Mc 13,33-37 – VIGIAR PARA NÃO SER SURPREENDIDO

VIGIAR PARA NÃO SER SURPREENDIDO

Mc 13,33-37

(Mt 24, 42; 25,13-15; Lc 19, 12-13; 12,38.40)

 29/34-PARÁBOLA

13,33 Tomem cuidado (ble,pete)(7/7) e vigiem (avgrupnei/te)(1/7)! Porque vocês não sabem quando vai ser o tempo ((kairo.j)8/9).

34 Vai acontecer como a um homem que partiu para o estrangeiro. Ele deixou a casa, distribuiu a tarefa a cada um dos empregados, e mandou o porteiro ficar vigiando (grhgorh)(2/7).

35 Vigiem (grhgorei/te)(3/7), portanto, porque vocês não sabem quando o senhor da casa (o` ku,rioj th/j oivki,aj) vai voltar; pode ser à tarde, à meia-noite, de madrugada ou pelo amanhecer.   (Quem é o senhor da casa? Cf. 3,27)

36 Se ele vier de repente, não deve encontrá-los dormindo (kaqeu,dontaj).

37 O que eu digo a vocês, digo a todos : fiquem vigiando (grhgorei/te)(4/7).”

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BP:* 28-37: Somente agora Jesus responde à pergunta dos discípulos (v. 4). Mas, em vez de dizer «quando» ou «como» acontecerá o fim, ele indica apenas como o discípulo deve se comportar na história. A tarefa do discípulo é testemunhar sem desanimar, continuando a ação de Jesus. A espera da plena manifestação de Jesus e do mundo novo por ele prometido impede, de um lado, que o discípulo se instale na situação presente; de outro, evita que o discípulo desanime, achando que o projeto de Jesus é difícil, distante e inviável.

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Jose Maria Castillo: Mc 13,33-37

Este evangelho nos diz algo muito mais forte. O chamado à vigilância, que aqui nos recorda Jesus, é a conclusão do discurso que, segundo Marcos, Jesus pronunciou antes de sua morte.  Neste discurso, Jesus anunciou duas coisas:

1ª) A destruição total do Templo (Mc 13,1-2).

2ª) A queda do sol, da lua e das estrelas (Mc 13,24-25) que indicam, segundo os profetas (Is 13,34; Jr 4,20-23; Ez 32,7 etc.), a ruína dos grandes impérios, os poderes opressores da humanidade.

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Dehonianos:

O Evangelho deste domingo começa com uma parábola – a parábola do homem que partiu em viagem, distribuiu tarefas aos seus servos e mandou ao porteiro que vigiasse (cf. Mc 13,33-34) – e termina com uma admoestação aos discípulos acerca da atitude correcta para esperar o Senhor (cf. Mc 13,35-37). Primitivamente, a parábola contada por Jesus seria dirigida aos discípulos e teria como objectivo recordar-lhes o dever de guardar e fazer frutificar os tesouros desse Reino que Jesus lhes confiou antes de partir para o Pai.

O “dono da casa” da parábola é, evidentemente, Jesus. Ao deixar este mundo para voltar para junto do Pai, Ele confiou aos discípulos a tarefa de construir o “Reino” e de tornar realidade um mundo construído de acordo com os valores do Reino. Os discípulos de Jesus não podem, portanto, cruzar os braços, à espera que o Senhor venha; eles têm uma missão – uma missão que lhes foi confiada pelo próprio Jesus e que eles devem concretizar, mesmo em condições adversas. É necessário não esquecer isto: esta espera, vivida no tempo da história, não é uma espera passiva, de quem se limita a deixar passar o tempo até que chegue um final anunciado; mas é uma espera activa, que implica um compromisso efectivo com a construção de um mundo mais humano, mais fraterno, mais justo, mais evangélico.

Quem é o “porteiro”, com uma tarefa especial de vigilância (vers. 34)? Na perspectiva de Marcos, o “porteiro” parece ser todo aquele que tem uma responsabilidade especial na comunidade cristã… A sua missão é impedir que a comunidade seja invadida por valores estranhos ao Evangelho e à dinâmica do Reino. A figura do “porteiro” adequa-se, especialmente, aos responsáveis da comunidade cristã, a quem foi confiada a missão da vigilância e da animação da comunidade. Eles devem ajudar a comunidade a discernir permanentemente, diante dos valores do mundo, aquilo que a comunidade pode ou não aceitar para viver na fidelidade activa a Jesus e às suas propostas.

