2017

QUARTO DOMINGO DE QUARESMA (26.03.17)

Jo 9, 1-41

“Eu sou a luz do mundo”

Continuando a série de leituras evangélicas que procuram ensinar verdades sobre a pessoa e a missão de Jesus durante a Quaresma, o texto de hoje é novamente um texto comprido, um capítulo inteiro, tirado do Evangelho de João. Como no Domingo passado (a Samaritana), encontramos novamente traços característicos do Quarto Evangelho – o uso de dualismo, como luz/escuridão, cegueira/visão, de símbolos, de ironia e de mal-entendidos. Tudo para proclamar a fé da comunidade joanina que Jesus era “a luz do mundo” (v. 5).

O texto nos traz o único relato no Novo Testamento da cura de um cego declaradamente de nascença. S. Agostinho via na cegueira uma referência ao pecado original, e na passagem da cegueira à visão, o símbolo da passagem da incredulidade e da morte à fé e à vida. Assim, o cego curado simbolizaria todos os que chegam à plenitude da fé pelo batismo.

Usando a sua característica de jogo de palavras, o autor do Quarto Evangelho enfatiza o nome da piscina onde ocorre a cura – Silóe, que significa “enviado”. Em mais uma alusão à liturgia batismal, João insiste que a cura da cegueira mortal ocorre através de Jesus – O Enviado do Pai. Na arte das catacumbas, a cura do cego simboliza o batismo.

Analisando as etapas da história, podemos encontrar uma progressão na fé do cego, através de três interrogatórios. Ele é interrogado pelos vizinhos (vv. 8-12), pelos fariseus (vv. 13-34) e pelo próprio Jesus (vv. 35-41). A cada passo ele aprofunda o seu conhecimento de Jesus. Aos vizinhos ele responde que Jesus é simplesmente um homem. Diante dos fariseus, ele reconhece que Jesus é um profeta. No diálogo com Jesus ele chega a proclamar que Jesus é o Filho do Homem, a grande figura messiânica do Livro de Daniel e do livro apócrifo de Enoc, o enviado de Deus.

A história reflete algo da situação da comunidade joanina pelo fim do primeiro século. Na verdade, no tempo de Jesus, ninguém era expulso da comunidade judaica por acreditar no seu messianismo. Isso acontecia após 85 a.C. com a reconstituição do judaísmo após a destruição de Jerusalém através do esforço feito por um grupo de doutores de Lei para reorganizar o povo através da fidelidade à Lei e à sua interpretação farisaica. Por isso, a confissão da sua fé em Jesus custa ao curado a perseguição e a expulsão, situação vivida pela comunidade joanina. Mas, se custou a expulsão da comunidade judaica, também lhe trouxe a verdadeira luz da vida, a vida plena em Jesus.

O último parágrafo usa a ironia, tipicamente joanina. Os fariseus perguntam cinicamente a Jesus, se ele os considera cegos. Ele retruca que a situação deles é muito pior – não é que não possam ver, é que não querem ver! A história iniciou-se com uma declaração, contrariando opiniões de muitos mestres da Lei daquela época, que a cegueira física não é causada pelo pecado (v. 3). Termina afirmando que a cegueira pior, a espiritual, realmente é consequência do pecado. A missão de Jesus no mundo causa uma inversão de situações: os que estão cegos, mas, que chegam à fé, são curados e recebem a revelação da Luz do mundo, enquanto aqueles que se ufanam de ser os esclarecidos se fecham nos seus sistemas religiosos e ideológicos, mergulhando-se cada vez mais na trevas e na perdição.

Quanta cegueira em nosso mundo, diante de situações cada vez mais gritantes da exclusão e sofrimento! Basta ver a nossa indiferença diante da situação do nosso planeta, sendo lentamente destruído em nome de um pretenso progresso, tema tocado este ano pela Campanha de Fraternidade, que na verdade não é mais do que a busca desenfreada de lucro para uma elite. Como podemos continuar a ignorar o escândalo do tráfico humano em todos os sentidos? Quantas vezes a fé em Jesus é proclamada como se fosse somente uma série de dogmas, em lugar do seguimento d’Aquele que é “Luz do mundo”. O nosso encontro com o Enviado tem que iluminar os olhos da nossa mente e espírito, para que vejamos o mundo com os olhos de Jesus, e tornemos a nossa fé uma vivência da mística do seguimento d’Ele, continuando a missão de Jesus que disse “enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”.

EU SOU A RESSURREIÇÃO E A VIDA – TOMAZ HUGHES

sexta-feira, março 31st, 2017

QUINTO DOMINGO DE QUARESMA (02.04.17)

Jo 11, 1-45

“Eu sou a Ressurreição e a Vida” TOMAZ HUGHES

Para entender melhor este texto, temos que situá-lo no seu contexto dentro do Quarto Evangelho, o do Discípulo Amado. Cumpre lembrar a divisão literária e teológica deste Evangelho. Nele, os primeiros onze capítulos formam que é normalmente intitulado “O Livros dos Sinais”, ou seja, relatam sete sinais (tradução melhor do que “milagres”) operados por Jesus. Um sinal aponta para algo mais além, e os sinais relatados por João apontam para uma realidade mais profunda – eles revelam algo mais profundo sobre a pessoa e missão de Jesus. São: a mudança de água em vinho em Caná (2, 1-11), a cura do filho de um funcionário real (4, 46-54), a cura do paralítico em Betesda (5, 1-18), a partilha de pães (6, 1-15), caminhar sobre as águas (6, 16-21), a cura do cego de nascença (9, 1-41), e o sinal culminante, a Ressurreição de Lázaro (11, 1-45), o texto de hoje. Como bloco, formam o Livro dos Sinais, preparação para Capítulos 13-20, o Livro da Glorificação.

Nos desafiam a ir por trás das palavras e imagens, ou seja, não parar no visível, mas descobrir o que sinalizam sobre a pessoa e missão de Jesus – portanto, a nossa missão também. Assim, devemos sempre ter presente que o relato de um sinal sempre quer revelar algo sobre Jesus. Diferente dos milagres em Marcos, onde não se faz milagre a não ser que já se tem a fé em Jesus, os sinais em João revelam uma verdade sobre Jesus e levam as pessoas a aprofundar a sua fé n’Ele. Assim, no texto de hoje, não devemos centralizarmo-nos sobre a pessoa de Lázaro, ou sobre os pormenores da história, mas, descobrir o que João quer dizer sobre a pessoa de Jesus e a sua missão, através do texto.

Talvez possamos dizer que o centro do relato se encontra nos versículos 21-27. Partindo da fé na ressurreição dos mortos, já corrente desde o tempo dos Macabeus entre as camadas populares do judaísmo, mas, rejeitada pela classe dominante dos saduceus, João tece um diálogo entre Jesus e Marta, que culmina com a declaração que a Ressurreição e a Vida acontece através da fé n’Ele, o Enviado de Deus, que veio para que todos tivessem plena vida, dando a sua vida para que isso acontecesse (Jo 10, 10-11). Vale notar que, no Evangelho de João, a primeira pessoa a professar fé no messianismo divino de Jesus é uma mulher, Marta. Nos Sinóticos, isso cabe a Pedro (Mc 8, 29). Como a cegueira do cego de nascença servia para que a glória de Deus fosse revelada através da sua cura, revelando Jesus como Luz do mundo (Jo 9, 3-5), a morte de Lázaro serve para revelar Jesus como Ressurreição e Vida (11, 25-27).

Jesus traz esta Vida para todos, através da entrega da sua própria vida. Pois, o relato de João enfatiza que Ele dará a sua vida para que todos tenham a vida eterna, colocando na boca do Sumo Sacerdote a frase famosa: “É melhor um homem morrer pelo povo do que a nação toda perecer” (11, 50). A libertação total que Jesus trouxe não acontece sem que Ele se esbarre contra os interesses dos poderosos da sociedade que procurarão conter esta libertação, matando-O. É a maneira joanina de dizer a verdade que Marcos sublinha quando ele faz Jesus dizer “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga me” (Mc 8, 34). A verdadeira vida exige luta contra tudo que é de morte, de dominação, de exploração, de exclusão.

Notemos que, no fim da história, Lázaro é desatado dos panos e sudário – pois Ele vai precisá-los de novo, pois ainda passará pela morte! A Ressurreição de Jesus, que logo celebraremos, é diferente. Cap. 20 de João faz questão de mencionar que, quando os discípulos entram no túmulo vazio, eles veem o sudário e os panos no chão – pois Jesus não foi simplesmente ressuscitado, mas passou pela Ressurreição, para a vida definitiva! O que aconteceu com Lázaro simplesmente prefigura o que aconteceria com Jesus de uma maneira mais definitiva, e por conseguinte, a todos nós. Que a nossa fé n’Aquele que é “a Ressurreição e a Vida”, que veio “para que todos tenham vida e a vida plena” nos leve, não à religião intimista e individualista, sem maiores consequências na vida comunitária, social, política e econômica, mas, a um engajamento na construção do mundo que Deus quer, o mundo da verdadeira “Shalom” – um conceito que vai muito além do sentido do termo Português “paz”, para indicar a plenitude do bem-estar, tudo que Deus deseja para todos os seus filhos e filhas, como nos lembra o tema do programa catequético-bíblico da CNBB nestes quatro anos: “Para que n’Ele nossos povos tenham vida”, o que implica levar a sério a Campanha da Fraternidade deste ano, em defesa dos biomas brasileiros (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal, Pampa), elementos essenciais para uma vida plena.

