MARCOS – Pe. RAY

EVANGELHO DE MARCOS

_______________Pe. RAY___________________

 Obs:- os numeros 1 e 2 estão no final do artigo por não tratarem de Marcos diretamente.

 3- PASSEIO RAPIDO PELO TEXTO

Marcos  escreve pensando nas suas comunidades e nos seus problemas. Escreve para ajudá-las e dar-lhes uma Boa Notícia. Qual era a Boa-Notícia? Quais eram esses problemas?

 

3.1. Esta é a abertura: “Começo (princípio) da Boa Noticia de Jesus, o Messias, o Filho de Deus” (1,1). Marcos é o único que põe de início à palavra Evangelho como título do livro. E uma palavra grega que significa Boa Notícia. Inicialmente, significava a gorjeta que se dava ao carteiro portador de uma notícia. Se a notícia era boa, a gorjeta era maior. Depois com o tempo passou, a significar a notícia boa trazida pelo portador. A boa notícia era as ações dos reis e imperadores, sobretudo quando percorriam suas terras levando benefícios, dinheiro, distribuindo alimentos, organizando gratuitamente diversões populares e libertando presos. Aproveitando desse significado Marcos também quis oferecer aos membros das suas comunidades uma boa Noticia, só que a Boa Notícia era para os cristãos Jesus de Nazaré, o Messias.

 

3.2- Em Marcos 1,2-13, há uma apresentação rápida de João Batista, só mesmo para dizer que os tempos messiânicos acabavam de chegar na pessoa de Jesus. Parece que o autor deste Evangelho tinha pressa de entrar logo no assunto: a prática de Jesus.

 

3.3- Na seqüência Mc 1,14-15, surge Jesus lançando a Boa Notícia: O Reino de Deus chegou!

 

3.4 A partir de Marcos 1,16-8,26 lendo com atenção, percebe-se que o Evangelho está organizado em duas partes grandes partes. Cada uma tem suas próprias seções. A linha divisória das duas está no meio do texto: 8,27-33.

 

3.5 A primeira parte (Mc 1,16-8,26) levanta uma questão fundamental: Quem é Jesus de Nazaré?

 

3.6 A segunda parte Mc 8,27-16,20 há uma outra pergunta que permeia o Evangelho de ponta a ponta e que está bem ligada à primeira: o que significa ser discípulo/discípula deste Jesus de Nazaré? Como segui-lo?

 

4- Primeira Parte (Mc 1,16-8,26) Quem é Jesus?

 

4.1 Tudo se passa na Galiléia e em algumas outras regiões pagãs vizinhas. A Galiléia nunca teve boa fama, desde os tempos antigos. Era considerada uma terra pagã, por causa da mistura de raças. Terra impura, portanto, condenada a viver no desprezo (Is 8,23-9,1).

 

4.2 Jesus aparece quase sempre em caminhadas, acompanhado pelos discípulos (Mc 1,16.21.29.39.45; 2,1.13.23; 3,7.13.20; 4,35; 5,1.18; 6,1.6.31-33.56; 7,17.24.31; 8,10.22).

 

4.3 Mais do que falar, Jesus age, faz. Cura doentes e expulsa demônios, quase sem parar. É impressionante! É só verificar: Marcos 1,25.31.34.39.41; 2,11; 3,5.10; 5,8.34.41; 6,5.41.51.56; 7,29.34-35; 8,6.25. Os agraciados são pobres, gente oprimida e marginalizadas.

 

4..4 Muitos ao ver sua prática tão diferente, se perguntavam: “Que é isto? Eis um ensinamento novo, cheio de autoridade! Ele manda até nos espíritos impuros e eles lhe obedecem!” (Mc 1,27). “Nunca vimos coisa semelhante” (Mc 2,12). “Quem é este, para que até o vento e o mar lhe obedeçam?” (Mc 4,41).

 

4.5 Essas e outras perguntas a respeito de Jesus circulavam entre o povo, nas casas dos pobres, aldeias, sinagogas, pelas estradas e até nos palácios (Mc 6,14). Realmente, Jesus atraía, questionava, empolgava. A sua fama logo se espalhou por toda a Galiléia (Mc 1,28). Multidões queriam vê-lo e tocá-lo (Mc 1,45; 2,13; 3,20; 4,1; 5,21.30-31; 6,31; 10,21). Essas multidões eram de camponeses, pescadores, doentes, famintos, desempregados, abandonados pelos poderes públicos, desprezados até pelos que comandam a religião. Jesus tornou-se a pessoa mais falada e mais comentada por toda a Galiléia.

 

4.6 As opiniões eram as mais diversas: Os doutores da Lei diziam: “Por que fala assim este homem? Ele blasfema” (Mc 2,7). “Que é isto? Ele come com os coletores de impostos e pecadores?” (Mc 2,16). “Ele tem Beelzebul em si… É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios” (Mc 3,22).

 

4.7 Seus parentes diziam: “Ele perdeu o juízo!” (Mc 3,21). Os seus conterrâneos, entre ciúmes e perplexidades, comentavam: “E que sabedoria é esta que lhe foi dada, a ponto de se realizarem até milagres por suas mãos? Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago… de Judas e de Simão?” (Mc 6,2-3).

4.8 Herodes também, tomado pelo medo, deu o seu palpite: “Esse João que mandei decapitar, é ele que ressuscitou” (Mc 6,16). O povo dizia: “João, o Batizador, ressuscitou dos mortos”. “É Elias.” “É um profeta semelhante a um dos nossos profetas” (Mc 6,14-15).  O povo, em geral, tinha grande admiração por Jesus (Mc 1,26-28.45; 2,12; 5,20; 7,37).

 

4.9 Como na Palestina, no tempo de Jesus as opiniões a respeito dele eram as mais diversas, também em Roma, muitos, ouvindo os cristãos falarem da fé em Jesus Cristo, perguntavam: quem é esse Deus de vocês? Qual a sua especialidade? Ele protege os prazeres do amor ou os soldados em guerra? E onde está o templo dedicado a ele? Que tipo de sacrifícios lhe oferecem?

 

4.10 Eles faziam estas perguntas porque em Roma havia uma grande quantidade de divindades, cada uma escolhida para proteger determinado aspecto da vida. Havia até um templo onde eram guardadas essas imagens cultuadas nos territórios do Império. Eram cerca de 20.000 divindades!

 

4.11 Além de todas essas divindades, estava crescendo muito o culto ao imperador romano, considerado como o filho da divindade mais poderosa. Diziam que o deus-destino escolheu o Império romano para mandar no mundo inteiro e garantir ordem e tranqüilidade. Qualquer revolta contra o Império era vista como uma revolta contra as divindades, que merecia ser reprimida sem piedade custe o que custar.

 

4.12 Quando os cristãos confessavam que o Deus deles foi um carpinteiro-lavrador pobre e marginalizado da Galiléia, os romanos zombavam muito deles. Pior ainda, quando confessavam que Jesus Cristo foi condenado e crucificado (Mc 15,22-25), olham para eles com suspeitas. De fato as pessoas mais perigosas para a segurança do Império eram crucificadas (Mc 15,6-15.27-28). Era absolutamente proibido fazer a memória das pessoas crucificadas: elas eram consideradas animais e deviam ser esquecidas.

 

4.13 Por tudo isso, vários membros das comunidades de Marcos tinham vergonha e medo de falar em Jesus Cristo; ou falavam de maneira incorreta, comparando-o a uma espécie de general, rei vitorioso ou grande sábio. No fundo era distorcida e manipulada a pessoa de Jesus, com conseqüências muito graves. Estava em jogo o futuro das comunidades.

 

4.14 Jesus não está preocupado em dizer quem é. Somente se apresenta como Filho do Homem. Não gosta de publicidade. Manda calar os que querem propagandear seu nome (Mc 1,34.43- 44; 3,12; 5,43; 7,36; 8,26).

 

4.15 Não era só entusiasmo o que se via ao redor de Jesus. Logo aparecem suspeitas, desconfianças, calúnias, conflitos, ameaças, perseguições (Mc 1,24; 2,6-7.16.18.24; 3,2.6.21.22; 5,17; 6,1-6; 7,1-13). Os chefes do povo, os sumos sacerdotes, os escribas, os fariseus, os doutores da Lei o observavam continuamente (Mc 2,6.24; 3,2) para tentá-lo (Mc 8,11; 10,2 ), para desmoralizá-lo e para armar ciladas perigosas contra Ele (Mc 12,13). Desde o começo de sua atividade pública queriam matá-lo (Mc 3,6), mas tinham medo da multidão (Mc 12,12) Essa situação de recusa e perseguição vai se agravando até provocar, mais adiante, a morte de Jesus.

 

4.16 Também entre os discípulos criam-se desentendimentos, como em Marcos 1,36-38; 6,52, o que acaba por originar uma crise. Parece que eles não têm mais o entusiasmo e a convicção de antes. Não estão enxergando mais o futuro. Por trás das parábolas do capítulo 4 percebe-se toda essa situação crítica, gerando a perda da confiança e o medo (Mc 4,38). Jesus estava se tornando um simples fantasma para eles (Mc 6,49).

