Pe Gilvan – REFLEXÕES LITÚRGICAS

REFLEXÕES de Pe. Gilvan  Leite  de  Araujo

25º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

1ª Leitura: Sb 2,12.17-20

Na primeira parte da obra (1-6) o autor do livro da Sabedoria inicia dando a palavra aos ímpios; para estes, a vida não tem nenhuma perspectiva de além; na morte, o espírito se dissipa como o ar; motivo pelo qual os ímpios preferem gozar desenfreadamente o tempo presente (2,1-9). Contudo, a simples presença do justo, sua fidelidade e sua firmeza ao afirmar que Deus os protege no fim, leva os ímpios a persegui-los, condenando-os a morte para ver como reagem (2,10-20).

Para o autor, as criaturas são portadoras de salvação e Deus criou o homem imortal e incorruptível (1,13-13; 2,21-24). Estas duas afirmações são aplicadas pelo autor a três categorias de justos, cuja existência, aos olhos do mundo, é uma desgraça: 1) os justos que morrem no sofrimento (3,1-9); 2) a mulher estéril ou o eunuco (3,11-15; 4,1-2); e, 3) o justo que morre na flor da idade (4,7-14). Nenhum deles terá conhecido aqui na terra a felicidade, mas receberão, como recompensa, a visita de Deus após sua partida. Por outro lado, os ímpios, confrontados, serão castigados (3,10.16-19…). No final os justos se encontram com os ímpios (5,1-3). O autor concede novamente a palavra aos ímpios para expressarem o espanto diante da felicidade do justo (5,4-5) e o vazio de suas vidas (5,6-13). Após isto, Deus intervirá diretamente contra os ímpios em favor dos justos utilizando-se das forças do cosmo (5,14-23).

Na 1ª leitura se encontra justamente a palavra dos ímpios contra os justos, pois sua simples presença é uma ameaça ao seu modo dissoluto de viver. Portanto, eles se voltam contra os justos com violência afim de manter o seu status. Mas o martírio do justo resulta na derrocada dos ímpios.

Esta concepção se coloca como moldura para a paixão de Jesus. O justo perseguido e morto, mas seu sangue derramado na cruz se torna potência de queda para os ímpios.

O restante da primeira parte da obra é dirigido aos que exercem governo (reis e príncipes), pois estes terão o julgamento mais severos que os demais por serem mais poderosos (6,1-20). O exercício da autoridade exige sabedoria, que será apresentada no restante da obra. Um governante insensato pode destruir uma nação e levar um povo à miséria e ao sofrimento.

Evangelho: Mc 9,30-37

Na primeira parte, Jesus se apresenta como o justo que morrerá na flor da idade nas mãos dos insensatos que exercem autoridade: “O justo que morre condena os ímpios que vivem, e a juventude em breve consumada, a velhice longa do injusto” (Sb 4,16). Mas sua fidelidade será motivo de vitória (=ressurreição: “Agradou a Deus, Deus o amou” [Sb 4,19]). Por outro lado, os discípulos desejam justamente a autoridade daqueles que levarão o seu mestre à morte. Jesus demonstra que na comunidade cristã a autoridade passa pelo princípio da diaconia, ou seja, trata-se de um serviço a favor dos demais.

O colocar a criança (=o pequeno) no centro é justamente inverter o centro do poder, ou seja, o centro da pessoa não é nem o seu “umbigo”, e nem aqueles que exercem poder, mas o outro, descrito no modelo da criança. É aquele que precisa de cuidado e proteção. Neste sentido, o exercício do poder na comunidade cristã é uma prática em favor dos pequenos, que implica em proteger, cuidar, edificar.

2ª Leitura: Tg 3,16-4,3

A narrativa da Carta de Tiago resgata o tema da 1ª Leitura sobre o sábio e o insensato. O Livro de Provérbios começa narrando que “O temor de Iahweh é princípio de conhecimento: os insensatos desprezam sabedoria e disciplina” (1,7), bem como o Libro do Eclesiástico: “O princípio da sabedoria é temer ao Senhor… A coroa da sabedoria é o temor do Senhor, ela faz florescer o bem-estar e a saúde” (1,14.18).

Na Carta de Tiago, somente a conduta de vida moralmente responsável, que se expressa nas obras, é uma prova de sabedoria. O destaque na narrativa é a serenidade da pessoa, descrito por meio de alguns adjetivos, como um modo de vida discreto, por meio do qual deixa espaço para o outro. Dirá o Livro de Eclesiástico “Filho, conduze teus negócios com doçura e serás amado mais do que um homem generoso. Quanto mais fores importante, tanto mais humilha-te para achares graça diante do Senhor” (3,17-18). Assim, a sabedoria se torna incompatível com a arrogância, a prepotência e a violência, que pode configurar uma “pseudo-sabedoria”, descrita por Tiago como coisa terrena. Tiago vai na linha de Eclesiástico, quando este afirma: “É melhor ser pouco inteligente com temor do que muito inteligente, mas transgressor da lei” (19,24). Nesta linha, Paulo dirá que a verdadeira sabedoria é aquela que vem do alto: “Desses dons não falamos segundo a linguagem ensinada pela sabedoria humana, mas segundo aquela que o Espírito ensina, exprimindo realidades espirituais em termos espirituais. O homem psíquico não aceita o que vem do Espírito de Deus. É loucura para ele; não pode compreender, pois isso deve ser julgado espiritualmente. O homem espiritual, ao contrário, julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado. Pois quem conheceu o pensamento do Senhor para poder instruí-lo? Nós, porém, temos o pensamento de Cristo” (1Cor 2,13-16).

Paulo distingue entre os homens espirituais e os homens carnais. Os primeiros são aqueles que recebem a sabedoria do alto, enquanto os homens carnais recebem as instruções da terra, tornando-os incapazes de reconhecer o que é do “alto”: “Pois há muitos, dos quais muitas vezes eu vos disse e agora repito, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo: seu fim é a destruição, seu deus é o ventre, sua glória está no que é vergonhoso, e seus pensamentos no que está sobre a terra” (Fl 3,18).

Na relação entre os pressupostos paulinos e de Tiago se apresenta a distinção entre os homens espirituais e os homens carnais. Tanto um como o outro podem possuir profunda inteligência, mas os homens espirituais se configuram como sábios por possuírem o temor de Deus, enquanto os homens carnais são configurados como insensatos, por depositarem a sua confiança naquilo é efêmero, naquilo que é terreno.

O justo, por sua discrição, pois coloca o outro como centro da sua missão, e como temente ao Senhor, produz obras de justiça, sendo descrito por Tiago como semeador da paz.

 

 

24º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

            A liturgia do 24º Domingo apresenta um ponto de guinada da catequese do Evangelho de Marcos. Até o momento, Jesus vem realizando a sua missão, ou seja, evangelizando, operando milagres… Contudo, apenas os espíritos malignos o reconhecem como o “Santo de Deus” ou o “Filho de Deus”, enquanto o próprio Jesus se apresenta como o “Filho do Homem”. Mas, chegando ao capítulo oitavo, Pedro professa Jesus como “O Cristo” e a partir deste momento os espíritos malignos se calam. No contexto do capítulo oitavo de Marcos, a profissão de fé da Igreja silencia o tumulto dos espíritos impuros. A Profissão de Fé implica, no entanto, na dimensão do testemunho, da qual a liturgia de hoje aponta.

1ª Leitura: Is 50,5-9a

A leitura proposta é o Terceiro Cântico do Servo Sofredor[1] da profecia de Isaías e que, naturalmente, foi aplicado à pessoa de Jesus Cristo. Contudo, ele não é uma narrativa messiânica.

Na segunda parte da Profecia de Isaías (40-55) encontra-se a palavra “servo/servidor”, sempre no singular (exceção 54,17), 21 vezes em sentido honorífico. Por 14 vezes a palavra “servo” se refere diretamente à Israel ou Jacó, as demais se subentendem que se refira ao Povo de Deus. Lógico que a palavra usada no singular gere dificuldade para compreendê-la no sentido de coletividade. O NT ao utilizá-la em relação à pessoa de Jesus, o faz compreendendo-a no individual. Em todo caso, a expressão “servo” pode ser compreendida no sentido de coletividade, sendo aplica à Israel ou à parte dela (um grupo em particular); A interpretação individual tende a apontar para um personagem histórico, que poderia se referir ao próprio Isaías, ou a Jeremias ou outro personagem; existe, também, uma interpretação mista, a qual identifica o “servo” como um rei, que por sua vez representa o povo.

Os Cânticos do Servo Sofredor foram aplicados, pelo Novo Testamento, diretamente à pessoa de Jesus: Mt 12,18-21, aplica o 1º Cântico; Mt 8,17; Lc 22,37; At 8,32ss; 1Pd 2,22.24 aplicam o 4º Cântico. Contudo, os quatro Cânticos do Servo Sofredor de Isaías não possuem conotação messiânica e nem estão vinculados a este tema. Os cânticos descrevem a sorte daquele que é modelo de fidelidade à Deus. Neste sentido, sendo aplicado à Jesus, indica que Ele é perfeito modelo de fidelidade ao Pai, cuja sorte será à dos profetas que foram “homens de Deus” e, portanto, foram perseguidos e mortos.

Tal perspectiva se abre para uma dimensão eclesial, no sentido de que aqueles que forem fiéis no seguimento do Mestre, sofrerão a mesma sorte, ou seja, serão mártires por sua fidelidade.

Evangelho: Mc 8,27-35

Partindo do esquema da 1ª Leitura, a catequese do Evangelho sublinha o tema do seguimento, o que exige uma opção fundamental pelo Cristo. Neste sentido, a pergunta de Jesus “quem dizem os homens que eu sou” não se trata de uma questão retórica ou de curiosidade, mas uma exigência “E vós, quem dizeis que eu sou”, mas exatamente, uma profissão de fé, o que implica num compromisso.

Pedro afirmará ser Jesus o Messias. Jesus, portanto, anuncia que a sua missão de ser O Messias, resultará em consequências, ou seja, será perseguido, morto, mas ressuscitará. Pedro não aceita tal proposta, pois pensa numa glória segundo critérios humanos. A tradução proposta do que segue está errada: “vai para longe de mim Satanás”. A tradução correta é “vai para trás, Satanás”. O que está em jogo é “quem segue quem?”, ou seja, é Pedro que segue Jesus ou seria Jesus que deveria seguir Pedro? Por este motivo, é que Jesus afirma, vai para trás, ou seja, é você [Pedro] que me segue, não o contrário. A expressão “Satanás” usada aqui por Jesus, indica a função do diabo de “acusador”, evidenciando alguém contrário aos projetos de Deus. Tal ideia aparece no livro do Gênesis, no qual a serpente se configura como acusador, sendo reafirmado no Apocalipse, quando é descrito “o Dragão, a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás… aquele que acusava dia e noite diante de Deus” (cf. Ap 12,9.10). Neste sentido, Satanás se coloca à frente de Deus, após a criação, para confundir a Palavra de Deus (esta é a verdadeira ação do Diabo), gerando a dúvida com suas consequências. Pedro, ao agir do mesmo modo é equiparado, portanto, à Satanás ao querer confundir as palavras de Jesus.

Prosseguirá Jesus, afirmando que o seguimento implicará na mesma sorte. Assim como os profetas foram perseguidos e mortos por sua fidelidade à Deus; assim como Jesus será perseguido e morte por sua fidelidade ao Pai, o discípulo que, for fiel seguidor de Jesus, sofrerá a mesma sorte do Mestre. Contudo, o destino dos profetas é contemplar a glória de Deus, a de Jesus a de ressuscitar e retornar ao Pai e a dos discípulos, por sua fidelidade ao Evangelho, é, também, de ressuscitar para a glória eterna.

2ª Leitura: Tg 2,14-18

A 2ª Leitura coroa a reflexão, ao explicitar que a opção pelo Cristo pressupõe o testemunho. A profissão de fé, não se trata de mera afirmação retórica, mas de um exercício de seguimento. A fé em Cristo Jesus é verificável na atuação cristã no mundo, caso contrário, não terá nenhum efeito e nenhum sentido.

A narrativa de Tiago propõe como modelo de fé o seguimento que se desdobra no amor praticado, no qual não apenas se faz o anúncio da Boa Nova, mas transforma o mundo efetivamente, sendo sinal de vida e de esperança. Lógico que tal postura de ser “sal e luz” do mundo implicará em temor e tremor, como foi Jesus Cristo, ou seja, para aqueles que buscavam o caminho do bem, Jesus se tornou o modelo; mas para aqueles que trilhavam o caminho do mal, Jesus se tornou uma ameaça a ser eliminada, alguém a ser temido e, portanto, eliminado. Assim será o cristão se verdadeiramente for fiel ao Evangelho.

Síntese

A Profissão de Fé em Jesus Cristo passa pelo assumir, no mundo, o testemunho verdadeiro e coerente. O negar as implicações do seguimento, ou seja, o desafio da cruz, é colocar-se a frente do Senhor, assim como fez Satanás na criação. Na realidade, não existe ressurreição sem paixão. Portanto, muitas das mensagens que hoje são anunciadas não são evangélicas, mas satânicas e isto é um perigo. Mensagens nas quais se oferecem isto ou aquilo ou que Jesus vai fazer isto ou aquilo, não são mensagens evangélicas, ou seja, a maioria daquilo que é veiculado nas mídias católicas e evangélicas não são cristãs. Uma mensagem que não passe pelo testemunho, que não assuma a cruz, que não passa pela entrega deve ser vista com suspeita. O verdadeiro seguimento passará pela cruz e pela ressurreição. Trata-se de seguir os passos do Mestre; se ele deixar de ser o referencial e se tornar instrumentalizado com interesses não cristãos, a mensagem poderá ser bonita, mas inútil.



[1] 1º Cântico: Is 42,1-4; 2º Cântico: 49,1-5; 3º Cântico: 50,4-9; e, 4º Cântico: 52,13-53,12.

 

 

23º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

            Entre os capítulos 6 a 8 de Marcos encontram-se duas narrativas de milagre de Multiplicação dos Pães, a primeira ocorre na região da Galileia (6,30-44) e a segunda fora da Galileia (8,1-10). Entre as duas narrativas, também, se encontram duas curas operadas por Jesus: a cura da filha de uma mulher sírio-fenícia (7,24-30) e a cura do surdo-gago (7,31-37). Ambos os miraculados são gentios. Leva-se em conta que, na narrativa marcana, Jesus está operando milagres em favor do Povo Eleito e em favor dos gentios. Assim, a primeira multiplicação dos pães ocorre em favor dos Galileus e a segunda em favor dos gentios. Em consonância com as curas, observa-se o olhar misericordioso de Jesus por todos, independente de pertencer ou não ao Povo Eleito. Este deve ser o fio condutor da liturgia hodierna; além do tema da manifestação da Glória de Deus.

1ª Leitura: Is 35,4-7a

A narrativa da 1ª Leitura pertence ao “Hino da Alegria” que está em posição antagônica ao “Hino do Juízo” (Is 34). O Hino do Juízo se compõe pela sequência: ira do Senhor – sua espada – matança do Senhor – dia da vingança do Senhor, na sua primeira parte. Por sua vez, o Hino da Alegria é composto pelo seguinte esquema:

Deserto Águas Cegos Glória
Ermo Torrentes Surdos Beleza
Páramo Brejo Coxos Glória
Baldio Manancial Mudos Beleza

 

O esquema hínico se conclui do seguinte modo:

Líbano Mãos
Carmelo Joelhos
Saron Corações

 

Na totalidade, a tonalidade do gozo maior é a renovação que atinge as fraquezas do corpo mutilado, a fraqueza do ânimo humilhado, a fraqueza da natureza desolada. Uma torrente de alegria atravessa, irriga e vivifica tudo. A razão do gozo é a Glória do Senhor; a sua recompensa; a sua redenção.

No deserto, já estão redimidos, resgatados e ainda marcham a caminho de Sião. Mesmo marchando, a esperança é tão segura, a presença do Senhor tão manifesta, que o deserto se transfigura em terra prometida e em paraíso reencontrado. A Glória do Senhor não está restrita em Jerusalém, ela pode viajar para o exílio (Ez 1) e manifestar-se no deserto; ali pode contagiar o povo (Sl 34,6). O profeta parou para contemplar a marcha pelo deserto. O povo continua marchando, porque o futuro de plena alegria, enquanto se vislumbra, já está presente.

Evangelho: Mc 7,31-37

A cura do surdo-gago operado por Jesus ocorre na região tipicamente helenística, chamada Decápole, atual Jordânia. A caminhada de Jesus, passando por Tiro, Sidônia e região da Decápole expressa justamente o oráculo isaiano da Glória do Senhor que vai ao encontro do seu povo no deserto. Portanto, a cura da filha da mulher sírio-fenícia e do surdo-gago é a expressão messiânica da Glória do Senhor que se manifesta, transformando tal realidade em Hino de Alegria, pois a esperança agora é certa. Os pagãos foram “contagiados” pela presença do Senhor, permitindo à eles terem esperança, aonde ela não existia.

A forma de cura remete as tradições gregas, ou seja, o tocar a língua do surdo-gago com a sua saliva, tida como poder miraculoso particular. Jesus, então, não se afasta das tradições culturais destes povos, mas as transforma numa perspectiva de fé e salvação em sua pessoa. Existe sensibilidade em todos os níveis, abrindo para aqueles que não tinham esperança a certeza de que o Senhor caminha com eles.

2ª Leitura: Tg 2,1-5

A Carta de Tiago evoca o eixo central da Glória do Senhor, manifesta em Cristo Jesus, que se abre para todos os povos, raças, línguas, nações e classes sociais, tornando-os filhos e filhas de Deus. A acepção de pessoa se torna, portanto, um juízo maligno, pois impede que o Senhor chegue a todos indistintamente. De fato, o Cristo Ressuscitado se torna esperança para todos aqueles não tinham esperança, mas o simples gesto de exaltar um membro da comunidade e desprezar outro, se configura como um testemunho contrário a própria razão de ser do Evangelho. Assim, se configura como uma ação perversa e maligna, pois mata a esperança de um irmão.

A Glória do Senhor, começa a se manifestar na simplicidade do cotidiano. Os pequenos gestos tornam-se testemunhos de que Deus se lembrou, de que Ele está presente. Portanto, a esperança de salvação se torna visível na cotidianidade da vida, parâmetro mestre para um processo de beatificação e canonização, ou seja, como aquele homem ou aquela mulher viveu o cotidiano iluminado/a pelas virtudes teologais.

O cotidiano se torna o lugar do testemunho da manifestação da Glória de Deus nas pequenas coisas. No corriqueiro, no amor praticado.

21º Domingo do TC Ano B 2021

A quarta parte do tema da Eucaristia, seria fundamental para a afirmação teológica da Igreja Católica a respeito da Transubstanciação, corrigindo a percepção Protestante de Consubstanciação. Os autores Protestantes, em vista de atenuar a importância eucarística, em termos de ceia, adotam tal teologia corroborada pelas narrativas da Instituição da Eucaristia dos Sinóticos e de 1Coríntios 11. Tal teologia Protestante é totalmente contestada a partir de Jo 6,52-59. Neste bloco, que não foi meditado este ano por causa da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora (15/08), o autor afirma categoricamente o ato de comer e o ato de “mastigar” efetivamente. Enquanto, na primeira parte do Capítulo 6, a expressão “comer” pode ter um sentido simbólico (ex. “comer a palavra…”), no v. 54, o autor do Quarto Evangelho afirma categoricamente o ato de “mastigar” (verbo trogo), eliminando qualquer compreensão contrária ao ato, de fato, de “comer (verbo estio) a sua carne e beber o seu sangue”. O v. 54 é fundamental para a teologia Católica e Ortodoxa da Transubstanciação.

O tema central, deste domingo, é a escolha diante da proposta da Eucaristia. Neste sentido, o tema eucarístico, no Quarto Evangelho assume algumas características próprias:

a) Eucaristia implica diretamente “comer” da carne e “beber” do sangue de Cristo, afirmado a partir dos verbos “comer” (= estio) e “mastigar” (= trogo), eliminando qualquer possibilidade de mero sentido espiritual ou tipológico, como “comer a palavra…”;

b) Comungar resulta num compromisso com o Cristo, isto significa, doar a própria vida;

Partindo destes dois pressupostos a “vida eucarística” é o alimentar-se de Cristo e viver como Cristo, “que tendo amado os seus amou até o fim…” Assim, a vida eucarística passa pelo processo de adesão (=entrega total).

1ª Leitura: Js 24,1-2a.15-17.18b

A 1ª Leitura situa o tema da escolha livre e radical “a quem quereis servir…” (Js 24,15). A narrativa pertence ao último capítulo do Livro de Josué, o qual narrava todo o processo de tomada de posse da Terra Prometida. Tendo concluído todo o “processo do Êxodo”, Israel deve se posicionar sobre qual sociedade deseja construir. Neste sentido, na chamada Assembleia de Siquém, o Povo de Israel deve se posicionar entre YWHW, que os libertou da escravidão do Egito, fez uma Aliança, conduziu pelo deserto durante quarenta anos e os fixou na Terra Prometida, ou escolher um deus e uma cultura pagã.

Na realidade, a grande questão é o Povo de Israel deseja viver radicalmente uma vida nova modelada pela proposta de YWHW ou deseja retornar à vida de escravidão de outrora no Egito? Neste sentido, o habitar a Terra Prometida exige um processo de conversão radical: uma sociedade norteada pelos princípios da liberdade proposta por YWHW ou uma sociedade nortada pelos princípios da opressão e escravidão, como viviam no Egito.

O resultado da Assembleia é um voto positivo pelo projeto do Deus Libertador de Israel.

Evangelho: 6,60-69

Durante os últimos domingos (17º; 18º; 19º) a liturgia realizou uma pausa na meditação sequenciada do Evangelho de Marcos, para desenvolver do tema da Eucarística a partir da narrativa da Multiplicação dos Pães de Jo 6.

A narrativa tem início fazendo menção direta a Páscoa dos Judeus, que servirá, portanto, de pano-de-fundo para toda a construção desse capítulo. Assim, meditamos que Deus havia dado a Terra Prometida, na qual não poderia haver as angústias e sofrimentos de outrora quando habitavam o Egito: “lembra-te que fostes escravos no Egito…entre vós não poderá ser assim”. Contudo, a narrativa apresenta Jesus em cidades riquíssimas, mas com um povo em estado de miséria; situação que gera compaixão por parte de Jesus. Além disso, este povo deveria, estando celebrando a Páscoa Judaica, em Jerusalém levando os dons para serem apresentadas à YWHW em reconhecimento que agora possuem e em abundância, um sinal de gratidão. Mas, na realidade, este povo está numa situação de extrema miséria, fome, abandono. Isto é um grande escândalo, pois na Terra Prometida não se admite a fome e a injustiça. Inicialmente, Jesus os alimenta, mas depois os convida a uma vida nova, que passa no “comer/mastigar a sua carne” e “beber o seu sangue” e, não somente isso, assumir um compromisso pela vida. Após expor esta condição, os discípulos que o acompanhavam abandonam o seguimento, afirmando que tal discurso é impossível de ser assumido.

A reação de Jesus é radical, ou seja, ele se dirige aos Doze e dá a liberdade para que também partam: “Não quereis também vós partir?” (6,67). A proposta do Reino não permite meio-termo, ou assume ou vai embora. Trata-se de uma opção radical pelo Reino de Deus, que implica em seguir os passos do Mestre até as últimas consequências.

Pedro compreende a situação e faz a opção pela vida ofertada por Jesus: “Senhor, a quem iremos? Tens mensagem de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (6,68-69), ou seja, a proposta eucarística é uma proposta pela vida e isto não é negociável.

2ª Leitura Ef 5,21-32

A Carta aos Efésios está no contexto da “moral doméstica paulina” e propõe, neste domingo, um modelo eclesial, que não parte pelo conceito de submissão, mas de missão. Cada um é chamado à uma vocação e tem no outro a possibilidade de edificação e santificação. Muitas vezes este texto foi utilizado para afirmar conceito de submissão da mulher dentro de um universo machista e/ou patriarcal. Contudo, o próprio texto desmente isto:

submetei-vos uns aos outros no termo de Cristo

As mulheres sejam para os seus maridos como ao Senhor

A tradução é bem diferente da leitura que o Lecionário propõe:

Vós temeis a Cristo, sede solícitos uns para com os outros.

