ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE FRANCISCANA

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL – ANO B
Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF
Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló
Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE FRANCISCNA
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

26º Domingo do Tempo Comum
Dia: 26 de Setembro, de 2021
Primeira Leitura: Nm 11,25-29
Salmo: 19/18,8.10.12-13.14
Segunda Leitura: Tg 5,1-6
Evangelho: Mc 9,38-48

 

Evangelho

Pode-se dividir o texto em três partes: o exorcista estranho (vv.38-40), a recompensa pela acolhida (v.41) e o escândalo (42-48). Convém lembrar que os vv. 44.46 são omitidos em muitos manuscritos, pois dizem o mesmo que será lido no v.48.

Vv.38-40: sempre houve taumaturgos fazendo curas e exorcismos (At 19,13-14) que invocavam anjos, demônios, pessoas famosas, como Salomão para expulsar os males. Na época da redação do evangelho, muitos já invocavam o nome de Jesus. João, provavelmente um zelote sectário, ficou com ciúmes, pois este exorcista estranho não seguia os discípulos. Note-se, que a preocupação de João não é o fato de ele não seguir Jesus, mas o fato de “não nos seguir”. Ele parece estar mais preocupado com o grupo: “nós”, do que com o evangelho. O texto se inspira em Nm 11,25ss e ensina que Jesus não é propriedade particular dos discípulos. Quem testemunha Jesus, mesmo não sendo da grei, faz o bem (Fl 1,15-18). Ser do grupo de Cristo é graça, não monopólio. A Igreja deve anunciar Cristo e nunca tentar enjaulá-lo em seus domínios. Um belo exemplo para ilustrar isto, pode ser Gandhi, um não cristão, que propagou valores cristãos com seu testemunho de vida. Os cristãos não devem impedir tais pessoas em sua missão, mas estar abertos a todos que têm o mesmo ideal a favor da vida. Todo fechamento sectário, é contra o Reino. Os discípulos nem sempre conseguem expulsar demônios (Mc 9,18ss), mas o estranho conseguiu (Mc 9,38). Deus age também fora da Igreja. A resposta de Jesus liberta a comunidade do sectarismo.

Aqui não se deve ver contradição com Mt 12,30, pois o contexto é outro. Marcos fala do anúncio do Reino, Mateus fala do poder do maligno.

V.41: o doador de um copo de água é alguém de fora, isto é, um não cristão, já que diz: “quem der… por serdes de Cristo”. Em Mc 9,33-37 se fala sobre a acolhida à criança e em 9,41 da acolhida aos discípulos. Acolher aqueles que não contam: crianças e discípulos, tem promessa de recompensa, mesmo não sendo oficialmente do grupo de Cristo, a Igreja.

Vv.42-28: as palavras duras de Jesus sobre o escândalo aos pequeninos, que aqui não são crianças, mas neófitos, ainda não maduros na fé, que facilmente se escandalizam e se desviam do caminho (cfr. 1Cor 8,1ss; Rm 15,1), querem mostrar a gravidade deste ato. Morrer no mar é algo extremamente humilhante, pois na cosmovisão da época, não ser sepultado era a suma desventura. Em 9,42 o escândalo é contra os outros, a partir do v.43 o escândalo é para si próprio. Amputar os membros tem o sentido de erradicar o mal pela raiz. Mão, pé e olho valem menos do que evitar o escândalo. Os olhos são a fonte da ambição, as mãos são as que se apoderam e os pés levam ao ato mau. Convém lembrar Gn 3,6. Eva viu (olhos), pegou (mãos) e levou para o marido (pés). Portanto, não se trata de se amputar membros do corpo, mas de erradicar a fonte do mal pela raiz. Ou melhor, não se trata de automutilação, mas antes de auto superação. Ou ainda, enfrentar até o martírio, em vista do Reino.

Geena era um antigo santuário pagão onde se fazia sacrifícios humanos. Era o vale onde se queimava o lixo de Jerusalém (2Rs 23,10), e por isto, sempre havia fogo. Neste vale Acaz queimou crianças (2Rs16,3; 21,6). Onde o verme não morre e o fogo não se extingue (cfr. Is 66,24; Jt 16,17; Eclo 7,17-19; Sl 21,10) é mais outra humilhação, pois serão, como no caso da morte no mar, corpos insepultos: extrema humilhação. Não é descrição do inferno.  Antes, é uma descrição da gravidade do escândalo.

