REFLEXÕES LITÚRGICAS de Pe Gilvan

REFLEXÕES de Pe. Gilvan  Leite  de  Araujo

 

3º Domingo do TC – Dia Palavra de Deus

 

Em setembro de 2019 Papa Francisco publicou a Carta Apostólica “Aperuit Illis”, no qual instituía o 3º Domingo do TC como Domingo da Palavra de Deus. A escolha não ocorre ao acaso. Liturgicamente o 3º DTC abre o ciclo sinótico da leitura do Evangelho do Ano. Neste sentido esta liturgia, em particular, não pode ser alterada, como por exemplo, substituição pela festividade de Conversão de São Paulo, que tende a cair sempre próximo deste domingo.

O contexto do 3º DTC é o início da missão de Jesus na Galileia, que terá o seu ápice no 34º DTC no qual a Igreja celebra a conclusão do Ano Litúrgico. Levando-se em conta que o 34º DTC não possui o foco sobre a Solenidade de Cristo Rei, mas sobre a conclusão da catequese do Evangelho, teologicamente, a partir de 1925 o Papa Pio XI transfere a Solenidade para o último domingo do Tempo Comum (Encíclica Quas Primas), definindo que o início da missão na Galileia (3º DTC) possui o ápice na revelação de Jesus Rei do Universo (34º DTC).

O ano de 2021 é dedicado à meditação do Evangelho de Marcos (Ano B). Portanto, o 3º DTC apresenta Jesus, na Galileia, a partir da perspectiva marcana.

Liturgia[1]

1ª Leitura: Jn 3,1-5.10

A profecia de Jonas é particular entre os livros proféticos, pois ele não é dirigido à Israel e/ou Judá, mas, somente a uma nação pagã. Nos livros proféticos oráculos também são proferidos aos pagãos, mas o foco é sempre Israel e/ou Judá.

Jonas é enviado por Deus à capital da Assíria, Nínive, designada, no livro, como “A Grande Cidade”. A proposta divina é audaciosa. Um exemplo: seria como pedir para alguém de nossas comunidades ir até Nova Iorque evangelizar os americanos = cultura diferente; língua diferente, religião diferente…

O desafio poderia até ser aceito, caso não houvesse um entrave = os profetas anteriores a Jonas buscaram anunciar os oráculos divinos à Israel e à Judá, originalmente povo fiel à Iahweh e, portanto, à Lei. Mas todos eles fracassaram e muitos foram mortos, pois Israel e Judá nunca escutaram os profetas. Portanto, se Israel e Judá, que professam a fé em Iahweh, nunca acolheram a Palavra de Deus, os pagãos de Nínive escutarão? Esta é crise de Jonas. Ele acaba acolhendo a proposta de Deus, mas concebe a missão como um fracasso antecipado.

Leva-se em conta que a tentativa de fugir da missão o leva para o processo de descida: 1) desce para o mar; 2) desce para o fundo do barco; 3) desce para o fundo do mar para barriga do peixe. A partir do momento que ele aceita a missão, começa o processo de subida: 1) subida para a praia; 2) subida para Nínive; e, 3) subida para a colina. Este percurso permite elaborar um processo espiritual sobre a vocação cristã, quando nos aproximamos ou nos afastamos da missão que o Senhor, através da sua Igreja, nos chama.

Na narrativa de hoje, apresenta os ninivitas que acolhem a palavra e se convertem. O que era impossível para Jonas, se torna possível: num caminho de três dias, no primeiro a missão já estava concluída.

Sl 24(25),4ab.5ab.6-7bc.8-9

O tema central do Salmo 24 é o “caminho”, que pode ser entendido a partir de duas perspectivas: 1) caminho do Êxodo: nesta perspectiva, existe um processo de libertação guiada pela mão forte de Deus, rumo à Terra Prometida; 2) Lei: nesta perspectiva, existe a compreensão que a Lei dada por Deus é o caminho (Sl 1 e Sl 119). Portanto, conhecer e por em prática a Lei é seguir o caminho. Esta última perspectiva será a base para a compreensão da autoafirmação de Jesus “Eu Sou o Caminho a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Contudo, o Sl 24 acentua que o caminho está em relação com tema da Misericórdia. Portanto, a compreensão e prática da Lei para pelo clivo da Misericórdia, que se torna o referencial primário. Assim, a Lei divina é dada para a salvação, não para a condenação, cerceamento ou exclusão.

Evangelho: Mc 1,14-20

Cafarnaum

A antiga cidade de Cafarnaum (Këfar Nahum) ou Vila/Aldeia de Naim, está localizada na costa noroeste do Mar da Galileia a uns quinze quilômetros ao norte da cidade de Tiberíades.[2] Ela fazia fronteira estre as regiões de Filipe e de Herodes Antipas, configurando-a como cidade fronteiriça e possuidora de alfandega (cf. Mt 9,9). O status de maior centro do governo romano na Palestina, também é indicado pela presença de tropas romanas. Motivo pelo qual, tropas e oficiais romanos eram mantidos constantemente alocados nesta cidade (Mt 8,5; Lc 7,2). [3]

Cafarnaum era o maior centro populacional e comercial da costa noroeste do Mar da Galileia e uma das mais empreendedoras e promissoras cidades da indústria pesqueira. Além disso, ela abrigava a produção e manutenção de embarcações e redes para pesca.[4]

A cidade também possuía os mesmos privilégios agrícolas de Tiberíades. Somando a atividade agrícola com a atividade pesqueira, a cidade de Cafarnaum jogava importante papel na atividade comercial, favorecida principalmente pela sua posição geográfica, localizada na rota comercial internacional que situava a Palestina entre Egito, Síria e Mesopotâmia. Isto significava intenso movimento de caravanas circulando pela cidade. Este papel se reflete na história do chamado de Levi (Mt 9,9), o cobrador de impostos, que se tornou discípulo de Jesus.[5]

Tais características de Cafarnaum pode ter sido o motivo pelo qual Jesus a escolheu como centro de sua missão (cf. Mt 4,13; 9,1). A maior parte da atividade pública de Jesus nos Evangelho Sinóticos, ocorre na Galileia (cf. Mt 4,12; Mc 1,14; Lc 4,14). Os textos evangélicos deixam transparecer que Jesus se move de Nazaré, sua cidade natal, para Cafarnaum, a cidade Pedro, André, Tiago e João, os primeiros discípulos (cf. Mt 4,18-22) e a assume como sua moradia (cf. Mt 4,13; Mc 2,1), onde ensinava e curava na Sinagoga (Mc 1,21). Diversas outras atividades ali foram realizadas, como a cura da sogra de Pedro e diversas outras pessoas (Mc 1,29-31.32-34; 2,1-12), além da cura do filho do funcionário real (Jo 4,46).

Cafarnaum, apesar de ter sido palco de muitas das atividades de Jesus não produziu frutos significativos, motivo pelo qual Jesus a condena emitindo o seu juízo, segundo o qual o seu julgamento será rigoroso e ela será lançada ao inferno por não ter acreditado nos milagres que nela se realizaram (Mt 11,23-24; Lc 13-15).

Galileia se configura, no Evangelho de Marcos, como lugar de início da missão de Jesus (1,14) e início da missão dos Apóstolos (14,28; 16,7.19). Leva-se em conta que Galileia se configura como polo econômico e político no qual se estabelece uma sociedade opulenta, de um lado, e marginalizada, por outro. Além disso, trata-se de uma sociedade pluricultura pluricultural. Neste sentido, a missão de Jesus e da Igreja, em Marcos, possui um contexto tipicamente urbano e pluricultural, parte do centro da cidade com toda a sua complexidade própria.