Todos – “porteiro” e demais servos do “senhor” – devem estar activos e vigilantes. A palavra-chave do Evangelho deste dia é esta: “vigilância”. Contudo, “vigilância” não significará, para os discípulos, o viver à margem da história, num angelismo alienante, evitando comprometer-se para não se sujar com as realidades do mundo e procurando manter a “alminha” pura e sem mancha para que o Senhor, quando chegar, os encontre sem pecados graves; mas será o viver dia a dia comprometido com a construção do Reino, realizando fielmente as tarefas que o Senhor lhes confiou. Essas tarefas passam pelo compromisso efectivo com a construção de um mundo novo, um mundo que viva cada vez mais de acordo com os projectos de Deus.

O nosso texto assegura aos discípulos, em caminhada pelo mundo, que o objectivo final da história humana é o encontro definitivo e libertador com Jesus. “O Senhor vem” – garante-lhes o próprio Jesus; e esta certeza deve animar e dar esperança aos discípulos, sobretudo nos momentos de crise e de confusão. Mesmo que tudo pareça ruir à sua volta, os discípulos são chamados a não perder a esperança e a ver, para além das estruturas velhas que vão caindo, a realidade do mundo novo a nascer.

Que devem os discípulos fazer, enquanto esperam que irrompa definitivamente esse mundo novo prometido? Devem, com coragem e perseverança, dar o seu contributo para a edificação do “Reino”, sendo testemunhas e arautos da paz, da justiça, do amor, do perdão, da fraternidade, cumprindo dessa forma a missão que Jesus lhes confiou.

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1. Evangelho (Mc 13,33-37): Vigiai porque não sabeis a hora

No evangelho de hoje, Jesus, no final de seu ministério terrestre, dá instruções a respeito de como se deve viver na espera pela sua nova vinda. As orientações de Jesus são direcionadas sobretudo aos discípulos (v. 33), mas não exclusivamente a eles, pois querem alcançar a todos (v. 37): “O que vos digo, digo a todos: Vigiai!”. Isso significa que, especialmente para a Igreja, Jesus deixou a tarefa do serviço e da vigilância, à maneira de servos e de porteiros do reino de Deus.

Mas vigiar não faz dos discípulos de Jesus meros servos à mercê dos caprichos de um amo imprevisível nem, muito menos, vigias à espreita para dominar os vigiados. A Igreja, comunidade dos seguidores de Jesus, é companheira de todas as pessoas nos caminhos da história, é companheira do Mestre, que a precedeu como dom generoso e lhe deu o mandato de levar a termo sua missão de instaurar o reino de paz e fraternidade.

Vigiar é a atitude de quem está sob a escuridão da noite, à espera da aurora do grande dia do Senhor, da vinda de Cristo, que a liturgia enfatiza através do termo advento. Os tempos atuais, no dizer de Jesus a seus discípulos, são como uma noite. A expressão “à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer” (v. 35) são os quatro momentos nos quais se dividia a noite na Antiguidade: desde o pôr do sol, à meia-noite, ao cantar do galo, ao amanhecer.

É uma noite de espera e de esperança de tempos melhores, estamos no meio da noite antes da aurora da plenitude da redenção. A esperança vem do fato de que o Senhor esperado é o mesmo que se ofereceu por nós. O vigia é aquele que fica atento no serviço enquanto os outros estão desatentos e inertes em sono profundo. Por isso, vigiar foi a última recomendação de Jesus, ao concluir seu ministério terrestre. O vigia também deve enfrentar com coragem e determinação todas as adversidades que podem surgir durante a noite. Significa permanecer firme na esperança, animado pela certeza de que o Senhor vem. Portanto, o Advento, o período da espera, é tempo do compromisso com a construção do Reino. É tempo que nos pede compromisso com a conversão, para que o Senhor não nos pegue de surpresa, negligenciando suas ordens.

