Mc 12,41-44 – A OFERTA DA VIÚVA

A OFERTA DA VIÚVA

(Lc 21, 1-4)

 

12,41 Estava sentado diante do Tesouro e olhava

a MULTIDÃO (o;cloj)(36/40) que depositava moedas no Tesouro.

Muitos ricos depositavam muito dinheiro.

42 Então, chegou uma viúva pobre,

e depositou duas pequenas moedas,

que valiam uns poucos centavos.

43 Então chamou os discípulos(34/42), e disse:

“Em verdade digo a vocês: (avmh.n le,gw u`mi/n)(8/13)

essa viúva pobre

depositou mais do que todos os outros

que depositaram moedas no Tesouro.

44           Porque todos depositaram do que estava sobrando para eles.

Mas a viúva, na sua pobreza,

depositou tudo o que tinha,

tudo o que possuía para viver.”

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BP:* 41-44: Enquanto os doutores da Lei «exploram as viúvas e roubam suas casas», uma viúva pobre deposita no Tesouro do Templo «tudo o que possuía para viver». É o único fato positivo que Jesus vê em Jerusalém. Por isso proclama solenemente esse gesto («eu garanto a vocês»), em contraposição à solenidade ostensiva dos ricos. Mostra, assim, o significado dessa oferta: as relações econômicas que devem vigorar numa sociedade que crê em Deus são as relações de doação total, que deixam as próprias seguranças, e não as relações baseadas no supérfluo.

REFLEXÃO PARA O XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 12,38-44 (ANO B)

Após a interrupção para a solenidade de todos os santos, no último domingo, retomamos hoje a leitura do Evangelho segundo Marcos. O texto que a liturgia propõe para este trigésimo segundo domingo do tempo comum é Mc 12,38-44, trecho que apresenta Jesus já na cidade de Jerusalém, na fase final de seu ministério. Após percorrer um longo caminho acompanhado pelos discípulos e as multidões, Jesus entrou na grande cidade e começou a exercer o seu ministério também ali. É importante recordar que sua primeira atividade em Jerusalém foi a expulsão dos comerciantes do templo (cf. Mc 11,15-16), como forma de denúncia enfática à lideranças religiosas que exploravam as pessoas em nome de Deus.  Além desse fato, durante alguns dias, Jesus se envolveu em diversas controvérsias e disputas com os líderes religiosos no templo de Jerusalém, aprofundando cada vez mais a sua crítica à religião da época.
O episódio retratado no evangelho de hoje é a última controvérsia ou investida contra a religião dentro do próprio recinto do templo. É a última semana de Jesus, na qual ele aproveitou para entrar em conflito com todos os grupos hegemônicos da época, aprofundando o seu profetismo denunciador. Na verdade, de acordo com o relato de Marcos, essa foi a última vez que Jesus entrou no templo, o que torna o texto ainda mais significativo, pois atesta sua ruptura total com o sistema religioso que o condenará pouco tempo depois. No episódio anterior, ele tinha entrado em conflito com os escribas por motivos doutrinais (cf. Mc 12,28-37); no texto que a liturgia oferece para hoje, o conflito diz respeito ao comportamento dos escribas ou mestres da lei, como prefere a versão da liturgia. O escribas (em grego: γραμματευς = gramateús) eram os teólogos oficiais, intérpretes credenciados da lei, além de ser também, como sugere o próprio nome, responsáveis pela escrita das cópias da Escritura e dos comentários dos rabinos para serem lidos nas sinagogas. Eles exerciam papel preponderante no judaísmo da época; eram os responsáveis diretos pela dominação ideológica da religião sobre o povo.
Uma vez contextualizados, olhemos para o texto: “Jesus dizia, no seu ensinamento a uma grande multidão: “Tomai cuidado com os doutores da Lei! (v. 38a). Como já estava próximo da páscoa, muitos peregrinos já se encontravam em Jerusalém para a grande festa, inclusive a multidão que tinha acompanhado Jesus no caminho. Essa multidão ouvia o seu ensinamento e, certamente, repercutia. O ensinamento de Jesus é introduzido por uma séria e enfática chamada de atenção: “Tomai cuidado!”; apesar de forte, essa tradução ainda não exprime o que diz o texto na língua original: o evangelista usa uma forma imperativa de um verbo que significa “abrir os olhos” (em grego: βλεπω = blêpo), o que expressa uma situação de perigo e, por isso, a necessidade de uma atenção extrema. Portanto, a ordem que Jesus dá aos seus ouvintes, e Marcos transmite aos seus leitores de todos os tempos, é: “abri os olhos com os escribas!”. Com tal expressão, Jesus afirma que esses líderes religiosos eram pessoas muito perigosas! É importante recordar que Jesus jamais mandou os discípulos e as multidões tomarem cuidado com as prostitutas, os publicanos ou os pecadores em geral, mas somente com as classes das pessoas mais religiosas da época, como os escribas (doutores da lei), saduceus e fariseus.
Após o alerta inicial – “abri os olhos!” – Jesus diz o porquê: “Eles (os escribas ou doutores da lei) gostam de andar com roupas vistosas, de ser cumprimentados nas praças públicas, gostam das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos melhores lugares nos banquetes” (vv. 38b-39). É por causa da presunção e desse comportamento hipócrita e falso dos escribas que as pessoas precisam ter muito cuidado com eles. O comportamento dos escribas é perigoso porque, em nome da religião, camuflam muita perversidade e maldade; são pessoas que vivem de aparências, se sentem superiores, são soberbas e cultivam privilégios, esbanjando ostentação. Um comportamento assim, é totalmente oposto ao que Jesus pede de seus discípulos; e o pior, para Jesus, é que os escribas faziam tudo isso em nome de Deus e da religião.
Na continuidade da denúncia, Jesus identifica uma falta ainda mais grave na falsa religiosidade dos escribas: “Eles devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso, eles receberão a pior condenação”(v. 40). A categoria das viúvas é uma das imagens de pessoas mais vulneráveis e necessitadas da Bíblia; juntamente com os pobres, os órfãos e estrangeiros, as viúvas expressam o cuidado e a predileção de Deus pelos humildes. Se a mulher já era uma categoria marginalizada, se tornava ainda mais se ficasse viúva. A mulher que ficasse viúva sem ter um filho homem, e se não casasse novamente com um cunhado, em caso de ter ficado com herança, deveria confiar o cuidado dessa herança aos escribas (doutores da lei), já que a mulher não podia fazer negócios; é a esse fato que Jesus alude ao dizer que os escribas devoram as casa das viúvas. Constatava-se que, ao receber o direito de administrar o patrimônio das viúvas, os escribas na verdade se desfrutavam desse, roubando e devorando. Para Jesus, nenhuma forma de injustiça e exploração é aceitável, mas quando isso acontece em nome de Deus e da religião, é muito pior. Por isso, a sentença: “eles receberão a pior condenação”. De acordo com o Evangelho, o que leva o ser humano à condenação é a prática da injustiça, principalmente a exploração e a falta de cuidado com as pessoas mais vulneráveis e necessitadas.
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http://porcausadeumcertoreino.blogspot.com/2018/11/reflexao-para-o-xxxii-domingo-do-tempo.html