As mulheres sejam submissas aos seus maridos como ao Senhor

Portanto, a condição da mulher não é de jugo, mas de missão na construção da casa, assim como a Igreja deve cumprir a sua missão em relação a Jesus Cristo, a cabeça da Igreja. A narrativa se constrói, portanto, a partir da seguinte estrutura:

a) temor de Cristo (admirar/imitar)

b) submeter-se uns aos outros = ter o outro em grau de importância e colocar-se a serviço

c) As mulheres sejam para os maridos como ao Cristo

d) os maridos estejam a serviço das mulheres como protetores e edificadores

e) união Igreja/Cristo – homem/mulher = mistério (possui contexto divino)

Este modelo de moral doméstica paulina deseja situar a práxis eucarística, no qual aquele que comunga se abre para a edificação do outro a começar pela própria casa. O princípio norteador e o “doar-se por amor” ou “dar a vida por amor”. Assim, a vocação matrimonial possui uma expressão eucarística: Cristo se doou por amor à sua Igreja e esta é toda dele, reverenciando-o porque Cristo, O Esposo, foi capaz de dar a sua vida em favor da sua esposa (= a Igreja). Assim, a relação da Igreja/esposa não é de escravidão, mas de submissão amorosa àquele que a ama incondicionalmente e é capaz de dar a vida por ela. Portanto, ela se sente amada e protegida e deseja ser toda dele. É um “mistério”, ou seja, é coisa de Deus.

A mútua edificação da esposa e do esposo se torna uma expressão eucarística, na qual o amor emana de forma singular e se torna “um sinal de vida” para a humanidade e uma esperança certa.

Síntese

Israel se comprometera com o Projeto proposto por Josué, cuja base estava em toda trajetória liderada por Moisés. Contudo, Jesus encontrará uma situação contrária à proposta da Terra Prometida. Num primeiro momento ele responde à situação atual de fome e miséria. Mas é preciso um processo de mudança radical que passe pela adesão à sua pessoa e vivência segundo tal adesão. Mas a resposta imediata é negativa, querem apenas alguém que sacie a fome, mas não faça exigências.

Pedro compreende tal pressuposto confirmando que através do “Santo de Deus” a humanidade encontrará a verdadeira libertação e, portanto, assumir Jesus, é assumir um Projeto de Vida, que tem sua configuração na vida eucarística.

Solenidade da Assunção de Nossa Senhora Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

          Muitas comunidades pelo Brasil, durante a semana-santa possuem o costume de realizar a procissão do encontro, através de duas procissões, uma com a imagem de Nossa Senhora e outra com a imagem de Jesus. Contudo, tal prática remonta as tradições celebrativas medievais de Nossa Senhora que ocorriam no dia 15 de agosto. Sendo uma tradição antiguíssima da Igreja a Solenidade da Imaculada será afirmada, de fato, pela Igreja somente em 1954 através da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, pelo Papa Pio XII.

O contexto histórico da definição dogmática da Assunção de Nossa Senhora é o pós-guerra, no qual o mundo vive o drama de sentido da pessoa humana, após tantas vidas terem sido perdidas e tanto sangue derramado. Neste sentido, o que é a pessoa humana? Para o existencialismo filosófico francês Jean-Paul Sartre, a vida humana (em-si/para-si) é uma experiência, que pode ser descrita, angustiante e o destino do homem é o nada. Por outro lado, o Dogma da Assunção de Nossa Senhora proclama que o sentido da vida humana é o abrir-se para o outro, num edificante estar a serviço do outro. Estando a pessoa humana edificando o outro o seu destino é encontra-se com o seu Criador, que desde a eternidade está à serviço por amor.

As leituras propostas para a Solenidade descrevem justamente esta dinâmica cristã do ir ao encontro do outro para servir por amor (Evangelho) e a certeza de que aqueles que se tornaram todo de Cristo, terá como destino ser acolhido por Ele na eternidade (2ª Leitura). Portanto, a vida no mundo deixa de ser uma angústia para ser uma possibilidade, mesmo que passe pelas dificuldades da vida humana, e o destino humano deixa de ser um nada para ser um todo em Cristo.

A Constituição Apostólica evoca a figura do Papa Sergio I (650-701 d.C.) que prescrevera as ladainhas nas festas de Nossa Senhora (Natividade, Anunciação, Purificação e Dormição). Já ao tempo do Papa Leão IV (790-855 d.C.), se celebrava a Solenidade da Dormição de Nossa Senhora com o nome de Assunção da Bem-Aventurada Mãe de Deus.

Originalmente, de fato, a solenidade fazia memória da “santa morte” (Pausatio; Dormitio; Depositio; Natale Transitus B.M.V.) e a gloriosa assunção em corpo e alma ao céu de Nossa Senhora. Lógico que se desconhece quando Ela tenha dado o “último respiro”. Autores patrísticos, como Eusébio, chegaram a sugerir o ano de 48 d.C., alguns outros autores sugeriram que Ela teria a idade de 63 ou 69 anos, outros, mesmo sem nenhum fundamento, chegaram a sugerir que ela tenha sido martirizada ou ainda que ela nem tenha morrido. Sobre esta questões Santo Epifânio chega a seguinte conclusão: “ninguém sabe qual tenha sido o fim terrestre da Mãe de Deus” (Haeres. 78,24/PG 42,737). O que se conhece, de fato, é que após a morte de Jesus, o Quarto Evangelho afirma que Nossa Senhora foi acolhida pelo discípulo Amado (cf. Jo 19,27), bem como o Atos dos Apóstolos à descreve junto com os Apóstolos no dia de Pentecostes em Jerusalém (cf. At 1,14).

Partindo do contexto Joanino a permanece a questão do lugar da morte de Nossa Senhora: Éfeso ou Jerusalém? Os dois lugares disputam a honra de possuir a sua tumba. Em todo caso, a partir do testemunho de Santo Antonino de Piacenza, Jerusalém é mais bem acreditado. Além do mais, as primeiras referências a data de 15 de agosto são provenientes da Cidade Santa, através da figura do Bispo Juvenal de Jerusalém (séc. IV d.C.), na qual se celebrava o dia da Maria, Mãe de Deus, bem como, com a ajuda de “uma nobre senhora de Jerusalém”, foi edificada a Capela Kathisma (=repouso) próximo da cidade de Belém. Alguns autores sugerem a data de 15 de agosto como a data da consagração desta capela.

Independente das questões sobre a origem, a Solenidade da “Dormição” e “Assunção de Nossa Senhora em Corpo e Alma”, entra na tradição popular cristã[1] como um Solenidade de especial importância, percorrendo os séculos até a Proclamação do Dogma no séc. XX.

Evangelho: Lc 1,39-56

Maria, enquanto vocacionada, é aquela que parte em missão “apressadamente[2]”. Ela, Maria, parte “plena do Espírito Santo” e portando Jesus no seu ventre. Contexto profundo do mistério que começa a se desenrolar em Maria e para o mundo. Portanto, Quando ela entra na casa de Zacarias e Isabel, esta casa se torna plena da presença do Espírito, gerando a exaltação da mãe e do filho (Isabel e João Batista). O resultado da exaltação é a expressão orante, ou seja, sua casa se transformam em lugar de oração, como se pode observar pela berakah judaica de Izabel: “Bendita…”, que se torna o segundo refrão da oração da Ave Maria. A casa sacerdotal, uma casa de oração, agora exalta com a chegada de Maria que traz o Filho e o Espírito. O verbo utilizado no v. 44 por Isabel é “agalliao” que significa “estar cheio de alegria”, “exultar” ou “jubilar” por causa de algo. Neste sentido, Isabel e João “exultam” porque ficaram pleno do Espírito e receberam a visita do Senhor por meio de Maria. As palavras de Isabel indicam esta realidade. Ela não se sente digna de receber a Mãe do Senhor. Sensível gesto de humildade e de contemplação.

Maria não responde à Isabel, mas se lança totalmente nas mãos de Deus num abandonar-se confiante de entrega. Ela está na casa sacerdotal, e se faz pequena, mesmo sabendo o que ela porta.

As palavras que seguem de Maria evocam o canto de Ana (1Sm 2), a pequena que encontra graça diante do Altíssimo. Ana gerou aquele que salvará Israel, libertando do julgo filisteu, restabelecendo a unidade de Israel e resgatando a confiança perdida em Iahweh. Maria gera Aquele que redimirá Israel e toda humanidade. Além disso, Maria compreende nas palavras proféticas de Isabel o mistério que ora se desvela.

Maria entra na intimidade de sua alma, num gesto de contemplação que exalta soberanamente Deus, por sua ação salvífica na história da humanidade. O início do canto começa com a seguinte exclamação:

a) Dilata minha alma // No Senhor

b) Exulta meu espírito // Em Deus meu Salvador

Porque Ele contemplou a “humildade” (pequenez) da sua serva, eis porque, desde agora, todas as gerações me chamarão de bem-aventurada”: Na frase o ser Bem-Aventurada estar no ser “pequena/humilde” diante de Deus, por meio do qual ela se torna toda do seu Senhor e permitindo que Ele realize seus projetos por meio dela, conforme segue: “porque fez grande coisas em mim”. Mas Ele pode realizar tais coisas (=encarnação do Filho)? Sim, porque Ele é O Poderoso”.

Nos primeiros versículos, aparece a designação de Senhor, Deus meu Salvador e Poderoso, mas qual é o seu nome? Maria se conserva na tradição judaica e se limita apenas a dizer que o nome de Deus é Santo, salvaguardando a alteridade divina. Esta característica será retomada por Jesus Cristo na oração do Pai-Nosso: “…santificado seja o vosso Nome…” Na realidade existe todo um contexto teológico por trás desta afirmação que expressa o ser de Deus em toda a Escritura.

Na sequência, Maria apresenta as características de Deus que o configuram como Santo:

a) Ele é misericordioso para com aqueles que o temem;

b) Usou de força violenta sobre os orgulhosos e poderosos;

c) Levantou os pequenos/humildes

d) Saciou os famintos e expulsou os ricos

e) Socorreu Israel com quem fez Aliança (Aliança de Abraão e Aliança de Moisés)

Portanto, as ações realizadas por Deus o configuram como “O Santo” e são expressões da sua santidade. Além disso, Aquele que agiu no passado, continua agindo no presente por meio daquela que é pequena.

Maria foi contemplada por Deus justamente pelo seu ser “pequena/humilde”, simples, serena, disponível, fiel. O ser “humilde” no sentido de ser “simples” é que a torna bem-aventurada (1,45) e plena da graça (1,28). Assim, ela é modelo de temor, que é a qualidade do sábio, ou seja, sábio, na tradição sapiencial posterior é aquele que “teme o Senhor”. Profunda relação entre “humildade” e “sabedoria”, que Maria expressa plenamente no seu “Sim!” de humilde e sábia serva. Deus a contempla e ela se abaixa para servir.

1ª Leitura: Ap 11,19a; 12,1-6a.10ab

A 1ª Leitura descreve o Templo de Deus e a Mulher. No contexto do Apocalipse de João trata-se da correlação entre o Templo de Jerusalém e a Igreja. O Templo era, por excelência o lugar para abrigar o “Nome de Deus” (cf. 1Rs 8), enquanto Maria e a Igreja “é” o lugar que abriga o Filho de Deus. Não por menos, a Lumen Gentium (LG 8) relaciona Maria e Igreja. Seguindo a narrativa do Apocalipse, tanto Maria como a Igreja estão revestidas de sol (=plena do Espírito Santo); coroadas de doze estrelas (= 12 apóstolos e 12 tribos de Israel); tendo a luz sob os pés (=dominam o tempo e a história).

Em oposição ao mistério de Maria e da Igreja está o Dragão, descrito como “a antiga Serpente, o chamado Diabo ou Satanás… aquele que acusava dia e noite diante do nosso Deus” (Ap 12,9.10). Diferente da Mulher, ele possui apenas um diadema, indicando a subordinação de seu poder, ou seja, coroa indica poder pleno, enquanto diadema indica poder subordinado. Portanto, pouco poder. Na sua fraqueza ele não terá poder sobre a Mulher, que se refugia no deserto (12,6.14 =poder da oração/universo espiritual), enquanto a Serpente vomita água (12,15 = poder imperialista). A serpente, tendo sido vencida por Miguel e seus anjos (12,7) e não tendo poder sobre a Mulher (está protegida pela “grande águia” = Deus: 12,14//Ex 19,4), passa a perseguir as testemunhas de Jesus Cristo (12,17). Porém, o testemunho dos cristãos será a vitória sobre o Diabo no Apocalipse de João.

Neste sentido, aqueles que foram fiéis à Cristo, em primeiro lugar Maria, terão como destino unir-se à Ele para celebrar as Núpcias do Cordeiro na Jerusalém Celeste.

2ª Leitura: 1Cor 15,20-26.28

Paulo, escrevendo para a comunidade de Corinto, afirma que o “primado” da Ressurreição de Cristo é algo que nos afeta diretamente, tendo em vista que todos ressuscitação, alguns para a vida e outros para a morte eterna. Tal ressurreição é possível e certa por causa de Jesus Cristo. Tendo morrido e destruído do corpo do pecado (cf. Rm 6), abriu as portas da graça e a possibilidade da vida eterna aos que creem. A Carta coloca Jesus como poderoso, que por meio da sua morte e ressurreição atua, na origem, no tempo presente e na consumação da história, momento, este último, no qual a morte será destruída com todas as suas consequências. Tais operações são possíveis pelo poder soberano do próprio Senhor (seus pés).

Síntese

No conjunto das leituras, Maria aparece como “protótipo” da Igreja e, portanto, modelo de e para os cristãos (Evangelho e 1ª Leitura). Neste sentido, após Cristo, ela é destinada à ressureição e à eternidade, assim como todos aqueles que se tornaram, como ela, tementes e seguidores fiéis do Senhor. Celebrar a Solenidade da Assunção implica num assumir um compromisso com o mundo, ou seja, correr para ir ao encontro do outro, até que se possa dizer como Paulo: “Quanto a mim, já fui oferecido em libação, e chegou o tempo de minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Desde já me está reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, justo Juiz, naquele Dia; e não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor a sua Aparição” (2Tm 4,6-8)



[1] Na tradição popular, principalmente durante a Idade Média, era costume portar ervas medicinais para a missa, as quais eram benzidas ao final da celebração da Solenidade.

[2] Apressadamente = simboliza a potência do Espírito Santo atuando em Maria

 

19º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

          Dando sequência ao tema Eucarístico que iniciamos no 17º Domingo do TC, o foco deste domingo recai o murmúrio dos judeus após afirmar Jesus ser o Pão do Céu. Na realidade, os judeus indagam sobre a pretensão divina de Jesus, tendo em vista ele ser humano e ter seus familiares entre eles. Na Literatura Joanina, transparece a questão entre a humanidade e a divindade da pessoa de Jesus e a incapacidade dos judeus em reconhecerem a ação de Deus. Neste último ponto se desenvolve muito da chamada “ironia joanina”, que perpassa todo o Evangelho. De fato, para os judeus, como compreender que este Jesus, cujo familiares estão entre eles, poderia ser uma realidade divina? Jesus não responde, mas, ao contrário, afirma a necessidade de se comer a sua carne.

Em todo caso, na liturgia deste domingo o ato Eucarístico está em relação em assumir a fé em Cristo Jesus e abertura para salvação (=vida eterna).

1ª Leitura: 1Rs 19,4-8

O século VIII a.C. é o período de esplendor do Reino do Norte. Israel vive em total opulência, ao lado de uma extrema miséria. Profetas, como Amós, denuncia esta situação de desigualdade. Os profetas não estão preocupados com a riqueza, mas sobre a sua proveniência e o seu uso, este é o problema central. Neste quadro, encontra-se a figura de Elias em confronto direto com a “Casa” (dinastia) de Acaz. Este casara-se com a rainha Jezabel. Nas cortes do Sul (Judá) e do Norte (Israel) era comum os reis cassarem-se com princesas estrangeiras e tais princesas mantinham as suas respectivas tradições culturais e religiosas. Portanto, uma princesa estrangeira podia cultuar as suas divindades em Judá ou Israel, absolutamente sem nenhum problema. Portanto, qual foi o problema em relação a Jezabel? Foi o fato dela impor a sua religião, ou seja, o balismo, como religião oficial do Estado de Israel, e estabelecer a proibição formal, sob pena capital, do culto da religião oficial do Estado de Israel, ou seja, o Javismo. Isto irá resultar no confronto direto entre Jezabel e o Profeta Elias. Leva-se em conta que a nata política e religiosa da capital aderiu, sem nenhum problema, a imposição da rainha. Isto não mudou nos tempos atuais, quando vontades e vaidades de líderes políticos, econômicos e religiosos são impostas como “verdades” e “direitos”, quem não os aceita, sofrerá perseguição.

Recusando aceitar a imposição de Jezabel, Elias encontra-se em Judá totalmente sozinho e com a cabeça a prêmio, isto o leva a ter que fugir.

Durante a fuga, Elias se depara com duas situações: 1) todos abandonaram YWHW, restando apenas ele; 2) sua cabeça está a prêmio. Diante disto, Elias se sente fracassado e abandonado e, como resultado, deseja apenas morrer. De fato, para ele, se todos abandonaram a sua fé e suas tradições, restando apenas ele… não estaria ele errado e os outros certos. Estão, o melhor = abandonar a missão, melhor ainda = que Deus lhe conceda a morte, assim, todos os problemas estão resolvidos. Contudo, YWHW é o Deus da vida e não pode ser contrário a si mesmo e a seu servo (= Elias) ele concede conforto, comida, proteção.

Todos podem ter abandonado YWHW, mas Elias permaneceu fiel e Deus permaneceu ao lado do seu servo confirmando a sua missão. Elias é o Profeta do Zelo (1Rs 19,10.14; Eclo 48,2), o desânimo diante da missão o leva querer deixar tudo e pedir a morte. Deus o fortalece com o “alimento do céu”, na força deste alimento, ele vai ao encontro de Deus no Horeb e resgata a fé de Israel no Deus Libertador e Verdadeiro.

2ª Leitura Ef 4,30-5,2

O tema do Espírito Santo encontra reminiscências da Profecia de Isaías: “Mas eles se rebelaram e magoaram o seu Espírito Santo. Foi então que ele se transformou em seu inimigo e guerreou contra eles. Mas depois lembrou-se dos tempos antigos, de Moisés, seu servo” (Is 63,10-11). Na narrativa isaiana, o Espírito foi magoado pelo ato de rebeldia dos judeus contra a Lei, rompendo a Aliança estabelecida por Deus. Portanto, entra o conceito de infidelidade. Mas, qual a relação entre a Aliança do Sinai e o Espírito Santo? Isaías afirma que Deus pusera o seu Espírito no seu Povo Eleito: “Onde está aquele que pôs o seu Espírito santo no seio do povo?” (Is 63,11). Nesta linha entende-se as palavras de Jesus sobre o pecado contra o Espírito: “Na verdade eu vos digo: tudo será perdoado aos filhos dos homens, os pecados e todas as blasfêmias que tiverem proferido. Aquele, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo, não terá remissão para sempre” (Mc 3,28-29). Paulo, também, convida a não sufocar o Espírito (1Ts 5,19). Na Carta aos Efésios, acentua as relações interpessoais como caminho de infidelidade à Deus que libertou (=redimiu) por meio do seu Filho. A “maldade” surge como raiz de todos os demais vícios elencados e define o clima de toda lista de vícios apresentados. Por outro lado, o perdão serve de raiz e define o clima da lista de virtudes apresentada. Na imitação a ser seguida, o Pai é apresentado como um pai amoroso e o Filho, como aquele que se entregou, como sacrifício, ao Pai, em nosso favor.

A ideia de oblação e sacrifício de suave odor (Ef 5,2) está baseada na proposta de oblação associada à holocausto (cf. Nm 15,1-16). Tal aproximação entre oferta de cereais e sacrifício está em relação entre o rito da Páscoa (vida nômade) e rito dos Ázimos (vida sedentária) celebradas ora jutas ora separadas. Após a queda do segundo Templo os dois foram unidos numa única celebração a partir do Ritual de Seder de Pessach. No campo cristão, a Eucaristia assimilou, também, os dois ritos: a matéria da liturgia Eucarística é proveniente do Rito de Ázimos (pão e vinho) e a Teologia Eucarística é o Rito da Páscoa (cordeiro imolado). O sacrífico do Filho é, por excelência, um sacrifício oblativo redentor de suave odor (= oferta-sacrifício, redenção-gratidão).

Partindo destes pressupostos, a relação com a liturgia deste domingo está no tema “tornar-se eucaristia”. Tal realidade passa pelo agir cristão que se torna referência para a humanidade, ou seja, o cristão, como “imitador” de Cristo, deve tornar-se eucarístico.

Jo 6, 41-51

O Maná fortaleceu o povo em sua caminhada pelo deserto. O “pão dos anjos” fortaleceu Elias no seu caminho ao encontro com Deus e cumprir a sua missão. Jesus, agora, se apresenta como o pão verdadeiro descido do céu e possibilidade para a libertação.

A Eucaristia evidencia a possibilidade de libertação e vida nova. Portanto, exige conversão, deixar o Egito//o homem velho para assumir radicalmente a vida nova. Isto implica em assumir a missão ou não. Não existe meio termo: “Muitos de seus discípulos, ouvindo-o, disseram: “Essa palavra é dura! Quem pode escutá-la?… A partir daí, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele” (Jo 6,60.66). Portanto, a vida eucarística implica numa opção pelo Reino, anunciado e vivenciado por Nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo que isto implique em doar-se totalmente em sacrifício.

 

18º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

           A liturgia do décimo oitavo domingo do Tempo Comum dá continuidade ao tema Eucarística a partir da narrativa de Jo 6. Enquanto o 17º Domingo do TC desenvolvia o tema da Multiplicação dos Pães (Jo 6 + 2Rs 4,42-44), a temática deste domingo gira em torno do Maná do Deserto: 1ª leitura: Ex 16,2-4.12-15 + Jo 6,24-35.

1ª Leitura 2ª Leitura Evangelho
18º Ex 16,2-4.12-15 Ef 4,17.20-24 Jo 6,24-35

Maná do Deserto

Vida Nova em Cristo

Jesus o Pão da Vida

 

1ª Leitura: Ex 16,2-4.12-15

Na narrativa da 1ª Leitura se destacam algumas características interessantes:

a) murmúrio do povo

b) Maná do deserto

c) codornizes

No geral, quando se trata do caminho do deserto se descrevem caminhos possíveis: 1) Partindo da menção à fenômenos vulcânicos (cf. Ex 19,16-19), alguns estudiosos situam a caminhada a partir do Golfo de Ácaba, no noroeste da Arábia (Madiã); 2) outros preferem situar na parte norte da Península do Sinai (cf. Ex 17,8-16; Nm 14,43-45; Ex 15,22; Jz 11,16); e, finalmente, se sugerem a localização ao sul (cf. Jz 1,16). Em particular, a segunda hipótese, situa um percurso ao longo da costa do Mediterrâneo, o que combina com a história das codornizes (11,31ss). Independente do percurso tomado pelos israelitas após a travessia do mar de Junco (ou vermelho), houve uma incitação popular comparando a antiga situação no Egito como escravos, mas com comida e livres, mas com escassos recursos. O “murmúrio” expressa esta reação popular, vista, por Deus, como expressão de “rebeldia” ou “um povo de cabeça dura”, que permanecerá no consciente popular de Israel.

Evangelho: Jo 6,24-35

A sequência da Narrativa da Multiplicação dos Pães ocorre na Sinagoga de Cafarnaum (Jo 6,59). A menção inicial “do outro lado do mar” (v. 25) situa a narrativa em paralelo que a narrativa da saída do Egito (Ex 14-15) e a travessia do Jordão (Js 3,14-17)[1]. Contudo, o discurso de Jesus ocorre na Sinagoga de Cafarnaum.