Mar da Galileia

A expressão “Mar da Galileia e de Tiberíades” é típica da tradição joanina, em referência ao Lago de Genesaré (Lc 5,1). O nome “Genesaré” é proveniente da homônima cidade. A tradição veterotestamentária identifica como “mar de Quineret” (Nm 34,11; 3,17; Js 12,3; 13,27). Mateus e Marcos preferem designá-lo como “Mar da Galileia” (Mt 4,18; 15,29; Mc 1,16; 7,31) ou simplesmente “mar” (Mt 8,26.32; Mc 4,39; 5,13). Lucas, no entanto, como escreve para um público fora da Palestina, prefere manter a expressão “lago” (Lc 5,1s; 8,22s.33), de fato, apesar de ser chamado de “mar” o Lago de Genesaré é uma grande reserva de água doce. A referência joanina de 25 ou 30 estádios indica exatamente o meio e o ponto mais profundo do lago da parte norte. Devido a sua posição geográfica, a região onde se encontra o lago de Genesaré, durante o verão, pode sofrer grandes variações climáticas o que implica em forte ventanias e, portanto, agitação das águas, formando ondas altas (Mt 8,24; Mc 4,37; Lc 8,23; Jo 6,18). O mais perigoso é, no entanto, o chamado, em árabe, vento sarkiye, um vento proveniente do oriente (Mt 14,22-24; Mc 6,45-48) que ocorre principalmente no período da Páscoa (março/abril: Mc 6,39; Jo 6,4).[6]

Marcos apresenta Jesus se dirigindo para a Galileia, após a prisão de João Batista. A narrativa aproxima duas ideias: 1) Início da missão pública de Jesus; 2) Chamado do Doze. Com o chamado dos Doze, efetivamente se descreve o surgimento da Igreja, é neste momento que ela começa a ser gerada. Portanto, quando Jesus começa a sua missão e, ao mesmo tempo, chama os Doze, ele vincula a sua missão à missão da Igreja. Este é um elemento fundamental, ao mesmo tempo de anula a ideia segundo o qual Jesus não teria criado a Igreja. Isto é falso. Portanto, a Igreja surge por vontade própria do Senhor e possui a missão de dar continuidade a sua missão.

Anúncio Central:

Relacionando os vv. 14-15 com o v. 1 se encontra o conteúdo a ser proclamado:

“…veio Jesus para a Galileia

proclamando o Evangelho de Deus:

Cumpriu-se o tempo

o Reino de Deus está próximo.

Arrependei-vos e

crede no Evangelho” (Mc 1,15)

+ “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (v. 1)

No contexto da narrativa de Marcos, o “Evangelho” (=Boa Nova) de Deus é o próprio Filho de Jesus. O anunciador é identificado com o anúncio. A Boa-Nova de Deus é o próprio Jesus, que será o objeto central do anúncio da Igreja Primitiva, conforme a narrativa do livro do Atos dos Apóstolos. Além do mais, a consequência do anúncio é a “salvação”: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura. Aquele que crer e for batizado será salvo” (Mc 16,15-16). Mas, o anúncio possui exigências específicas:

Pois aquele que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas, o que perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, irá salvá-la” (Mc 8,35)

Em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, filhos ou terras por minha causa ou por causa do Evangelho, que não receba cem vezes mais desde agora, neste tempo, casas, irmãos e irmãs, mãe e filhos e terras, com perseguições; e, no mundo futuro, a vida eterna” (Mc 10,29-30)

Portando, existe um critério aceitação (=crer) e exigência de renúncia. Além disso, a proposta central da narrativa de hoje é o aspecto missionário, este é o elemento basilar assumida, em primeiro lugar, por Jesus, e, na sequência, pela Igreja. O anúncio do Evangelho é um ato próprio do seguimento. A luz de Mc 1,1 e 14,9 é compreendido como memória da “vinda”, proclamação, ações, sofrimentos e ressurreição de Jesus Cristo. Em Mc 13,10, Jesus acentua a dimensão missionária universal do Evangelho, reforçando o apelo após a ressurreição (Mc 16,15).

O conceito Evangelho, em Marcos, assume algumas características próprias:

1) Anúncio da vinda de Deus para a salvação e para o juízo, via pregação de Jesus (1,15; 14,9);

2) Anúncio missionário da Igreja que proclama Jesus (Mc 8,35; 10,29; 13,10)

3) A expressão “Evangelho de Deus” define uma pregação monoteísta centrada na palavra de Jesus (1,1.14).

O Reino de Deus é aproximado, em Marcos, de Jesus Cristo, enquanto promotor da vontade do Pai. O Reino se torna presente enquanto o Filho o torna possível:

Em verdade vos digo que estão aqui presentes alguns que não provarão a morte até que vejam o Reino de Deus chegando com poder” (9,1)

Seguido, imediatamente, pela transfiguração de Jesus, que evoca o tema a ressurreição e os temas escatológicos da manifestação e do juízo (Mc 9,2ss). Portanto existe um mistério (4,11) que se torna manifesto a partir e por meio de Jesus Cristo, no qual se compreende o “cumprimento do tempo”, a “chegada do Reino” e a “Boa-Nova” de Deus.

2ª Leitura: 1Cor 7,29-31

Paulo, na 2ª Leitura, evoca a brevidade do tempo. Tendo o “mistério” entrado no tempo e na história, tudo assume um novo valor, ou seja, a história de humanidade passa pela pessoa de Jesus Cristo, que configura princípio e ápice da história humana. A relativação paulina não evoca uma passividade humana, mas a uma percepção que existe algo que ultrapassa o “corriqueiro” humano.

Na liturgia de hoje, o início da leitura de Marcos, propõe a dimensão missionária e universal da Igreja a partir do seguimento de Jesus Cristo (objeto da missão e modelo para o missionário). A 1ª Leitura evoca a dificuldade que a missão pode impor, mas não se trata apenas de um ato humano, pois é o Espírito que conduz a Igreja. Portanto, pede-se ao missionário apenas fidelidade e despojamento, pois o mistério do Reino está atuando no tempo e na história.

Pe. Gilvan Leite de Araujo



[1] Por questão de ordem pedagógica a 2ª Leitura é sempre apresentada após o Evangelho. Proposta: 1ª Leitura = apresenta uma temática; Evangelho = Como Jesus enfrenta a questão; e, 2ª Leitura = como a comunidade assimila e põe em prática a proposta de Jesus.

[2] Mattila S.L. Capernaum, Village of Nahum, from Hellenistic to Byzantine Times

[3] Van Den Born A. Cafarnaum. Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Petrópolis 1971. p. 221.

[4] DeVries L.F. Cities of the Biblical World. p. 269.

[5] DeVries L.F. Cities of the Biblical World. p. 269.

[6] Estas informações serão retomadas posteriormente durante a análise das narrativas do Evangelho.

2° Domingo do Tempo Comum, Ano B 2021

Teofania

As três primeiras semanas do Tempo Comum seguem o esquema: Batismo do Senhor (1ª Semana), Manifestação do Senhor (2ª Semana) e Início da Missão na Galileia (3ª Semana). Portanto, o tema central desta semana é justamente a Manifestação do Senhor.

A liturgia prevê para o Ano B (=Marcos) as leituras de 1Samuel, 1Coríntios e Evangelho de João.