 

4.17 Por que essas dúvidas a respeito de Jesus? Ele mesmo aponta a causa em Marcos 8,14-21. Os discípulos ainda não tinham rompido com a ideologia dominante, bem expressa nas atitudes dos fariseus e de Herodes. O mundo de Jesus ainda não tinha entrado no mundo dos discípulos. É um momento muito crítico e decisivo.

 

5- Segunda Parte (Mc 8,27-16,20) O que significa ser discípulo/discípula de Jesus?

 

5.1 No evangelho de Marcos, os discípulos são o xodó de Jesus. A palavra discípulo aparece 46 vezes e o verbo seguir, 18 vezes.

 

5.2 A primeira coisa que Jesus faz é chamar discípulos (1,16-20), e a última que faz é chamar discípulos (16,7.15). Ele os leva consigo, do começo ao fim, em todo canto, e chega a dizer: “Eles são meus irmãos, minhas irmãs, minha mãe” (3,34). Quando não entendem algo, eles perguntam e Jesus, em casa, explica tudo dizendo: “A vocês é dado o mistério do Reino, mas aos de fora tudo acontece em parábolas” (4,11; 4,34). Os redatores do Evangelho conservaram isso no texto final para que os membros das comunidades soubessem e sentissem que, apesar dos muitos problemas, eles eram o xodó de Jesus.

 

5.3 Mas não é só isto. A maneira de Jesus falar dos discípulos causa uma certa estranheza. No começo, os discípulos parecem um grupo privilegiado, uma comunidade modelo. Mas, quase que de repente, tudo desanda. A gente fica impressionado quando olha de perto o comportamento deles. Eles, a quem tinha sido dado o mistério do Reino, começam a dar sinais de não entenderem mais nada e de serem tudo menos discípulos de Jesus. Vejamos esses exemplos:

 

  • Não compreendem as parábolas (4,13; 7,18).
  • Não têm fé em Jesus (4,40).
  • Jesus estava se tornando um simples fantasma para eles (Mc 6,49).
  • Não entendem a multiplicação dos pães (6,52; 8,20-21).
  • Não sabem quem é Jesus, apesar de conviver com ele (4,41).
  • Antes conseguiam expulsar os demônios (6,13), mas agora já não conseguem mais (9,18).
  • Brigam entre si pelo poder (9,34; 10,35-36.41).
  • Querem ter o monopólio de Jesus, pois acham que são os donos (9,38).
  • Levam susto quando Jesus fala da Cruz (8,32; 9,32; 10,32-34).
  • Desviam Jesus do caminho do Pai (8,32).
  • Afastam as crianças (10,13).
  • Judas resolve traí-lo (14, 10.44).
  • Pedro chega a negá-lo (14,71-72).
  • Na hora em que Jesus mais precisa deles, eles dormem (14, 37.40).
  • E no fim, no momento da prisão, todos fogem e Jesus fica só (14,50).

 

5.4 O que será que os redatores queriam dizer às comunidades conservando esta lista tão impressionante de defeitos dos discípulos? Será que era somente para criticá-los? Será?

 

5.5 Quem vê de longe um carro fazendo muita curva na estrada pode concluir: “Deve ter muito buraco naquela estrada”. Ou: “Estrada perigosa! Tanta curva!” Mas não era nada disso. Aquele motorista balançava o carro, porque queria acordar o companheiro que dormia no banco traseiro! Assim é com o evangelho de Marcos. Eles estavam querendo acordar o pessoal das comunidades. Estavam colocando um espelho na frente deles. Por isso insistiam tanto nos defeitos dos primeiros discípulos! Era para que as comunidades tomassem consciência dos seus defeitos e se convertessem. E não só! Era, sobretudo, para que não desanimassem diante dos seus defeitos e diante das muitas dificuldades.

 

5.6 O próprio Jesus, para esclarecer de vez a situação crítica, toma a iniciativa. Faz um retiro com os seus discípulos e se revela (Mc 8,27-33). Jesus é o Messias, mas um Messias diferente daquele que pensavam e esperavam. É um Messias na linha do servo sofredor.

 

5.7 Há uma longa caminhada de Jesus rumo a Jerusalém (Mc 8,31-10,52). Os discípulos o seguem. Não é somente uma caminhada física, mas uma verdadeira escola de discipulado. Jesus vai formando seus discípulos a partir de fatos e situações bem concretas. É, sobretudo nesta caminhada que podemos compreender o que significa ser discípulo(a) de Jesus e quais as exigências para segui-lo.

 

5.8 Ser discípulos de Jesus e assumir a cruz são coisas inseparáveis (Mc 8,31). Jesus vai trabalhando essa mensagem principal ao longo de toda a caminhada. Seguir Jesus passa necessariamente pelo caminho da cruz. A cruz é conseqüência da fidelidade a Jesus. Os discípulos custaram muitos a entender tudo isso.

 

5.9 Chegando a Jerusalém (Mc 11,1) Jesus entra em choque frontal com as autoridades, numa ruptura definitiva, sem retorno. Ele enfrenta e desmascara todo um sistema de mentira e hipocrisia (Mc 11,1-13.37).

 

5.10 Com essa postura, é de se prever o desfecho: sua morte (Mc 14,1-15.47). Aos pés da cruz, logo após a morte de Jesus, um oficial do exército romano faz publicamente a mais importante profissão de fé: “Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). Em Marcos 8,29 a profissão de fé acontecera entre os discípulos, e Jesus havia proibido qualquer comentário a respeito. Agora a profissão de fé é pública e no momento que parecia de maior derrota. As comunidades de Marcos reafirmam com todo vigor essa fé e a colocam logo no início do livro (Mc 1,1).

 

5.11 A morte não é a última palavra. Jesus de Nazaré, o crucificado, ressuscitou! Ele está vivo! A caminhada vai continuar, recomeçando na Galiléia (Mc 16,1-20). O que houve até agora foi só o começo. Continuando no mesmo rumo outras boas notícias virão.

 

 

6 – COMO VIVIAM EM ROMA AS COMUNIDADES DE MARCOS

 

6.1 As comunidades de Marcos estão localizadas em Roma e suas redondezas. Roma a capital do Império, era a maior potência mundial da época. O luxo e a riqueza eram tão visíveis, que muitos chegavam a chamar essa época de “época de ouro”, abençoada pelos deuses. Os beneficiados do sistema, uns poucos em torno de 200.000 pessoas os quais não chegavam a ser um por cento da população do Império chegavam a exclamar: “Nunca houve tanto esplendor na história da humanidade. Feliz quem nasceu nesta época! Era vontade dos deuses que os romanos dominassem o mundo. Viva o Império romano que garante a paz, a segurança e todas essas riquezas!”

 

6.2 Os romanos conseguiram construir esse império graças a um exército forte, poderoso, bem treinado, bem equipado e dirigido por generais espertos na arte da guerra. O exército possuía 400.000 soldados divididos em legiões (Mc 5,9). Cada legião contava com 6.000 soldados espalhados pelos pontos mais estratégicos do Império, inclusive ao norte da Galiléia, terra de origem de Jesus.

 

6.4 O exército tornava-se implacável quando ocorriam revoltas. Acabava com qualquer resistência, prendia e matava os chefes revoltosos, após terem desfilado nas ruas como prisioneiros, atrás do general romano vitorioso. As capitais dos povos rebeldes eram destruídas e ainda jogavam por cima sal, para impedir qualquer sinal de vida.

 

6.5 O Império foi se expandindo cada vez mais, porque necessitava continuamente de recursos, em dinheiro e mantimentos, para o sustento do exército, da enorme quantidade de empregados e do luxo das nobres famílias romanas. Roma, a capital, com um milhão de habitantes, dependia quase que totalmente de impostos altos, de pedágios que se cobrava, provocando assim o empobrecimento das massas.

 

6.6 Outro motivo da expansão do Império era a necessidade de muita mão-de-obra barata, para fazer frente às grandes construções públicas e privadas, como pontes, estradas, aquedutos, praças, monumentos, palácios, quartéis militares, casas luxuosas. Precisava-se também de mão-de-obra para trabalhar nas minas, nos latifúndios, na construção de navios, e para servir, às centenas, como remadores em navios de guerra ou transporte comercial.

 

6.7 Por isso o Império romano adotou também a lei da escravidão. Muitos povos foram conquistados, sobretudo os mais rebeldes, para se tornarem escravos do Império. O Império precisava de escravos para sobreviver. Somente em Roma cerca da metade dos habitantes eram escravos.

 

6.8 O Império romano respeita bastante os costumes de outros povos, contanto que pagassem impostos pesados e não provocassem rebeliões. Nesse caso, a repressão era violenta e implacável. Vamos citar alguns exemplos.