A antiga cidade de Cafarnaum (Këfar Nahum), ou Vila/Aldeia de Naim, está localizada na costa noroeste do Mar da Galileia a uns quinze quilômetros ao norte da cidade de Tiberíades, às margens do lago de Genesaré e fazia fronteira entre as regiões de Filipe e de Herodes Antipas, configurando-a como cidade fronteiriça e possuidora de alfândega (cf. Mt 9,9). O status de maior centro do governo romano na Palestina, também é indicado pela presença de tropas romanas. Tropas e oficiais romanos eram mantidos constantemente alocados nesta cidade (Mt 8,5; Lc 7,2). Além disso, era, ao mesmo tempo, a maior cidade da Galileia e o mais importante centro no entorno do perímetro do mar da Galileia. Cafarnaum era o maior centro populacional e comercial da costa noroeste do Mar da Galileia e uma das mais empreendedoras e promissoras cidades da indústria pesqueira. Além disso, ela abrigava a produção e a manutenção de embarcações e redes para pesca. Somando a atividade agrícola com a atividade pesqueira, a cidade de Cafarnaum desempenhava importante papel na atividade comercial, favorecida, principalmente, pela sua posição geográfica, localizada na rota comercial internacional que situava a Palestina entre Egito, Síria e Mesopotâmia. Isto significava intenso movimento de caravanas circulando pela cidade. Cafarnaum torna-se, assim, um porto de entrada e posto alfandegário do governo romano e um importante centro de transações e comércio na Galileia. Este papel se reflete na história do chamado de Levi, o cobrador de impostos, que se tornou discípulo de Jesus (Mt 9,9). Tais características podem ter sido o motivo pelo qual Jesus escolheu essa cidade como centro de sua missão (cf. Mt 4,13; 9,1). A maior parte da atividade pública de Jesus ocorre nesta cidade (cf. Mt 4,12; Mc 1,14; Lc 4,14). Os textos evangélicos informam que Jesus se move de Nazaré, sua cidade natal, para Cafarnaum, a cidade Pedro, André, Tiago e João, os primeiros discípulos (cf. Mt 4,18-22) e a assume como sua moradia (cf. Mt 4,13; Mc 2,1), onde ensinava e curava na Sinagoga (Mc 1,21). Diversas outras atividades ali foram realizadas, como a cura da sogra de Pedro e diversas outras pessoas (Mc 1,29-31.32-34; 2,1-12). Nesta cidade, também, reside o filho do funcionário real, curado por Jesus (Jo 4,46). Apesar de ter sido palco de muitas das atividades de Jesus, esta cidade não produziu frutos significativos, motivo pelo qual Jesus a condena emitindo o seu juízo, segundo o qual, o seu julgamento será rigoroso e ela será lançada ao inferno por não ter acreditado nos milagres que nela se realizaram (Mt 11,23-24; Lc 13-15).

Como descrito acima, Cafarnaum se tornara o centro da atividade messiânica de Jesus, mas com poucos resultados significativos. Portanto, a pregação de Jesus assume uma característica peculiar, ou seja, implica numa adesão à sua pessoa. Ele informa que, mesmo estando numa das maiores e mais rica metrópoles do Império Romano na Palestina, existe uma multidão faminta e escrava que encontrará liberdade e saciedade somente assumindo a sua pessoa. Esta perspectiva se fundamenta com o tema do deserto, no qual Deus fizera uma Aliança, mas os israelitas preferem a escravidão do Egito a uma vida livre que exige comprometimento (murmúrio). Isto ficará evidente no final da narrativa joanina, quando Jesus impor a Eucaristia e suas exigências como condição, resultando no repúdio popular (cf. Jo 6,66-67).

2ª Leitura: Ef 4,17.20-24

A 2ª Leitura corrobora esta relação de compromisso, entre deixar o passado e assumir a proposta da vida nova em Jesus Cristo. Paulo convida os cristãos de Filipos a uma nova vida em Cristo afirmando “Renunciando à vossa existência passada, despojai-vos do homem velho, que se corrompe sob o efeito das paixões enganadoras, e renovai o vosso espírito e a vossa mentalidade. Revesti o homem novo, criado à imagem de Deus…” (Fl 4,22-24). Isto se baseia no conceito que Paulo observa da comunidade “não continueis a viver como vivem os pagãos, cuja inteligência os leva para o nada” (Fl 4,17). A mesma questão se encontra entre os israelitas saídos do Egito e os galileus convidados por Jesus para uma vida nova em sua pessoa. A fé cristã implica numa opção radical entre a “liberdade em Cristo Jesus” e a escravidão de outrora. Portanto, a vida Eucarística passa pela opção radical à Jesus Cristo e sua proposta e isto é inegociável: “Não quereis também vós partir? Simão Pedro respondeu-lhe: Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6,67-69). Deve-se lembrar que outro Israel dissera “Tudo o que YWHW falou, nós o faremos e obedeceremos” (Ex 24,7) mas não o fizeram resultando no Exílio da Babilônia.



[1] As duas narrativas são idêntica e descrevem mudança radical de uma realidade para outra.

17º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan leite de Araujo

            Durante o Ano Litúrgico, a catequese do Evangelho de Marcos estabelece uma pausa quando entra no tema da Eucaristia. De fato, diferente do Ano A (Mateus) e C (Lucas), o Ano B irá meditar o tema a partir da narrativa da Multiplicação dos Pães em Jo 6. A catequese sobre a eucaristia abrangerá do décimo sétimo ao vigésimo primeiro domingo, com exceção da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora (15/08). Neste sentido a liturgia dominical terá o seguinte esquema:

1ª Leitura 2ª Leitura Evangelho
17º 2Rs 4,42-44 Ef 4,1-6 Jo 6,1-15
18º Ex 16,2-4.12-15 Ef 4,17.20-24 Jo 6,24-35
19º 1Rs 19,4-8 Ef 4,30-5,2 Jo 6,41-51
(20º DTC) // Solenidade da Assunção de Nossa Senhor 15/08
21º Js 24,1-2ª.15-17.18b Ef 5,21-32 Jo 6,60-69

Do esquema de Jo 6 a liturgia não abordará a narrativa da travessia do mar (Jo 6,16-21) e parte do grande discurso sobre o pão da vida (Jo 6,52-59). A primeira narrativa descreve o segundo milagre, ou seja, Jesus que caminha sobre as águas do mar. Enquanto a segunda narrativa se torna mais problemática, pois ela afirma da Teologia da Transubstanciação, negando a teologia evangélica da consubstanciação. Lógico, só é possível evidenciar a questão a partir do original grego, pois a tradução elimina as distinções do vocabulário joanino. Leva-se em conta que, a tradução proposta no Lecionário para o 17º Domingo para a língua Portuguesa possui imprecisões de tradução, o que gera certa dificuldade dentro da teologia do Quarto Evangelho.

Leitura Vertical

1ª Leitura

2Rs 4,42-44 Eliseu – Multiplicação dos Pães
Ex 16,2-4.12-15 Maná do Deserto
1Rs 19,4-8 Elias – Deus dá de Comer
Js 24,1-2a.15-17.18b Josué – Serviremos ao Senhor (Compromisso)

 

2ª Leitura

Ef 4,1-6 Unidade Cristã – Um só Batismo
Ef 4,17.20-24 Vida Nova em Cristo
Ef 4,30-5,2 Princípio da Misericórdia – Imitadores de Cristo
Ef 5,21-32 Moral Cristã

 

Evangelho

Jo 6,1-15 Multiplicação dos Pães
Jo 6,24-35 Jesus o Pão da Vida
Jo 6,41-51 Jesus – Quem comer deste pão viverá para sempre
Jo 6,60-69 Eucaristia – Serviremos ao Senhor (Compromisso)

 

Leitura Horizontal

1ª Leitura 2ª Leitura Evangelho
17º 2Rs 4,42-44 Ef 4,1-6 Jo 6,1-15

Eliseu – Multiplicação dos Pães

Unidade Cristã – Um só Batismo

Multiplicação dos Pães

 

1ª Leitura 2ª Leitura Evangelho
18º Ex 16,2-4.12-15 Ef 4,17.20-24 Jo 6,24-35

Maná do Deserto

Vida Nova em Cristo

Jesus o Pão da Vida

 

1ª Leitura 2ª Leitura Evangelho
19º 1Rs 19,4-8 Ef 4,30-5,2 Jo 6,41-51

Elias – Deus dá de Comer

Princípio da Misericórdia – Imitadores de Cristo

Jesus – Quem comer deste pão viverá para sempre

 

1ª Leitura 2ª Leitura Evangelho
21º Js 24,1-2ª.15-17.18b Ef 5,21-32 Jo 6,60-69

Josué – Serviremos ao Senhor (Compromisso)

Moral Cristã

Pedro – Serviremos ao Senhor (Compromisso)

 

O início da narrativa do capítulo seis de João descreve o Milagre da Multiplicação dos Pães (Jo 6,1-15). Os quatro primeiros versículos apresentam uma breve descrição da narrativa do Êxodo situado, agora, a partir da figura de Jesus, o Novo Moisés//Josué.

O foco central é um escândalo. Segundo as normas jurídicas de Israel, todo homem deve subir três vezes à Jerusalém durante as Festas de Israel (Páscoa, Pentecoste e Tendas) portando os dons a serem apresentados à Deus como reconhecimento que possuem e em abundância, porque o Senhor Deus deu a terra, deu a Lei e deu liberdade. Contudo, Jesus se encontra diante de uma multidão faminta, ou seja, existe uma multidão que está sendo privada dos seus direitos e o “direito à vida” agora passa pelo dinheiro, quem não o possui não tem direito de viver. Diante da situação, Jesus indaga Filipe sobre como comprar comida para alimentar a multidão, tendo a resposta que é necessário muito dinheiro, portanto, nada pode ser feito pelos pobres. Por sua vez, mesmo com certa incredulidade, André apresenta um “menininho”, com cinco pães e dois “peixinhos”. Parece impossível que tão pouco possa ser suficiente para saciar a fome de uma grande multidão (cinco mil homens).

A narrativa se inspira na figura de Eliseu (2Rs 4,42-44: 1ª Leitura). Muitos autores latino-americanos procuram descrever que se trata de um tipo de “lanche-comunitário” no qual os pobres partilham os seus bens, resultando que a eucaristia seja fruto da ação humana. Esta é uma visão equivocada, pois da Eucaristia nasce o princípio da partilha, não o contrário. Além do mais, se busca eliminar o princípio de milagre, ou seja, tudo é ação do homem e Deus não opera nada. Diante destas premissas, a narrativa é de milagre, ou seja, após o ato de Jesus de “Dar Graças” (que está no contexto da Oração Eucarística: cf. 1Cor 11,23-27), os dons apresentados são multiplicados, saciando a fome de uma grande multidão e resultando em abundância (comeu e ainda sobrou). Isto se coloca dentro da novidade messiânica, o tema da saciedade e da abundância.

A 2ª Leitura evoca o tema da vocação cristã que passa pelo critério da unidade. Assim, a vida eucarística se expressa no princípio da paz, onde Jesus Cristo é o centro de tudo. De fato, a diversidade (línguas, povos, nações, culturas, religiões…) é fruto do Espírito Santo. Portanto, o diferente não pode ser uma ameaça, mas um princípio de riqueza. Contudo, toda diversidade possui a unidade na pessoa de Jesus Cristo, ponto de partida e ponto de chegada de tudo e de todos. Na perspectiva Eucarística, a comunidade cristã é formada pela diversidade de pessoas, de ministérios, de pastorais, de movimentos, mas diante do altar tudo se cala, pois é Cristo o centro de tudo.

Síntese

No conjunto das Leituras, A Multiplicação dos Pães, inspirada na Multiplicação dos Pães à época de Eliseu, denuncia um escândalo em Israel, os filhos de Deus estão passando fome; e evoca o tema da Saciedade, própria dos tempos messiânicos. Jesus opera, de fato, um milagre, que está na linha do tema Eucarístico, como se abordado nas semanas seguintes.

A vida Eucarística pressupõe o tema da Unidade, como testemunho da vida em e com Cristo, eliminando toda barreira de ódio, discriminação, intolerância… e abrindo a possibilidade para que todos cheguem a vida em Cristo Jesus.

 

 

15º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

1ª Leitura: Am 7,12-15

Amós é concebido, por alguns estudiosos, como um camponês (agricultor e pastor) e, para outros, como um homem de negócios. Independente da sua condição social e profissional, é certo que sua obra se configura como o primeiro “tratado” de Diplomacia Internacional, no qual o profeta evoca o direito e a corresponsabilidade das nações; mais exatamente, as nações grandes e poderosas possuem a obrigação de tutelar e proteger as nações pequenas e pobres.

Na leitura de hoje, a narrativa apresenta o diálogo entre Amós e Amasias sobre a atividade profética. Muitos utilizavam a “função” profética como um meio profissional e, portanto, um meio de ganhar a vida. Amasias, vê em Amós um destes tantos “falsos profetas” que procuram ganhar dinheiro através da atividade religiosa, aconselhando-o a exercer profetismo e, portanto, ganhar o seu dinheiro, em outro lugar. Amós responde que não se trata de um meio de sobrevivência, mas de um chamado divino, ou seja, trata-se de uma vocação assumida, no qual ele abdica dos seus direitos para servir ao Senhor.

Este é o elemento fundamental da 1ª Leitura, ou seja, assumir a vocação, o chamado divino, deixando tudo para servir ao Senhor. Esta perspectiva se vincula a missão dos discípulos descrito no Evangelho.

Evangelho: Mc 6,7-13

O Evangelho apresenta o envio dos discípulos, em duplas com recomendações próprias que assegurem a fluidez e a eficácia da missão:

a) poder sobre os espíritos impuros;

Atributo de Jesus agora conferido aos discípulos. Isto significa que o missionário é revestido de autoridade para a missão. Mais exatamente, como expressa Paulo, o missionário é um embaixador. Portanto, age com autoridade em Nome de Cristo.

b) não levar nada, apenas um cajado e uma túnica;

Sobriedade e confiança na providência divina, que confere liberdade para missão. O missionário não pode estar preso a nada que o impeça de cumprir a sua vocação. Tal perspectiva continua presente na vida da Igreja, segundo o qual, o vocacionado deve estar totalmente livre para servir ao Senhor.

c) andar de sandálias;

Prerrogativa curiosa, pois a sandália configura valor jurídico: posse de propriedade; originalmente direito matrimonial (Dt 25,5-10; Rt 4,7). O estar sem sandália podia significar luto (2Sm 15,30; Ez 24,17) ou ser prisioneiro (2Cr 28,15; Is 20,2). O estar calçado, também, pode significar o estar pronto para partir em missão (Ex 12,11; At 12,8; Ef 6,15). No contexto do Evangelho, o primeiro e o último elemento se unem, no sentido de que o missionário deve partir e com autoridade.

d) ficar na casa que for acolhido e rejeitar a poeira da casa a qual não for acolhido.

Indicar sobriedade do missionário que se contenta com aquilo que lhe é oferecido. Tal despojamento se torna referencial de verdade daquilo que é anunciado, ou seja, a gratuidade da salvação oferecida por Deus é evidenciado/testemunhado na gratuidade do missionário.

A partir do que foi apresentado na 1ª Leitura e no Evangelho, surge uma questão: qual o objeto do anúncio? Isto é descrito na 2ª Leitura.

2ª Leitura Ef 1,3-14

A 2ª Leitura se enquadra na tradição das Orações Judaicas (beraká), porém alongada. Nesta beraká se evidencia o seguinte desenvolvimento:

1,4: Vocação: gratuidade à santidade

Descreve a iniciativa gratuita e soberana de Deus, mediante o tema da eleição. A expressão “em Cristo” indica a esfera espiritual na qual a vocação salvífica. O compromisso com Cristo e sua missão, nos configura no compromisso de Abraão para com Deus, garantindo a benção a todos os povos.

1,5-6: Participação no estatuto filial de Cristo

O processo salvífico, que está sob o sinal da benção inicial, se realiza por meio de Jesus Cristo, e consiste na participação dos fiéis na sua dignidade de filho único e amado. O tema da adoção enfatiza a novidade da relação com a filiação de Jesus, modelo e fonte da filiação dos demais filhos. O objeto último de todo o processo salvífico é a manifestação e o reconhecimento da “potência salvífica do amor gratuito”.

1,7-8: Libertação como perdão dos pecados e experiência de amor

Tal processo salvífico se realiza efetivamente na história e não fora ou acima dela, ou seja, não se trata de uma abstração. Ela está dentro dos valores e das contradições históricas e aponta que todos os males que assolam a pessoa humana que configura como pecado que separa da fonte da vida e do amor (=Deus). Neste processo entra a expressão “redenção”, que possui o sentido de “resgate a preço de…”. Na história Bíblica se destaca o Êxodo e a Paixão-Ressurreição de Jesus Cristo (escravidão//libertação; morte//vida; pecado//graça). Nesta ótica, a morte de Jesus Cristo é o gesto máximo de fidelidade e solidariedade, que arranca o homem da sua alienação ou escravidão e o põe em comunhão com Deus, na condição de filho.

1,9-10: O projeto revelado, o Cristo, dá unidade e sentido a tudo

Os temas do hino estão concatenados em forma de cascata. O projeto salvífico é, antes de tudo, eleição, depois filiação, resultando em libertação. O vértice de tudo isso é a plena revelação em Cristo.

Destaca-se a expressão “mistério” que funciona como revelação divina, mais exatamente, revelação do plano salvífico em Cristo Jesus, sendo Ele, a cabeça de tudo.

1,11-12: O caminho de Israel para a salvação

A tríplice repetição “nele” desenvolve a ideia da unificação e do sentido da história em Cristo. Graças a Jesus e em união com ele, a humanidade encontra o eixo de unidade e passam a participar do processo de salvífico. O Povo da Aliança continua com seu “privilégio específico”. Contudo, não mais a partir do caráter étnico/genealógico. É uma precedência gratuita de Deus, mas tudo agora é orientando para Cristo e por meio dele.

1,13-14: O caminho dos pagãos para a salvação na Igreja

Jesus Cristo, como eixo unificador, abre para os pagãos o caminho para a redenção; libertação definitiva prometida por Deus e garantida pelo Espírito Santo. A “Palavra da Verdade” tem em si a força para salvar. Não se trata de uma informação cultural ou de doutrinamento religioso. A Palavra que revela a realidade autêntica de Deus e do homem é Jesus Cristo em pessoa, o filho que liberta e dá sentido à vida humana. A fé madura recebe o “selo” do Espírito Santo (promessa, selo e garantia). Portanto, o Espírito Santo comunicado aos fiéis é prova da fidelidade de Deus à sua promessa.

Síntese

A atividade missionária parte de um chamado (vocação: 1ª Leitura). Aquele que é chamado é enviado com recomendações próprias, a fim de executar uma determinada tarefa, ou seja, realizar um anúncio (Evangelho). O objeto da missão cristã é o anúncio de Jesus Cristo, o Filho do Deus Libertador (Êxodo) que se tornou o Redentor de todos os povos (Paixão-Morte-Ressurreição). Estes, agora, são chamados à filiação divina por meio do Filho Amado. Toda missão é exercida na potência do Espírito Santo, que é a garantia (=selo) da promessa (2ª Leitura).

 

 

Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo

Pe. Gilvan Leite de Araujo

            A data de 29 de junho evoca a memória do martírio dos Apóstolos Pedro e Paulo. Alguns estudiosos concebem a data como memória do translado para as catacumbas da Via Ápia, outros como memória do martírio deles, sendo que esta concepção é o foco principal da solenidade.

1ª Leitura: At 12,1-11

A 1ª Leitura está centrada na missão de Pedro na Palestina, na qual se destaca o livramento de Pedro e o efeito disto sobre os fiéis (v. 12-17) e sobre os soldados (v. 18-19), concluindo com a morte de Herodes (v. 20-23). Entre Pedro e Herodes está a figura do “anjo do Senhor”, que assume a função de cooperador da Igreja em vista da evangelização, seja protegendo os seus membros (Pedro), como eliminando o rei ímpio.

Pedro, com a ajuda do anjo, é conduzido para a liberdade (v. 10), enquanto Herodes, pela ação do anjo, expira, carcomido pelos vermes (v. 23). Além disso, Pedro reconhece a ação divina afirmando que Deus enviou o seu anjo para o libertar das mãos de Herodes. Por outro lado, Herodes cai em ruína por não dar glória à Deus, ou seja, não reconhece o senhorio divino de Deus.

Toda a narrativa da 1ª Leitura é acompanhada pela oração da Igreja. Este é um elemento que perpassa todo o livro do Atos dos Apóstolos, ou seja, a Igreja é sempre descrita como uma comunidade orante. Os judeus são descritos em Atos envolvidos nas mortes de Estevão e de Tiago. Contudo, a comunidade orante, apesar das adversidades, é sustentada pela força da oração, que também a mantem unida.

2ª Leitura: 2Tm 4,6-8.17-18

O tema da libertação é retomado na 2ª Leitura, na qual Paulo reconhece a ação de Deus em seu favor, permitindo que a missão fosse cumprida.

Paulo tendo concluído a sua missão vislumbra a eternidade. Esta é uma perspectiva totalmente contrária aquela que foi apresentada em relação a Herodes. Este é visto como um deus que fala (At 12,22) mas seu destino é a desgraça (v. 23), enquanto Paulo exalta e reconhece o senhorio divino: “esteve ao meu lado… o justo Juiz…; e seu destino será a salvação no Reino definitivo. Além disso, Herodes possui o poder da realeza terrestre, enquanto Paulo vislumbra o Reino Eterno de Deus. A conclusão de Paulo é de que o Senhor esteve, em todos os momentos da sua vida, ao seu lado, o fortaleceu, o libertou e, agora, o aguarda para a vida eterna. Diferente de Herodes, que também esteve ao lado de Pedro, para persegui-lo, humilhá-lo e atentar contra a sua vida, mas o verdadeiro Senhor, o libertou das mãos de Herodes.

Evangelho: Mt 16,13-19

A narrativa do Evangelho parte do questionamento sobre a pessoa de Jesus. A pergunta não é simples, pois implica em adesão, ou seja, os apóstolos seguem a quem? Portanto, assumem qual projeto e vislumbram qual reino? A profissão de fé de Pedro indica a escolha pelo Projeto do Reino de Deus, posteriormente configurado pela oração do Pai-Nosso.

O pleno reconhecimento da pessoa de Jesus, como ungido de Deus, coloca Pedro numa missão, ou seja, o de ser a pedra visível da pedra invisível. Tal missão petrina é viabilizada pelo “deixar de ser de Pedro” para o “ser todo de Cristo”. Além disso, o tema das chaves, implica no “poder” petrino de derimir sobre questões terrestres e celestes, naquilo que diga respeito a verdade da fé cristã. Lógico que tal “poder petrino” gerará longos debates, no decorrer dos séculos, sobre a sua aplicação e a sua extensão.

No conjunto se deve ressaltar o tema da “proteção divina”, ou mais exatamente, o “estar presente”, “estar junto”, ou seja, o discípulo goza da proteção e da presença do Senhor enquanto desenvolve a sua missão. Lógico que isto implica na escolha: Jesus ou Herodes? A quem o discípulo deseja verdadeiramente seguir?

O discípulo e a discípula podem sofrer todo tipo de adversidade: “Eu servi ao Senhor com toda a humildade, com lágrimas, e no meio das provações que me sobrevieram pelas ciladas dos judeus…” (At 20,19). Contudo, ele está nas mãos do Senhor, e todo o seu empenho, em favor da Igreja, será confirmado, o Senhor Justo Juiz dará a coroa da Justiça a quem for fiel.

A solenidade evoca outra questão, ou seja, sobre o papel petrino na Igreja hoje. Ponto de partida: não se pode pensar a Igreja atual sem as figuras de João XXIII, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Existe a ação do Espírito Santo que suscitou estes papas no tempo certo para missões específicas. Contudo, existe certa polarização bom ou mal papa. Esta polarização não é de escolha deste ou daquele, mas é uma questão pneumatológica, mas exatamente, é não reconhecer a ação do Espírito Santo na Igreja e criticar a sua ação. Portanto, é um problema mais grave. Neste sentido, deve compreender a ação do Espírito Santo guiando a Igreja do Senhor, para que a sua missão se realize no tempo e na história. A Igreja não é um gueto, mas uma realidade celeste que perpassa a nossa compreensão. Sendo uma realidade divina, a Igreja é linda e é santa e o “poder do inferno não prevalecerá sobre ela” (Mt 16,18).

