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ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE FRANCISCANA

sexta-feira, maio 15th, 2020

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL

 

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

 

3º Domingo da Páscoa
Dia: 18 de 04 de 2021
Primeira Leitura: At 3,13-15.17-19
Salmo: 4,2.4.7.9
Segunda Leitura: 1Jo 2,1-5a
Evangelho: Lc 24,35-48.

 

 

 

No capítulo 24, os relatos das aparições do Ressuscitado constituem a solene conclusão do evangelho lucano.  Este capítulo está dividido em três seções: o anúncio da ressurreição às mulheres (vv. 1-12); a aparição aos discípulos de Emaús (vv. 13-35) e a aparição final de Jesus aos onze (vv. 36-53). O autor demonstra duas preocupações: provar que as Escrituras revelam o plano salvífico de Deus em Jesus e atribuir ao próprio Jesus a iniciativa missionária dos discípulos, que marcará a comunidade de Lucas e, de modo mais abrangente, toda a Igreja. Por isso, o evangelista finaliza seu primeiro livro respondendo às dúvidas e dificuldades dos discípulos a respeito da ressurreição de Jesus.

No trecho de hoje, as primeiras palavras que Jesus ressuscitado aos discípulos são “paz a vós” (v. 36). No evangelho de Lucas, o tema “paz” é muito importante e está presente em todo o livro. A palavra grega eirēnē é usada 14 vezes em Lucas e está associada intimamente à ação do Messias: ele guiará o povo de Deus para a verdadeira paz (Lc 1,79), que é dom de Deus a quem é fiel (Lc 2,14.29), mas também é fruto da ação de Jesus como aquele que cura as enfermidades físicas (7,50; 8,48). Por isso, a invocação da paz faz parte da missão dos apóstolos (10,5-6). Estes breves exemplos demonstram que, em Lucas, o projeto de Jesus está intimamente associado à paz.

Para compreendermos mais claramente isso, é necessário situar no contexto do Império Romano não apenas a pessoa e as palavras de Jesus, mas também a comunidade lucana. O Terceiro Evangelho foi escrito em torno do ano 85 de nossa era. A dominação romana era fortemente propagandeada como “pacificação”: Roma impuna a chamada Pax Romana, um projeto de paz caracterizado pela submissão dos que se opunham à dominação imperial, uma paz manchada de sangue, garantida pela força das armas e pelo acúmulo de cadáveres. A Pax Romana foi estabelecida e consolidada por Otaviano, o primeiro imperador. Ele mudou seu próprio nome para César Augusto e se fazia chamar de “Salvador”, porque suas vitórias evitaram que o enorme território conquistado pelos romanos se fragmentasse. Neste sentido, ele “salvou” o império.

Lucas não se cansa de afirmr que César Augusto não é o Salvador (aliás, esta é a afirmação do anjo, em Lc 2,11: “o verdadeiro salvador está em Belém, não em Roma”) e que a verdadeira paz não é aquela imposta violentamente por Roma, mas aquela que Deus oferece para quem com liberdade a aceita (Lc 2,14). Em outras palavras, Lucas desmascara a mentira de uma paz banhada no sangue dos que não se submentem ao imperador romano. Por isso, as primeiras palavras de Jesus Ressuscitado são “Paz a vós”. Esta saudação, porém, provoca não apenas o reconhecimento de que Jesus está ali presente, mas também medo e dúvida: “eles pensavam ver um espírito” (v.37).

A comunidade lucana vive no ambiente grego e, conforme a compreensão da época, quando alguém morre, seu espírito se separa do corpo. Por isso, é necessário demonstrar que Jesus Ressuscitado não é um espírito desencarnado que vaga e aparece a seus amigos e parentes. Jesus não é um fantasma e, por tal razão, os discípulos podem vê-lo, ouvi-lo e tocá-lo. O evangelista ainda acrescenta o detalhe de que ele se alimenta na presença dos discípulos, como modo de garantir que não é uma “alma penada”. Ao contrário, os discípulos constatam que o mesmo Jesus que morreu na cruz está agora ressuscitado: “Vede minhas mãos e meus pés. Sou eu mesmo” (v. 39).

Jesus se apresenta não como alguém glorioso (como se fazia representar o imperador), mas como aquele que carrega os sinais da crucifixão. As marcas dos cravos nas mãos e nos pés são os resultados das escolhas e da coerência de Jesus. Ao mostrá-las a seus discípulos, Jesus quer convencê-los de que seus ideais, suas ações, suas lutas em defesa da vida e da verdade não morreram na cruz nem podem ser apagadas pela tirania do império. Mais ainda: ele convida os discípulos e toda a Igreja a se engajarem no seu projeto de paz, marcado pela vida, pelo perdão, pela verdade, pelo acolhimento e pela justiça.

No v. 44, Jesus afirma: “é necessário que se cumpra tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Deste modo, ele faz os discípulos compreender o significado dos acontecimentos à luz das Escrituras: “Então, abriu‑lhes a mente para que compreendessem as Escrituras” (v. 45). A exemplo do que acontece no episódio de Emaús, temos reminiscências eucarísticas: Jesus se faz presente no meio da comunidade reunida e toma refeição com os discípulos. Antes de partir, porém, ele explica o sentido das Escrituras numa linguagem que todos possam entender e aplica a eles as antigas profecias, acerca do anúncio da conversão a todas as nações (vv. 46-47), de modo que, a partir desta aparição, eles se tornem as testemunhas (v. 48) de um novo projeto de paz e vida plena.

 

 

4º Dom. da Páscoa

Dia: 25 de abril de 2021

Primeira Leitura: At 4,8-12

Salmo: 117,1 e 8-9.21-23.26.28cd.29

Segunda Leitura: 1Jo 3, 1-2

Evangelho: Jo 10, 11-18

 

No contexto jubiloso da festa das Tendas, o evangelista sublinha a messianidade e a identidade sobrenatural de Jesus. Na seção 7,1–10,21 há um progresso na revelação do mistério de Cristo, concomitante ao agravamento da hostilidade contra ele da parte das autoridades judaicas. As articulações mais significativas são três: o debate no templo (7,1–8,59); a cura do cego de nascença (9,1-41); o discurso de Jesus sobre o bom pastor (10,1-18).

Os chefes dos sacerdotes haviam expulso o cego curado (9,34), mas ele é acolhido por Jesus (9,35-38), o bom pastor que ama e guia com solicitude. A imagem do verdadeiro pastor, que ocorre frequentemente nas Escrituras (Ez 34; Jr 23,1-6; Zc 11,4-17), é referida a Jesus também nos sinóticos (Mc 6,34; Mt 9,36; 10,6; 15,24; 26,31). Note-se a sugestiva parábola da ovelha perdida (Lc 15,4-7). Jo reelabora de modo original esse tema da pregação de Jesus.

Nos vers. 11-13 vêm ilustrada a imagem do pastor. Jesus se identifica duas vezes com o bom pastor (vers. 11.14) em contraposição à figura do mercenário. O adjetivo grego é kalós (literalmente “belo” = “ideal”, “bom”, “generoso”), que, significando secundariamente “bom”, tem como sentido primário “belo”. Jesus é o “belo pastor” à maneira de Davi, como se lê em 1Sm 16,11-12. Nesse episódio do Antigo Testamento, Samuel pergunta a Jessé pelo filho ausente. Jessé responde: “está apascentando as ovelhas”. Samuel ordena que Davi seja chamado. “Jessé mandou então buscá-lo. Davi era de belo semblante e admirável presença”.

O bom pastor, “se despoja (tithēsin) de sua vida pelas suas ovelhas”, ao invés de “dar a vida”. A terminologia também é usada para as vestes de Jesus na Ceia com os discípulos (13,4). O termo acentua, de modo particular, a liberdade e a voluntariedade e, ao mesmo tempo, o amor e a generosidade. A expressão “despoja” (tithēsin), revela a consciência e a liberdade com as quais Jesus “se despoja” da própria vida como uma veste (13,4.12) para depois retomá-la na ressurreição. Ele expõe a sua vida pelas (hyper, em favor) suas ovelhas. Em oposição, o comportamento do mercenário se contrapõe radicalmente ao do bom pastor.

O evangelista sublinha a bondade do Pastor/Jesus com uma segunda motivação: ele além de expor a sua vida por suas ovelhas, conhece-as, ou seja, ama-as profundamente. Entre o Pastor e as ovelhas subsiste uma comunhão de vida, que possui como modelo o amor recíproco com o Pai. Na linguagem semítica, o sentido de “conhecer” ultrapassa o saber cognitivo, indicando uma experiência concreta de relacionamento íntimo. Este “conhecimento” é desde agora, para nós, a vida eterna (2ª. Leitura 1Jo 3,2).

O v. 16 introduz o tema da salvação universal: todos os povos formarão um só rebanho. A comunidade messiânica será composta por todos aqueles que escutarão a voz de Jesus, crendo nele. O texto fala em mia poimnē,  “um rebanho”. Não se diz “um só aprisco”, porque a unidade não é considerada do ponto de vista externo e institucional, mas interior e dinâmico (genēsontai “haverá”, literalmente “se tornarão)

Nos vers. 17-18 aparece a ideia da plena adesão de Jesus à vontade do Pai. Jesus despoja-se de sua vida com a certeza de poder retomá-la de novo. Nos sinóticos é o Pai que “entrega” o Filho. Em João, Jesus mesmo oferece livremente sua vida. Ele possui o poder de doá-la, mas também o poder/direito de resgatá-la.

A liturgia do 4º. Dom de Páscoa com a 1ª leitura (At 4,11) e o Sl 117,22, ao elencar o tema da pedra rejeitada que se torna pedra angular  faz uma nítida alusão à ressurreição de Jesus.

 

 

2º Domingo do Tempo da Páscoa
Dia: 11 de abril de 2021
Primeira Leitura: At 4,32-35
Salmo: 118/117,1-2.16ab-18.22-24
Segunda Leitura: 1Jo 5,1-6
Evangelho: Jo 20,19-31

 

Evangelho

O texto deve ser lido dentro do capítulo 20, pois todo ele é perpassado por uma cristologia e eclesiologia joanina: a ressurreição, a comunidade dos discípulos que se reúne no primeiro dia (20,1.19.26) e a missão, para a qual se requer a fé que se obtém ao participar da comunidade.

Pode-se dividir o texto em três partes: 1) a experiência do Ressuscitado (vv.19-23); 2) Tomé: a crise de fé (vv.24-29); epílogo (vv.30-31).

1) A experiência do Ressuscitado (19-23.26). A comunidade se reunia aos domingos (1º dia) de tarde para a celebração, embora ainda não tivesse uma fé madura, pois por medo, mantinha as portas fechadas. É neste ambiente reunido que o Ressuscitado se manifesta e confirma a fé dos discípulos. Agora a sua presença extrapola as leis da física, pois entra com as portas fechadas, mas ainda é o mesmo e para provar isto, mostra as chagas. O Ressuscitado é o crucificado redivivo. Ele deseja a paz, como prometera antes da paixão (Jo 14.27) e os discípulos se alegram (cf. Jo 15,11;16,20-24;17,13). Uma vez que a fé está confirmada, começa a missão: “como Pai me enviou, eu vos envio”. A igreja continua a obra do Pai que se manifesta em seu Filho. Para tanto, os discípulos são batizados no Espírito (sopro que lembra a criação – Gn 2,7; Sb 15,11; Ez 37). O Espírito vem de Jesus (cf. Jo 7,37-39; 19,34) e recria a comunidade dos apóstolos para a missão. Eles recebem, o poder de perdoar e reter os pecados, que é a continuação da missão do cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo 1.29; Jr 31,34). Trata-se de pregar e denunciar, mas também de receber de volta aquelas pessoas que se afastaram de Jesus, o que na concepção joanina é o pecado por excelência. Perdoar os pecados é anunciar Jesus, pois quem nele crê, não é julgado e reter os pecados é declarar que alguém ainda não possui a fé para receber a graça de Jesus através da igreja.

2) Tomé e a crise de fé (24-29). Todos os discípulos tiveram crise de fé (Mt 28,17; Mc 16,14; Lc 24,38). Em Jo 20,24-29, como também nos sinóticos, está um retrato falado das comunidades cristãs do período pós-pascal, que não conheceram o Jesus histórico. Muitos se questionavam: ele de fato está vivo? João centra as dúvidas das comunidades na pessoa de Tomé. Através do relato, mostra que a experiência do Ressuscitado é feita pelo testemunho da comunidade que se reúne no primeiro dia da semana: domingo vv.19.26). Estar em comunidade, no primeiro dia é fundamental para crer na ressurreição. Tomé não estava na comunidade, por isto teve de esperar mais oito dias (v.26), portanto, novamente o primeiro dia e estar com a comunidade, para enfim, fazer a experiência de fé que os demais já haviam feito antes. Aqui convém pensar nos leitores de João, dos anos 90. O texto quer conscientizar que é preciso crer sem ter visto, mas para isto, duas coisas são necessárias: a comunidade que celebra no primeiro dia e o testemunho desta mesma comunidade. É neste ambiente que se encontra o Ressuscitado. É então que Tomé faz a grande profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus”. Na comunidade celebrativa se professa Jesus como o Senhor e Deus (cf. Jo 1,1.18). O título duplo “Senhor e Deus” vem de “Javé Elohim” (2Sm 7,28; 1Rs 18,39). As comunidades cristãs devem passar do ver, para o crer sem ter visto. A verdadeira fé já não mais se baseia nas relações físicas, pois estas, são somente sinais que adquirem sentido, apenas com a fé. Sem a fé, os sinais são vazios.

3) Epílogo (30-31). Provavelmente a conclusão original da obra de João, antes do acréscimo do capítulo 21. Apresenta a ação de Jesus, para que a comunidade creia e receba a vida eterna.

 

Relação com as outras leituras

A fé no Ressuscitado não era apenas uma formulação dogmática. Ela era encarnada e transformava os discípulos que relativizavam tudo para tornar real a obra de Jesus, colocando tudo em comum (At 4,32ss). Esta fé já é a vitória e produz o amor ao próximo. Os neo-convertidos, pela fé em Cristo, amavam a Deus e ao próximo. Portanto, a fé no Ressuscitado transforma as relações humanas (1Jo 5,1-5).

 

Domingo da Páscoa

Dia: 04 de abril de 2021

Primeira Leitura: At 10,34.37-43

Salmo: 118/117 1-2.16ab-17.22-23

Segunda Leitura: Col 3,1-4

Evangelho: Jo 20,1-9

 

Os relatos joaninos da ressurreição e das primeiras aparições formam os dois quadros de um díptico. O primeiro encontra-se no capítulo 20, o segundo no capítulo 21. Cada um deles, por sua vez, é composto por várias cenas. Nesta liturgia, lemos Jo 20,1-9. Trata-se da primeira cena: Maria Madalena e os dois discípulos no sepulcro. O narrador começa falando de Maria Madalena (vv. 1-2a), mas muda rapidamente seu foco para os dois discípulos que correm até o sepulcro.

O primeiro dia da semana (v. 1): No Quarto Evangelho, a ressurreição de Jesus é uma nova criação. A primeira criação terminou em 19,30. De fato, Jesus afirma: “Tudo está consumado”. Após uma noite e uma manhã (referência ao primeiro relato da criação, em Gn 1), a descoberta do sepulcro vazia marca o início de um novo ciclo. O texto afira que “ainda estava escuro”. Literalmente: “ainda havia trevas”. Esta afirmação pode ser compreendida de vários modos. Pode ser uma escuridão cronológica (o sol ainda não tinha nascido), uma escuridão espiritual (Madalena ainda não tinha experimentado a ressurreição e tudo para ela estava sombrio, triste e sem perspectivas), uma escuridão ideológica (no Quarto Evangelho, as “trevas” são as forças contrárias à verdade e à vida, isto é, as forças ideológicas da morte que aparentemente venceram), uma escuridão criacional (conforme Gn 1,2; “as trevas cobriam o abismo”). O evangelista parece não querer que o leitor opte por uma delas e, por isso, o relato pode ser interpretado em todas essas dimensões ao mesmo tempo.