A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO – CELSO LORASCHI

quarta-feira, março 29th, 2017

A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO

2 de abril – 5º Domingo da Quaresma

Por Celso Loraschi

O Espírito de ressurreição e vida

I. Introdução geral

Deus se revela por meio da palavra profética. Na primeira leitura, Ezequiel anuncia vida nova para os que se encontram sem esperança, no túmulo do exílio da Babilônia. Deus ama prioritariamente o povo em situação de sofrimento. Está junto aos exilados e promete-lhes a volta à terra de Israel, devolvendo-lhes a liberdade. O dom do Espírito de Deus revigora o coração do povo e lhe suscita vida (I leitura). A revelação plena de Deus se dá na pessoa de seu Filho, Jesus. Ele é o caminho da vida por excelência. Pelo relato da ressurreição de Lázaro, a comunidade cristã afirma que Jesus é a ressurreição. Quem vive e crê nele jamais morrerá (evangelho). Deus se revela também por meio do testemunho dos seguidores de Jesus, como o de Paulo. Escrevendo aos romanos, orienta-os para uma vida nova proveniente da fé em Jesus Cristo. É a vida no Espírito. Ele habita em cada pessoa e suscita vida aos corpos mortais (II leitura). Os três textos enfatizam a vitória da vida sobre a morte como dom de Deus. O seu Espírito nos faz novas criaturas: transforma, reanima, fortalece, ressuscita…

II. Comentário dos textos bíblicos

  1. I leitura (Ez 37,12-14): Porei o meu Espírito em vós

Na tradição judaico-cristã, profecia é tempo de graça: tempo que se faz pleno porque Deus se comunica e interpela seu povo, recordando a sua aliança e demonstrando o seu amor. Ezequiel profetizou junto aos exilados na Babilônia ao redor do ano 580 a.C. O povo encontra-se mergulhado em profunda crise. Está longe da terra que Deus lhe concedeu conforme a promessa feita a Abraão. Sente-se abandonado por Deus e sem esperanças de futuro. A situação realmente parece desesperadora. Nesse pequeno texto, aparece três vezes a palavra “túmulos”. Deus, porém, não se conforma com a morte de ninguém. Por isso, suscita o profeta Ezequiel para anunciar novo tempo: vai infundir nos exilados o seu Espírito, que lhes dará força e coragem para se reerguerem das cinzas.

Em nome de Deus, Ezequiel anuncia um novo êxodo. No primeiro êxodo, Deus libertou o seu povo da escravidão do Egito e lhe deu a terra prometida. Deus também vai livrá-los do domínio da Babilônia, e serão reintroduzidos na terra de Israel. O jugo estrangeiro será quebrado, e o povo disperso (parecendo ossos secos espalhados num vale) poderá voltar a se reunir em sua própria terra, onde habitará com segurança. Isso acontecerá pela intervenção gratuita de Deus. Ele desperta para a vida os que se encontram em situação de morte. Faz sair os esqueletos dos seus túmulos. Reanima os “cadáveres ambulantes”. O seu Espírito penetra nos corpos sem vida. O povo disperso e abandonado toma consciência de que é amado por Deus e, por isso, descobre-se como capaz de mobilizar-se para a reconquista da terra de liberdade.

  1. II leitura (Rm 8,8-11): Vida nova no Espírito Santo

Viver no Espírito de Cristo é o que propõe são Paulo aos romanos. Somente no capítulo 8, aparece mais de 20 vezes a palavra “espírito”. A vida no Espírito Santo contrapõe-se à vida segundo a carne, ou seja, aos instintos egoístas. Toda pessoa carrega dentro de si essas duas tendências, que lutam entre si permanentemente. Aquelas que foram regeneradas em Jesus Cristo estão mergulhadas em seu Espírito. Por isso, possuem a luz e a força do próprio Jesus, que realizou a vontade de Deus e redimiu a humanidade. Ele nos justificou pela graça e nos tornou novas criaturas, participantes de sua natureza divina.

Estar com o Espírito de Cristo, porém, não significa anulação da tendência para o pecado. A tensão à santidade deve ser permanente. É uma questão de opção fundamental pelo mesmo modo de pensar e de agir de Jesus. Ele mesmo advertiu que “ninguém pode servir a dois senhores”. Paulo lembra que os cristãos não podem viver segundo a carne e segundo o Espírito ao mesmo tempo. Não se pode viver na liberdade e na escravidão ao mesmo tempo.

Na carta aos Gálatas, Paulo escreve: “Foi para sermos livres que Cristo nos libertou” (5,1). Ele nos libertou da escravidão do pecado por pura graça. Portanto, somente na graça de Jesus Cristo vivemos a autêntica liberdade. Somente no Espírito de Jesus nos libertamos da escravidão das obras dos instintos egoístas. E, para não haver dúvidas sobre os dois caminhos que se opõem entre si, Paulo fala a respeito das obras que caracterizam cada um deles. “As obras da carne são manifestas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, rixas, ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas… Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio” (Gl 5,19-23).

Uma vez que aderimos, pela fé, a Jesus Cristo, a ele pertencemos e seu Espírito habita em nós. Esse Espírito é o agente das obras que agradam a Deus. Podemos, então, contar com a plenitude de sua graça. Assim, morremos para as obras do egoísmo e permanecemos na vida. Pois o mesmo “Espírito daquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dá a vida aos nossos corpos mortais”. Temos a graça de viver desde agora a vida eterna, pois em Cristo fomos divinizados.

  1. Evangelho (Jo 11,1-45): Jesus é a ressurreição e a vida

A narrativa da ressurreição de Lázaro corresponde ao último dos sete sinais de libertação realizados por Jesus no Evangelho de João. Os relatos dos sete sinais procuram levar os cristãos a refletir sobre o sentido profundo dos fatos da vida humana: a falta de vinho numa festa de casamento (2,1-12), a doença do filho de um funcionário real (4,46-54), o paralítico à beira da piscina de Betesda (5,1-18), a fome do povo (6,1-15), o barco dos discípulos ameaçado pelas águas do mar (6,16-21), o cego de nascença (9,1-41) e, finalmente, a morte de Lázaro. Todos eles visam apresentar Jesus como o Messias que veio para resgatar a vida plena para os seres humanos. Em cada sinal, percebe-se um propósito pedagógico: a representação de um caminho novo apontado por Jesus para derrubar todas as barreiras que impedem a pessoa de realizar-se plenamente.

Jesus é o “Bom Pastor” que dá a vida por suas ovelhas (cf. 10,11). Ele é o verdadeiro caminho para a vida com dignidade e liberdade, vencendo as causas de todos os males. Vence a própria morte: é a vida definitiva. Somente os que creem em Jesus, com convicção, compreendem e acolhem essa verdade. Portanto, a finalidade principal dos sinais é levar os discípulos à fé autêntica. Ao informar que Lázaro havia morrido e, por isso, iria ao seu encontro, Jesus diz aos discípulos: “É para que vocês creiam” (11,15). Também lemos no final do evangelho: “Jesus fez ainda muitos outros sinais, que não se acham escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham a vida em seu nome” (20,30-31).

As personagens que aparecem no relato — Marta, Maria e os judeus — refletem diferentes concepções a respeito de Jesus. Primeiramente, podemos observar o comportamento de Marta. Sabendo que Jesus chegara a Betânia, “saiu ao seu encontro” e a ele se dirigiu, chamando-o pelos títulos cristológicos de “Senhor” e “Filho de Deus”. Diante da promessa da ressurreição, declara-lhe convictamente sua fé: “Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo”. E vai anunciar à sua irmã Maria, que, por sua vez, imediatamente segue ao encontro de Jesus, mas não consegue declarar a fé nele como fez Marta. Está ainda angustiada e paralisada diante da realidade da morte. Já os judeus apenas seguem Maria, sem ter consciência de ir ao encontro de Jesus nem muito menos fazer-lhe alguma confissão de fé.

São três modos de comportar-se diante de Jesus. O comportamento de Marta é o retrato das pessoas que têm fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus, Salvador da humanidade. Para os que acreditam nele, a ressurreição é uma realidade não apenas para o futuro, mas para o presente. Toda atitude em favor da vida é sinal de ressurreição e gesto de glorificação a Deus, criador e libertador.

Os autores do evangelho fazem questão de mostrar o rosto humano de Jesus. Ele participa da dor das pessoas que sofrem, comove-se e chora. Sua comoção, porém, pode ser traduzida como impaciência com a falta de fé tanto de Maria como dos judeus. E, para além das lamentações, Jesus reza ao Pai para que, diante desse sinal definitivo da ressurreição, “eles acreditem” nele como enviado de Deus.

Lázaro (cujo nome significa “Deus ajuda”) está enterrado há quatro dias. O “quarto dia” refere-se ao tempo depois da morte de Jesus; é o tempo das comunidades que creem em Jesus morto e ressuscitado. Portanto, é o tempo da graça por excelência, que deve ser vivido de forma totalmente nova. Lázaro e as comunidades cristãs são chamados a sair dos túmulos do medo, da acomodação, do egoísmo e da tristeza; são chamados a “desatar-se” das amarras dos sistemas que oprimem e matam. As pessoas de fé autêntica, seguidoras de Jesus, são verdadeiramente livres. O “quarto dia” é o tempo da ressurreição, dom de Deus.

III. Pistas para reflexão

— O Espírito de Deus move a história. Como foi revelado ao profeta Ezequiel, não há situação que não interesse a Deus. Ele intervém na história humana para transformá-la em história da salvação. Concede seu Espírito para libertar o ser humano de toda espécie de escravidão e conduzi-lo à liberdade. O Espírito de Deus nos faz sair dos “túmulos” da desesperança, do medo, da acomodação… Deus não se conforma com o abandono e a morte de ninguém. Ele é o Deus da vida em plenitude. As crises e dificuldades de nosso tempo são desafios que podem ser enfrentados como fez o povo exilado na Babilônia: na confiança em Deus e na esperança ativa.

— Jesus é a fonte da verdadeira vida. Como “Bom Pastor”, ele se interessa pelas necessidades de todos nós. Oferece sua amizade e sua companhia permanente. Conta conosco para continuar sua obra. Os sinais que ele realizou são indicativos para a missão das comunidades cristãs. A ressurreição de Lázaro aponta para o novo modo de ser Igreja, organizada de forma participativa e corresponsável. Uma Igreja composta de pessoas redimidas pela graça, ressuscitadas em Cristo. Cada um de nós é chamado a declarar sua fé de modo prático, na certeza de que o bem pode vencer o mal e de que a morte não tem a última palavra.

— O Espírito de Cristo mora em nós. Cabe a cada pessoa viver de tal modo que esteja permanentemente na comunhão com Jesus Cristo. Se nos deixarmos conduzir pelo Espírito de Jesus que habita em nós, realizamos as obras que agradam a Deus. Morremos para o egoísmo e ressuscitamos no amor. Nosso corpo mortal recebe a graça da imortalidade. Se, porventura, quebramos essa unidade, Deus nos concede a graça da reconciliação. Eis a Quaresma, tempo de conversão, tempo de salvação.

