Mc 1, 12-13 – TENTAÇÃO NO DESERTO

TENTAÇÃO NO DESERTO

 (Mt 4,1-11; Lc 4, 1-13)

 jesus no deserto tentado

1,12 E logo o ESPÍRITO impeliu Jesus para o deserto.

13    E Jesus ficou no deserto durante quarenta dias, e aí Jesus era tentado por satanás, e estava entre as bestas  e os anjos serviam Jesus.

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BP:* 12-13: A tentação no deserto resume os conflitos que Jesus vai experimentar em toda a sua vida. Deverá enfrentar o representante das forças do mal que escravizam os homens. E Deus o sustentará nessa luta.

Em que lugar do deserto Jesus se retirou? e para quê?

A tradição cristã deu-lhe o nome de Monte da Quarentena, a noroeste de Jericó. Foi preparar-se para o trabalho da implantação do Reino de Deus no mundo através da pregação do Evangelho. Para tanto, orou e jejuou durante 40 dias, e venceu as tentações. (Pe Mário Zuchetto)

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O texto das tentações é a sequência desta série de eventos e sinais introdutórios da missão de Jesus. Vejamos: “E logo o Espírito levou Jesus para o deserto” (v. 12). De início, fazemos uma pequena e importante observação: a versão litúrgica, infelizmente, omite a primeira parte do versículo: “E logo” (em grego:  Kai. euvqu.j – kaí euthis); a ausência desse advérbio compromete o sentido do texto, porque omite o caráter de urgência e imediatez da ação do Espírito em impelir Jesus para o deserto. O verbo empregado pelo evangelista é muito mais intenso que “levar”, utilizado pela versão litúrgica; o verbo grego empregado no texto original (evkba,llw – ekbalo) significa empurrar, atirar, impelir, lançar fora com força.

Jesus não é proclamado “Filho Amado” pelo Pai para isolar-se das provações e dificuldades, mas para experimentar a vida com suas contradições e perigos. A referência ao deserto, obviamente, não é geográfica, mas teológica. O deserto (em grego:  e;rhmoj – eremos) é um elemento de rico significado para a tradição bíblica. Aqui indica, antes de tudo, que Jesus está inserido na história do povo de Israel, fazendo parte desse e, portanto, estará sujeito aos mesmos riscos e perigos pelos quais esse povo passou, desde a saída do Egito à conquista da terra e, principalmente aos tempos obscuros de dominação e exploração romana de seu próprio tempo. Assim, também o caminho de Jesus até a cruz e ressurreição será marcado por perigos e provas, uma vez que, embora seja verdadeiro Deus, ele é verdadeiro homem.

Embora o deserto evoque provação, é também o lugar ideal para o bom relacionamento com Deus; por isso, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança. A experiência do deserto na vida de Jesus representa a confirmação da sua vocação de “Filho Amado” do Pai: “E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás” (v. 13a). Associando deserto a provação, o evangelista chama a atenção da sua comunidade para um aspecto muito importante da vida cristã: deixar-se conduzir pelo Espírito não torna a pessoa imune às tentações e dificuldades que a vida apresenta. O tempo de permanência no deserto, “quarenta dias” (em grego: tessera,konta h`me,raj – tesseráconta heméras), também possui um rico simbolismo na Bíblia. É antes de tudo, uma alusão à experiência do êxodo, marcada por quarenta anos de caminhada pelo deserto (cf. Nm 32,13; Dt 8,2), mas também a outros acontecimentos do Antigo Testamento: a duração do dilúvio de quarenta dias e quarenta noites (cf. Gn 7,4.12.17); a caminhada de Elias rumo ao monte Horeb (cf. 1 Rs 19,8).

