REFLEXÕES LITÚRGICAS de Pe Gilvan

REFLEXÕES de Pe. Gilvan  Leite  de  Araujo

3º Domingo da Páscoa Ano B 2021

 

1ª Leitura: At 3,13-15.17-19

A 1ª Leitura é parte da pregação de Pedro aos judeus após a cura de um aleijado no Templo de Jerusalém ocorrida enquanto orava (At 3). Como parte da pregação, Pedro apresenta Jesus como servo do “Deus dos antepassados”. Na pregação, Pedro faz uma acusação direta os judeus por condenarem um justo e inocente e libertarem um assassino (Barrabás), afirmando que, através da escolha realizada, o povo judeu matou o “autor da vida”. Contudo, ele reconhece que o povo procedeu assim por ignorância e os chama ao arrependimento e à conversão. O tema do arrependimento e conversão reaparece na 2ª Leitura, no qual o autor da 1João apresenta a figura de Jesus como o “advogado de defesa” diante do Pai, em favor daqueles que se abrem a Boa Nova.

Durante a pregação, dentro da continuidade lucana, Pedro destaca o tema do “sofrimento do Messias”, que reaparece no Evangelho.

2ª Leitura: 1Jo 2,1-5a

O eixo principal da narrativa da 1ª Leitura é a apresentação de Jesus como o “paráclito”. Típico da teologia joanina, tanto o Espírito como o Filho são descritos como “defensores”. O princípio de acusa/defesa da lei judaica passava pelo testemunho de duas pessoas. A literatura joanina resgata o tema do acusador, que é o Diabo (= Gn 3 + Ap 12,7-10 + Jo 8,44) e do defensor, descritos através das figuras do Espírito Santo (Jo 14,16.26; 15,26; 16,7) e de Jesus (1Jo 2,1). Jesus, no Quarto Evangelho exprime que primariamente o “paráclito” é a sua pessoa, seguido pelo Espírito santo: “rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito” (Jo 14,16), lógico que não consiste em grau de superioridade, mas de primazia, na qualidade do “enviado” do Pai ao mundo. Na tradição judaico rabínico e cristã, a expressão assume o significado de “advogado” ou “intercessor”, sempre com conotação jurídica, mais exatamente, função de advogado de defesa num tribunal.

Enquanto o diabo é apresentado do Livro do Gênesis ao Apocalipse de João como o “acusador”, Jesus e o Espírito Santo assume, diante do Pai (=Justo Juiz) a função de “advogado de defesa”. Esta ideia está bem clara na 1João, onde diretamente Jesus é apresentado como o “defensor” diante do Pai. O que conta a seu favor, no ato de defesa, é a sua paixão e morte (= vítima de expiação: 1Jo 2,2).

A narrativa de 1João está trabalhando a ideia de pecado e mandamentos. No contexto Joanino, guardar os mandamentos é compreender e apreender a pessoa de Jesus (“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”: Jo 14,6), entendendo “caminho” como a Lei (halakah). Portanto, é o cumprimento da Lei de Israel. Tal ideia aparece justamente no último capítulo de Lucas, no qual Jesus afirma categoricamente que “começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito… era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24,27.44), ou seja, as Escrituras estavam em vista de Jesus Cristo e nele possuem a sua realização. Mais exatamente, o conceito de caminho e de lei se equivalem, como se pode compreender no diálogo entre Pilatos e Jesus: “Respondeu Jesus: Tu o dizes eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz, Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade?” (Jo 18,37-38). Neste diálogo entre Pilatos e Jesus, entram em jogo o conceito de verdade para os judeus (Torá=Lei), para os Romanos (Lex Romana) e Jesus (sua pessoa), no qual Jesus expressa em suas palavras e ações, que a verdade (=Lei) tem sua razão de ser na sua pessoa.

Evangelho: Lc 24,35-48

Jesus, na narrativa lucana sobre suas aparições após a ressurreição, descreve algumas caraterísticas próprias. O Evangelho do 3º Domingo da Páscoa, apresenta a continuidade da narrativa dos discípulos de Emaús (missa vespertina do Domingo de Páscoa). Neste caso, narra o retorno e o reencontro dos discípulos com os Apóstolos, contando-lhes o que ocorreu enquanto faziam o caminho de volta para as suas casas. Segue a presença de Jesus com os seus e a típica saudação pascal: “a paz esteja convosco”.

Curiosamente, os discípulos estavam caminhando com Jesus e não sabiam que era ele, o reconhecem ao partir do pão, quando Jesus se faz ausente. Agora estão contando aos Apóstolos tudo que ocorreu, quando Jesus se faz presente no meio deles e o grupo pensa tratar-se de um fantasma. O gesto de Jesus é apresentar as marcas da paixão como sinal visível da sua corporeidade ressuscitado, seguindo com o comer um pedaço de peixe e terminando com ensinamentos.

O tema lucano da “presença-ausente e ausente-presença” que acompanhava a narrativa dos discípulos de Emaús reaparece. Jesus se coloca no meio deles, mas estes não o reconhecem, é necessário que Jesus reafirme a sua presença.

O ato de comer de Jesus (que se torna uma das Quaestiones Disputatae) possui a função de explicitar a realidade do ressuscitado. Não se trata de um fantasma ou um corpo angélico, mas exatamente do “corpo glorificado”. O capítulo 12 do Livro de Tobias narra o momento no qual Rafael, até então usando o nome de Azaris se revela, anunciando ser um ano enviado por Deus. No diálogo, ele afirma duas coisas: a) ser um anjo (Tb 12,11-150 e b) enquanto anjo, ele não come (Tb 12,19). Além disso, anuncia: “Não tenhais medo, a paz esteja convosco!” (Tb 12,17), ou seja, a expressão utilizada por Jesus após a Ressurreição. Na narrativa de Tobias, diferente da lucana, o anjo Rafael afirma não comer porque possui natureza angélica, enquanto Jesus pede algo para comer e come na frente deles. Neste sentido, se estabelece a distinção entre corpo angélico e corpo glorificado.