1ª Leitura: 1Sm 3,3b-10.19

A 1ª Leitura narra a vocação de Samuel. Ele é descrito como uma promessa feita aos pais (Ana e Elcana: 1Sm 1) e desta promessa Ana decide que Samuel será entregue ao Senhor e viverá no santuário de Silo, aos cuidados de Eli, a partir da apresentação da criança. Vivendo junto ao Santuário de Silo, no qual se encontrava a Arca da Aliança, é que virá o chamado descrito na narrativa de hoje.

A figura de Samuel é de primordial importância na transição da Liga Tribal para a Monarquia de Israel. Durante o período da Liga Tribal, Israel sofrerá várias incursões por parte dos Filisteus. Dentre estes ataques, Israel será devastada e a Arca roubada e levada para a Filisteia. Este fato será marcante para os israelitas por dois motivos: 1) profunda crise socioeconômica; 2) crise religiosa. No primeiro caso, as Doze Tribos sofrem as consequências dos saques, levando-os a um período de desordem política, fome e profunda miséria. No segundo caso, a incompreensão: como Deus pode ter permitido que até a sua Arca, sinal da sua presença, fosse levada para o estrangeiro? Portanto, se Deus existe de fato, Ele não se importa conosco. A vocação de Samuel é a resposta divina para a superação destas duas crises. No primeiro caso, ele começa a transição entre o sistema de Liga Tribal para a Monarquia e, no segundo caso, ele resgata os princípios elementares da fé israelita enucleada na tradição de Silo.

A título de observação, será de ajuda para o processo de resgate da Fé em Iahweh, um movimento que surge neste período, designado como Profetas Extáticos (cf. 1Sm 10,5). Além disso, a vocação de Samuel se coloca em linha com Profetismo de Israel. Leva-se em conta, ainda, que Paulo, mesmo sendo designado com “Apóstolo dos Gentios”, também é configurado como profeta segundo o modelo de Jeremias (cf. Gl 1).

Sl 39(40)

O Sl 39 resgata a ideia de resposta positiva ao chamado de Iahweh, no qual o vocacionado se coloca livremente para fazer a sua vontade.

Evangelho (Jo 1,35-42)

A narrativa tem início com o envio de dois discípulos de João Batista até Jesus, apresentado como o “Cordeiro de Jesus”. Um dos discípulos é André, irmão de Pedro. Ele é que chama o irmão e o apresenta a Jesus. Percebe-se que diferente dos Sinóticos, no qual é Jesus que chama, no Quarto Evangelho aquele que é chamado passa a chamar outros para o seguimento, no caso de André, que é enviado por João Batista e após a experiência com Jesus, chama Pedro, apresentando-o a Jesus. Portanto, existe uma dimensão de seguimento e uma dimensão missionária.

João Batista é filho de Zacarias e, portanto, é, também, sacerdote. Enquanto tal, vê em Jesus o Sacrifício Perfeito a ser oferto pelo Templo de Jerusalém, neste sentido se deve compreender a expressão “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29.36). Leva-se em conta que João Batista é um que faz a experiência pessoal e progressiva de Jesus Cristo (cf. Jo 1,31-34) até se tornar a “Testemunha”. E tendo se tornado testemunha passa a anunciá-lo.

Os dois discípulos também fazem uma experiência pessoal com Jesus. A tradução para a Língua Portuguesa não deixa muito claro isto. A palavra utilizada em português pelos discípulos é “morar”, porém, o grego usa “permanecer”. Neste sentido, os discípulos pedem para permanecer com Jesus, vinculando-os ao capítulo 15, no qual “os amigos” de Jesus são aqueles que “permanecem com ele” como os ramos permanecem ligados a videira e dão frutos.

Tendo os discípulos feito a experiência pessoal de Jesus Cristo, imediatamente passam a anunciá-lo, e um dos primeiros que recebem a mensagem é Pedro, logo conduzido diante de Jesus.

Daqueles que iniciam a experiência de Jesus, Pedro é chamado diretamente e configurado na missão através dos “nomes” Cefas e Pedra/Pedro (Jo 1,42). O primeiro nome é aramaico e o segundo é grego. Cefas significa “gruta”, neste sentido, Cefas indica lugar de proteção, de morada, de acolhida. Pedra/Pedro possui significado habitual de rocha, base de sustentação. Os dois nomes aplicados por Jesus à Pedro indicam que a Igreja está “firmada” e que, na Igreja, a humanidade encontra o seu abrigo, o seu lar, a sua proteção. Os dois nomes fornecem elementos preciosos para a compreensão da figura do Papa na Igreja e sua relevância para a humanidade.

No Evangelho de hoje, percebe-se que o seguimento de Jesus, no Quarto Evangelho, parte de uma experiência particular. Tendo feito a experiência de Jesus Cristo, o discípulo passa a ser o seu anunciador, como uma “testemunha” daquilo que viu e ouviu do Senhor.

2ª Leitura: 1Cor 6,13c-15a.17-20

Na segunda Leitura, Paulo afronta a questão de uma sociedade pluricultural e famosa pela sua promiscuidade. O cidadão de Corinto era famoso pela vida desregrada. Neste sentido, como viver as virtudes cristãs em meio a uma sociedade sem regras? Paulo propõe o cristão como modelo para a sociedade.

Paulo passa a descrever o corpo humano como morada do Espírito Santo, portanto, é um lugar sagrado. Sendo sagrado possui direitos próprios a serem observados. Paulo, em 1Coríntios, passa a descrever a dignidade do corpo, a dignidade conjugal, fala de castidade para os solteiros, fidelidades para os casados. Fala de ética familiar, exalta a dignidade da mulher. Finalmente, Paulo usará a imagem do corpo para descrever a própria Igreja, descrita como “Corpo de Cristo”.

A leitura da primeira e da segunda de Paulo aos Coríntios é uma boa oportunidade para compreender o cristão numa sociedade plural, principalmente na qual vivemos hoje, onde todos reivindicam seus direitos, minorias se sobrepõem violentamente sobre os demais e onde os direitos legítimos são ignorados.

Considerações

Na liturgia de hoje, Jesus surge como modelo. Aqueles que se aproximam dele fazem uma experiência pessoal que os leva a se tornarem testemunhas.

Aproximando a 1ª e 2ª Leitura teremos, no primeiro caso, Samuel numa sociedade em crise tanto socioeconômica como religiosa. Ele terá que responder a estas questões como um vocacionado. No segundo caso, temos Paulo que deve constituir uma comunidade cristã em meio a uma sociedade pluricultural e promiscua. Nos dois casos temos “um homem de Deus” que faz sua experiência pessoal (chamado de Samuel e chamado de Paulo) e deve assumir um compromisso social. Na Carta aos Hebreus se diz que Jesus ao entrar no mundo não veio se preocupar com anjos (Hb 2,16) mas com a descendência de Abraão. Portanto, a missão diz respeito a pessoa humana concreta, o que implica no seu compromisso socioeconômico, político e religioso.

No centro da liturgia se encontra a pessoa de Jesus manifestada ao mundo, no caso do Ano B, como o “Cordeiro de Deus” ao qual somos chamados a “permanecer com ele” como os ramos permanecem ligados a videira, condição para que se produza frutos para o mundo (cf. Jo 15) e compromisso de fazer coisas maiores do que o mestre (cf. Jo 14,12). Foco permanece no dado experiencial, ou seja, tanto Samuel, como Paulo, como os discípulos fazem uma experiência pessoal com Deus/Jesus em suas vidas e se tornam anunciadores/testemunhas enquanto pessoas que entraram na intimidade divina.