 

Celso Loraschi

*Mestre em Teologia Dogmática com Concentração em Estudos Bíblicos e professor de evangelhos sinóticos e Atos dos Apóstolos no Instituto Teológico de Santa Catarina (Itesc). E-mail: loraschi@itesc.org.br

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http://www.vidapastoral.com.br/roteiros/2-de-abril-5o-domingo-da-quaresma/

O CEGO DE NASCENÇA – Jo 9

quarta-feira, março 29th, 2017

 

O CEGO DE NASCENÇA - Centro Bíblico Verbo

O CEGO DE NASCENÇA - DEHONIANOS

O CEGO DE NASCENÇA - PAGOLA

JESUS É A LUZ DO MUNDO - Celso Loraschi

JESUS É A LUZ DO MUNDO - THOMAZ HUGHES

 

http://xacute1.com/?p=4528

A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO – Jo 11

quarta-feira, março 29th, 2017

 

A RESSURREICAO DE LAZARO - Shigeyuki Nakanose, SVD e Maria Antônia Marques

A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO - DEHONIANOS

A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO - PAGOLA

EU SOU A RESSURREIÇÃO E A VIDA – CELSO LORACHI

EU SOU A RESSURREIÇÃO E A VIDA - TOMAZ HUGHES

SOLTAR AS AMARRAS – RESSURREIÇÃO DE LÁZARO - Bortolini

RESSURREIÇÃO DE LÁZARO – PAGOLA

quarta-feira, março 29th, 2017

A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO NA LITURGIA

5º Domingo da Quaresma
2 de Abril de 2017Evangelho – Jo 11,1-45
Eu sou a ressurreição e a vida.
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo João 11,1-45
Naquele tempo:
1   Havia um doente, Lázaro, que era de Betânia,
o povoado de Maria e de Marta, sua irmã.
2   Maria era aquela que ungira o Senhor com perfume
e enxugara os pés dele com seus cabelos.
O irmão dela, Lázaro, é que estava doente.
3   As irmãs mandaram então dizer a Jesus:
‘Senhor, aquele que amas está doente.’
4   Ouvindo isto, Jesus disse:
‘Esta doença não leva à morte;
ela serve para a glória de Deus,
para que o Filho de Deus seja glorificado por ela.’
5   Jesus era muito amigo de Marta,
de sua irmã Maria e de Lázaro.
6   Quando ouviu que este estava doente, Jesus ficou
ainda dois dias no lugar onde se encontrava.
7   Então, disse aos discípulos:
‘Vamos de novo à Judéia.’
8   Os discípulos disseram-lhe:
Mestre, ainda há pouco os judeus queriam
apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá?’
9   Jesus respondeu:
‘O dia não tem doze horas?
Se alguém caminha de dia, não tropeça,
porque vê a luz deste mundo.
10 Mas se alguém caminha de noite, tropeça,
porque lhe falta a luz’.
11 Depois acrescentou:
‘O nosso amigo Lázaro dorme. Mas eu vou acordá-lo.’
12 Os discípulos disseram:
‘Senhor, se ele dorme, vai ficar bom.’
13 Jesus falava da morte de Lázaro,
mas os discípulos pensaram que falasse do sono mesmo.
14 Então Jesus disse abertamente:
‘Lázaro está morto.
15 Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá,
para que creiais. Mas vamos para junto dele’.
16 Então Tomé, cujo nome significa Gêmeo,
disse aos companheiros:
‘Vamos nós também para morrermos com ele’.
17 Quando Jesus chegou,
encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias.
18 Betânia ficava a uns três quilômetros de Jerusalém.
19 Muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria
para as consolar por causa do irmão.
20 Quando Marta soube que Jesus tinha chegado,
foi ao encontro dele.
Maria ficou sentada em casa.
21 Então Marta disse a Jesus:
‘Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido.
22 Mas mesmo assim, eu sei que
o que pedires a Deus, ele te concederá.’
23 Respondeu-lhe Jesus: ‘Teu irmão ressuscitará.’
24 Disse Marta:
‘Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia.’
25 Então Jesus disse:
‘Eu sou a ressurreição e a vida.
Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá.
26 E todo aquele que vive e crê em mim,
não morrerá jamais. Crês isto?’
27 Respondeu ela: ‘Sim, Senhor, eu creio firmemente
que tu és o Messias, o Filho de Deus,
que devia vir ao mundo.’
28 Depois de ter dito isto,
ela foi chamar a sua irmã, Maria, dizendo baixinho:
‘O Mestre está aí e te chama’.
29 Quando Maria ouviu isso,
levantou-se depressa e foi ao encontro de Jesus.
30 Jesus estava ainda fora do povoado,
no mesmo lugar onde Marta se tinha encontrado com ele.
31 Os judeus que estavam em casa consolando-a,
quando a viram levantar-se depressa e sair,
foram atrás dela,
pensando que fosse ao túmulo para ali chorar.
32 Indo para o lugar onde estava Jesus,
quando o viu, caiu de joelhos diante dele e disse-lhe:
‘Senhor, se tivesses estado aqui,
o meu irmão não teria morrido.’
33 Quando Jesus a viu chorar, e também os que
estavam com ela, estremeceu interiormente,
ficou profundamente comovido,
34 e perguntou: ‘Onde o colocastes?’
Responderam: ‘Vem ver, Senhor.’
35 E Jesus chorou.
36 Então os judeus disseram:
‘Vede como ele o amava!’
37 Alguns deles, porém, diziam:
‘Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também
ter feito com que Lázaro não morresse?’
38 De novo, Jesus ficou interiormente comovido.
Chegou ao túmulo.
Era uma caverna, fechada com uma pedra.
39 Disse Jesus: ‘Tirai a pedra’!
Marta, a irmã do morto, interveio:
‘Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias.’
40 Jesus lhe respondeu:
‘Não te disse que, se creres,
verás a glória de Deus?’
41 Tiraram então a pedra.
Jesus levantou os olhos para o alto e disse:
‘Pai, eu te dou graças porque me ouviste.
42 Eu sei que sempre me escutas.
Mas digo isto por causa do povo que me rodeia,
para que creia que tu me enviaste.’
43 Tendo dito isso, exclamou com voz forte:
‘Lázaro, vem para fora!’
44 O morto saiu,
atado de mãos e pés com os lençóis mortuários
e o rosto coberto com um pano.
Então Jesus lhes disse:
‘Desatai-o e deixai-o caminhar!’
45 Então, muitos dos judeus que tinham ido à casa de Maria
e viram o que Jesus fizera, creram nele.
Palavra da Salvação.

HOMILIA – José Antonio Pagola – 02-04-2017
ASSIM QUERO MORRER EU
Jesus nunca oculta o Seu carinho para com os três irmãos que vivem em Betânia. Seguramente são os que o acolhem na sua casa sempre que sobe a Jerusalém. Um dia, Jesus recebe um recado: «O nosso irmão Lázaro, o teu amigo, está doente» . Ao fim de pouco tempo Jesus encaminha-se para a pequena aldeia.

Quando se apresenta, Lázaro já morreu. Ao vê-lo chegar, Maria, a irmã mais jovem, poe-se a chorar. Ninguém a pode consolar. Ao ver chorar a sua amiga e também aos judeus que a acompanham, Jesus não pode conter-se. Também Ele «se poe a chorar» junto deles. As pessoas comentam: «Como o queria!».

Jesus não chora só pela morte de um amigo muito querido. Quebra-se a alma ao sentir a impotência de todos ante a morte. Todos levamos no mais íntimo do nosso ser um desejo insaciável de viver. Porque temos de morrer? Porque a vida não é mais ditosa, mais longa, mais segura, mais vida?

O homem de hoje, como o de todas as épocas, leva cravada no seu coração a pregunta mais inquietante e mais difícil de responder: que vai ser de todos e cada um de nós? É inútil tratar de nos enganarmos. Que podemos fazer ante a morte? Revoltar-nos? Deprimir-nos?

Sem dúvida, a reação mais generalizada é esquecer-nos e «seguir em frente». Mas, não está o ser humano chamado a viver a sua vida e a viver-se a si mesmo com lucidez e responsabilidade? Só próximo do nosso fim, havemos de nos acercar de forma inconsciente e irresponsável, sem tomar qualquer posição?

Ante o mistério último da morte não é possível apelar a dogmas científicos nem religiosos. Não nos podemos guiar mais para lá desta vida. Mais honrada parece a postura do escultor Eduardo Chillida, a quem em certa ocasião lhe escutei dizer: «Da morte, a razão diz-me que é definitiva. Da razão, a razão diz-me que é limitada».

Os cristãos não sabemos da outra vida mais que os outros. Também nós devemos aproximar-nos com humildade ao acontecimento obscuro da nossa morte. Mas fazemos com uma confiança radical na bondade do Mistério de Deus que vislumbramos em Jesus. Esse Jesus a quem sem o termos visto, amamos e quem, sem o ver ainda, damos a nossa confiança.

Esta confiança não pode ser entendida a partir de fora. Só pode ser vivida por quem respondeu, com fé simples, às palavras de Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida. Acreditas nisto?» . Recentemente, Hans Küng, o teólogo católico mais crítico do século XX, próximo já do seu fim, disse que, para ele, morrer é «descansar no mistério da misericórdia de Deus». Assim quero morrer eu.
José Antonio Pagola Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

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HOMILIA – José Antonio Pagola Tradutor – 10-04-2011
NOSSA ESPERANÇA
O relato da ressurreição de Lázaro é surpreendente. Por um lado, nunca nos é apresentado Jesus tão humano, frágil e profundo como neste momento em que morre um dos seus melhores amigos. Por outro lado, nunca nos convidam tão diretamente a acreditar no Seu poder salvador: «Eu sou a ressurreição e a vida: o que crer em mim, mesmo que morra, viverá… Creis nisto?»

Jesus não oculta o Seu carinho para com estes três irmãos da Betânia que, seguramente, o acolhem em sua casa sempre que vem a Jerusalém. Um dia Lázaro fica doente e as suas irmãs enviam uma mensagem a Jesus: o nosso irmão «a quem tanto queres» está doente. Quando chega Jesus à aldeia, Lázaro leva quatro dias enterrado. Já ninguém lhe poderá devolver a vida.