13º Domingo do TC Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

           “A única certeza que temos é a morte”. Esta frase escutamos corriqueiramente. Mas se fomos criados para a vida, como explicar que a única certeza que temos é a morte? Parece contraditório, e é de fato!

1ª Leitura: Sb 1,13-15; 2,23-24

O livro da Sabedoria descreve a morte como fruto do pecado suscitado pelo diabo. Neste sentido, a humanidade teria como única certeza a “Boa Nova” do diabo?

O Livro da Sabedoria de Salomão, conhecida na tradição latina apenas como Livro da Sabedoria, é um dos últimos livros do Antigo Testamento foi escrito em grego e confronta a cultura helenista. O livro tem início com uma interpelação do autor dirigida aos leitores, chamados a “amar a justiça” e a “procurar o Senhor” (1,1). Na sequência da obra, o autor dá a palavra aos ímpios, que afirmam que não existe nada no além vida: na morte o espírito se dissipa com o ar, portanto, se deve gozar o tempo presente (2,1-9). Contudo, a simples presença do justo, sua fidelidade às tradições dos antepassados e suas censuras aos ímpios incomodam os ímpios (2,10-20).

A 1ª leitura se insere no bloco “Projeto dos Ímpios” (1,13-2,24), no qual se encontra a “crítica dos ímpios” (1,13-16: Introdução – criação e imortalidade) e “crítica dos ímpios” (2,21-24: Conclusão – criação e incorruptibilidade).

Os ímpios perseguem os justos, mas estes são protegidos por Deus. Toda esta questão é emoldurada por duas reflexões fundamentais: as criaturas são portadoras de salvação e Deus criou o homem imortal e incorruptível (1,13-16; 2,21-24). Estas afirmações são aplicadas a três categorias de justos, cuja existência parece uma desgraça: a) os justos que morrem no sofrimento (3,1-9); b) a mulher estéril ou o eunuco (3,11-15; 4,1-2); e c) o justo que morre jovem (4,7-14). Nenhum deles terá conhecido a felicidade aqui na terra, mas receberão a “visita de Deus” após a morte, enquanto os ímpios serão confrontados caso-a-caso (3,10.16-19; 4,2-6.14b-20). A narrativa do Evangelho de hoje evoca justamente o segundo e o terceiro caso.

O autor imagina o encontro dos justos e dos ímpios no além (5,1-3), no qual este últimos se afligirão ao contemplarem a felicidade eterna dos justos (5,4-5) e reconhecerem que fizeram a escolha errada (5,6-13). Finalmente, Deus intervirá diretamente contra os ímpios e em favor dos justos (5,14-23).

Evangelho: Mc 5,21-43

Em consonância com a 1ª Leitura, o Evangelho de hoje apresenta a narrativa da cura de duas mulheres: uma mulher doente a 12 anos e uma menina que morre aos 12. No primeiro caso, a mulher sofre de hemorragia a 12 anos, tinha sido explorada pelos médicos, gastando tudo que possuía. No segundo caso, uma menina que está entrando na puberdade, tornando-se uma mulher. A narrativa é construída em forma de sanduiche da seguinte forma:

Mc 5,21-24: Filha de Jairo

Mc 5,25-34: Mulher

Mc 5,35-43: Filha de Jairo

Neste sentido, o autor descreve dois milagres de curas. Tais narrativas possuem, no geral, este esquema: a) alguém necessitado que pede ajuda; b) pedido de ajuda; c) cura; d) constatação da cura; e) demonstração; e, f) admiração. Além disso, as duas narrativas evocam a antiga tradição de Elias e Eliseu.

A 1ª narrativa tem início com a súplica de Jairo. O nome de um dos chefes da Sinagoga que se aproxima de Jesus é sugestivo. De fato, Jairo/Jair é um nome hebraico com significados aproximados de: “resplenda a divindade” // “Ele, Deus Ressuscitará”. Assim, o nome do pai da menina pode ser compreendido como uma promessa. Sua atitude é ajoelhar-se aos pés de Jesus suplicando pela vida de sua filha que está a beira da morte, solicitando que que venha impor as mãos sobre ela e a cure. Tal gesto é curioso, pois não pertence a tradição de curas veterotestamentária o impor as mãos sobre o doente, como se pode evidenciar na narrativa da cura de Naamã que se irrita contra Eliseu por não o receber pessoalmente e nem mesmo impor as mãos sobre ele como esperado (cf. 2Rs 5,11).

A narrativa é quebrada com a entrada em cena da narrativa de mulher com fluxo de sangue. A situação da mulher é descrita da seguinte forma: a) uma mulher sofrendo de hemorragia a doze anos; b) tinha sofrido nas mãos de muitos médicos; c) gastou tudo que possui, sem sucesso e sempre piorando.

Segundo o livro de Levítico, ela se configura na seguinte situação:

a) “Quando uma mulher tiver um fluxo de sangue e que seja fluxo de sangue do seu corpo, permanecerá durante sete dias na impureza das suas regras. Quem a tocar ficará impuro até a tarde” (Lv 15,19);

b) “Quando uma mulher tiver um fluxo de sangue de diversos dias, fora do tempo das suas regras, ou se as suas regras se prolongarem, estará, durante toda a duração do fluxo, no mesmo estado de impureza em que esteve durante o tempo das suas regras. Assim será para todo leito sobre o qual ela se deitar, durante todo o tempo de seu fluxo, como o foi para o leito em que se deitou quando das suas regras. Todo móvel sobre o qual se assentar ficará impuro, como quando das suas regras.” (Lv 15,25-26)

Neste sentido, estando a mulher doente por doze anos, significado que durante todo este tempo ela está ritualmente impura e, portanto, excluída da vida da comunidade. Além disso, tudo o que ela toca torna-se impuro. Este fato pode ajudar a compreender o temor desta mulher ao tocar Jesus, pois ritualmente o tornaria impuro, bem como poderia sofrer consequências pelo seu ato.

Assim como Jairo, ela também se ajoelha diante de Jesus. Também neste caso, ela é chamada de “filha”. Assim, estamos diante da “filha de Jairo” e “de uma filha de Israel” (cf. Rt 2,8; 3,10; Sl 45,11). Uma doente aos doze anos e outra a doze anos doente. O número doze, na Bíblia, se aplica a cinco categorias: 1) sociológica: eleição; 2) biológica: maturidade; 3) antropológica: dia-noite (cf. Jo 11,9-10); 4) cultual: sacrifícios (cf. Nm 7,3.84-86…); e, 5) cósmico: medida do tempo e espaço (1Rs 7,23-25; 2Cr 4,2-4). Os autores no geral ignoram o número doze e outros transitam entre a segunda e a terceira categoria, mas a primeira categoria é sugestiva, a medida que Israel e Judá são descritas através da imagem da mulher. No caso da menina, ela está entrando na puberdade, sendo já acolhida como adulta, portanto, pronta para geração de filhos, segundo perspectiva de época; a segunda está impedida de gerar filhos por causa da doença. Nos dois casos, a ação de Jesus é conferir a vida, portanto, novamente, as duas poderão “gerar vida” ao terem a vida restituída. Indiretamente se pode observar uma ressonância batismal, o renascer novamente.

A mulher esperava uma dura repreensão de Jesus, mas este carinhosamente se dirige a ela e diz que a fé a salvou, enquanto para Jairo, Jesus diz para não ter medo, mas fé, que o leva ao gesto sensível de um pai ou uma mãe que acorda um filho chamando-o para se levantar; uma cena bem corriqueira de um pai e uma mãe que acorda um filho e lhe dá o café da manhã. Tal sensibilidade de Jesus se encontra na 2ª Leitura (2Cor 8,7.9.13-13), quando Paulo chama para a vida da caridade e da partilha. Sensibilidade do coração, que também evoca o profeta Elias, na narrativa da viúva de Sarepta (1Rs 17).

Escuta e a sensibilidade: Jesus se tornou, para com os pequenos, uma promessa para eles: Deus Ressuscitará = Jairo. Certeza que os justos possuem, como descrito no Livro da Sabedoria

 

 

 

12º Domingo do TC Ano B 2021

 

Evangelho Mc 4,35-41

A expressão “Mar da Galileia e de Tiberíades” é típica da tradição joanina, em referência ao Lago de Genesaré (Lc 5,1). O nome “Genesaré” é proveniente da homônima cidade. A tradição veterotestamentária identifica como “mar de Quineret” (Nm 34,11; 3,17; Js 12,3; 13,27). Mateus e Marcos preferem designá-lo como “Mar da Galileia” (Mt 4,18; 15,29; Mc 1,16; 7,31) ou simplesmente “mar” (Mt 8,26.32; Mc 4,39; 5,13). Lucas, no entanto, como escreve para um público fora da Palestina, prefere manter a expressão “lago” (Lc 5,1s; 8,22s.33), de fato, apesar de ser chamado de “mar” o Lago de Genesaré é uma grande reserva de água doce. A referência joanina de 25 ou 30 estádios indica exatamente o meio e o ponto mais profundo do lago da parte norte. Devido a sua posição geográfica, a região onde se encontra o lago de Genesaré, durante o verão, pode sofrer grandes variações climáticas o que implica em forte ventanias e, portanto, agitação das águas, formando ondas altas (Mt 8,24; Mc 4,37; Lc 8,23; Jo 6,18). O mais perigoso é, no entanto, o chamado, em árabe, vento sarkiye, um vento proveniente do oriente (Mt 14,22-24; Mc 6,45-48) que ocorre principalmente no período da Páscoa (março/abril: Mc 6,39; Jo 6,4).[1] A narrativa deste domingo ocorre justamente aqui no “Mar da Galileia”.

A narrativa marcana da Tempestade Acalmada possui estreita relação com a Profecia de Jonas e se enquadra do gênero literário das curas e exorcismos. De fato, o desenvolvimento da narrativa segue o padrão do exorcismo:

v. 37: situação de perigo

v. 38bc: invocação de ajuda

v. 39ab: ação de salvação/exorcismo

v. 39cd: constatação do milagre

v. 41a: admiração

v. 41bc: aclamação

Além disso, a narrativa possui, como pano de fundo, a narrativa da tempestade descrita na Profecia de Jonas. Aproximando as duas narrativas temos o seguinte esquema:

Marcos

Jonas

tempestade tempestade
Jesus dorme Jonas dorme
Súplica dos discípulos Súplica do comandante
Jesus ordena que o vento e o mar se acalmem Jonas ordena que ele seja lançado ao mar
Os discípulos sentem medo Os marinheiros invocam o Deus de Israel
Os discípulos se admiram Os marinheiros são tomados de temor

 

Na narrativa de Jonas, se reconhece que Deus possui o domínio sobre as forças da natureza, na narrativa de Marcos, os discípulos reconhecem em Jesus o poder sobre as forças naturais.

Aproximando as narrativas de Jonas e de Marcos se observa que Deus e Jesus possuem o mesmo domínio sobre a criação.

Pode-se indagar sobre a relação entre Jonas e Jesus. Jonas se recusa assumir a missão confiada por Deus. Portanto, ele começa um processo de decida e afastamento: desce para Jope; desce para o fundo do barco e, finalmente, desce para o fundo do mar na barriga de um peixe. Somente quando aceita assumir a missão, se estabelece um processo de subida até Nínive.

Na narrativa de Marcos, Jesus assume a missão confiada pelo Pai e dá início a um processo de subida: a) da Galileia para Jerusalém; b) da cruz para o céu.

O tema do “domínio sobre a criação” reaparece na 1ª Leitura, proveniente da Profecia de Jó.

1ª Leitura: Jó 38,1.8-11

A 1ª Leitura pertence ao Livro de Jó. Este é um homem fiel a Deus e passa a ser tentado por Satanás. A questão central da obra é a compreensão da teologia da retribuição, segundo a qual o justo deveria prosperar e o ímpio sofrer. Contudo, a história apresentava uma realidade totalmente contrária, ou seja, o sofrimento do justo e a prosperidade do ímpio.

Quando se abate a desgraça sobre Jó, este é questionado sobre quais erros teria cometido e, ao mesmo tempo, passa a questionar Deus pelo sofrimento. A certa altura do embate entre Jó e Deus, este questiona Jó: a) quem é o autor de toda criação? b) que tem o domínio sobre a criação? Tais indagações leva Jó a reconhecer o senhorio divino, resultando na afirmação divina de sua presença em todos os momentos da vida de Jó, mesmo na desgraça. Em síntese: a obra descreve que aquele que cria é aquele que cuida da criação (Deus é criador e provedor), pois é Senhor da Criação. Tal temática é, também, desenvolvida no Salmo 106(107) que exalta, justamente, o domínio divino sobre a Criação, por ser o Criador. Esta perspectiva passará a fazer parte do Credo, no qual se reconhece Deus não a partir do Credo primitivo de Israel, ou seja, Deus Libertador, mas como o Deus Criador de todas as coisas.

2ª Leitura 2Cor 5,14-17

A 2ª Leitura está inserida no bloco no qual Paulo repreende a comunidade de Corinto por acusá-lo de ser leviano, mais exatamente, um homem sem palavra. Tal acusação surge devido à mudança nos planos de viagem (cf. 1Cor 1,15-17). Diante da questão dos planos de viagem, Paulo passa a abordar os desafios da missão:

2,12-4,6: ministério apostólico

4,7-5,10: desafios do ministério

5,11-6,10: exercício do ministério apostólico

Particularmente no bloco de 5,11 a 7,16 Paulo desenvolve a temática do “Ministério da Reconciliação”, dividido em duas partes: a) 5,11-6,10: fundamentos do Ministério da Reconciliação; b) 6,11-7,16: parênese sobre o tema. Deste modo, a narrativa deste domingo se encontra nos fundamentos.

Paulo vem desenvolvendo o tema do ministério, explicando que ninguém está apto para a missão se Deus não o estabelecer (cf. 2Cor 3,1-6). De fato, o ministério confere a vida verdadeira através da união com Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo (cf. 2Cor 3,7-18). Isto não fica claro para alguns porque o “Príncipe deste Mundo” impede que se perceba a obra de Deus realizada em Cristo e resplandecente nos Apóstolos (cf. 2Cor 4,1-6). Tal anúncio passa pelo testemunho dos Apóstolos em favor dos fiéis (cf. 2Cor 4,7-18). Paulo exorta os fiéis que tal missão é operada por pessoas concretas e reais, no qual o corpo pode definhar com o tempo, mas o espírito se eleva (4,7-5,10), tendo em vista o “penhor do Espírito” que garante a atividade do fiel (5,5). A atividade missionária vai se desenvolvendo com a perspectiva que tudo é renovado em Cristo. Portanto, a criação passa por um processo de reconciliação, cujo tema é desenvolvido na leitura de hoje, ao tratar o tema do “ministério da reconciliação”.

O elemento fundamental da narrativa encontra-se no v. 21, quando Paulo afirma que “aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado”. Isto evoca o tema da cruz, no qual, segundo a ótica paulina, Jesus se fez o corpo do pecado para destruir o pecado. Disto deriva a teologia paulina do Pecado Original. Toda a criação estando sujeita ao pecado, foi libertada por Jesus Cristo no evento da cruz.

Tendo Jesus destruído o corpo do pecado, toda a criação é “recriada” em Cristo. Portanto, a história da humanidade é “cristificada” em Cristo Jesus, que se torna a possibilidade da vida nova.

 



[1] Reisner R. Lago di Genezaret. Grande Enciclopedia Illustrata della Bibbia. Torino: Piemme 1997. Vol. 2. p. 26-27.

 

 

10º Domingo do TC Ano B 2021

 

Após o período Pascal, a Liturgia retorna para o Tempo Comum a partir da 10ª Semana do Tempo Comum. Efetivamente da 10ª à 14ª Semana do TC (3,7-6,6) será meditado a escolha e a instrução dos discípulos por meio de parábolas e prodígios. A narrativa de Mc 3,7-12 apresenta um sumário no qual descreve que os ensinamentos de Jesus atingem os confins da Galileia, tendo em Mc 3,13-19 Jesus subindo a montanha e chamando os 12 Apóstolos. A partir deste momento toda atividade de Jesus se realizará “com” os Doze, estabelecendo estreito vínculo entre a sua missão e a missão Igreja.

1ª Leitura: Gn 3,9-15

Na 1ª Leitura o fato central é o diabo que lança a dúvida no coração da pessoa humana. De fato, o fator que leva o homem e a mulher ao pecado é oferecer algo que eles já possuem (= sabedoria // são imagem e semelhança de Deus) e confundir a Palavra de Deus, ou seja, o diabo manipula o sentido da Palavra. Durante o decorrer das narrativas bíblicas se observará como o diabo inverte o sentido da Palavra de Deus, fazendo com que a pessoa humana se confunda e cai no engano.

O silêncio do Pai e do Filho na cruz expressa exatamente o rompimento com a astúcia de Satanás. A vida doada é força de vida e amor. Na cruz o Filho não se justifica, buscando a si próprio, mas não tendo pecado, se fez corpo do pecado para destruí-lo através da sua vida doada em favor todos.

2ª Leitura: 2Cor 4,13-5,1

São Paulo, escrevendo para a comunidade de Corinto sublinha, na narrativa de hoje, a dimensão do homem interior que acolheu a Palavra. Mas quem é a Palavra? É, justamente, o Crucificado que é o Ressuscitado. Esta confiança inabalável permite que o “homem interior” evolua, mesmo que o homem exterior decline, pois o olhar voltado para as coisas espirituais que ilumina, também, as realidades humanas.

Na descrição do pecado, na 1ª Leitura, existe um processo de “crise” do homem e a mulher entre optar pela Palavra de Deus e a palavra do diabo. São Paulo insiste que pela fé no Cristo Ressuscitado, o Filho de Deus, fica estabelecido uma direção clara para o batizado. Portanto, Jesus Cristo se torna o referencial e o critério base para que o cristão possa nortear a sua vida e os seus passos. Tal perspectiva possui clareza no Evangelho, no qual se define quem são os verdadeiros familiares de Jesus, ou seja, aqueles que fazem a “vontade de Deus”, que tem como primazia acolher e tomar como modelo o filho Amado.

Evangelho: Mc 3,20-25

Na narrativa de Mc 3,20-35 (10º Domingo TC) se observa o método de estruturar narrativa, típica de Marcos, o qual consiste no intercalar dois episódios com outro entre eles, na forma de um “sanduiche”. No caso encontramos os parentes de Jesus que não compreendem a sua missão e sua dinâmica frenética de trabalho que não deixa tempo livre nem para comer (3,20-21), Marcos intercala uma disputa com os escribas vindos de Jerusalém (3,22-30). A objeção dos parentes corresponde diretamente as objeções dos escribas (“está fora de si” // possuído por Beelzebu). Terminado a disputa os parentes chegam a Cafarnaum (3,31-35). Contudo, a Proclamação do Reino está em ato e os que o desejam seguir deverão optar pela vontade Deus e cumprí-la.

Assumir o Projeto de Deus implica na dedicação integral e na radicalidade ao Projeto do Reino que exige novo modelo de relação familiar e distinto agir na sociedade. Não atuando mais por critérios de sangue e nem por modelos sociais imposto, mas na imitação do Crucificado, que é o Ressuscitado, o cristão será causa de incompreensão, mas exatamente, de temor e de tremor. Temor para aqueles que estão no caminho do bem e tremor para aqueles que estão no caminho do mal.

A intercalação da narrativa com a disputa com os escribas expõe a temática do Reino, no qual Jesus coloca em evidência que o Reino de Satanás está em direta oposição ao Reino de Deus. A parábola do homem forte e do homem mais forte estabelece paralelo antagônico entre satanás (forte) e Jesus (mais forte). O diabo propõe um reino que possui por usurpação, Jesus propõe o Reino de seu Pai, não constituído por processo de usurpações e tiranias, mas um reino de vida, mas exatamente de vida eterna.

Síntese

Na 1ª Leitura, o diabo pôs a dúvida no coração do homem e da mulher, sobre a Palavra de Deus e a sua palavra. Eles foram obrigados a optar por uma ou por outra. No conjunto da narrativa da criação no livro do Gênesis, Deus pede ao homem e a mulher para não comer da árvore do bem e do mal (cf. Gn 2,17); atitude própria de um pai que adverte o filho sobre um determinado perigo, por exemplo, quando um pai ou uma mãe adverte o filho para não usar drogas. O diabo, por sua vez, deturba o coração do homem e da mulher, insinuando que Deus os enganou: “Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal” (Gn 3,4-5). A mesma coisa quando alguém tenta induzir uma pessoa, como no exemplo acima, no consumo de drogas ou outro erro: “isto não vai fazer mal…”. Portanto, caberá a pessoa discernir entre a palavra dos pais, visto como repressores, e da pessoa que a induz ao erro.

No Evangelho, Jesus está diante da sua família que o considera “fora de si”, dos escribas que o considera um possesso e a vontade do Pai. No conjunto, Jesus irá afirmar que prefere acolher a vontade do seu Pai e que, seus familiares e amigos, serão aqueles que fizerem a mesma opção, como a sua própria mãe: “faça-se em mim segundo a vossa palavra” (Lc 2,38).

Na 2ª leitura, Paulo exorta a comunidade de Corinto a escolher entre “o homem espiritual” e o “homem carnal”. Para uma sociedade acostumada e predisposta as “coisas carnais” (= promiscuidade, pluralidade de religiões e culturas) a comunidade de Corinto é convidada a fazer uma escolha evitando, assim, os vícios do passado, isto implica, portanto, num ato de fé, no caso, a opção pelo Cristo Ressuscitado, na certeza de que “Aquele que ressuscitou Jesus no ressuscitará”.

Solenidade da Santíssima Trindade Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

           Celebramos hoje a Solenidade da Santíssima Trindade, ou seja, a festa do ser de Deus. Unidade na Trindade; Trindade Única: Pai, Filho, Espírito, mistério de um único Deus, pois Deus é Um.

1ª Leitura: Dt 4,32-34.39-40

Na 1ª Leitura, Moisés descreve o ser de Deus a partir das suas ações. A novidade é que as divindades eram descritas como seres “necessitados de ajuda”, ou seja, cabia aos homens servirem aos deuses sob pena de ira divina, habitualmente através de alguma catástrofe natural. A leitura descreve que o Deus Israel é alguém que se relaciona diretamente com a sua criação e, além disso, não tem necessidade de ser servido, mas Ele mesmo é que serve, cuida, cria, defende… Portanto, a novidade do Deus de Israel é a sua sensibilidade em “cuidar” e que se esforça pelo bem daqueles que Ele escolhe. Mas quem Ele escolhe para servir? O menor e o mais fraco entre todos os povos. Assim, Deus é sensível aos pequenos, porque estes não possuem ninguém em seu favor. É Deus que olha com carinho e protege. Israel não foi escolhido por ser o maior e o melhor entre todos os povos, mas justamente o contrário. A partir disto, também se manifestam outras características divinas, ou seja, Deus é amor e misericórdia.

2ª Leitura: Rm 8,14-17

Retornando a realidade da 1ª Leitura, Paulo descreve que os deuses pagãos possuíam a sua força e razão de existir através de imposição de medo, tornando a humanidade “escravos” de suas vaidades e vontades. Paulo, irá explicar aos romanos que a força da fé cristã não reside no incutir medo e subserviência, mas de relação filial, no qual os cristãos possuem um Pai que os ama e cuida dos seus filhos.

A experiência cristã acontece na liberdade de filhos amados que, como herdeiros, se sentem chamados para o amor. Amor que se doa, no qual Jesus Cristo, o Filho Amado, não poupa a sua própria vida em favor daqueles que buscam o bem. Novamente subentra a ideia de Deus servindo e não sendo servido, pois Ele, sendo Deus, não precisa que alguém o sirva para que seja Deus, mas o contrário, sendo Deus possui as condições de ser e de servir. Assim, Ele passa a ser descrito e assumido como “Pai”.

Evangelho: Mt 28,16-20

Tendo a concepção que o seguimento não passa pelo crivo do medo, mas do temor, aquele que é chamado para o seguimento é a pessoa que aprende com Deus a colocar-se a serviço em favor da humanidade. Neste sentido a Trindade se torna referencial de “amor praticado” e, seguindo este modelo o cristão se empenha para levar a toda a humanidade a mensagem de esperança, ou seja, que existe um Deus que tudo criou e, portanto, cuida e protege a sua criação com carinho. Um Deus que deus seu Filho Amado, pois muito nos amou. Um Filho que deu a sua vida, tendo amado até o fim e, finalmente, um Espírito Santo de amor dado pelo Pai e pelo Filho, que percorre o universo santificando a humanidade.