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AMBIENTE – Dehonianos

O nosso texto situa-nos em Jerusalém, nos dias que antecedem a prisão, julgamento e morte de Jesus. Por esta altura, adensam-se as polémicas de Jesus com os representantes do Judaísmo oficial. A cada passo fica mais claro que o projecto do Reino (proposto por Jesus) é incompatível com a visão religiosa dos líderes judaicos. Num ambiente carregado de dramatismo, adivinha-se o inevitável choque decisivo entre Jesus e a instituição judaica e prepara-se o cenário da Cruz.
Jesus tem consciência de que os líderes da comunidade judaica tinham transformado a religião de Moisés – com os seus ritos, exigências legais, proibições e obrigações – numa proposta vazia e estéril. Mal-servida e manipulada pelos seus líderes religiosos, a comunidade judaica tinha-se transformado numa figueira seca (cf. Mc 11,12-14. 20-26), onde Deus não encontrava os frutos que esperava (o culto verdadeiro e sincero, o amor, a justiça, a misericórdia). O próprio Templo – o espaço onde se desenrolavam abundantes ritos cultuais e sumptuosas cerimónias litúrgicas – tinha deixado de ser o lugar do encontro de Deus com a comunidade israelita e tinha-se tornado um lugar de exploração e de injustiça, “um covil de ladrões” (cf. Mc 11,15-19)…
Jesus tem presente tudo isto quando ensina nos átrios do Templo, rodeado pelos discípulos. À sua volta desenrola-se esse folclore religioso, feito de ritos externos, de grandes gestos teatrais, frequentemente vazios de conteúdo. Os “doutores da Lei” (geralmente, do partido dos fariseus; estudavam e memorizavam as Escrituras e ensinavam aos seus discípulos as regras – ou “halakot” – que deviam dirigir cada passo da vida dos fiéis israelitas), com as suas vestes especiais e os traços característicos de quem se julgava com direito a todas as deferências, honras e privilégios, são mais um elemento no quadro desse culto de mentira que Jesus tem diante dos olhos.
Em contraponto, Jesus repara no “átrio das mulheres”, onde uma viúva deposita, no tesouro do Templo, a sua humilde oferta (dons voluntários eram feitos com frequência, tendo por finalidade, por exemplo, cumprir votos). As viúvas, no ambiente palestino de então (sobretudo quando não tinham filhos que as protegessem e alimentassem), eram o modelo clássico do pobre, do explorado, do débil.