Outra questão que aparece na narrativa lucana é o anúncio do “sofrimento do Messias” (At 3,18; Lc 24,26.46) segundo as escrituras. Contudo, as Escrituras não fazem absolutamente nenhuma menção ao sofrimento do Messias futuro. O tema da ressurreição tem início no século II a.C. a partir da Profecia de Daniel e Livro do Sonhos (Enoc Etíope 91-105). Para o autor do Livro dos Sonhos, a ressurreição diz respeito apenas aos justos da última geração, enquanto, para Daniel ela abrange todos os justos, de todas as épocas.

Quanto ao tema do sofrimento (Lc 24,26.46) a compreensão se encontra não naquilo que os profetas anunciam, mas sobre a sorte dos profetas, ou seja, todos aqueles que foram fiéis a Deus foram perseguidos, desprezados e, muitos, assassinados. Sendo Jesus o modelo de fidelidade ao Pai, ele irá, também, sofrer a sorte dos que são fiéis. Portanto, sendo o Messias, o homem da fidelidade por excelência à Deus, ele sofrerá a perseguição.

A narrativa constrói a tipologia messiânica, que servirá de modelo para os discípulos, enquanto testemunhas fidedignas.

Síntese

O foco do 3º Domingo da Páscoa se encontra no tema do Anúncio, no qual os discípulos são “testemunhas do Ressuscitado (Evangelho) e, portanto, anunciam com vigor a Boa Nova, convidando ao arrependimento e à conversão (1ª Leitura), pois o Ressuscitado é digno de fé, por ter sofrido, morrido e ressuscitado em favor de todos e, por sua morte e ressurreição, assume o papel de Paráclito junto ao Pai em favor daqueles que buscam a verdade. E todos aqueles que o buscam de coração sincero se lhes abre a possibilidade da vida nova, vivendo segundo os critérios evangélicos.

2º Domingo da Páscoa

1ª Leitura – At 4,32-35

A 1ª Leitura propõe o modelo ideal de comunidade cristã, no qual se destaca:

a) Princípio de unidade: a comunidade se reúne em torno dos Apóstolos que testemunham a sua unidade na pessoa de Jesus Cristo. Encontra-se aqui, o sinal que acompanhará a Igreja, ou seja, o princípio de colegialidade episcopal e colegialidade presbiteral que se torna o modelo de referência para a comunidade de batizados e para o mundo.

b) Comunidade evangelizada e evangelizadora: a comunidade de batizados é por excelência evangelizadora e missionária. Aquele que foi evangelizado se torna evangelizador e, naturalmente, missionário. Esta é uma das características naturais de todo cristão batizado. Nota-se na leitura que, à frente da missão, estão os Apóstolos como “guardiões” da sã doutrina, ou seja, eles são as referências ao serem, eles mesmos, testemunhas do Cristo Ressuscitado.

c) Comunidade solidária e servidora: a dimensão diaconal se torna natural na vida da comunidade cristã. Tendo Jesus Cristo como o “Diaconal do Pai”, aqueles que os seguem se tornam servidores da humanidade. Disto se estabelece os princípios da moral cristã e da Doutrina Social da Igreja. De fato, muitos dos primeiros cristãos foram martirizados, não somente porque professavam a fé em Jesus Cristo, mas pelo modo de agir nos diversos seguimentos da sociedade que acaba se chocando com situações contrárias expondo, naturalmente, injustiças, corrupções, outros.

Salmo – Sl 117(118),2-4.16ab-18.22-24

O Salmo 117(118) continua sendo proclamado, cujo tema principal é o “grande dia”: “este é o dia que o Senhor fez para nós” (Sl 118,24). Na realidade a proclamação anuncia que não se trata de um dia cronológico, mas de um tempo favorável, segundo as bases da profecia de Zacarias: “Haverá um único dia – Iahweh o conhece -, sem dia e sem noite” (Zc 14,7). A liturgia cristã vê na Ressurreição de Jesus Cristo a realização desta profecia, no qual se estabelece o tempo da salvação. Tudo é, agora, perpassado por Cristo. O Cristo Ressuscitado se torna o “pano de fundo” da história.

2ª Leitura – 1Jo 5,1-6

A 2a Leitura durante o Tempo Pacal, ano B, é sempre da Primeira Carta de João. O autor enfrenta uma situação particular, ou seja, um grupo rompeu com a comunidade e se proclamavam os legítimos detentores da verdade. Diante da situação pastoral, o autor deseja reunificar a comunidade através de duas técnicas:

a) sensibilidade de vocabulário. O autor utiliza uma linguagem amigável, diplomática, com palavras suaves, tentando se aproximar e não condenar o rechaçar o outro, com animosidades;

b) Apresenta claramente os equívocos e suas consequências. Deste modo o autor, mesmo usando de toda diplomacia, é capaz de demonstrar onde está o erro e quais são as consequências da persistência no erro.

Os dissidentes se apoiam numa questão doutrinal, ou seja, a questão da humanidade e da divindade de Jesus Cristo, mais exatamente, eles praticamente negam a humanidade de Jesus Cristo. O autor da Carta irá corrigir este erro doutrinal. Contudo, não sabemos se a tentativa do autor em reunificar a comunidade obteve êxito, mas ele deixa um legado de como enfrentar situações pastorais adversas.

A 2a Leitura de hoje apresenta a questão doutrinal que levou um grupo a romper com a comunidade, formando uma nova comunidade, o problema é justamente a questão doutrinal sobre a relação humanidade-divindade de Jesus Cristo. Assim, o autor afirma que “Jesus” é o Filho de Deus. Mais exatamente, Jesus Cristo “veio” pela água e pelo sangue, que significa: Jesus Cristo é verdadeiramente humano (=sangue) e verdadeiramente Deus (=água). Portanto, Jesus Cristo é humano e divino, sem separação e sem confusão, como proclamará a Igreja posteriormente. Neste sentido, o verdadeiro cristão é aquele que professa que Jesus Cristo é o Filho de Deus que se encarnou.

Evangelho – Jo 20,19-31

A missa vespertina do Domingo de Páscoa narrava a história dos discípulos de Emaús. Na liturgia do 2o Domingo da Páscoa é retomado o tema do dia da Ressurreição, agora com foco do encontro do Senhor Ressuscitado com os Apóstolos reunidos.