Pe. Gilvan Leite de Araujo

 

** PASCOA-ou-PASCOAS-JUDAICAS-Gilvan em PDF

** ESSE NÃO mas BARRABAS-Gilvan Leite de Araujo - em PDF

** A festa da DEDICAÇÃO em Jerusalém – Gilvan Leite de Araujo - em PDF

** PASCOA-ou-PASCOAS-JUDAICAS-Gilvan Leite de Araujo em PDF

** MARIA MADALENA – Gilvan Leite de Araujo - em PDF

** A MULHER ADÚLTERA NO EVANGELHO DE JOÃO-Gilvan Leite de Araujo - em PDF

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1º Domingo do Tempo Comum, Ano B, 2021

 

As três primeiras semanas do Tempo Comum (Ano A, B e C) possuem o seguinte esquema:

1ª Semana: Batismo do Senhor

2ª Semana: Teofania

3ª Semana: Início da pregação de Jesus na Galileia e o início do chamado dos 12 apóstolos. A 3ª Semana marca, também, o início da leitura Sinótica do Evangelho do ano.

Liturgia:

1ª Leitura: Is 42,1-4.6-7

Sl 28(29),1a.2.3ac-4.3b.9b-10

2ª Leitura: At 10,34-38

Evangelho: Mc 1,7-11

Comentário:

A 1ª Leitura é proveniente do chamado Segundo-Isaías (Is 40-55). O Segundo-Isaías, por causa do primeiro versículo (Is 40,1), é sempre denominado Livro da Consolação. Portanto, apresenta uma mensagem de esperança para os exilados na Babilônia. Neste contexto de consolação surge os Quatro Cantos do Servo-Sofredor (42,1-4; 49,1-6; 50,4-9;52,13-53,12). Os Quatro Cantos não são referências messiânicas. Leva-se em conta, ainda, que nenhum oráculo messiânico do AT menciona o sofrimento do Messias. Assim, as palavra de Jesus em Lc 24, segundo o qual o Messias deveria sofrer (Lc 24,26) não se refere a um oráculo messiânico, mas a sorte do Messias, ou seja, assim como os profetas, ao serem fiéis à Deus foram perseguidos, o mesmo ocorrerá com o Messias por sua fidelidade.

1ª Leitura

A 1ª Leitura possui parte da narrativa do primeiro canto do Servo-Sofredor. No conjunto, a Leitura apresenta qualidades messiânicas do tipo profético, no qual se destacam:

a) Servo-Eleito

b) Espírito-Juízo

c)Firmeza-Justiça

Tais qualidades aplicadas a Jesus, o configura como o Juiz-Justo Universal, que agirá em favor dos pequenos (=aqueles os quais a justiça foi negada).

Salmo

O Sl 28(29) exalta a soberania e a onipotência de Deus que se recorda dos seus, motivo pelo qual, é exaltado por seus feitos.

Evangelho

A narrativa marcana é parte do “Prólogo de Marcos” (Mc 1,1-15), o qual relaciona as figuras de Jesus e João Batista. Na realidade o Prólogo de Marcos possui similaridades com o “Prólogo de João” (Jo 1,1-18)[1] ao entrelaçar as figuras de Jesus de João Batista.

O Prólogo de Marcos tem início com a expressão “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (1,1) e termina afirmando: “veio Jesus para a Galileia proclamando o Evangelho de Deus” (1,14) e “Arrependei-vos e crede no Evangelho” (1,15). Portanto, a “Boa Nova” de Deus (1,14) é o próprio Jesus Cristo, Filho de Deus (1,1).

No Prólogo de Marcos, Jesus é diretamente apresentado como o Cristo, enquanto João como o Batista e cada um possui lugar e espaço próprio na narrativa. João Batista é apresentado como “surgindo” no deserto e “proclamando” um batismo de arrependimento dos pecados (v. 4) evocando Is 40,1-2 que anuncia a consolação de Judá e a expiação dos seus pecados. Jesus vem de Nazaré para se fazer batizar por João e, posteriormente, passa a “proclamar” o Evangelho de Deus (v. 14), cujo conteúdo é o Reino de Deus, o qual exige arrependimento e fé no Evangelho (v. 15). A voz de Deus, também, é descrita como “surgindo” do céu, anunciando ser Jesus o “Filho Amado” (v.11). A fala de Deus tem proximidade com Sl 2,7, mas possui outro contexto, pois no Salmo é anuncia que o “filho” foi gerado naquele dia. A narrativa de Marcos tem o cuidado de evitar este problema, caso contrário, serviria de base para o movimento de Basílides (séc. II d.C.), o qual afirmava que a divindade tomou conta do corpo de Jesus após o batismo e daria margem para a ideia de “metempsicose” (transmigração da alma, no caso de corpo impuro para um corpo puro, na linha da reencarnação).

Curiosamente, Jesus se dirige ao deserto onde se encontra João Batista (Ml 3,1.23s + Ex 23,20; Mc 9,11-13) e, após o batismo, ele é “empurrado” para o deserto para ser tentado. A narrativa descreve, portanto, dois desertos, um do batismo e outro da tentação. O primeiro possui dois significados: a) evoca o lugar de onde o Profeta Elias partiu para o céu, neste sentido, a expressão “surgiu” aplicado a João o aproxima a ideia de Elias retornado; b) com o tema do Jordão, evoca a entrada na Terra prometida, após sua travessia. O segundo coloca Jesus, na força do Espírito, como um novo Moisés.

João Batista anuncia um batismo de água (passado) e proclama Jesus com um batismo no Espírito (futuro), esta singularidade temporal indica um movimento de vai do “batismo” (entrada na fé) e o “crisma” (adulto na fé). A descrição de sua pessoa indica, mesmo sendo sacerdote, era, também, um consagrado permanente como Sansão e Samuel (cf. Nm 6 + At 18,18).

A Narrativa

João Batista proclamava a vinda de “um poderoso” após ele o qual não era “digno/apto” de desatar a sandália (v. 7). Ele não está se proclamando humilde diante de Jesus, mas que não possui as prerrogativas messiânicas, ou seja, ele não pode tomar as sandálias de Jesus e se tornar o Messias (cf. Dt 25,5-10; Rt 4,7)[2].

No v. 8 João anuncia o seu batismo com água e Jesus batizando com o Espírito. O batismo de arrependimento no deserto realizado por João Batista implica em retorno às origens de Israel. De fato, após a saída do Egito, os hebreus atravessam o mar e são conduzidos ao Sinai e ao Deserto, rumo a Terra Prometida. Neste caso, o batismo de João é um retorno às origens de Israel, quando os hebreus se deixam libertar e guiar por Deus através de Moisés. Assim, se subtende Jesus se fazer batizar, ou seja, ele vincula a sua missão a missão do Pai levando-a a sua plenitude e cumprimento. A ideia fica clara na sequência, ou seja, a permanência de quarenta dias no deserto (vv. 12-13).

2ª Leitura

Na 2ª Leitura, Paulo descreve como Jesus, na força do Espírito, passou fazendo o bem e que tal missão assumiu um contexto universal (At 10,34). A missão de Jesus não se dirige exclusivamente ao Judeus, mas se estabelece uma qualidade, ou seja, os que “temem a Deus” e “praticam a justiça” se tornam pertença divina (v. 35). Jesus se torna modelo para todos ao “passar fazendo o bem” e “anunciando o Evangelho da Paz”. Portanto, Jesus se torna o modelo para toda a humanidade, independente de raça ou nação. Todos são chamados à vida nova em Cristo Jesus.