A família está destroçada. Quando se apresenta Jesus, Maria desata a chorar. Ninguém a pode consolar. Ao ver os soluços da Sua amiga, Jesus não pode conter-se e também Ele se põem a chorar. Parte-Lhe a alma ao sentir a impotência de todos ante a morte. Quem nos poderá consolar?

Há em nós um desejo insaciável de vida. Passamos os dias e os anos a lutar por viver. Agarramo-nos à ciência e, sobretudo, à medicina para prolongar esta vida biológica, mas sempre chega uma última doença de que ninguém nos pode curar.

Tampouco nos serviria viver esta vida para sempre. Seria horrível um mundo envelhecido, cheio de velhos e velhas, cada vez com menos espaço para os jovens, um mundo em que não se renovasse a vida. O que desejamos é uma vida diferente, sem dor nem envelhecimento, sem fome nem guerras, uma vida plenamente ditosa para todos.

Hoje vivemos numa sociedade que foi descrita como “uma sociedade de incerteza” (Z. Bauman). Nunca tinha tido o ser humano tanto poder para avançar para uma vida mais feliz. E, no entanto, nunca tal vez se tenha sentido tão impotente ante um futuro incerto e ameaçador. Em que podemos esperar?

Como os humanos de todos os tempos, também nós vivemos rodeados de trevas. Que é a vida? Que é a morte? Como há que viver? Como há que morrer? Antes de ressuscitar Lázaro, Jesus diz a Marta essas palavras que são para todos os Seus seguidores um repto decisivo: «Eu sou a ressurreição e a vida: aquele que acredita em mim, mesmo que morra viverá… Creis nisto?»

Apesar de dúvidas e obscuridades, os cristãos acreditam em Jesus, Senhor da vida e da morte. Só Nele procuramos luz e força para lutar pela vida e para enfrentarmos a morte. Só Nele encontramos uma esperança da vida para além da vida.
José Antonio Pagola Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez
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JESUS É A LUZ DO MUNDO

terça-feira, março 21st, 2017

Jesus é a luz do mundo - Jo 9,1-41

Celso Loraschi

O Evangelho de João aprofunda a identidade de Jesus narrando sete sinais. Um deles é a cura de um cego de nascença. Esse sinal reflete o debate existente nas comunidades joaninas entre os cristãos e o grupo de judeus apegados ao legalismo religioso. Conforme podemos perceber no texto, a cegueira era considerada um castigo divino, seja pelos pecados da pessoa, seja pelos de seus antepassados. Um dos agravantes muito sérios para o cego era o seu impedimento de ler a Sagrada Escritura e estudar a Lei, sendo, por isso, considerado um ignorante da vontade de Deus.

Segundo o mesmo Evangelho de João, Jesus veio “para que todos tenham vida, e vida em abundância” (10,10). Sua prática não está atrelada à ideologia da pureza dos líderes religiosos judaicos. Ele conhece suas intenções e seus interesses: “São cegos guiando outros cegos” (Mt 15,14). Diante da pergunta sobre “quem pecou”, Jesus procura “abrir os olhos” dos próprios discípulos, pois também eles estão contaminados com a ideologia dos doutores da Lei. Em vez de achar um culpado, Jesus põe a situação da cegueira em relação direta com o plano de Deus, que resgata a dignidade do ser humano. As “obras de Deus” são realizadas agora por Jesus, a Luz do mundo. Acontece em Jesus o que foi anunciado pelo profeta Isaías, quando este se referiu ao “Servo de Javé” como “luz das nações” (Is 49,6).

Jesus, em caminhada, vê o cego de nascença e toma a iniciativa de curá-lo. Ele o faz por meio da junção de dois elementos: a terra e a saliva. Formam o barro, que lembra a criação do ser humano, conforme descreve o livro do Gênesis: “Deus modelou o homem do barro” (2,7). A ação de Jesus visa recriar a pessoa, oferecendo-lhe nova vida. Conforme o pensamento da época, a saliva transmite a energia vital da pessoa. Portanto, a energia divina de Jesus possibilita a cura.

A graça divina, porém, não exclui o empenho humano. A cura e a libertação que Deus oferece não se dão de modo mágico. O cego deverá seguir a palavra de Jesus e lavar-se na piscina de Siloé, que significa “Enviado”. É convidado a aceitar livremente a luz que Jesus lhe oferece. Seguir o caminho apontado por Jesus significa entrar no processo de conquista de liberdade e autonomia. De fato, o cego recuperará a visão e também a capacidade de pronunciar livremente as próprias palavras, já não oprimido pelo legalismo dos fariseus e também já não dependente de seus pais, representativos da tradição que buscava “segurar” sob sua guarda os filhos de Israel. A conquista da visão verdadeira passa por processos de conflitos e crises, pois mexe com as concepções dominantes. Uma pessoa livre, conduzida por profundas convicções, torna-se ameaça para o poder constituído, pois este procura impor “obrigações”, mantendo a consciência do povo alienada.

O cego de nascença, junto com a recuperação da vista, recebe de Jesus o dom da fé e torna-se seu discípulo. No relato de sua cura aparece, várias vezes, o verbo “nascer”. Demonstra íntima ligação com o episódio do encontro de Nicodemos com Jesus, que lhe indica o caminho do “novo nascimento”. Podemos, então, discernir em que consiste a recuperação da verdadeira visão: é renascer, pela fé, acolhendo a Jesus e deixando-se conduzir pela sua palavra: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). A tradição cristã vai interpretar o ato de lavar-se na piscina de Siloé como o símbolo da regeneração cristã pelo batismo.

Pistas para reflexão

 — Jesus é a Luz do mundo. Caminhou neste mundo fazendo o bem, curando as pessoas e dissipando as trevas. A cura do cego de nascença vai além do sentido físico. É libertação das influências das ideologias dominantes. Somos cegos quando entramos no jogo da ambição de poder e deixamos de servir humildemente o próximo; quando nos consideramos superiores aos outros e quebramos a fraternidade; quando acumulamos para nós mesmos o que Deus ofereceu para a vida de todos… Jesus curou o cego misturando a sua saliva com a terra. A terra que Deus nos deu é sagrada, manifesta a sua bondade, oferece recursos para uma vida saudável.

— Viver como filhos da luz. Deus nos concede a liberdade de escolha: caminhar na luz ou nas trevas. São bem conhecidas as obras das trevas: corrupção, mentira, violência, hedonismo e tudo o que prejudica o ser humano e a natureza. É tempo de revisão de vida e de conversão: Deus nos oferece a oportunidade de sair das trevas para a luz. O discípulo missionário de Jesus escolhe o caminho da verdade, da justiça e da bondade; assume o risco de ser autêntico e se empenha na construção de outro mundo possível.

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Celso Loraschi

*Mestre em Teologia Dogmática com Concentração em Estudos Bíblicos e professor de evangelhos sinóticos e Atos dos Apóstolos no Instituto Teológico de Santa Catarina (Itesc).

E-mail: loraschi@itesc.org.br

http://www.vidapastoral.com.br/roteiros/26-de-marco-4o-domingo-da-quaresma/

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Obs: A cena completa do cego de nascença termina em 10,42 incluindo o Bom Pastor. Jo 9,1-10,42

 

Roteiros homiléticos

 

26 de março – 4º Domingo da Quaresma

Por Celso Loraschi

 

A luz que vem de Deus

I. Introdução geral

Os textos bíblicos deste domingo refletem sobre a luz divina que se manifesta na história humana. Deus se revela ao mundo de modo original e surpreendente. É soberano em suas decisões e não se deixa levar pelas aparências. Nas pessoas pobres e frágeis, ele manifesta a grandeza de seu amor. Escolhe Davi, um humilde pastor, para governar o seu povo com justiça (I leitura). Deus envia seu Filho ao mundo como expressão máxima de sua bondade. Jesus solidariza-se com as pessoas necessitadas e oferece-lhes vida saudável e íntegra: cura a cegueira, liberta o ser humano de toda espécie de opressão e ilumina o caminho dos que se encontram desorientados (evangelho). O texto da carta aos Efésios incentiva a comunidade cristã a viver como filhos da luz, renunciando às obras próprias das trevas e praticando cotidianamente a bondade, a justiça e a verdade (II leitura). Deus é luz. Portanto, quem vive em Deus se torna uma pessoa iluminada: é autêntica e livre, pois nada tem a esconder ou do que se envergonhar.

II. Comentário dos textos bíblicos

  1. I leitura (1Sm 16,1b.6-7.10-13a): Deus não leva em conta as aparências

Na tradição bíblica, Davi é um dos personagens mais lembrados pelo povo. Ao redor de seu nome criou-se verdadeiro movimento. É a figura do governante “segundo o coração de Deus”, rei que segue a justiça e não despreza os pobres. A primeira leitura deste quarto domingo da Quaresma narra a eleição de Davi.

Samuel foi um dos últimos juízes de Is­rael. Viveu a fase conflituosa de transição entre o tribalismo e a monarquia. É um homem de Deus. Sofre muito quando o povo pede a mudança de regime (cf. 1Sm 8). Conforme o mandato divino, busca reconhecer, entre vários irmãos, qual seria o escolhido para governar o povo. Após analisar os sete filhos de Jessé, Samuel declara que nenhum deles havia sido chamado por Deus. O menor deles, ausente por estar cuidando do rebanho, é o eleito. A unção é o meio pelo qual se confere uma missão sagrada. É significativa a transmissão do cargo realizada por Samuel. Tendo a função de juiz de Israel, transmite a Davi o que ele próprio considera ser a vontade divina. O governo deve ser realizado sob a autoridade de Deus.

A eleição de Davi é uma narrativa popular que transmite importante conteúdo teológico e sociológico. Deus não se deixa conduzir pelas aparências. Ele conhece o coração de cada pessoa e, por isso, chama os que se encontram em último lugar para realizar o seu plano na história. Como dirá Jesus: “Muitos dos primeiros serão últimos, e muitos dos últimos, primeiros” (Mt 19,30). Sociologicamente, é um texto de denúncia ao poder monárquico e de valorização dos caminhos alternativos que emergem com a mobilização dos pequenos e marginalizados.