A narrativa de João se constrói relacionando o Dia da Ressurreição e a oitava da Páscoa. Sublinha-se que os discípulos estão reunidos nestes dois dias. Na primeira parte da narrativa, o destaque está na ação de Jesus Cristo, ou seja, soprar sobre os Apóstolos infundindo o Espírito Santo e, nesta ação, conferindo a eles um dom particular, ou seja, o de perdoar os pecados. O perdão dos pecados é um atributo exclusivo do Pai, que será exercido pelo Filho e, agora, transmitido aos Apóstolos. Neste sentido, a remissão dos pecados passa, a partir deste momento pelo viés sacramental. Portanto, no cristianismo não se admite perdão de pecado “eu e Deus”, pois, seguindo a ótica da 1João, quem não crê no que é visível, não crê no que é invisível. Em todo caso, a narrativa fornece os fundamentos para o sacramento da penitência. Outra característica importante desta primeira parte da narrativa é a efusão do Espírito Santo. A primeira ocorre durante a crucificação, quando ao ser transpassado jorrou sangue e água. A segunda efusão do Espírito Santo é para conferir um dom particular por vontade divina.

A segunda parte da narrativa ocorre oito dias após o dia da Ressurreição. Novamente os discípulos estão reunidos. Este é outro elemento importante, a comunidade que se reúne habitualmente “no primeiro dia de semana” que, posteriormente, receberá o nome de “Dia do Senhor” ou “domingo”. Nesta parte da narrativa o foco recai sobre o encontro de Jesus com Tomé, ausente na semana anterior. O encontro com o Ressuscitado leva a maior Proclamação de Fé: “meu Senhor e meu Deus”. Na realidade Tomé está resgatando a tradição do Nome de Deus e aplicando à pessoa de Jesus Cristo:

a) “meu Senhor” = meu Iahweh/Adonai

b) “meu Deus” = meu Elohim

Neste sentido Tomé afirma a divindade de Jesus Cristo, segundo as tradições de Israel.

No Quarto Evangelho, diferente dos Sinóticos, a fé não se dá apenas pela escuta, mas, também, pela visão. Assim, os Apóstolos, discípulos e discípulas são aqueles que “viram” e “creram” no Senhor. A novidade da narrativa é que, a partir de agora, aqueles que foram “testemunhas oculares” se tornarão anunciadores. Através do qual, palavras e exemplos, levarão outros a fé.

Ressalta-se a dinâmica do reunir-se no primeiro dia semana, como espaço litúrgico por excelência da vida cristã. Na 1a Leitura o foco estava nas dimensões missionária e diaconal. O Evangelho aproxima a dimensão orante da vida cristã.

Outro elemento que relaciona a Liturgia Vespertina do Domingo de Páscoa com o 2o Domingo da Páscoa é a presença-ausente e a ausente-presença do Ressuscitado no meio da comunidade cristã. De fato, na narrativa dos Discípulos de Emaús, Jesus caminha com os Discípulos sem ser reconhecido, e quando parte o pão é reconhecido e se torna ausente. O Evangelho de hoje desenvolve esta ideia também. Durante a semana os discípulos estão reunidos, mas não veem o Senhor, mas Ele está com os seus e tem ciência da conversa que tiveram enquanto estavam reunidos. Além disso, o tema evoca as ideias de comunidade reunida com o Senhor presente no meio dela e a presença eucarística do Senhor na sua Igreja.

 

Tempo Pascal

Pe. Gilvan Leite de Araujo

 

Por tempo pascal se compreende o período que vai desde o domingo da Ressurreição de Jesus Cristo até o domingo de Pentecostes. Portanto, compreende um período de 50 (cinquenta) dias. Este período era chamado por São Basílio de “sete semanas do Santo Pentecostes” ou “Grande Domingo” por Santo Atanásio ou, ainda, “o gozoso tempo” por Tertuliano. Nisto se subentende que Páscoa não se trata de um único dia, mas um grande dia que se prolonga por um tempo simbólico, ou seja, sete semanas ou cinquenta dias.

Contexto Histórico

No calendário judaico do AT, cinquenta dias após a Páscoa, é celebrada a Festa das Semanas (Shavuot=Pentecostes: Ex 19,1), em origem, uma festa agrícola.

O Tempo Pascal compreende, portanto, cinquenta dias que abarca a Ressurreição (início), a Ascensão do Senhor (expectativa) e Pentecostes (conclusão). No NT os cinquenta dias assume a seguinte perspectiva: a quadragésima, que compreende o Domingo da Ressurreição até o Domingo da Ascensão, que se prolonga até a quinquagésima, com o Domingo de Pentecostes. O sentido primário da quadragésima são os quarenta dias que o Senhor Ressuscitado permaneceu com os Apóstolos, discípulos e discípulas até a Ascensão aos céus, e quinquagésima, justamente a vinda do Espírito Santo. Deste modo, os Santos Padres sublinham o paralelismo entre a Lei e o Espírito, Antiga e Nova Aliança.

O início do Tempo Pascal se dá com o Domingo da Pascoa com a oitava da Páscoa. A concepção primária é de que a “semana da Páscoa” (=oitava) compreende um único dia, de fato, durante a semana percorre o refrão “este é o dia que o Senhor fez para nós” (Sl 118,24), no lugar do Responsório da Liturgia da Horas.

Liturgia

Durante o Tempo Pascal, a Palavra de Deus apresente uma seleção de leituras do livro dos Atos dos Apóstolos, do Evangelho de João e outras leituras com foco sobre o tema batismal, com referências à vida nova com projeção à vida escatológica (1Pedro; 1João e Apocalipse de João).

A escolha do livro do Atos do Apóstolos e do Evangelho de João possui, ainda, uma perspectiva sacramental, portanto, a vida nova pressupõe um caminho sacramental, que será desenvolvido durante o período.