Por outro lado, a afirmação de Maria Madalena – “Não sabemos onde o colocaram” (v. 2) –e, logo em seguida, a busca frustrada dos discípulos (vv. 4-10) remetem o leitor a Cântico dos Cânticos 3,1: “Em meu leito, pela noite, procurei o amado de minha alma. Procurei-o e não o encontrei!… Pelas ruas e pelas praças… não o encontrei”. O vínculo com Cântico dos Cânticos ficará ainda mais explícito nos vv. 11-18 (que não fazem parte desta liturgia).

Diferente do que é narrado nos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), Maria Madalena vai sozinha ao túmulo. Ninguém está lá para explicar o que aconteceu. Por isso, ela sai de lá desconsertada e vai contar o fato a dois líderes dos discípulos: “Vai a Simão Pedro e ao outro discípulo, que Jesus amava” (v. 2). É também só no Quarto Evangelho que estes dois discípulos vão sozinhos ao sepulcro.

O evangelista preocupa-se em esclarecer que “os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa” (v. 4). O “outro discípulo” é aquele que está na origem da tradição joanina e que neste relato é identificado como “o discípulo amado”. Mas o texto não afirma unicamente que quem ama mais corre mais depressa e chega na frente. O evangelista quer evitar que seu relato promova uma competição entre os membros das comunidades e, de modo mais amplo, entre as próprias comunidades. Por isso, o discípulo que chega primeiro não entra no túmulo. Ele sabe que o líder do grupo dos discípulos é Pedro e respeita esta liderança e autoridade: o discípulo amado esperou Pedro e deixou que ele entrasse antes (vv. 5-6a).

O evangelista não poupa outros detalhes: o discípulo amado “vê os panos de linho por terra e o sudário… enrolado em um lugar à parte” (vv. 6b-7). O sepulcro é descrito como um quarto nupcial, no qual a vida e a fecundidade anulam a morte. A minúcia de que o lenço que cobria a cabeça estava cuidadosamente dobrado em um lugar à parte confirma o fato de que o desaparecimento do corpo de Jesus não foi obra de um ladrão. Mais ainda, é também uma alusão ao véu que cobria o rosto de Moisés depois que ele falou com Deus em Ex 34,33. Pode também estar ligado ao que Paulo afirma em 2 Cor 3,7-18: o véu que escondia a glória de Deus foi removido por Cristo.

O evangelista não revela o que Pedro pensou acerca do que viu. Pelo contrário, diz explicitamente qual foi o sentimento do discípulo amado: “ele viu e acreditou” (v. 8). O texto, aliás, afirma que o discípulo amado viu duas vezes: no v. 5, antes de entrar, ele olha para dentro do túmulo e vê; no v. 6, quando Pedro chega, entra e vê, o discípulo amado também entre e novamente vê e, desta vez, crê. É forte, portanto, a relação entre ver e crer. Trata-se de uma visão apenas física ou de uma descoberta espiritual? O evangelista parece induzir o leitor a considerar que é necessário estar em comunhão com Pedro para que a visão física (v. 5) se torne a visão da fé (v. 6).

Não obstante, o v. 9 parece enigmático: “Eles ainda não tinham compreendido a Escritura”. Sem dúvida, temos a surpresa provocada por algo inesperado e novo. Mas devemos também levar em conta a dificuldade dos discípulos de compreender que, segundo a Escritura, Jesus deveria ressuscitar.

No versículo seguinte ao trecho que é lido hoje, o evangelista afirma que “os discípulos voltaram para casa” (v. 10). Eles não compreenderam nada e, por isso, não sabem explicar para si mesmos nem para seu grupo o que havia acontecido; muito menos anunciar a alguém de fora. Afinal, para engajar-se na missão é necessário antes experimentar a presença de Jesus ressuscitado. Ele se manifestará à comunidade dos discípulos somente na tarde daquele dia, nos vv. 19-23. Até lá, Pedro e o discípulo amado ruminarão a dúvida, enquanto Maria Madalena, que inesperadamente reaparece junto ao túmulo. Mas esta já é outra cena, além dos limites do trecho de hoje (vv. 11-18).

 

 

 

DOMINGO DE RAMOS
Dia: 28 de março de 2021
Leitura antes da procissão: Mc 11,1-10
Primeira Leitura: Is 50,4-7
Salmo: 21,8-9.17-18a.19-20.23-24
Segunda Leitura: Fl 2,6-11
Evangelho: Mc 14, 1– 15,47;

 

Mc 11,1-10

O evangelho proclamado no início da celebração de Ramos manifesta uma orientação messiânica não somente na aclamação do povo, mas ainda pela deposição das vestes no caminho (2Rs 9,13). Mc apresenta uma história de Cristo, anunciando Jesus como Messias, fazendo referência ao Antigo Testamento.

Jerusalém é citada em primeiro lugar. Das duas grafias recorrentes na Escritura, Hierosolyma e Hierousalēm, Marcos usa sempre a primeira. Enquanto a segunda possui dignidade e tons sacros, a primeira forma (helenizada) é o termo profano usual para designar a cidade. A escolha de Mc não é casual, visto que Jerusalém é para ele a sede dos adversários de Jesus (3,22; 7,1), onde estes o matarão (10,32; 15,41). Tampouco é sem intenção se depois da primeira visita à cidade Jesus se retira (11,11). O relato acena ao fato que a cidade lhe pertence enquanto descendente de Davi, mas a mesma cidade lhe oporá recusa.

De Betfagé pouco sabemos com exatidão. Betânia é expressamente nomeada junto ao Monte das Oliveiras devido ao significado que este monte possui no AT como lugar de oração (Ez 11,23; 2Sm 15,32). Segundo Zc 14,4 no dia do juízo o Senhor se revelará sobre o Monte das Oliveiras e fenderá em dois o monte.

A tarefa misteriosa confiada aos dois discípulos (vers. 2-3) é compreendida a partir de Zc 9,9 e Gn 49,11. Segundo Zc 9,9s o rei messiânico cavalga um jumento e trará paz aos povos. A montaria amarrada é uma reminiscência de Gn 49,11, onde a bênção de Jacó sobre Judá menciona o surgimento daquele que possuirá o cetro de comando. O jumento escolhido para a tarefa de levar o Messias é adequado também porque ninguém ainda o montou. No judaísmo a integridade é o pressuposto para o uso dos animais na esfera religiosa e cultual. Assim, p. ex., segundo 1Sm 6,7 somente vacas de leite sobre as quais não tenha sido colocada canga podem puxar o carro da Arca da Aliança.

Com a tarefa dada aos discípulos, Jesus inicia o cumprimento daquilo que foi dito nas Escrituras a propósito do Messias, e anuncia, assim, que já na entrada da cidade ele se atém totalmente à vontade de Deus.

Mc faz referência ao Kyrios (Senhor) que necessita do jumento. Kyrios é um predicado cristológico que quer fazer conhecer o poder que ele possui. Talvez, o contraste paradoxal, que contemporaneamente se manifesta em relação a este poder, deseje destacar a pobreza deste Senhor.

São colocados sobre o animal vestidos a modo de ornamentos e Jesus o monta. Este gesto e a cena toda a seguir recorda uma entronização do rei em Israel (1Rs 1,38-40; 2Rs 9,13).

Nos vers. 8-10 são mencionadas pessoas que saúdam Jesus. Mc dá a entender (v.9: “iam à frente dele e o seguiam”) que a multidão não vem da cidade para dar-lhe as boas vindas (comparar com Jo 12,13), mas se trata daquelas pessoas que vieram com ele da Galileia.

Estender vestes pelo caminho – para Mc é a estrada que conduz à Paixão – faz uma certa tensão com os ramos apanhados nos campos. A história se conecta com a crucifixão de Jesus como rei dos judeus.

O cortejo que acompanha Jesus lhe grita Hosana e o saúda com as palavras do Sl 117,26. Hosana literalmente significa “salva-nos” que é o sentido próprio do Sl 117,25 (2Sm 14,4; 2Rs 6,26).

O significado do ingresso é esclarecido com o aceno ao “Reino do nosso pai Davi” (v.10) que vem com Jesus. Tal reino era nostalgicamente esperado no judaísmo. O reino de Davi devia ser restaurado. Jesus entra na cidade (de Davi) realizando as promessas messiânicas. No entanto, não vem para satisfazer expectativas políticas. A ausência do título de rei não é um acaso (comparar com Lc 19,38; Jo 12,13), este é reservado ao relato da paixão no qual se manifesta a verdadeira dignidade real de Jesus. Certamente poder real de Davi aguarda a Jesus, mas o modo do seu reino não pode ser compreendido ainda por ninguém. Será o título da cruz a proclamá-lo.

Mc 14,1—15,47

No domingo que antecede à Páscoa, lemos a história da Paixão de Jesus. Para as histórias da Paixão, nos quatro evangelhos, surpreende o fato que apareça um mesmo decurso dos acontecimentos, que vão da captura de Jesus ao interrogatório judaico, ao processo diante de Pilatos, à crucifixão, à morte em cruz, à sepultura até a descoberta do sepulcro vazio.

A Paixão em Mc está relacionada também temporalmente com o cômputo dos dias e com a passagem da noite para a manhã: dois dias antes da Páscoa, os chefes buscam uma razão para matar Jesus (14,1); no dia da preparação da páscoa são enviados à cidade dois discípulos (14,12); ao cair da tarde, chega Jesus com os Doze (14,17); ao canto do galo, Pedro renega o seu Mestre (14,72); pela manhã Jesus é entregue a Pilatos (15,1). Crucifixão e morte são colocadas cada uma em uma série de três horas (15,25.33s) e, à tarde, Jesus é sepultado (15,42). Ao início e ao final da Paixão aparecem a unção de Jesus da parte de uma mulher (14,3) e, respectivamente, a intenção de algumas mulheres ungirem o cadáver (16,1).

Uma outra característica dos relatos da Paixão é a frequência de precisas indicações de lugar. A cena se desenvolve, sobretudo, em Jerusalém, mas a unção acontece em Betânia, na casa de Simão, o leproso (14,3), a agonia e a captura no Getsêmani (14,32), a crucifixão sobre o Gólgota (15,22). Sabia-se, além  disso, onde era o lugar do sepulcro de Jesus.

À história da Paixão são relacionados diversos personagens. Aparecem, em primeiro plano, os já conhecidos membros do grupo de discípulos. Pensa-se a Pedro, que renega Jesus e Judas Iscariotes que o trai. Os Sumos Sacerdotes e os membros do Sinédrio da parte judaica e Pilatos da parte romana, são os atores principais alinhados contra Jesus. A esses se adicionam o centurião do pelotão de execução e os soldados, como também os servos e servas do sumo sacerdote. A acompanhar Jesus pela estrada do seu sofrimento estão Simão Cirineu (15,21), Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago (15,40), outra mulheres (15,41), talvez, também, José de Arimateia (15,42s).

É característica a influência de citações veterotestamentárias que são tomadas dos Salmos que tratam do Servo Sofredor (em particular o Sl 21). Se, por um lado, desse modo, vem indicada uma precisa diretriz para a interpretação da Paixão de Jesus, por outro, o discurso vem completado na primeira parte da narrativa da Paixão sublinhando seja que Jesus conhecia antecipadamente o sofrimento que o esperava, seja que ele naquela ocasião foi capaz de anunciar as coisas, em vez de ordená-las (14,7.13-15.18.20s.25.27s.30.41s).

Grandeza e humilhação, portanto, se encontram próximas uma da outra. Note-se a interpretação paulina associando o mistério da encarnação com a realidade da crucifixão em Fl 2,6-11.

A poderosa palavra de Jesus se cumpre do mesmo modo (14,72) que a palavra da Escritura que o Crucificado cita com seu grito de morte (15,34). O caminho de Jesus na estrada do sofrimento é um itinerário de solidão que atinge uma intensidade dramática envolvente.

 

 

 

5º Domingo da Quaresma
Dia: 21 de março de 2021
Primeira Leitura: Jr 31,31-34
Salmo: 51/50,3-4.12-13.14-15
Segunda Leitura: Hb 5,7-9
Evangelho: Jo 12,20-33

O capítulo 12 de João é composto por várias pequenas cenas que encerram o chamado “Livro dos Sinais” (Jo 2–12). O evangelho deste 5º domingo da Quaresma, Jo 12,20-33, é a quarta cena. Trata-se de um discurso dialogado em que Jesus revela sua missão como doador da vida e, ao mesmo tempo, explicita a missão da comunidade.

O início narrativo (v. 20) fala de gregos que subiram a Jerusalém para participar dos festejos da Páscoa. Estes gregos não são judeus da diáspora, mas simpatizantes do judaísmo, isto é, não judeus que querem percorrer um caminho de fé. Todavia, não são ainda circuncidados e, por isso, não são considerados membros a pleno direito da comunidade judaica. No v. 21 essas pessoas vão ter com Felipe e André. Estes dois discípulos desempenham um papel importante no evangelho de João. André é um dos discípulos de João Batista que se juntam a Jesus. Após permanecer todo um dia com Jesus, André apresenta seu novo Mestre a Pedro (Jo 1,41-42). Filipe é o primeiro ser chamado diretamente por Jesus e depois o anuncia a Natanael. André e Filipe são protótipos do discípulo-missionário: o encontro pessoal com Jesus impulsiona o discípulo ao anúncio. Este anúncio, todavia, não é uma imposição amarga e legalista, mas uma partilha entusiasmada e aberta, que deixa a pessoa que a recebe totalmente livre para questionar, para fazer sua própria experiência antes de aderir à proposta de Jesus.

O desejo dos gregos é ver Jesus (v. 22). Não é o desejo dos bisbilhoteiros que querem “tirar uma selfie e postar nas redes sociais”. No Quarto Evangelho, o verbo “ver” designa a descoberta do que está além das aparências, até alcançar o mistério. Por isso, um dos temas centrais é a “visão”, que equivale à experiência pessoal com Jesus e a resposta de adesão.

Ao ser informado deste desejo dos gregos, Jesus dá uma resposta estranha e parece ignorar o pedido daquelas pessoas. Suas palavras, no entanto, conduzem o leitor ao âmago do pedido. O que ele diz nos vv. 23b-24 indica o caminho para o discipulado.

Jesus começa afirmando: É chegada a hora de o Filho do Homem ser glorificado (v. 23b): Jesus declara que a hora chegou e que ela conduz à glória (vv. 23.28). Desde o início do Evangelho de João, há uma expectativa acerca da “hora de Jesus”. Em Jo 2,4, 7,30 e 8,20, afirma-se que a sua hora ainda não havia chegado. Mas agora, em 12,23 “a hora chegou”, porque o fato de os gregos buscarem Jesus indica o rompimento das barreiras raciais e culturais e o universalismo da mensagem do cristianismo.

Em seguida, ele usa uma metáfora para dar o sentido dos acontecimentos: Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo que caiu na terra não morre, permanece só. Mas, se morre, produz muito fruto (v. 24). Esta afirmação de Jesus faz lembrar a parábola do semeador (Mc 4,3-9 e paralelos). Nos sinóticos, a semente é usada como símbolo tanto da Palavra como do Reino de Deus. Em João, porém, a semente/grão é Jesus mesmo, que aqui faz entender o significado de sua morte. A morte é a condição para que se libere toda a energia vital que a semente contém: o fruto começa no grão que morre. Esta dinâmica é a própria vida-morte-ressurreição de Jesus, é a história da Salvação.

O v. 25 completa a metáfora: Quem quer bem a sua vida a perde, e quem odeia sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna. Jesus afirma que morre, não como ato final, mas como passo necessário para recuperar qualidade de vida. Portanto, o amor-próprio e o sentimento egoísta são incompatíveis com a adesão ao compromisso; são limitações que levam ao insucesso o projeto de Jesus pela “vida de sobra”. O egoísmo e o apego à vida levam a ceder diante das ameaças e, portanto, não só tornarão impossível amar sem limite, mas também acabarão cedendo ao mecanismo da injustiça.