 

6.9 No ano 66 da nossa era em Alexandria do Egito houve uma rebelião de judeus. O representante do Império mandou massacrar milhares deles. No mesmo ano, no mês de julho, em outra parte do Império, na Palestina, terra de Jesus, o governador romano mandou crucificar dezenas de judeus nas redondezas de Jerusalém. Os judeus se revoltaram e, liderados pelo movimento guerrilheiro dos zelotes, conseguiram expulsar os romanos. A reação do Império romano não demorou. Mais de 60.000 soldados do Império cercaram a cidade. Foi um assédio duro e sangrento, que durou 4 anos. No fim, a cidade caiu nas mãos dos romanos. Foi uma destruição total e violenta.

 

6.10 O exército tem tudo sob controle e chamava isso de paz romana, que é uma paz baseada na repressão, nas divisões e nas desigualdades. Essa paz romana, do ponto de vista dos pobres, era uma grande mentira. Entender essas mentiras não foi fácil para os discípulos de Jesus (Mc 8,15-21), como também nem todos os das comunidades de Marcos entendiam. As mentiras eram muito bem contadas.

 

6.11 No ano 54 Nero subiu ao trono. Ele foi um imperador vaidoso, agressivo, prepotente e sanguinário. Para não perder o poder, chegou a matar a própria mãe, um irmão e a esposa. Com a cumplicidade de Pompéia, sua segunda mulher, instaurou o reinado do terror e do medo, massacrando todos os suspeitos que não simpatizavam com ele ou com seus métodos de governo. Foram anos de ditadura terrível. Também as comunidades cristas foram atingidas pela fúria sanguinária do ditador. Muitos morreram assassinados.

 

6.12 Em 64 Nero, querendo se desculpar de seus vários crimes, entre os quais um grande incêndio provocado por ele em um bairro populoso declarou perseguição aberta aos cristãos. Foram momentos muito duros. Ser discípulo de Jesus Cristo significava ser candidato ao martírio. Nessa época, em Roma, eram cerca de 5.000 os cristãos, organizados em muitas pequenas comunidades. Dezenas foram torturados e mortos. Entre eles, apóstolo Pedro.

 

6.13 No ano 68 Nero suicidou-se. Houve muita anarquia em Roma. As brigas violentas e sangrentas entre os que lutavam pelo poder provocaram abusos, vinganças, fome, miséria, abandono, insegurança, traições, medo. Os cristãos viviam continuamente sob suspeitas. A qualquer agitação que acontecia, eram sempre os acusados. Muitos estavam preocupados e com dúvidas sobre o futuro da caminhada. Não era nada fácil saber esperar, lutar e resistir em tempos de escuridão.

 

6.14 Além disso, por volta do ano 70, as noticias que chegavam de Jerusalém preocupavam muito os cristão que estavam em Roma. O general Tito, com os seus soldados conseguiram dobrar a corajosa resistência dos judeus e entrou vitorioso em Jerusalém. A vingança foi terrível. Saqueou tudo o que podia, arrasou a cidade, mandou matar milhares de pessoas. Os sobreviventes foram vendidos como escravos. Setecentos jovens combatentes, escolhidos entre os mais fortes, foram trazidos a Roma para participar, como vencidos, no desfile em honra a Tito, o general vitorioso. Depois do desfile, foram mortos ou vendidos como escravos.

 

6.15 Em Roma havia generais e famílias nobres que dominavam tudo. Por um motivo ou outro todos estavam ligados à corte imperial. Muitos eram verdadeiros tiranos e exploradores do povo. Do outro lado, havia uma grande massa de pobres, escravos, dependentes, obrigados a viver na dura submissão. Constantemente essa situação era debatida nas reuniões das comunidades cristãs: qual deveria ser a atitude, o comportamento da comunidade diante disso?

 

6.16 As respostas eram buscadas na vida de Jesus. Os que O conheceram de perto, contavam que Jesus nunca simpatizou com os dominadores do povo. Nunca se deixou enganar ou manipular pela conversa deles. Nunca sentou em seus banquetes, onde, entre comidas sofisticadas e conchavos maldosos, se decidiam à repressão e a morte das lideranças populares mais corajosas (Mc 6,17-29).

 

6.17 Jesus nunca foi aos palácios dos ditadores. A única vez que entrou num deles, foi conduzido à força, para ser julgado e condenado covardemente (Mc 15,1-3). Nunca Jesus fez alianças com Herodes, com Pilatos, com os doutores da Lei ou com os sumos sacerdotes. Pelo contrário, sempre foi muito duro com eles (Mc 12,38-40). Certa vez os acusou claramente de abuso de poder (Mc 10,42) e apontou-lhes o verdadeiro sentido do poder: servir e não dominar. Servir em favor da vida e da liberdade do povo. Convidava seus discípulos a seguir esse mesmo caminho (Mc 10,42-45).

 

6.18 Essas palavras de Jesus, confirmadas pela sua própria prática, motivaram muito os cristãos a não compactuar com nenhum tipo de poder opressor; mais ainda: a aprender a viver na comunidade o verdadeiro poder-serviço. De fato, também na comunidade havia o perigo de cair na tentação do poder que domina. Aliás, esse perigo também esteve presente entre os discípulos de Jesus e Ele, foi muito claro e exigente.

 

 6.19 Na medida em que as comunidades procuravam serem fiéis a Jesus Cristo, as incompreensões e as perseguições iam crescendo. Estava mais do que evidente que era impossível seguir Jesus sem correr o perigo de perseguições. Que fazer diante disso? Fugir? Fazer acordos? Resistir arriscando a vida? Expulsar das comunidades os que não eram firmes?

 

6.20 Interessava-lhes conhecer a prática de Jesus a esse respeito. Nas celebrações, sempre faziam a memória de Jesus, que com coragem soube enfrentar situações difíceis, sem medo das perseguições, Jesus desde o começo (Mc 3,6) sofreu ameaças e perseguições. Os chefes dos judeus sempre o perseguiram (Mc 12,12; 14,1-2). Nas horas mais difíceis, lembravam a firmeza de Jesus ao enfrentar os chefes do povo (Mc 11,27-33). Ao mesmo tempo nunca maltratou nem expulsou os que o abandonaram ou traíram (Mc 14,50-52; 66-72). Sempre teve grande compreensão com a fragilidade dos seus discípulos. Oferecia oportunidades para que as pessoas se recuperassem.

 

6.2 Em Roma e nos arredores havia algumas famílias ricas ligadas ao poder e ao latifúndio e que viviam se banqueteando em seus palácios e jardins, enquanto multidões famintas viviam pelas ruas, pelos mercados, pedindo esmola. Também os membros das comunidades viviam nessas situações dramáticas. Tudo isso era para eles um verdadeiro insulto. Nas comunidades, sobretudo quando celebravam a santa Eucaristia, lembravam estas situações duras; rezavam e buscavam pistas de ação. Nestas ocasiões, o acontecimento que mais marcava da vida de Jesus era a multiplicação dos pães (Mc 6,30-44 e 8,1-10).

 

6.22 Enquanto Herodes com seus chefes militares, com os grandes comerciantes e latifundiários da Galiléia, viviam banqueteando-se em seu palácio, decidindo quem deveria viver ou morrer (Mc 6,14-29), Jesus vivia em meio ao povo faminto. O povo vivia como ovelhas sem pastor, abandonado e esquecido; os que deviam ser pastores do povo tornavam-se carrascos e estavam, na casa de Herodes, esbanjando e humilhando. Jesus tinha grande compaixão e ficava junto ao povo, conscientizando, animando, agindo, mostrando novos caminhos e alertando (Mc 6,34).

 

6.23 Foi numa dessas ocasiões que Jesus realizou a multiplicação dos pães, o milagre da partilha e da solidariedade. A multiplicação aconteceu em um lugar aberto a todos, com muita gente necessitada, e não em um lugar fechado, com uns poucos privilegiados, como eram os banquetes de Herodes, em seu palácio cercado por muros e pela polícia.

 

6.24 A comunidade de Marcos via na ação de Jesus uma denúncia corajosa contra a acumulação, contra um sistema que provocava a fome do povo. Via também uma lição importante de quanto o povo pode resolver seus graves problemas, na base da partilha e do mutirão, mesmo tendo poucos recursos (Mc 6,35-44).

6.25 Os discípulos de Jesus custaram a entender aquilo, porque ainda tinham os pensamentos presos à ideologia e ao sistema do lucro e da acumulação (Mc 6,52). Foi preciso que Jesus chamasse duramente sua atenção, quando disse: “Cuidado! Guardai-vos do fermento dos fariseus e do de Herodes… Ainda não atinais e não compreendeis?” (Mc 8,14-21). Fermento bom ajuda a assar bem o pão. Fermento ruim só faz estragá-lo. A ideologia de Herodes e dos fariseus era como um fermento ruim, muito perigoso e devastador.

 

6.26 O exemplo de Jesus dava muita força à vida de partilha que procuravam praticar nas comunidades e com o povo mais pobre. Enquanto uma minoria esbanjava e estragava alimentos, mais de 200.000 pessoas, apenas em Roma, viviam em estado de fome permanente. Para evitar revoltas, o Império distribuía comida de graça, colocando assim o povo em uma situação de permanente dependência e marginalização.