Algumas características teológicas que acompanham o período Pascal

A liturgia dominical irá desenvolver o esquema padrão da vida cristã a partir da tríade:

  • vida orante/litúrgica;
  • vida diaconal e
  • vida missionária,

que são características próprias da atuação batismal. Esta tríade é iluminada pelas virtudes teologais: fé, esperança e caridade que norteiam a vida batismal. Assim, durante o Tempo Pascal a Liturgia Dominical irá desenvolver estas perspectivas, domingo a domingo.

Lecionário Dominical

Até o 3º Domingo da Páscoa, as leituras do evangelho relatam as aparições de Jesus Cristo Ressuscitado. A leitura do Bom-Pastor está alocada no 4º Domingo. Nos Domingos seguintes se lê narrativas do discurso e da oração do Senhor após a última ceia. No ciclo trienal, a 1ª leitura é sempre textos do livro do Atos dos Apóstolos, de modo paralelo e progressivo. A 2ª Leitura varia conforme o Ano Litúrgico: no Ano A se utiliza a 1Pedro, Ano B, a 1João, e no Ano C o Apocalipse de João. Tais narrativas estão de acordo com o espírito de alegria e fé, próprio do tempo (OLM 100).

Sábado Santo: Vigília Pascal

A Proclamação da Palavra de Deus acontece a Luz do Cristo Ressuscitado, centro do Cosmo e da História. A Leituras atuais possuem um tríplice caráter simbólico: a) são Leituras progressivas da História da salvação; b) possuem um caráter cristológico e c) estão em estreita relação com o batismo. A leitura segue o salmo ou cântico, a Oração da Igreja expressa o sentido tipológico da leitura.

Antigo Testamento:

1ª Leitura: Gn 1,1-2,2: Criação

Sl 104: As maravilhas da Criação

Oração: memória da criação e da recriação em Cristo

2ª Leitura: Gn 22,1-18: Sacrifício de Abraão

Sl 16: referências messiânicas a Cristo Ressuscitado

Oração: Da fé de Abraão à fé dos batizados em Cristo

3ª Leitura: Ex 14,15-15,1: Passagem do Mar, Páscoa de Israel

Cântico: Ex 15: Cântico de Moisés

Oração: Passagem do Mar figura do batismo cristão

4ª Leitura: Is 54,5-14: Fidelidade de Deus Criador e Redentor

Sl 30: Deus misericordioso e salvador

Oração: da paternidade de Deus à esperança da salvação

5ª Leitura: Is 55,1-11: vocação e uma Aliança Eterna

Cântico: Is 12,2.4.6: Deus é nossa Salvação!

Oração: Os Profetas anunciaram a salvação no Espírito

6ª Leitura: Br 3,9-15.32-4,4: No esplendor da Luz Sapiencial

Sl 19: Bondade e beleza da Lei do Senhor

Oração: A Igreja cresça com novos filhos

7ª Leitura: Ez 36,16-17a.18-28: Uma aliança Nova, um coração novo

Sl 42: Sede de Água Viva, do Deus Vivente

Oração: Hoje se cumpre estas promessas

Novo Testamento

8ª Leitura ou Epístola: Rm 6,3-11: Batismo, mistério pascal

Sl 118: A Vitória Pascal de Cristo. Este é o dia que o Senhor fez para nós

Evangelho: Ano A: Mt 28,1-10: Ressurreição

Domingo de Páscoa

A liturgia da palavra se estrutura partindo do Atos do Apóstolos, substituindo o Antigo Testamento, segundo o costume da Igreja Primitiva.

1ª Leitura: At 10,34a.37-43: os Apóstolos, Testemunhas da Ressureição

Sl 118: Este é o dia que o Senhor fez para nós

2ª Leitura:

Cl 3,1-4: Ressuscitar com Cristo

1Cor 5,6-8: Cristo nossa Páscoa foi Imolado

Evangelho:

Missa matutina: Jo 20,1-9: Ressurreição

Missa vespertina: Lc 24,13-35: Discípulos de Emaús

 

A missa matutina do Domingo de Páscoa apresenta o tema do testemunho da Ressurreição de Jesus Cristo. O Discípulo Amado, enquanto sacerdote, mesmo temendo (um levita não pode tocar num cadáver), mas tendo a afirmação de Pedro entra no túmulo, sinal de que este se encontra vazio. A 1ª Leitura afirma os Apóstolos como “Testemunhas” da Ressurreição a partir da pregação de Pedro cujo conteúdo se expressa na 2ª Leitura que converge para a ressurreição de todos que aderem Jesus Cristo pela fé.

A missa vespertina possui o foco sobre o tema do 1º Dia da Semana, como indicativo da identidade cristã, ou seja, reunir-se no 1º Dia da Semana que passa a ser compreendido como “Dia do Senhor” (=Domingo) em virtude da Ressurreição de Cristo.

 

Semana Santa – Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

O Domingo de Ramos

Na celebração do Domingo de Ramos convergem a tradição jerosoluminatana da procissão de ramos, proveniente da Festa das Tendas (Sucot), que se torna o pano de fundo para a Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém. Une-se a celebração a tradição romana que orienta os fiéis com a liturgia da palavra centrada no tema da Paixão do Senhor.

Leva-se em conta que o complexo festivo da Festa das Tendas será destrinchado nas celebrações da Semana Santa. Disto advém o costume da procissão de Ramos (domingo) junto com a prisão de Jesus no Monte das Oliveiras (Sexta-Feira Santa) que possuem a função de identificar que Jesus é de fato o Messias, segundo a profecia de Zc 9 e 14. O Salmo 118 serve de moldura para Semana Santa (Domingo de Ramos; Sábado-Santo; Domingo de Páscoa). Proveniente da Festa das Tendas será a Benção do Fogo e a Benção da Água, durante a Liturgia do Sábado Santo. Á Festa Judaica das Tendas é importante no complexo da Semana Santa pelos seguintes motivos: a) é a festa da expectativa messiânica de Israel; b) possui contexto escatológico; c) é a festa da eternidade; e, acima de tudo, d) é a Festa de Deus por excelência, entre outras características.

No Domingo de Ramos, a primeira parte consta do Evangelho que narra a Entrada de Jesus em Jerusalém (Mc 11,1-10), seguido da procissão em honra de Cristo Rei (cf. Sl 118).