Relação com as outras leituras

Ninguém deve se sentir dono do Espírito de Deus, como queria o auxiliar de Moisés (1ª leitura), como também queria o apóstolo João (evangelho). Isto mostra que há tentações de poder dentro do povo de Deus e há, também realizadores das obras de Deus, fora do grupo dos discípulos. Assim como há cristãos que praticam a exploração contra os fracos (2ª leitura), há também gente de fora que é sensível aos valores da justiça e da solidariedade. Não queiramos o monopólio sobre o Reino.

25 Domingo do Tempo Comum
Dia: 19 de Setembro de 2021
Evangelho: Mc 9, 30-37
Primeira Leitura: Sb 2, 12.17-20
Segunda Leitura: Tg 3, 16–4,3
Salmo: 54/53, 3-4.5.6.8

 

Evangelho

A seleção do Evangelho segundo a comunidade de Marcos traz dois elementos: o anúncio da Paixão (v. 30-32) e a comunidade dos discípulos (9.33-37), sendo que este segundo tema é novamente tratado em 10,36-45. Nos paralelos do anúncio da paixão (Mt 17,22-23; Lc 9,43b-45) percebemos que somente neste Evangelho se anuncia simultaneamente a morte e ressurreição. Já em relação à questão sobre “maior/primeiro” tendo a criança como mediação, os paralelos encontram-se em Mt 18,-5 e Lc 9,46-48. No entanto, a frase, ou “máxima”, apresentada em Mc 9.35 (“qualquer que queira ser o primeiro deverá ser o último de todos e servir a todos), e no caso de Lucas não inclui os termos “primeiro” e “servo” (protos/diáconos), colocando no lugar “menor” e “grande” não citando o serviço. Mt trata do “primeiro/último” e “servo” no marco da discussão provocada por Tiago e João. Mc, na narrativa da discussão entre Tiago e João, repetirá: “quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos” (10.44). Já Lucas apresentará a máxima dentro da metáfora da “porta estreita” (Lc 13.22-30) concluindo: “contudo, há últimos que virão ser os primeiros que serão últimos”. Estas observações levantam questões como: por que o anúncio da morte não estava completo sem o anúncio da ressurreição, e por que Mc reafirma o serviço com vínculo de autoridade na proclamação de Jesus?

Morte e Ressurreição na comunidade perseguida (9,30-32)

O primeiro texto, que aqui devemos chamar de “anúncio da paixão e ressurreição” (9.30-32) começa dizendo que Jesus estava indo secretamente para a Galileia, como um “fugitivo”, situação vivida por esta comunidade após a perseguição promovida por Nero em Roma (aprox.64 d.C.), coisa que não aparece em nenhum dos paralelos sinóticos. Assim devemos entender a denúncia das forças de morte, de perseguição e violência, quando o “Filho do Ser Humano” e estregue nas mãos dos “homens”, isto é, aquelas pessoas que sendo feitas irmãs em Cristo negam sua própria humanidade oprimindo, matando, discriminando, excluindo, outras pessoas. Desta forma a ressurreição é essencial para, no meio da perseguição e morte, manter a esperança do surgimento ou ressurgimento de uma humanidade de irmãs e irmãos.

O poder do serviço à luz da presença das crianças (9,33-37)

v.33 – O questionamento: A segunda parte começa com dizendo que Jesus “interrogou/perguntou” (eperóta). A interrogação é um conhecido método de mestres da antiguidade, que nenhum Evangelho menciona mais do que este. A pergunta de Jesus é a pergunta da comunidade (representada pelos discípulos) é sobre qual seria a liderança adequada diante de uma situação de morte e violência, dentro de um sistema opressor, excludente e desigual?

v.34 – O silêncio: Ao questionamento lhe segue o “silêncio”, porque haviam “discutido” (dilektesan) pelo “caminho”. O “caminho” é outra característica desta narrativa, que não aparece nos outros sinóticos, de novo marca de uma comunidade à caminho, entre a dor da violência e da morte e o horizonte de um mundo novo e melhor.

v. 35 – Jesus ouve e orienta a comunidade perseguida: Jesus, que caminha junto a comunidade perseguida, consegue ouvir aquilo que é comentado com receio, aquilo que não é possível discutir abertamente, e então apresenta o princípio orientador: “Quem quiser ser o primeiro seja o último de todos e servo de todos” (v.35b, do grego). O poder da vida, o anti-poder da morte, é aquele que emerge das pessoas que no sistema desigual e excludente são as últimas e que se constrói no serviço, diaconia, na ação compassiva e solidária.