 

6.27 Realmente, se não se segue esse ensinamento de Jesus, o próprio Jesus se tomava uma espécie de fantasma (Mc 6,49). Sem a prática da partilha e sem a denúncia contra um sistema perverso, reduziam Jesus a mero fantasma. Esse perigo estava presente também nas comunidades Romanas

 

6.28 Roma era uma cidade grande, com gente de todas as raças e religiões. De seu um milhão de habitantes, cerca de 40.000 pertencia à religião judaica. Os cristãos, na época da redação do livro, eram cerca de 5.000. Vários judeus mantinham um certo desprezo pelas outras religiões, vários cristãos vindas do judaísmo mostravam o mesmo desprezo. Havia bloqueios e preconceitos além do perigo do fecharmos aos pagãos ou de tratar os que se convertiam ao cristianismo como cristãos de segunda categoria. Que fazer? Ficar só com os judeus? Exigir coisas demais com os que vinham do paganismo? Deixar de levar a Boa Notícia de Jesus ao mundo pagão (Mc 4,35)?

 

6.29 Como sempre, a memória viva de Jesus abria caminhos. Alguns lembravam que começou e desenvolveu o trabalho de evangelização na Galiléia (Mc 1, 14), terra considerada pagã e desprezada desde os tempos antigos (Is 8,23). Jesus fez questão de visitar regiões tipicamente pagãs, como as de Gerasa (Mc 5,1), Tiro (Mc 7,24), Sídon, da Decápole (Mc 7,31) ou de Dalmanuta (Mc 8,10). E lá ele fez milagres, expulsando demônios (Mc 5,1-20), curando a filha de uma mulher pagã (Mc 7,24-30), um surdo que falava com dificuldade (Mc 7,31-37) e multiplicando a comida (Mc 8,1-10), exatamente como vinha fazendo em regiões habitadas por judeus. Foi em terras pagãs que Jesus se revelou publicamente e claramente como o Messias, o Filho de Deus (Mc 8,27-30).

 

6.30 Por que então não continuar essa mesma abertura nas comunidades? Por que criar bloqueios ou preconceitos? O exemplo de Jesus os ajudou a superar grandes dificuldades. O apóstolo Paulo, quando vivo, alertou e esclareceu o assunto enviando-lhes uma carta com firmeza e clareza. Diante de Deus, escreveu Paulo, nenhum povo é privilegiado, já que todos, judeus e gentios, somos pecadores (Rm 3,1-20); e somente o Evangelho de Jesus é à força de Deus para a salvação de todos (Rm 1,16-17).

 

6.31 Ficar somente com os judeus era um perigo e isso estava ocorrendo nas comunidades de Marcos. Era um perigo grave, porque impedia o diálogo com os outros, via-se tudo em função do próprio grupo e reduz o cristianismo a uma espécie de seita. Se não fosse o exemplo de Jesus (Mc 9,38-40) e a coragem de Paulo (Gl 1,6-10) em denunciar e desmascarar esse perigo quando provavelmente as comunidades teriam se tornado grupos fechados, sem futuro e sem credibilidade.

 

6.32 A situação em Roma estava difícil para os pobres e os sem-voz, que tudo parecia dominado pelas forças do mal. Ódios, divisões, vinganças, brigas sangrentas pelo poder, violências tomavam conta dos palácios e das praças. O demônio parecia estar solto em Roma. Aliás, o Império romano parecia o império do demônio, que oprimia e escravizava, que reduzia tudo a mercadoria, inclusive povos e pessoas. Como se posicionar diante dessas forças do mal? Como agir? Esse demônio que era o Império estava também perseguindo as comunidades: como desmascarar tanta maldade?

 

6.33 Mais uma vez, a referência à vida e à prática de Jesus tirava dúvidas e clareava o caminho. É impressionante ver como Jesus enfrentou tantos demônios e espíritos impuros. O demônio estava solto até nas sinagogas (Mc 1,21-28). Jesus nunca se calara diante dos demônios. Pelo contrário, expulsava-os de qualquer jeito (Mc 1,32-34; 5,6-10; 7,29-30; 9,25-27).

 

6.34 Na luta contra satanás, Jesus sempre foi firme e vitorioso, (Mc 1,13). Satanás estava dentro até de seus discípulos: ele chamou, por exemplo, Pedro de satanás (Mc 8,33).  Quando Jesus escolheu os primeiros discípulos e os enviou em missão, pediu a eles expressamente que expulsassem demônios (Mc 3,15; 6,7-13). Quer dizer, não há missão verdadeira sem essa luta contra os demônios.

 

6.35 Jesus via os demônios como as forças misteriosas do mal, que dominavam e impediam as pessoas de serem livres. Onde há opressão, dominação, divisão, falta de liberdade e relacionamento fraterno, aí há sinais claros da presença do demônio. Expulsar demônios para os membros da comunidade de Marcos era a mesma coisa que lutar contra todo tipo de dominação. Quando Jesus expulsou o espírito impuro -cujo nome era Legião -daquele pobre coitado que vivia entre túmulos na região de Gerasa, a referência ao Império romano era mais do que clara (Mc 5,1-20). De fato, legião é o nome da mais importante divisão do exército romano.

 

6.36 A luta e a vitória de Jesus contra os demônios eram sinais evidentes de que o Reino de Deus ia avançando (Mc 3,22-30). Não enxergar isso significava um fechamento muito grave, uma recusa de Jesus. E isso é pecado contra o Espírito Santo, que nem Deus pode perdoar, não porque Deus não quer, mas porque os interessados, muito orgulhosos e fechados, não querem (Mc 3,28-30).

 

6.37 Outra vez Jesus declarou abertamente aos seus discípulos que a luta contra os demônios é possível somente por meio de uma profunda intimidade com a vontade do Pai (Mc 9,28-29). Em outras palavras, a luta contra o mal não é um poder que se compra e se usa em proveito próprio, mas sim fruto de uma comunhão profunda com o Pai e com o seu projeto de vida e liberdade para todos: o resto é pura mentira e enganação.

 

6.38 Alem de tudo isso os que pediam para entrar nas comunidades, mesmo com conversão sincera, traziam para dentro os sistemas, leis e costumes de fora. A conversão não se dá da noite para o dia: é fruto de um processo permanente.

 

6.39 A arrogância, o poder e a prepotência das forças do mal pareciam querer esmagar as comunidades e a resistência dos pobres e dos sem-poder. Os cristãos eram minoria absoluta, sem poder, sem proteção, sem defesa. Quando a repressão do Império começou agredir as comunidades, muitos se perguntavam: “Será que nossa caminhada tem futuro? Será que vamos sobreviver? Será que Jesus esqueceu de nós? Que foi feito de suas promessas?” Às vezes, as comunidades davam a impressão de serem como um barquinho entregue à fúria devastadora de um mar em tempestade. Muitos andavam desanimados e perdidos.

 

6.40 Como fazia bem lembrar, nos momentos difíceis, o que Pedro, Marcos e outros discípulos lhes contavam! Como aquela travessia de barco no mar da Galiléia (Mc 4,35-41). No barco estavam Jesus e alguns discípulos. Jesus, cansado, começou a dormir. De repente, levantou-se uma tempestade tão forte que o barco corria perigo de afundar. E Jesus dormindo tranqüilamente. Foi preciso acordá-lo e pedir a sua ajuda. Jesus se levantou, mandou a tempestade se acalmar e depois censurou o medo e a pouca fé dos discípulos. Somente muito tempo depois, nos momentos das perseguições, foram entender o sentido daquele fato e daquelas palavras de Jesus.

 

6.41 Os cristãos de Roma também entenderam aquilo a partir da realidade dura que estavam enfrentando. O mar, para os de origem judaica, significa todo tipo de mal, e o grande mal era as forças dominadoras do Império romano. As comunidades pareciam aquele barquinho entregue à fúria do mal, sem futuro pela frente.

 

6.42 A presença viva de Jesus nas comunidades e celebrações e a comunhão com ele eram para as comunidades uma força inabalável, que lhes dava segurança e firmeza. Sim, Jesus é mais forte que as forças do mal (Mc 1,7; 3,27)!

 

6.43 Sobre esse mesmo assunto, alguns lembraram aquela parábola em que Jesus comparou o Reino de Deus a um lavrador que plantou a semente e depois foi para casa tranqüilo. A semente brotou e cresceu sem precisar da presença contínua do lavrador no campo, de dia e de noite (Mc 4,26-29). Quer dizer, Jesus convidava-nos a semear o Reino e a ficar tranqüilos, porque haveria futuro.

 

6.45 Outros lembravam a parábola da semente pequenina plantada perto de casa, para produzir tempero para a comida. Com o tempo ela se torna árvore grande, capaz de abrigar muitos ninhos de passarinhos (Mc 4,30-32). Lembravam ainda a parábola do lavrador que foi semeando em todo lugar possível, até entre as pedras e espinhos, na esperança de que a semente brotasse e desse frutos em algum lugar (Mc 4,1-9). Assim é com o Reino de Deus. Vale a pena jogar as sementes do Reino aonde for possível, sem descanso. Alguma coisa boa irá acontecer, com certeza.