Características do Domingo de Ramos

Procissão Judaica de Ramos: Momento da manifestação do rei-messias (Zc 14)

Monte da Oliveiras: Lugar da Manifestação do rei-messias (Zc 14,4)

Jumentinho: Indicação da dignidade real do rei-messias (1Rs 1,28-40; Zc 9,9)

Qualidades do rei-messias: justo, vitorioso, humilde e guerreiro (Zc 9,9-10)

A segunda parte narra-se o tema do Servo Sofredor na Primeira Leitura (Is 50,4-7), com o Salmo do Abandono na Cruz (Sl 21), a segunda Leitura é o Hino Cristológico de Fl 2,6-11 e a narrativa da Paixão (Mc 14,1-15,47). O Hino de Filipenses exalta o comandante de tropas que doa a sua vida para salvar o seu povo. Tendo “caído em batalha” ele recebe as honras e dignidades do “herói combatente”. Tal “vitória em batalha” é descrita na narrativa da paixão, que o apresenta a partir da imagem do Servo Sofredor de Isaías que portará consigo a vitória.

Segunda, Terça e Quarta-feira Santa

Mantem-se o caráter Cristológicos da quaresma, seguindo a leitura das semanas anteriores. Leituras proféticas de Isaías e evangélicas de João, com exceção da Quarta, quando se narra a Traição de Judas, segundo Mateus (Mt 26,14-25).

Missa Crismal – Quinta-Feira Santa

Habitualmente celebrada na Quinta-Feira, pela manhã, possui um caráter sacerdotal. Lê-se Is 61,11-3ab.6a.8b-9, sobre o Messias consagrado pelo Espírito; Ap 1,5-7 sobre a realeza de sacerdotes por Jesus Cristo A e W; Lc 4,16-21 sobre a missão de Jesus, ungido pelo Espírito, anunciando na Sinagoga de Nazaré.

Tríduo-Pascal

Quinta-Feira Santa: Missa do Lava-Pés

A Primeira Leitura (Ex 12,1-8.11-14) recorda o ambiente pascal no qual se desenvolverá a Ceia de Jesus e o caráter pascal de sua imolação. A segunda (1Cor 11,23-26) transmite o ensinamento Apostólico a respeito da Instituição da Eucaristia e o Evangelho de João introduz o tema da Caridade (Jo 13,1-15).

Sexta-Feira Santa: Celebração da Paixão

A estrutura atual, fruto de uma síntese de diferentes tradições pode ser justificada deste modo:

Paixão Proclamada: Liturgia da Palavra

Paixão Invocada: Orações Solenes

Paixão Venerada: Veneração da Cruz

Paixão Comunicada: Comunhão Eucarística

Após uma breve e austera procissão penitencial é proclamada a Paixão nesta perspectiva:

1ª Leitura: Is 52,13-53,12 – A Profecia do Servo de Javé

2ª Leitura: Hb 4,14-16;5,7-9 – Obediência do Filho

Evangelho: Jo 18,1-19,42 – Paixão de Jesus

Na Primeira Leitura lê-se a proclamação profética do Servo do Deutero-Isaías, realizada na Paixão de Jesus. Na Segunda Leitura a Carta aos Hebreus aborda, em perspectiva sacerdotal a obediência do Filho. João narra “a liturgia” da Cruz, onde Jesus Imolado aparece em sua exaltação sobre a Cruz, o Cordeiro Imolado e Rei.

5º Domingo da Quaresma Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

Jr 31,31-34

A teologia da Profecia de Jeremias e de Isaías possui algumas características próprias em relação aos profetas anteriores a eles, ou seja, até o momento os profetas tinham sido enviados para tentar reajustar ou concertar as coisas. Contudo, tais iniciativas não obtiveram resultados. Assim, Jeremias e Isaias surgem como os profetas que descrevem o limite da “paciência divina”. Deus não vai tentar mais “concertar” as coisas, agora é o tempo de deixar que tudo seja destruído para dar início a um novo recomeço, como se pode observar na vocação de Jeremias “Eu te constituo, neste dia, sobre as nações e sobre os reinos, para arrancar e para destruir, para exterminar e para demolir, para construir e para plantar” (Jr 1,10). O mesmo ocorre na narrativa da vocação de Isaías “Vai e dize a este povo: Podeis ouvir certamente, mas não haveis de entender; podeis ver certamente, mas não o haveis de compreender. Embota o coração deste povo, torna pesados os seus ouvidos, tapa-lhe os olhos, para que não veja com os olhos, e não ouça com os ouvidos, e não suceda que o seu coração venha a compreender, que ele se converta e consiga cura” (Is 6,9-10). Portanto, a mensagem de Isaías e de Jeremias é de “destruição” e de “novo recomeço”. Nesta perspectiva se insere o tema da “Nova Aliança”.

Tendo em vista que a primeira Aliança era firmada através de um “contrato” (=Lei) isto implicava num acordo entre duas partes (Deus e Israel), no qual Deus concedia a Terra Prometida e Israel se oferecia, selando “materialmente” o acordo entre partes. Contudo, tal “posse” era condicionada. A não observância da Lei implicava em sanção, sobre Deus, seria perder o direito de posse do povo de Israel, e sobre o Povo de Israel, o direito de posse da Terra.

A trajetória histórica do Povo de Israel, no entanto, demonstra sequencias de infidelidades através de injustiças sociais (cf. 1 e 2Samuel; 1 e 2Reis; 1 e 2Crônicas; + profetas pré-exílicos). Deus procura remediar as coisas, mas sem sucesso. Finalmente, Deus decide romper com uma situação “viciada” e recomeçar tudo. A queda de Israel em 722 e a queda de Judá (598/586), com exílio da Babilônia, são consequências da sanção aplicada.

Mesmo tendo sido imposto a sanção da Lei, Deus não abandonará o seu Povo Eleito. Mas proporá uma Nova Aliança. Tal promessa se realizará a partir e por meio de Jesus Cristo, o Filho Amado do Pai.