Por Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

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UMA IGREJA DESPERTA

 As primeiras gerações cristãs viveram obcecadas pela rápida vinda de Jesus. O ressuscitado não podia demorar. Viviam tão atraídos por Ele que queriam encontrar-se de novo quanto antes. Os problemas começaram quando viram que o tempo passava e a vinda do Senhor demorava.

 Rapidamente se deram de conta de que esta demora encerrava um perigo mortal. Podia-se apagar o primeiro ardor. Com o tempo, aquelas pequenas comunidades podiam cair pouco a pouco na indiferença e o esquecimento. Preocupava-os uma coisa: «Que, ao chegar, Cristo não nos encontre a dormir».

 A vigilância converteu-se na palavra-chave. Os evangelhos repetem-na constantemente: «vigilai», «estejam alerta», «vivei despertos». Segundo Marcos, a ordem de Jesus não é só para os discípulos que o estão a escutar. «O que vos digo a vós digo-o a todos: Velai». Não é uma chamada má. A ordem é para todos os seus seguidores de todos os tempos.

 Passaram vinte séculos de cristianismo. Que aconteceu a esta ordem de Jesus? Como vivem os cristãos de hoje? Continuamos despertos? Mantém-se viva a nossa fé ou foi-se apagando na indiferença e na mediocridade?

 Não vemos que a Igreja necessita um coração novo? Não sentimos a necessidade de sacudirmos a apatia e o auto engano? Não vamos despertar o melhor que há na Igreja? Não vamos reavivar essa fé humilde e limpa de tantos crentes simples?

 Não temos de recuperar o rosto vivo de Jesus, que atrai, chama, interpela e desperta? Como podemos seguir falando, escrevendo e discutindo tanto de Cristo, sem que a sua pessoa nos apaixone e transforme um pouco mais? Não nos damos conta de que uma Igreja «adormecida» a quem Jesus Cristo não seduz nem toca o coração, é uma Igreja sem futuro, que se irá apagando e envelhecendo por falta de vida?

 Não sentimos a necessidade de despertar e intensificar a nossa relação com Ele? Quem como Ele pode despertar o nosso cristianismo da imobilidade, da inércia, do peso do passado, da falta de criatividade? Quem poderá contagiar-nos a sua alegria? Quem nos dará a Sua força criadora e a Sua vitalidade?

 José Antonio Pagola    Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

HOMILIA

 27 de novembro de 2011

 A CASA DE JESUS

 Jesus está em Jerusalém, sentado no monte das Oliveiras, olhando para o Templo e conversando confidencialmente com quatro discípulos: Pedro, Santiago, João e Andre. Vê-os preocupados por saber quando chegará o final dos tempos. A Ele, pelo contrário, preocupa-O como viverão os Seus seguidores quando já não O tenham entre eles.

 Por isso uma vez lhes apresenta a Sua inquietação: «Olhai, vivei despertos». Despois, deixando de lado a linguagem terrorífica dos visionários apocalípticos, conta-lhes uma pequena parábola que passou quase desapercebida entre os cristãos.

 «Um senhor foi de viajem e deixou a sua casa». Mas, antes de se ausentar, «confiou a cada umo dos seus criados a sua tarefa». Ao despedir-se, só lhes insistiu numa coisa: «Vigiai, pois não sabeis quando virá o dono da casa». Que quando venha, não vos encontre adormecidos.

 O relato sugere que os seguidores de Jesus formarão uma família. A Igreja será “a casa de Jesus” que substituirá “a casa de Israel”. Nela todos são servidores. Não hã senhores. Todos viverão à espera do único Senhor da casa: Jesus Cristo. Não o esquecerão jamais.

 Na casa de Jesus ninguém deve permanecer passivo. Ninguém se tem de sentir excluído, sem responsabilidade alguma. Todos são necessários. Todos têm alguma missão confiada por Ele. Todos estão chamados a contribuir para grande tarefa de viver como Jesus que conheceram sempre dedicado a servir o reino de Deus.