 

6.46 Todas essas bonitas comparações feitas por Jesus chegaram na hora certa. Era a Palavra de Deus convidando a não ficarem angustiados e a continuar firmes na caminhada da construção do Reino, apesar de tantas dificuldades.

 

6.47 De fato, o Reino vai crescer e as comunidades também, na medida em que buscam ser fiéis ao projeto do Pai, pois Deus garante. E esse Reino vai abrigar, defender e proteger a vida de muita gente. Nenhuma força do mal, nenhum Império iria impedir a caminhada do Evangelho de Jesus.

 

6.48 A perseguição vinha atingindo sobretudo as lideranças das comunidades. Vários líderes haviam sido mortos, como Pedro e Paulo. O seu testemunho foi de grande estímulo. Muitos, porém ficavam abalados e perguntavam quem iria substituí-los? Quem teria essa coragem? Quem poderia ser igual a eles?

 

6.49 No fundo, havia um certo receio em assumir serviços de liderança, porque era muito arriscado. Que fazer? Sem desmerecer essas corajosas testemunhas, alguém lembrava que eles também não foram super-homens. Tiveram suas fragilidades. Pedro, por exemplo, foi chamado por Jesus de Satanás, porque, estava querendo desviar Jesus da fidelidade ao Pai e à missão (Mc 8,33).

 

6.50 Outras vezes lembravam aquela sofrida noite no Getsêmani. Jesus estava vigiando e rezando, mas nenhum dos discípulos soube estar perto dele em momentos tão duros e decisivos, para vigiar e consolar (Mc 14,37). Pior ainda: na hora da prisão, todos fugiram (Mc 14,50). Durante o processo, Pedro chegou a renegar ser discípulo de Jesus (Mc 14,66-72).

 

6.51 Essas fragilidades os tornavam mais compreensivos com as fragilidades dos irmãos de comunidade. Ao mesmo tempo convidavam a assumir os serviços de liderança com humildade e decisão. Tudo era luz e chamado importante.

 

6.52 Outro assunto que às vezes criava tensão era a presença de mulheres em serviços importantes de liderança nas comunidades. Tanto no ambiente judaico como nos dos gentios, a mulher tinha menos valor. Ela devia cuidar mais da criação dos filhos ou atender aos caprichos do marido. Sua voz não era ouvida na hora das grandes decisões. Em família, o único chefe era o marido e lá fora ela nem podia servir de testemunha.

 

6.53 O contrário acontecia nas comunidades, graças à novidade do Evangelho de Jesus. Havia mulheres corajosas e firmes assumindo cada vez mais serviços importantes. Havia até mulheres chamadas de apóstolas, ou seja, que se igualavam aos apóstolos, como Júnia (Rrn 16,7). Recebíamos visitas de mulheres com tarefas importantes, enviadas pelas próprias comunidades, como Febe, da comunidade de Cencréia, lugar perto de Corinto, na Grécia (Rrn 16,1).

 

6.54 Porém, nem todos aceitavam isso pacificamente. Houve fortes discussões. Esse mesmo preconceito existia também em outras comunidades, como na comunidade de Corinto (1Cor 11,2-17). Afinal, era uma mudança muito grande. A mentalidade dominante condicionava muito. Uns achavam que mulher dentro da comunidade devia ser tratada como lá fora na sociedade. Nada, portanto de serviços importantes para elas. Tudo isso gerava às vezes bastante tensão.

 

6.55 As mulheres das comunidades defendiam, com firmeza, relações igualitárias. Como sempre, a última palavra era a de Jesus. Sua pessoa e sua prática eram uma referência constante. E Jesus sempre deu muita atenção e valor à dignidade das mulheres. De fato, Jesus curou a sogra de Pedro (Mc 1,29-31). Curou ainda outra mulher, humilhada e tachada de impura por causa de sua doença (Mc 5,23-34). Essas curas não somente devolviam saúde física, mas também resgatavam a dignidade roubada e perdida. Certa vez, Jesus chegou a ponto de se deixar questionar pela firmeza de uma mulher pagã (Mc 7,24-30), fato inadmissível para a mentalidade machista dos judeus. Outra vez, Jesus valorizou publicamente a oferta de uma viúva pobre, desmascarando ao mesmo tempo a avareza dos ricos e dos chefes do Templo (Mc 12,41-44). Jesus apontou aquela mulher, viúva e pobre, como exemplo de fé verdadeira, exatamente lá no Templo, onde as mulheres viviam marginalizadas. Para os judeus isso foi demais.

 

6.56 Os que conheceram mais de perto a pessoa de Jesus sempre contavam que houve um grupo de mulheres que se tornaram suas discípulas desde o começo e o seguiam em suas viagens missionárias. Elas faziam parte do movimento de Jesus, abraçando e servindo ao mesmo sonho de Jesus, como os outros apóstolos. No momento mais difícil da vida de Jesus -a condenação, paixão, crucificação e agonia -, somente elas tiveram a coragem de acompanhá-lo bem de perto, com fidelidade e muito amor (Mc 15,40-41). E foram ainda as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus (Mc 16,1-11). Entre elas estava Maria Madalena, uma mulher curada e resgatada por Jesus.

 

6.57 Essa presença corajosa e preciosa de mulheres seguidoras e discípulas de Jesus foi apontada como modelos a quem deseja seguir Jesus; seguiram-no sem medo até Jerusalém, lugar de oposição ferrenha a Jesus (Mc 15,40-41).

 

6.58 Esses fatos eram o argumento mais válido para derrubar preconceitos e autoritarismos em relação aos serviços de liderança das mulheres nas comunidades. Mas não foi fácil.

 

6.59 Um dos maiores perigos é querer adaptar a novidade de Jesus aos esquemas antigos. Então entenderam a postura clara e decidida de Jesus, quando disse: “Ninguém costura um remendo de pano cru numa roupa velha; senão o pedaço acrescentado, que é novo, repuxa a roupa, que é velha, e o rasgão aumenta” (Mc 2,21). Era preciso romper com certas leis e estruturas velhas para que o novo possa nascer, desabrochar e crescer com vigor.

 

7- COMO FOI QUE SURGIU O EVANGELHO

 

7.1. O livro não nasceu de repente, foi nascendo aos poucos, a partir das situações concretas vividas pelas comunidades. A realidade, os conflitos, as esperanças e alegrias bem como, as dúvidas e desafios foram provocando preciosas reflexões. Tudo era visto à luz da pessoa e da prática de Jesus, o Cristo. A memória de Jesus era atualizada nas situações concretas do dia-a-dia. O que se queria não era tanto tomar ao pé da letra tudo o que Jesus fez e disse. Nem teria sido possível, porque certas situações e contextos que viviam não eram idênticos aos que Jesus viveu. O que os interessavam mesmo era ter os mesmos sentimentos, convicções e opções que havia em Jesus, como sempre os lembrava o apóstolo Paulo quando ainda estava entre eles e como ele próprio escreveu em uma preciosa carta que chegou ao nosso conhecimento (FI 2,5).

 

7.2 Tudo começou assim: na Galiléia, após a ressurreição de Jesus, quando se formaram os primeiros grupos, a memória de Jesus era simplesmente vivida e contada por aqueles que o conheceram mais de perto, não havia necessidade de escrever, pois os grupos eram poucos e pequenos, mas mesmo assim alguns pequenos textos foram escritos sobre a paixão e a morte de Jesus.

 

7.3. Quando alguns cristãos mudaram para Roma e iniciaram as comunidades, as coisas foram mudando. A distância da Galiléia, terra de Jesus, era grande; o número de comunidades ia crescendo e os que conheceram mais de perto Jesus iam diminuindo, morrendo aos poucos. No entanto o desejo de conhecer a Jesus crescia cada vez mais

 

7.4 Foi assim que surgiu a necessidade de escrever o que mais lhes interessavam sobre a vida de Jesus. Assim começaram a aparecer alguns pequenos escritos sobre certos aspectos da vida e da prática de Jesus, que circulavam nas várias comunidades, onde eram lidos, meditados e rezados durante as celebrações.

 

7.5 . O interesse era muito grande e os benefícios também. Realmente, a memória de Jesus empolgava, atraía, gerava grandes convicções e despertavam novas energias. A leitura da memória de Jesus quase sempre desembocava na Eucaristia, que para os cristãos era o sentir e o viver a presença viva de Jesus. Continuavam a celebrar com o maior carinho esse grande e bonito mistério da presença de Jesus, como ele mesmo fez com seus primeiros discípulos (Mc 14,22-24).

 

7.6 Com o passar do tempo, os grupos que se reuniam nas casas foram crescendo; e as dificuldades também. Panfletos e folhetos se multiplicaram. Nas reuniões das comunidades as pessoas faziam perguntas sobre a vida de Jesus. Os que mais sabiam respondiam. Depois, conforme as sugestões, era passado por escrito o mais importante. Havia uma grande preocupação de fidelidade ao que Jesus realmente havia dito e feito. Daí a importância da presença de pessoas que o conheceram mais de perto, como Pedro, Marcos e outros discípulos. Eles, além de dar preciosos depoimentos, serviam de confirmação sobre o que se dizia a respeito de Jesus.