  1. II leitura (Ef 5,8-14): Viver como filhos da luz

São Paulo, em seus escritos, dedica-se de modo muito especial à tarefa de aprofundar a vida nova que provém da fé em Jesus Cristo. O texto da carta aos Efésios é reflexo dessa teologia paulina. Demonstra a preocupação de manter a comunidade cristã no caminho do amor, “do mesmo modo como Cristo amou e se entregou por nós a Deus” (5,1).

Existem dois caminhos: o das trevas e o da luz. O caminho das trevas era bem conhecido pelos cristãos de Éfeso. Pelo que se constata ao ler o texto, muitos deles, antes de sua adesão a Jesus Cristo, experimentaram um modo de viver alicerçado no egoísmo, na avareza, na fornicação e em outras coisas vergonhosas que expressam uma vida nas “trevas”.

O caminho da luz se manifesta por uma vida em Cristo. Ele não só andou como filho da luz, mas revelou-se a Luz verdadeira. Ele não somente assumiu atitudes de amor, mas é a essência do amor. A pessoa unida a ele também é filha da luz: sabe discernir “o que é agradável ao Senhor” e produz “frutos de bondade, justiça e verdade”. Quem se decide a seguir Jesus não só rompe com as “obras infrutuosas das trevas”, como também exerce a função profética de denúncia dessas obras. O que é mau e feito às ocultas deve ser trazido à luz, a fim de que se torne manifesto ao público e seja corrigido para o bem de todos. Quem segue Jesus jamais pode ser cúmplice da maldade, da corrupção, da mentira…

Jesus nos fez participantes da sua própria natureza divina. Portanto, tal como viveu Jesus — a Luz de Deus no mundo —, também nós temos a graça de viver de tal modo, que a luz divina brilhe no mundo por meio da inteireza do ser e da retidão do agir.

 

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O CEGO DE NASCENÇA – PAGOLA

terça-feira, março 21st, 2017

O CEGO DE NASCENÇA – Jo 9,1-41

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

                                      4º Domingo da Quaresma – ANO A

26 de Março de 2017 (Tradução da CNBB)

Evangelho – Jo 9,1-41
O cego foi, lavou-se e voltou enxergando.
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo João 9,1-41
Naquele tempo:
1   Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença.
2   Os discípulos perguntaram a Jesus:
‘Mestre, quem pecou para que nascesse cego:
ele ou os seus pais?’
3   Jesus respondeu: ‘Nem ele nem seus pais pecaram,
mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele.
4   É necessário que nós realizemos
as obras daquele que me enviou, enquanto é dia.
Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar.
5   Enquanto estou no mudo, eu sou a luz do mundo.’
6   Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva
e colocou-a sobre os olhos do cego.
7   E disse-lhe: ‘Vai lavar-te na piscina de Siloé’
(que quer dizer: Enviado).
O cego foi, lavou-se e voltou enxergando.
8   Os vizinhos e os que costumavam ver o cego
- pois ele era mendigo – diziam:
‘Não é aquele que ficava pedindo esmola?’
9   Uns diziam: ‘Sim, é ele!’
Outros afirmavam:
‘Não é ele, mas alguém parecido com ele.’
Ele, porém, dizia: ‘Sou eu mesmo!’
10 Então lhe perguntaram:
‘Como é que se abriram os teus olhos?’
11 Ele respondeu:
‘Aquele homem chamado Jesus fez lama,
colocou-a nos meus olhos e disse-me:
‘Vai a Siloé e lava-te’.
Então fui, lavei-me e comecei a ver.’
12 Perguntaram-lhe: ‘Onde está ele?’
Respondeu: ‘Não sei.’
13 Levaram então aos fariseus o homem que tinha sido cego.
14 Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama
e aberto os olhos do cego.
15 Novamente, então, lhe perguntaram os fariseus
como tinha recuperado a vista.
Respondeu-lhes: ‘Colocou lama sobre meus olhos,
fui lavar-me e agora vejo!’
16 Disseram, então, alguns dos fariseus:
‘Esse homem não vem de Deus,
pois não guarda o sábado.’
Mas outros diziam:
‘Como pode um pecador fazer tais sinais?’
17 E havia divergência entre eles.
Perguntaram outra vez ao cego:
‘E tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?’
Respondeu: ‘É um profeta.’
18 Então, os judeus não acreditaram
que ele tinha sido cego e que tinha recuperado a vista.
Chamaram os pais dele
19 e perguntaram-lhes:
‘Este é o vosso filho, que dizeis ter nascido cego?
Como é que ele agora está enxergando?’
20 Os seus pais disseram:
‘Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego.
21 Como agora está enxergando, isso não sabemos.
E quem lhe abriu os olhos também não sabemos.
Interrogai-o, ele é maior de idade,
ele pode falar por si mesmo.’
22 Os seus pais disseram isso,
porque tinham medo das autoridades judaicas.
De fato, os judeus já tinham combinado
expulsar da comunidade
quem declarasse que Jesus era o Messias.
23 Foi por isso que seus pais disseram:
‘É maior de idade. Interrogai-o a ele.’
24 Então, os judeus chamaram de novo
o homem que tinha sido cego.
Disseram-lhe: ‘Dá glória a Deus!
Nós sabemos que esse homem é um pecador.’
25 Então ele respondeu:
‘Se ele é pecador, não sei.
Só sei que eu era cego e agora vejo.’
26 Perguntaram-lhe então:
‘Que é que ele te fez? Como te abriu os olhos?’
27 Respondeu ele:
‘Eu já vos disse, e não escutastes.
Por que quereis ouvir de novo?
Por acaso quereis tornar-vos discípulos dele?’
28 Então insultaram-no, dizendo:
‘Tu, sim, és discípulo dele!
Nós somos discípulos de Moisés.
29 Nós sabemos que Deus falou a Moisés,
mas esse, não sabemos de onde é.’
30 Respondeu-lhes o homem: ‘Espantoso!
Vós não sabeis de onde ele é?
No entanto, ele abriu-me os olhos!
31 Sabemos que Deus não escuta os pecadores,
mas escuta aquele que é piedoso
e que faz a sua vontade.
32 Jamais se ouviu dizer
que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença.
33 Se este homem não viesse de Deus,
não poderia fazer nada’.
34 Os fariseus disseram-lhe:
‘Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?’
E expulsaram-no da comunidade.
35 Jesus soube que o tinham expulsado.
Encontrando-o, perguntou-lhe:
‘Acreditas no Filho do Homem?’
36 Respondeu ele:
‘Quem é, Senhor, para que eu creia nele?’
37 Jesus disse:
‘Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo.’
Exclamou ele:
38 ‘Eu creio, Senhor’!
E prostrou-se diante de Jesus.
39 Então, Jesus disse:
‘Eu vim a este mundo para exercer um julgamento,
a fim de que os que não vêem, vejam,
e os que vêem se tornem cegos.’
40 Alguns fariseus, que estavam com ele, ouviram isto
e lhe disseram:
‘Porventura, também nós somos cegos?’
41 Respondeu-lhes Jesus:
‘Se fôsseis cegos, não teríeis culpa;
mas como dizeis:
‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece.’
Palavra da Salvação.

HOMILIA – José Antonio Pagola – 26-03-2017

PARA OS EXCLUÍDOS

O homem é cego desde o nascimento. Nem ele nem seus pais têm culpa, mas seu destino será marcado para sempre. As pessoas olham para ele como um pecador castigado por Deus. Os discípulos de Jesus perguntam-lhe se o pecado é do cego ou de seus pais.

Jesus vê isso em uma luz diferente. Pelo que ele viu, ele só pensa em resgatá-lo daquela vida vergonhosa de mendigar, desprezado por todos como um pecador. Jesus sente-se chamado por Deus para defender, acolher e curar precisamente aqueles que vivem excluídos e humilhados.

Depois de uma cura laboriosa na qual o cego também tem de colaborar com Jesus, descobre a luz pela primeira vez. O encontro com Jesus mudou sua vida. Finalmente, ele pode desfrutar de uma vida de dignidade, sem medo de ser um embaraço para ninguém.

Ele está errado. Os líderes religiosos sentem-se obrigados a controlar a pureza de sua religião. Eles sabem quem não é um pecador e quem é. Eles decidirão se ele pode ser recebido na comunidade religiosa. É por isso que o expulsam.

O mendigo curado confessa abertamente que Jesus foi o que veio a ele e o curou, mas os fariseus rejeitam irritadamente que: “Sabemos que esse homem é um pecador”. O homem persiste na defesa de Jesus: ele é um profeta, enviado por Deus. Os fariseus não podem suportar isso: “Você está tentando nos ensinar, você que é um pecador desde que você nasceu?”.

O escritor do Evangelho diz que “quando Jesus ouviu que o tinham expulsado, foi em busca dele”. O intercâmbio é breve. Quando Jesus lhe pergunta se acredita no Messias, o homem expulsado diz: “Senhor, me diga quem é, para que eu creia nele”. Jesus responde-lhe das profundezas do seu coração: ‘Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo.’ O mendigo diz a ele: «Senhor, eu creio».

É assim que Jesus é. Ele sempre vem para encontrar aqueles que não são oficialmente bem-vindos em uma religião. Ele não abandona os que o buscam e amam, embora sejam excluídos das comunidades e instituições religiosas. Aqueles que não se encaixam em nossas igrejas, têm um lugar privilegiado no coração de Jesus.

Quem trará a mensagem de Jesus hoje aos grupos

  • que a qualquer momento ouvem a injusta condenação pública dos líderes religiosos cegos;
  • Que vêm às celebrações cristãs com medo de serem reconhecidos;
  • Que não podem receber comunhão em paz em nossas Missas;
  • Que vêem-se obrigados a viver sua fé em Jesus no silêncio de seus corações, quase secreta e clandestinamente?

Meus irmãos e irmãs desconhecidos, nunca se esqueçam: quando os cristãos o rejeitam, Jesus vos recebe.

HOMILIA – José Antonio Pagola – 03-04-2011
CAMINHOS PARA A FÉ

 

O relato é inesquecível. Chama-se tradicionalmente “A cura do cego de nascença”, mas é muito mais, pois o evangelista descreve o percurso interior que vai fazendo um homem perdido nas trevas até encontrar-se com Jesus, «Luz do mundo».