Outra característica importante será a perspectiva teológica que se desenvolve a partir de Jeremias e Isaías. A tradição sapiencial descreve o sofrimento por meio do castigo divino, como se poderá observar, principalmente, através do livro de Jó. Com jeremias e Isaías a conceção mudará radicalmente. O sofrimento deixa de ser visto como um castigo imputado por Deus, e passa a ser concebido como um espaço para a ação divina. Deste modo, o sofrimento humano pode ser um lugar para a redenção, um lugar para a graça divina. Tal perspectiva será fundamental para a compreensão do mistério da paixão e morte de Jesus Cristo. De fato, a cruz deixa de ser concebida como maldição e, a partir da pessoa de Jesus Cristo, passa a ser concebida como lugar de redenção. Tal perspectiva teológica é um legado de Jeremias e Isaías e será o eixo para a compreensão do sofrimento dentro do cristianismo, o sofrimento pode se tornar um espaço para a manifestação da graça.

Hb 5,7-9

A narrativa da Carta aos Hebreus apresenta o tema da obediência do Filho ao Pai por meio dos sofrimentos terrenos. A narrativa descreve o modo como Jesus enfrenta a experiência do sofrimento, transformando-o em espaço para a ação do Pai. Assim a expressão “na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,9) o autor está resgatando o tema da paixão e morte de Jesus, como ato e como modelo da experiência da redenção. Assim a paixão e morte, dentro da perspectiva de Jeremias e Isaías, se configuram como lugar para a ação do Pai e do Filho que vem para salvar: “não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” (Jo 12,47)

Jo 12,20-33

A partir do capítulo 12 de João tem início o tema da “gloria” de Jesus Cristo. Tal glória se manifesta na sua “hora”, ou seja, durante a paixão e morte. A narrativa começa com os gregos querendo “ver” Jesus. Tal interesse possui o significado de conhecimento. Além disso, o foco sobre os gregos possui um sentido universalista. Dentro do tema da Nova Aliança entra a perspectiva universal, ela abarca, agora, não apenas um povo em particular, mas “homens e mulheres de todas as raças, línguas e nações…”.

Na sequência, Jesus descreve o tema do grão de trigo, no qual só pode dar frutos quando “cai na terra” (=morre), ilustrando como o princípio de doar a vida se torna elemento basilar do seguimento, por meio do qual o nome do Pai é glorificado.

O ato de doar a vida resulta na queda de Satanás, o qual promove o individualismo a qualquer custo, mesmo a custo do sangue inocente. Satanás seduz oferecendo falsos valores. Pelo contrário, a cruz seduzirá oferecendo o verdadeiro valor, a vida humana. Aqui entra o choque entre o individualismo e o bem comum. Caso o centro da pessoa for ele próprio, ele se tornará deus de si mesmo, o que acarretará a sua queda. Mas, se o centro da pessoa se deslocar para o outro, ele passa a ser gerador de vida. Portanto, a cruz se torna referência de salvação, porque ela diz respeito a salvação de todos. Neste sentido, na cruz, a Glória de Deus se manifesta através do Filho Amado. O Pai que doa o Filho e o Filho que se doa.

Síntese:

O tema da Nova Aliança anunciada por Jeremias será estabelecido por Jesus Cristo Crucificado e Ressuscitado. Enquanto a antiga Aliança era restrita a um povo particular, a nova se abre para todos os “homens e mulheres de boa vontade”. Enquanto a Antiga Aliança se alargava (= 10 mandamentos), a Nova Lei se restringe a dois mandamentos: “amar a Deus e amar o próximo”. Desse modo, a paixão e morte de cruz de Jesus expressa este conceito de amor doado e estabelece a Nova Aliança, que passa a vigorar a partir do princípio do amor, que se configura como Lei Régia.

Além disso, o tema da paixão e morte de cruz, dentro da perspectiva de Jeremias e Isaías, assume a compreensão de redenção, ou seja, como espaço no qual Deus pode agir em favor da humanidade e não mais como castigo/condenação. Assim, o sofrimento humano passa a se configurar como espaço no qual Deus pode agir em nosso favor, torna-se uma possibilidade para Deus.

 

 

4º Domingo da Quaresma Ano B 2021

Pe. Gilvan Leite de Araujo

2Cr 36,14-16.19-23

Os Livros das Crônicas surgem como um tipo de Diário Oficial do Estado. Neste sentido, a obra desenvolve as atividades da monarquia sob a ótica divina, a qual está subordinada em virtude da Aliança e da Lei. As obras estão em paralelo com os livros dos Reis, porém, as narrativas são ampliadas em relação a estes. O teor dos livros das Crônicas e de Reis é compreender o que levou ao colapso do Reino do Norte (Israel) em 722 e do Reino do Sul (Judá) em 598/586. Particularmente, o segundo livro das Crônicas, em paralelo com as Profecias de Isaías e de Jeremias, narra o fim do exílio, a partir do declínio da Babilônia, com a ascensão do império Persa.

A narrativa deste domingo é o último capítulo do segundo livro das Crônicas e narra a queda e ressurgimento do reino do sul (Judá).

O motivo dado para a queda de Judá é a “multiplicação das infidelidades” e “não escuta dos mensageiros enviados por Deus” (=profetas). Como resultado, Deus decide não mais concertar ou remediar as coisas, mas deixar que tudo se quebre para reconstruir novamente. Para que isto ocorra, Nabucodonosor será descrito como “instrumento de castigo” e Ciro como “instrumento de Salvação” nas mãos de Deus.

Duas características:

a) Concepção Jurídica: A Aliança entre Deus e Israel foi sancionada através de um contrato entre as partes, cuja quebra do acordo resultaria em sanção contra a parte transgressora. Neste sentido, os Livros das Crônicas e Reis descrevem as transgressões de Israel/Judá a partir das suas autoridades (=reis), a fim de compreender o motivo da queda do Norte (722 a.C.) e do Sul (598/586). Nesta linha, o retorno e permanência na Terra Prometida é concebido a partir da estrita observância da Lei (=embates entre os fariseus e mestres da Lei com Jesus)

b) Penitencial: O exílio da Babilônia visto como um processo penitencial em vista da conversão de Judá (=Livro das Lamentações). Nesta linha, o retorno é descrito como um “novo Êxodo”, no qual se evidencia nova aliança (cf. Is 40-55).