v.36 – A criança, imagem da nova humanidade: As crianças, que são apresentadas de diversas formas no Segundo Testamento, desde crianças de colo até jovens, aqui são chamadas “paidon”(crianças muito novas, nenéns). A criança é o símbolo do esperançar (da qual falava Paulo Freire), totalmente indefesa e dependente, na mesma situação das pessoas perseguidas, excluídas, querendo o colo da segurança, da proteção, da partilha do pão e do afeto.

v. 37 – Acolhimento solidário, espaço de resistência e superação: O poder do serviço se exerce no acolhimento. As comunidades perseguidas devem ser comunidades que abraçam todas as pessoas vulneráveis, todas a vítimas da violência, todas as excluídas e discriminadas, e proclamam a igualdade de acesso a tudo, inclusive ao amor.

A conexão com as outras leituras

A leitura do Livro de Sabedoria, reflete a época do domínio grego, início do domínio romano, descrevendo como as forças de morte querem a morte da pessoa justa que lhes incomoda, que lhes faz lembrar da necessidade de justiça e igualdade (Sb 2,12), Já A Carta de Tiago nos traz outra máxima para o caminho de resistência contra os poderes de morte e para o exercício do poder do serviço: “é em paz que se semeia o fruto da justiça, para quem promove a paz” (Tg 3,18). A diaconia e a opção pelas pessoas últimas são ação de semear a verdadeira e douradora paz, a paz que não exclui, mas acolhe.

 

 

24º Domingo do Tempo Comum
Dia: 12 de setembro de 2021
Primeira Leitura: Is 50,5-9a
Salmo: 116/114, 1-2.3-4.5-6.8-9
Segunda Leitura: Tg 2,14-18
Evangelho: Mc 8,27-35

 

O Evangelho

A perícope evangélica pode ser definida como um diálogo com os discípulos. A primeira parte (vv. 27-30) é uma unidade narrativa fechada em si mesma, na qual são colocadas em contraste as opiniões das pessoas sobre Jesus e a profissão de fé dos discípulos. Estilisticamente, as duas perguntas de Jesus nos vv. 27b e 29a são semelhantes. Há concordância substancial entre as opiniões populares dos v. 28 e aquelas de 6,14b.15. O v. 28 surpreende pela concisão das informações prestadas pelos discípulos. O loghion sobre o Filho da Humanidade que sofre e ressuscita (v.31) tem analogias nos dois anúncios subsequentes da paixão (9,31; 10,33s.) e devem ser comparados com as fórmulas curtas do anúncio da paixão em 9,12; 14,21.41 (cf. o anúncio da ressurreição em 9,9). Todas as passagens citadas concordam no uso do título “Filho da Humanidade”. As três predições em 8,12; 9,31; 10,33s. concordam em mencionar a morte e ressurreição após três dias. A expressão de 8,31 difere dos outros dois anúncios da paixão porque considera o caminho de Jesus para a morte como uma necessidade (dei) e, ao contrário dos outros dois, evita a ideia de entrega (paradidonai).

No início e no final estão os discípulos e, entre eles, Pedro como porta-voz. No centro temos a afirmação sobre o destino do Filho da Humanidade. Tudo acontece na rua. Um novo grupo de oponentes entra em cena. Se até agora os oponentes eram principalmente os fariseus e escribas, ouvimos pela primeira vez sobre o destino da morte que começa a ser preparado pelos anciãos, os principais sacerdotes e os escribas. Parte daqui um arco que se estenderá até a paixão. A perícope é caracterizada pelos verbos do diálogo. O questionar, o falar, o responder, o comandar, o ensinar e repreender tornam vivo esse diálogo. Deve-se notar que a confissão de Pedro – apenas aqui nesta seção – é caracterizada como uma resposta. O diálogo vivaz entre Jesus e Pedro constitui o clímax dramático da história.

Resta notar que a morte e ressurreição de Jesus são interpretadas cristologicamente e não soteriologicamente no primeiro anúncio da paixão. A relevância do anúncio da paixão é sublinhada pela constatação de que Jesus falou a palavra com franqueza. A parresia não está em contradição com a proibição de falar. Essa se refere ao falar com aqueles de fora. A franqueza do discurso de Jesus é direcionada ao grupo de discípulos. A parresia é a franqueza no falar, aquela franqueza de que nada fica em silêncio ou se esconde. Em 4,33, foi dito que Jesus falava ao povo em parábolas, agora ele fala livremente aos discípulos. A evolução do pensamento reside no fato de que a palavra da pregação recebe um conteúdo cristológico nítido graças ao anúncio da Paixão e da Ressurreição. Os discípulos e discípulas, que um dia terão que espalhar o evangelho, devem ver em Jesus a fonte de palavra que deve ser levada a outros.

