Mc 10,35-45 – A AMBIÇÃO DOS FILHOS DE ZEBEDEU

A AMBIÇÃO DOS FILHOS DE ZEBEDEU2ª tentação

(Explicação de Mc 9,45-46 – o pé = dominação – 2ª tentação

2º Obstáculo para o Reino de Deus: A DOMINAÇÃO)

 (Mc 10,35-45; Mt 20,20-28)

 

10,35 Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram até Jesus e lhe disseram: “MESTRE,(7/12) queremos que faças por nós o que vamos te pedir.”

36 Jesus perguntou:  “O que vocês querem que eu lhes conceda?”

37 Eles responderam: “Quando estiveres na tua glória, deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda.”

38 JESUS então lhes disse: “Vocês não sabem o que estão pedindo.  Por acaso vocês podem beber o cálice que eu vou beber? (Cf. 14,36) E serem batizados com o batismo com que eu vou ser batizado?”

39 Eles responderam: “Podemos.” JESUS então lhes disse: “Vocês vão beber o cálice que eu vou beber, e vão ser batizados com o batismo com que eu vou ser batizado.

40 Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou esquerda. É para aqueles para quem está preparado.”

41 Quando os outros dez ouviram isso, começaram a ficar com raiva de Tiago e João.

42 JESUS chamou-os e disse: “Vocês sabem: aqueles que se dizem governadores das nações as dominam como senhores, e os seus dirigentes as oprimem.

43 Mas, entre vocês não deverá ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês,

44 e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos.

45 Porque o FILHO DO HOMEM (4b/14) não veio para ser servido. Ele veio para servir e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos.”

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BP:* 32-45: Jesus anuncia a sua morte como conseqüência de toda a sua vida. Enquanto isso, Tiago e João sonham com poder e honrarias, suscitando discórdia e competição entre os outros discípulos. Jesus mostra que a única coisa importante para o discípulo é seguir o exemplo dele: servir e não ser servido. Em a nova sociedade que Jesus projeta, a autoridade não é exercício de poder, mas a qualificação para serviço que se exprime na entrega de si mesmo para o bem comum.

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REFLEXÃO PARA O XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 10,35-45 (ANO B)

O evangelho deste vigésimo nono domingo do tempo comum – Marcos 10,35-45 – continua mostrando a incompreensão e incoerência dos discípulos de Jesus em relação ao seu programa de vida com as respectivas exigências. Jesus está caminhando para Jerusalém e, desde o início do caminho, alertou os discípulos sobre o destino desse caminho: o sofrimento, a paixão e a morte. Após alertá-los pela primeira vez (cf. Mc 8,31-33), Jesus ainda repetiu mais duas vezes (cf. Mc 9,30-32; 10,32-34), no entanto, os discípulos continuavam sem entender ou, pelo menos, sem aceitar esse destino, pois estavam contagiados pela ideologia nacionalista que aspirava um messias glorioso que restaurasse o reino de Israel nos moldes de Davi e Salomão, os maiores reis da sua história. Por isso, a cada vez que Jesus anunciava o seu destino doloroso, os discípulos distorciam o anúncio, alimentando a falsa ilusão de um reino glorioso, nos moldes dos reinos deste mundo.

O episódio narrado no evangelho de hoje segue de imediato ao terceiro anúncio da paixão, o mais claro e profundo dos três anúncios. Por incrível que pareça, a reação dos discípulos a esse terceiro anúncio foi a mais absurda de todas, demonstrando ambição e sede de poder, aspirações totalmente incompatíveis com a mensagem de Jesus. Ao primeiro anúncio, Pedro o repreendeu, em nome do grupo dos Doze (cf. Mc 8,32); ao segundo anúncio, os discípulos reagiram discutindo quem era o maior entre eles (cf. Mc 9,33-34); ao terceiro, a reação é a busca por posições de honra e poder, como vemos no evangelho de hoje. Ao projeto que Jesus apresenta, os discípulos não apenas respondem com uma coisa diferente, mas com algo totalmente oposto à proposta do mestre, distorcendo completamente a sua mensagem.