 Os anos irão passando. Será que se manterá vivo o espírito de Jesus entre os Seus? Continuarão a recordar o seu estilo de Serviço aos mais necessitados e desvalidos? Irão segui-lo pelo caminho aberto por Ele? A Sua grande preocupação é que a Sua Igreja é que venha a adormecer. Por isso, insiste até três vezes: «vivei despertos“. No é uma recomendação aos quatro discípulos que o estão a escutar, mas sim um mandato aos crentes de todos os tempos: «O que vos digo, digo a todos: velai».

 O traço mais generalizado dos cristãos que não abandonaram a Igreja é seguramente a passividade. Durante séculos, temos educado os fieis para a submissão e a obediência. Na casa de Jesus só uma minoria se sente hoje com alguma responsabilidade eclesial.

 Chegou o momento de reagir. Não podemos continuar a aumentar mais ainda a distancia entre “os que mandam” e “os que obedecem”. É pecado promover o desafeto, a mútua exclusão ou a passividade. Jesus queria ver-nos a todos despertos, ativos, colaborando com lucidez e responsabilidade.

 José Antonio Pagola    Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

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REFLEXÃO PARA O 1º DOMINGO DO ADVENTO – MARCOS 13,33-37 (ANO B)

Neste domingo, a Igreja inicia mais um ano litúrgico, convidando-nos a, mais uma vez, percorrer o caminho de Jesus Cristo, contemplando e vivendo o mistério da sua vida, morte e ressurreição. Advento é a palavra que designa a primeira etapa do ano litúrgico, cujo sentido literal é vinda ou visita. Trata-se de um tempo especial que a Igreja dedica à preparação para a magnífica celebração do Natal do Senhor, expressão maior da visita definitiva de Deus à humanidade.

Com o início do novo ano litúrgico, iniciamos também a leitura do Evangelho segundo Marcos, porém, não do seu início, mas do seu final, precisamente do seu pequeno discurso escatológico, comparado ao de Mateus. Por isso, o texto proposto para hoje é Mc 13,33-37. O discurso escatológico está presente nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), e trata das realidades últimas e finais da história, antecedendo as narrativas da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

A princípio, parece até paradoxal que a preparação para o natal seja iniciada com palavras sobre as realidades últimas. Porém, é necessário compreender o advento como uma oportunidade de preparação para a vinda constante do Senhor na vida de cada pessoa, tornando essa vinda uma presença, ao invés de apenas alimentar uma expectativa futurista e preparar para uma única data ou evento. É importante também perceber a continuidade do tempo: como nos últimos domingos do ano litúrgico anterior refletimos, a partir do discurso escatológico de Mateus, o tema da vigilância, é também com esse tema que abrimos o novo ano.

O Evangelho proposto consiste nas últimas palavras de Jesus antes do relato da paixão: Mc 13,33-37. É necessário fazer uma pequena contextualização para uma compreensão mais adequada do mesmo. Jesus se encontrava em Jerusalém e, ao sair do templo, os discípulos expressaram admiração a respeito da magnitude do templo; à essa admiração, Jesus respondeu: “não restará pedra sobre pedra”. Então, os discípulos perguntaram: “Quando estas coisas acontecerão?” (cf. Mc 13,1-4). Portanto, o Evangelho de hoje é a conclusão da resposta de Jesus a essa pergunta dos discípulos.

Ainda a respeito do contexto, é necessário recordar o versículo que precede de imediato o nosso texto: “Ora, a respeito daquele dia ou hora, ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, mas somente o Pai” (Mc 13,32). Como sabemos, passados alguns anos após a ressurreição, os cristãos começaram a inquietar-se, pois esperavam com muita ansiedade pela segunda vinda do Senhor e, como essa não acontecia, muitos desanimavam, sobretudo quando começaram as perseguições. Por isso, explorou-se bastante a pregação sobre a imprevisibilidade dessa vinda, enfatizando que o importante é manter vivo o espírito de vigilância, sem preocupação com o dia ou a hora.