No relato joanino da Paixão (Jo 18–19) não há nenhuma cena de agonia como nos sinóticos (Mc 14,21-42 e paralelos). A única referência em João a uma crise pessoal de Jesus diante de seu destino é o v. 27 do evangelho de hoje: Neste momento minha alma está perturbada. E, que direi? Pai, salva-me desta hora? Não obstante, Jesus manifesta a plena adesão ao projeto do Pai: Mas foi para isto que cheguei a esta hora. Esta é a hora para a qual sua vida está orientada desde o início. No Quarto Evangelho fica claro o conceito de que a cruz é o fruto de uma decisão consciente, um ato de doação livremente assumido.

Jesus continua: Pai, glorifica o teu nome! (v. 28), o que corresponde ao pedido do Pai Nosso “Santificado seja teu nome” (Mt 6,9). Este pedido não é que que os homens glorifiquem a Deus, mas o próprio Deus se faça conhecer ao mundo.

O Pai responde. Para Jesus (e para os leitores) a resposta é clara: Já o glorifiquei e o glorificarei ainda (v. 28). Para os presentes, porém, tudo parece um trovão. A voz/ trovão recorda as antigas teofanias em que Deus se dirigia ao povo por meio de um porta-voz (Ex 19,16.19). No êxodo do Egito, os israelitas e o próprio Moisés não puderam ver a glória de Deus (Ex 33,18; 34,29). Agora, porém, o Pai se manifesta diferentemente: com autoridade de Filho de Deus, Jesus promete acesso direto a esta nova teofania, para que, ali onde ele está, estejam também as suas discipulas e seus discípulos (v. 26). Não há mais, portanto, necessidade de mediador: a glória de Deus será visível em Jesus (Jo 12,45; 14,9). De certo modo, isso é cumprimento do que está na primeira leitura de hoje (Jr 31,31-34), mais especificamente o v. 34: Eles não terão mais de instruir seu próximo ou seu irmão, dizendo “Conhecei a Yhwh!”, porque todos me conhecerão, dos menores aos maiores.

4o Domingo da Quaresma Ano B
Dia: 14 de março de 2021
Primeira Leitura: 2Cr 36,14-16.19-23
Salmo: 137/136,1-2.3.4-5.6
Segunda Leitura: Ef 2,4-10
Evangelho: Jo 3,14-21

Evangelho

O texto da liturgia de hoje faz parte do diálogo de Jesus com Nicodemos (Jo 3,1-21). No entanto, os versículos 11-21 já não parecem diálogo, mas um monólogo do mestre. Nele, o evangelista apresenta uma cristologia pós-pascal sobre o papel de Jesus, aquele que desceu do céu (v.13), o revelador máximo do amor de Deus. A perícope da presente liturgia se divide em duas partes:

a) Os vv.14-15 referem-se à crucificação (hypsóo - elevado/exaltado) de Jesus, tema já presente no diálogo com Nicodemos: nascer do alto (vv.3.5). Para tanto, o autor se vale do relato da serpente de bronze (Nm 21,4-9), talvez um antigo culto idolátrico que os rabinos reinterpretaram, dizendo que a cura não acontecia pela serpente, mas pelo fato de as pessoas se voltarem para Deus. Os mordidos eram salvos pelo Senhor e não pelo objeto contemplado (Sb 16,7). O texto de João, se vale desta memória como uma prefiguração da crucificação. Como outrora as vítimas das cobras, agora, quem contemplar o Filho de Deus exaltado na cruz e nele crer, tem a vida eterna.

Crer no elevado, porém, não é um ato mágico, mas implica em assimilar a lógica da cruz (1Cor 1,17ss; 2,6-9). Crer é entrar no caminho escandaloso do que será elevado. A salvação não se dá de forma automática. Embora oferecida de forma gratuita no Filho elevado, ela requer a relativização de tudo até às últimas consequências, inclusive na doação da própria vida. Gesto este que só se consegue pela fé na pessoa de Jesus. Olhar para o crucificado e crer nele é mais do que sentimento de piedade. É revestir-se da lógica que animou o Filho de Deus.

b) Os vv.16-21 tiram as consequências desta elevação. O que se vê no elevado (cruz) é o símbolo máximo do amor de Deus. Assim, o Filho, o que desceu do céu, é a autoridade impar para demonstrar o amor do Pai. Quem nele crê, tem a vida. Crer nele, assimilar a sua lógica é entrar no projeto de Deus que conduz à vida eterna. Não crer nele, é optar contra a vida. Logo, não é Jesus que condena, mas a opção de quem não crê e, portanto, não opta pela vida e assim, zela sua própria sorte.

Nos textos joaninos, mundo tem mais de um sentido. Aqui, mundo é o lugar humano onde o amor de Deus chega com sua graça através do Filho. Deus busca as pessoas na situação em que elas se encontram, pois, sua graça é o antídoto para todo pecado, fato ilustrado por Paulo, quando queria se ver livre do espinho na carne e recebeu de Deus a resposta: “basta-te a minha graça” (2Cor 12,9). Jesus é esta graça de Deus em meio ao mundo. Estes versículos mudam a compreensão que se tinha de Deus no Antigo Testamento e que ainda persiste nas mentes moralistas de todos os tempos. Deus não quer a condenação de ninguém, mas a pessoa tem de aceitar pela fé esta proposta que se manifesta naquele que desceu do céu.

Nos sinóticos, o julgamento se realiza no fim dos tempos (Mt 26,31-46). Em João isto já se realiza na história: aceitar pela fé, ou rejeitar é o julgamento (v.18).

Jesus se apresenta como luz do mundo (Jo 8,12). Assim, preferir as trevas (vv.19-20) é claramente optar contra o projeto de Deus revelado em Jesus. Não se trata, pois, de um pecado, ou ato isolado, fruto das fraquezas humanas. Antes, trata-se de opção clara contra Jesus, o revelador do Pai. Isto é, opção contra Deus. O mesmo se dá com ‘praticar a verdade” (v.21). Esta verdade não é conceito cognitivo segundo a concepção grega, mas antes, aderir à luz, manifestada na exaltação de Jesus, que, em última análise, é o caminho de Deus para este mundo.

Relação com as outras leituras (2Cr 36,14-16.19-23 e Ef 2,4-10)

Tanto na primeira leitura como em Efésios, mostra-se a situação de pecado do ser humano. Mas Deus, rico em misericórdia, não olhando os merecimentos do povo, em sua bondade envia a graça: a volta do exílio (primeira leitura) e a remissão quando estávamos em pecado (segunda leitura). A iniciativa sempre é dele. Por isto. Ele enviou ao mundo o seu Filho amado, não para condenar, mas para salvar.

Dia: 07 de março de 2021
3º Domingo da Quaresma
Evangelho: Jo 2,13-25
Primeira Leitura: Ex 20,1-17
Segunda Leitura: 1 Cor 1,22-25.
Salmo: Sl 19/18,8.9.10.11

 

 

Evangelho

Esta passagem do Cap. 2 do Quarto Evangelho tem uma estrutura interna bem marcada. A referência à festa da Páscoa abre e fecha a perícope:

  • v.13-17 (expulsão dos mercadores do templo durante a festa da Páscoa);

  • v.18-22 (destruição do templo e apresentação do Corpo como espaço de unidade);

  • v.23-25 (fechamento como nova menção da festa da Páscoa e o verdadeiro caráter destes representantes da religião dominante).

Como vemos, no centro, está a nova proposta da passagem do sentido do “templo” e para o sentido do “corpo”. O conjunto e, nele, a presença do episódio da expulsão dos mercadores no começo do Evangelho, à diferença dos Sinóticos (Mt, Mc, Lc), reflete o fato do Templo já ter sido destruído e a necessidade das comunidades cristãs se construir como referências, isto é, “Corpo de Cristo”.

A Páscoa evidencia a oposição entre mercado e libertação (v.13-17)

A Páscoa é o referencial teológico através do qual o Quarto Evangelho estrutura toda sua narrativa de início ao fim. Neste Cap. 2 é chamada de “Páscoa dos judeus” (paska tôn ioudaion) no v.13, mas no versículo 23 (já no anúncio do novo sentido da Páscoa/Ressurreição, cf. v.22) aparece apenas “Páscoa”. Esta diferenciação vai aparecer novamente em 6,4, literalmente, “estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus”, preparando o sentido eucarístico da nova comunhão entre as comunidades do discipulado amoroso que se desenvolve nesse capítulo, ligada novamente à Cruz-Ressurreição (cf. 6,54). O mesmo acontece em 11,55 e 12,1 (fazendo menção a ressurreição de Lázaro e à preparação de Jesus para a Cruz Ressurreição), em 13,1 (abrindo as falas do legado de Jesus na mesa eucarística), até chegarmos à narrativa em si em 18,28.39 e 19.14). O templo, como centro de um “mercado da fé” perdeu totalmente seu sentido pascal, isto é, libertador. O zelo que “consome” Jesus é um zelo do sentido da revelação do caráter libertador de Deus na Páscoa, sentido que será resgatado na Cruz-Ressurreição.

Corpo do Crucificado-Ressuscitado, caminho de libertação e vida (v.18-22)

O anúncio da destruição, ou melhor desconstrução-reconstrução, deixa bem clara a referência à Cruz-Ressurreição, “em três dias o levantarei” e a glosa (explicação) “mas ele falava do templo do seu próprio corpo” (2,19.21).

Neste Evangelho o verbo “levantar” (egeíro) é usado frequentemente para sinalizar a superação sofrimento e da morte ou para falar da ressurreição em si (cf. v.22; 5,8.21; 12,1.9.17;21.14).

A expressão é “o templo do seu próprio corpo”, apresenta o Corpo de Cristo – seja em referência à Eucaristia, seja em referência à Comunidade – como o lugar onde a morte se transforma em vida, a opressão e o sofrimento dão lugar à alegria da libertação; onde o mercado se transforma em partilha. Esta transformação, ou reconstrução da referência de fé, foi o caminho (quaresmal) que preparou aquelas pessoas que seguiam Cristo para crerem, inclusive, no testemunho da “Escritura” (grafê) e nas “palavras” (logon), isto é, reconhecer a presença do “logos” ressuscitado (v.22).

Sinais de Jesus geram a nova comunidade e desmascaram a hipocrisia (v.23-25)

Os “sinais” (semeion) são o caminho da revelação de Cristo no Quarto Evangelho aparecendo 17 vezes, mais do que em qualquer outro escrito do Segundo Testamento. A palavra semeion também pode ser traduzida como “milagre”, mas, embora no Quarto Evangelho todo milagre seja um sinal, nem todo sinal é um milagre. Aqui por exemplo, quais seriam estes sinais? Mesmo que inclua o milagre das Bodas de Caná da Galileia (2.1-12) não se refere somente a ele, mas também ao “sinal” de ter acabado com a mercantilização da fé no templo e ter apontado para o corpo crucificado ressuscitado como referência da fé libertadora. Por outro lado, havia quem, diante desses sinais, ficavam em um silêncio omisso, numa “tolerância” conveniente… Diante da situação de perseguição e morte vividas pelas comunidades do final do primeiro século, época em que foi escrito o Evangelho, essa atitude devia ser denunciada, pois passava uma imagem enganosa que depois se revelaria entregando as irmãs e os irmãos à morte.

Relacionando com os outros textos

A primeira leitura nos traz a versão mais conhecida dos 10 mandamentos (sendo que há outra em Dt 5,6-21), que iniciam com o sentido libertador da revelação divina: “Eu sou Javé teu Deus que tirou da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20,2). Assim estes mandamentos, muito além de uma mera regra moral, são a carta de princípios do projeto libertador de Deus para seu povo. A Páscoa que o Quarto Evangelho toma como referência para a desconstrução da mercantilização da fé e reconstrução do sentido do “corpo”, aqui também apoia a leitura libertadora dos mandamentos como projeto econômico, político e social. Páscoa libertadora da exploração do mercado, reveladora do “templo-corpo”, espaço de encontro das pessoas que creem neste projeto que, diante das estruturas opressivas e repressivas, se apresenta como loucura ou escândalo (1 Cor 1,22-25).

 

 

 

 

Segundo Domingo da Quaresma
Dia: 28 de fevereiro de 2021
Primeira Leitura: Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18
Salmo: 115, 10 e 15. 16-17.18-19
Segunda Leitura: Rm 8,31b-34
Evangelho: Mc 9,2-10

 

O Evangelho

O episódio da transfiguração é estreitamente relacionado ao batismo de Jesus, quando Ele foi denominado por Deus “filho amado”. Agora, enquanto Jesus está para empreender o caminho em direção à cruz, o Pai o credita diante dos três discípulos privilegiados, Pedro, Tiago e João, exortando-os a escutá-lo. A profissão de fé de Pedro (8,29) que havia reconhecido Jesus como o Cristo, é confirmada pelo Pai, que o proclama de novo seu “filho amado” (9,7→1,11).

A perícope se abre com a ambientação cênica (v.2); segue a descrição da transfiguração de Jesus e a aparição de Elias com Moisés (v.4). Depois da reação de Pedro (v.5), Deus desvela o significado do evento (v.7). A parte conclusiva menciona o fim repentino da visão (v.8), a ordem do silêncio (v.9) e a execução da parte dos discípulos com a dúvida sobre a ressurreição.

Pela forma do relato, podemos compará-lo a Ex 24,1-9. Da mesma forma que Moisés, Jesus sobe o monte e leva consigo três acompanhantes expressamente nominados. Ao sétimo dia chega a Moisés a voz de Deus. Daqui se explicam os seis dias transcorridos para Jesus subir o monte (v. 2). A nuvem é, como em Ex 24,16s, sinal da presença de Deus. Uma concordância importante é verificada pelo fato que a voz de Deus ressoa da nuvem. Estes elementos são suficientes para caracterizar a perícope como narrativa de teofania: Jesus é envolto na aparição celeste, da qual os discípulos são testemunhas. A voz escutada o declara como Filho de Deus. Assim, o conjunto do relato se transforma em uma entronização. Jesus é apresentado como ser celeste do mundo transfigurado.

O termo “transfiguração” que habitualmente vem empregado para referir esse momento epifânico, devia, a rigor, ser substituído por “metamorfose”, já que esse é o vocábulo usado explicitamente por Mc 9,2 e Mt 17,2 quando referem que Jesus foi mudado de forma (metemorphōthē) à frente dos três discípulos. Ademais o verbo grego metamorphoūn tem um significado não-moral, como em Rm 12,2, mas físico. Denota uma mudança, ainda que momentânea, das qualidades externas de Jesus.

À transfiguração de Jesus se acrescenta a aparição de dois personagens do Antigo Testamento. A aparição, dirigida aos discípulos, vem descrita com as mesmas palavras que se usam para as aparições pascais do Ressuscitado (ōphthē: 1Cor 15,5; Lc 24,34) e para as aparições do anjo (Lc 1,11; 22,43; At 7,30). As pessoas que aparecem falam com Jesus, o transfigurado. No evangelho de Marcos, nada se diz sobre o conteúdo do colóquio (diversamente de Lc 9,31). Note-se que no v. 4, contrariamente ao que acontece no v. 5, Elias é nomeado primeiro que Moisés. Mc introduz essa mudança para pôr em evidência o seu interesse por Elias. É sabido que no judaísmo existia/existe a expectativa que Elias é o precursor do tempo messiânico. O evangelista, ao colocar Elias em primeiro, revela que para ele é mais importante o componente escatológico: Jesus introduz o fim dos tempos.

A palavra que Pedro dirige a Jesus é apresentada como resposta e reação ao que está acontecendo. Ele se dirige a Jesus com o termo Rabi (Mt 17,4: Senhor; Lc 9,33: Mestre). A exclamação “é bonito estarmos aqui” faz pensar na antecipação da bem-aventurança celeste que os discípulos experimentam. Mc interessa-se pela resistência do discípulo em compreender. A falta de compreensão de Pedro está no mesmo nível de 8,32s. Querendo reter a bem-aventurança celeste, o discípulo se defende novamente da necessidade do sofrimento.

Relacionando com as outras leituras

Devemos buscar o significado do texto na aceitação positiva da sua mensagem de fé e na disponibilidade em seguir Jesus no itinerário da cruz, sabendo que o percurso não se conclui com a cruz. Aqui a conexão com primeira leitura é nítida, pois o sacrifício de Isaac é figura da Paixão de Jesus, o Filho único. Podemos considerar que a perícope constitui a soma das experiências relacionadas à história de Jesus, que considera a sua atividade um evento escatológico-histórico.