Olhemos para o texto: “Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram: ‘Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir” (v. 35). É importante recordar que Tiago e João, juntamente com Pedro, são os discípulos mais evidenciados nos três evangelhos sinóticos, não por méritos, mas pelo contrário. Por isso, é importante recordar que no momento da constituição do grupo dos Doze, Tiago e João receberam o nome de Boanerges, que significa que significa “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17), em alusão ao temperamento explosivo, arrogante, intolerante e ambicioso dos dois. Além do texto de hoje, os evangelhos registram mais duas ocasiões em que as características negativas deles dois são evidenciadas: quando querem monopolizar Jesus, proibindo um homem de fazer o bem em seu nome pelo simples fato de não pertencer ao grupo (cf. Mc 9,38-39), e quando queriam eliminar com fogo os samaritanos, somente porque não os acolheram, no início do caminho para Jerusalém (cf. Lc 9,51-55). Portanto, juntamente com Pedro, João e Tiago são os discípulos mais difíceis de lidar no grupo; por isso, quando Jesus fica somente com eles, como no episódio da transfiguração (cf. Mc 9,2-8; Mt 17,1-8; Lc 9,28-36), não se trata de privilégio, mas de necessidade. Pelo comportamento e temperamento, ambos necessitavam de uma catequese mais intensa.

Antes mesmo que os discípulos façam diretamente o pedido, o evangelista já os denuncia: “Queremos que faças por nós o que vamos pedir”; aqui, há praticamente uma ordem, se trata de uma exigência. Além do conteúdo do pedido, a forma como esse é feito é uma afronta ao projeto de Jesus, o que torna o texto bastante polêmico. Por isso, Lucas preferiu omiti-lo do seu Evangelho, e Mateus o modificou, colocando a mãe dos discípulos como a autora do pedido (cf. Mt 20,20-23), reforçando, assim, a sua visão negativa da mulher. Marcos, pelo contrário, faz questão de revelar também as debilidades dos discípulos, por isso seu Evangelho é o mais autêntico e original, inclusive, é o que mais revela também os traços humanos de Jesus (cf. Mc 3,5; 7,34; 9,36; 10,14.16).

À “quase ordem” dos discípulos, Jesus pergunta: “o que quereis que eu vos faça?” (v. 36). É típico de Jesus responder com uma nova pergunta, o que revela uma certa ironia da sua parte. Se os discípulos ainda não tinham aprendido nada com os três anúncios da paixão, pouco importava para eles uma pergunta irônica de Jesus. Por isso, sem nenhum escrúpulo, eles fazem um pedido absurdo: “Deixa-nos sentar um à tua direito e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória!” (v. 37). Temos aqui uma verdadeira afronta a tudo o que Jesus já tinha ensinado a respeito de si e do seu projeto de Reino de Deus. Esse pedido revela uma busca ambiciosa por poder e privilégios, decorrente de uma visão totalmente equivocada da messianidade de Jesus. Eles Imaginavam Jesus como um messias segundo as expectativas políticas de Israel, alimentada ao longo dos séculos: um messias guerreiro que combateria contra os dominadores (romanos), até expulsá-los do território e, finalmente, restabeleceria o antigo reino dravídico em Jerusalém. Jesus já tinha descartado essa possibilidade por diversas vezes, mas os discípulos continuavam fechados e presos à antiga mentalidade. Sentar à esquerda e à direita, equivale às posições de honra, como se fossem os primeiros ministros do rei.

Ao pedido absurdo dos discípulos, Jesus responde com uma repreensão irônica e, como de costume, com novas perguntas: “Vós não sabeis o que pedis. Por acaso, podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?” (v. 38). Com razão, Jesus os trata como ignorantes; ora, depois de três anúncios explícitos da paixão, e de toda uma trajetória de oposição e combate aos poderes constituídos, é inadmissível que os discípulos ainda quisessem espelhar-se nessas formas de poder, alimentando pretensões de glória e privilégios. Segue à repreensão, duas perguntas provocatórias que resumem todo o ministério de Jesus, do início na Galileia à consumação em Jerusalém, evocando duas imagens simbólicas dessa trajetória: o cálice e o batismo. O batismo remonta ao início de tudo (cf. Mc 1,8-11), enquanto o cálice antecipa o fim dramático (cf. Mc 14,23.36). Embora essas sejam imagens de grande significado ao longo de toda a Bíblia, o mais certo é que Marcos se referiu, com elas, apenas à vida pública de Jesus do começo ao fim, do batismo à cruz; em outras palavras, é como se Jesus perguntasse: “Vocês estão dispostos a viver do meu jeito, do começo ao fim de vossas vidas?”.