Algumas Indicações Pastorais

a) Pecado Original

Muitas pessoas tendem a se questionar o porquê uma criança que nasce “pura” teria a mancha do Pecado Original.

Na tradição de Israel não existe o conceito de Pecado Original. Ela surge a partir da teologia paulina e se desenvolverá posteriormente. Paulo apresenta o seguinte esquema (cf. Gn 3):

1) O diabo apresenta o objeto do pecado como um valor para o indivíduo. Anulando o conceito do outro ou do comunitário;

2) O indivíduo se deixar seduzir realizando a ação proposta;

3) Após o ato, o diabo passa a acusá-lo;

4) Diante da acusação o indivíduo transfere o erro para outro, buscando livrar-se de culpa.

Tal dinâmica gera a subordinação do indivíduo sendo quebrado pelo batismo (cf. Rm 5-6)

Esta dinâmica configura o conceito de Pecado Original. Segundo Paulo, Jesus, na cruz, se torna “corpo do pecado”, destruindo o pecado original assumindo a responsabilidade do pecado da humanidade e não se justificando, mas se mantendo em silêncio. Portanto, o silêncio da cruz se torna a derrota de Satanás, de onde provém a ideia de que o diabo foge da cruz.

b) “Rebatismo”

Entre as correntes neopentecostais se desenvolveu a prática de “rebatismo”. Na visão neopentecostal o “rebatismo” se trata de mudança de igreja, através do conceito de Frühkatholizismus, ou seja, que a catolicidade da Igreja seja a somatória de igrejas e não o seu ser. Qual o problema? Ninguém é batizado em nome de uma Igreja, mas em nome da Trindade. Para o batismo é necessário negar o mal e a Satanás e professar a Trindade. Portanto, existe um conceito de rejeitar “X” para acolher “Y”. Tendo o indivíduo rejeitado a Satanás e aceito a Trindade, o “rebatismo”, na prática, seria negar a Trindade para se “rebatizar” em nome de quem? Na realidade o “rebatismo” é uma negação pública da Trindade. O rebatismo, portanto, se configura como uma “apostasia” da fé.

c) Batismo de Crianças

Muito evangélicos afirmam que na Bíblia não existe batismo de criança. Esta informação é falsa. De fato, quando alguém era batizado, todos os de sua casa eram batizados, do maior ao menor. Portanto, a afirmação contrária de que apenas os adultos são batizados na Bíblia é falso.

Uma comparação: Na Bíblia é indicado que os Profetas, Jesus (cf. Lc 2,21) e os Apóstolos eram circuncidados segundo a fé dos pais. Além disso, é dito que Jesus, aos doze anos, ensinava no Templo os doutores da Lei (cf. Lc 2,41-50), em relação ao Bar mitzvah no qual a criança se torna adulta na fé, participando da vida da Sinagoga. No cristianismo acontece quase o mesmo: quando a criança nasce, dentro de uma família cristã, ela é batizada segundo a fé dos pais e, quando chega a adolescência, recebe o sacramento do crisma, que a torna membro ativa da comunidade. Uma família cristã que nega o batismo ao filho através da afirmação que deve esperar crescer, para optar pelo batismo, na realidade nega o efeito da graça e afirma o poder da carne, ou seja, a graça divina não opera nada segundo este conceito.

Além disso, o livro do Atos dos Apóstolos apresenta, ainda a relação entre batismo e Espírito Santo. Em alguns casos, a pessoa recebia o Espírito Santo antes do batismo (cf. At 10,44-48) e, em outros casos, após o batismo (Cf. At 19).



[1] Anderson Paul N. The John, Jesus, and History Project – New Glimpses of Jesus and a Bi-Optic Hypothesis. George Fox University 2010.

[2] Cf. Araujo, Gilvan Leite. João, A Testemunha, no Quarto Evangelho. Atualidade Teológica, v.22, n. 60. p. 547-565. 2018.

 

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13o Domingo do Tempo Comum Ano A

O capítulo 10 de Mateus apresenta o discurso missionário. Na liturgia, este capítulo é apresentado respectivamente na 11a, 12a e 13a semana do Tempo Comum. Portanto, estamos refletindo a terceira parte. Na primeira parte (Mt 10,1-8: 11o Domingo do TC) Jesus nomeia os 12 Apóstolos, estabelecendo vínculo entre a sua missão e a missão da Igreja após a sua ressurreição (cf. Mt 28,16-20). Na segunda parte (Mt 10,26-33: 12o Domingo do TC) Jesus alerta os discípulos para os desafios da missão e para as perseguições que enfrentaram, mas que estarão seguros nas mãos de Deus, portanto, não temer. O maior desafio se apresenta na liturgia de hoje (Mt 10,37-42: 13o Domingo do TC), ou seja, o seguimento exige opção radical, não existe meio termo. disto deriva a ideia de martírio, não como consequência (derramamento de sangue), mas como opção radical. Lógico que opção radical não significa, em hipótese alguma, fundamentalismo, mas plena entrega à missão por causa do Senhor. Tal radicalidade implica até laços de família, que exigirá difícil escolha. Mas a generosidade no optar pelo seguimento resultará na sua recompensa. Além disso, quem fizer a opção radical pelo seguimento se tornará “um homem de Deus”, motivo pelo qual, quem o receber, receberá o próprio Deus em sua casa (pôde-se ilustrar a narrativa Lucana, quando Isabel recebe Maria em sua casa). Está última parte é ilustrada pela 1a Leitura de hoje (2Rs 4,8-11.14-16a), quando um bondoso casal de Sunam recebe Eliseu em sua casa de forma bondosa e desprendida. Apenas o recebe por ser um “santo homem de Deus” e lhe oferece abrigo e proteção. No Quarto Evangelho, as narrativas dos irmãos Lázaro, Marta e Maria (Jo 11-12) possuem a mesma configuração. Os dois casos apresentam a bondade de receber despretensiosamente “um homem de Deus”, o que resultará num gesto de bondade por parte dos próprio Deus. A segunda leitura (Rm 6,3-4.8-11) descreve a essência do seguidor. Este vive a “radicalidade batismal”, no qual renuncia a tudo, para ser todo de Deus, que Paulo descreve em termos de rompimento com o Diabo e plena aceitação por Deus. Paulo, em Rm 6, apresenta um paralelismo antagônico entre a opção por Deus ou pelo Diabo, e tal opção implica em colocar o corpo/membros como instrumentos/armas para a graça ou para o pecado, cujo resultado será a vida eterna ou a morte eterna. Tal radicalidade de opção ilustra a narrativa do Evangelho, no qual aquele que deseja seguir o Cristo deverá fazer uma opção fundamental e tudo mais (família e bens) virá como acréscimo. Quem optar pelo /senhor se tornará “um santo homem de Deus” e quem o receber, como no caso do casal de Sunam, cuja riqueza era fruto de justiça colocado a serviço dos outros (façamos um quarto), receberá o próprio Deus em sua casa, junto com suas bençãos: “no próximo ano terás um filho nos braços”. (P. Gilvan) Louvado seja NSr Jesus Cristo.