 

 

 

1º Domingo da quaresma
Dia: 21 de fevereiro de 2021
Primeira Leitura: Gn 9,8-15
Salmo: 25/24, 4bc-5ab. 6-7bc. 8-9
Segunda Leitura: 1Pd3,18-22
Evangelho: Mc 1,12-15

O evangelho deste primeiro domingo da Quaresma é composto por dois pequenos blocos: a tentação de Jesus (vv. 12-13) e o início do ministério de Jesus na Galileia (vv. 14-15).

O relato marcano da tentação de Jesus no deserto é extremamente sumário: apenas dois versículos (vv. 12-13). No entanto, no plano narrativo de Marcos é de extrema importância: primeiro Jesus vence a tentação e só depois começa a expulsar o mal que ameaça o projeto do Reino de Deus.

O v. 12 afirma que, após Jesus ser batizado, o Espírito o conduz ao deserto. O deserto, mais do que um lugar geográfico, é o espaço que desperta a memória da experiencia libertadora do Êxodo como proteção divina (Ex 15,22–18,27). O deserto é também o lugar do encontro com Deus (Dt 32,10), é o lugar para refazer a aliança (Os 2,16). Os profetas do exílio recorreram à imagem do deserto para anunciar que, como no passado, Deus viria salvar seu povo e fazer com ele um “novo êxodo” (Is 40,3). Todos esses elementos ajudam a compreender a importância do deserto na vida de Jesus: é a transição da vida oculta para a vida pública, para o tempo em que Jesus atua a salvação prometida por Deus pelos profetas.

O v. 13 afirma que Jesus permaneceu no deserto quarenta dias. Quarenta é um número simbólico, como muitos exemplos na tradição bíblica (Ex 34,28; Dt 8,2; 1Rs 19,8 etc.). No Antigo Testamento, o livro dos Números narra a tentação de Israel no deserto; agora, Jesus refaz simbolicamente o caminho de Israel no deserto (40 anos / 40 dias). Mas, a atitude de Jesus é totalmente diferente da atitude do povo da Antiga Aliança: Israel caiu na tentação da rebeldia e da murmuração; Jesus, ao contrário, vence a tentação. A liturgia cristã apropriou-se deste simbolismo e instituiu um tempo de 40 dias – a “quaresma” – de penitência e preparação para a Páscoa.

O mesmo v. 13 afirma que Jesus era tentado por Satanás, o inimigo de Deus e dos seres humanos. A palavra “satanás” tem o significado de “advogado de acusação; adversário, inimigo”. Este não é o único confronto entre Jesus e Satanás no evangelho de Marcos. Em outras ocasiões, Satanás tentará frustrar o projeto do Reino de Deus (3,23.26; 8,33).

O v. 13 termina com a conclusão de que Jesus estava no meio das feras e os anjos o serviam. É uma referência a textos do profeta Isaías que falam da paz prometida para o tempo messiânico (Is 11,6-9; 65,25;). Desse modo, Jesus é apresentado como o Messias que realiza o projeto de Deus, caracterizado pela vitória sobre o poder do mal e pela completa harmonia e paz na criação.

Ao derrotar o poder do mal em si mesmo, Jesus começa a derrotar o poder do mal no mundo. Os vv. 14-15 são um sumário, um resumo do projeto teológico de todo o livro de Marcos.

Não é à toa que Jesus inicia este anúncio crítico depois que João tinha sido entregue, isto é, depois que o Batista tinha sido aprisionado por criticar o Herodes Agripa, um rei fantoche e subserviente ao imperador Tibério César. A prisão do profeta João Batista é vista como o ápice da iniquidade de Herodes Agripa e sinal de que havia chegado o momento da intervenção de Deus para libertar seu povo. Por isso, o v. 15 afirma claramente:  Completou‑se o tempo oportuno e o Reino de Deus se aproximou. Convertei‑vos e crede no Evangelho.

O texto grego usa a palavra kairós: não se trata do tempo cronológico, mas do momento oportuno: a intervenção de Deus é agora!  Na continuação, Jesus diz que o Reino de Deus se fez próximo. A palavra kairós na primeira frase do versículo pode levar ao engano de interpretar que Jesus esteja falando da proximidade do tempo. Mas não: o verbo “aproximou-se” aqui não tem a ver com tempo, mas com espaço: o Reino de Deus está aqui, está ao alcance da nossa mão. Então, o Reino acontece agora (kairós, momento oportuno) e aqui (está ao nosso alcance).

Neste contexto devem ser lidos os dois imperativos do v. 15: Convertei-vos e crede no Evangelho. Converter-se, aqui, significa mudar de mentalidade, deixar de acreditar nas promessas enganosas do Império Romano, para acreditar no Evangelho de Deus. Em outras palavras, não se trata apenas de não mais ter medo do Império, mas também de não assumir como projeto pessoal e comunitário uma paz baseada no sangue e nos cadáveres dos inimigos e derrotados. A verdadeira força que salva não é a opressão do Imperador, mas o compromisso com o Reino de Deus!

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

6º Domingo Do Tempo Comum

Dia: 14 de fevereiro de 2021
Primeira Leitura: Lv 13,1-2.44-46
Salmo: 32/31,1-2.5.7.11
Segunda Leitura: 1Cor 10,31-11.1
Evangelho: Mc 1,40-45

 

Evangelho

Na tradição do Antigo Testamento (Lv 13-14) pode-se descrever a lepra como um mal aterrorizante. Além da questão sanitária, havia o problema teológico. O leproso era impuro, tanto no sentido biológico como moral. Via-se esta doença como uma maldição de Deus. Portanto, a lepra era uma sentença de morte muito desoladora, pois o acometido deste mal perdia seu lar e sua comunidade, vivendo em lugares retirados até a terrível morte no abandono e ainda era julgado amaldiçoado por Deus. Pode-se dizer, o leproso era um excomungado, sem acesso à vida social e sem acesso a Deus. Ele devia esperar a morte abandonado por todos e sem perdão. Não havia cura, pois os recursos da medicina de então não alcançavam este mal. Curar um leproso, só aconteceria mesmo por milagre e equivalia a ressuscitar um morto. Por isto mesmo, ao leproso não restava nenhuma esperança. Os sacerdotes eram os encarregados de examinar as pessoas para constatar a lepra e também e uma eventual cura.

Na leitura do evangelho de hoje, algo de novo acontece: um leproso que, apesar de toda esta situação, ainda tem esperança. Ele se liberta da cosmovisão comum da época. Buscou em Jesus o que sabia que não encontraria no Deus domesticado pelos sacerdotes do templo. Busca a cura, não na instituição sacerdotal, mas na pessoa de Jesus. Ele se aproxima e, portanto, desobedece ao Lv 13,45-46 que estabelecia que ele deveria viver afastado e alertar as pessoas de que estava impuro (Lv 13,45s). Ele não se afasta, mas vai ao encontro do homem que, mais do que a instituição sacerdotal, podia lhe dar esperança e, com fé, diz: “se queres, podes…”. Por sua vez, também Jesus quebra as prescrições do Levítico. Toca no suposto impuro e amaldiçoado, mostrando que seu Deus não é aquele dos sacerdotes e escribas. Ele não exclui os impuros, mas derruba a cosmovisão teológica da oficialidade.

Algumas Bíblias traduzem o v. 41 como: “Jesus sentiu compaixão”. Outras traduzem, como “irado”. As duas são possíveis. Talvez esta última tradução nos chame atenção para o mais importante na ação de Jesus. Jesus não manifesta ira contra o leproso, mas contra o sistema excludente que condenava os “impuros” ao ostracismo.

Como instaurador do Reino, Jesus mostra sinais messiânicos já apontados pelos profetas (Is 35,5ss; 61,1ss). Ele apresenta as curas como a chegada deste Reino (Mt 11,5), quando a velha lei será superada. Isto, na comunidade Marcos, reflete a passagem de uma religião legalista para a nova práxis cristã, onde, mais do que um milagre no sentido de superação das leis da natureza, se supera uma visão teológica viciada e excludente.

Nesta nova realidade, o que conta é a compaixão que, na visão cristã, está acima da lei. Jesus mostra que o serviço ao ser humano supera a lei, pois como Ele ensina, a lei (sábado) foi feita para o ser humano e não o ser humano para a lei. Por isto ele cura e reintegra o ser humano contrariando a lei. Nisto consiste sua autoridade: ele revela o verdadeiro rosto de Deus e, para tanto, pode contrariar a lei.

Ao mandar o curado aos sacerdotes para testemunhar sua nova condição, Jesus confronta o sistema de pureza legal representado por eles. Eles devem perceber que os tempos messiânicos, preanunciados por Isaías, estão chegando. O Reino de Deus está próximo.

Como conseqüência de sua ação de superação do sistema preconceituoso, o leproso volta para o convívio dos seus e Jesus vai para o lugar do leproso, pois fica retirado dos locais públicos. Percebe-se aqui uma consequência de Is 53,4: “ele carregava nossas doenças”.

Relação com Lv 13,1-2.44-46

A descrição que Lv 13 e 14 faz dos leprosos mostra, no mínimo duas coisas: a preocupação de não contaminar as demais pessoas e, ao mesmo tempo, a grave situação de exclusão que os contaminados viviam, bem como seus familiares que perdiam seus entes queridos. O NT, na pessoa de Jesus, supera completamente esta visão. Os cristãos também devem cuidar para não contaminar ninguém, mas tiram dos ombros dos doentes, a grave chaga da maldição divina, dando-lhe atendimento e acolhida.

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

5º Domingo do Tempo Comum
Dia: 7 de Fevereiro de 2021
Primeira Leitura: Jó 7,1-7.
Salmo: 146,1-2.3-4.5-6.
Segunda Leitura: I Cor 9,16-19.22-23.
Evangelho: Mc 1,29-39

 

Introdução: Intimidade e Empatia.

O Evangelho deste domingo mostra as ligações entre intimidade, empatia e solidariedade popular. Na intimidade e a empatia vivenciada no círculo pessoal/familiar da casa de Simão e André se gera a comunidade de serviço em favor das pessoas mais vulneráveis. A intimidade da consciência humana em Jó lança o desafio empático com as pessoas que são vítimas de relações de opressão e escravização. Paulo parte de sua experiência pessoal de missão e declara a vivência empática entre as pessoas fracas. Um domingo onde as leituras bíblicas ligam a vivência pessoal da fé com o compromisso social e político.

Marcos: intimidade e empatia

Em Mc 1,29  está o final de uma narrativa da “sinagoga de Cafarnaum”, que inicia em 1,21. Embora em outras narrativas se fale que Jesus entrou em sinagogas (3,1), pregou (1,39) e ensinou (6,2), este é o único texto onde se menciona que ele e os discípulos “saíram da sinagoga” indo para a “casa” (oikia). Este movimento marca quando a comunidade de Marcos visualiza o surgimento da comunidade “cristã”. Na intimidade da casa, a comunidade vive o encontro com Jesus. A casa aparece novamente em 9,33; quando “partindo para Cafarnaum” entraram na casa. Na casa Jesus se revela como “servo de todos” (9,35). A casa tem como referência inicial Simão e seu irmão André (portanto é a casa materna/paterna de ambos, 1,16). Simão ainda não é conhecido como “Pedro” (cf. 3,16). O texto dá entender que ambos falaram para Jesus (intercederam) pela sogra de Simão, que estava acamada (1,30). Esta mulher vulnerável é imagem de toda a comunidade de Marcos, perseguida, ferida, frustrada. Jesus a toma pela mão (outro gesto de profunda intimidade e ternura) e a febre desaparece imediatamente. A mulher/comunidade tocada por Jesus, começou a servir!

Na segunda parte do texto, a “casa” se torna referência para todas as pessoas vulneráveis, doentes e excluídas. A referência “quando o sol se pôs”, indica que o sábado passou, o que permite que, sem exclusão, “todas” as pessoas doentes ou “possuídas” vão ao encontro de Jesus (1,32), ampliando-se no versículo seguinte quando “toda a cidade” se reúne na porta da casa (1,33). Verifica-se um movimento de igreja de saída, que vai da intimidade empática, para a empatia inclusiva em relação às pessoas mais vulneráveis, e daí parte para a missão que faz a ação política solidária (cidade/pólis).

Uma primeira conclusão em 1,34 substitui “todos/as” (pas), por “muitos/as” (polús). Os “demônios” como forças espirituais da morte e do sofrimento perceberem quem era Jesus (eído, de “ver”, não de “saber”), mas ele não deixa estes “falar” (laleo). Esta é uma prévia do chamado “segredo messiânico” em Marcos. As forças de morte percebem logo quem é Jesus e qual é sua missão, mas esta missão deve ser desenvolvida a partir da comunidade, da intimidade, da empatia e do compromisso social e político. Jesus é o Messias que emerge da comunidade, não imposto ou implantado por nenhum poder.

O dia em que a comunidade foi gerada segue. Ainda escuro, no amanhecer do primeiro dia da semana – dia da ressurreição, como é dito em Mc 16,2- Jesus se afasta, gerando, na comunidade, um sentimento de abandono muito semelhante ao da sua morte (1,35). A comunidade, liderada por Simão, sai em busca de Jesus, como no episódio da ressurreição (1,36-37; cf. 16,7). Jesus anuncia a missão de compromisso social e político a partir da comunidade, dizendo literalmente “dentro disso, pois eu vim/vou” (eis touto exelton). Jesus provoca a “eclesiogênese” (cf. Clodovis e Leonardo Boff) desde a intimidade, passando pela empatia e projetando o compromisso social e político. Jesus continua pregando por toda a Galileia, nas “sinagogas deles” (sunagogas auton), mas sempre voltando para a casa/comunidade como referência, expulsando as forças de morte (1,39).

Ligação com os outros textos

O texto de Jó exige o mesmo cuidado do que o texto de Marcos, em não ver na pessoa (sogra de Pedro) apenas ela, mas a expressão de muitas outras na mesma situação. Assim quando no livro de Jó se pergunta: “não está o homem condenado a trabalhos forçados aqui na terra?” (7,1-3), não se conecta a intimidade do sofrimento humano, com a empatia e o compromisso social e político? Quando ao apóstolo Paulo afirma “para os fracos, fiz-me fraco, a fim de ganhar os fracos”, não expressa ali, através da sua intimidade de fé, a empatia e o compromisso social e político? Assim podemos ver, através destas leituras, que este é o caminho da fé, da construção comunitária e da missão de Deus.

 

 

Quarto Domingo do Tempo Comum
Dia: 31 de Janeiro de 2021
Primeira Leitura: Dt 18,15-20
Salmo: 94,1-2.6-9
Segunda Leitura: 1Cor 7,32-35
Evangelho: Mc 1,21-28

 No Evangelho de Marcos, Jesus inicia sua atividade em público com um exorcismo. Marcos inicia a perícope com dados situacionais: Cafarnaum, sábado, sinagoga. No v. 22 é constatado o ensinamento cheio de autoridade de Jesus e a reação de quem o escuta. No entanto, nada se diz sobre o conteúdo do ensinamento. É nítido o contraste/confronto com o ensinamento dos escribas. A autorizada doutrina de Jesus, que ultrapassa a doutrina dos escribas, pode fundar-se sobre o fato que Jesus fala por autoridade direta, enquanto que os escribas simplesmente explicam a Lei e a tradição.

Os vers. 23-28 contam uma clássica história de exorcismo, cujos elementos essenciais são: entrada em cena do endemoninhado, tentativa de defesa, ordem e expulsão por parte do exorcista, saída do espírito impuro e reação afirmativa das pessoas presentes.

Os personagens em ação são Jesus, o espírito impuro e aqueles que estão presente na sinagoga. O homem endemoninhado é como que um coadjuvante do espírito impuro que o possui. Aos discípulos se faz alusão somente na frase inicial como acompanhantes de Jesus.