Santo Agostinho explicava a Trindade dizendo que: Deus é amor, que o Filho é o amado e que o Espírito Santo é o amante. Comunhão de amor que se doa. Comunhão de amor que cria, salva e santifica a humanidade. Desta maneira, nós que somos a imagem e semelhança de Deus assumimos a responsabilidade de recriar a humanidade, de salvar a humanidade e de santificar a humanidade. Ser no mundo amor que se doa. Temos em nós a mesma responsabilidade de amor verso a criação e a mesma responsabilidade de amor verso Deus Uno e Trino.

Síntese

Para as primeiras comunidades, como para nós hoje, a Trindade era o modelo, a base e a referência do agir cristão, assim, antes de explicá-la, eles fizeram a experiência da Trindade, de um Deus Criador, de um Filho Redentor e de um Espírito Santificador.

Na história da Igreja a compreensão da Santíssima Trindade foi alvo de calorosos debates. Na origem da Igreja, a busca pela compreensão sobre a Trindade levou muito estudiosos a compreensões equívocas ao tentar manter a ideia de Monoteísmo diante do mistério do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Dentre os diversos erros de compreensão sobre a Santíssima Trindade, encontramos o “Modalismo”, na qual afirmava que a Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eram apenas modos de se revelar de Deus. Esta heresia salvava o conceito de Monoteísmo, mas, por outro lado, destruía a própria Trindade. Em sentido inverso o “Triteísmo” afirmava a absoluta distinção das pessoas da Trindade. Se no modalismo o monoteísmo era salvaguardado, aqui ele era totalmente negado caindo no politeísmo. Outra solução foi o “Subordinasionismo”. Segundo esta heresia, o Filho e o Espírito Santo seriam inferiores ao Pai e superiores aos homens, tornando o Filho e o Espírito apenas criaturas criadas por Deus.

Diante disto pode-se perguntar então: “O que é a Santíssima Trindade”. Em primeiro lugar, a Trindade é Deus e Deus é Pai, é Filho e é Espírito Santo; e Deus é UM.

Procurando compreender o mistério do Ser de Deus, a Igreja, inspirada pelo Espírito Santo, convocou alguns concílios ecumênicos. O primeiro foi o de Nicéia (325), no qual declarou que o Filho, Jesus Cristo, é gerado do Pai, não foi criado e, portanto, não é inferior ao Pai. Sendo gerado do Pai, o Filho Jesus Cristo, possui a mesma natureza divina do Pai. Portanto, é consubstancial ao Pai, ou seja, possui a mesma natureza divina de Deus: “Eu e o Pai somos Um. Tudo o que o Pai possui é meu. Eu estou no Pai e o Pai está em mim…” (Jo 8).

O Concílio de Nicéia nos deu a verdadeira compreensão sobre Jesus Cristo no mistério da Trindade. Porém, faltava explicar qual era o lugar do Espírito Santo dentro da Trindade. Somente alguns anos mais tarde, ou seja, durante o Concílio de Constantinopla (381) é que a Santa Igreja explica o Espírito Santo a partir da sua relação com a encarnação de Jesus Cristo, proclamando que Ele é “Senhor e doador de Vida, que procede do Pai, com o Pai e o Filho é adorado e glorificado e falou por meio dos profetas”.

De tudo o que falamos até aqui, é importante relembrar que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são distintos um do outro, mesmo sendo possuidores de uma única natureza divina. Assim podemos dizer que a Trindade são três pessoas, não três máscaras; três pessoas, mas não três deuses, mas possuidores de uma única natureza divina. A Trindade está em comunhão perfeita, indivisível e um existe no outro, um está em relação com o outro, de modo que podemos falar de comunhão perfeita, sem confusão e sem separação: O Pai ama o Filho e o Espírito Santo; O Filho ama o Pai e o Espírito Santo; e o Espírito Santo ama o Pai e o Filho. Tal qual é o Pai, tal qual é o Filho, tal qual é o Espírito Santo. Incriado Pai, incriado Filho e incriado Espírito Santo. Grandíssimo Pai, grandíssimo Filho, grandíssimo Espírito Santo. Eterno Pai, eterno Filho e eterno Espírito Santo. Santíssimo Pai, santíssimo Filho e santíssimo Espírito Santo. Contudo, não são os três incriados, não são os três grandíssimos, não são os três eternos e não são os três santíssimos. Somente Um é incriado, somente Um é grandíssimo; somente Um é eterno e somente Um é santíssimo. Somente Um é Deus e Deus é Um. Somente Um é Deus e Deus é Trino.

A primeira comunidade cristã fez a experiência da Trindade antes de tentar explicá-la. De fato, para os primeiros cristãos, a Santíssima Trindade não era uma “Teoria Celeste”, uma ideia abstrata, mas uma experiência de vida, a parte fundamental da sua existência. Na realidade para os primeiros cristãos, como para nós hoje, a Santíssima Trindade era: lugar de amor, ambiente de oração, referência constante do agir cristão, motivo de fé e de esperança; estímulo a caridade; fundamento de salvação.

Objeto de Amor: Na Santíssima Trindade não encontramos divisão e nem separação, pois o Pai está para o Filho, como o Filho está para o Pai; o Pai ama o Filho, como o Filho ama o Pai; o Pai e o Filho amam o Espírito; como o Espírito Santo ama o Pai e o Filho. Nenhuma das pessoas da Trindade age sozinha, isolada, pois na Trindade não existe solidão, egoísmo, pois tudo é comunhão de amor doado. A vida cristã tem o seu agir justamente na experiência da Santíssima Trindade, ou seja, ela é modelo, inspiração para a vida cristã, que não olha para si mesmo, mas um doar-se totalmente a Deus, nos irmãos até o martírio.

Lugar de Oração: Toda a vida cristã é vida de comunidade. Comunidade de amor, porque possui como modelo a Santíssima Trindade, que é comunidade Perfeita. Assim, toda a mística e toda espiritualidade e toda oração cristã é plenamente comunitária e centrada na Trindade. Toda e qualquer oração cristã acontece através, pela e na Trindade. Na fé cristã não existe oração solitária, porque é sempre comunitária, mesmo quando rezamos sozinhos.

Motivo de Fé e de Esperança: A Santíssima Trindade é a porta de entrada para a vida divina; motivo pelo qual somos batizados em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Na medida que progredimos no caminho da santidade e caminhamos para a pátria celeste, aprendemos com a Trindade a vida de amor no amor; a fim de contemplar e viver eternamente no Eterno, que é a fonte de vida. Através do Batismo nos tornamos santos e a cada dia trabalhamos para ser santo, como Deus é Santo.

Estímulo a Caridade: A Trindade como modelo de amor e serviço é para o cristão o principal ponto de referência. Na Trindade encontramos um esforço, um desejo, uma vontade imensa de criar, de salvar e de santificar. Criar, salvar e santificar quem? A mim, a ti a todos aqueles que são dignos de se chamarem Filhos de Deus; e nós o somos graças Aquele que nos amou e nos criou por seu amor, que nos salvou e nos santificou. Do mesmo modo aprendamos a amar, a criar e a santificar a vida onde a vida é roubada, onde a vida é desfigurada pela fome, pela violência, pelo abandono, pela injustiça. Recriemos no olhar das crianças abandonada, nos jovens drogados, na humanidade sofrida o olhar amoroso do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

 

 

Solenidade de Pentecostes Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

          A Festa de Pentecostes é uma solenidade tipicamente judaica. Vinculada à celebração da Páscoa Judaica, ela celebra as primícias do solo. Originalmente, as três grandes festas de Israel, celebravam a vida do campo: preparação do solo e sementes lançadas (Páscoa); as primícias do solo colhida cinquenta dias após (Pentecostes) e a colheita dos grãos ao final do ano agrícola (Tendas). Neste sentido, Semanas ou Pentecostes, mesmo após o processo de historização (Páscoa = saída do Egito; Tendas = 40 anos de caminhada pelo deserto sob a proteção de Deus) jamais perdeu a sua característica agrícola. Somente a partir do cristianismo, assume a ideia de Aliança e Lei do Sinai.[1]

A Solenidade Judaica é um momento pelo qual Israel pode apresentar seus dons a Deus como gratidão. A partir da Pentecostes cristão acontece uma inversão, não é mais Israel que oferece seus dons, mas Deus que oferece o seu dom (=Espírito Santo) à Igreja e ao mundo e o Espírito Santo, enquanto Dom, que oferece o seus dons.

A sua liturgia é descrita em Dt 26,3-10:

Virás ao Sacerdote em função naqueles dias e lhe dirás: Declaro hoje a Iahweh meu Deus que entrei na terra que Iahweh, sob juramento, prometera aos nossos pais que nos daria! O sacerdote receberá o cesto de tua mão, colocá-lo-á diante do altar de Iahweh teu Deus, e, tomando a palavra, tu dirás diante de Iahweh teu Deus: Meu pai era um arameu errante: ele desceu ao Egito e ali residiu com poucas pessoas; depois tornou-se uma nação grande, forte e numerosa. os egípcios, porém, nos maltrataram e nos humilharam, impondo-nos uma dura escravidão. Gritamos então a Iahweh, Deus dos nossos pais, e Iahweh ouviu a nossa voz: viu nossa miséria, nosso sofrimento e nossa opressão. E Iahweh nos fez sair do Egito com mão forte e braço estendido, em meio a grande terror, com sinais e prodígios, e nos trouxe a este lugar, dando-nos esta terra, uma terra onde mana leite e mel. E agora, eis que trago as primícias dos frutos do solo que tu me deste, Iahweh. E as depositarás diante de Iahweh teu Deus, e te prostrarás diante de Iahweh teu Deus.

Na obra lucana, o Evangelho conclui-se com o relato da Ascensão do Senhor aos céus com algumas recomendações e, entre elas, a de aguardarem a força “do alto” a ser enviada por ele cumprindo a promessa do Pai (cf. Lc 24,44-53). O livro dos Atos dos Apóstolos tem início justamente com o tema da Ascensão com esta conclusão do terceiro Evangelho (cf. At 1,6- 11). Particularmente em Atos no diálogo entre Jesus e os Apóstolos estes o questionam a respeito da restauração de Israel (cf. At 1,6-7), no qual Jesus afirma que o tempo pertence ao Pai e prossegue anunciando que os Apóstolos receberão “uma força”, que corresponde ao Espírito Santo que descerá sobre eles, tornando-os testemunhas em Jerusalém e por toda a terra (cf. At 1,8).

1ª Leitura: At 2,1-11

O livro dos Atos dos Apóstolos dedica um amplo espaço para o tema da Festa de Pentecostes, no qual apresenta o que antecede à vinda do Espírito Santo, o evento propriamente dito, e a consequência disto. Pode-se observar o seguinte esquema: 1. Promessa do Pentecostes (1,4-8); 2. Preparação para o Pentecostes (1,12-26); 3. As provas do Pentecostes (2,1-4); 4. As pessoas do Pentecostes (2,5-13); 5. A profecia do Pentecostes (2,17-21); 6. A pregação sobre o Pentecostes (2,22- 40); e, 7. A proposta do Pentecostes (2,41-47). Assim, com a Ascensão de Jesus, a primeira iniciativa dos Apóstolos é a de recompor o grupo dos doze com a escolha de Matias para o lugar de Judas Iscariotes. Após a reestruturação do grupo dos Doze, Lucas descreve o evento do Pentecostes (cf. At 2,1-13), seguida pela explicação de Pedro à multidão sobre o que ocorreu e o fenômeno das línguas a partir das tradições de Israel (cf At 2,14-36), seguida pela conversão de muitos (cf. At 2,37-41) e a consequência para a comunidade cristã (cf. At 2,42-47). Na narrativa lucana de At 1-2 o Pentecostes confere aos Apóstolos o Espírito Santo e, investidos da “força do alto” estes também recebem o “dom de línguas” capacitando-os para a pregação da Boa Nova aos povos de diversas línguas. Deve-se sublinhar, então, que ocorrem dois fatos: a efusão do Espírito Santo e a concessão do dom de línguas, ou seja, os Apóstolos, tendo recebido o Espírito Santo como dom, recebem do próprio Espírito o dom de línguas em vista da missão. Apesar de Lucas se basear na profecia de Joel sobre a promessa do Espírito Santo para os tempos futuros, permitindo àqueles que receberiam o dom de profetizar, o relato enfatiza o tema do testemunho, baseando-se na profecia de Isaías (cf. Is 43,3.10; 44,8; 32,10; 59,21).

2ª Leitura 1Cor 12,3b.12-13 (+ LG 12)

O Concílio Vaticano II ao tratar do tema “carisma” distingue dois conceitos diversos: a) dom extraordinário, dado por Deus de modo excepcional, e, b) dom qualquer, dado por Deus para a edificação da Igreja. O documento conciliar Lumen Gentium (capitulo1§4), falando da obra do Espírito na Igreja, expressa que: “A Igreja, que Ele conduz à verdade total (cfr. Jo 16,13) e unifica na comunhão e no ministério, enriquece-a Ele e guia-a com diversos dons hierárquicos e carismáticos e adorna-a com os seus frutos (cfr. Ef 4,11-12; 1Cor 12,4; Gl 5,22).”

Podemos perceber que o Documento salienta uma distinção entre dons hierárquicos e carismáticos. Igualmente no §7 que trata da Igreja como Corpo de Cristo, expressa em referência a 1Cor 12,1-11: “Assim como os membros do corpo humano, apesar de serem muitos, formam um corpo único, assim também os fiéis, em Cristo (cf. 1Cor 12,12). Também na edificação do Corpo de Cristo há diversidade de membros e de funções. Único é o Espirito que para bem da Igreja (cf. 1Cor 12,1-11) distribui os seus vários dons conforme as suas riqueza e a necessidade de cada ministério (cf. 1Cor 12,1-11)… Ele (Cristo) distribui continuamente ao seu corpo, que é a Igreja, os dons dos diversos ministérios”.

Também na construção do Corpo de Cristo vigora uma diversidade de membros e ofícios. Um é o Espírito, o qual distribui para a utilidade da Igreja a variedade dos seus dons segundo a sua riqueza e as necessidades dos ministérios (cf. 1Cor 12,1-11). Entre estes dons sobressai a graça (gratia) dos apóstolos, cuja autoridade o mesmo Espírito submete os carismas (carismáticos) (cf. 1Cor 14). Aqui se encontram três expressões diversas: dons, graça e carismas. A última frase pode sugerir que os apóstolos não façam parte dos carismas.

O §12 trata amplamente dos carismas e adota o substantivo “charismata”. Este parágrafo encontra-se no segundo capítulo [O Povo de Deus], logo após o parágrafo sobre do “sacerdócio comum”. O tema inicial do parágrafo é sobre o ofício profético do Povo de Deus. O discurso de Pedro no dia de Pentecostes (cf. At 2,16-21) proclama a atuação do oráculo de Joel, o qual anunciava que todos receberiam o Espírito de Deus e profetizariam (cf. 3,1-5). A LG não ressalta o aspecto real do Povo de Deus, como se pode perceber, apenas a dignidade sacerdotal e profética; é nesta dignidade (sacerdotal e profética) que vem anexado a presença dos carismas:

…o mesmo Espírito Santo não se limita a santificar e a dirigir o Povo de Deus por meio dos sacramentos e dos ministérios, e a orná-los com as virtudes, mas também, nos fiéis de todas as classes, ‘distribui individualmente e a cada um, conforme entende’, os seus dons (1Cor 12,11), e as graças especiais, que os tornam aptos e disponíveis para assumir os diversos cargos e ofícios úteis à renovação e maior incremento da Igreja, segundo aquelas palavras: ‘A cada qual se concede a manifestação do Espírito para utilidade comum’ (1Cor 12,7). Devem aceitar-se estes carismas com ação de graças e consolação, pois todos, desde os mais extraordinários aos mais simples e comuns, são perfeitamente acomodados e úteis às necessidades da Igreja.

Aqui também encontramos três temas: dons, graças especais e carisma. O Documento Conciliar específica a natureza dos carismas, que se trata de dons funcionais. Temos assim que, “atividade” e “serviço se relacionam e assumem a função de utilidade. Assim, o dom é concedido para a Utilidade da Igreja, conforme 1Cor 12,7, entendendo Igreja como Corpo de Cristo, Luz para o Mundo ou Sacramento de Salvação.

A novidade do Concílio é a distinção entre “administração ordinária da graça” e “iniciativas novas”. Por “administração ordinária”, o Espírito se serve dos sacramentos e dos ministérios institucionais, enquanto para “iniciativas novas”, se serve dos carismas.

Podemos dizer que o carisma é por natureza funcional, não implicando diretamente na santificação de quem o possui[2], subentendendo que esta utilidade não está exclusa. A utilidade para a edificação da comunidade é o critério para julgar se um carisma é mais ou menos importante.

1Cor 12 nos apresenta duas listas de dons e carismas, ambas são complementares. Contudo, São Paulo faz referência aos ministérios (diaconia) e modos de ação (energêmata) que são atividades do próprio Deus, através do Espírito, tendo Jesus Cristo como modelo (cf. vv. 4-6):

4Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo;

5diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo

6diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos.

 

Os dons dados pelo Espírito não são para a glória pessoal de quem o recebe, ou oportunidade de sobrepor-se aos demais, mas representam a oportunidade para o ministério ou para o serviço à comunidade e através desta o serviço à Deus. Todo serviço ou ministério parte de Deus e o resultado deste serviço converge para Deus.

 

Evangelho Jo 20,19-23

O Evangelho para a Solenidade de Pentecostes é sempre a narrativa do encontro de Jesus Ressuscitado com os Apóstolos conferindo-lhes o Espírito Santo, como “dom” e com este, uma prerrogativa particular de Deus, ou seja, o de perdoar pecados. A partir desta dimensão, a remissão dos pecados passa diretamente para o ato sacramental. O próprio Jesus havia usado a prerrogativa do Pai de perdoar pecados gerando controvérsias entre os judeus e acusação de blasfêmia. Agora um atributo próprio de Deus é atribuído aos Apóstolos.

Em jogo esta a novidade da ressurreição próxima da ideia da nova criação, na qual o homem redimido pode se tornar apto de Deus. Na tradição protestante entra a negação do ato sacramental e a ideia de ligação direta com Deus (Eu e Deus) junto com expor a realidade do pecado para a comunidade. A situação de pecado pode ser exposta ao público, mas não haverá remissão dos pecados e a matéria do pecado permanecerá sobre o pecador, algo que é anulado através do ato sacramental. Tirando outras questões que envolvem a questão, a essência principal do “poder” de perdoar os pecados dada pelo Senhor aos Apóstolos esta em vista de libertar a pessoa possibilitando-a de se tornar toda de Deus sem reservas ou impedimentos.

Levando em consideração que o Espírito Santo possui a missão de conduzir tudo e todos à Cristo e este ao Pai, o tornar a pessoa apta e o abrir o caminho e a possibilidade do seguimento e da atividade missionária, no qual o homem/mulher deixa de ser escravo do pecado para se tornar servo de Deus (cf. Rm 6) em favor da humanidade.

A Solenidade de Pentecostes celebra o envio da Igreja ao mundo com a “potência” do Espírito Santo guiando-a e capacitando-a para a missão a ser realizada. Tendo ela sido gerada no chamado dos 12 Apóstolos, ao início da missão de Jesus na Galileia e nascida no dia da Ressurreição, agora é enviada em missão, configurada ao seu Senhor e fortalecida pela ação do Espírito Santo.



[1] Araujo, Gilvan Leite de. A Festa de Shavuot. Revista de Teologia e Ciências da Religião da UNICAP. p. 363-384.

[2] O único dom de santificação pessoal é o da glossolalia (cf. 1Cor 14,4). Contudo, junto com o dom da profecia, o dom de língua “angélica” (≠ do dom de língua em At 2), é individual e possui órgão de controle, ou seja, só pode ser exercido o dom se autorizado por aquele que preside a assembleia e é o possuidor do dom do discernimento (cf. 1Cor 12,10; 14,26-32.39)

Solenidade da Ascensão do Senhor Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

            A Solenidade da Ascensão do Senhor se coloca no ciclo pascal como a quadragésima que está em relação com o Domingo da Páscoa e a quinquagésima, ou seja, o dia de Pentecostes. Portanto, esta Solenidade é um marco entre a “subida de Cristo da morte” (Ressurreição) e a “descida do Espírito Santo” sobre os Apóstolos. Na estreita relação com o Pentecostes temos a “subida de Jesus Cristo aos céus” e a “descida do Espírito Santo sobre a terra”.

A narrativa lucana termina anunciando a Ascensão de Jesus aos céus na região de Betânia (Lc 24,50-52). Esta informação cria certe dificuldade com a narrativa marcano que coloca a Ascensão na região da Galileia (cf. Mc 16,7). Outro problema de narrativa é quanto ao momento da Ascensão. Na narrativa lucana dá-se a impressão que a Ascensão ocorre no mesmo dia da Ressurreição. Contudo, a narrativa de Atos dos Apóstolos corrigi a questão informando que Jesus permaneceu quarenta dias (quadragésima) com os Apóstolos (cf. At 1,3). Quanto ao lugar da Ascensão permanece a questão entre a tradição de Marcos e de Lucas. A Igreja Primitiva, no entanto, tendeu a seguir a narrativa lucana como é indicado através de duas Basílicas: Eleona (=oliveira) e Imbomon (=altura), sendo que esta última passará a ser conhecida como Basílica da Ascensão de Jesus (±380 d.C.).

A partir da Igreja Primitiva se estabelece uma estreita relação entre Ascensão de Jesus e Descida do Espírito Santo, inspirada pelas palavras de Jesus: “Não compete a vós conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade. Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e a Samaria, e até os confins da terra” (At 1,7-8). Portanto, Ascensão fica diretamente relacionada com Pentecostes.

A tradição cristão primitiva colocava em relação duas Grutas/Basílicas: a da Natividade e a da Eleona-Imbomon, partindo do pressuposto que, na primeira, Cristo desceu e da segunda, Cristo subiu. Criando uma relação entre Nascimento e Ascensão de Jesus. Outra particularidade primitiva é o direcionar-se, durante a oração, para o oriente, pois a Ascensão implica num anúncio de retorno. Portanto, se estabelece uma perspectiva escatológica, a Parusia.

Quanto à liturgia, a Igreja sempre optou pela narrativa de Marcos, mesmo tendo a narrativa de Lucas maior expressividade. Tal fato se deve pela seguinte frase: “o Senhor Jesus… foi arrebatado ao céu e sentou-se à direita de Deus” (Mc 16,19), na qual é afirmado a entrada de Jesus na glória eterna de seu Pai. Portanto, o contexto teológico de “estar sentado à direita do Pai, como se proclama no Credo.

São Pio V estabelece a rubrica do “apagar o Círio Pascal” ao término da proclamação do Evangelho. Na tradição latina, a oitava da Ascensão era dedicada ao tema da “Glória de Cristo” na expectativa de Pentecostes, suprimida posteriormente com a reforma litúrgica do Vaticano II.

1ª Leitura: At 1,1-11

O primeiro capítulo do Livro do Atos dos Apóstolos descreve a reorganização da comunidade dos Doze, após a morte de Judas Iscariotes. Assim, o tema central é o da organização/ordem. Isto está em vista da descida do Espírito Santo, bem como evoca a narrativa da criação no livro do Gênesis.

Em Gn 1, antes da criação, existia o “caos” (sem forma, vazia, escura) até que o “espírito de Deus começa a pairar” (Gn 1,2). A partir do momento que o Espírito de Deus começa a pairar e Deus começa a falar, o caos é transformado em “jardim/paraíso”. Sendo a Igreja a imagem da nova criação, o Espírito irá pairar sobre ela quando estiver “ordenada/organizada”. Portanto, tanto na narrativa da criação como do envio da Igreja, o tema da harmonia/ordem estará em relação com o Espírito Santo.