 

Solenidade de Pentecostes

Evangelho: Jo 20,19-23
Primeira Leitura: At 2,1-11
Segunda Leitura: 1Cor 12,3b-7. 12-13
Salmo: 104,1ab+24ac. 29bc-30. 31+34 (R. 30)

Sobre a solenidade de hoje vamos fazer sete reflexões:
1. Por quem foi enviado?
2. Quantos modos?
3. Quando foi enviado?
4. Quantas vezes foi enviado?
5. Sobre quem foi enviado?
6. Por que foi enviado?
7. Por qual meio foi enviado?

Primeira meditação.

Sobre por quem foi enviado? O Evangelho de João nos diz, que foi enviado pelo Pai: “O Paracleto, que é o Espírito Santo, será mandato pelo Pai em meu Nome” (Jo 14). Também por Jesus: “Eu o enviarei a vocês” (Jo 16).

O enviado recebe três coisas:

  • sua condição (tal como um raio enviado pelo sol);
  • sua força (tal como a flexão disparada pelo arqueiro);
  • e sua autoridade (tal como o mensageiro enviado pelo seu superior).

O Espírito é enviado, assim, pelo Pai e pelo Filho, nos quais residem a condição, a força e a autoridade. Contudo, o próprio Espírito Santo também se deu e se enviou, como afirma Jo 16 dizendo: “Quando o Espírito da verdade tiver vindo”.

Além do mais, visto que o Espírito Santo é Deus, pode-se dizer que ele se dá a si mesmo. A este sentido Sto. Ambrósio diz: “A glória de sua divindade é manifestamente provada por quatro meios: sabe-se que ele é Deus, ou por não ter pecado, ou porque perdoa o pecado, ou porque não é uma criatura, mas sim Criador, ou, enfim, porque não adora, mas é adorado”.

Santo Agostinho diz que Deus nos deu tudo o que tem: deu seu Filho, como preço de nossa redenção, o Espírito Santo como privilégio de nossa adoção e reservou a si mesmo, por inteiro, como herança da nossa adoção.

O Filho também nos deu tudo o que possuía, conforme diz São Bernardo: “Ele é pastor, pasto e redenção. Ele nos deu sua alma como resgate, seu sangue como bebida, sua carne como alimento e sua divindade como recompensa. Da mesma forma, o Espírito Santo gratificou-nos com todos os dons e nos dá a si mesmo como Dom inefável.

Segunda meditação.

Sobre quanta maneiras o Espírito foi enviado. São Bernardo diz que ele se mostrou sob cinco formas: a) forma de pomba, como encontra-se no relato do batismo do Senhor (Lc 3); sob forma de uma nuvem luminosa, no momento da transfiguração (Mt 16); sob forma de um sopro: Jesus soprou e disse: recebei o Espírito Santo… (Jo 20); sob forma de fogo e sob a forma de língua (as duas últimas, como encontra-se em Atos 2).

O Espírito Santo enviado sob forma de pomba, evoca que esta geme em vez de cantar, ora o Espírito Santo ao penetrar em nossos corações, nos faz gemer diante dos nossos pecados como afirma Is 59: “suspiramos como pombas” e a Epístola aos Romanos, no qual o Apóstolo diz que o Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis (Rm 8). Como nuvem para nos refrescar e dar-nos água e como real presença de Deus. Além do mais, quando a água da chuva penetra o solo, faz germinar todas as plantas, o Espírito quando derrama seus dons sobre nós faz germinar coisas inefáveis de nossos corações.

Terceira Meditação.

Quanto ao momento o qual foi enviado. Sabemos que foi 50 dias após a Ressurreição do Senhor, para demonstrar que do Espírito Santo vem a perfeição da Lei, a recompensa eterna e a emissão dos pecados. Assim como a primeira Lei foi dada após 50 dias da saída do Egito, a nova Lei foi dada após o homem se tornar livre da morte e do pecado pela ressurreição de Jesus. Além do mais, está nova Lei é perfeita e eterna. A primeira Lei foi dada no monte Sinai e a segunda, no Monte Sião. A primeira Lei foi dada no pico da montanha, a segunda no cenáculo. A primeira Lei foi dada à Moisés, a segunda aos Apóstolos. A primeira Lei eram regras a serem observadas, a segunda Lei foi inscrita nos nossos corações por meio do Espírito Santo, por isso, é a Lei do amor.

Quarta Meditação.

Quantas vezes foi dada? Três vezes:

  • antes da paixão,
  • após a ressurreição e
  • depois da ascensão.
  •   A primeira vez, para permitir fazer milagres (Jo 19),
  •    a segunda vez, para remir os pecados (Jo 20) e
  •    a terceira vez para nos enviar em missão (At 2).

Quinta Meditação.

Sobre quem foi enviado? Trata-se dos discípulos que por qualidades eram ambientes puros e preparados para receber o Espírito Santo.

  • Primeira qualidade: tinham paz de espírito. Profeta Isaías diz: “sobre quem repousará meu espírito. Sobre os humildes e pacíficos” (Is 32,15-18; 57,15).
  • Segunda qualidade: eram unidos nos laços do amor.
  • Terceira Qualidade: estavam em lugar a parte, reservado, como diz profeta Oseias: “eu o conduzirei na solidão e lhe falarei ao coração” (Os 2).
  • Quarta qualidade. Eram assíduos a oração. Para receber o Espírito Santo é necessário estar em oração, como diz o livro da Sabedoria: Invoquei e o espírito da sabedoria veio sobre mim” (Sb 7) e Jesus: “Pedirei ao meu Pai que vos envie outro Paracleto” (Jo 14).
  • Quinta qualidade. Eram dotados de humildade: “meu espírito repousará sobre os humildes”.
  • Sexta qualidade. Estavam em paz. Quando Jesus ressuscita, saúda os apóstolos dizendo: “a paz esteja convosco e em seguida soprou sobre dizendo: recebei o Espírito Santo” (Jo 20).
  • Sétima qualidade. Eram elevados em contemplação pelo fato de terem recebidos o Espírito Santo.

Sexta Meditação.

Por que foi enviado? Sobre isto existem seis causas:

  1.  Foi enviado para consolar;
  2.  Para ressuscitar dos mortos;
  3.  Para santificar;
  4.  Para consolidar no amor;
  5.  Para salvar os justos;
  6.  Para instruir os corações.

Sétima meditação.

Por qual meio foi enviado? Por três meios:

  1. Por meio da oração;
  2. Por meio da escuta da palavra do Senhor;
  3. Por meio da caridade. Os apóstolos eram unânimes na oração, na escuta da palavra e na caridade.

O Espírito Santo foi enviado como línguas de fogo, porque o fogo está sempre em movimento (assim quem está repleto do Espírito Santo está sempre em ação para fazer o bem); o fogo é o que menos pertence à matéria e está sempre mudando de forma; o fogo abate o que eleva, tende a se elevar, reúne e congrega fluidos. O fogo manifesta assim a força do amor, como diz Dionísio: ele tem uma força inclinadora, uma elevadora é uma coordenadora. A inclinadora traz as coisas superiores ao plano inferior; a elevadora eleva as coisas inferiores às superiores, a coordenadora coloca no mesmo plano as coisas semelhantes.

Louvado seja N.Sr. Jesus Cristo!