No curto episódio que se segue, Pedro, que pouco antes havia reconhecido Jesus como o Cristo, agora protesta contra a ideia da paixão. Visto que Jesus já está decidido em seu caminho, ele se volta para os discípulos e para Pedro. Segundo Mc também os discípulos, atingidos pelo olhar de Jesus, recebem sua reprovação. A ordem “para trás mim” (cf. 1,17.20; 8,34) quer chamar o discípulo de volta ao seguimento e, portanto, a seguir o caminho que Jesus já está percorrendo. O discípulo ameaça se desviar. O fato de Satanás ser reprovado indica que estamos nos referindo à tentação que existe na objeção de Pedro. Certamente o Filho da Humanidade não pode mais ser desviado de seu caminho. Satanás indica o oponente que pode estar presente em muitos. Ele é aquele que distorce a verdade e conta a mentira. Já no início da era cristã, os hereges são considerados instrumentos e filhos do diabo (Rm 16,17-20; 2Cor 11,13-15; At 13,10).

O perigo mais grave para os discípulos e a comunidade é rejeitar o Crucificado.

Jesus anuncia o genuíno logos do Evangelho. Pedro, que deve ser visto novamente junto com os discípulos e discípulas, se rebela contra o caminho da paixão. Por isso o seu “ser-discípulo”, correu sério perigo e é reprovado e tratado como Satanás; isso significa que o/a discípulo/a deve reconhecer o caminho de Jesus rumo à paixão e aceitá-lo como seu. Jesus só pode ser totalmente compreendido depois de concluído o seu caminho. À época de Mc, quando esplêndidas figuras de redentores eram esperadas, a pregação do Filho da Humanidade rejeitado e morto era indesejável e escandalosa. Mas esta mensagem toca intimamente os crentes, se observarmos que eles são colocados no mesmo plano de Jesus. A profissão de fé externa pode ser fácil, mas sua implementação é difícil. O Evangelho pode ajudar a garantir que a profissão de fé expressa com os lábios amadureça na fé autêntica.

Jesus ordena que à multidão venha até ele com os discípulos. A reunião da multidão e dos discípulos prepara 9,14: mais concretamente significa que depois do protesto de Pedro, os/as discípulos/as foram confrontados com uma nova decisão. Depois do anúncio da paixão do Filho da Humanidade, podemos entender o que significa ser discípulo e discípula. Quem se decide a segui-lo, deve satisfazer duas condições. A primeira condição é negar-se, renunciar-se, colocar a existência de discípulo/a acima dos próprios desejos e projetos. A segunda condição é a disposição de aceitar a cruz. O “siga-me” (opisō mou) está ligado à reprovação de Pedro (8,33) e ao primeiro chamado ao seguimento (1,17).

O “tomar a sua cruz” expande a necessidade de prontidão para morrer a fim de seguir Jesus e inclui todas as tribulações e tentações que podem acontecer com o/a discípulo/a. A palavra de Jesus avança na ideia de que a salvação da vida agora depende da união com ele. Assim, o seguimento da cruz aparece sob uma nova luz. O fato de Mc introduzir o acréscimo do Evangelho como critério de decisão manifesta a situação de vida das comunidades. De agora em diante, o Jesus terreno está acessível a nós por meio do Evangelho.

A leitura do Cântico do Servo em Is ajuda a perceber o pano de fundo veterotestamentário da serenidade de Jesus em afrontar sua missão e torna nítida a identificação que Jesus faz, em sua pessoa, do Filho da Humanidade e do Servo.

 

 

 

23º Domingo do Tempo Comum
Dia: 05 de setembro de 2021
Primeira Leitura: Is 35, 4-7a
Salmo: 145, 7.8-9a.9bc-10
Segunda Leitura: Tg 2, 1-5
Evangelho: Mc 7, 31-37

O Evangelho

O Evangelho de hoje inicia com um percurso muito estranho de Jesus: Saindo de Tiro, ele veio por Sidônia até o mar da Galileia, através dos territórios da Decápole (v. 31)Este trajeto seria como se alguém para ir do Rio de janeiro a São Paulo passasse por Brasília, ou fosse de Porto Alegre a Pelotas e passasse por Passo Fundo!