Na narrativa deste domingo, o Prólogo dirigido a Teófilo (=amigo de Deus) apresenta uma síntese dos pontos principais do Evangelho de Lucas, preparando para o que seguirá. O ponto principal é o anúncio do “batismo” com o Espírito Santo, conferindo um “poder” particular potencializando para a missão, que ocorrerá após a ascensão de Jesus. Assim, a narrativa está vinculando o tema do Pentecostes com o da Ascensão, bem como abrindo para uma perspectiva futura, com o tema da Parusia.

2ª Leitura: Ef 1,17-23

A 2ª Leitura está sublinhando a figura de Deus Pai, que conferiu a Glória ao Filho, ao ressuscitá-lo e colocando-o como Cabeça da Igreja. Este mesmo Deus é o que concede o Espírito Santo, junto com o Filho, ao que creem e se tornam membros do Corpo.

No conjunto da leitura um primeiro elemento é o dom do Espírito Santo a ser dado aos que creem. Outro elemento fundamental, é o tema eclesial. Ela é descrita como membros do Corpo, cuja cabeça é o próprio Cristo. Portanto, a Igreja é uma realidade divina e sua missão, sob a guia do Espírito Santos, é conduzir tudo e todos para Cristo. Tendo Cristo a Plenitude Universal, a missão, consequentemente, assume uma perspectiva universal. Portanto, a missão e a evangelização são elementos substanciais da vida da Igreja, que abrange todo batizado.

Evangelho: Mc 16,15-20

A perspectiva universal da missão da Igreja se apoia na própria “ordem” dada pelo Senhor: Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15).

Para que a missão se realize, o Senhor confere o Espírito Santos, como força e guia da missão evangelizadora. Neste sentido, o dom do Espírito Santo não é em vista de quem o recebe e nem para o seu deleite particular, mas está em vista da Igreja e da missão. Assim, o Espírito Santo, irá potencializar o batizado colocando-o para “trabalhar” literalmente.

Um dos eixos principais do Evangelho próprio da Solenidade da Ascensão é esta: “o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao céu e sentou-se à direita de Deus” (Mc 16,19), ou seja, se destaca dois pontos: o ser elevado aos céus e o estar sentado a direita do Pai, como ficará configurado na profissão de fé cristã. O ser ressuscitado e o ser elevado ao céu, está em vista daqueles que creem, configurando uma promessa futura, como a Igreja irá pressupor através do dogma da Assunção de Nossa Senhora, na ideia das primícias daqueles que estiveram próximos do Senhor que se estende a todos. Quanto ao tema do “estar sentado à direita”, se configura como um elemento político de exercício de poder, ou seja, a ideia é proveniente da forma de governo babilônico e persa, no qual o grande rei presidia o colegiado dos reis subordinados. Assim, Deus é aquele que preside o “Conselho” do Reino Celeste e Universal, ao lado do Filho. Lógico que quando a mãe dos filhos de Zebedeu solicitam que seus filhos se sentem a direita e a esquerda no reino futuro, Jesus desmonta a ideia de poderio autoritário e apresenta a ideia de poder enquanto serviço (diaconia) que, também, será referencial para todo exercício de poder na Igreja.

Jesus Cristo, enquanto aquele que “deu a vida em favor” dos seus, estando sentado a direita do Pai, é aquele que exerce seu poder como um serviço em favor da humanidade, “para que todos tenham vida e a tenham em plenitude”. Para que isto se efetive, a Igreja é enviada em missão para abrir as portas e os corações para uma vida nova: como o Senhor foi elevado ao céu e está a direita do Pai, a Igreja anuncia que um dia seremos, pelo menos desejamos, elevados ao céu e contemplaremos Deus face-a-face.

 

6o Domingo da Páscoa Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

1ª Leitura: At 10,25-26.34-35.44-48

O décimo capítulo do Livro do Atos do Apóstolos narra a história do centurião romano chamado Cornélio. Descrito como homem piedoso, temente a Deus e generoso para com o povo. A narrativa tem início com a visita do anjo de Deus, durante a oração da hora nona, anunciando que Deus o havia agraciado escutando suas orações e solicitando que Pedro fosse chamado a sua casa.

A narrativa descreve um gentio reto, justo e bondoso que encontra graça diante de Deus. Tal descrição abre as portas para a universalidade cristã que será confirmada pelo dom do Espírito Santo que se derrama sobre a casa de Cornélio.

Singularmente se observa que o dom do Espírito Santo é dado antes do Batismo. Neste sentido, o Livro de Atos descreve o Espírito Santo sendo derramado ora após o batismo e ora antes do batismo. O que esta ocorrendo é que Deus está indicando, através do Dom do Espírito Santo, que os gentios também são aptos e são ambiente de missão, ou seja, Deus abre a missão universal da Igreja tendo o Espírito Santo à sua frente, guiando, assim, a Igreja. A ação do Espírito Santo sobre os gentios será a evidência concreta para definir se as prerrogativas judaicas, como a circuncisão, sejam exigidas aos gentios ou não para se tornarem cristãos, conforme é narrado no Concílio de Jerusalém (cf. At 15).

Deve-se notar, ainda, a presença do anjo de Deus. No livro do Atos dos Apóstolos os anjos cumprem a tarefa de cooperadores da Igreja. Neste sentido, os anjos são equiparados aos santos e ambos exercem a tarefa de intercessores e cooperadores. O gesto de Cornélio de se ajoelhar diante de Pedro evoca a narrativa do Livro do Apocalipse de João, no qual o vidente de Patmos se ajoelha diante do anjo e é convidado a não o fazer, pois o anjo é, também, servidor: “Caí então a seus pés para adorá-lo, mas ele me disse: Não! Não o faças! Sou servo como tu e como teus irmãos que têm o testemunho de Jesus. É a Deus que deves adorar!” (Ap 19,10; 22,8-9).

No conjunto, a presença do anjo e de Pedro e a ação do Espírito Santo convergem para o tema da Missão da Igreja, o qual anuncia, a todos indistintamente, Jesus Cristo, Morto e Ressuscitado.

2ª Leitura: 1Jo 4,7-10

A dinâmica missionária e universal da Igreja circunscreve uma dinâmica de amor. Contudo, tal amor não se reduz ao mero sentimentalismo, mas ação concreta diante do mundo. Sendo Jesus o sinal do amor do Pai para com toda a criação, o crê nele implica em ato de justiça. Além disso, o crer em Jesus se traduz em ação concreta em favor da humanidade. Tudo parte do primado do amor divino: “Deus nos amou por primeiro”.

Relacionando com a narrativa de Cornélio, se evidencia a distinção entre piedade e pietismo. Na própria fala de Pedro: “Bem sabeis que é ilícito a um judeu relacionar-se com um estrangeiro ou mesmo dirigir-se à sua casa. Mas Deus acaba de mostrar-me que a nenhum homem se deve chamar de profano ou impuro” (At 10,28). Assim, o que “teme a Deus e prática a justiça” (At 10,35) se torna, segundo a ótica petrina, agradável à Deus. Cornélio se configura como modelo daquele que ama a Deus a partir da sua prática.

Além disso, a abertura aos gentios possui ressonância do Segundo Isaías, no qual o profeta abre o judaísmo para acolher os gentios. Contudo, aqui, os cristãos é que vão ao encontro dos gentios e não o contrário. As Constituições Gaudium et Spes e Lumen Gentium são boas referências neste processo.

Evangelho: Jo 15,9-17

O capítulo quinze de João continua como a descrição do agir da Igreja. Na narrativa de hoje, Jesus afirma que o ato de o conhecer resulta em se tornar amigo, como se pode verificar na narrativa da missão petrina, no qual Jesus pergunta sobre amor e Pedro responder sobre amizade, indicando que, agora, ele está apto para o seguimento, indicado por Jesus a partir do apascentar o rebanho/cordeiros (Jo 21,15-18).

Jesus, como mestre, preparou os seus discípulos para a missão, agora é o momento da sua partida e ele indica como será o agir da Igreja após a sua partida (Jo 13-17). Singularmente, a missão terá como guia o próprio Espírito Santo, na Literatura Joanina, apresentado como Aquele que atua vinculando à pessoa de Jesus Cristo. Sob a força do Espírito Santo, o amor cristão será vincular a humanidade à pessoa de Jesus Cristo, partindo do testemunho. No tema do amor sub-entra o tema do Testemunho, pois será este que permitirá a anuência de todos os homens e mulheres em favor de Jesus Cristo e para o seu seguimento. O agir cristão expressa o amor divino e se torna, portanto, testemunho. Sem este testemunho concreto o processo missionário e evangelizador ficaria prejudicado.

O testemunho é o elemento vital no processo missionário da Igreja Primitiva, é ele que cativa e seduz para o seguimento de Cristo, caso contrário pode-se cair no racionalismo radical de palavras e imposições, transformando Deus num produto comerciável. O fundamentalismo impõe, enquanto a evangelização cativa pelo amor.

 

5º Domingo da Páscoa Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

1ª leitura: At 9,26-31

A 1ª Leitura narra a questão surgida referente a conversão de Paulo. De fato, nas narrativas do livro do Atos dos Apóstolos, ele é descrito como feroz perseguidor e, agora, do nada, surge como um convertido. Tal conversão seria uma estratégia para se descobrir quem era cristão? Além disso, a partir da conversão, Paulo passa ser odiado pelos judeus, temido pelos cristãos e tido como agitador pelos romanos. Portanto, a sua situação não era muito favorável.

Paulo nasceu de uma família judia, originária da cidade de Giscala (Galileia), mas de ascendência Benjaminita e residente em Tarso. O nome Saulo exalta o membro mais ilustre da Tribo de Benjamim, ou seja, Saul, o primeiro rei de Israel (cf. At 9,4). Segundo as indicações do próprio Paulo, ele era proveniente de uma família abastarda, tendo em vista possuir cidadania em Tarso (cf. At 21,39) e cidadania romana (cf. At 22), este é outro fato, que corrobora para o status da família de Paulo. Em todo caso, sendo proveniente de uma família abastarda isto lhe possibilitou elevada formação intelectual tanto das tradições judaicas (escola de Gamaliel em Jerusalém[1]) quanto gentílica. A elevada formação intelectual somada ao brilhante intelecto forjou um homem de elevadas qualidades.

A formação judaica e gentílica, principalmente da filosofia grega, é perceptível nas pregações e nas cartas por ele escritas (vocabulário, sensibilidade cultural, conhecimento do público, coesão…). Falando sobre sua pessoa, Paulo afirma: “Aliás, eu poderia até confiar na carne. Se algum outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível” (Fl 3,4-6). Isto coloca Paulo, em relação aos judeus e aos gentios, acima da média. Lógico que contava em seu desfavor aspectos físicos. A obra apócrifa chamada “Atos de Paulo e Tecla” descreve Paulo como uma pessoa mediana, calvo, pernas levemente curvadas, grandes olhos, sobrancelhas unidas e nariz grande”. Além disso, o próprio Paulo afirma sobre si mesmo: “Não quero dar a impressão de incutir-vos medo por minhas cartas, pois as cartas, dizem, são severas e enérgicas, mas ele, uma vez presente, é um homem fraco e a sua linguagem é desprezível” (2Cor 2,9-10). Todos estes fatores acima acabavam depondo contra Paulo. Contudo, se deve perguntar: Por que o Senhor escolheu justamente Paulo???

Todos estes dados acima, fornecem um quadro geral sobre a pessoa de Paulo, poderia não gozar de certos atributos físicos, mas gozava de uma mente privilegiada e caráter forte. Características necessárias essenciais para a missão que deverá assumir: tornar-se Apóstolo dos Gentios (cf. Ef 3). Tarefa que exigia caráter forte e determinado, eloquência intelectual, precisão, organização e fidelidade inquestionável e isto, Paulo tinha de sobra.

A 1ª leitura de hoje narra a temporada de Paulo em Jerusalém logo após a conversão. Todo convertido tende a ser radical e Paulo se destaca neste sentido. Chegando a Jerusalém, criará diversos problemas, motivo pelo qual os Apóstolos o enviam para Tarso, permitindo que Jerusalém voltasse a ficar em paz (cf. At 9,31), onde permanecerá por quase dez anos até o início da sua missão, um bom tempo para se assentar. Não se pode esquecer que os judeus irão se referir à Paulo nestes termos: “Verificamos que este homem é uma peste: ele suscita conflitos entre todos os judeus do mundo inteiro, e é um dos da linha-de-frente da seita dos nazareus” (At 24,5).

Sintetizando o que foi exposto acima, o que se pode falar efetivamente sobre a pessoa de Paulo: “UM HOMEM APAIXONADO PELO EVANGELHO”. Esta é a melhor descrição da pessoa de Paulo. Esta será a característica própria dos santos da Igreja, ou seja, o que são os santos? Homens e mulheres apaixonados pelo Evangelho, como se pode notar em Francisco de Assis, Teresa D’Avila, Antonio da Padova…

2ª Leitura: 1Jo 3,18-24

A sombra do que foi exposto acima é que se deve compreender a vida cristã. O cristão é aquele que se deixa transformar pelo Evangelho e, assim, torna Jesus Cristo, a medida da sua vida (cf. Ef 4,7-13).

Crer e professar Jesus Cristo, na Literatura Joanina, não se trata de meras palavras, mas de atitudes efetivas. Neste sentido, a medida da fé em Cristo é feita em relação ao irmão. Assim, na Literatura Joanina, o amor é sempre um ato, não palavra, tendo em vista que Deus é Amor, o amar é edificar o outro e cuidar da criação, ou seja, se trata de “amor praticado”, até que o próximo, que estiver desfigurado, alcance a imagem e semelhança do Criador.

Na Primeira Carta de João, o autor descreve que só existe fé, caso ele seja manifestado na vida do mundo, ou seja, caso ele seja praticado: “Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso: pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar. E este é o mandamento que dele recebemos: aquele que ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4,20-21).

Evangelho: 15,1-8

O Evangelho de hoje está em relação com a narrativa paulina da Igreja como Corpo de Cristo (1Cor 12), com suas respectivas distinções. No Quarto Evangelho constantemente aparece o verbo “permanecer”. Este verbo servirá, no capítulo quinze para descrever a configuração eclesial joanina. O membro da Igreja é aquele que permanece vinculado à pessoa de Jesus Cristo, apresentado na leitura, através da imagem da videira e dos ramos ou na imagem paulina da cabeça e membros do corpo. Nos dois modelos a vitalidade essencial do ramo/membro é proveniente da videira/cabeça. Disto deriva que o estar vinculado à Cristo é princípio de liberdade, não de cerceamento; de possibilidade de ação: produzir frutos (João) pois possui os dons (Paulo).

Tanto na perspectiva joanina como a paulina o ser ou o agir cristão não está em vista da própria pessoa, mas do outro. Nisto se constrói uma eclesiologia de comunhão e de serviço, tendo Cristo como cabeça de tudo. Cristo, de fato, é o ponto de partida e o ponto de chegada de toda vida eclesial e o estar nele vinculado implica necessariamente na missão (evangelização) e no serviço (diaconia).

Iluminado pela 1ª leitura, teremos Paulo como este modelo. Tendo Cristo como centro da sua vida, o que era outrora, não importa mais. O que importa, agora, é o olhar para frente. Não se deixando impedir por limites físicos, psicológicos, ele coloca os seus dons à serviço da Igreja, em pleno diálogo com a sua cabeça. O que importa para Paulo é Jesus Cristo, o Crucificado, que é o Ressuscitado, na sua Igreja. Paulo como Apóstolo dos Gentios, professa a sua fé efetivamente servindo a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo para o bem da humanidade.



[1] Existem dúvidas, no entanto, se Gamaliel era discípulo de Hillel ou de Shamai. Indícios paulinos, indicam maior proximidade com a escola de Hillel.

4º Domingo da Páscoa Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

1ª Leitura: At 4,8-12

A pregação de Pedro evidencia duas características teológicas da pessoa de Jesus Cristo, o tema do “Nome” e o tema da “pedra angular”. O primeiro tema evoca a natureza divina e o segundo a messianidade do Senhor.

A teologia da “Nome” aparece pela primeira vez no primeiro livro dos Reis. A obra descreve, pela boca de Salomão, que o Templo de Jerusalém foi construído para abrigar “o Nome do Senhor Deus” (cf. 1Rs 8).

Durante o rito de consagração do Templo de Jerusalém, Salomão dirige a palavra a toda assembleia reunida, após Deus tomar posse do recinto sagrado (1Rs 8,10-13) e anuncia que o Templo fora construído para abrigar o “Nome” de Deus retomando as palavras do Senhor Deus à Davi:

Desde o dia em que fiz sair meu povo do Egito, não escolhi uma cidade, dentre todas as tribos de Israel, para nela se construir uma casa onde estaria meu Nome, mas escolhi Davi para comandar Israel, meu povo. Meu pai Davi teve a intenção de construir uma casa para o Nome de Iahweh, Deus de Israel, mas Iahweh disse a meu pai Davi: Planejaste edificar uma casa para meu Nome e fizeste bem. Contudo, não serás tu quem edificará esta casa, e sim teu filho, saído de tuas entranhas, é que construirá a casa para meu Nome. (1Rs 8, 16-19; cf. 2Cr 6)

A narrativa da consagração do Templo sublinha que o Templo fora construída para abrigar o “Nome” e que, na realidade, não seria Davi a construir uma casa para Deus, mas sim, Deus a construir uma casa para Davi (=genealogia). Neste sentido surgem dois conceitos: 1) Nome = presença real de Deus em meio ao seu povo; 2) casa = Deus edificará uma casa/genealogia para Davi. Partindo do segundo tema, deve-se ressaltar que a promessa feita à Davi de uma casa, desenvolve a ideia de “trono eterno de Davi”, do qual nasce o tema do Messias Davídico, que, também, será aplicado a pessoa da Jesus. O primeiro tema é de interesse para a liturgia deste domingo, ou seja, o “Nome”.

Conforme mencionado acima, a primeira vez que surge o tema é em relação ao Templo de Jerusalém. Neste sentido, o Templo foi construído para abrigar o “Nome”, o que implicava em presença real de Deus em meio ao seu povo.

A proibição formal de “não tomar o santo Nome em vão” está relacionado a ideia primordial de real presença. Neste sentido se estabelece o processo de contradição entre estar diante de Deus (=Nome) e usurpar ou depreciar sua presença. Assim, evocar o Nome de Deus, significa, dentro da tradição de Israel, estabelecer e afirmar a real presença divina.

Jesus reafirma esta teologia ao propor a oração do Pai Nosso. De fato, a oração tem início com o tema da santificação do nome: “Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso Nome”. Esta primeira parte corresponde diretamente as palavras de Deus e de Davi no livro primeiro livro dos Reis:

Mas será verdade que Deus habita com os homens nesta terra? Se os céus e os céus dos céus não te podem conter, muito menos esta casa que construí! Sê atento à prece e à súplica de teu servo, Iahweh, meu Deus, escuta o clamor e a prece que teu servo faz hoje diante de ti! Que teus olhos estejam abertos dia e noite sobre esta casa, sobre este lugar do qual disseste: Meu Nome estará lá. Ouve a prece que teu servo fará neste lugar. Escuta as súplicas de teu servo e de teu povo Israel, quando orarem neste lugar. Escuta do lugar onde resides, no céu, escuta e perdoa. (1Rs 8,27-30)

Deus habitando os céus se faz presente em meio ao seu povo através do seu Nome. Neste sentido, a oração do Pai Nosso evoca esta real presença de Deus no meio do seu povo. Posteriormente, a Igreja Primitiva irá resgatar a Teologia do Nome e aplicá-la a pessoa de Jesus, obedientes, ainda, a vontade do Senhor. Jesus utiliza diversas vezes o tema do nome para indicar sua presença e ação:

Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18,20)

Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19)

Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome!” (Lc 10,17)

Mas a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus: aos que creem em seu nome” (Jo 1,12)

E o que pedirdes em meu Nome, eu o farei a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes algo em meu Nome, eu o farei” (Jo 14,13-14)

Tanto na tradição judaica como a cristã a invocação do Nome implica na real presença. Tal presença que atua em favor daquele/s que o invoca/m.

2ª Leitura: 1João 3,1-2

A narrativa da 1ª João evidencia o tema da filiação, mais exatamente o tornar-se “filhos de Deus”. Este é um tema típico do Quarto Evangelho. De fato, no Prólogo Joanino, o hagiógrafo abre o seu Evangelho afirmando: “a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus: aos que creem em seu nome” (Jo 1,12). Segundo a perspectiva joanina o crer em Jesus resulta em filiação divina. Neste sentido, quando o autor da carta afirma dizendo “sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1Jo 3,12), na realidade está afirmando que, através do Filho, nos tornaremos filhos, configurando, assim, Deus enquanto Pai Amoroso.

A título de curiosidade, no Quarto Evangelho Nossa Senhora, nunca é indicada pelo nome, apenas pela sua “função”, ou seja, ela é a mãe do Senhor. Unindo a ideia de filiação com a de mãe é que se compreende quando Jesus, na cruz, entrega o discípulo à sua mãe e ela ao discípulo. Isto é em favor de todos os que creem em Jesus, se tornando, assim, filhos de Deus, visibilizado na figura da Mãe do Senhor, motivo pelo qual podemos chamar Maria de “nossa mãe”.

Evangelho: Jo 10,11-18

O capítulo dez de João é construído entorno da solenidade judaica de Chanucá [Hanucá]. Esta solenidade, descrita no primeiro e segundo livro dos Macabeus, surgiu como desdobramento da Festa de Deus (=Tendas/Sucot) e com a finalidade de celebrar a vitória dos Judeus sobre os Sírios (dinastia Selêucida).

A figura do imperador Antíoco IV Epífanes é a figura antagônica em relação a Matatias Macabeus. De fato, Antíoco publica um édito proibindo, sob pena capital, o culto judaico e a leitura das Escrituras Sagradas de Israel. Por sua vez, Matatias representa a figura daquele que permanece fiel as suas tradições judaicas, rejeitando o édito e dando início à revolta popular que se tornará na Guerra dos Macabeus.

Matatias é sacerdote da linhagem de Joiarib (cf. 1Mc 2,1) e figura do bom pastor de Israel em direto contraste, também, com Jasão e Menelau. Jasão forço a deposição e exílio do sumo-sacerdote legítimo Onias III. Usurpando, através de alianças com Antíoco, do cargo de sumo-sacerdote. Menelau oferece melhores favores à Antíoco, tomando o cargo. Os dois são imagens dos falsos pastores de Israel.

A narrativa do Bom Pastor possui este contexto histórico. Neste sentido, Antíoco IV Epífanes, Jasão, Menelau são descritos, indiretamente, como: ladrão, assaltante (10,1.8.10) e mercenário (10,12.13). O mesmo contexto está sendo atualizado, por Jesus, ao Sinédrio de Jerusalém, através de suas alianças com o império romano [Então, os chefes dos sacerdotes e os fariseus reuniram o Conselho e disseram: Que faremos? Esse homem realiza muitos sinais. Se o deixarmos assim, todos crerão nele e os romanos virão, destruindo o nosso lugar santo e à nação: Jo 11,47-48] e dos abusos que ocorriam no Templo (“Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio”: Jo 2, 13-22).

Jesus assume a identidade do Bom Pastor, subvertendo a ordem do pastoreio, ou seja, não é o pastor que irá tirar proveito do rebanho, mas o rebanho que tirará proveito do pastor. Ele é o modelo do rebanho que busca a ovelha perdida, socorre a ovelha ferida, chama as suas ovelhas e as reúne e, principalmente, dá a sua própria vida em favor das suas ovelhas, porque as conhece e as ama.

Síntese:

Enquanto os grandes de Israel rejeitam a pedra angular (“muitos chefes creram nele, mas, por causa dos fariseus, não o confessavam, para não serem expulsos do Sinédrio, pois amaram mais a glória dos homens do que a de Deus”: Jo 12,42-43), preferindo alianças através de acordo de interesses, Jesus se apresenta como aquele que age em favor dos seus, dando a própria vida. Isto exige uma opção radical por parte do indivíduo entre a proposta do Ressuscitado ou dos “Grandes deste Mundo”:

Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,42-45)

A filiação divina, a partir do ato de crer em Jesus, implica agir como o mestre. Neste sentido, enquanto o Bom Pastor é aquele que cuida do rebanho e dá a sua própria vida em favor dele, o fiel cristão será aquele que adotará a mesma conduta de amor e cuidado do rebanho. Além disso, afirmar que a “salvação” se encontra somente na pessoa de Jesus (cf. At 4,12), significa que ele é o que deu a vida e ressuscitou e, portanto, se torna a esperança do rebanho. Esperança única e verdadeira.