 

Solenidade da Ascensão do Senhor

24/05/2020

Evangelho: Mt 28,16-20
Primeira Leitura: At 1,1-11
Sl 47,2-3.6-7.8-9 (R.6)
Segunda Leitura: Ef 1,17-23

A Solenidade da Ascensão do Senhor, desde o princípio da Igreja celebrada como a “Quadragésima”, entra para o calendário litúrgico por volta do séc. IV d.C. A ideia da Solenidade da Quadragésima está vinculada à 1a Leitura de hoje: “foi a eles que Jesus se mostrou vivo, depois da sua paixão… durante quarenta dias…” (At 1,3). A Quadragésima criava o vínculo com a “Quinquagésima” (= Pentecostes) na qual a Igreja celebra a Descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos. A partir deste contexto se deve levar em consideração que a liturgia cristã estabelece uma ponte entre Domingo de Páscoa e Domingo de Pentecostes (=início e conclusão do tempo Pascal). Contudo, no Evangelho de hoje, Jesus estabelece uma condição: é preciso que o Ressuscitado “ascenda” aos céus para que o Espírito “desça”. Este movimento fica marcado pela Ascensão de Jesus e Domingo de Pentecostes.

Liturgicamente a solenidade de hoje sempre foi acompanhada pelos Salmos 46 e 47 que proclamam a realeza divina e sua ascensão ao toque de trombetas.

A particularidade da solenidade é sobre o local da ascensão através das discrepâncias das narrativas: na narrativa lucana, a ascensão ocorre na cidade de Betânia, nas proximidades de Jerusalém (Lc 24,50), enquanto na narrativa mateana, a ascensão ocorre na região da Galileia.

Independente do local da ascensão, as narrativas são concordes sobre a missão de anuncio, seguido de batismo em nome da Trindade que se deve propagar sobre toda a terra. Tal missão será guiada pela assistência do Espírito Santo a ser enviado após a sua ascensão.

Outra ideia que acompanha a solenidade de hoje é sobre o retorno do Senhor e a manifestação da sua Glória, o qual fica reservado única e exclusivamente ao Pai o “tempo” e a “hora”. Deste modo a Igreja jamais pode se prender sobre especulações apocalípticas de fim de mundo, mas estar atenta ao tempo presente com sua problemáticas e seus desafios, além de evitar qualquer tipo de angelismo abstrato. De fato, a missão e a preocupação da Igreja (Carta aos Hebreus) é com a pessoa humana (At 1,10: “homens da Galiléia, por que ficais aqui parados…”).

Uma curiosidade: o estar sentado a direita do Pai (cf. Ef 1,20) provem da tradição da Babilônia e da Persia. O sistema de governo destes se dava através do chamado “Grande Conselho” no qual o “Grande Rei” presidia o conselho do demais reis. O estar sentado à direita indica igualdade de poder nas decisões e ações (cf. Ap 3,21; 4,2-4.10-11). Assim, a 2a Leitura de hoje descreve a majestade de Jesus à direita do Pai, ambos exercendo o domínio sobre todo o criado. Contudo, não se trata de poder de opressão, mas de cuidado.

No conjunto das leituras de hoje, a solenidade evoca a ideia de que Jesus é o “vencedor”, de onde provêm a ideia de Evangelho e Evangelizador, ou seja, anúncio de vitória. Tal vitória se estende sobre todos aqueles que abraçarem o Reino proposto por Deus, no qual Ele é o soberano Justo é Fiel. Além disso, o anúncio desta “esperança” (=vida eterna) será guiada pela Potência do Alto (= Espírito Santo).
O anúncio será da “Vitória” de Jesus e da Esperança para aqueles que abraçarem esta verdade.
Louvado seja N.Sr. Jesus Cristo!

Sexto  Domingo  da  Páscoa Ano  A

17/05/2020

1ª Leitura – At 8,5-8.14-17; 2ª Leitura – 1Pd 3,15-18; Evangelho – Jo 14,15-21

Neste domingo a Igreja se coloca em preparação da Ascensão de Jesus e da Descida do Espírito Santo, completando, assim, o Tempo Pascal.

A tônica da reflexão se encontra, ainda, na narrativa do Testamento de Jesus (Jo 13-17) e o acento recai sobre a Promessa do Espírito Santo, que virá como “Defensor” (=Paráclito). Algumas vezes descrito como consolador. Porém, não é uma tradução adequada para a perspectiva joanina. De fato, Jesus também é descrito como Paráclito (1Jo 2,1). Assim, tanto Jesus como o Espírito Santo assumem a função de “advogados de defesa” junto ao Pai, segundo as prerrogativas da Lei Judaica, enquanto o diabo assume a função de “advogado de acusação” (Cf. Ap 12,10). Em todo caso, Jesus e o Espírito Santo assumem a missão de defensores. Além disso, temos garantia, porque ambos são “verdade”, portanto a nossa causa está garantida por Jesus que é “Caminho, Verdade e Vida” (= Plenitude da Lei) e do Espírito que também é apresentado como verdade (= Plenitude da Lei).

Para entrar neste “mistério” a condição é a vivencia da “Lei Régia”, ou seja, “Amar à Deus e ao Próximo”,

Como fieis observadores da Lei Régia, estamos “prontos para dar razão da nossa esperança” (cf. 1Pd 3,15-18) porque o nosso testemunho se pauta pela retidão.
Mas qual é a razão da nossa esperança? A resposta é objetiva: “Cristo Ressuscitou e nós somos testemunhas… e se Ele Ressuscitou, também nós ressuscitaremos”. Este é o centro e a razão da nossa esperança.

Outra particularidade da liturgia de hoje é a descida do Espírito Santo, ou seja, algumas narrativas do Atos do Apóstolos apresentam o Espírito Santo que desce antes do batismo (cf. At 15) outras vezes após o batismo, como na narrativa da 1a Leitura de hoje (At 8). A partir disto podemos compreender a configuração de dois sacramentos da Igreja: do batismo e do crisma.

Em todo caso, a vivencia destes dois sacramentos permite ao mundo criar esperança, aonde ela não existe e contemplar a “grande alegria naquela cidade” (At 8,8)
Louvado seja N.S. Jesus Cristo!

Quinto  Domingo  da  Páscoa Ano  A

10/05/2020

I leitura: At 6,1-7; II leitura: 1Pd 2,4-9; Evangelho: Jo 14,1-12

A liturgia deste quinto domingo da Páscoa nos apresenta os primeiros desafios pastorais encontrados pelas comunidades cristãs como fruto da sua atividade missionária.

A 1a Leitura (At 6,1-7) apresenta a Igreja Primitiva diante de um novo desafio, de cunho pastoral, ou seja, o atendimento das viúvas de origens distintas (hebraica e grega). A solução, sempre segundo o Espírito Santo, foi designar um grupo particular para tal atendimento. Esta dinâmica já havíamos encontrado no caminho do deserto, quando Deus pede a Moisés que escolha um grupo que o ajude na tarefa de organizar o povo pelo deserto. Em todo caso, na narrativa do Atos se encontra a flexibilidade pastoral da Igreja que deve se adequar ao tempo e ao lugar.

Mas de onde está surgindo esta dificuldade? A resposta se encontra na 1Pedro (2,4-9) que é um dos elementos centrais da novidade cristã. Israel sempre se considerara Povo Eleito, através do princípio de genealogia. Enquanto os demais povos e nações eram os “gentios”, os não eleito. Pedro une três características: raça, nação e povo. Não existe mais a separação, todos, enquanto filhos, são acolhidos pela fé
A novidade cristã é que o pertencer ao “novo” Povo Eleito não se dá mais pelo princípio de genealogia, mas pela Fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, trata-se de uma adesão pessoal.

Novamente neste domingo outros traços cristológicos são apresentados, no caso dois:

  1. Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida;
  2. Eu e o Pai Somos UM.