A narrativa de 2Crônicas descreve um processo: Jerusalém-Exílio-Jerusalém. Tal processo que pode ser concebido na linha penitencial através do tema do “repouso sabático”, no qual a Terra Prometida foi “purificada” das suas injustiças.

Sl 136

O Salmo 136 resgata a memória. O processo penitencial, como caminho de conversão implica em avaliar, superar os erros e firmar os passos no essencial. Nesta perspectiva, Jerusalém surge como modelo ideal e referência para o processo de transformação.

Ef 2,4-10

A narrativa da 2ª Leitura evidencia, a partir da tipologia batismal, a transição da morte para a vida a partir da salvação operada em Cristo através da sua morte e ressurreição.

No paralelo com a 1ª Leitura, a passagem do exílio para a Terra Prometida é descrita a partir da ótica penitencial. Além disso, a possibilidade de renascer para uma vida nova não se dá pela capacidade/mérito humano, mas pela livre gratuidade divina em sua misericórdia, no qual é cobrado apenas “a união com Cristo” (Ef 2,5-6). Portanto, uma salvação operada mediante a fé, o que nos predispõe para “as boas obras”, não como artífices, mas como instrumentos do sumo-artífice (Ef 2,10).

Jo 3,14-21

O diálogo entre Jesus e Nicodemos se desenvolve a partir do renascimento, no qual Jesus indica o “nascer de novo/do alto”. Tal “nascer de novo/do alto” apresentado como “nascer da água e do Espírito” (Jo 3,3-5) como um processo da fé no Filho do Homem (= Jesus Cristo). Mas, qual Cristo se deposita a fé? Jesus responde que é naquele que “será elevado” como o foi a serpente do deserto. Portanto, a fé no Cristo Crucificado que será o Ressuscitado. O crer no crucificado/ressuscitado se torna condição para a vida eterna, pois o crucificado manifesta a plenitude do amor divino: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Único” (Jo 3,16). Além disso, a fé exige assumir uma conduta moral e um compromisso orante, diaconal e evangelizador. Tais princípios não esvaziam a fé em meras palavras, mas a confirma como empenho.

Sendo o Crucificado a expressão suprema do pleno amor misericordioso de Deus, não existe outro caminho para a vida eterna que não passe pelo Cristo e nele se modele. Aqui surge a distinção entre os “filhos da luz” e os “filhos das trevas”. Mas quem são os “filhos das trevas” no Quarto Evangelho? Jesus responde que são os homicidas e mentirosos (cf. Jo 8,44-47), o que ocorre quando as lideranças em Israel condenam o inocente (=Jesus) à morte mentindo ao falsear a Lei (cf. Jo 19). Curiosamente, estas lideranças, no Quarto Evangelho, conhecem Jesus, mas não o acolhem nem o professam “muitos chefes creram nele, mas, por causa dos fariseus, não o confessavam, para não serem expulsos do Sinédrio, pois amaram mais a glória dos homens do que a de Deus” (Jo 12,42-43).

Síntese

Na antiga Aliança Deus estabelecera um acordo entre Ele e Israel. Assim, a pertença ao povo da Aliança se dava através do processo de genealogia e na estrita observância da Lei. No pós-exílio ser judeu significava observar o sábado, a Lei e a circuncisão, mesmo permanecendo o critério genealógico como condição primária. A Nova Aliança estabelece o critério da Fé no Crucificado que é o Ressuscitado. Leva-se em conta que o Ato de Fé não é apenas uma afirmação, mas um exercício contínuo através da vida na graça.

O processo batismal que, através da fé e renascimento, implica na renúncia do pecado/morte para a graça/vida (cf. Rm 6).

O 5º Domingo da Quaresma tratará do tema da Nova Aliança. Portanto, o 4º Domingo está justamente trabalhando a catequese sobre a transição da Lei Mosaica para a Nova Lei em Cristo. Assim, fica estabelecido, na catequese, a transição:

 

Moisés

Jesus

Terra do Egito Pecado
Travessia do Mar Batismo
Aliança do Sinai/Deserto Vida na Graça
Travessia do Jordão Passagem
Terra Prometida Vida Eterna

 

Os paralelos com a catequese deste domingo se configuram do seguinte modo:

Moisés

Ciro

Jesus

Terra do Egito Babilônia Pecado
Travessia do Mar Édito de retorno Batismo
Aliança do Sinai/Deserto Ano Sabático Vida na Graça
Travessia do Jordão Retorno/Caminho Passagem
Terra Prometida Templo de Jerusalém Vida Eterna

 

No conjunto, o modelo do Êxodo se torna referencial. Na Literatura Profética, o Exílio da Babilônia é descrito como um “anti-êxodo”, enquanto o retorno da Babilônia para Jerusalém é descrito na linha de um “Novo Êxodo”. Ampliando para uma leitura penitencial, tem-se a concepção da experiência do sofrimento (Egito-Babilônia-Terra do Pecado) como possibilidade da graça de Deus, assim como a paixão e cruz de Cristo, que poderia ser visto como castigo, é concebido como possibilidade para a ação de Deus (=Ressurreição), a transformação da desgraça como espaço para a graça: Terra do Egito para a Terra Prometida // Babilônia para Jerusalém = transformação da desgraça em espaço para a graça de Deus. Como este movimento pode ser vislumbrado nos tempos atuais?

  

3º DOMINGO DA QUARESMA 2021

ALIANÇA MOSAICA – ALIANÇA BATISMAL
Pe. Gilvan Leite de Araujo

Ex 20,1-17

O 3º Domingo da Quaresma continua desenvolvendo o tema da Aliança e da Tipologia Batismal. Assim, tendo refletido a Aliança com Noé (1º domingo) e a Aliança com Abraão (2º Domingo), o 3º Domingo desenvolve a teologia da Aliança “maior”, que é a Aliança com Moisés. Esta Aliança se destaca das demais pelo fato de ser estabelecida através de um contrato entre parte (Deus//Israel).