É digno de nota que aquilo que o espírito impuro reconhece é justo, Jesus é “o Santo de Deus”. O reconhecimento se torna uma revelação. A expressão “santo de Deus” pode ser encontrada também em Lc 4,34; Jo 6,69 (cf., ainda Dt 7,6; Jz 16,17; 2sm 17,18; Sl 105,16; Sb 11,1). A pergunta subentendida é: basta reconhecer o senhorio de Jesus? Ecoa o convite do salmista: “não endureçais vossos corações” (Sl 94,8).

O grito se articula em repulsa–profissão de fé (vers. 23-24) e suplício (v.26; comparar com 9,26). Ao espírito impuro é ordenado de manter para si a sua consciência sobre Jesus. Sobre a epifania se baixa o véu do mistério.  Marcos nos convida a cotejar os gritos do espírito impuro (vers. 23-24.26) com a voz de comando de Jesus (v.25). A dessemelhança é reveladora. Esta diferença faz compreender a intenção de apresentar Jesus, conectado à imagem veterotestamentária, como o senhor da natureza e das forças que nela operam.

O fato que os espíritos impuros reconheçam Jesus constitui uma característica usual em Mc (3,11; 5,7). A pergunta “o que há entre nós e ti?” contém aspecto de repulsa que é formal e recorrente no Antigo Testamento (Jz 11,12; 2Sm 16,10; 1Rs 17,18; 2Rs 9,18).

A referência à vinda de Jesus (v.24) é geral e não diz respeito somente à sua chegada na sinagoga de Cafarnaum. A sua missão tem como meta a aniquilação do ser demoníaco.

A reação dos presentes na sinagoga é de surpresa e admiração. O raro ethambēthēsan (“ficaram estupefactos”), pode descrever também o espanto dos discípulos por uma palavra de Jesus (10,24.32). O novo ensinamento, dotado de autoridade e confirmado pela multidão (v.27), se manifestou na obediência dos espíritos impuros ao comando de Jesus. A reação torna transparente o conjunto do relato: ele se apresenta como história de missão, enquanto na reação confluem em um único gesto a assembleia da sinagoga e a assembleia cristã missionária. Também a difusão da fama de Jesus na circunvizinhança vai entendida como notícia relacionada à missão.

O texto do Dt mostra que os judeus esperavam um Messias que fosse como um novo Moisés. “As palavras de Deus em sua boca” (Dt 18,18) evidenciam o paralelismo entre Jesus e Moisés.

Para Mc a autoridade da palavra de Jesus aparece referendada pelo o fato de estar acompanhada por ações poderosas. A ação torna explícita a palavra. A história do exorcismo deve ser lida com esse pano de fundo. A derrota dos espíritos malignos anuncia que chegou o senhorio de Deus.

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF

Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló

Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

 

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

3º Domingo do Tempo comum

Dia: 24 de janeiro de 2021

Primeira Leitura: Jn 3,1-5.10
Salmo: 24,4ab.6-7bc.8-9
Segunda Leitura: 1Cor 7,29-31
Evangelho: Mc1,14-20

 

O evangelho deste domingo pertence ao bloco conhecido como “Ministério de Jesus na Galileia” (1,14–7,23). Para compreendermos bem os versículos que lemos nesta liturgia (1,14-20), é necessário dividi-los em dois pequenos blocos.

O primeiro (vv. 14-15) é um sumário, no qual está resumido o projeto teológico de todo o livro de Marcos. Nesses dois versículos, ganha destaque o termo “evangelho”. Esta palavra não foi inventada por Jesus nem pelos cristãos. Ela já era usada na língua grega e seu significado nós sabemos: “boa notícia”. A questão é saber: Que tipo de boa notícia? Ou melhor: Boa notícia para quem?

No mundo greco-romano, “evangelho” era qualquer notícia ligada ao poder de Roma e do imperador: vitórias militares e derrota dos inimigos, bem como a entronização do imperador. Em suas cartas, Paulo se apropria deste termo e muda totalmente o significado: o conteúdo do “evangelho” é a salvação atuada por Jesus Cristo. O primeiro a usar aquela palavra para designar um livro é Marcos (Mc 1,1). Este autor diz abertamente que o evangelho que Jesus anuncia não é uma boa notícia do Império Romano, mas é “de Deus”. Com este acréscimo, o evangelista diz claramente que a boa notícia de Deus não é a boa notícia do Império; pois o que o Império oferece não é a salvação, e sim a chamada Pax Romana, um sistema de dominação baseado na violência e na destruição.

Não é à toa que Jesus inicia este anúncio crítico depois que João tinha sido entregue, isto é, depois que o Batista tinha sido aprisionado por criticar o Herodes Agripa, um rei fantoche e subserviente ao imperador Tibério César. A prisão do profeta João Batista é vista como o ápice da iniquidade de Herodes Agripa e sinal de que havia chegado o momento da intervenção de Deus para libertar seu povo. Por isso, o v. 15 afirma claramente:  Completou‑se o tempo oportuno e o Reino de Deus se aproximou. Convertei‑vos e crede no Evangelho.

O texto grego usa a palavra kairós: não se trata do tempo cronológico, mas do momento oportuno: a intervenção de Deus é agora!  Na continuação, Jesus diz que o Reino de Deus se fez próximo. A palavra kairós na primeira frase do versículo pode levar ao engano de interpretar que Jesus esteja falando da proximidade do tempo. Mas não: o verbo “aproximou-se” aqui não tem a ver com tempo, mas com espaço: o Reino de Deus está aqui, está ao alcance da nossa mão. Então, o Reino acontece agora (kairós, momento oportuno) e aqui (está ao nosso alcance).

Neste contexto devem ser lidos os dois imperativos do v. 15: Convertei-vos e crede no Evangelho. Converter-se, aqui, significa mudar de mentalidade, deixar de acreditar nas promessas enganosas do Império Romano, para acreditar no Evangelho de Deus. Em outras palavras, não se trata apenas de não mais ter medo do Império, mas também de não assumir como projeto pessoal e comunitário a Pax Romana, que, como vimos, é uma paz baseada no sangue e nos cadáveres dos inimigos e derrotados. A verdadeira força que salva não é a opressão do Imperador, mas o compromisso com o Reino de Deus!

O fato de Jesus ter escolhido como primeiros membros de seu grupo quatro pescadores, bem como as palavras que dirige a Simão e a André – Vinde após mim, e eu vos farei ser pescadores de homens – também merecem nossa atenção.

Nos vv.16-20 temos duas cenas semelhantes, narradas como típicos relatos de vocação: enquanto caminha, Jesus vê trabalhadores e os convida a deixar tudo e segui-lo. A eleição de pescadores e a insistência de Marcos neste particular vão além do sentido simbólico superficial, isto é, congregar pessoas para que recebam o perdão e a salvação. O convite a pescadores liga este episódio a dois textos proféticos, Am 4,2 e Jr 16,16, nos quais os pescadores simbolizam os exércitos inimigos que invadem Israel e Judá. A ação daqueles pescadores era a de dispersar e devorar o povo. Nos tempos de Jesus, assim agia o Império Romano. Ao qualificar seus primeiros discípulos como pescadores, Jesus os convida a agir de modo contrário, isto é, reunir e salvar o povo. Os discípulos, portanto, são convocados a se unir a ele na sua luta para restaurar a dignidade das pessoas e de toda a nação. Muitas vezes, isso implica deixar e combater privilégios ancorados na dominação romana. Por isso, o evangelista insiste que os primeiros vocacionados deixaram imediatamente redes e barcos, não para fugir do mundo, e sim para se inserir numa prática social alternativa, baseada não em vantagens interesseiras, mas na liberdade diante da vida e do futuro.

 

 

 

 

 

 

Segundo Domingo do Tempo Comum
Dia: 17 de janeiro de 2021

Primeira Leitura: 1Sm 3,3b-10.19
Salmo: 39,2.7-10
Segunda Leitura: 1Cor 6,13c-15a.17-20
Evangelho: Jo 1,35-42

 

Evangelho

O texto deve ser lido dentro da unidade maior (Jo 1,19-2,11) que se apresenta como uma semana teológica, parafraseando Gn 1,1-2,4a. Assim, em Jo 1,19-28 se relata o primeiro dia: testemunho de João Batista diante dos enviados de Jerusalém. Em Jo 1,29-34 está o segundo dia: testemunho de João diante de Jesus, como Cordeiro de Deus, sobre o qual viu descer o Espírito. No terceiro dia (Jo 1,35-39) o Batista testemunha diante dos discípulos que aderem a Jesus. Já no quarto dia (Jo 1,40-42), André testemunha diante de Simão. No quinto dia (Jo 1,43-51) Filipe testemunha diante de Natanael. A culminância desta semana teológica acontece no sétimo dia, ou seja, no terceiro dia, ou dois dias depois do quinto dia (Jo 2,1-11) quando a glória plena de Jesus se revela e os discípulos creem nele (2,11).

Nesta semana teológica, a dinâmica geradora da comunidade de fé, é o testemunho. Num primeiro momento, é João que dá seu testemunho: “eis o Cordeiro de Deus”, conceito haurido de Ex 12 e Is 53. No segundo momento, os dois discípulos que passaram de João a Jesus, atribuem a ele o conceito de Mestre (Rabi). Um destes discípulos, depois de ter permanecido o dia na Sua presença, apresenta-O a Simão, como o Messias/Cristo. Se continuarmos a leitura na próxima perícope, Filipe o apresenta a Natanael como “aquele de quem está escrito na lei de Moisés e nos profetas” (v.45). Por fim Natanael o define como “rabi, Filho de Deus e rei de Israel” (v.49). Ao que o próprio Jesus completa: “vereis o céu aberto… sobre o Filho do Homem” (v.51 cf. Gn 28,12 – visão de Jacó). Como se percebe, é uma cristologia crescente que culmina com o testemunho dos discípulos e é completada pela palavra de Jesus.

A cena se dá onde João batiza. Ele, como o último representante da antiga Lei, dá testemunho sobre Jesus e, imediatamente, dois de seus discípulos, passam da antiga Lei para a pessoa de Jesus. João está parado e Jesus anda. Isto é, o papel de João está chegando ao fim, o Antigo Testamento cumpriu sua função. João dirá, logo adiante: “É preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). Agora inicia a missão de Jesus. Os fiéis do antigo Povo de Deus chegam a Jesus pelo testemunho de João e o testemunho dos que já aderiram é a dinâmica para trazer outras pessoas (cf. At 1,6-8). Assim, João (AT) entende que não deve formar discípulos para si, mas encaminhá-los ao verdadeiro esposo (Jo 3,29ss).

Os conceitos usados: Cordeiro de Deus, Mestre, Messias, etc. são conceitos pós-pascais, quando a comunidade relê Jesus à luz do AT. O cristão que tem esta fé passa tranquilamente da antiga Aliança para a pessoa de Jesus e está apto a testemunhar e assumir a missão de evangelizar. Esta dinâmica fica clara na ação daqueles que usufruíram do primeiro testemunho e levaram a missão de João até Natanael, passando por Pedro.

Assim, parafraseando o primeiro relato da criação, o evangelista mostra que a nova criação está acontecendo de forma plena na pessoa de Jesus. Claro, para isto conta o testemunho vindo do AT que prepara a missão de Jesus e este, por sua vez, requer a adesão dos discípulos que, agora, continuam a missão através do testemunho. Dir-se-ia: só pela adesão a Jesus, a plenitude da revelação de Deus (cf. Gl 4,1ss; Hb 1,1ss; Ef 1,10; Cl 1,19) a criação preconizada em Gn 1 chega à plenitude.

Relação com 1Sm 3,3b-10.19

Como os discípulos de Jesus, também Samuel faz a experiência de Deus que o chama para a missão. Assim como os discípulos chegaram a Jesus pelo testemunho de João, de André e de Filipe, também Samuel, ouvindo a voz de Deus, precisou do testemunho e da orientação de Eli. A verdadeira fé é um dom de Deus, mas este não cai do céu. Se expressa na comunidade e, para chegar à verdade, precisa do testemunho das pessoas disponíveis a Deus. Samuel teve sua fé amadurecida por Eli, os discípulos chegaram à verdade pelo testemunho de João e dos demais. Hoje, a verdadeira fé vem pelo testemunho da igreja, isto é, pelo povo que vive com autenticidade os valores revelados na Bíblia e plenificados na pessoa de Jesus Cristo.

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF

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Batismo do Senhor – Ano B

Dia 10 de Janeiro de 2021

Primeira Leitura: Is 42,1-4.6-7

Salmo: 28,1a.2.3ac-43b.9b.-10

Segunda Leitura: At 10,34-38

Evangelho: Mc1,7-11

Introdução

O Evangelho da comunidade de Marcos é o pioneiro no gênero literário chamado “evangelho”. Comparado com os outros dois Evangelhos Sinóticos (Mt e Lc) é quase um sumário. É claro que devemos lembrar que os primeiros textos do Novo Testamento foram as Cartas de Paulo, que podem ter influenciado esta primeira narrativa sobre a trajetória ministerial de Jesus Cristo sob o título “Evangelho” (cf. Gl 1,6-9; Rm 1,3s; 1 Cor 9,14;15,3-5). Mas, este termo tinha uma origem anterior nas narrativas do Império Helenista de Alexandre e no Império Romano quando se anunciava o nascimento de um imperador como “deus”. O Batismo de Jesus, por sua vez, faz parte das narrativas confessionais da comunidade que busca descrever a glória única e incomparável de Jesus com auxílio de traços lendários. Elas também sinalizam o Batismo como a necessidade de estabelecer o vínculo de continuidade entre os movimentos proféticos de João Batista e de Jesus de Nazaré (Mc 1,2-11 e 6,14-19).

O texto em si

A narrativa tem duas partes, claramente diferenciadas: 1,7-8 (Pregação de João Batista sobre “aquele que é mais forte do que eu”) e 1,9-11 (Narrativa do Batismo). A primeira parte refere-se à continuidade entre os movimentos proféticos de João Batista e Jesus. Quando João Batista afirma que Jesus é “mais forte” (termo que usará depois em 3,27 para falar da casa de um homem “forte”). A dimensão comparativa entre os dois movimentos usando a expressão geralmente traduzida como “eu não mereço”, mas a palavra grega hikanós não se refere ao “mérito”, mas à “quantidade”, isto é, “não tenho o suficiente para…” ou “não tenho a capacidade de…” (cf. Mc 10.46, “numerosa”; 15,15; “multidão”). Aqui fica claro que João Batista e Jesus simbolizam seus movimentos proféticos!  João Batista declara que seu movimento – cuja marca era o batismo nas águas do rio Jordão, por onde o povo ingressou à Terra Prometida – deve se incorporar ao movimento de Jesus – cuja marca é a ação do Espírito Santo – para completar a missão transformadora. Chegou a hora de aderir a um novo movimento, um novo batismo que incorpora a força divina.

A segunda parte é uma declaração de fé da comunidade de Marcos, aberta pelo título formal “naqueles dias”. Este tipo de introdução aparece neste Evangelho para falar de grandes sinais de Jesus como em 8,1 quando Jesus faz o gesto eucarístico da partilha com multidão, ou ainda em 13,24 quando se anuncia a volta do “Filho do ser humano” após a “grande tribulação”. Jesus, apresentado em relação à Nazaré da Galileia, e não como “Cristo” (cf. Mc 1,1), mostra que o movimento profético do Evangelho emerge do chão da história. Com Jesus, batizar – lavar, desconstruir a relação de pecado – assume o sentido maior da entrega na Cruz (central na teologia de Marcos; cf. 10.38-39).

Relacionando os textos

A alegria que se proclama neste Domingo - Gaudete - está em Jesus, Logos criativo, que é Vida Luz e chama para um testemunho profético que se vive no chão de nossa história concreta, como foi com João Batista e Jesus, e vai além dos estreitos limites de nossos parâmetros “religiosos”. A leituras proclamam a alegria de anunciar a “boa notícia para as pessoas pobres” (Is 61,1) e, como Maria, se alegrar “em Deus meu/nosso Salvador” (Lc 1,47) pois, Ele “encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias” (Lc 1,53). Se alegrar na oração e no discernimento que reside em “não apagar o Espírito”, “não desprezar as profecias” e “reter o que é bom”, se abstendo “de toda forma de mal” (cf. 1 Ts 5.16,19-22). Este alegre movimento da profecia só pode ser realizado quando nossa prática de fé não se fecha em parâmetros estreitos, limitando a revelação ao nosso poder como “autoridade religiosa”, mas se abre o sentido (Logos) da Vida e da Luz, capaz de iluminar as trevas de quem perdeu a capacidade de testemunhar e acolher.