Não conhecemos o seu nome. Apenas sabemos que é um mendigo, cego de nascimento, que pede esmola nas redondezas do templo. Não conhece a luz. Nunca a viu. Não pode caminhar nem orientar-se por si mesmo. A sua vida decorre nas trevas. Nunca poderá conhecer uma vida digna.

Um dia Jesus passa pela sua vida. O cego tem tanta necessidade que deixa que lhe trabalhe os seus olhos. Não sabe quem é, mas confia na Sua força curadora. Seguindo as Suas indicações, limpa a sua vista na piscina de Siloé e, pela primeira vez, começa a ver. O encontro com Jesus vai mudar a sua vida.

Os vizinhos vêem-no transformado. É o mesmo mas parece-lhes outro. O homem explica-lhes a sua experiencia: «um homem que se chama Jesus curou-me.»  Não sabe mais. Ignora quem é e onde está, mas abriu-lhe os olhos. Jesus faz o bem mesmo àqueles que só o conhecem como homem.

Os fariseus, entendidos em religião, pedem-lhe todo tipo de explicações sobre Jesus. Ele fala-lhes da sua experiência: «só sei uma coisa: que era cego e agora vejo». Perguntam-lhe que pensa de Jesus e ele diz-lhes o que sente: «que é um profeta». O que recebeu Dele é tão bom que esse homem tem que vir de Deus. Assim vive muita gente simples a sua fé em Jesus. Não sabem teologia, mas sentem que esse homem vem de Deus.

Pouco a pouco, o mendigo vai ficando só. Os seus pais não o defendem. Os dirigentes religiosos expulsam-no da sinagoga. Mas Jesus não abandona a quem o ama e o procura. «Quando ouviu que o tinham expulso, foi procura-lo». Jesus tem os Seus caminhos para encontrar-se com quem o procura. Ninguém O pode impedir.

Quando Jesus se encontra com aquele homem a quem ninguém parece entender, apenas lhe faz uma pergunta: «Acreditas no Filho do Homem?» Acreditas no Homem Novo, o Homem plenamente humano precisamente por ser expressão e encarnação do mistério insondável de Deus? O mendigo está disposto a acreditar, mas encontra-se mais cego do que nunca: «E quem és, Senhor, para que acredite Nele?»

Jesus diz-lhe: ‘Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo.’  Ao cego abrem-se os olhos da alma. Prostra-se ante Jesus e diz-Lhe: «Creio, Senhor». Só escutando Jesus e deixando-nos conduzir interiormente por Ele, vamos caminhando para uma fé mais plena e também mais humilde.

José Antonio Pagola Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

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Obs: A cena completa do cego de nascença termina em 10,42 incluindo o Bom Pastor. Jo 9,1-10,42

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A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO-DEHONIANOS

segunda-feira, março 20th, 2017

A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO

DEHONIANOS

AMBIENTE

O Evangelho segundo João procura apresentar Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. No “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,56), o autor apresenta – recorrendo aos “sinais” da água (cf. Jo 4,1-5,47), do pão (cf. Jo 6,1-7,53), da luz (cf. Jo 8,12-9,41), do pastor (cf. Jo 10,1-42) e da vida (cf. Jo 11,1-56) – um conjunto de catequeses sobre a acção criadora e vivificadora do Messias.

O texto que hoje nos é proposto é, exactamente, a quinta catequese (a da vida) do “Livro dos Sinais”. Trata-se de uma narração única, que não tem paralelo nos outros três Evangelhos.

A cena situa-nos em Betânia, uma aldeia a Este do monte das Oliveiras, a cerca de três quilómetros de Jerusalém. O autor da catequese coloca-nos diante de um episódio – um triste episódio – familiar: a morte de um homem. A família mencionada, constituída por três pessoas (Marta, Maria e Lázaro), parece conhecida de Jesus: no vers. 5, diz-se que Jesus amava Marta, a sua irmã Maria e Lázaro. A visita de Jesus a casa desta família é, aliás, mencionada em Lc 10,38-42; e João tem o cuidado de observar que a Maria, aqui referenciada, é a mesma que tinha ungido o Senhor com perfume e lhe tinha enxugado os pés com os cabelos (vers. 2, cf. Jo 12,1-8).

MENSAGEM

A família de Betânia apresenta algumas características dignas de nota…
Em primeiro lugar, o autor da narração não faz qualquer referência a outros membros, para além de Maria, Marta e Lázaro: não há pai, nem mãe, nem filhos. Além disso, João insiste no grau de parentesco que une os três: são “irmãos” (vers. 1.2b.3.5.19.21.23.28.32.39). A palavra “irmão” (“adelfós”) será a palavra usada por Jesus, após a ressurreição, para definir a comunidade dos discípulos (Jo 20,17); e este apelativo será comum entre os membros da comunidade cristã primitiva (Jo 21,23).

Por outro lado, notemos a forma como é descrita a relação entre Jesus e esta família de irmãos… Trata-se de uma família amiga de Jesus, que Jesus conhece e que conhece Jesus, que ama Jesus e que é amada por Jesus, que recebe Jesus em sua casa.

Um facto abala a vida desta família: um irmão (Lázaro) está gravemente doente. As “irmãs” mostram o seu interesse, preocupação e solidariedade para com o “irmão” doente e informam Jesus.

A relação de Jesus com Lázaro é de afecto e amizade; mas Jesus não vai imediatamente ao seu encontro; parece, até, atrasar-se deliberadamente (vers. 6). Com a sua passividade, Jesus deixa que a morte física do “amigo” se consume. Provavelmente, na intenção do nosso catequista, o pormenor significa que Jesus não veio para alterar o ciclo normal da vida física do homem, libertando-o da morte biológica; veio, sim, para dar um novo sentido à morte física e para oferecer ao homem a vida eterna.

Depois de dois dias, Jesus resolve dirigir-se à Judeia ao encontro do “amigo”. No entanto, a oposição a Jesus está, precisamente, na Judeia e, de forma especial, em Jerusalém. Os discípulos tentam dissuadí-LO      : eles não entenderam, ainda, que o plano do Pai é que Jesus dê vida ao homem enfermo, mesmo que para isso corra riscos e tenha de oferecer a sua própria vida. Jesus não dá atenção ao medo dos discípulos: a sua preocupação única é realizar o plano do Pai no sentido de dar vida ao homem. Jesus não pode abandonar o “amigo”: Ele é o pastor que desafia o perigo por amor dos seus.

Ao chegar a Betânia, Jesus encontrou o “amigo” sepultado há já quatro dias. De acordo com a mentalidade judaica, a morte era considerada definitiva a partir do terceiro dia. Quando Jesus chega, Lázaro está, pois, verdadeiramente morto. Jesus não elimina a morte física; mas, para quem é “amigo” de Jesus, a morte física não é mais do que um sono, do qual se acorda para descobrir a vida definitiva.
Por esta altura, entram em cena as “irmãs” de Lázaro. Marta é a primeira. Vem ao encontro de Jesus e insinua a sua reprovação: Jesus podia ter evitado a morte do amigo, se tivesse estado presente, pois onde Ele está reina a vida. No entanto, mesmo agora, Jesus poderá interceder junto de Deus, Deus atendê-lo-á e devolverá a vida física a Lázaro. Marta acredita em Deus; acredita que Jesus é um profeta, através de quem Deus actua no mundo; mas ainda não tem consciência de que Jesus é a vida do Pai e que Ele próprio dá a vida.

Jesus inicia a sua catequese dizendo-lhe: “teu irmão ressuscitará”. Marta pensa que as palavras de Jesus são uma consolação banal e que Ele se refere à crença farisaica, segundo a qual os mortos haveriam de reviver, no final dos tempos, quando se registasse a última intervenção de Deus na história humana. Isso ela já sabe; mas não chega: esse último dia ainda está tão longe…

Jesus, no entanto, não fala da ressurreição no final dos tempos. O que Ele diz é que, para quem é amigo de Jesus, não há morte, sequer. Jesus é “a ressurreição e a vida”. Para os seus amigos, a morte física é apenas a passagem desta vida para a vida plena. Jesus não evita a morte física; mas Ele oferece ao homem essa vida que se prolonga para sempre. Para que essa vida definitiva possa chegar ao homem é necessário, no entanto, que o homem adira a Jesus e O siga, num caminho de amor e de dom da vida (“todo aquele que vive e acredita em mim, nunca morrerá”). A comunidade de Jesus (a comunidade dos que aderiram a Ele e ao seu projecto) é a comunidade daqueles que já possuem a vida definitiva. Eles passarão pela morte física; mas essa morte será apenas uma passagem para a verdadeira vida. E é essa vida verdadeira que Jesus quer oferecer. Confrontada com esta catequese (“acreditas nisto?”), Marta manifesta a sua adesão ao que Jesus diz e professa a sua fé no Senhor que dá a vida (“acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo”).

Maria, a outra irmã, tinha ficado em casa. Está imobilizada, paralisada pela dor sem esperança. Marta – que falara com Jesus e encontrara n’Ele a resposta para a situação que a fazia sofrer – convida a irmã a sair da sua dor e a ir, por sua vez, ao encontro de Jesus. Maria vai rapidamente, sem dar explicações a ninguém: ela tem consciência de que só em Jesus encontrará uma solução para o sofrimento que lhe enche o coração. Também nas palavras de Maria há uma reprovação a Jesus pelo facto de Ele não ter estado presente, impedindo a morte física de Lázaro. Jesus não pronuncia qualquer palavra de consolo, nem exorta à resignação (como é costume fazer nestes casos): vai fazer melhor do que isso e vai mostrar que Ele é, efectivamente, a ressurreição e a vida.

A cena da ressurreição de Lázaro começa com Jesus a chorar (vers. 35). Não é pranto ruidoso, mas sereno… Jesus mostra, dessa forma, o seu afecto por Lázaro, a sua saudade do amigo ausente. Ele – como nós – sente a dor, diante da morte física de uma pessoa amada; mas a sua dor não é desespero.
Jesus chega junto do sepulcro de Lázaro. A entrada da gruta onde Lázaro está sepultado está fechada com uma pedra (como era costume, entre os judeus). A pedra é, aqui, símbolo da definitividade da morte. Separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos, cortando qualquer relação entre um e outro.