Trouxeram‑lhe um surdo e gago (v. 32). O surdo e gago (em algumas traduções, mudo) não se aproxima de Jesus e nem pede a cura, mas é trazido por pessoas anônimas. A surdez, na tradição profética (Is 42,18-19; Jr 5,21; Ez 12,2), é símbolo da resistência à mensagem de Deus. Neste evangelho, semelhantemente, ela é relida como símbolo de resistência a ouvir o anúncio e a proclamar a boa nova.

Levando‑o em particular, para longe da multidão (v. 33a). No evangelho de Marcos, a expressão em particular é aplicada sempre aos discípulos (4,34; 6,31-32; 9,2.28; 13,3): quando necessário para dissipar dificuldades provocadas por seu ensinamento, Jesus explica tudo novamente a seus discípulos “em particular”, isto é, separadamente e de forma exclusiva. Mas o que é ensinado “em particular” serve para fortalecer os discípulos na sua missão. Por isso, o mal que pode afligir a comunidade e o discípulo é não proclamar a boa nova a todos os povos.

No v. 33b, Jesus põe seus dedos nos ouvidos do surdo-gago, cospe na língua dele, ora e dá uma ordem. O gesto de cuspir na língua do surdo-gago/mudo, para nós, é algo estranho e, para alguns, até nojento. Na Antiguidade, porém, a saliva era considerada um elemento medicinal, ainda mais a saliva de um profeta. Ou seja, trata-se de uma ação que deve ser lida no conjunto dos ritos de cura do mundo antigo.

O gesto curandeiro de Jesus produz seu efeito e o rapaz começa a ouvir e a falar com desenvoltura. Não obstante, Jesus recomendou-lhes que não dissessem nada a ninguém (v. 36). Como em diversas ocasiões, o Jesus de Marcos ordena que não se divulgue por aí o que ele faz. É o chamado “segredo messiânico”.

Por que essa mania de segredo? O evangelho não nos responde. Aliás, já desde 1,1 estamos cientes do messianismo de Jesus. No evangelho de Marcos, vários títulos judaicos são dados a Jesus, mas, nenhum título é suficientemente denso para exprimir o real significado de Jesus de Nazaré. A finalidade desse “segredo messiânico parece ser o seguinte: corrigir progressivamente a falsa ideia que os judeus e os discípulos tinham em relação ao Messias. Com efeito, a revelação de quem Jesus realmente é só será concluída e plena após sua morte e ressurreição, isto é, somente após a experiência pascal os discípulos compreenderão perfeitamente quem é Jesus: sua pessoa, sua obra, sua doutrina. Por isso, a ordem de silêncio está unida à cruz e à ressurreição.

Ele faz surdos ouvir e mudos falar (v. 37). Na trama do evangelho de Marcos, para levar os discípulos a reconhecer que Jesus é o Messias, este milagre tem valor simbólico: é surdo-gago/mudo quem não é discípula/o. Em outras palavras, ouvir e falar livremente, é necessário tornar-se discípula/o. Não basta a palavra, é necessário um contato íntimo com aquele que cura. O contato é cada vez mais íntimo: dedo nos ouvidos, saliva na língua, palavra nos ouvidos. Tanto a saliva quanto a palavra saem da boca de Jesus para criar as condições necessárias para a fé. Só pode ser discípula/o quem tem intimidade com Jesus; só pode ser discípula/o quem deixa que Jesus coloque suas palavras nos ouvidos e na língua.

No Antigo Testamento

Na primeira leitura, o profeta Isaias (35,4-7a) anuncia a chegada de Yhwh como o go’el de Israel. No Antigo Testamento, a palavra go’el significa, primeiramente, “resgatador”. Trata-se de um parente próximo (irmão, primo, tio) que tem vários encargos, entre eles, casar-se com a viúva de seu parente, para suscitar uma descendência ao falecido (cf. o caso de Booz e Rute); resgatar uma propriedade da família, caso tal propriedade (casa ou campo) tenha sido tomada como pagamento de uma dívida e socorrer um parente que sofre violência.

No Antigo Testamento, Yhwh é chamado de “o go’el de Israel”, porque ele vem resgatar Israel da escravidão e humilhar os inimigos de seu povo. Por isso o profeta proclama “Coragem! Não temais” (v. 4) e “Vosso Deus vem salvar-vos” (v. 5). A chegada de Yhwh e sua atividade como go’el do povo humilhado é motivo para recobrar a coragem e a esperança, porque ele fará acontecer uma realidade nova: desaparecerão as enfermidades e as deficiências físicas (vv. 5-6a), “o sertão vai virar mar” (vv. 6a-7a), será expulso tudo o que é ameaçador (v. 7b). O juízo de Yhwh será contra os inimigos do seu povo.