Foquemos, pois, em nosso texto: Mc 13,33-37. A palavra chave desse pequeno texto evangélico é o imperativo “vigiai”; a mesma ocorre três vezes (vv. 33.35.37) embora a versão litúrgica omita uma delas, infelizmente: “Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento” (v. 33). Ao invés de “Cuidado! ficai atentos”, seria mais adequado: “abri os olhos e vigiai”, por corresponder melhor à expressão grega “blépete agrípneite”. Diante da indefinição, não há outra saída para a comunidade a não ser a vigilância. Esse versículo prepara o leitor/ouvinte para a pequena parábola que vem a seguir, mostrando como deve ser feita essa vigilância.

Eis a continuação: “É como um homem que, ao partir, para o estrangeiro, deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua tarefa. E mandou o porteiro ficar vigiando” (v. 34). Em apenas um versículo, Marcos consegue transmitir uma parábola extraordinária, modificada e ampliada por Mateus e Lucas (cf. Mt 25,14-30 = parábola dos talentos // Lc 19,11-28 = parábola das dez minas). A partida do homem para o estrangeiro equivale ao intervalo temporal entre a ascensão e a tão esperada, porém desconhecida, segunda vinda do Senhor.

O evangelista quer ensinar à sua comunidade que, ao invés de preocupar-se com questões relativas ao tempo em que o Senhor virá, o importante é trabalhar para a sua mensagem manter-se viva e atuante na vida das pessoas, uma vez que Ele nunca se ausentou da comunidade que nunca deixou faltar o amor. Para isso, é importante que cada membro sinta-se responsável, como servo bom e fiel, ao bem-estar da casa. Surpreende o uso da imagem da casa: sinal de universalidade, ao contrário da vinha, por exemplo, imagem exclusiva do povo de Israel, e ao mesmo tempo, sinal das pequenas comunidades, nas quais todos se conhecem e devem viver em comunhão, a partir de relações movidas pelo amor, a justiça e a solidariedade. Na casa, enquanto, família, todos são iguais: empregados e porteiros, com a mesma responsabilidade de não deixar faltar o amor e a concórdia, bem como o pão material, tão necessário para o dia-a-dia.

O perigo de esfriamento na vivência da fé era tão grande, a ponto de ser necessário insistir no imperativo “vigiai”; assim, prossegue o versículo seguinte: “vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer” (v. 35). Sendo o Senhor o dono da casa, aos servos compete apenas vigiar. Porém, é necessário ressaltar, mais uma vez, a natureza dessa vigilância tão cara ao Senhor; não se trata de busca por segurança ou conforto, mas simplesmente de manter o evangelho vivo e atuante na vida das pessoas. A comunidade vigilante é aquela na qual os sinais do Reino se manifestam: amor e justiça em abundância. Onde esses valores abundam, o que menos tem importância é o tempo. Inclusive, quanto mais tardar o Senhor, mais frutos a casa/comunidade terá gerado; por isso, o cristão só pode ter pressa em uma coisa: em fazer o bem!

O motivo da vigilância é muito claro: “Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo” (v. 36). É claro que o texto não se refere ao dormir como a necessidade natural do ser humano, pois dessa ninguém pode privar-se, mas como a indiferença e a omissão em relação aos valores do evangelho. Nesse caso, dormir significa deixar de praticar a mensagem de Jesus Cristo, abandonar seu ensinamento. Mais que triste, é até trágico quando uma comunidade abandona a mensagem libertadora do evangelho, deixando de praticar o amor, a justiça e a solidariedade, ou seja, quando não tem mais a fraternidade como sinal distintivo. Por isso, o convite é novamente reforçado e, agora, com a sua dimensão universal mais explícita ainda: “O que vos digo, digo a todos: Vigiai!” (v. 37). Todos da comunidade, e em todos os tempos, são convocados à vigilância da prática do amor.

Não importa quando o Senhor virá pela segunda vez. Procuremos celebrar a sua primeira vinda, ou seja, o natal, como certeza de que Ele já veio e conosco está; porém, sua presença constante não será percebida enquanto não assumirmos a nossa responsabilidade na casa que Ele nos confiou: a família, a comunidade, o universo como “casa comum”. Para celebrarmos bem a certeza de que Ele já veio, só nos resta mantermo-nos acordados, ou seja, praticando o amor, acima de tudo. Vigiar é isso!

Mossoró-RN, 02/12/2017, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
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