No primeiro princípio cristológico, Jesus afirma que a Lei (Torá) que era princípio de unidade com Deus para o Povo da Antiga Aliança agora está na pessoa de Cristo (caminho, verdade, vida = Sl 1 e Sl 119), ou seja, Ele é a Plenitude da Lei. No segundo aspecto cristológico, Jesus expressa o Ser de Deus, ou seja, a unicidade trinitária (Deus é UM)

Finalmente a Fé em Cristo leva o discípulo para realizar obras maiores que o Mestre, ou seja, o discípulo deve superar o mestre na missão. Algo próprio do Evangelho de João ( enquanto Jesus recebe peixe pequeno, o discípulo pesca peixe grande e outros sinais).

Mas o desafio missionário é universal e a Igreja deve se adequar a este desafio com a ajuda do Espírito Santo.
Louvado seja N.S. Jesus Cristo.

Pe. Gilvan Leite de Araujo

 

Quarto  Domingo  da  Páscoa Ano  A

03/05/2020

I leitura: At 2,14a.36-41; II leitura: 1Pd 2,20b-25; Evangelho: Jo 10,1-10

Neste 4o Domingo da Páscoa o tema da Pregação continua, ligado ao tema do Testemunho, elemento vital para a eficácia missionária.

No Evangelho encontra-se a narrativa da Bom Pastor e da Porta. Os dois temas estão diretamente relacionados. A compreensão das ovelhas a serem pastoreadas se encontra em Jo 2,13-22. Na narrativa da purificação é apresentada o culto exploratório, no qual as vítimas do sacrifício não são os animais, mas o próprio povo que eram financeiramente enganados. Explico, na narrativa da purificação do Templo, quem não tem dinheiro não tem direito à Deus, ou as suas graças, e na Narrativa da Multiplicação dos Pães, quem não tem dinheiro não tem direito à vida, nas duas narrativas Jesus quebra tal sistema. As duas narrativas possuem sua plena compreensão no Evangelho de hoje, no qual Jesus afirma ser a Porta e o Pastor.
Mas de onde Jesus trás a inspiração? Justamente da história da Guerra dos Macabeus. Nesta, os Sírios, liderados pela dinastia Selêucida, na figura da Antíoco IV Epífanas, ataca Judá (não entra pela porta) para explorar, distruir e discordar. O escândalo maior é que o Sumo-Sacerdote justo, Onias III será exilado e em seu lugar assumirão sucessivamente dois sacerdotes ímpios, cujo interesse tb é explorar (dinheiro e poder).

Isto continuará no tempo de Jesus no qual os sumos-sacerdotes adotam um sistema de exploração e exclusão, conforme citado acima. Na 1Pedro, ele narra que o seguidor de Jesus deve ser modelo, caso contrário será motivo de escândalo e condenação. Assim Pedro, em At 2, apresenta uma geração corrompida da qual aquele que segue o Senhor deve ser o modelo de retidão, assim como foi a família macabaica (1 e 2 Mc) que não se corrompeu, assim como foram os apóstolos que deixando tudo seguiram o Senhor no meio de um sociedade corrompida, na qual brilharam como luz.
Louvado seja N.S. Jesus Cristo
Pe. Gilvan Leite de Araujo

Segundo  Domingo  da  Páscoa Ano  A

19/04/2020

I leitura: At 2,42-47; II leitura: 1Pd 1,3-9; Evangelho: Jo 10,1-10

Queridas  e santas  famílias,

* Celebramos  neste  domingo  a  oitava  da  Páscoa  e  continuamos  com a  ideia  do  primeiro  dia  da  semana. Enquanto  primeiro  dia,  evoca  o  início  da  criação  e  o  início  da  nova criação  em  Cristo  Jesus. A  catequese  do  Tempo  Pascal  é  norteada  por  três  princípios  fundamentais  que compõem  a  vida  cristã:

  1. Anúncio
  2. Oração
  3. Diaconia

Na  primeira  leitura  (At  2,42-47)  estes  elementos  são  apresentados diretamente  e  serão  desenvolvidos  no  restante  do  tempo  Pascal.  De fato,  a  leitura  do  Livro  dos  Atos  dos  Apóstolos  nos  apresenta  o  fruto  do anúncio,  ou  seja,  a  conversão.  Mas  tal  eficácia  se  dá  justamente  por causa  dos  outros  dois  elementos  que  moderam  a  vida  cristã:

  • a  vida orante  (se  reunem  diariamente  no  Templo  e  nas  casas),  é  uma comunidade  que  vive em  intensa  vida  orante,  mesmo  diante  das provações,  como  nos  apresenta  a  segunda  leitura  (1Pd  1,39);
  • e  a  vida diaconal,  ou  seja,  é uma  comunidade  que vive intensamente  a  caridade sem  quadrar  a  quem.

Nestes  três  aspectos,  portanto,  se  moldam  a  vida  cristã,  que  será direcionada  pelas  virtudes  cristãs:  fé, esperança  e caridade  (1Cor  13). Mas  quem é o objeto  desta transformação e  do anúncio cristão? Os Evangelhos  (Jo  20,1931) nos  apresenta,  ou  seja : A pessoa  de  Cristo.

No  Quarto  Evangelho, diferente  dos  Sinóticos,  a  fé  se  dá  tanto  pelo anúncio  (escuta)  como  pelo  testemunho  direto  (ver),  ou  seja,  os apóstolos  e  primeiros  discípulos  e  discípulas  são  aqueles  que  viram  e ouviram  e, portanto, testemunham. No  Evangelho  de  hoje  nos  apresenta  a  dimensão  de  uma  Igreja orante,  reunião  dominical  e  Jesus  que  se  põe  junto  à  eles.  Tomé,  apesar da  sua  incredulidade  inicial  é  aquele que fará  a  maior  profissão  de  fé  do Novo  Testamento:

  • Meu Senhor  = meu  Iahweh  (Adonai)
  • Meu Deus  =meu  Elohim

Ou  seja, Tomé  identifica  Jesus  com  o  Deus  do  Antigo  Testamento,  ele  é Iahweh,  ele é  Elohim.

Após  a  profissão  de  fé  de  Tomé,  o  Quarto  Evangelho  faz  uma inversão: os  Apostólos foram  aqueles  que  chegaram  a  fé  por  meio  da visão,  estes,  agora,  serão  as  testemunhas  que  farão  outros  chegaram  a fé,  não  mais  por  meio  da  visão,  mas  pelo  anúncio  e  pelo  testemunho, que nos  remete ao  início  desta  reflexão.

Estamos  vivendo,  neste  momento,  a  mesma  experiência  dos Apóstolos,  estamos  às  portas  fechadas  por  causa  do  medo,  mas  o Senhor  se  faz  presente  e  nos  concede  o  Espírito  Santo, humanidade  e nos  aproximar  do  seu  Pai.

Louvado  seja  Nosso  Senhor  Jesus  Cristo

——–

Pe. Gilvan  Leite  de  Araujo :para curar  a Pós  Doutorado  em  Teologia  Bíblica  pela  Pontifícia Universidade  Gregoriana  de  Roma  (2017);  Mestrado  (2002)  e  Doutorado  (2007)  em Teologia  Bíblica  pela  Pontificia  Universidade  S.Tommaso  D’Aquino Coordenador  do Programa de Estud os  PósGraduados em Teologia da PUCRoma. SP.  Líder do  Grupo  de  Pesquisa  em  Literatura  Joanina LIJO.  Diretor  do  Instituto  Superior  em Filosofia  Sede  da  Sabedoria  da  Diocese  de  Osasco IFISS.

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