Hoje

Vemos como este anúncio profético é atual: em tempos de pandemia, o profeta nos convida a acreditar que Yhwh sabe muito bem que, por causa do desrespeito à dignidade humana, o povo sofre. O profeta nos convida a esperar: nosso Deus é o Deus da vida e não deixará de se vingar dos que promovem o sofrimento e a morte.

 

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

 

22º Domingo do Tempo comum

Dia: 29 de 08 de 2021

Primeira Leitura: Dt 4,1-2.6-8

Salmo: 14,2-3a.3cd-4ab.5

Segunda Leitura: Tg 1,17-18.21b-22.27

Evangelho: Mc 7,1-8.14-15.21-23

 

Evangelho

A perícope se situa entre as duas multiplicações do pão (Mc 6,30-44 e 8,1-10), como consequências da compreensão cristã do pão partilhado para todos, enfrentando o reducionismo excludente farisaico de Jerusalém. O pão partilhado deixa os discípulos alimentados sem preocupação com as leis da pureza e as tradições que os fariseus e escribas criaram como cerca ao redor da lei, interpretando-a de acordo com sua visão rigorista. Para Jesus, o que conta é o amor, ilustrado pelo pão partilhado. Porém, os representantes da religião oficial têm outro projeto. Eles estão presos às leis e tradições que se tornaram um fardo para o povo pobre iletrado, para os doentes, deficientes e estrangeiros. Para escribas e fariseus importavam mais as leis e as tradições do que o alimento do povo. Era uma prática religiosa que só olhava para o céu e se esquecia das carências do povo. Na sua visão, se as leis da pureza forem observadas Deus está bem servido, sem nenhuma preocupação com os necessitados.

A prática de Jesus lembra que uma religião apenas preocupada com leis e tradições perdeu o espírito original da lei e já não satisfaz os desígnios de Deus. A lei, na sua origem, devia favorecer a vida do povo, porém, com o passar do tempo, foi-se esquecendo o espírito da lei, ficando apenas na letra morta e, além disto, depois do Exílio, os escribas criaram mil e uma tradições para explicar e interpretar a lei. Assim sendo, a lei resumida em 613 mandamentos vem agora acrescida com mais penduricalhos da tradição, seu número ficou astronômico. Davam a estas tradições o mesmo valor da lei. Só um expert seria capaz de observar as exigências da religião. O povo simples, que ignorava esta coleção de leis e tradições, era visto como maldito (Jo 7,49).

Um dos pontos da lei que os escribas levavam ao extremo, foi a questão da pureza (cfr. Ex 40,12-32; Lv 15), que originalmente se destinava aos sacerdotes, mas os escribas e fariseus universalizaram. Na sua compreensão, este era o nó górdio do acesso a Deus. Como o povo simples não podia observar tudo isto, se via privado de Deus. Este é o contexto de Mc 7,1-23.

Jesus não se preocupa nada com estas leis e tradições. Ele toca no leproso (Mc 1,41 = Lv 13,43s), se deixa tocar pela mulher hemorrágica (Mc 5,27 = Lv 15,19), come com pecadores (Mc 2,19ss), etc. No relato de hoje se desenha o choque da prática de Jesus com a dos escribas e fariseus. Fica evidente que agora, o eixo está deslocado. Para Jesus não contam práticas externas, leis e tradições, mas tão somente, o amor ao próximo que é o verdadeiro culto a Deus.

A questão da pureza, não era, para os fariseus, uma questão de higiene, mas apenas uma questão ritual, pois julgavam todos os pecadores impuros e, entrando em contato com qualquer objeto tocado por tais pessoas, tornaria os observantes impuros. Logo, ao se lavar, não pensavam em eliminar germes de doenças, mas queriam estar livres do contato com outras pessoas que julgavam impuras, o que por si só, já era uma discriminação e falta de amor. Então, na resposta de Jesus se mostra que a impureza não está no contato exterior com pessoas, ou com alimentos, mas naquilo que vem de dentro do coração. Antes de pensar em fazer abluções, o fariseu já estava contaminado pelo preconceito que nasceu em seu coração elitista e condenava os que não podiam observar as leis. Vinha de dentro.