 

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REFLEXÕES LITÚRGICAS de Pe Gilvan

sábado, maio 9th, 2020

REFLEXÕES de Pe. Gilvan  Leite  de  Araujo

3º Domingo da Páscoa Ano B 2021

 

1ª Leitura: At 3,13-15.17-19

A 1ª Leitura é parte da pregação de Pedro aos judeus após a cura de um aleijado no Templo de Jerusalém ocorrida enquanto orava (At 3). Como parte da pregação, Pedro apresenta Jesus como servo do “Deus dos antepassados”. Na pregação, Pedro faz uma acusação direta os judeus por condenarem um justo e inocente e libertarem um assassino (Barrabás), afirmando que, através da escolha realizada, o povo judeu matou o “autor da vida”. Contudo, ele reconhece que o povo procedeu assim por ignorância e os chama ao arrependimento e à conversão. O tema do arrependimento e conversão reaparece na 2ª Leitura, no qual o autor da 1João apresenta a figura de Jesus como o “advogado de defesa” diante do Pai, em favor daqueles que se abrem a Boa Nova.

Durante a pregação, dentro da continuidade lucana, Pedro destaca o tema do “sofrimento do Messias”, que reaparece no Evangelho.

2ª Leitura: 1Jo 2,1-5a

O eixo principal da narrativa da 1ª Leitura é a apresentação de Jesus como o “paráclito”. Típico da teologia joanina, tanto o Espírito como o Filho são descritos como “defensores”. O princípio de acusa/defesa da lei judaica passava pelo testemunho de duas pessoas. A literatura joanina resgata o tema do acusador, que é o Diabo (= Gn 3 + Ap 12,7-10 + Jo 8,44) e do defensor, descritos através das figuras do Espírito Santo (Jo 14,16.26; 15,26; 16,7) e de Jesus (1Jo 2,1). Jesus, no Quarto Evangelho exprime que primariamente o “paráclito” é a sua pessoa, seguido pelo Espírito santo: “rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito” (Jo 14,16), lógico que não consiste em grau de superioridade, mas de primazia, na qualidade do “enviado” do Pai ao mundo. Na tradição judaico rabínico e cristã, a expressão assume o significado de “advogado” ou “intercessor”, sempre com conotação jurídica, mais exatamente, função de advogado de defesa num tribunal.

Enquanto o diabo é apresentado do Livro do Gênesis ao Apocalipse de João como o “acusador”, Jesus e o Espírito Santo assume, diante do Pai (=Justo Juiz) a função de “advogado de defesa”. Esta ideia está bem clara na 1João, onde diretamente Jesus é apresentado como o “defensor” diante do Pai. O que conta a seu favor, no ato de defesa, é a sua paixão e morte (= vítima de expiação: 1Jo 2,2).

A narrativa de 1João está trabalhando a ideia de pecado e mandamentos. No contexto Joanino, guardar os mandamentos é compreender e apreender a pessoa de Jesus (“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”: Jo 14,6), entendendo “caminho” como a Lei (halakah). Portanto, é o cumprimento da Lei de Israel. Tal ideia aparece justamente no último capítulo de Lucas, no qual Jesus afirma categoricamente que “começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito… era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24,27.44), ou seja, as Escrituras estavam em vista de Jesus Cristo e nele possuem a sua realização. Mais exatamente, o conceito de caminho e de lei se equivalem, como se pode compreender no diálogo entre Pilatos e Jesus: “Respondeu Jesus: Tu o dizes eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz, Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade?” (Jo 18,37-38). Neste diálogo entre Pilatos e Jesus, entram em jogo o conceito de verdade para os judeus (Torá=Lei), para os Romanos (Lex Romana) e Jesus (sua pessoa), no qual Jesus expressa em suas palavras e ações, que a verdade (=Lei) tem sua razão de ser na sua pessoa.

Evangelho: Lc 24,35-48

Jesus, na narrativa lucana sobre suas aparições após a ressurreição, descreve algumas caraterísticas próprias. O Evangelho do 3º Domingo da Páscoa, apresenta a continuidade da narrativa dos discípulos de Emaús (missa vespertina do Domingo de Páscoa). Neste caso, narra o retorno e o reencontro dos discípulos com os Apóstolos, contando-lhes o que ocorreu enquanto faziam o caminho de volta para as suas casas. Segue a presença de Jesus com os seus e a típica saudação pascal: “a paz esteja convosco”.

Curiosamente, os discípulos estavam caminhando com Jesus e não sabiam que era ele, o reconhecem ao partir do pão, quando Jesus se faz ausente. Agora estão contando aos Apóstolos tudo que ocorreu, quando Jesus se faz presente no meio deles e o grupo pensa tratar-se de um fantasma. O gesto de Jesus é apresentar as marcas da paixão como sinal visível da sua corporeidade ressuscitado, seguindo com o comer um pedaço de peixe e terminando com ensinamentos.

O tema lucano da “presença-ausente e ausente-presença” que acompanhava a narrativa dos discípulos de Emaús reaparece. Jesus se coloca no meio deles, mas estes não o reconhecem, é necessário que Jesus reafirme a sua presença.

O ato de comer de Jesus (que se torna uma das Quaestiones Disputatae) possui a função de explicitar a realidade do ressuscitado. Não se trata de um fantasma ou um corpo angélico, mas exatamente do “corpo glorificado”. O capítulo 12 do Livro de Tobias narra o momento no qual Rafael, até então usando o nome de Azaris se revela, anunciando ser um ano enviado por Deus. No diálogo, ele afirma duas coisas: a) ser um anjo (Tb 12,11-150 e b) enquanto anjo, ele não come (Tb 12,19). Além disso, anuncia: “Não tenhais medo, a paz esteja convosco!” (Tb 12,17), ou seja, a expressão utilizada por Jesus após a Ressurreição. Na narrativa de Tobias, diferente da lucana, o anjo Rafael afirma não comer porque possui natureza angélica, enquanto Jesus pede algo para comer e come na frente deles. Neste sentido, se estabelece a distinção entre corpo angélico e corpo glorificado.

Outra questão que aparece na narrativa lucana é o anúncio do “sofrimento do Messias” (At 3,18; Lc 24,26.46) segundo as escrituras. Contudo, as Escrituras não fazem absolutamente nenhuma menção ao sofrimento do Messias futuro. O tema da ressurreição tem início no século II a.C. a partir da Profecia de Daniel e Livro do Sonhos (Enoc Etíope 91-105). Para o autor do Livro dos Sonhos, a ressurreição diz respeito apenas aos justos da última geração, enquanto, para Daniel ela abrange todos os justos, de todas as épocas.

Quanto ao tema do sofrimento (Lc 24,26.46) a compreensão se encontra não naquilo que os profetas anunciam, mas sobre a sorte dos profetas, ou seja, todos aqueles que foram fiéis a Deus foram perseguidos, desprezados e, muitos, assassinados. Sendo Jesus o modelo de fidelidade ao Pai, ele irá, também, sofrer a sorte dos que são fiéis. Portanto, sendo o Messias, o homem da fidelidade por excelência à Deus, ele sofrerá a perseguição.

A narrativa constrói a tipologia messiânica, que servirá de modelo para os discípulos, enquanto testemunhas fidedignas.

Síntese

O foco do 3º Domingo da Páscoa se encontra no tema do Anúncio, no qual os discípulos são “testemunhas do Ressuscitado (Evangelho) e, portanto, anunciam com vigor a Boa Nova, convidando ao arrependimento e à conversão (1ª Leitura), pois o Ressuscitado é digno de fé, por ter sofrido, morrido e ressuscitado em favor de todos e, por sua morte e ressurreição, assume o papel de Paráclito junto ao Pai em favor daqueles que buscam a verdade. E todos aqueles que o buscam de coração sincero se lhes abre a possibilidade da vida nova, vivendo segundo os critérios evangélicos.

2º Domingo da Páscoa

1ª Leitura – At 4,32-35

A 1ª Leitura propõe o modelo ideal de comunidade cristã, no qual se destaca:

a) Princípio de unidade: a comunidade se reúne em torno dos Apóstolos que testemunham a sua unidade na pessoa de Jesus Cristo. Encontra-se aqui, o sinal que acompanhará a Igreja, ou seja, o princípio de colegialidade episcopal e colegialidade presbiteral que se torna o modelo de referência para a comunidade de batizados e para o mundo.

b) Comunidade evangelizada e evangelizadora: a comunidade de batizados é por excelência evangelizadora e missionária. Aquele que foi evangelizado se torna evangelizador e, naturalmente, missionário. Esta é uma das características naturais de todo cristão batizado. Nota-se na leitura que, à frente da missão, estão os Apóstolos como “guardiões” da sã doutrina, ou seja, eles são as referências ao serem, eles mesmos, testemunhas do Cristo Ressuscitado.

c) Comunidade solidária e servidora: a dimensão diaconal se torna natural na vida da comunidade cristã. Tendo Jesus Cristo como o “Diaconal do Pai”, aqueles que os seguem se tornam servidores da humanidade. Disto se estabelece os princípios da moral cristã e da Doutrina Social da Igreja. De fato, muitos dos primeiros cristãos foram martirizados, não somente porque professavam a fé em Jesus Cristo, mas pelo modo de agir nos diversos seguimentos da sociedade que acaba se chocando com situações contrárias expondo, naturalmente, injustiças, corrupções, outros.

Salmo – Sl 117(118),2-4.16ab-18.22-24

O Salmo 117(118) continua sendo proclamado, cujo tema principal é o “grande dia”: “este é o dia que o Senhor fez para nós” (Sl 118,24). Na realidade a proclamação anuncia que não se trata de um dia cronológico, mas de um tempo favorável, segundo as bases da profecia de Zacarias: “Haverá um único dia – Iahweh o conhece -, sem dia e sem noite” (Zc 14,7). A liturgia cristã vê na Ressurreição de Jesus Cristo a realização desta profecia, no qual se estabelece o tempo da salvação. Tudo é, agora, perpassado por Cristo. O Cristo Ressuscitado se torna o “pano de fundo” da história.

2ª Leitura – 1Jo 5,1-6

A 2a Leitura durante o Tempo Pacal, ano B, é sempre da Primeira Carta de João. O autor enfrenta uma situação particular, ou seja, um grupo rompeu com a comunidade e se proclamavam os legítimos detentores da verdade. Diante da situação pastoral, o autor deseja reunificar a comunidade através de duas técnicas:

a) sensibilidade de vocabulário. O autor utiliza uma linguagem amigável, diplomática, com palavras suaves, tentando se aproximar e não condenar o rechaçar o outro, com animosidades;

b) Apresenta claramente os equívocos e suas consequências. Deste modo o autor, mesmo usando de toda diplomacia, é capaz de demonstrar onde está o erro e quais são as consequências da persistência no erro.

Os dissidentes se apoiam numa questão doutrinal, ou seja, a questão da humanidade e da divindade de Jesus Cristo, mais exatamente, eles praticamente negam a humanidade de Jesus Cristo. O autor da Carta irá corrigir este erro doutrinal. Contudo, não sabemos se a tentativa do autor em reunificar a comunidade obteve êxito, mas ele deixa um legado de como enfrentar situações pastorais adversas.

A 2a Leitura de hoje apresenta a questão doutrinal que levou um grupo a romper com a comunidade, formando uma nova comunidade, o problema é justamente a questão doutrinal sobre a relação humanidade-divindade de Jesus Cristo. Assim, o autor afirma que “Jesus” é o Filho de Deus. Mais exatamente, Jesus Cristo “veio” pela água e pelo sangue, que significa: Jesus Cristo é verdadeiramente humano (=sangue) e verdadeiramente Deus (=água). Portanto, Jesus Cristo é humano e divino, sem separação e sem confusão, como proclamará a Igreja posteriormente. Neste sentido, o verdadeiro cristão é aquele que professa que Jesus Cristo é o Filho de Deus que se encarnou.

Evangelho – Jo 20,19-31

A missa vespertina do Domingo de Páscoa narrava a história dos discípulos de Emaús. Na liturgia do 2o Domingo da Páscoa é retomado o tema do dia da Ressurreição, agora com foco do encontro do Senhor Ressuscitado com os Apóstolos reunidos.

A narrativa de João se constrói relacionando o Dia da Ressurreição e a oitava da Páscoa. Sublinha-se que os discípulos estão reunidos nestes dois dias. Na primeira parte da narrativa, o destaque está na ação de Jesus Cristo, ou seja, soprar sobre os Apóstolos infundindo o Espírito Santo e, nesta ação, conferindo a eles um dom particular, ou seja, o de perdoar os pecados. O perdão dos pecados é um atributo exclusivo do Pai, que será exercido pelo Filho e, agora, transmitido aos Apóstolos. Neste sentido, a remissão dos pecados passa, a partir deste momento pelo viés sacramental. Portanto, no cristianismo não se admite perdão de pecado “eu e Deus”, pois, seguindo a ótica da 1João, quem não crê no que é visível, não crê no que é invisível. Em todo caso, a narrativa fornece os fundamentos para o sacramento da penitência. Outra característica importante desta primeira parte da narrativa é a efusão do Espírito Santo. A primeira ocorre durante a crucificação, quando ao ser transpassado jorrou sangue e água. A segunda efusão do Espírito Santo é para conferir um dom particular por vontade divina.

A segunda parte da narrativa ocorre oito dias após o dia da Ressurreição. Novamente os discípulos estão reunidos. Este é outro elemento importante, a comunidade que se reúne habitualmente “no primeiro dia de semana” que, posteriormente, receberá o nome de “Dia do Senhor” ou “domingo”. Nesta parte da narrativa o foco recai sobre o encontro de Jesus com Tomé, ausente na semana anterior. O encontro com o Ressuscitado leva a maior Proclamação de Fé: “meu Senhor e meu Deus”. Na realidade Tomé está resgatando a tradição do Nome de Deus e aplicando à pessoa de Jesus Cristo:

a) “meu Senhor” = meu Iahweh/Adonai

b) “meu Deus” = meu Elohim

Neste sentido Tomé afirma a divindade de Jesus Cristo, segundo as tradições de Israel.

No Quarto Evangelho, diferente dos Sinóticos, a fé não se dá apenas pela escuta, mas, também, pela visão. Assim, os Apóstolos, discípulos e discípulas são aqueles que “viram” e “creram” no Senhor. A novidade da narrativa é que, a partir de agora, aqueles que foram “testemunhas oculares” se tornarão anunciadores. Através do qual, palavras e exemplos, levarão outros a fé.

Ressalta-se a dinâmica do reunir-se no primeiro dia semana, como espaço litúrgico por excelência da vida cristã. Na 1a Leitura o foco estava nas dimensões missionária e diaconal. O Evangelho aproxima a dimensão orante da vida cristã.

Outro elemento que relaciona a Liturgia Vespertina do Domingo de Páscoa com o 2o Domingo da Páscoa é a presença-ausente e a ausente-presença do Ressuscitado no meio da comunidade cristã. De fato, na narrativa dos Discípulos de Emaús, Jesus caminha com os Discípulos sem ser reconhecido, e quando parte o pão é reconhecido e se torna ausente. O Evangelho de hoje desenvolve esta ideia também. Durante a semana os discípulos estão reunidos, mas não veem o Senhor, mas Ele está com os seus e tem ciência da conversa que tiveram enquanto estavam reunidos. Além disso, o tema evoca as ideias de comunidade reunida com o Senhor presente no meio dela e a presença eucarística do Senhor na sua Igreja.