Além de evocar acontecimentos e personagens importantes da história de Israel, esse número quer dizer uma etapa completa, ou seja, uma vida inteira, uma geração. Portanto, significa que toda a vida de Jesus foi marcada pela prova e, assim é também a vida da comunidade cristã. Isso deve levar os cristãos a uma vida vigilante sem jamais cair em comodismos. Quer dizer que a Igreja não pode, em momento algum da história, aceitar qualquer sinal de conforto, principalmente quando ofertado pelos detentores de poder. O tentador, segundo Marcos, é Satanás (em grego:satanaj), e significa o adversário. Mais do que um ser específico, satanás é toda e qualquer realidade adversa ao Reino de Deus. A vida cristã é um confronto constante com essa realidade. No decorrer do Evangelho, o adversário de Jesus assumirá diversos rostos: a hierarquia religiosa, o poder político romano e até mesmo os seus discípulos (cf. 8,33), quando Pedro será explicitamente chamado de satanás e pedra de tropeço por opor-se aos propósitos do Reino de Deus.

É importante também perceber que, ao contrário de Mateus e Lucas, Marcos não faz a mínima referência ao conteúdo das tentações, nem ao jejum praticado por Jesus. Ao invés de empobrecer, esse dado só enriquece o evangelho marcano. Ora, ao não descrever em pormenores essa realidade simbólica, o evangelista ajuda sua comunidade a não idealizar nem fantasiar uma cena, mas enfatiza que as tentações são imprevisíveis e indescritíveis porque são muitas e, portanto, não podem ser catalogadas ou delimitadas; a qualquer momento podem surgir, e isso durante toda a vida.

A segunda parte do versículo evoca a conquista da paz messiânica: “Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam” (v. 13b). O antigo sonho profético de harmonia entre todos os elementos da criação é recuperado por Jesus, o profeta do Reino por excelência. Aquilo que fora sonhado durante muitos séculos por tantas gerações, tem em Jesus a oportunidade de ser realizado. É claro que é uma imagem simbólica. Significa a missão de Jesus de reconciliar o mundo consigo mesmo e com Deus. Jesus é habilitado pelo Pai, como “Filho Amado”, para combater as forças do mal e vencê-las pelo amor, fazendo acontecer a nova humanidade, instaurando, de fato, os “novos céus e nova terra” (cf. Is 11,1-9). O serviço dos anjos quer dizer a adesão ao Reino da parte daqueles que compreendem a centralidade do evangelho: servir por amor, o triunfo do bem. Animais selvagens e anjos juntos, tendo Jesus ao centro, significa a convivência pacífica entre todos os seres, não obstante as características de cada um. As forças do mal já não tem o que fazer, se tornam impotentes, quando o bem é abraçado e se faz serviço.

A passagem de Jesus pelo deserto é uma antecipação e síntese de toda a sua vida. Quer dizer que o seu programa consiste no combate ao mal e instauração definitiva do bem. (Pe Francisco Cornelio)

 

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MAPA DA PALESTINA

EVANGELHO DE MARCOS

Responsável por este trabalho:

Xavier Cutajar

xacute@uol.com.br       http://xacute1.com

O texto de hoje é a sequência desta série de eventos e sinais introdutórios da missão de Jesus. Vejamos: “E logo o Espírito levou Jesus para o deserto” (v. 12). De início, fazemos uma pequena e importante observação: a versão litúrgica, infelizmente, omite a primeira parte do versículo: “E logo” (em grego:  Kai. euvqu.j – kaí euthis); a ausência desse advérbio compromete o sentido do texto, porque omite o caráter de urgência e imediatez da ação do Espírito em impelir Jesus para o deserto. O verbo empregado pelo evangelista é muito mais intenso que “levar”, utilizado pela versão litúrgica; o verbo grego empregado no texto original (evkba,llw – ekbalo) significa empurrar, atirar, impelir, lançar fora com força.

 

Jesus não é proclamado “Filho Amado” pelo Pai para isolar-se das provações e dificuldades, mas para experimentar a vida com suas contradições e perigos. A referência ao deserto, obviamente, não é geográfica, mas teológica. O deserto (em grego:  e;rhmoj – eremos) é um elemento de rico significado para a tradição bíblica. Aqui indica, antes de tudo, que Jesus está inserido na história do povo de Israel, fazendo parte desse e, portanto, estará sujeito aos mesmos riscos e perigos pelos quais esse povo passou, desde a saída do Egito à conquista da terra e, principalmente aos tempos obscuros de dominação e exploração romana de seu próprio tempo. Assim, também o caminho de Jesus até a cruz e ressurreição será marcado por perigos e provas, uma vez que, embora seja verdadeiro Deus, ele é verdadeiro homem.