Como Filho Unigênito, Ele se torna presente em meio ao seu povo através do seu Nome, chamando-nos para pastagens verdejantes e para nos tornar filhos amados do Pai, que nos amou por primeiro e deu o seu Filho Amado.

Seguindo a perspectiva pascal (Igreja orante, diaconal e anunciadora) o 4ª Domingo da Páscoa reforça a temática do anúncio como eixo elementar da vida cristã, frisando o objeto central do anúncio cristão, ou seja, a pessoa de Jesus Cristo,

 

3º Domingo da Páscoa Ano B 2021

 

1ª Leitura: At 3,13-15.17-19

A 1ª Leitura é parte da pregação de Pedro aos judeus após a cura de um aleijado no Templo de Jerusalém ocorrida enquanto orava (At 3). Como parte da pregação, Pedro apresenta Jesus como servo do “Deus dos antepassados”. Na pregação, Pedro faz uma acusação direta os judeus por condenarem um justo e inocente e libertarem um assassino (Barrabás), afirmando que, através da escolha realizada, o povo judeu matou o “autor da vida”. Contudo, ele reconhece que o povo procedeu assim por ignorância e os chama ao arrependimento e à conversão. O tema do arrependimento e conversão reaparece na 2ª Leitura, no qual o autor da 1João apresenta a figura de Jesus como o “advogado de defesa” diante do Pai, em favor daqueles que se abrem a Boa Nova.

Durante a pregação, dentro da continuidade lucana, Pedro destaca o tema do “sofrimento do Messias”, que reaparece no Evangelho.

2ª Leitura: 1Jo 2,1-5a

O eixo principal da narrativa da 1ª Leitura é a apresentação de Jesus como o “paráclito”. Típico da teologia joanina, tanto o Espírito como o Filho são descritos como “defensores”. O princípio de acusa/defesa da lei judaica passava pelo testemunho de duas pessoas. A literatura joanina resgata o tema do acusador, que é o Diabo (= Gn 3 + Ap 12,7-10 + Jo 8,44) e do defensor, descritos através das figuras do Espírito Santo (Jo 14,16.26; 15,26; 16,7) e de Jesus (1Jo 2,1). Jesus, no Quarto Evangelho exprime que primariamente o “paráclito” é a sua pessoa, seguido pelo Espírito santo: “rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito” (Jo 14,16), lógico que não consiste em grau de superioridade, mas de primazia, na qualidade do “enviado” do Pai ao mundo. Na tradição judaico rabínico e cristã, a expressão assume o significado de “advogado” ou “intercessor”, sempre com conotação jurídica, mais exatamente, função de advogado de defesa num tribunal.

Enquanto o diabo é apresentado do Livro do Gênesis ao Apocalipse de João como o “acusador”, Jesus e o Espírito Santo assume, diante do Pai (=Justo Juiz) a função de “advogado de defesa”. Esta ideia está bem clara na 1João, onde diretamente Jesus é apresentado como o “defensor” diante do Pai. O que conta a seu favor, no ato de defesa, é a sua paixão e morte (= vítima de expiação: 1Jo 2,2).

A narrativa de 1João está trabalhando a ideia de pecado e mandamentos. No contexto Joanino, guardar os mandamentos é compreender e apreender a pessoa de Jesus (“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”: Jo 14,6), entendendo “caminho” como a Lei (halakah). Portanto, é o cumprimento da Lei de Israel. Tal ideia aparece justamente no último capítulo de Lucas, no qual Jesus afirma categoricamente que “começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito… era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24,27.44), ou seja, as Escrituras estavam em vista de Jesus Cristo e nele possuem a sua realização. Mais exatamente, o conceito de caminho e de lei se equivalem, como se pode compreender no diálogo entre Pilatos e Jesus: “Respondeu Jesus: Tu o dizes eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz, Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade?” (Jo 18,37-38). Neste diálogo entre Pilatos e Jesus, entram em jogo o conceito de verdade para os judeus (Torá=Lei), para os Romanos (Lex Romana) e Jesus (sua pessoa), no qual Jesus expressa em suas palavras e ações, que a verdade (=Lei) tem sua razão de ser na sua pessoa.

Evangelho: Lc 24,35-48

Jesus, na narrativa lucana sobre suas aparições após a ressurreição, descreve algumas caraterísticas próprias. O Evangelho do 3º Domingo da Páscoa, apresenta a continuidade da narrativa dos discípulos de Emaús (missa vespertina do Domingo de Páscoa). Neste caso, narra o retorno e o reencontro dos discípulos com os Apóstolos, contando-lhes o que ocorreu enquanto faziam o caminho de volta para as suas casas. Segue a presença de Jesus com os seus e a típica saudação pascal: “a paz esteja convosco”.

Curiosamente, os discípulos estavam caminhando com Jesus e não sabiam que era ele, o reconhecem ao partir do pão, quando Jesus se faz ausente. Agora estão contando aos Apóstolos tudo que ocorreu, quando Jesus se faz presente no meio deles e o grupo pensa tratar-se de um fantasma. O gesto de Jesus é apresentar as marcas da paixão como sinal visível da sua corporeidade ressuscitado, seguindo com o comer um pedaço de peixe e terminando com ensinamentos.

O tema lucano da “presença-ausente e ausente-presença” que acompanhava a narrativa dos discípulos de Emaús reaparece. Jesus se coloca no meio deles, mas estes não o reconhecem, é necessário que Jesus reafirme a sua presença.

O ato de comer de Jesus (que se torna uma das Quaestiones Disputatae) possui a função de explicitar a realidade do ressuscitado. Não se trata de um fantasma ou um corpo angélico, mas exatamente do “corpo glorificado”. O capítulo 12 do Livro de Tobias narra o momento no qual Rafael, até então usando o nome de Azaris se revela, anunciando ser um ano enviado por Deus. No diálogo, ele afirma duas coisas: a) ser um anjo (Tb 12,11-150 e b) enquanto anjo, ele não come (Tb 12,19). Além disso, anuncia: “Não tenhais medo, a paz esteja convosco!” (Tb 12,17), ou seja, a expressão utilizada por Jesus após a Ressurreição. Na narrativa de Tobias, diferente da lucana, o anjo Rafael afirma não comer porque possui natureza angélica, enquanto Jesus pede algo para comer e come na frente deles. Neste sentido, se estabelece a distinção entre corpo angélico e corpo glorificado.

Outra questão que aparece na narrativa lucana é o anúncio do “sofrimento do Messias” (At 3,18; Lc 24,26.46) segundo as escrituras. Contudo, as Escrituras não fazem absolutamente nenhuma menção ao sofrimento do Messias futuro. O tema da ressurreição tem início no século II a.C. a partir da Profecia de Daniel e Livro do Sonhos (Enoc Etíope 91-105). Para o autor do Livro dos Sonhos, a ressurreição diz respeito apenas aos justos da última geração, enquanto, para Daniel ela abrange todos os justos, de todas as épocas.

Quanto ao tema do sofrimento (Lc 24,26.46) a compreensão se encontra não naquilo que os profetas anunciam, mas sobre a sorte dos profetas, ou seja, todos aqueles que foram fiéis a Deus foram perseguidos, desprezados e, muitos, assassinados. Sendo Jesus o modelo de fidelidade ao Pai, ele irá, também, sofrer a sorte dos que são fiéis. Portanto, sendo o Messias, o homem da fidelidade por excelência à Deus, ele sofrerá a perseguição.

A narrativa constrói a tipologia messiânica, que servirá de modelo para os discípulos, enquanto testemunhas fidedignas.

Síntese

O foco do 3º Domingo da Páscoa se encontra no tema do Anúncio, no qual os discípulos são “testemunhas do Ressuscitado (Evangelho) e, portanto, anunciam com vigor a Boa Nova, convidando ao arrependimento e à conversão (1ª Leitura), pois o Ressuscitado é digno de fé, por ter sofrido, morrido e ressuscitado em favor de todos e, por sua morte e ressurreição, assume o papel de Paráclito junto ao Pai em favor daqueles que buscam a verdade. E todos aqueles que o buscam de coração sincero se lhes abre a possibilidade da vida nova, vivendo segundo os critérios evangélicos.

2º Domingo da Páscoa

1ª Leitura – At 4,32-35

A 1ª Leitura propõe o modelo ideal de comunidade cristã, no qual se destaca:

a) Princípio de unidade: a comunidade se reúne em torno dos Apóstolos que testemunham a sua unidade na pessoa de Jesus Cristo. Encontra-se aqui, o sinal que acompanhará a Igreja, ou seja, o princípio de colegialidade episcopal e colegialidade presbiteral que se torna o modelo de referência para a comunidade de batizados e para o mundo.

b) Comunidade evangelizada e evangelizadora: a comunidade de batizados é por excelência evangelizadora e missionária. Aquele que foi evangelizado se torna evangelizador e, naturalmente, missionário. Esta é uma das características naturais de todo cristão batizado. Nota-se na leitura que, à frente da missão, estão os Apóstolos como “guardiões” da sã doutrina, ou seja, eles são as referências ao serem, eles mesmos, testemunhas do Cristo Ressuscitado.

c) Comunidade solidária e servidora: a dimensão diaconal se torna natural na vida da comunidade cristã. Tendo Jesus Cristo como o “Diaconal do Pai”, aqueles que os seguem se tornam servidores da humanidade. Disto se estabelece os princípios da moral cristã e da Doutrina Social da Igreja. De fato, muitos dos primeiros cristãos foram martirizados, não somente porque professavam a fé em Jesus Cristo, mas pelo modo de agir nos diversos seguimentos da sociedade que acaba se chocando com situações contrárias expondo, naturalmente, injustiças, corrupções, outros.

Salmo – Sl 117(118),2-4.16ab-18.22-24

O Salmo 117(118) continua sendo proclamado, cujo tema principal é o “grande dia”: “este é o dia que o Senhor fez para nós” (Sl 118,24). Na realidade a proclamação anuncia que não se trata de um dia cronológico, mas de um tempo favorável, segundo as bases da profecia de Zacarias: “Haverá um único dia – Iahweh o conhece -, sem dia e sem noite” (Zc 14,7). A liturgia cristã vê na Ressurreição de Jesus Cristo a realização desta profecia, no qual se estabelece o tempo da salvação. Tudo é, agora, perpassado por Cristo. O Cristo Ressuscitado se torna o “pano de fundo” da história.

2ª Leitura – 1Jo 5,1-6

A 2a Leitura durante o Tempo Pacal, ano B, é sempre da Primeira Carta de João. O autor enfrenta uma situação particular, ou seja, um grupo rompeu com a comunidade e se proclamavam os legítimos detentores da verdade. Diante da situação pastoral, o autor deseja reunificar a comunidade através de duas técnicas:

a) sensibilidade de vocabulário. O autor utiliza uma linguagem amigável, diplomática, com palavras suaves, tentando se aproximar e não condenar o rechaçar o outro, com animosidades;

b) Apresenta claramente os equívocos e suas consequências. Deste modo o autor, mesmo usando de toda diplomacia, é capaz de demonstrar onde está o erro e quais são as consequências da persistência no erro.

Os dissidentes se apoiam numa questão doutrinal, ou seja, a questão da humanidade e da divindade de Jesus Cristo, mais exatamente, eles praticamente negam a humanidade de Jesus Cristo. O autor da Carta irá corrigir este erro doutrinal. Contudo, não sabemos se a tentativa do autor em reunificar a comunidade obteve êxito, mas ele deixa um legado de como enfrentar situações pastorais adversas.

A 2a Leitura de hoje apresenta a questão doutrinal que levou um grupo a romper com a comunidade, formando uma nova comunidade, o problema é justamente a questão doutrinal sobre a relação humanidade-divindade de Jesus Cristo. Assim, o autor afirma que “Jesus” é o Filho de Deus. Mais exatamente, Jesus Cristo “veio” pela água e pelo sangue, que significa: Jesus Cristo é verdadeiramente humano (=sangue) e verdadeiramente Deus (=água). Portanto, Jesus Cristo é humano e divino, sem separação e sem confusão, como proclamará a Igreja posteriormente. Neste sentido, o verdadeiro cristão é aquele que professa que Jesus Cristo é o Filho de Deus que se encarnou.

Evangelho – Jo 20,19-31

A missa vespertina do Domingo de Páscoa narrava a história dos discípulos de Emaús. Na liturgia do 2o Domingo da Páscoa é retomado o tema do dia da Ressurreição, agora com foco do encontro do Senhor Ressuscitado com os Apóstolos reunidos.

A narrativa de João se constrói relacionando o Dia da Ressurreição e a oitava da Páscoa. Sublinha-se que os discípulos estão reunidos nestes dois dias. Na primeira parte da narrativa, o destaque está na ação de Jesus Cristo, ou seja, soprar sobre os Apóstolos infundindo o Espírito Santo e, nesta ação, conferindo a eles um dom particular, ou seja, o de perdoar os pecados. O perdão dos pecados é um atributo exclusivo do Pai, que será exercido pelo Filho e, agora, transmitido aos Apóstolos. Neste sentido, a remissão dos pecados passa, a partir deste momento pelo viés sacramental. Portanto, no cristianismo não se admite perdão de pecado “eu e Deus”, pois, seguindo a ótica da 1João, quem não crê no que é visível, não crê no que é invisível. Em todo caso, a narrativa fornece os fundamentos para o sacramento da penitência. Outra característica importante desta primeira parte da narrativa é a efusão do Espírito Santo. A primeira ocorre durante a crucificação, quando ao ser transpassado jorrou sangue e água. A segunda efusão do Espírito Santo é para conferir um dom particular por vontade divina.

A segunda parte da narrativa ocorre oito dias após o dia da Ressurreição. Novamente os discípulos estão reunidos. Este é outro elemento importante, a comunidade que se reúne habitualmente “no primeiro dia de semana” que, posteriormente, receberá o nome de “Dia do Senhor” ou “domingo”. Nesta parte da narrativa o foco recai sobre o encontro de Jesus com Tomé, ausente na semana anterior. O encontro com o Ressuscitado leva a maior Proclamação de Fé: “meu Senhor e meu Deus”. Na realidade Tomé está resgatando a tradição do Nome de Deus e aplicando à pessoa de Jesus Cristo:

a) “meu Senhor” = meu Iahweh/Adonai

b) “meu Deus” = meu Elohim

Neste sentido Tomé afirma a divindade de Jesus Cristo, segundo as tradições de Israel.

No Quarto Evangelho, diferente dos Sinóticos, a fé não se dá apenas pela escuta, mas, também, pela visão. Assim, os Apóstolos, discípulos e discípulas são aqueles que “viram” e “creram” no Senhor. A novidade da narrativa é que, a partir de agora, aqueles que foram “testemunhas oculares” se tornarão anunciadores. Através do qual, palavras e exemplos, levarão outros a fé.

Ressalta-se a dinâmica do reunir-se no primeiro dia semana, como espaço litúrgico por excelência da vida cristã. Na 1a Leitura o foco estava nas dimensões missionária e diaconal. O Evangelho aproxima a dimensão orante da vida cristã.

Outro elemento que relaciona a Liturgia Vespertina do Domingo de Páscoa com o 2o Domingo da Páscoa é a presença-ausente e a ausente-presença do Ressuscitado no meio da comunidade cristã. De fato, na narrativa dos Discípulos de Emaús, Jesus caminha com os Discípulos sem ser reconhecido, e quando parte o pão é reconhecido e se torna ausente. O Evangelho de hoje desenvolve esta ideia também. Durante a semana os discípulos estão reunidos, mas não veem o Senhor, mas Ele está com os seus e tem ciência da conversa que tiveram enquanto estavam reunidos. Além disso, o tema evoca as ideias de comunidade reunida com o Senhor presente no meio dela e a presença eucarística do Senhor na sua Igreja.

 

Tempo Pascal

Pe. Gilvan Leite de Araujo

 

Por tempo pascal se compreende o período que vai desde o domingo da Ressurreição de Jesus Cristo até o domingo de Pentecostes. Portanto, compreende um período de 50 (cinquenta) dias. Este período era chamado por São Basílio de “sete semanas do Santo Pentecostes” ou “Grande Domingo” por Santo Atanásio ou, ainda, “o gozoso tempo” por Tertuliano. Nisto se subentende que Páscoa não se trata de um único dia, mas um grande dia que se prolonga por um tempo simbólico, ou seja, sete semanas ou cinquenta dias.

Contexto Histórico

No calendário judaico do AT, cinquenta dias após a Páscoa, é celebrada a Festa das Semanas (Shavuot=Pentecostes: Ex 19,1), em origem, uma festa agrícola.

O Tempo Pascal compreende, portanto, cinquenta dias que abarca a Ressurreição (início), a Ascensão do Senhor (expectativa) e Pentecostes (conclusão). No NT os cinquenta dias assume a seguinte perspectiva: a quadragésima, que compreende o Domingo da Ressurreição até o Domingo da Ascensão, que se prolonga até a quinquagésima, com o Domingo de Pentecostes. O sentido primário da quadragésima são os quarenta dias que o Senhor Ressuscitado permaneceu com os Apóstolos, discípulos e discípulas até a Ascensão aos céus, e quinquagésima, justamente a vinda do Espírito Santo. Deste modo, os Santos Padres sublinham o paralelismo entre a Lei e o Espírito, Antiga e Nova Aliança.

O início do Tempo Pascal se dá com o Domingo da Pascoa com a oitava da Páscoa. A concepção primária é de que a “semana da Páscoa” (=oitava) compreende um único dia, de fato, durante a semana percorre o refrão “este é o dia que o Senhor fez para nós” (Sl 118,24), no lugar do Responsório da Liturgia da Horas.

Liturgia

Durante o Tempo Pascal, a Palavra de Deus apresente uma seleção de leituras do livro dos Atos dos Apóstolos, do Evangelho de João e outras leituras com foco sobre o tema batismal, com referências à vida nova com projeção à vida escatológica (1Pedro; 1João e Apocalipse de João).

A escolha do livro do Atos do Apóstolos e do Evangelho de João possui, ainda, uma perspectiva sacramental, portanto, a vida nova pressupõe um caminho sacramental, que será desenvolvido durante o período.

Algumas características teológicas que acompanham o período Pascal

A liturgia dominical irá desenvolver o esquema padrão da vida cristã a partir da tríade:

  • vida orante/litúrgica;
  • vida diaconal e
  • vida missionária,

que são características próprias da atuação batismal. Esta tríade é iluminada pelas virtudes teologais: fé, esperança e caridade que norteiam a vida batismal. Assim, durante o Tempo Pascal a Liturgia Dominical irá desenvolver estas perspectivas, domingo a domingo.

Lecionário Dominical

Até o 3º Domingo da Páscoa, as leituras do evangelho relatam as aparições de Jesus Cristo Ressuscitado. A leitura do Bom-Pastor está alocada no 4º Domingo. Nos Domingos seguintes se lê narrativas do discurso e da oração do Senhor após a última ceia. No ciclo trienal, a 1ª leitura é sempre textos do livro do Atos dos Apóstolos, de modo paralelo e progressivo. A 2ª Leitura varia conforme o Ano Litúrgico: no Ano A se utiliza a 1Pedro, Ano B, a 1João, e no Ano C o Apocalipse de João. Tais narrativas estão de acordo com o espírito de alegria e fé, próprio do tempo (OLM 100).

Sábado Santo: Vigília Pascal

A Proclamação da Palavra de Deus acontece a Luz do Cristo Ressuscitado, centro do Cosmo e da História. A Leituras atuais possuem um tríplice caráter simbólico: a) são Leituras progressivas da História da salvação; b) possuem um caráter cristológico e c) estão em estreita relação com o batismo. A leitura segue o salmo ou cântico, a Oração da Igreja expressa o sentido tipológico da leitura.

Antigo Testamento:

1ª Leitura: Gn 1,1-2,2: Criação

Sl 104: As maravilhas da Criação

Oração: memória da criação e da recriação em Cristo

2ª Leitura: Gn 22,1-18: Sacrifício de Abraão

Sl 16: referências messiânicas a Cristo Ressuscitado

Oração: Da fé de Abraão à fé dos batizados em Cristo

3ª Leitura: Ex 14,15-15,1: Passagem do Mar, Páscoa de Israel

Cântico: Ex 15: Cântico de Moisés

Oração: Passagem do Mar figura do batismo cristão

4ª Leitura: Is 54,5-14: Fidelidade de Deus Criador e Redentor

Sl 30: Deus misericordioso e salvador

Oração: da paternidade de Deus à esperança da salvação

5ª Leitura: Is 55,1-11: vocação e uma Aliança Eterna

Cântico: Is 12,2.4.6: Deus é nossa Salvação!

Oração: Os Profetas anunciaram a salvação no Espírito

6ª Leitura: Br 3,9-15.32-4,4: No esplendor da Luz Sapiencial

Sl 19: Bondade e beleza da Lei do Senhor

Oração: A Igreja cresça com novos filhos

7ª Leitura: Ez 36,16-17a.18-28: Uma aliança Nova, um coração novo

Sl 42: Sede de Água Viva, do Deus Vivente

Oração: Hoje se cumpre estas promessas

Novo Testamento

8ª Leitura ou Epístola: Rm 6,3-11: Batismo, mistério pascal

Sl 118: A Vitória Pascal de Cristo. Este é o dia que o Senhor fez para nós

Evangelho: Ano A: Mt 28,1-10: Ressurreição

Domingo de Páscoa

A liturgia da palavra se estrutura partindo do Atos do Apóstolos, substituindo o Antigo Testamento, segundo o costume da Igreja Primitiva.

1ª Leitura: At 10,34a.37-43: os Apóstolos, Testemunhas da Ressureição

Sl 118: Este é o dia que o Senhor fez para nós

2ª Leitura:

Cl 3,1-4: Ressuscitar com Cristo

1Cor 5,6-8: Cristo nossa Páscoa foi Imolado

Evangelho:

Missa matutina: Jo 20,1-9: Ressurreição

Missa vespertina: Lc 24,13-35: Discípulos de Emaús

 

A missa matutina do Domingo de Páscoa apresenta o tema do testemunho da Ressurreição de Jesus Cristo. O Discípulo Amado, enquanto sacerdote, mesmo temendo (um levita não pode tocar num cadáver), mas tendo a afirmação de Pedro entra no túmulo, sinal de que este se encontra vazio. A 1ª Leitura afirma os Apóstolos como “Testemunhas” da Ressurreição a partir da pregação de Pedro cujo conteúdo se expressa na 2ª Leitura que converge para a ressurreição de todos que aderem Jesus Cristo pela fé.

A missa vespertina possui o foco sobre o tema do 1º Dia da Semana, como indicativo da identidade cristã, ou seja, reunir-se no 1º Dia da Semana que passa a ser compreendido como “Dia do Senhor” (=Domingo) em virtude da Ressurreição de Cristo.

 

Semana Santa – Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

O Domingo de Ramos

Na celebração do Domingo de Ramos convergem a tradição jerosoluminatana da procissão de ramos, proveniente da Festa das Tendas (Sucot), que se torna o pano de fundo para a Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém. Une-se a celebração a tradição romana que orienta os fiéis com a liturgia da palavra centrada no tema da Paixão do Senhor.

Leva-se em conta que o complexo festivo da Festa das Tendas será destrinchado nas celebrações da Semana Santa. Disto advém o costume da procissão de Ramos (domingo) junto com a prisão de Jesus no Monte das Oliveiras (Sexta-Feira Santa) que possuem a função de identificar que Jesus é de fato o Messias, segundo a profecia de Zc 9 e 14. O Salmo 118 serve de moldura para Semana Santa (Domingo de Ramos; Sábado-Santo; Domingo de Páscoa). Proveniente da Festa das Tendas será a Benção do Fogo e a Benção da Água, durante a Liturgia do Sábado Santo. Á Festa Judaica das Tendas é importante no complexo da Semana Santa pelos seguintes motivos: a) é a festa da expectativa messiânica de Israel; b) possui contexto escatológico; c) é a festa da eternidade; e, acima de tudo, d) é a Festa de Deus por excelência, entre outras características.

No Domingo de Ramos, a primeira parte consta do Evangelho que narra a Entrada de Jesus em Jerusalém (Mc 11,1-10), seguido da procissão em honra de Cristo Rei (cf. Sl 118).