 

7.7. Pouco a pouco foram se juntando outros folhetos e assim foram nascendo pequenas apostilas: uma sobre os ditos de Jesus, outra sobre as curas de Jesus, outra sobre as parábolas, outra ainda sobre os milagres, outras sobre a paixão-morte-ressurreição de Jesus. Essas apostilas eram guardadas com o maior carinho e eram tratadas como a Palavra de Deus, luz e força para o caminho. Eis alguns exemplos:

 

7.8 Os primeiros membros das comunidades eram todos de origem judaica. Quando começaram a entrar pessoas vindas de outras religiões ou sem religião, surgiram problemas sérios. Os, de origem judaica, queriam que todos praticassem -inclusive os que tinham vindo do paganismo -certas tradições e costumes típicos da religião judaica, gerando muitos debates.

 

7.9 Que fazer? Alguém lembrou que Jesus enfrentou situações parecidas com os fariseus e doutores da Lei. E foi muito duro com eles, chegando a dizer: “Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, pois está escrito: este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim… Abandonais o mandamento de Deus e vos apegais à tradição dos homens… assim anulais a Palavra de Deus com a tradição que vós transmitis. E fazeis muitas coisas deste gênero” (Mc 7,6-13). As palavras de Jesus os ajudavam a superar impasses e a libertar de leis e tradições que obstruíam o caminho! Por isso fizeram questão de colocar isso no livro.

 

7.10 Em Roma, graças à insensibilidade das autoridades, faltavam, com uma certa freqüência, alimentos para o povo. Às vezes os alimentos ficavam armazenados ou eram desviados. O povo, instigado pela fome, saqueava os armazéns públicos e mercados, dando lugar a muita repressão. Alguns membros das comunidades envolviam-se nos saques, outros estavam contra. Que fazer? Como tirar as dúvidas?

 

7.11 Mais uma vez, alguém lembrou a atitude de Jesus quando apoiou seus discípulos colhendo espigas em um campo de trigo, em dia de sábado, para matar a fome. Jesus defendeu seus discípulos da acusação dos fariseus, dizendo com clareza que a vida das pessoas deve sempre estar em primeiro lugar. É muito mais importante matar a fome do povo do que ficar defendendo leis que dificultam ou são contra exterminar a fome (Mc 2,27).

 

7.12 Sempre apareciam jovens pagãos pedindo para entrar nas comunidades, pois a figura de Jesus empolgava e atrai. Porém, vários pais destes jovens eram contra sua atitude, não queriam que seus filhos se tornassem discípulos de Jesus Cristo. Achavam as comunidades muito esquisitas, com celebrações estranhas. Outros até gostavam, mas não queriam se envolver, por causa das incompreensões e perseguições que sempre pairavam sobre os cristãos. Diante disso, que fazer? Que dizer? Aí alguém lembrou as famosas palavras de Jesus: “Quem são minha mãe e meus irmãos? Todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã, minha mãe” (Mc 3,33.35).

 

7.13 Jesus assim vinha apresentando um novo tipo de parentesco, novos laços bem mais fortes que os de sangue: os laços da vontade do Pai. Aliás, o próprio Jesus teve de enfrentar a oposição dos seus parentes, para seguir adiante na obediência à vontade do Pai. Foi tachado até de louco (Mc 3,21).

 

7.14 Mais um exemplo. Quase todos os membros das comunidades eram pobres, escravos, gente marginalizada. Mas havia também alguns de melhores condições de vida. Apesar de todos aceitarem Jesus, isso não evitava que de vez em quando surgissem tensões por causa dessas desigualdades.

 

7.15 O que fazer nesse caso? Passar por cima dessas diferenças? Ficar calados? Expulsar os mais ricos? Como sempre, quando os problemas apertam, a memória despertava. Sempre lembravam dos ensinamentos e testemunhos dos que conheceram Jesus mais de perto. Diante dessa dificuldade foi lembrado o caso do homem rico que procurou Jesus. Era uma pessoa que observava todos os mandamentos da Lei e, portanto, uma pessoa estimada e considerada honesta. Em certo momento da conversa, Jesus lhe disse claramente: “… vai; o que tens, vende-o, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me” (Mc 10,21). O homem ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico (Mc 10,17-22). Jesus, olhando às pessoas ao seu redor, comentou: “Quão difícil será para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!” (Mc 10,23). Até os apóstolos ficaram impressionados com essas exigências de Jesus. Mas Jesus, para dissipar qualquer dúvida, repetiu e insistiu novamente, e convidou a confiar no poder de Deus. Nada é impossível! E apresentou a lei da partilha como a solução de tantos problemas e também como a realização do sentido pleno da vida (Mc 10,23-31). Interessante notar que Jesus falou isso aos seus discípulos, que eram gente pobre. Foi bom e muito acertado, porque o espírito da ganância é um mal presente também entre os pobres.

 

7.16 Esses e outros ditos de Jesus e fatos de sua vida passaram a fazer parte do cotidiano das comunidades. Ficaram gravados no coração e registrados por escrito. Folhetos e apostilas com esses ditos e fatos circulavam nas comunidades, servindo de preciosa orientação, sobretudo nos momentos mais críticos e decisivos. Eram realmente de grande ajuda.

 

7.17 Por volta de 64-70, a situação em Roma estava ficando cada vez mais difícil para os cristãos. Quase todos os apóstolos e as testemunhas da primeira geração haviam sido mortos. Os cristãos passaram a serem considerados membros de uma religião ilícita, proibida. As perseguições cresciam, crises e conflitos tomaram conta das comunidades. Mais do que nunca era preciso, como os lembrava o apóstolo Pedro, que estivessem “sempre dispostos a justificar nossa esperança” (lPd 3,15).

 

7.18 A essa altura já havia bastante material escrito sobre Jesus e, além disso, muitas tradições orais. Com o passar do tempo, sentiu-se a necessidade de juntar e organizar melhor o que achavam mais importante sobre a vida e a prática de Jesus. Um pequeno grupo foi formado e encarregado disso. Marcos fazia parte do grupo. Foi muito importante a sua presença, por sua experiência direta com Jesus Cristo e por ter sido companheiro de missão de Paulo e Pedro (Mc 14,51-52; At 12,12; CI 4,10; 2Tm 4,11).

 

8. QUAL O OBJETIVO DA COMUNIDADE EM ESCREVER

 

8.1 De fato, as situações forçaram a isso. Muitas das lideranças estavam morrendo não só de doença ou pela idade, mas também e sobretudo por causa da fúria sanguinária do poder opressor e repressor. Muita gente andava com medo e assustada, exatamente como aconteceu com os discípulos e as discípulas de Jesus, após sua morte trágica (Mc 16,8). Dúvidas, medo, problemas, dificuldades era o que não faltava.

 

8.2 Mesmo assim a caminhada das comunidades seguia firme. A pessoa e a prática de Jesus, continuavam empolgando e atraindo muita gente. As comunidades aumentavam de número e nem sempre dava para chegar a todas. Era preciso registrar por escrito algo mais sistematizado sobre a vida de Jesus para ser copiado e distribuído nas comunidades. Essa necessidade cresceu mais quando começaram circular, mesmo dentro das comunidades, opiniões estranhas e erradas sobre a pessoa de Jesus.

 

8.3 Uns, por exemplo, diziam: Jesus é o Todo-Poderoso, Filho do Deus Altíssimo. Somente Ele podia fazer o que fez. Os homens, ao contrário, eram pobres mortais e frágeis pecadores. Não podiam segui-lo. O único jeito era entregar-se à sua misericórdia e pronto. Quem poderá mudar esse mundo tão injusto? Apenas Ele mesmo, nada podemos fazer.

 

8.4 Outros diziam: Jesus vai voltar em breve! E vai ser um retorno glorioso e triunfante, muito mais que o dos generais romanos quando, após vencer e dominar povos inimigos, vêm desfilar aqui em Roma. Ele virá para esmagar todos os nossos adversários, sem dó. É só ter um pouco mais de paciência (Mc 13,28-31).

 

8.5 Outros, pelo contrário, achavam ridículo ter como Deus alguém que morreu na cruz. Pior ainda, achavam aquilo um escândalo e uma loucura. Essa mesma opinião circulava pelo mundo afora, em várias outras comunidades (1Cor 1,23). O escândalo da cruz não era novidade para os judeus. Já nas Escrituras se diz que um homem executado e suspenso em uma árvore é um maldito de Deus (Dt 21,22-23). Como então reconhecer Deus em Jesus morto na cruz?

 

8.6 Havia também os que diziam que Jesus foi um ótimo mestre de moral, cheio de muita sabedoria, mas apenas isso, e não Filho de Deus. Outros ainda diziam que Jesus foi um ótimo fazedor de milagres, mas sem exigir muita coisa de nós.