MENSAGEM

O nosso texto compõe-se, portanto, de duas partes. Na primeira parte (vers. 38-40), Jesus faz incidir a atenção dos seus discípulos sobre o grupo dos doutores da Lei. Aparentemente, os doutores da Lei são figuras intocáveis da comunidade, com uma atitude religiosa irrepreensível. São estimados, admirados e adulados pelo povo, que os tem em alto conceito. Contudo, o olhar avaliador de Jesus não se detém nas aparências, mas penetra na realidade das coisas… Uma análise mais cuidada mostra que esses doutores da Lei são hipócritas e incoerentes: fazem as coisas, não por convicção, mas para serem considerados e admirados pelo povo; procuram os primeiros lugares, preocupam-se em afirmar a sua superioridade diante dos outros, exibem uma devoção de fachada, fazem do cumprimento dos ritos e regras da Lei um espectáculo para os outros aplaudirem… A sua vida é, portanto, um imenso repertório de mentira, de incoerência, de hipocrisia… Como se isso não bastasse, estes doutores da Lei aproveitam-se, frequentemente, da sua posição e da confiança que inspiram – como intérpretes autorizados da Lei de Deus – para explorar os mais pobres (aqueles que são os preferidos de Deus); servem-se da religião para satisfazer a sua avareza, não têm escrúpulos em aproveitar-se boa-fé das pessoas para aumentar os seus proveitos; exploram as viúvas, que lhes confiam a administração dos próprios bens, alinham em esquemas de corrupção e de exploração…
Os doutores da Lei, com os seus comportamentos hipócritas, mostram que os ritos externos, os gestos teatrais, o cumprimento das regras religiosamente correctas não chegam para aproximar os homens de Deus e da santidade de Deus. Ao olhar para a atitude dos doutores da Lei, os discípulos de Jesus têm de estar conscientes de que este não é o comportamento que Deus pede àqueles que querem fazer parte da sua família.
Na segunda parte (vers. 41-44), Jesus convida os discípulos a perceber a essência do verdadeiro culto, da verdadeira atitude religiosa. Em profundo contraste com o quadro dos doutores da Lei, Jesus aponta aos discípulos a figura de uma pobre viúva, que se aproxima de um dos treze recipientes situados no átrio do Templo, onde se depositavam as ofertas para o tesouro do Templo. A mulher deposita aí duas simples moedas (dois “leptá”, diz o texto grego. O “leptá” era uma moeda de cobre, a mais pequena e insignificante das moedas judaicas); contudo, aquela quantia insignificante era tudo o que a mulher possuía. Ninguém, excepto Jesus, repara nela ou manifesta admiração pelo seu gesto. Apenas Jesus – que lê os factos com os olhos de Deus e sabe ver para além das aparências – percebe naquelas duas insignificantes moedas oferecidas a marca de um dom total, de um completo despojamento, de uma entrega radical e sem medida. O encontro com Deus, o culto que Deus quer passa por gestos simples e humildes, que podem passar completamente despercebidos, mas que são sinceros, verdadeiros, e expressam a entrega generosa e o compromisso total. O verdadeiro crente não é o que cultiva gestos teatrais e espampanantes, que impressionam as multidões e que são aplaudidos pelos homens; mas é o que aceita despojar-se de tudo, prescindir dos seus interesses e projectos pessoais, para se entregar completa e gratuitamente nas mãos de Deus, com humildade, generosidade, total confiança, amor verdadeiro. É este o exemplo que os discípulos de Jesus devem imitar; é esse o culto verdadeiro que eles devem prestar a Deus.

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http://www.dehonianos.org/portal/liturgia/?mc_id=2272

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32º Domingo do Tempo Comum – Ano B

EVANGELHO – Marcos 12,38-44

CUIDADO COM OS DOUTORES DA LEI

** 32º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B - Dehonianos

** 32º DOMINGO DO TEMPO COMUM - Revista Pastoral – Zuleica Aparecida Silvano

** O MELHOR DA IGREJA - José Antonio Pagola

** BUSCANDO NOVAS ÁGUAS - Pe Antônio Geraldo dalla Costa

** BUSCANDO NOVAS AGUAS - Vídeos no YouTube –  Pe Antôn

** A GENEROSIDADE DO CORAÇÃO = A RIQUEZA DOS POBRES - Raimond Gravel

** A VERDADEIRA GENEROSIDADE - Franciscanos – Pe Johan Konings sj

** REFLEXÃO PARA O XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – MARCOS 12,38-44 (ANO B) -  

** AS MOEDAS DO CORAÇÃO NÃO FAZEM RUIDO - Pe. Adroaldo Palaoro sj

** ESTA  POBRE VIÚVA DEU TODA SUA VIDA - Enzo Bianchi

** DERAM TUDO O QUE POSSUIAM - Marcel Domergue

** UM ENSINO SILENCIOSO - Ana Maria Casarotti

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