Os irmãos respondem com muita prontidão, mas Jesus parece não levar muito a sério, provavelmente por perceber uma certa presunção nos dois:“Eles responderam: ‘Podemos!’ E ele lhes disse: ‘Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado. Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado” (vv. 39-40). A disposição para abraçar e assumir as consequências de um seguimento sério e radical não pode ser em função de recompensas futuras. Por isso, Jesus confirma que, de fato, eles participarão de seu destino doloroso, mas abraçar o seu projeto em vista de recompensa é sinal incompreensão. A disposição de lugares na glória futura é um dom gratuito do Pai, e não uma conquista por méritos.

O resultado do ambicioso pedido dos dois irmãos é a divisão da comunidade: “Quando os outros dez discípulos ouviram isso, indignaram-se com Tiago e João” (v. 41). À medida que os projetos individuais são evidenciados, a unidade é quebrada. A reação de indignação dos outros dez não significa que eles tivessem compreendendo melhor a dinâmica do projeto de Jesus; pelo contrário, demonstra que eles também pensavam como os dois irmãos e revoltam-se por rivalidade, ou seja, eles também queriam os dois lugares de destaque pretendido pelos filhos de Zebedeu. Essa reação afirma que o espírito de concorrência contagiava o grupo dos discípulos. A comunidade, afetada pela ambição, estava completamente ameaçada, marcada pela rivalidade e espírito de competição. Por isso, Jesus chama a atenção: “E Jesus convocando-os, lhes diz: “sabeis que os que são considerados chefes das nações as dominam, e os grandes as tiranizam” (v. 42). Jesus vê a ambição dos discípulos com muita preocupação, a ponto de convocar uma reunião e expor o seu projeto com mais clareza ainda, procurando mostrar o quanto o seu projeto é diferente de qualquer projeto humano de obtenção e exercício do poder. Tendo negligenciado os três anúncios da paixão, os discípulos têm como parâmetro os modelos vigentes de poder, marcados pelo domínio e a tirania.

Considerando o versículo anterior, no qual Jesus, de modo muito objetivo, mostrou o modelo de exercício de poder almejado pelos discípulos, eis que agora ele apresenta sua reação e proposta: “Porém, entre vós não é assim, mas aquele que quiser tornar-se grande entre vós, será vosso servidor.  E aquele que quiser ser o primeiro entre vós, será escravo de todos!” (vv. 43-44). Na comunidade cristã não pode haver espaço para carreirismo, ambição e posições de privilégio. Qualquer imitação dos sistemas vigentes de poder, da sinagoga ao império romano, deve ser abolida da comunidade. A expressão “entre vós não é assim” é carregada de uma certa ironia da parte de Jesus, uma vez que, de fato, estava sendo daquele jeito entre os discípulos; ao mesmo tempo, é uma forte chamada de atenção: não é mais possível adiar a tomada decisiva de posição a respeito dos valores do Reino. Daí ele apresenta qual é o modelo a ser seguido pela comunidade: o serviço. É necessário passar de um modelo baseado na imposição para um novo paradigma baseado no serviço, tendo em vista a igualdade e o bem de todos.

O referencial para a comunidade cristão não pode ser outro senão o próprio Jesus: “Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida dele em resgate de muitos” (v. 45). Ele próprio é o exemplo de que a autoridade autêntica deve ser exercida através do serviço incondicional, contemplando a capacidade de dar a própria vida. Qualquer tentativa ou experiência na comunidade que tenha como parâmetro “os reinos deste mundo”, faz essa comunidade deixar de ser cristã.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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http://porcausadeumcertoreino.blogspot.com/2018/10/reflexaopara-o-xxix-domingo-do-tempo.html