 

Tempo Pascal

Pe. Gilvan Leite de Araujo

 

Por tempo pascal se compreende o período que vai desde o domingo da Ressurreição de Jesus Cristo até o domingo de Pentecostes. Portanto, compreende um período de 50 (cinquenta) dias. Este período era chamado por São Basílio de “sete semanas do Santo Pentecostes” ou “Grande Domingo” por Santo Atanásio ou, ainda, “o gozoso tempo” por Tertuliano. Nisto se subentende que Páscoa não se trata de um único dia, mas um grande dia que se prolonga por um tempo simbólico, ou seja, sete semanas ou cinquenta dias.

Contexto Histórico

No calendário judaico do AT, cinquenta dias após a Páscoa, é celebrada a Festa das Semanas (Shavuot=Pentecostes: Ex 19,1), em origem, uma festa agrícola.

O Tempo Pascal compreende, portanto, cinquenta dias que abarca a Ressurreição (início), a Ascensão do Senhor (expectativa) e Pentecostes (conclusão). No NT os cinquenta dias assume a seguinte perspectiva: a quadragésima, que compreende o Domingo da Ressurreição até o Domingo da Ascensão, que se prolonga até a quinquagésima, com o Domingo de Pentecostes. O sentido primário da quadragésima são os quarenta dias que o Senhor Ressuscitado permaneceu com os Apóstolos, discípulos e discípulas até a Ascensão aos céus, e quinquagésima, justamente a vinda do Espírito Santo. Deste modo, os Santos Padres sublinham o paralelismo entre a Lei e o Espírito, Antiga e Nova Aliança.

O início do Tempo Pascal se dá com o Domingo da Pascoa com a oitava da Páscoa. A concepção primária é de que a “semana da Páscoa” (=oitava) compreende um único dia, de fato, durante a semana percorre o refrão “este é o dia que o Senhor fez para nós” (Sl 118,24), no lugar do Responsório da Liturgia da Horas.

Liturgia

Durante o Tempo Pascal, a Palavra de Deus apresente uma seleção de leituras do livro dos Atos dos Apóstolos, do Evangelho de João e outras leituras com foco sobre o tema batismal, com referências à vida nova com projeção à vida escatológica (1Pedro; 1João e Apocalipse de João).

A escolha do livro do Atos do Apóstolos e do Evangelho de João possui, ainda, uma perspectiva sacramental, portanto, a vida nova pressupõe um caminho sacramental, que será desenvolvido durante o período.

Algumas características teológicas que acompanham o período Pascal

A liturgia dominical irá desenvolver o esquema padrão da vida cristã a partir da tríade:

  • vida orante/litúrgica;
  • vida diaconal e
  • vida missionária,

que são características próprias da atuação batismal. Esta tríade é iluminada pelas virtudes teologais: fé, esperança e caridade que norteiam a vida batismal. Assim, durante o Tempo Pascal a Liturgia Dominical irá desenvolver estas perspectivas, domingo a domingo.

Lecionário Dominical

Até o 3º Domingo da Páscoa, as leituras do evangelho relatam as aparições de Jesus Cristo Ressuscitado. A leitura do Bom-Pastor está alocada no 4º Domingo. Nos Domingos seguintes se lê narrativas do discurso e da oração do Senhor após a última ceia. No ciclo trienal, a 1ª leitura é sempre textos do livro do Atos dos Apóstolos, de modo paralelo e progressivo. A 2ª Leitura varia conforme o Ano Litúrgico: no Ano A se utiliza a 1Pedro, Ano B, a 1João, e no Ano C o Apocalipse de João. Tais narrativas estão de acordo com o espírito de alegria e fé, próprio do tempo (OLM 100).

Sábado Santo: Vigília Pascal

A Proclamação da Palavra de Deus acontece a Luz do Cristo Ressuscitado, centro do Cosmo e da História. A Leituras atuais possuem um tríplice caráter simbólico: a) são Leituras progressivas da História da salvação; b) possuem um caráter cristológico e c) estão em estreita relação com o batismo. A leitura segue o salmo ou cântico, a Oração da Igreja expressa o sentido tipológico da leitura.

Antigo Testamento:

1ª Leitura: Gn 1,1-2,2: Criação

Sl 104: As maravilhas da Criação

Oração: memória da criação e da recriação em Cristo

2ª Leitura: Gn 22,1-18: Sacrifício de Abraão

Sl 16: referências messiânicas a Cristo Ressuscitado

Oração: Da fé de Abraão à fé dos batizados em Cristo

3ª Leitura: Ex 14,15-15,1: Passagem do Mar, Páscoa de Israel

Cântico: Ex 15: Cântico de Moisés

Oração: Passagem do Mar figura do batismo cristão

4ª Leitura: Is 54,5-14: Fidelidade de Deus Criador e Redentor

Sl 30: Deus misericordioso e salvador

Oração: da paternidade de Deus à esperança da salvação

5ª Leitura: Is 55,1-11: vocação e uma Aliança Eterna

Cântico: Is 12,2.4.6: Deus é nossa Salvação!

Oração: Os Profetas anunciaram a salvação no Espírito

6ª Leitura: Br 3,9-15.32-4,4: No esplendor da Luz Sapiencial

Sl 19: Bondade e beleza da Lei do Senhor

Oração: A Igreja cresça com novos filhos

7ª Leitura: Ez 36,16-17a.18-28: Uma aliança Nova, um coração novo

Sl 42: Sede de Água Viva, do Deus Vivente

Oração: Hoje se cumpre estas promessas

Novo Testamento

8ª Leitura ou Epístola: Rm 6,3-11: Batismo, mistério pascal

Sl 118: A Vitória Pascal de Cristo. Este é o dia que o Senhor fez para nós

Evangelho: Ano A: Mt 28,1-10: Ressurreição

Domingo de Páscoa

A liturgia da palavra se estrutura partindo do Atos do Apóstolos, substituindo o Antigo Testamento, segundo o costume da Igreja Primitiva.

1ª Leitura: At 10,34a.37-43: os Apóstolos, Testemunhas da Ressureição

Sl 118: Este é o dia que o Senhor fez para nós

2ª Leitura:

Cl 3,1-4: Ressuscitar com Cristo

1Cor 5,6-8: Cristo nossa Páscoa foi Imolado

Evangelho:

Missa matutina: Jo 20,1-9: Ressurreição

Missa vespertina: Lc 24,13-35: Discípulos de Emaús

 

A missa matutina do Domingo de Páscoa apresenta o tema do testemunho da Ressurreição de Jesus Cristo. O Discípulo Amado, enquanto sacerdote, mesmo temendo (um levita não pode tocar num cadáver), mas tendo a afirmação de Pedro entra no túmulo, sinal de que este se encontra vazio. A 1ª Leitura afirma os Apóstolos como “Testemunhas” da Ressurreição a partir da pregação de Pedro cujo conteúdo se expressa na 2ª Leitura que converge para a ressurreição de todos que aderem Jesus Cristo pela fé.

A missa vespertina possui o foco sobre o tema do 1º Dia da Semana, como indicativo da identidade cristã, ou seja, reunir-se no 1º Dia da Semana que passa a ser compreendido como “Dia do Senhor” (=Domingo) em virtude da Ressurreição de Cristo.

 

Semana Santa – Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

O Domingo de Ramos

Na celebração do Domingo de Ramos convergem a tradição jerosoluminatana da procissão de ramos, proveniente da Festa das Tendas (Sucot), que se torna o pano de fundo para a Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém. Une-se a celebração a tradição romana que orienta os fiéis com a liturgia da palavra centrada no tema da Paixão do Senhor.

Leva-se em conta que o complexo festivo da Festa das Tendas será destrinchado nas celebrações da Semana Santa. Disto advém o costume da procissão de Ramos (domingo) junto com a prisão de Jesus no Monte das Oliveiras (Sexta-Feira Santa) que possuem a função de identificar que Jesus é de fato o Messias, segundo a profecia de Zc 9 e 14. O Salmo 118 serve de moldura para Semana Santa (Domingo de Ramos; Sábado-Santo; Domingo de Páscoa). Proveniente da Festa das Tendas será a Benção do Fogo e a Benção da Água, durante a Liturgia do Sábado Santo. Á Festa Judaica das Tendas é importante no complexo da Semana Santa pelos seguintes motivos: a) é a festa da expectativa messiânica de Israel; b) possui contexto escatológico; c) é a festa da eternidade; e, acima de tudo, d) é a Festa de Deus por excelência, entre outras características.

No Domingo de Ramos, a primeira parte consta do Evangelho que narra a Entrada de Jesus em Jerusalém (Mc 11,1-10), seguido da procissão em honra de Cristo Rei (cf. Sl 118).

Características do Domingo de Ramos

Procissão Judaica de Ramos: Momento da manifestação do rei-messias (Zc 14)

Monte da Oliveiras: Lugar da Manifestação do rei-messias (Zc 14,4)

Jumentinho: Indicação da dignidade real do rei-messias (1Rs 1,28-40; Zc 9,9)

Qualidades do rei-messias: justo, vitorioso, humilde e guerreiro (Zc 9,9-10)

A segunda parte narra-se o tema do Servo Sofredor na Primeira Leitura (Is 50,4-7), com o Salmo do Abandono na Cruz (Sl 21), a segunda Leitura é o Hino Cristológico de Fl 2,6-11 e a narrativa da Paixão (Mc 14,1-15,47). O Hino de Filipenses exalta o comandante de tropas que doa a sua vida para salvar o seu povo. Tendo “caído em batalha” ele recebe as honras e dignidades do “herói combatente”. Tal “vitória em batalha” é descrita na narrativa da paixão, que o apresenta a partir da imagem do Servo Sofredor de Isaías que portará consigo a vitória.

Segunda, Terça e Quarta-feira Santa

Mantem-se o caráter Cristológicos da quaresma, seguindo a leitura das semanas anteriores. Leituras proféticas de Isaías e evangélicas de João, com exceção da Quarta, quando se narra a Traição de Judas, segundo Mateus (Mt 26,14-25).

Missa Crismal – Quinta-Feira Santa

Habitualmente celebrada na Quinta-Feira, pela manhã, possui um caráter sacerdotal. Lê-se Is 61,11-3ab.6a.8b-9, sobre o Messias consagrado pelo Espírito; Ap 1,5-7 sobre a realeza de sacerdotes por Jesus Cristo A e W; Lc 4,16-21 sobre a missão de Jesus, ungido pelo Espírito, anunciando na Sinagoga de Nazaré.

Tríduo-Pascal

Quinta-Feira Santa: Missa do Lava-Pés

A Primeira Leitura (Ex 12,1-8.11-14) recorda o ambiente pascal no qual se desenvolverá a Ceia de Jesus e o caráter pascal de sua imolação. A segunda (1Cor 11,23-26) transmite o ensinamento Apostólico a respeito da Instituição da Eucaristia e o Evangelho de João introduz o tema da Caridade (Jo 13,1-15).

Sexta-Feira Santa: Celebração da Paixão

A estrutura atual, fruto de uma síntese de diferentes tradições pode ser justificada deste modo:

Paixão Proclamada: Liturgia da Palavra

Paixão Invocada: Orações Solenes

Paixão Venerada: Veneração da Cruz

Paixão Comunicada: Comunhão Eucarística

Após uma breve e austera procissão penitencial é proclamada a Paixão nesta perspectiva:

1ª Leitura: Is 52,13-53,12 – A Profecia do Servo de Javé

2ª Leitura: Hb 4,14-16;5,7-9 – Obediência do Filho

Evangelho: Jo 18,1-19,42 – Paixão de Jesus

Na Primeira Leitura lê-se a proclamação profética do Servo do Deutero-Isaías, realizada na Paixão de Jesus. Na Segunda Leitura a Carta aos Hebreus aborda, em perspectiva sacerdotal a obediência do Filho. João narra “a liturgia” da Cruz, onde Jesus Imolado aparece em sua exaltação sobre a Cruz, o Cordeiro Imolado e Rei.

5º Domingo da Quaresma Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

Jr 31,31-34

A teologia da Profecia de Jeremias e de Isaías possui algumas características próprias em relação aos profetas anteriores a eles, ou seja, até o momento os profetas tinham sido enviados para tentar reajustar ou concertar as coisas. Contudo, tais iniciativas não obtiveram resultados. Assim, Jeremias e Isaias surgem como os profetas que descrevem o limite da “paciência divina”. Deus não vai tentar mais “concertar” as coisas, agora é o tempo de deixar que tudo seja destruído para dar início a um novo recomeço, como se pode observar na vocação de Jeremias “Eu te constituo, neste dia, sobre as nações e sobre os reinos, para arrancar e para destruir, para exterminar e para demolir, para construir e para plantar” (Jr 1,10). O mesmo ocorre na narrativa da vocação de Isaías “Vai e dize a este povo: Podeis ouvir certamente, mas não haveis de entender; podeis ver certamente, mas não o haveis de compreender. Embota o coração deste povo, torna pesados os seus ouvidos, tapa-lhe os olhos, para que não veja com os olhos, e não ouça com os ouvidos, e não suceda que o seu coração venha a compreender, que ele se converta e consiga cura” (Is 6,9-10). Portanto, a mensagem de Isaías e de Jeremias é de “destruição” e de “novo recomeço”. Nesta perspectiva se insere o tema da “Nova Aliança”.

Tendo em vista que a primeira Aliança era firmada através de um “contrato” (=Lei) isto implicava num acordo entre duas partes (Deus e Israel), no qual Deus concedia a Terra Prometida e Israel se oferecia, selando “materialmente” o acordo entre partes. Contudo, tal “posse” era condicionada. A não observância da Lei implicava em sanção, sobre Deus, seria perder o direito de posse do povo de Israel, e sobre o Povo de Israel, o direito de posse da Terra.

A trajetória histórica do Povo de Israel, no entanto, demonstra sequencias de infidelidades através de injustiças sociais (cf. 1 e 2Samuel; 1 e 2Reis; 1 e 2Crônicas; + profetas pré-exílicos). Deus procura remediar as coisas, mas sem sucesso. Finalmente, Deus decide romper com uma situação “viciada” e recomeçar tudo. A queda de Israel em 722 e a queda de Judá (598/586), com exílio da Babilônia, são consequências da sanção aplicada.

Mesmo tendo sido imposto a sanção da Lei, Deus não abandonará o seu Povo Eleito. Mas proporá uma Nova Aliança. Tal promessa se realizará a partir e por meio de Jesus Cristo, o Filho Amado do Pai.

Outra característica importante será a perspectiva teológica que se desenvolve a partir de Jeremias e Isaías. A tradição sapiencial descreve o sofrimento por meio do castigo divino, como se poderá observar, principalmente, através do livro de Jó. Com jeremias e Isaías a conceção mudará radicalmente. O sofrimento deixa de ser visto como um castigo imputado por Deus, e passa a ser concebido como um espaço para a ação divina. Deste modo, o sofrimento humano pode ser um lugar para a redenção, um lugar para a graça divina. Tal perspectiva será fundamental para a compreensão do mistério da paixão e morte de Jesus Cristo. De fato, a cruz deixa de ser concebida como maldição e, a partir da pessoa de Jesus Cristo, passa a ser concebida como lugar de redenção. Tal perspectiva teológica é um legado de Jeremias e Isaías e será o eixo para a compreensão do sofrimento dentro do cristianismo, o sofrimento pode se tornar um espaço para a manifestação da graça.

Hb 5,7-9

A narrativa da Carta aos Hebreus apresenta o tema da obediência do Filho ao Pai por meio dos sofrimentos terrenos. A narrativa descreve o modo como Jesus enfrenta a experiência do sofrimento, transformando-o em espaço para a ação do Pai. Assim a expressão “na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,9) o autor está resgatando o tema da paixão e morte de Jesus, como ato e como modelo da experiência da redenção. Assim a paixão e morte, dentro da perspectiva de Jeremias e Isaías, se configuram como lugar para a ação do Pai e do Filho que vem para salvar: “não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” (Jo 12,47)

Jo 12,20-33

A partir do capítulo 12 de João tem início o tema da “gloria” de Jesus Cristo. Tal glória se manifesta na sua “hora”, ou seja, durante a paixão e morte. A narrativa começa com os gregos querendo “ver” Jesus. Tal interesse possui o significado de conhecimento. Além disso, o foco sobre os gregos possui um sentido universalista. Dentro do tema da Nova Aliança entra a perspectiva universal, ela abarca, agora, não apenas um povo em particular, mas “homens e mulheres de todas as raças, línguas e nações…”.