Portanto, com Moisés, Deus estabelece uma Aliança (Ex 19) e a sanciona através do contrato entre as partes (Ex 24). Sendo firmada através de contrato, tal Aliança implica em direitos, deveres e sanções. Pelo contrato (=Lei) Israel se torna um povo particular. As partes se obrigam em oferecer algo que “abone” a Aliança sancionada pela Lei, neste sentido, Deus oferece a Terra Prometida e Israel a si próprio. Trata-se de direito condicionada. A não observância das cláusulas da Lei implica na perda do direito, ou seja, caso Deus quebre uma das cláusulas ele perde o direito de “posse” de Israel. Caso Israel quebre uma das cláusulas, ele perde o direito de posse da Terra Prometida (=exílio da Babilônia [cf. Livro das Lamentações; Jeremias e Is 1-39; 1 e 2Reis]).

A 1ª Leitura apresenta justamente a segunda parte, ou seja, as cláusulas contratuais da Lei de Israel, habitualmente designadas como Decálogo, ou “Dez Palavras”.

Na construção do Decálogo, as quatro primeiras normas são de direito divino, ou seja, dizem diretamente à Deus, enquanto as outras seis se referem a questões humanas.

Curiosamente as narrativas dos Evangelhos sobre os Dez Mandamentos tendem a fazer uma separação entre as normas divinas e as normas humanas. Neste sentido, Jesus evoca como regra para alcançar o céu a segunda parte do Decálogo: “Não matarás, não adulterarás, não roubarás, não levantarás falso testemunho; honra pai e mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 19,18-19; cf. Mc 10,19; Lc 18,18).

Mas, por outro lado, quando se trata da Lei Régia (Tg 2,8) a questão muda: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Ele respondeu: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o maior e primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22,34-40; cf. Mc 12,28-34; Lc 25-28). Aqui se vai ao cerne de toda Lei, no qual implica o “direito” divino e o “direito” humano, um evoca o outro.

Na liturgia deste 3º Domingo da Quaresma o foco recai sobre o estabelecer a Aliança através de um compromisso formal (=Lei).

Na perspectiva batismal o neófito, ao ser batizado, ele estabelece uma Aliança e, ao renunciar o mal/diabo, ele professa a fé na Trindade, tal profissão de fé implica num compromisso formal, que deverá ser observado pelo batizado. Ele é batizado em nome da Trindade e vinculado, no caso, dentro da Igreja Católica. Fica estabelecido um compromisso.
1Cor 1,22-25

O problema central da 1Coríntios é de ordem pastoral. Diversos fatores práticos estão criando discórdias e divisões dentro da própria comunidade de Corinto (cf. 1,10-11). A primeira é justamente sobre a pessoa de Paulo, o qual a comunidade o acusa de ser fingido, sem palavra, mentiroso e ladrão (1 e 2Coríntios). Um dos pontos de discórdias é entre as preferências pessoais. Alguns preferem as pregações de Paulo e outros de Apolo (1Cor 1,12ss). De fato, Apolo é descrito como eloquente pregador (cf. At 18,24-26), enquanto Paulo é descrito como péssimo pregador (cf. 1Cor 10,9-10; 11,6). Discutindo a questão, Paulo descreve Apolo como “apollô” (=destruidor: 1Cor 1,19-20 [não claramente visível em língua portuguesa]) caso o foco da comunidade não seja o centro, ou seja, a pessoa de Jesus Cristo. Portanto, se para os coríntios a força do Evangelho reside em poder de eloquência pessoal, Apolo para eles é uma destruição. Disto provêm a indagação de Paulo “onde está o sábio? Onde está o homem culto?” (1Cor 1,20). Mas onde está a loucura da pregação por parte de Deus (1Cor 1,21)? Paulo irá demonstrar que a fé cristã reside primariamente na centralidade da pessoa de Jesus Cristo, ponto de partida e de chegada, eixo central da vida cristã.
Jo 2,13-25

O tema central do Evangelho é a pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus, que estabelece, a partir do evento da paixão, morte e ressurreição, o “Santuário/Templo” de Deus entre os homens. Leva-se em consideração que o Santuário/Templo é o local da sua presença entre os homens, seja, durante a caminhada do deserto (=Santuário) ou estabelecida em Jerusalém, Garizim, Leontópolis e Elefantina (=Templo).

Os quatros templos judeus funcionavam como lugar da presença divina. Alguns, equivocamente, afirmam que Jesus era contra o Templo, esta afirmação é absolutamente falsa.

Jesus é contrário aqueles que trabalhavam no Templo e, nesta narrativa, os condena, quando sacrificam o povo (cf. Jo 10) e não os animais, através de um sistema exploratório, onde a gratuidade divina era taxada: “Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (Jo 2,16), evocando a profecia de Zacarias quando afirma: “Não haverá mais vendedor na casa de Iahweh dos Exércitos, naquele dia” (Zc 14,21).

No conjunto da liturgia, a comunidade de batizado se reúne, a partir de agora, não mais no Templo físico de Jerusalém, mas na pessoa de Jesus Cristo. Aqui abre a dimensão eucarística da vida batismal. Deste modo, A “Igreja” é primariamente a comunidade cristã que se reúne no espaço sagrado. Lógico que se estabelece uma correlação entre o batizado, enquanto morada de Deus, e a comunidade de batizados que se reúne “na casa de Deus”.
Pelo batismo, o cristão é incorporado na Igreja que tem como eixo central a Trindade, dentro de uma dinâmica cristocentrica. O cristão passa a ter um “compromisso” com Cristo, na sua Igreja, em vista da salvação eterna (=Terra Prometida) o que implica na sua dimensão evangelizadora (=sal e luz da terra), abrindo a possibilidade desta salvação a todos os homens e mulheres. Neste sentido, a vida eclesial pressupõe algumas características:

a)  vida orante (liturgia)

b)  vida diaconal (servir a humanidade)

c)   vida evangelizadora (anunciar o ressuscitado a todos os povos).

Tudo isto norteado pelos critérios das virtudes teologais (fé, esperança e caridade). Portanto, estando na “graça” o cristão é Templo de Deus entre os homens e, como “santos”, se reúnem na Casa de Deus.

 

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