Características do Domingo de Ramos

Procissão Judaica de Ramos: Momento da manifestação do rei-messias (Zc 14)

Monte da Oliveiras: Lugar da Manifestação do rei-messias (Zc 14,4)

Jumentinho: Indicação da dignidade real do rei-messias (1Rs 1,28-40; Zc 9,9)

Qualidades do rei-messias: justo, vitorioso, humilde e guerreiro (Zc 9,9-10)

A segunda parte narra-se o tema do Servo Sofredor na Primeira Leitura (Is 50,4-7), com o Salmo do Abandono na Cruz (Sl 21), a segunda Leitura é o Hino Cristológico de Fl 2,6-11 e a narrativa da Paixão (Mc 14,1-15,47). O Hino de Filipenses exalta o comandante de tropas que doa a sua vida para salvar o seu povo. Tendo “caído em batalha” ele recebe as honras e dignidades do “herói combatente”. Tal “vitória em batalha” é descrita na narrativa da paixão, que o apresenta a partir da imagem do Servo Sofredor de Isaías que portará consigo a vitória.

Segunda, Terça e Quarta-feira Santa

Mantem-se o caráter Cristológicos da quaresma, seguindo a leitura das semanas anteriores. Leituras proféticas de Isaías e evangélicas de João, com exceção da Quarta, quando se narra a Traição de Judas, segundo Mateus (Mt 26,14-25).

Missa Crismal – Quinta-Feira Santa

Habitualmente celebrada na Quinta-Feira, pela manhã, possui um caráter sacerdotal. Lê-se Is 61,11-3ab.6a.8b-9, sobre o Messias consagrado pelo Espírito; Ap 1,5-7 sobre a realeza de sacerdotes por Jesus Cristo A e W; Lc 4,16-21 sobre a missão de Jesus, ungido pelo Espírito, anunciando na Sinagoga de Nazaré.

Tríduo-Pascal

Quinta-Feira Santa: Missa do Lava-Pés

A Primeira Leitura (Ex 12,1-8.11-14) recorda o ambiente pascal no qual se desenvolverá a Ceia de Jesus e o caráter pascal de sua imolação. A segunda (1Cor 11,23-26) transmite o ensinamento Apostólico a respeito da Instituição da Eucaristia e o Evangelho de João introduz o tema da Caridade (Jo 13,1-15).

Sexta-Feira Santa: Celebração da Paixão

A estrutura atual, fruto de uma síntese de diferentes tradições pode ser justificada deste modo:

Paixão Proclamada: Liturgia da Palavra

Paixão Invocada: Orações Solenes

Paixão Venerada: Veneração da Cruz

Paixão Comunicada: Comunhão Eucarística

Após uma breve e austera procissão penitencial é proclamada a Paixão nesta perspectiva:

1ª Leitura: Is 52,13-53,12 – A Profecia do Servo de Javé

2ª Leitura: Hb 4,14-16;5,7-9 – Obediência do Filho

Evangelho: Jo 18,1-19,42 – Paixão de Jesus

Na Primeira Leitura lê-se a proclamação profética do Servo do Deutero-Isaías, realizada na Paixão de Jesus. Na Segunda Leitura a Carta aos Hebreus aborda, em perspectiva sacerdotal a obediência do Filho. João narra “a liturgia” da Cruz, onde Jesus Imolado aparece em sua exaltação sobre a Cruz, o Cordeiro Imolado e Rei.

5º Domingo da Quaresma Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

Jr 31,31-34

A teologia da Profecia de Jeremias e de Isaías possui algumas características próprias em relação aos profetas anteriores a eles, ou seja, até o momento os profetas tinham sido enviados para tentar reajustar ou concertar as coisas. Contudo, tais iniciativas não obtiveram resultados. Assim, Jeremias e Isaias surgem como os profetas que descrevem o limite da “paciência divina”. Deus não vai tentar mais “concertar” as coisas, agora é o tempo de deixar que tudo seja destruído para dar início a um novo recomeço, como se pode observar na vocação de Jeremias “Eu te constituo, neste dia, sobre as nações e sobre os reinos, para arrancar e para destruir, para exterminar e para demolir, para construir e para plantar” (Jr 1,10). O mesmo ocorre na narrativa da vocação de Isaías “Vai e dize a este povo: Podeis ouvir certamente, mas não haveis de entender; podeis ver certamente, mas não o haveis de compreender. Embota o coração deste povo, torna pesados os seus ouvidos, tapa-lhe os olhos, para que não veja com os olhos, e não ouça com os ouvidos, e não suceda que o seu coração venha a compreender, que ele se converta e consiga cura” (Is 6,9-10). Portanto, a mensagem de Isaías e de Jeremias é de “destruição” e de “novo recomeço”. Nesta perspectiva se insere o tema da “Nova Aliança”.

Tendo em vista que a primeira Aliança era firmada através de um “contrato” (=Lei) isto implicava num acordo entre duas partes (Deus e Israel), no qual Deus concedia a Terra Prometida e Israel se oferecia, selando “materialmente” o acordo entre partes. Contudo, tal “posse” era condicionada. A não observância da Lei implicava em sanção, sobre Deus, seria perder o direito de posse do povo de Israel, e sobre o Povo de Israel, o direito de posse da Terra.

A trajetória histórica do Povo de Israel, no entanto, demonstra sequencias de infidelidades através de injustiças sociais (cf. 1 e 2Samuel; 1 e 2Reis; 1 e 2Crônicas; + profetas pré-exílicos). Deus procura remediar as coisas, mas sem sucesso. Finalmente, Deus decide romper com uma situação “viciada” e recomeçar tudo. A queda de Israel em 722 e a queda de Judá (598/586), com exílio da Babilônia, são consequências da sanção aplicada.

Mesmo tendo sido imposto a sanção da Lei, Deus não abandonará o seu Povo Eleito. Mas proporá uma Nova Aliança. Tal promessa se realizará a partir e por meio de Jesus Cristo, o Filho Amado do Pai.

Outra característica importante será a perspectiva teológica que se desenvolve a partir de Jeremias e Isaías. A tradição sapiencial descreve o sofrimento por meio do castigo divino, como se poderá observar, principalmente, através do livro de Jó. Com jeremias e Isaías a conceção mudará radicalmente. O sofrimento deixa de ser visto como um castigo imputado por Deus, e passa a ser concebido como um espaço para a ação divina. Deste modo, o sofrimento humano pode ser um lugar para a redenção, um lugar para a graça divina. Tal perspectiva será fundamental para a compreensão do mistério da paixão e morte de Jesus Cristo. De fato, a cruz deixa de ser concebida como maldição e, a partir da pessoa de Jesus Cristo, passa a ser concebida como lugar de redenção. Tal perspectiva teológica é um legado de Jeremias e Isaías e será o eixo para a compreensão do sofrimento dentro do cristianismo, o sofrimento pode se tornar um espaço para a manifestação da graça.

Hb 5,7-9

A narrativa da Carta aos Hebreus apresenta o tema da obediência do Filho ao Pai por meio dos sofrimentos terrenos. A narrativa descreve o modo como Jesus enfrenta a experiência do sofrimento, transformando-o em espaço para a ação do Pai. Assim a expressão “na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,9) o autor está resgatando o tema da paixão e morte de Jesus, como ato e como modelo da experiência da redenção. Assim a paixão e morte, dentro da perspectiva de Jeremias e Isaías, se configuram como lugar para a ação do Pai e do Filho que vem para salvar: “não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” (Jo 12,47)

Jo 12,20-33

A partir do capítulo 12 de João tem início o tema da “gloria” de Jesus Cristo. Tal glória se manifesta na sua “hora”, ou seja, durante a paixão e morte. A narrativa começa com os gregos querendo “ver” Jesus. Tal interesse possui o significado de conhecimento. Além disso, o foco sobre os gregos possui um sentido universalista. Dentro do tema da Nova Aliança entra a perspectiva universal, ela abarca, agora, não apenas um povo em particular, mas “homens e mulheres de todas as raças, línguas e nações…”.

Na sequência, Jesus descreve o tema do grão de trigo, no qual só pode dar frutos quando “cai na terra” (=morre), ilustrando como o princípio de doar a vida se torna elemento basilar do seguimento, por meio do qual o nome do Pai é glorificado.

O ato de doar a vida resulta na queda de Satanás, o qual promove o individualismo a qualquer custo, mesmo a custo do sangue inocente. Satanás seduz oferecendo falsos valores. Pelo contrário, a cruz seduzirá oferecendo o verdadeiro valor, a vida humana. Aqui entra o choque entre o individualismo e o bem comum. Caso o centro da pessoa for ele próprio, ele se tornará deus de si mesmo, o que acarretará a sua queda. Mas, se o centro da pessoa se deslocar para o outro, ele passa a ser gerador de vida. Portanto, a cruz se torna referência de salvação, porque ela diz respeito a salvação de todos. Neste sentido, na cruz, a Glória de Deus se manifesta através do Filho Amado. O Pai que doa o Filho e o Filho que se doa.

Síntese:

O tema da Nova Aliança anunciada por Jeremias será estabelecido por Jesus Cristo Crucificado e Ressuscitado. Enquanto a antiga Aliança era restrita a um povo particular, a nova se abre para todos os “homens e mulheres de boa vontade”. Enquanto a Antiga Aliança se alargava (= 10 mandamentos), a Nova Lei se restringe a dois mandamentos: “amar a Deus e amar o próximo”. Desse modo, a paixão e morte de cruz de Jesus expressa este conceito de amor doado e estabelece a Nova Aliança, que passa a vigorar a partir do princípio do amor, que se configura como Lei Régia.

Além disso, o tema da paixão e morte de cruz, dentro da perspectiva de Jeremias e Isaías, assume a compreensão de redenção, ou seja, como espaço no qual Deus pode agir em favor da humanidade e não mais como castigo/condenação. Assim, o sofrimento humano passa a se configurar como espaço no qual Deus pode agir em nosso favor, torna-se uma possibilidade para Deus.

 

 

4º Domingo da Quaresma Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

2Cr 36,14-16.19-23

Os Livros das Crônicas surgem como um tipo de Diário Oficial do Estado. Neste sentido, a obra desenvolve as atividades da monarquia sob a ótica divina, a qual está subordinada em virtude da Aliança e da Lei. As obras estão em paralelo com os livros dos Reis, porém, as narrativas são ampliadas em relação a estes. O teor dos livros das Crônicas e de Reis é compreender o que levou ao colapso do Reino do Norte (Israel) em 722 e do Reino do Sul (Judá) em 598/586. Particularmente, o segundo livro das Crônicas, em paralelo com as Profecias de Isaías e de Jeremias, narra o fim do exílio, a partir do declínio da Babilônia, com a ascensão do império Persa.

A narrativa deste domingo é o último capítulo do segundo livro das Crônicas e narra a queda e ressurgimento do reino do sul (Judá).

O motivo dado para a queda de Judá é a “multiplicação das infidelidades” e “não escuta dos mensageiros enviados por Deus” (=profetas). Como resultado, Deus decide não mais concertar ou remediar as coisas, mas deixar que tudo se quebre para reconstruir novamente. Para que isto ocorra, Nabucodonosor será descrito como “instrumento de castigo” e Ciro como “instrumento de Salvação” nas mãos de Deus.

Duas características:

a) Concepção Jurídica: A Aliança entre Deus e Israel foi sancionada através de um contrato entre as partes, cuja quebra do acordo resultaria em sanção contra a parte transgressora. Neste sentido, os Livros das Crônicas e Reis descrevem as transgressões de Israel/Judá a partir das suas autoridades (=reis), a fim de compreender o motivo da queda do Norte (722 a.C.) e do Sul (598/586). Nesta linha, o retorno e permanência na Terra Prometida é concebido a partir da estrita observância da Lei (=embates entre os fariseus e mestres da Lei com Jesus)

b) Penitencial: O exílio da Babilônia visto como um processo penitencial em vista da conversão de Judá (=Livro das Lamentações). Nesta linha, o retorno é descrito como um “novo Êxodo”, no qual se evidencia nova aliança (cf. Is 40-55).

A narrativa de 2Crônicas descreve um processo: Jerusalém-Exílio-Jerusalém. Tal processo que pode ser concebido na linha penitencial através do tema do “repouso sabático”, no qual a Terra Prometida foi “purificada” das suas injustiças.

Sl 136

O Salmo 136 resgata a memória. O processo penitencial, como caminho de conversão implica em avaliar, superar os erros e firmar os passos no essencial. Nesta perspectiva, Jerusalém surge como modelo ideal e referência para o processo de transformação.

Ef 2,4-10

A narrativa da 2ª Leitura evidencia, a partir da tipologia batismal, a transição da morte para a vida a partir da salvação operada em Cristo através da sua morte e ressurreição.

No paralelo com a 1ª Leitura, a passagem do exílio para a Terra Prometida é descrita a partir da ótica penitencial. Além disso, a possibilidade de renascer para uma vida nova não se dá pela capacidade/mérito humano, mas pela livre gratuidade divina em sua misericórdia, no qual é cobrado apenas “a união com Cristo” (Ef 2,5-6). Portanto, uma salvação operada mediante a fé, o que nos predispõe para “as boas obras”, não como artífices, mas como instrumentos do sumo-artífice (Ef 2,10).

Jo 3,14-21

O diálogo entre Jesus e Nicodemos se desenvolve a partir do renascimento, no qual Jesus indica o “nascer de novo/do alto”. Tal “nascer de novo/do alto” apresentado como “nascer da água e do Espírito” (Jo 3,3-5) como um processo da fé no Filho do Homem (= Jesus Cristo). Mas, qual Cristo se deposita a fé? Jesus responde que é naquele que “será elevado” como o foi a serpente do deserto. Portanto, a fé no Cristo Crucificado que será o Ressuscitado. O crer no crucificado/ressuscitado se torna condição para a vida eterna, pois o crucificado manifesta a plenitude do amor divino: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Único” (Jo 3,16). Além disso, a fé exige assumir uma conduta moral e um compromisso orante, diaconal e evangelizador. Tais princípios não esvaziam a fé em meras palavras, mas a confirma como empenho.

Sendo o Crucificado a expressão suprema do pleno amor misericordioso de Deus, não existe outro caminho para a vida eterna que não passe pelo Cristo e nele se modele. Aqui surge a distinção entre os “filhos da luz” e os “filhos das trevas”. Mas quem são os “filhos das trevas” no Quarto Evangelho? Jesus responde que são os homicidas e mentirosos (cf. Jo 8,44-47), o que ocorre quando as lideranças em Israel condenam o inocente (=Jesus) à morte mentindo ao falsear a Lei (cf. Jo 19). Curiosamente, estas lideranças, no Quarto Evangelho, conhecem Jesus, mas não o acolhem nem o professam “muitos chefes creram nele, mas, por causa dos fariseus, não o confessavam, para não serem expulsos do Sinédrio, pois amaram mais a glória dos homens do que a de Deus” (Jo 12,42-43).

Síntese

Na antiga Aliança Deus estabelecera um acordo entre Ele e Israel. Assim, a pertença ao povo da Aliança se dava através do processo de genealogia e na estrita observância da Lei. No pós-exílio ser judeu significava observar o sábado, a Lei e a circuncisão, mesmo permanecendo o critério genealógico como condição primária. A Nova Aliança estabelece o critério da Fé no Crucificado que é o Ressuscitado. Leva-se em conta que o Ato de Fé não é apenas uma afirmação, mas um exercício contínuo através da vida na graça.

O processo batismal que, através da fé e renascimento, implica na renúncia do pecado/morte para a graça/vida (cf. Rm 6).

O 5º Domingo da Quaresma tratará do tema da Nova Aliança. Portanto, o 4º Domingo está justamente trabalhando a catequese sobre a transição da Lei Mosaica para a Nova Lei em Cristo. Assim, fica estabelecido, na catequese, a transição:

 

Moisés

Jesus

Terra do Egito Pecado
Travessia do Mar Batismo
Aliança do Sinai/Deserto Vida na Graça
Travessia do Jordão Passagem
Terra Prometida Vida Eterna

 

Os paralelos com a catequese deste domingo se configuram do seguinte modo:

Moisés

Ciro

Jesus

Terra do Egito Babilônia Pecado
Travessia do Mar Édito de retorno Batismo
Aliança do Sinai/Deserto Ano Sabático Vida na Graça
Travessia do Jordão Retorno/Caminho Passagem
Terra Prometida Templo de Jerusalém Vida Eterna

 

No conjunto, o modelo do Êxodo se torna referencial. Na Literatura Profética, o Exílio da Babilônia é descrito como um “anti-êxodo”, enquanto o retorno da Babilônia para Jerusalém é descrito na linha de um “Novo Êxodo”. Ampliando para uma leitura penitencial, tem-se a concepção da experiência do sofrimento (Egito-Babilônia-Terra do Pecado) como possibilidade da graça de Deus, assim como a paixão e cruz de Cristo, que poderia ser visto como castigo, é concebido como possibilidade para a ação de Deus (=Ressurreição), a transformação da desgraça como espaço para a graça: Terra do Egito para a Terra Prometida // Babilônia para Jerusalém = transformação da desgraça em espaço para a graça de Deus. Como este movimento pode ser vislumbrado nos tempos atuais?

  

3º DOMINGO DA QUARESMA 2021

ALIANÇA MOSAICA – ALIANÇA BATISMAL
Pe. Gilvan Leite de Araujo

Ex 20,1-17

O 3º Domingo da Quaresma continua desenvolvendo o tema da Aliança e da Tipologia Batismal. Assim, tendo refletido a Aliança com Noé (1º domingo) e a Aliança com Abraão (2º Domingo), o 3º Domingo desenvolve a teologia da Aliança “maior”, que é a Aliança com Moisés. Esta Aliança se destaca das demais pelo fato de ser estabelecida através de um contrato entre parte (Deus//Israel).

Portanto, com Moisés, Deus estabelece uma Aliança (Ex 19) e a sanciona através do contrato entre as partes (Ex 24). Sendo firmada através de contrato, tal Aliança implica em direitos, deveres e sanções. Pelo contrato (=Lei) Israel se torna um povo particular. As partes se obrigam em oferecer algo que “abone” a Aliança sancionada pela Lei, neste sentido, Deus oferece a Terra Prometida e Israel a si próprio. Trata-se de direito condicionada. A não observância das cláusulas da Lei implica na perda do direito, ou seja, caso Deus quebre uma das cláusulas ele perde o direito de “posse” de Israel. Caso Israel quebre uma das cláusulas, ele perde o direito de posse da Terra Prometida (=exílio da Babilônia [cf. Livro das Lamentações; Jeremias e Is 1-39; 1 e 2Reis]).

A 1ª Leitura apresenta justamente a segunda parte, ou seja, as cláusulas contratuais da Lei de Israel, habitualmente designadas como Decálogo, ou “Dez Palavras”.

Na construção do Decálogo, as quatro primeiras normas são de direito divino, ou seja, dizem diretamente à Deus, enquanto as outras seis se referem a questões humanas.

Curiosamente as narrativas dos Evangelhos sobre os Dez Mandamentos tendem a fazer uma separação entre as normas divinas e as normas humanas. Neste sentido, Jesus evoca como regra para alcançar o céu a segunda parte do Decálogo: “Não matarás, não adulterarás, não roubarás, não levantarás falso testemunho; honra pai e mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 19,18-19; cf. Mc 10,19; Lc 18,18).

Mas, por outro lado, quando se trata da Lei Régia (Tg 2,8) a questão muda: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Ele respondeu: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o maior e primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22,34-40; cf. Mc 12,28-34; Lc 25-28). Aqui se vai ao cerne de toda Lei, no qual implica o “direito” divino e o “direito” humano, um evoca o outro.

Na liturgia deste 3º Domingo da Quaresma o foco recai sobre o estabelecer a Aliança através de um compromisso formal (=Lei).

Na perspectiva batismal o neófito, ao ser batizado, ele estabelece uma Aliança e, ao renunciar o mal/diabo, ele professa a fé na Trindade, tal profissão de fé implica num compromisso formal, que deverá ser observado pelo batizado. Ele é batizado em nome da Trindade e vinculado, no caso, dentro da Igreja Católica. Fica estabelecido um compromisso.
1Cor 1,22-25

O problema central da 1Coríntios é de ordem pastoral. Diversos fatores práticos estão criando discórdias e divisões dentro da própria comunidade de Corinto (cf. 1,10-11). A primeira é justamente sobre a pessoa de Paulo, o qual a comunidade o acusa de ser fingido, sem palavra, mentiroso e ladrão (1 e 2Coríntios). Um dos pontos de discórdias é entre as preferências pessoais. Alguns preferem as pregações de Paulo e outros de Apolo (1Cor 1,12ss). De fato, Apolo é descrito como eloquente pregador (cf. At 18,24-26), enquanto Paulo é descrito como péssimo pregador (cf. 1Cor 10,9-10; 11,6). Discutindo a questão, Paulo descreve Apolo como “apollô” (=destruidor: 1Cor 1,19-20 [não claramente visível em língua portuguesa]) caso o foco da comunidade não seja o centro, ou seja, a pessoa de Jesus Cristo. Portanto, se para os coríntios a força do Evangelho reside em poder de eloquência pessoal, Apolo para eles é uma destruição. Disto provêm a indagação de Paulo “onde está o sábio? Onde está o homem culto?” (1Cor 1,20). Mas onde está a loucura da pregação por parte de Deus (1Cor 1,21)? Paulo irá demonstrar que a fé cristã reside primariamente na centralidade da pessoa de Jesus Cristo, ponto de partida e de chegada, eixo central da vida cristã.
Jo 2,13-25

O tema central do Evangelho é a pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus, que estabelece, a partir do evento da paixão, morte e ressurreição, o “Santuário/Templo” de Deus entre os homens. Leva-se em consideração que o Santuário/Templo é o local da sua presença entre os homens, seja, durante a caminhada do deserto (=Santuário) ou estabelecida em Jerusalém, Garizim, Leontópolis e Elefantina (=Templo).

Os quatros templos judeus funcionavam como lugar da presença divina. Alguns, equivocamente, afirmam que Jesus era contra o Templo, esta afirmação é absolutamente falsa.

Jesus é contrário aqueles que trabalhavam no Templo e, nesta narrativa, os condena, quando sacrificam o povo (cf. Jo 10) e não os animais, através de um sistema exploratório, onde a gratuidade divina era taxada: “Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (Jo 2,16), evocando a profecia de Zacarias quando afirma: “Não haverá mais vendedor na casa de Iahweh dos Exércitos, naquele dia” (Zc 14,21).

No conjunto da liturgia, a comunidade de batizado se reúne, a partir de agora, não mais no Templo físico de Jerusalém, mas na pessoa de Jesus Cristo. Aqui abre a dimensão eucarística da vida batismal. Deste modo, A “Igreja” é primariamente a comunidade cristã que se reúne no espaço sagrado. Lógico que se estabelece uma correlação entre o batizado, enquanto morada de Deus, e a comunidade de batizados que se reúne “na casa de Deus”.
Pelo batismo, o cristão é incorporado na Igreja que tem como eixo central a Trindade, dentro de uma dinâmica cristocentrica. O cristão passa a ter um “compromisso” com Cristo, na sua Igreja, em vista da salvação eterna (=Terra Prometida) o que implica na sua dimensão evangelizadora (=sal e luz da terra), abrindo a possibilidade desta salvação a todos os homens e mulheres. Neste sentido, a vida eclesial pressupõe algumas características:

a)  vida orante (liturgia)

b)  vida diaconal (servir a humanidade)

c)   vida evangelizadora (anunciar o ressuscitado a todos os povos).

Tudo isto norteado pelos critérios das virtudes teologais (fé, esperança e caridade). Portanto, estando na “graça” o cristão é Templo de Deus entre os homens e, como “santos”, se reúnem na Casa de Deus.

 

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** ESSE NÃO mas BARRABÁS – Jo 18,40 – Gilvan Leite de Araujo - em PDF

** A festa da DEDICAÇÃO em Jerusalém – Jo 10,22 – Gilvan Leite de Araujo - em PDF

** MARIA MADALENA – Gilvan Leite de Araujo - em PDF

** A MULHER ADÚLTERA NO EVANGELHO DE JOÃO-Gilvan Leite de Araujo - em PDF

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