Jesus, portanto, não apenas aboliu as tradições dos fariseus e escribas, mas também as leis alimentares que se encontram em Lv 11 e Dt 14, pois ele declarava tudo puro (cfr. At 10,15). Isto tudo era uma superação dos estreitos caminhos de uma igreja ainda atrelada ao AT e que agora, devia se abrir aos povos estrangeiros que desconheciam tais observâncias.

Relação com as outras leituras

Quando a lei leva à proximidade com Deus e à justiça, ela é boa, como se lê em Dt 4,6-8 (1ª leit.). A religião pura, que agrada a Deus, é cuidar dos órfãos e viúvas, ou seja, amor aos carentes (2ª leit.). Portanto, não são leis externas que levam os fiéis a Deus, mas o compromisso com os sofredores.

 

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

 

21º Domingo do Tempo Comum

Dia: 22 de Agosto de 2021

Evangelho: Jo 6, 60-69
Primeira Leitura: Js 24, 1-2a.15-17.18b
Segunda Leitura: Ef 5, 21-32
Salmo: 34/33, 2-3.16-17.18-19.20-21.22-23

 

Evangelho

O Quarto Evangelho tem como uma das suas características trabalhar a revelação de Jesus Cristo (Palavra Encarnada; cf. Jo 1) através de sinais que se concentram nos primeiros doze capítulos. Por outro lado, podemos dizer que o capítulo 6 deste Evangelho se dedica à comensalidade, com temas como a partilha (6,1-15), Jesus como Pão da Vida/Corpo e Sangue (6,22-59), e as reações dos discípulos a esta teologia (6,60-71). Portanto, o Evangelho deste domingo deve ser entendido neste contexto. No contexto maior este Evangelho descreve tensões e divisões entre as pessoas que formavam a comunidade de Jesus como reflexo de tendências que começavam a se configurar na igreja dos primeiros tempos. Neste sentido é bem significativa a afirmação “muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele” (6,66). Assim o Evangelho explicita a quebra da comunhão sacramental como consequência da incompreensão do mistério de “Jesus/Pão da Vida/Corpo e Sangue”.

O texto em si

A primeira questão a ser levantada é a delimitação da perícope. Sem dúvida, o versículo 60 abre a parte da narrativa que reflete a reação dentro da comunidade de Jesus em relação às “duras palavras” (skleros estin outos o logos). Reação que se conclui com afirmação de Pedro (“Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo”, v. 69). A narrativa vai concluir com o anúncio da traição de Judas (v.70-71).

Vejamos como se dá o tecido de palavras neste texto que aborda o tema delicado da partilha e do mistério eucarístico:

Muitos dos discípulos – “Os muitos discípulos que ouviram e se escandalizaram” (poloi) nos versículos 60-61, se conecta no v. 66 com os “muitos discípulos que voltaram atrás”. Espírito e Vida – No versículo 63 aparece duas vezes a palavra “Espírito” (pneuma) e vida em duas formas: vivifica/dá vida (zoopoiyoun de Zoe = Vida + poyeuo = Fazer/Produzir), rodeado pela referência ao Filho (do Ser Humano, v. 61), Jesus (v.64) e o Pai (v.66).

Palavras/declaração/falar/dizer – Outro aspecto interessante é a diversidade de termos para se referir à forma como Jesus comunica o mistério em cada uma destas partes. Primeiro (v.60) diz que são “duras são estas palavras” (logos). Nos vs. 63 e 68, se refere a “declaração/discurso” (remata) de Jesus como Espírito e Vida (Eterna). No v. 65 Jesus fala (eleguen) e afirma ou “reafirma” (eireka). Esta diversidade de formas para se referir a apresentação do mistério mostra a dificuldade do assunto abordado. A palavra (sentido duro do mistério) – v. 60 – se transforma em declaração que manifesta o Espírito que dá Vida (v.63) e permite, então, dizer e reafirmar o caminho de duas mãos entre o Filho e o Pai (v.65).

A dificuldade de participar do novo discipulado eucarístico.

É importante observar que este discurso (cf. 6.59) foi feito em uma Sinagoga, onde não havia espaço para o mistério eucarístico apresentado em Jesus. Mas, por outro lado entre o grupo dos “discípulos” também havia pessoas que tinham dificuldade de descontruir dentro a visão legalista (da carne) e abraçar o mistério e partilha que se revelam no Jesus eucarístico, como entendia a comunidade de João.