Jesus, no entanto, manda tirar essa “pedra”: para os crentes, não se trata de duas realidades sem qualquer relação. Jesus, ao oferecer a vida plena, abate as barreiras criadas pela morte física. A morte física não afasta o homem da vida.
A acção de dar vida a Lázaro representa a concretização da missão que o Pai confiou a Jesus: dar vida plena e definitiva ao homem. É por isso que Jesus, antes de mandar Lázaro sair do sepulcro, ergue os olhos ao céu e dá graças ao Pai (vers. 41b-42): a sua oração demonstra a sua comunhão com o Pai e a sua obediência na concretização do plano do Pai. Depois, Jesus mostra Lázaro vivo na morte, provando à comunidade dos crentes que a morte física não interrompe a vida plena do discípulo que ama Jesus e O segue.

A família de Betânia representa a comunidade cristã, formada por irmãos e irmãs. Todos eles conhecem Jesus, são amigos de Jesus, acolhem Jesus na sua casa e na sua vida. Essa família também faz a experiência da morte física. Como é que deve lidar com ela? Com o desespero de quem acha que tudo acabou? Com a tristeza de quem acha que a morte venceu, por algum tempo, até que Deus ressuscite o “irmão” morto, no final dos tempos (perspectiva dos fariseus da época de Jesus)?

Não. Ser amigo de Jesus é saber que Ele é a ressurreição e a vida e que dá aos seus a vida plena, em todos os momentos. Ele não evita a morte física; mas a morte física é, para os que aderiram a Jesus, apenas a passagem (imediata) para a vida verdadeira e definitiva. Para os “amigos” de Jesus – para aqueles que acolhem a sua proposta e fazem da sua vida uma entrega a Deus e um dom aos irmãos – não há morte… Podemos chorar a saudade pela partida de um irmão, mas temos de saber que, ao deixar este mundo, ele encontrou a vida plena, na glória de Deus.

ATUALIZAÇÃO

A reflexão pode fazer-se a partir dos seguintes elementos:

  1. A questão principal do Evangelho deste domingo – e que é uma questão determinante para a nossa existência de crentes – é a afirmação de que não há morte para os “amigos” de Jesus – isto é, para aqueles que acolhem a sua proposta e que aceitam fazer da sua vida uma entrega ao Pai e um dom aos irmãos. Os “amigos” de Jesus experimentam a morte física; mas essa morte não é destruição e aniquilação: é, apenas, a passagem para a vida definitiva. Mesmo que estejam privados da vida biológica, não estão mortos: encontraram a vida plena, junto de Deus. A história de Lázaro pretende representar essa realidade.
  2. No dia do nosso Baptismo, escolhemos essa vida plena e definitiva que Jesus oferece aos seus e que lhes garante a eternidade. A nossa vida tem sido coerente com essa opção? A nossa existência tem sido uma existência egoísta e fechada, que termina na morte, ou tem sido uma existência de amor, de partilha, de dom da vida, que aponta para a realização plena do homem e para a vida eterna?
  3. Ao longo da nossa existência nesta terra, convivemos com situações em que somos tocados pela morte física daqueles a quem amamos… É natural que fiquemos tristes pela sua partida e por eles deixarem de estar fisicamente presentes a nosso lado. A nossa fé convida-nos, no entanto, a ter a certeza de que os “amigos” não são aniquilados: apenas encontraram essa vida definitiva, longe da debilidade e da finitude humanas.
  4. Diante da certeza que a fé nos dá, somos convidados a viver a vida sem medo. O medo da morte como aniquilamento total torna o homem cauteloso e impotente face à opressão e ao poder dos opressores; mas libertando-nos do medo da morte, Jesus torna-nos livres e capacita-nos para gastar a vida ao serviço dos irmãos, lutando generosamente contra tudo aquilo que oprime e que rouba ao homem a vida plena.

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 5º DOMINGO DA QUARESMA
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

  1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

Ao longo dos dias da semana anterior ao 5º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

  1. INCLINAÇÃO NO MOMENTO PENITENCIAL.

Neste domingo sob o signo da Ressurreição e da Vida, eis uma sugestão para renovar o rito penitencial. Depois de uma breve introdução, o presidente da assembleia, virado para a cruz, inclina-se profundamente, assim como toda a assembleia. Permanecer assim durante algum tempo, em profundo silêncio… Seguem-se algumas invocações penitenciais que podem ter como resposta: “Senhor, dai-nos a Vida!”

  1. RENOVAR A PROFISSÃO DE FÉ.

Habitualmente, dizemos o Credo com um ar demasiado rotineiro e repetitivo… Como transmitir-lhe mais alegria e entusiasmo interior? Uma brevíssima introdução pode motivar a uma maior atenção à recitação do Credo. Pode-se ainda proclamar o Símbolo dos Apóstolos (dando o texto antecipadamente, pois não é sabido de cor). Pode-se também proclamar a fórmula do credo baptismal (dialogada)…

  1. BILHETE DE EVANGELHO.

A vida é esperança. Estão vivos aqueles que esperam. Depois do momento do nosso nascimento, em que fomos criados, somos habitados pela esperança. Não cessamos de procurar, esperar, desejar. Procuramos os sinais de Deus? Esperamos a sua vinda? Desejamos a sua presença? Neste tempo da Quaresma, somos convidados à conversão. A esperança opera uma mudança nos nossos comportamentos. Não nos contentemos com esperanças que nos podem decepcionar. Nós vivemos de esperança, porque Deus não pode decepcionar-nos. Porque o nosso Deus é um Deus que fala, somos chamados por Ele. A esperança faz-nos escutar os seus apelos e responder-lhes. Sejamos vivos. Sê-lo-emos se nós esperamos.

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http://www.dehonianos.org/portal/liturgia/?mc_id=1379

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
Proposta para
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
Tel. 218540900 – Fax: 218540909
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O CEGO DE NASCENÇA – DEHONIANOS

segunda-feira, março 20th, 2017

O CEGO DE NASCENÇA – Jo 9,1-41

DEHONIANOS

AMBIENTE

Já vimos, que o Evangelho segundo João procura apresentar Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. Também vimos que, no chamado “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,56), o autor apresenta – recorrendo aos “sinais”:

  1. da água (cf. Jo 4,1-5,47),
  2. do pão (cf. Jo 6,1-7,53),
  3. da luz (cf. Jo 8,12-9,41),
  4. do pastor (cf. Jo 10,1-42) e
  5. da vida (cf. Jo 11,1-56)

– um conjunto de catequeses sobre a ação criadora do Messias.

O nosso texto é, exatamente, a terceira catequese (a da luz) do “Livro dos Sinais”: através do “sinal” da “luz”, o autor vai descrever a ação criadora e vivificadora de Jesus. A catequese sobre a “luz” é colocada no contexto da “Festa de Sukkot” (a festa das colheitas); um dos ritos mais populares dessa festa era, exatamente, a iluminação dos quatro grandes candelabros do átrio das mulheres, no Templo de Jerusalém.

No centro do quadro aparece-nos (além de Jesus) um cego. Os “cegos” faziam parte do grupo dos excluídos da sociedade palestina de então. As deficiências físicas eram consideradas – pela teologia oficial – como resultado do pecado (os rabbis da época chegavam a discutir de onde vinha o pecado de alguém que nascia com uma deficiência: se o defeito era o resultado de um pecado dos pais, ou se era o resultado de um pecado cometido pela criança no ventre da mãe).

Segundo a concepção da época, Deus castigava de acordo com a gravidade da culpa. A cegueira era considerada o resultado de um pecado especialmente grave: uma doença que impedisse o homem de estudar a Lei era considerada uma maldição de Deus por excelência. Pela sua condição de impureza notória, os cegos eram impedidos de servir de testemunhas no tribunal e de participar nas cerimônias religiosas no Templo.

MENSAGEM

O nosso texto não é uma reportagem jornalística sobre a cura de um cego; mas é uma catequese, na qual se apresenta Jesus como a “luz” que veio iluminar o caminho dos homens. O “cego” da nossa história é um símbolo de todos os homens e mulheres que vivem na escuridão, privados da “luz”, prisioneiros dessas cadeias que os impedem de chegar à plenitude da vida. A reflexão apresenta-se em vários quadros.
No primeiro quadro (vers. 2-5), Jesus apresenta-se como “a luz do mundo”. Jesus e os discípulos estão diante de um cego de nascença. De acordo com a teologia da época, o sofrimento era sempre resultado do pecado; por isso, os discípulos estavam preocupados em saber se foi o cego que pecou ou se foram os seus pais. Jesus desmonta esta perspectiva e nega qualquer relação entre pecado e sofrimento. No entanto, a ocasião é propícia para ir mais além; e Jesus aproveita-a para mostrar que a missão que o Pai lhe confiou é ser “a luz do mundo” e encher de “luz” a vida dos que vivem nas trevas.

No segundo quadro (vers. 6-7), Jesus passa das palavras aos atos e prepara-se para dar a “luz” ao cego. Começa por cuspir no chão, fazer lodo com a saliva e ungir com esse lodo os olhos do cego. O gesto de fazer lodo reproduz, evidentemente, o gesto criador de Deus de Gn 2,7 (quando Deus amassou o barro e modelou o homem). A saliva transmitia, pensava-se, a própria força ou energia vital (equivale ao sopro de Deus, que deu vida a Adão – cf. Gn 2,7). Assim, Jesus juntou ao barro a sua própria energia vital, repetindo o gesto criador de Deus. A missão de Jesus é criar um Homem Novo, animado pelo Espírito de Jesus.
No entanto, a cura não é imediata: requer-se a cooperação do enfermo. “Vai lavar-te na piscina de Siloé” – diz-lhe Jesus. A disponibilidade do cego em obedecer à ordem de Jesus é um elemento essencial na cura e sublinha a sua adesão à proposta que Jesus lhe faz. A referência ao banho na piscina do “enviado” (o autor deste texto tem o cuidado de explicar que Siloé significa “enviado”) é, evidentemente, uma alusão à água de Jesus (o enviado do Pai), essa água que torna os homens novos, livres das trevas/escravidão. A comunidade joânina pretenderá, certamente, fazer aqui uma catequese sobre o batismo: quem quiser sair das trevas para viver na luz, como Homem Novo, tem de aceitar a água do batismo – isto é, tem de optar por Jesus e acolher a proposta de vida que Ele oferece.