Na sequência, Jesus descreve o tema do grão de trigo, no qual só pode dar frutos quando “cai na terra” (=morre), ilustrando como o princípio de doar a vida se torna elemento basilar do seguimento, por meio do qual o nome do Pai é glorificado.

O ato de doar a vida resulta na queda de Satanás, o qual promove o individualismo a qualquer custo, mesmo a custo do sangue inocente. Satanás seduz oferecendo falsos valores. Pelo contrário, a cruz seduzirá oferecendo o verdadeiro valor, a vida humana. Aqui entra o choque entre o individualismo e o bem comum. Caso o centro da pessoa for ele próprio, ele se tornará deus de si mesmo, o que acarretará a sua queda. Mas, se o centro da pessoa se deslocar para o outro, ele passa a ser gerador de vida. Portanto, a cruz se torna referência de salvação, porque ela diz respeito a salvação de todos. Neste sentido, na cruz, a Glória de Deus se manifesta através do Filho Amado. O Pai que doa o Filho e o Filho que se doa.

Síntese:

O tema da Nova Aliança anunciada por Jeremias será estabelecido por Jesus Cristo Crucificado e Ressuscitado. Enquanto a antiga Aliança era restrita a um povo particular, a nova se abre para todos os “homens e mulheres de boa vontade”. Enquanto a Antiga Aliança se alargava (= 10 mandamentos), a Nova Lei se restringe a dois mandamentos: “amar a Deus e amar o próximo”. Desse modo, a paixão e morte de cruz de Jesus expressa este conceito de amor doado e estabelece a Nova Aliança, que passa a vigorar a partir do princípio do amor, que se configura como Lei Régia.

Além disso, o tema da paixão e morte de cruz, dentro da perspectiva de Jeremias e Isaías, assume a compreensão de redenção, ou seja, como espaço no qual Deus pode agir em favor da humanidade e não mais como castigo/condenação. Assim, o sofrimento humano passa a se configurar como espaço no qual Deus pode agir em nosso favor, torna-se uma possibilidade para Deus.

 

 

4º Domingo da Quaresma Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

2Cr 36,14-16.19-23

Os Livros das Crônicas surgem como um tipo de Diário Oficial do Estado. Neste sentido, a obra desenvolve as atividades da monarquia sob a ótica divina, a qual está subordinada em virtude da Aliança e da Lei. As obras estão em paralelo com os livros dos Reis, porém, as narrativas são ampliadas em relação a estes. O teor dos livros das Crônicas e de Reis é compreender o que levou ao colapso do Reino do Norte (Israel) em 722 e do Reino do Sul (Judá) em 598/586. Particularmente, o segundo livro das Crônicas, em paralelo com as Profecias de Isaías e de Jeremias, narra o fim do exílio, a partir do declínio da Babilônia, com a ascensão do império Persa.

A narrativa deste domingo é o último capítulo do segundo livro das Crônicas e narra a queda e ressurgimento do reino do sul (Judá).

O motivo dado para a queda de Judá é a “multiplicação das infidelidades” e “não escuta dos mensageiros enviados por Deus” (=profetas). Como resultado, Deus decide não mais concertar ou remediar as coisas, mas deixar que tudo se quebre para reconstruir novamente. Para que isto ocorra, Nabucodonosor será descrito como “instrumento de castigo” e Ciro como “instrumento de Salvação” nas mãos de Deus.

Duas características:

a) Concepção Jurídica: A Aliança entre Deus e Israel foi sancionada através de um contrato entre as partes, cuja quebra do acordo resultaria em sanção contra a parte transgressora. Neste sentido, os Livros das Crônicas e Reis descrevem as transgressões de Israel/Judá a partir das suas autoridades (=reis), a fim de compreender o motivo da queda do Norte (722 a.C.) e do Sul (598/586). Nesta linha, o retorno e permanência na Terra Prometida é concebido a partir da estrita observância da Lei (=embates entre os fariseus e mestres da Lei com Jesus)

b) Penitencial: O exílio da Babilônia visto como um processo penitencial em vista da conversão de Judá (=Livro das Lamentações). Nesta linha, o retorno é descrito como um “novo Êxodo”, no qual se evidencia nova aliança (cf. Is 40-55).

A narrativa de 2Crônicas descreve um processo: Jerusalém-Exílio-Jerusalém. Tal processo que pode ser concebido na linha penitencial através do tema do “repouso sabático”, no qual a Terra Prometida foi “purificada” das suas injustiças.

Sl 136

O Salmo 136 resgata a memória. O processo penitencial, como caminho de conversão implica em avaliar, superar os erros e firmar os passos no essencial. Nesta perspectiva, Jerusalém surge como modelo ideal e referência para o processo de transformação.

Ef 2,4-10

A narrativa da 2ª Leitura evidencia, a partir da tipologia batismal, a transição da morte para a vida a partir da salvação operada em Cristo através da sua morte e ressurreição.

No paralelo com a 1ª Leitura, a passagem do exílio para a Terra Prometida é descrita a partir da ótica penitencial. Além disso, a possibilidade de renascer para uma vida nova não se dá pela capacidade/mérito humano, mas pela livre gratuidade divina em sua misericórdia, no qual é cobrado apenas “a união com Cristo” (Ef 2,5-6). Portanto, uma salvação operada mediante a fé, o que nos predispõe para “as boas obras”, não como artífices, mas como instrumentos do sumo-artífice (Ef 2,10).

Jo 3,14-21

O diálogo entre Jesus e Nicodemos se desenvolve a partir do renascimento, no qual Jesus indica o “nascer de novo/do alto”. Tal “nascer de novo/do alto” apresentado como “nascer da água e do Espírito” (Jo 3,3-5) como um processo da fé no Filho do Homem (= Jesus Cristo). Mas, qual Cristo se deposita a fé? Jesus responde que é naquele que “será elevado” como o foi a serpente do deserto. Portanto, a fé no Cristo Crucificado que será o Ressuscitado. O crer no crucificado/ressuscitado se torna condição para a vida eterna, pois o crucificado manifesta a plenitude do amor divino: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Único” (Jo 3,16). Além disso, a fé exige assumir uma conduta moral e um compromisso orante, diaconal e evangelizador. Tais princípios não esvaziam a fé em meras palavras, mas a confirma como empenho.

Sendo o Crucificado a expressão suprema do pleno amor misericordioso de Deus, não existe outro caminho para a vida eterna que não passe pelo Cristo e nele se modele. Aqui surge a distinção entre os “filhos da luz” e os “filhos das trevas”. Mas quem são os “filhos das trevas” no Quarto Evangelho? Jesus responde que são os homicidas e mentirosos (cf. Jo 8,44-47), o que ocorre quando as lideranças em Israel condenam o inocente (=Jesus) à morte mentindo ao falsear a Lei (cf. Jo 19). Curiosamente, estas lideranças, no Quarto Evangelho, conhecem Jesus, mas não o acolhem nem o professam “muitos chefes creram nele, mas, por causa dos fariseus, não o confessavam, para não serem expulsos do Sinédrio, pois amaram mais a glória dos homens do que a de Deus” (Jo 12,42-43).

Síntese

Na antiga Aliança Deus estabelecera um acordo entre Ele e Israel. Assim, a pertença ao povo da Aliança se dava através do processo de genealogia e na estrita observância da Lei. No pós-exílio ser judeu significava observar o sábado, a Lei e a circuncisão, mesmo permanecendo o critério genealógico como condição primária. A Nova Aliança estabelece o critério da Fé no Crucificado que é o Ressuscitado. Leva-se em conta que o Ato de Fé não é apenas uma afirmação, mas um exercício contínuo através da vida na graça.

O processo batismal que, através da fé e renascimento, implica na renúncia do pecado/morte para a graça/vida (cf. Rm 6).

O 5º Domingo da Quaresma tratará do tema da Nova Aliança. Portanto, o 4º Domingo está justamente trabalhando a catequese sobre a transição da Lei Mosaica para a Nova Lei em Cristo. Assim, fica estabelecido, na catequese, a transição:

 

Moisés

Jesus

Terra do Egito Pecado
Travessia do Mar Batismo
Aliança do Sinai/Deserto Vida na Graça
Travessia do Jordão Passagem
Terra Prometida Vida Eterna

 

Os paralelos com a catequese deste domingo se configuram do seguinte modo:

Moisés

Ciro

Jesus

Terra do Egito Babilônia Pecado
Travessia do Mar Édito de retorno Batismo
Aliança do Sinai/Deserto Ano Sabático Vida na Graça
Travessia do Jordão Retorno/Caminho Passagem
Terra Prometida Templo de Jerusalém Vida Eterna

 

No conjunto, o modelo do Êxodo se torna referencial. Na Literatura Profética, o Exílio da Babilônia é descrito como um “anti-êxodo”, enquanto o retorno da Babilônia para Jerusalém é descrito na linha de um “Novo Êxodo”. Ampliando para uma leitura penitencial, tem-se a concepção da experiência do sofrimento (Egito-Babilônia-Terra do Pecado) como possibilidade da graça de Deus, assim como a paixão e cruz de Cristo, que poderia ser visto como castigo, é concebido como possibilidade para a ação de Deus (=Ressurreição), a transformação da desgraça como espaço para a graça: Terra do Egito para a Terra Prometida // Babilônia para Jerusalém = transformação da desgraça em espaço para a graça de Deus. Como este movimento pode ser vislumbrado nos tempos atuais?

  

3º DOMINGO DA QUARESMA 2021

ALIANÇA MOSAICA – ALIANÇA BATISMAL
Pe. Gilvan Leite de Araujo

Ex 20,1-17

O 3º Domingo da Quaresma continua desenvolvendo o tema da Aliança e da Tipologia Batismal. Assim, tendo refletido a Aliança com Noé (1º domingo) e a Aliança com Abraão (2º Domingo), o 3º Domingo desenvolve a teologia da Aliança “maior”, que é a Aliança com Moisés. Esta Aliança se destaca das demais pelo fato de ser estabelecida através de um contrato entre parte (Deus//Israel).

Portanto, com Moisés, Deus estabelece uma Aliança (Ex 19) e a sanciona através do contrato entre as partes (Ex 24). Sendo firmada através de contrato, tal Aliança implica em direitos, deveres e sanções. Pelo contrato (=Lei) Israel se torna um povo particular. As partes se obrigam em oferecer algo que “abone” a Aliança sancionada pela Lei, neste sentido, Deus oferece a Terra Prometida e Israel a si próprio. Trata-se de direito condicionada. A não observância das cláusulas da Lei implica na perda do direito, ou seja, caso Deus quebre uma das cláusulas ele perde o direito de “posse” de Israel. Caso Israel quebre uma das cláusulas, ele perde o direito de posse da Terra Prometida (=exílio da Babilônia [cf. Livro das Lamentações; Jeremias e Is 1-39; 1 e 2Reis]).

A 1ª Leitura apresenta justamente a segunda parte, ou seja, as cláusulas contratuais da Lei de Israel, habitualmente designadas como Decálogo, ou “Dez Palavras”.

Na construção do Decálogo, as quatro primeiras normas são de direito divino, ou seja, dizem diretamente à Deus, enquanto as outras seis se referem a questões humanas.

Curiosamente as narrativas dos Evangelhos sobre os Dez Mandamentos tendem a fazer uma separação entre as normas divinas e as normas humanas. Neste sentido, Jesus evoca como regra para alcançar o céu a segunda parte do Decálogo: “Não matarás, não adulterarás, não roubarás, não levantarás falso testemunho; honra pai e mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 19,18-19; cf. Mc 10,19; Lc 18,18).

Mas, por outro lado, quando se trata da Lei Régia (Tg 2,8) a questão muda: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Ele respondeu: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o maior e primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22,34-40; cf. Mc 12,28-34; Lc 25-28). Aqui se vai ao cerne de toda Lei, no qual implica o “direito” divino e o “direito” humano, um evoca o outro.

Na liturgia deste 3º Domingo da Quaresma o foco recai sobre o estabelecer a Aliança através de um compromisso formal (=Lei).

Na perspectiva batismal o neófito, ao ser batizado, ele estabelece uma Aliança e, ao renunciar o mal/diabo, ele professa a fé na Trindade, tal profissão de fé implica num compromisso formal, que deverá ser observado pelo batizado. Ele é batizado em nome da Trindade e vinculado, no caso, dentro da Igreja Católica. Fica estabelecido um compromisso.
1Cor 1,22-25

O problema central da 1Coríntios é de ordem pastoral. Diversos fatores práticos estão criando discórdias e divisões dentro da própria comunidade de Corinto (cf. 1,10-11). A primeira é justamente sobre a pessoa de Paulo, o qual a comunidade o acusa de ser fingido, sem palavra, mentiroso e ladrão (1 e 2Coríntios). Um dos pontos de discórdias é entre as preferências pessoais. Alguns preferem as pregações de Paulo e outros de Apolo (1Cor 1,12ss). De fato, Apolo é descrito como eloquente pregador (cf. At 18,24-26), enquanto Paulo é descrito como péssimo pregador (cf. 1Cor 10,9-10; 11,6). Discutindo a questão, Paulo descreve Apolo como “apollô” (=destruidor: 1Cor 1,19-20 [não claramente visível em língua portuguesa]) caso o foco da comunidade não seja o centro, ou seja, a pessoa de Jesus Cristo. Portanto, se para os coríntios a força do Evangelho reside em poder de eloquência pessoal, Apolo para eles é uma destruição. Disto provêm a indagação de Paulo “onde está o sábio? Onde está o homem culto?” (1Cor 1,20). Mas onde está a loucura da pregação por parte de Deus (1Cor 1,21)? Paulo irá demonstrar que a fé cristã reside primariamente na centralidade da pessoa de Jesus Cristo, ponto de partida e de chegada, eixo central da vida cristã.
Jo 2,13-25

O tema central do Evangelho é a pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus, que estabelece, a partir do evento da paixão, morte e ressurreição, o “Santuário/Templo” de Deus entre os homens. Leva-se em consideração que o Santuário/Templo é o local da sua presença entre os homens, seja, durante a caminhada do deserto (=Santuário) ou estabelecida em Jerusalém, Garizim, Leontópolis e Elefantina (=Templo).

Os quatros templos judeus funcionavam como lugar da presença divina. Alguns, equivocamente, afirmam que Jesus era contra o Templo, esta afirmação é absolutamente falsa.

Jesus é contrário aqueles que trabalhavam no Templo e, nesta narrativa, os condena, quando sacrificam o povo (cf. Jo 10) e não os animais, através de um sistema exploratório, onde a gratuidade divina era taxada: “Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (Jo 2,16), evocando a profecia de Zacarias quando afirma: “Não haverá mais vendedor na casa de Iahweh dos Exércitos, naquele dia” (Zc 14,21).

No conjunto da liturgia, a comunidade de batizado se reúne, a partir de agora, não mais no Templo físico de Jerusalém, mas na pessoa de Jesus Cristo. Aqui abre a dimensão eucarística da vida batismal. Deste modo, A “Igreja” é primariamente a comunidade cristã que se reúne no espaço sagrado. Lógico que se estabelece uma correlação entre o batizado, enquanto morada de Deus, e a comunidade de batizados que se reúne “na casa de Deus”.
Pelo batismo, o cristão é incorporado na Igreja que tem como eixo central a Trindade, dentro de uma dinâmica cristocentrica. O cristão passa a ter um “compromisso” com Cristo, na sua Igreja, em vista da salvação eterna (=Terra Prometida) o que implica na sua dimensão evangelizadora (=sal e luz da terra), abrindo a possibilidade desta salvação a todos os homens e mulheres. Neste sentido, a vida eclesial pressupõe algumas características:

a)  vida orante (liturgia)

b)  vida diaconal (servir a humanidade)

c)   vida evangelizadora (anunciar o ressuscitado a todos os povos).

Tudo isto norteado pelos critérios das virtudes teologais (fé, esperança e caridade). Portanto, estando na “graça” o cristão é Templo de Deus entre os homens e, como “santos”, se reúnem na Casa de Deus.

 

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