 

8.7 Todas essas opiniões circulavam soltas, ameaçando e debilitando a fé de muitos. O perigo era grave. O futuro estava ameaçado, porque era da visão que se tinha de Jesus que dependia toda a prática da comunidade. Era preciso esclarecer esses pontos obscuros. Muitos, nas reuniões e celebrações, levantavam com insistência a pergunta: afinal de conta, quem é mesmo Jesus de Nazaré? Qual seu verdadeiro rosto?

 

8.8 Os que chegaram a conhecer mais de perto Jesus tinham deixado depoimentos e testemunhos muito bonitos e importantes a seu respeito. Informações não faltavam. O importante era organizar e deixar por escrito àquelas que achavam mais importantes para responder aos problemas e desafios que estavam enfrentando.

 

8.9 Então, ao redigir o livro, tomaram os escritos sobre Jesus que já circulavam nas comunidades; acrescentamos outros depoimentos e testemunhos importantes e organizaram tudo ao redor de duas perguntas fundamentais, que são as seguintes: Quem era Jesus de Nazaré ?  Como ser seus seguidores e seguidoras nas situações concretas de cada dia?

 

 

9. Conclusões

 

Com a preciosa coleta de dados que realizamos, podemos chegar às seguintes conclusões:

 

9.1 Os destinatários deviam estar passando por situações difíceis, de perseguições, crises, dúvidas. Achavam-se meio perdidos, sem muita convicção e sem muito futuro.

 

9.2 Deviam ter opiniões diferentes a respeito de Jesus, o que devia dar origem a confusão e desentendimentos.

 

9.3 Como conseqüência, não devia estar bem claro, diante de tais situações, o que significava ser discípulos e discípulas de Jesus.

 

9.4 Era urgente tirar as dúvidas, deixar bem claro quem era Jesus e assumir as conseqüências: segui-lo com confiança e sem medo. Assim fica evidente que o Evangelho segundo Marcos apresenta um itinerário de fé muito claro e exigente:

 

9.5 Convida seus destinatários a superar uma fé ainda muito ingênua, superficial, insegura e distorcida (Mc 4,13; 4,40; 6,49.52; 8,33).

 

9.6 Revela o verdadeiro rosto de Jesus de Nazaré (Mc 1,1; 8,27-31; 15,39)

 

9.7 Convida as pessoas a viver uma fé consciente e comprometedora em Jesus de Nazaré, o Messias servo sofredor (Mc 8,31), pobre, humilde, corajoso e libertador (Mc 11,1-12), Filho de Deus (Mc 15,39), crucificado e ressuscitado (Mc 16,6).

 

9. 8 Os tempos difíceis, de muitas perseguições, pediam mais do que nunca essa fé firme e esse seguimento fiel a Jesus, rompendo com ideologias e mentalidades dominadoras (Mc 8,15).

 

9.9 Em uma situação de perseguição e torturas (Mc 13,9-10), em que os discípulos de Jesus eram entregues aos torturadores até por parentes próximos, eles deviam escolher entre traição à fé ou martírio (Mc 4,17; 8.,38; 9,42; 10,38-39; 13,13). Marcos aponta o seguimento a Jesus, assumindo livremente e corajosamente o caminho da cruz (Mc 8,34-38; 15,40-41)

 

9.10 Ser discípulos de Jesus e assumir a cruz são coisas inseparáveis (Mc 8,27-10,52).

 

9.11 Aponta para a vigilância, a esperança e a confiança (Mc 13,7-13.33-37).

 

9.12 Apesar de tantas dificuldades e conflitos, o caminho tem futuro porque Deus garante (Mc 4,26-32) e porque Jesus de Nazaré, o crucificado, está vivo. Ele ressuscitou! (Mc 16,6).

 

9.13 A caminhada recomeça na Galiléia, onde havia começado (Mc 16,7), e Jesus segue à frente dos seus discípulos e discípulas, o mesmo Jesus de Nazaré que lançara a Boa Notícia do Reino de Deus (Mc 1,14-15).

 

9.14 Da Galiléia, terra pagã e desprezada, a Boa Notícia de Jesus irá se espalhar pelo mundo afora e para toda a humanidade (Mc 16,15).

 

9.15 Agora, ter certeza absoluta de quem eram os destinatários é um pouco difícil. A opinião ainda mais comum entre os estudiosos aponta como destinatários as comunidades cristãs de Roma e do sul da Itália. Outros sustentam que seriam as comunidades espalhadas pela Galiléia e pela Síria. É possível também que as comunidades de Marcos tenham tido origens na Galiléia (Mc 14,28; 16,7) e depois se espalhado até chegar em Roma. E Roma seria o local da redação final do Evangelho segundo Marcos. Ainda em Marcos 5, 9 o nome do espírito impuro é Legião, e legião era a unidade militar mais importante do exército romano. Os textos que sustentam essa interpretação adotam essa última possibilidade.

 

9.16 Quanto à data da redação final, aponta-se o ano 70-71 d.C., logo após a terrível destruição de Jerusalém, ocorrida no ano 70. Essa tragédia marcou muito a consciência dos judeus e das comunidades cristãs, como se pode ver no capítulo 13 de Marcos. Quanto à autoria, a tradição sempre a atribuiu a João Marcos, um jovem judeu convertido de Jerusalém, filho de Maria, em cuja casa costumava reunir-se um grupo de cristãos da cidade (At 12,12). Ele acompanhou Barnabé e Saulo a Antioquia (At 12,25), e de lá os seguiu em missão (At 13,5.13; 15,37.39). Foi companheiro de missão de Paulo (Cl 4,10; 2Tm 4,11; Fm 24) e, por fim de Pedro, em Roma (IPd 5,13).

 

9.17 Porém o mais certo é afirmar que houve mais de um redator e que estes redatores foram cristãs e cristãos já da segunda geração. Muito provavelmente Marcos teve uma influência significativa por ter mantido viva a memória de Jesus no seio das comunidades de Roma. Os nomes de Marcos, Mateus, Lucas e João como autores dos quatro Evangelhos foram colocados no século II, por volta de 150 d.C., quando se tratou de escolher os livros inspirados. As comunidades da época atribuíram-lhes a autoria porque eram pessoas queridas entre as comunidades; representavam uma autoridade moral e assim davam mais valor aos Evangelhos.

 

 

Para saber mais sobre o Evangelho de Marcos

 

1- Pe. Ray – Leitura Orante: Caminho de Espiritualidade pra Jovens – Paulinas

 

2- Luis Mosconi – Evangelho de Jesus Cristo Segundo Marcos – Editora Loyola

 

3- CNBB – Caminhamos na Estrada de Jesus – Paulinas

 

4- Carlos Mesters e Mercedes Lopes – Caminhando com Jesus (Círculos Bíblicos do Evangelho de Marcos) – Paulus

 

5- Introdução Geral aos Evangelhos – Roteiros para reflexão VII – Cebi-Paulus

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 Para falar comigo

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1- INTRODUÇÃO:

Ser místico é conhecer a Palavra de Deus, ter familiaridade com a Escritura e, acima de tudo, deixar-se iluminar pela Palavra ou tocar pela Palavra, pois ela abrirá o coração para a fé. Eis um bom resumo para compreendermos uma outra dimensão da mística cristã, essa força interior que nos motiva a viver fielmente como discípulos de Jesus. O conhecimento das Escrituras foi o meio pelo qual os Discípulos de Emaús sentiram seu coração arder e abriram os olhos (Lc 24,27.32)

Sem ignorar ou desvalorizar o sentimento e a emoção de crer, a referência à inteligência ajuda-nos compreender que a experiência mística não se realiza no sentimentalismo religioso. O místico cristão, ao contrário, é alguém que entende a Sagrada Escritura, em sua totalidade, a partir da Ressurreição do Senhor. É o entendimento, fruto do estudo, da reflexão, da meditação que o capacita como testemunha qualificada da Ressurreição. É sempre bom ter presente que a autêntica interpretação da Palavra não é experiência subjetiva, emocional, mas dom do ressuscitado que acontece dentro da comunidade Igreja, simbolizada nos discípulos que conversavam no cenáculo sobre Jesus e sua ressurreição.

Durante séculos, a Igreja tirou a Bíblia das mãos dos católicos. Talvez, nem tirar fosse necessário, porque a mesma era editada em Latim, língua conhecida praticamente por um grupo de bispos e padres, e estranha ao povo, em geral. A história fala que a Reforma traduziu a Bíblia para o alemão e a Contra-Reforma a fechou ainda mais. Somente no final do século XIX e início do século XX começou a surgir na Igreja Católica uma reação com o chamado “Movimento Bíblico” que, entre outras coisas, promovia o contato do povo com a Bíblia; a conhecesse e a estudasse. Depois, veio o Concílio Vaticano II com a Constituição “Dei Verbum” (A Palavra de Deus) do qual surgiram inúmeras iniciativas facilitando o acesso do povo à Bíblia.