 

Embora o deserto evoque provação, é também o lugar ideal para o bom relacionamento com Deus; por isso, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança. A experiência do deserto na vida de Jesus representa a confirmação da sua vocação de “Filho Amado” do Pai: “E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás” (v. 13a). Associando deserto a provação, o evangelista chama a atenção da sua comunidade para um aspecto muito importante da vida cristã: deixar-se conduzir pelo Espírito não torna a pessoa imune às tentações e dificuldades que a vida apresenta. O tempo de permanência no deserto, “quarenta dias” (em grego: tessera,konta h`me,raj – tesseráconta heméras), também possui um rico simbolismo na Bíblia. É antes de tudo, uma alusão à experiência do êxodo, marcada por quarenta anos de caminhada pelo deserto (cf. Nm 32,13; Dt 8,2), mas também a outros acontecimentos do Antigo Testamento: a duração do dilúvio de quarenta dias e quarenta noites (cf. Gn 7,4.12.17); a caminhada de Elias rumo ao monte Horeb (cf. 1 Rs 19,8).

 

Além de evocar acontecimentos e personagens importantes da história de Israel, esse número quer dizer uma etapa completa, ou seja, uma vida inteira, uma geração. Portanto, significa que toda a vida de Jesus foi marcada pela prova e, assim é também a vida da comunidade cristã. Isso deve levar os cristãos a uma vida vigilante sem jamais cair em comodismos. Quer dizer que a Igreja não pode, em momento algum da história, aceitar qualquer sinal de conforto, principalmente quando ofertado pelos detentores de poder. O tentador, segundo Marcos, é Satanás (em grego:satanaj), e significa o adversário. Mais do que um ser específico, satanás é toda e qualquer realidade adversa ao Reino de Deus. A vida cristã é um confronto constante com essa realidade. No decorrer do Evangelho, o adversário de Jesus assumirá diversos rostos: a hierarquia religiosa, o poder político romano e até mesmo os seus discípulos (cf. 8,33), quando Pedro será explicitamente chamado de satanás e pedra de tropeço por opor-se aos propósitos do Reino de Deus.

 

É importante também perceber que, ao contrário de Mateus e Lucas, Marcos não faz a mínima referência ao conteúdo das tentações, nem ao jejum praticado por Jesus. Ao invés de empobrecer, esse dado só enriquece o evangelho marcano. Ora, ao não descrever em pormenores essa realidade simbólica, o evangelista ajuda sua comunidade a não idealizar nem fantasiar uma cena, mas enfatiza que as tentações são imprevisíveis e indescritíveis porque são muitas e, portanto, não podem ser catalogadas ou delimitadas; a qualquer momento podem surgir, e isso durante toda a vida.

 

A segunda parte do versículo evoca a conquista da paz messiânica: “Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam” (v. 13b). O antigo sonho profético de harmonia entre todos os elementos da criação é recuperado por Jesus, o profeta do Reino por excelência. Aquilo que fora sonhado durante muitos séculos por tantas gerações, tem em Jesus a oportunidade de ser realizado. É claro que é uma imagem simbólica. Significa a missão de Jesus de reconciliar o mundo consigo mesmo e com Deus. Jesus é habilitado pelo Pai, como “Filho Amado”, para combater as forças do mal e vencê-las pelo amor, fazendo acontecer a nova humanidade, instaurando, de fato, os “novos céus e nova terra” (cf. Is 11,1-9). O serviço dos anjos quer dizer a adesão ao Reino da parte daqueles que compreendem a centralidade do evangelho: servir por amor, o triunfo do bem. Animais selvagens e anjos juntos, tendo Jesus ao centro, significa a convivência pacífica entre todos os seres, não obstante as características de cada um. As forças do mal já não tem o que fazer, se tornam impotentes, quando o bem é abraçado e se faz serviço.

A passagem de Jesus pelo deserto é uma antecipação e síntese de toda a sua vida. Quer dizer que o seu programa consiste no combate ao mal e instauração definitiva do bem.

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