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AMBIENTE – Dehonianos

Continuamos a percorrer, com Jesus e com os discípulos, o caminho para Jerusalém. Marcos observa que, nesta fase, Jesus vai à frente e os discípulos seguem-n’O “cheios de temor” (cf. Mc 10,32). Haverá aqui alguma má vontade dos discípulos, por causa das últimas polémicas e das exigências radicais de Jesus? Este “temor” resultará do facto de Jesus se aproximar do seu destino final, em Jerusalém, destino que o grupo não aprova? Seja como for, Jesus continua a sua catequese e, mais uma vez (é a terceira, no curto espaço de poucos dias), lembra aos discípulos que, em Jerusalém, vai ser entregue nas mãos dos líderes judaicos e vai cumprir o seu destino de cruz (cf. Mc 10,33-34). Desta vez, não há qualquer reacção dos discípulos.
Já observámos, no passado domingo, que o caminho percorrido por Jesus e pelos discípulos é, além de um caminho geográfico, também um caminho espiritual. Durante esse caminho, Jesus vai completando a sua catequese aos discípulos sobre as exigências do Reino e as condições para integrar a comunidade messiânica. A resposta dos discípulos às propostas que Jesus lhes vai fazendo nunca é demasiado entusiasta.
O texto que nos é proposto desta vez demonstra que os discípulos continuam sem perceber – ou sem querer perceber – a lógica do Reino. Eles ainda continuam a raciocinar em termos de poder, de autoridade, de grandeza e vêem na proposta do Reino apenas uma oportunidade de realizar os seus sonhos humanos.

MENSAGEM

Na primeira parte do nosso texto (vers. 35-40), apresenta-se a pretensão de Tiago e de João, os filhos de Zebedeu, no sentido de se sentarem, no Reino que vai ser instaurado, “um à direita e outro à esquerda” de Jesus. A questão nem sequer é apresentada como um pedido respeitoso; mas parece mais uma reivindicação de quem se sente com direito inquestionável a um privilégio. Certamente Tiago e João imaginam o Reino que Jesus veio propor de acordo com Dn 7,13-14 e querem assegurar nesse Reino poderoso e glorioso, desde logo, lugares de honra ao lado de Jesus. O facto mostra como Tiago e João, mesmo depois de toda a catequese que receberam durante o caminho para Jerusalém, ainda não entenderam nada da lógica do Reino e ainda continuam a reflectir e a sentir de acordo com a lógica do mundo. Para eles, o que é importante é a realização dos seus sonhos pessoais de autoridade, de poder e de grandeza.
Uma vez mais Jesus vê-se obrigado a esclarecer as coisas. Em primeiro lugar, Jesus avisa os discípulos de que, para se sentarem à mesa do Reino, devem estar dispostos a “beber o cálice” que Ele vai beber e a “receber o baptismo” que Ele vai receber. O “cálice” indica, no contexto bíblico, o destino de uma pessoa; ora, “beber o mesmo cálice” de Jesus significa partilhar esse destino de entrega e de dom da vida que Jesus vai cumprir. O “receber o mesmo baptismo” evoca a participação e imersão na paixão e morte de Jesus (cf. Rom 6,3-4; Col 2,12). Para fazer parte da comunidade do Reino é preciso, portanto, que os discípulos estejam dispostos a percorrer, com Jesus, o caminho do sofrimento, da entrega, do dom da vida até à morte. Apesar de Tiago e João manifestarem, com toda a sinceridade, a sua disponibilidade para percorrer o caminho do dom da vida, Jesus não lhes garante uma resposta positiva à sua pretensão… Jesus evita associar o cumprimento da missão e a recompensa, pois o discípulo não pode seguir determinado caminho ou embarcar em determinado projecto por cálculo ou por interesse; de acordo com a lógica do Reino, o discípulo é chamado a seguir Jesus com total gratuidade, sem esperar nada em troca, acolhendo sempre como graças não merecidas os dons de Deus.
Na segunda parte do nosso texto (vers. 41-45), temos a reacção dos discípulos à pretensão dos dois irmãos e uma catequese de Jesus sobre o serviço.
A reacção indignada dos outros discípulos ao pedido de Tiago e de João indica que todos eles tinham as mesmas pretensões. O pedido de Tiago e de João a Jesus aparece-lhes, portanto, como uma “jogada de antecipação” que ameaça as secretas ambições que todos eles guardavam no coração.
Jesus aproveita a circunstância para reiterar o seu ensinamento e para reafirmar a lógica do Reino. Começa por recordar-lhes o modelo dos “governantes das nações” e dos grandes do mundo (vers. 42): eles afirmam a sua autoridade absoluta, dominam os povos pela força e submetem-nos, exigem honras, privilégios e títulos, promovem-se à custa da comunidade, exercem o poder de uma forma arbitrária… Ora, este esquema não pode servir de modelo para a comunidade do Reino. A comunidade do Reino assenta sobre a lei do amor e do serviço. Os seus membros devem sentir-se “servos” dos irmãos, apostados em servir com humildade e simplicidade, sem qualquer pretensão de mandar ou de dominar. Mesmo aqueles que são designados para presidir à comunidade devem exercer a sua autoridade num verdadeiro espírito de serviço, sentindo-se servos de todos. Excluindo do seu universo qualquer ambição de poder e de domínio, os membros da comunidade do Reino darão testemunho de um mundo novo, regido por novos valores; e ensinarão os homens que com eles se cruzarem nos caminhos da vida a serem verdadeiramente livres e felizes.
Como modelo desta nova atitude, Jesus propõe-Se a Si próprio: Ele apresenta-Se como “o Filho do Homem que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por todos” (vers. 45). De facto, toda a vida de Jesus pode ser entendida em chave de amor e serviço. Desde o primeiro instante da incarnação, até ao último momento da sua caminhada nesta terra, Ele pôs-se ao serviço do projecto do Pai e fez da sua vida um dom de amor aos homens. Ele nunca Se deixou seduzir por projectos pessoais de ambição, de poder, de domínio; mas apenas quis entregar toda a sua vida ao serviço dos homens, a fim de que os homens pudessem encontrar a vida plena e verdadeira.
O fruto da entrega de Jesus é o “resgate” (“lytron”) da humanidade. A palavra aqui usada indica o “preço” pago para resgatar um escravo ou um prisioneiro. Atendendo ao contexto, devemos pensar que o resgate diz respeito à situação de escravidão e de opressão a que a humanidade está submetida. Ao dar a sua vida (até à última gota de sangue) para propor um mundo livre da ambição, do egoísmo, do poder que escraviza, Jesus pagou o “preço” da nossa libertação. Com Ele e por Ele nasce, portanto, uma comunidade de “servos”, que são testemunhas no mundo de uma ordem nova – a ordem do Reino.