Duas iniciativas são particularmente importantes para nós, no Brasil. Os Círculos Bíblicos, feitos nas ruas, com recursos didáticos no estudo periódico de um livro Bíblico. Dos Círculos Bíblicos nascem cursos populares de Bíblia com um bem enorme para o povo. Nota característica é a sensatez, a moderação e o endereço para contexto vivencial nas interpretações. A segunda iniciativa é a volta da “Lectio Divina”, também conhecida como “Leitura Orante da Bíblia”[1]. Conhecer a Bíblia rezando é o seu grande objetivo. Conhecer a Bíblia rezando com a Palavra de Deus e, por isso facilitando o encontro com Cristo. A “Lectio Divina” ganha sempre mais adeptos que irá reverter em bênçãos para muitas comunidades.

O interesse pelo estudo científico da Bíblia continua, graças a Deus, mas é o interesse pela Bíblia como fonte de vida e orientação para a vida pessoal e comunitária que é mais solicitada. É um esforço que a Igreja faz através da Pastoral Bíblica que, graças a Deus, começa a dar resultados provando que  a Bíblia é Palavra que faz arder o coração e conduz ao encontro com o Ressuscitado.

 

2- LEITURA ORANTE

 

HÁ QUEM LEIA A BIBLIA ASSIM: abre numa página qualquer, aponta o dedo e lê o versículo achado como se fosse uma resposta “divina” para seus problemas. O texto funciona quase como um horóscopo, que dispensa o leitor de pensar por si mesmo. Ler assim é até gostoso, pois às vezes o texto parece mesmo uma dica de Deus. Mas não deixa de ser fruto de uma visão ingênua da Bíblia, como se ela trouxesse soluções prontas.

 

Não podemos pegar um texto bíblico e ir logo tirando uma mensagem para os dias de hoje, porquê a gente corre o risco de distorcer o verdadeiro sentido do texto. Por exemplo: imagine que alguém lesse a parábola das 10 virgens (Mt 25,1-13) e concluísse que quando a gente tem azeite na lâmpada não deve partilhar com quem não tem e nem deve se interessar pelo que acontece com os que vão ter que andar no escuro? E se achasse que nunca se deve abrir a porta do acolhimento a quem chega atrasado? É bom estarmos sempre alertas para não usarmos frases soltas da Bíblia para tirar conclusões apressadas que não combinam com o projeto de Deus. Como saber o jeito certo de ler?

 

Olha, Bíblia é como um coco. Dentro dela existe uma água viva que reanima nossa esperança e fortalece nosso caminhar. Mas é preciso uma ferramenta para quebrar o coco e deixar jorrar a água viva da qual estamos sedentos. No nosso estudo, sem negar os vários métodos existentes, não podemos desconhecer o da Leitura Orante ou Lectio Divina, que é uma preciosa herança dos nossos pais na fé: o povo de Israel e das primeiras comunidades cristãs e indicada pelos Bispos do Brasil no documento 71: “Seja também incentivada e reforçada a prática da Leitura pessoal e Orante da Bíblia conforme as orientações do Concílio e, especialmente, a prática dos “círculos bíblicos” ou das reuniões de grupo, para a leitura da Bíblia e a reflexão sobre a vida hoje, com o decorrente compromisso cristão. Também dioceses e paróquias incentivem as formas mais adequadas e acessíveis de formação bíblica, inclusive para multiplicar o número dos animadores do apostolado bíblico”. (N20, pág 20)

 

Este método vai ser a ferramenta que nos ajudará a quebrar o coco e a saborear a sua água. O método possui quatro passos importantes a serem seguidos: leitura, meditação, oração e contemplação.

 

2. 1- Primeiro Passo: Leitura

 

2.1.1. Em cada texto dos Evangelhos, podemos enxergar como que duas camadas. A primeira é a situação do povo no tempo de Jesus e a prática de Jesus; a segunda é a situação das comunidades onde foram vividos e escritos os Evangelhos, pois a Bíblia não caiu do céu. Ela nasceu do chão duro e da experiência da vida do povo. Os Evangelhos assim como toda a bíblia primeiramente foi vivida, contada e recontada, cantada e rezada, depois escrita. Tudo o que está na Bíblia foi escrito bem mais tarde do acontecido. Por exemplo: Jesus morreu e ressuscitou no ano 33 em Jerusalém na Palestina (1camada), o evangelho escrito pela comunidade de Marcos surgiu 37 anos depois, em Roma, por volta do ano 70 (2camada). O método da Leitura Orante nos ensina a fazer o caminho inverso, ou seja, partir do texto escrito e chegar ao vivido.

 

2.1.2. Esse primeiro passo, a leitura, consiste em ler o texto com muita atenção, observando cuidadosamente os detalhes, a linguagem, como o texto foi escrito, levando em consideração as duas camadas. E isso se faz fazendo perguntas tais como: Quem escreve o texto? Quando e onde foi escrito? Quem são os destinatários? Quais os recados que o autor quer passar? Quem aparece no texto? Homem ou mulher? De que idade? De que raça? De que classe social? Como era a situação das pessoas? De que viviam? O que produziam? Qual é o seu grito? Como era exercido o poder? Quais eram as leis? Quais são as relações sociais e os conflitos presentes nessas relações? O que o texto fala sobre economia? Como funcionava a religião? Qual a imagem de Deus que aparece? De que lado Deus estava? Como se apresenta a pessoa de Jesus Cristo? O que o texto diz?

2.1.3. Às vezes, não dá para responder a todas estas perguntas. Não tem importância. Faça ao texto as perguntas que são possíveis. Estique o texto. Verifique se existem textos paralelos. Veja nas linhas e nas entrelinhas. Às vezes, o que não está dito é mais importante do que o que está dito… É aí, no miudinho da vida que está o grito de dor, de fé, de súplica, de alegria. A leitura assim e o começo da quebra da casca do coco…

 

2.1.4. Por meio de uma leitura atenta dos textos, situando-o no tempo e no espaço, podemos captar as situações das comunidades em que os textos se originaram. Lendo Mc 4, 35-41, descobrimos que este Evangelho foi escrito em um período em que a comunidade estava passando por momentos de inseguranças e incertezas. Dá a impressão de que a comunidade era como um barquinho frágil entregue à fúria devastadora de um mar em tempestade. Muitos andavam desanimados e perdidos.

2.1.7. Na redação final do livro esses problemas todos apareceram. Os redatores queriam que as comunidades lendo as coisas que Jesus fez e falou (1camada), encontrassem as respostas para os problemas que estavam enfrentando: “Quem é Jesus e como ser discípulo ou discípula dele no meio desta situação (tempestade)? Como fazer para anunciar a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe? Como andar pelo caminho que ele nos indicou?

 

2- Segundo Passo: Meditação

 

2.1. A busca da mensagem do texto para a época em que foi escrito é importante, mas essa mensagem só estará completa quando interpretamos e atualizamos o texto para o contexto da nossa realidade ligando a nossa vida com a vida das pessoas do texto. Este mesmo Deus que estava na vida do povo da Bíblia, no dia-a-dia das daquelas pessoas, e respondia ao seu grito (Ex 3,7), está e estará presente na nossa vida, falando conosco a partir de nossa realidade.

 

2.2. A meditação tem como objetivo responder às perguntas: O que há de semelhante e diferente entre a situação do texto com a nossa vida e a vida das nossas comunidades? Este texto que acabamos de ler pode trazer luz, esperança, novo alento para nós hoje? Quais os desafios que enfrentamos hoje, no início do terceiro milênio? O que esse texto nos ilumina?

 

3- Terceiro Passo: Oração

 

3.1. Praticamente a oração, está presente em todas as etapas, pois o método é todo ele orante. Oração aqui é entendida como dialogo com Deus a partir dos apelos que ele faz através do texto. A oração é o momento tanto para o louvor, para a ação de graças, para as súplicas, para os pedidos de perdão, para a reza de algum salmo conhecido, ou cantar algo que esteja em sintonia com o que foi lido e meditado.

 

4- Quarto Passo: Meditação

 

4.1. Contemplar é fazer silêncio para perceber a ação que Deus operou na pessoa orante através do texto. A contemplação nos ajuda a entender o que Deus está querendo de nós através do texto. E com isso somos convidados a assumir um compromisso de vida nos perguntando: que ação evangélica esse texto esta me sugerindo?

 

Obs: Mas antes de responder essa pergunta é preciso que nos ocupemos de que a leitura do texto por si só, não abre os olhos. Não basta conhecer a Palavra de Deus. É preciso colocá-la em prática. A leitura, ou seja, a teoria, só faz animar, estimular, dar coragem, arder o coração. É preciso ir mais adiante, e tudo isso ser experimentado na prática, assumindo um compromisso de vida, pois é a prática que abre os olhos (Mt 5, 24; Lc 6,47-48). E agora? O que vou fazer de concreto a partir do texto lido, meditado, orado e contemplado? O que Deus está pedindo?

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 [1] Para quem desejar conhecer a Lectio Divina procurar nas Edições Paulinas o livro do Pe. Ray – Leitura Orante da Bíblia caminho de espiritualidade para jovens.

 

 

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MAPA DA PALESTINA

 ÍNDICE GERAL -EVANGELHO DE MARCOS

  Responsável por este trabalho

    Xavier Cutajar

            xacute@uol.com.br       http://xacute1.com

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