Depois, o autor do texto coloca em cena várias personagens; essas personagens vão assumir representar vários papéis e assumir atitudes diversas diante da cura do cego.

Os primeiros a ocupar a cena são os vizinhos e conhecidos do cego (vers. 8-12). A imagem do cego, dependente e inválido, transformado em homem livre e independente, leva os seus concidadãos a interrogar-se. Percebem que de Jesus vem o dom da vida em plenitude; talvez anseiem pelo encontro com Jesus, mas não se atrevem a dar o passo definitivo (ir ao encontro de Jesus) para ter acesso à “luz”. Representam aqueles que percebem a novidade da proposta que Jesus traz, que sabem que essa proposta é libertadora, mas que vivem na inércia, no comodismo e não estão dispostos a sair do seu “cantinho”, do seu mundo limitado, para ir ao encontro da “luz”.

Um outro grupo que aparece em cena é o dos fariseus (vers. 13-17). Eles sabem perfeitamente que Jesus oferece a “luz”; mas recusam-na liminarmente. Para eles, interessa continuar com o esquema das “trevas”. Representam aqueles que têm conhecimento da novidade de Jesus, mas não estão dispostos a acolhê-la. Sentem-se mais confortáveis nos seus esquemas de escravidão e auto-suficiência e não estão dispostos a renunciar às “trevas”. Mais: opõem-se decididamente à “luz” que Jesus oferece e não aceitam que alguém queira sair da escravidão para a liberdade. Quando constatam que o homem curado por Jesus não está disposto a voltar atrás e a regressar aos esquemas de escravidão, expulsam-no da sinagoga: entre as “trevas” (que os dirigentes querem manter) e a “luz” (que Jesus oferece), não pode haver compromisso.

Depois, aparecem em cena os pais do cego (vers. 18-23). Eles limitam-se a constatar o acontecimento (o filho nasceu cego e agora vê), mas evitam comprometer-se. Na sua atitude, transparece o medo de quem é escravo e não tem coragem de passar das “trevas” para a “luz”. O texto explica, inclusive, que eles “tinham medo de ser expulsos da sinagoga”. A “sinagoga” designava o local do encontro da comunidade israelita; mas designava, também, a própria comunidade do Povo de Deus. Ser expulso da “sinagoga” significava a excomunhão, o risco de ser declarado herege e apóstata, de perder os pontos de referência comunitários, o cair na solidão, no ridículo, no descrédito e na marginalidade. Preferem a segurança da ordem estabelecida – embora injusta e opressora – do que os riscos da vida livre. Representam todos aqueles que, por medo, preferem continuar na escravidão, não provocar os dirigentes ou a opinião pública, do que correr o risco de aceitar a proposta transformadora de Jesus.

Finalmente, reparemos no “percurso” que o homem curado por Jesus faz. Antes de se encontrar com Jesus, é um homem prisioneiro das “trevas”, dependente e limitado. Depois, encontra-se com Jesus e recebe a “luz” (do encontro com Jesus resulta sempre uma proposta de vida nova para o homem). O relato descreve – com simplicidade, mas também de uma forma muito bela – a progressiva transformação que o homem vai sofrendo. Nos momentos imediatos à cura, ele não tem ainda grandes certezas (quando lhe perguntam por Jesus, responde: “não sei”; e quando lhe perguntam quem é Jesus, ele responde: “é um profeta”); mas a “luz” que agora brilha na sua vida vai-o amadurecendo progressivamente.

Confrontado com os dirigentes e intimado a renegar a “luz” e a liberdade recebidas, ele torna-se, em dado momento, o homem das certezas, das convicções; argumenta com agilidade e inteligência, joga com a ironia, recusa-se a regressar à escravidão: mostra o homem adulto, maduro, livre, sem medo… É isso que a “luz” que Jesus oferece produz no homem.

Finalmente, o texto descreve o estádio final dessa caminhada progressiva: a adesão plena a Jesus (vers. 35-38). Encontrando o ex-cego, Jesus convida-o a aderir ao “Filho do Homem” (“acreditas no Filho do Homem?” – vers. 35); a resposta do ex-cego é a adesão total: “creio, Senhor” (vers. 38). O título “Senhor” (“kyrios”) era o título com que a comunidade cristã primitiva designava Jesus, o Senhor glorioso. Diz, ainda, o texto, que o ex-cego se prostrou e adorou Jesus: adorar significa reconhecer Jesus como o projeto de Homem Novo que Deus apresenta aos homens, aderir a Ele e segui-l’O.

Neste percurso está simbolicamente representado o “caminho” do catecúmeno. O primeiro passo é o encontro com Jesus; depois, o catecúmeno manifesta a sua adesão à “luz” e vai amadurecendo a sua descoberta… Torna-se, progressivamente, um homem livre, sem medo, confiante; e esse “caminho” desemboca na adesão total a Jesus, no reconhecimento de que Ele é o Senhor que conduz a história e que tem uma proposta de vida para o homem… Depois disto, ao cristão nada mais interessa do que seguir Jesus.

A missão de Jesus é aqui apresentada como criação de um Homem Novo. Deus criou o homem para ser livre e feliz; mas o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, dominaram o coração do homem, prenderam-no num esquema de “cegueira” e frustraram o projecto de Deus. A missão de Jesus consistirá em destruir essa “cegueira”, libertar o homem e fazê-lo viver na “luz”. Trata-se de uma nova criação… Assim, da acção de Jesus irá nascer um Homem Novo, liberto do egoísmo e do pecado, vivendo na liberdade, a caminho da vida em plenitude.

ATUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, as seguintes propostas:

  1. Nós, os crentes, não podemos fechar-nos num pessimismo estéril, decidir que o mundo “está perdido” e que à nossa volta só há escuridão… No entanto, também não podemos esconder a cabeça na areia e dizer que tudo está bem. Há, objectivamente, situações, instituições, valores e esquemas que mantêm o homem encerrado no seu egoísmo, fechado a Deus e aos outros, incapaz de se realizar plenamente. O que é que, no nosso mundo, gera escuridão, trevas, alienação, cegueira e morte? O que é que impede o homem de ser livre e de se realizar plenamente, conforme previa o projecto de Deus?
  2. A catequese que João nos propõe hoje garante-nos: a realização plena do homem continua a ser a prioridade de Deus. Jesus Cristo, o Filho de Deus, veio ao encontro dos homens e mostrou-lhes a luz libertadora: convidou-os a renunciar ao egoísmo e auto-suficiência que geram “trevas”, sofrimento, escravidão e a fazerem da vida um dom, por amor. Aderir a esta proposta é viver na “luz”. Como é que eu me situo face ao desafio que, em Jesus, Deus me faz?
  3. O Evangelho deste domingo descreve várias formas de responder negativamente à “luz” libertadora que Jesus oferece. Há aqueles que se opõem decididamente à proposta de Jesus porque estão instalados na mentira e a “luz” de Jesus só os incomoda; há aqueles que têm medo de enfrentar as “bocas”, as críticas, que se deixam manipular pela opinião dominante, e que, por medo, preferem continuar escravos do que arriscar ser livres; há aqueles que, apesar de reconhecerem as vantagens da “luz”, deixam que o comodismo e a inércia os prendam numa vida de escravos… Eu identifico-me com algum destes grupos?
  4. O cego que escolhe a “luz” e que adere incondicionalmente a Jesus e à sua proposta libertadora é o modelo que nos é proposto. A Palavra de Deus convida-nos, neste tempo de Quaresma, a um processo de renovação que nos leve a deixar tudo o que nos escraviza, nos aliena, nos oprime – no fundo, tudo o que impede que brilhe em nós a “luz” de Deus e que impede a nossa plena realização. Para que a celebração da ressurreição – na manhã de Páscoa – signifique algo, é preciso realizarmos esta caminhada quaresmal e renascermos, feitos Homens Novos, que vivem na “luz” e que dão testemunho da “luz”. O que é que eu posso fazer para que isso aconteça?
  5. Receber a “luz” que Cristo oferece é, também, acender a “luz” da esperança no mundo. O que é que eu faço para eliminar as “trevas” que geram sofrimento, injustiça, mentira e alienação? A “luz” de Cristo que os padrinhos me passaram no dia em que fui baptizado brilha em mim e ilumina o mundo?

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 4º DOMINGO DA QUARESMA
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

  1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

Ao longo dos dias da semana anterior ao 4º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

  1. FAZER UMA PROCISSÃO DA LUZ.

Para pôr em evidência a passagem das trevas à luz proclamada por todos os textos deste domingo, poder-se-á organizar uma procissão da luz para entrada da celebração e cantar um cântico com referência à Luz. Os portadores das luzes (velas acesas) poderão juntar-se à volta do evangeliário para a leitura do Evangelho: Cristo é a Luz do mundo!

  1. LER O EVANGELHO A DIVERSAS VOZES.

Como no domingo passado, o Evangelho (na sua forma longa) pode ser lido a diversas vozes: narrador, Jesus, cego, fariseus. De qualquer modo, é bom recordar que a leitura deve ser bem preparada e proclamada, para que seja escutada como Palavra de Deus e não como uma mera encenação…

  1. BILHETE DE EVANGELHO.

A vida é conversão! Aquele que está na verdade vem à luz, diz Jesus a Nicodemos quando o vem encontrar de noite. Esta palavra também nos é dirigida. Fazer uma caminhada de reconciliação é fazer sempre a verdade. Receber o perdão é acolher sempre a luz. Mas antes de fazer esta caminhada, é preciso decidir voltar para Deus. Deus nunca se afastou de nós, não esqueçamos isso. Eis porque, antes de nos confessarmos, devemos confessar (= afirmar com outros) que Deus é Amor. Somos nós que nos afastamos de Deus. Tomamos distância em relação a Deus cada vez em que não amamos ou amamos mal. O pecado é tudo o que é contrário ao amor por Deus e pelos irmãos. Deus espera-nos. Demos-lhe a alegria de nos perdoar.

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Obs: A cena completa do cego de nascença termina em 10,42 incluindo o Bom Pastor. Jo 9,1-10,42

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http://www.dehonianos.org/portal/liturgia/?mc_id=1339

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
Proposta para
ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
Grupo Dinamizador:
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
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