ACTUALIZAÇÃO

• No centro deste episódio está Jesus e o modelo que Ele propõe, com o exemplo da sua vida. A frase “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por todos” (Mc 10,45) resume admiravelmente a existência humana de Jesus… Desde o primeiro instante, Ele recusou as tentações da ambição, do poder, da grandeza, dos aplausos das multidões; desde o primeiro instante, Ele fez da sua vida um serviço aos pobres, aos desclassificados, aos pecadores, aos marginalizados, aos últimos. O ponto culminante dessa vida de doação e de serviço foi a morte na cruz – expressão máxima e total do seu amor aos homens. É preciso que tenhamos a consciência de que este valor do serviço não é um elemento acidental ou acessório, mas um elemento essencial na vida e na proposta de Jesus… Ele veio ao mundo para servir e colocou o serviço simples e humilde no centro da sua vida e do seu projecto. Trata-se de algo que não pode ser ignorado e que tem de estar no centro da experiência cristã. Nós, seguidores de Jesus, devemos estar plenamente conscientes desta realidade.

• O episódio que nos é hoje proposto como Evangelho mostra, contudo, a dificuldade que os discípulos têm em entender e acolher a proposta de Jesus. Para Tiago, para João e para os outros discípulos, o que parece contar é a satisfação dos próprios sonhos pessoais de grandeza, de ambição, de poder, de domínio. Não os preocupa fazer da vida um serviço simples e humilde a Deus e aos irmãos; preocupa-os ocupar os primeiros lugares, os lugares de honra… Jesus, de forma simples e directa, avisa-os de que a comunidade do Reino não pode funcionar segundo os modelos do mundo. Aqui não há meio-termo: quem não for capaz de renunciar aos esquemas de egoísmo, de ambição, de domínio, para fazer da própria vida um serviço e um dom de amor, não pode ser discípulo desse Jesus que veio para servir e para dar a vida.

• Ao apresentar as coisas desta forma, o nosso texto convida-nos a repensar a nossa forma de nos situarmos, quer na família, quer na escola, quer no trabalho, quer na sociedade. A instrução de Jesus aos discípulos que o Evangelho deste domingo nos apresenta é uma denúncia dos jogos de poder, das tentativas de domínio sobre aqueles que vivem e caminham a nosso lado, dos sonhos de grandeza, das manobras patéticas para conquistar honras e privilégios, da ânsia de protagonismo, da busca desenfreada de títulos, da caça às posições de prestígio… O cristão tem, absolutamente, de dar testemunho de uma ordem nova no seu espaço familiar, colocando-se numa atitude de serviço e não numa atitude de imposição e de exigência; o cristão tem de dar testemunho de uma nova ordem no seu espaço laboral, evitando qualquer atitude de injustiça ou de prepotência sobre aqueles que dirige e coordena; o cristão tem sempre de encarar a autoridade que lhe é confiada como um serviço, cumprido na busca atenta e coerente do bem comum…

• Na comunidade cristã encontramos também, com muita frequência, a tentação de nos organizarmos de acordo com princípios de poder, de autoridade, de predomínio, à boa maneira do mundo. Sabemos, pela história, que sempre que a Igreja tentou esses caminhos, afastou-se da sua missão, deu um testemunho pouco credível e tornou-se escândalo para tantos homens e mulheres bem intencionados… Por outro lado, testemunhamos todos os dias, nas nossas comunidades cristãs, como os comportamentos prepotentes criam divisões, rancores, invejas, afastamentos… Que não restem dúvidas: a autoridade que não é amor e serviço é incompatível com a dinâmica do Reino. Nós, os seguidores de Jesus, não podemos, de forma alguma, pactuar com a lógica do mundo; e uma Igreja que se organiza e estrutura tendo em conta os esquemas do mundo não é a Igreja de Jesus.

• Na nossa sociedade, os primeiros são os que têm dinheiro, os que têm poder, os que frequentam as festas badaladas nas revistas da sociedade, os que vestem segundo as exigências da moda, os que têm sucesso profissional, os que sabem colar-se aos valores politicamente correctos… E na comunidade cristã? Quem são os primeiros? As palavras de Jesus não deixam qualquer dúvida: “quem quiser ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos”. Na comunidade cristã, a única grandeza é a grandeza de quem, com humildade e simplicidade, faz da própria vida um serviço aos irmãos. Na comunidade cristã não há donos, nem grupos privilegiados, nem pessoas mais importantes do que as outras, nem distinções baseadas no dinheiro, na beleza, na cultura, na posição social… Na comunidade cristã há irmãos iguais, a quem a comunidade confia serviços diversos em vista do bem de todos. Aquilo que nos deve mover é a vontade de servir, de partilhar com os irmãos os dons que Deus nos concedeu.

• A atitude de serviço que Jesus pede aos seus discípulos deve manifestar-se, de forma especial, no acolhimento dos pobres, dos débeis, dos humildes, dos marginalizados, dos sem direitos, daqueles que não nos trazem o reconhecimento público, daqueles que não podem retribuir-nos… Seremos capazes de acolher e de amar os que levam uma vida pouco exemplar, os marginalizados, os estrangeiros, os doentes incuráveis, os idosos, os difíceis, os que ninguém quer e ninguém ama?

http://www.dehonianos.org/portal/liturgia/?mc_id=2269

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29º Domingo do Tempo Comum – Ano B

EVANGELHO – Marcos 10,35-45

NO PROJETO DE JESUS, O MAIOR É PARA SERVIR

** 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B - Dehonianos

** 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM - Revista Pastoral – Rita Maria Gomes, nj

** NADA DISSO ENTRE NÓS - José Antonio Pagola

** JESUS VEIO PARA SERVIR E DAR A VIDA - Franciscanos – Pe Johan Konings sj

** BUSCANDO NOVAS ÁGUAS - Pe Antônio Geraldo dalla Costa

** BUSCANDO NOVAS AGUAS - Vídeos no YouTube –  Pe Antôn Geraldo dalla Costa

** IGREJA, COMUNIDADE DE SERVIDORES - Pe. Adroaldo Palaoro sj

** REFLEXÃO PARA O XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 10,35-45 (ANO B) -  

** À DIREITA E À ESQUERDA DE JESUS - Marcel Domergue

** O AUTÉNTICO PODER É O SERVIÇO - Ana Maria Casarotti

** ENTRE VOCÊS NÃO É ASSIM - Enzo Bianchi

** OS PRIMEIRS SERÃO OS ÚLTIMOS - Raymond Gravel

** O REINO DE DEUS E AS TENTACOES-EXPLICADAS - em PDF

** O REINO DE DEUS E AS TENTACOES-gráfico

** À DIREITA E À ESQUERDA DE JESUS - Marcelo Barros

 

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