Relacionando com os outros textos

A primeira leitura é a conclusão do Livro de Josué onde todo o processo da dádiva divina da terra é consumado na aliança entre as tribos e este Deus que luta junto ao seu povo. O chamado a unidade presente no discurso de Josué está centrado na escolha entre as divindades que justificavam as monarquias derrotadas pelas tribos e o Deus Libertador do Egito e força na luta pela terra, a partir da própria experiência de luta de partilha descrita neste livro (Js 24,15-16). Aqui, semelhante à proposta da comunidade de João, a Palavra da Aliança se traduz em espírito e vida para o povo. O sentido da unidade da mesa não pode ser o sentido patriarcal da sinagoga, mas o novo sentido da igual dignidade de todas as pessoas na mesa eucarística. No texto da Carta aos Efésios (5,21-32) os primeiros quatro versículos falam de uma teologia de submissão da mulher diante do homem (v.21-24), no entanto, esta teologia e relativizada ou até desconstruídas pelos seguintes (v.25-33), onde a mulher deve ser considerada pelo homem como seu próprio corpo. De novo a alternativa entre seguir os velhos padrões ou abraçar o mistério que é Espírito e Vida.

 

20º Domingo do Tempo Comum. Nossa Senhora da Assunção
Dia: 15 de agosto de 2021
Primeira Leitura: Ap 11,19a;12,1.3-6a.10ab
Salmo: 45/44,10bc.11.12ab.16
Segunda Leitura: 1Cor 15,20-27a
Evangelho: Lc 1,39-56

 

Os textos da Sagrada Escritura aqui relacionados, inserem-se numa visão redentora da humanidade. A celebração da assunção de Maria acontece motivada por perícopes bíblicas que compõem este quadro maior da obra redentora de Cristo, sem a qual não entenderemos o papel desempenhado por Maria.

O texto do Apocalipse abre o pórtico da atuação da Mulher/figura da Igreja/Maria, no plano escatológico. Aqui, a maternidade de Maria é teologicamente apreciada como maternidade messiânica.

O capítulo 15 de 1Cor, direciona nossa atenção para a chave interpretativa que une os textos desta celebração: “em Cristo todos receberão a vida”.

O louvor de Maria dá início aos cânticos de exaltação do NT. Em Lc 1 e 2 há cinco deles:

  1. Magnificat (Lc 1,46-55);
  2. Benedictus (Lc 1,68-79);
  3. Gloria in excelsis (Lc 2,14);
  4. Nunc dimittis (Lc 2,29-32);
  5. o louvor da profetisa Ana (Lc 2,38).

Os hinos em Lc têm a função de explicar pneumatologicamente os acontecimentos. Maria é convocada a interpretar o evento escatológico do qual, agora, faz experiência o povo de Deus. Não fala só de si mesma; aqui toda a salmodia do povo de Deus do antigo pacto atinge o seu vértice e é superada.

Acrescentemos ainda o seguinte: o Magnificat é um cântico com franco teor escatológico. Por essa razão, é digno de nota justamente que a maioria das formas esteja no aoristo, isto é, na forma verbal do pretérito, embora se trate primordialmente de eventos cujo cumprimento ainda estava por vir.

Em Lc 1,42 a frase

  • “bendita és tu entre as mulheres”, faz ecoar palavras de bênção semelhantes a Jz 5,24 e Jt 13,18; e
  • “bendito é o fruto do teu ventre” ecoa a bênção mosaica prometida aos obedientes, em Dt 28,1.4.

Esses ecos possibilitam ver que o foco recaía, além de Maria individualmente, também sobre o povo de Deus como um todo.

O v.43 com a expressão “meu Senhor” (tou kyriou mou) ecoa o estilo do Sl 110,1 (veja o paralelo em Lc 20,41-44; At 2,34) e, portanto, aponta para a natureza messiânica de Jesus. O v. também faz ecoar 2Sm 6,9, embora a relação entre Maria e a arca da aliança não seja tão evidente.

O conjunto a seguir, formado pelos vv. 46-55, compõe o conhecido Magnificat que, tanto na forma quanto no conteúdo se baseia em vários hinos do AT.  Da perspectiva do conteúdo, o correspondente mais próximo talvez seja o cântico de Ana em 1Sm 2,1-10, em que se encontra o tema da libertação, quando o Deus santo de Israel olha para o estado humilde de sua serva. Em ambos os textos, esse foco pessoal se transforma no tema geral da inversão, quando Deus exalta os humildes e humilha os poderosos. Na forma do texto encontramos paralelos com vários Salmos (note-se a influência dos Sl 34; 35; 89; 103).

No v. 48 a referência à “condição humilde” (tapeinōsis) tem sido compreendida como uma referência à humilhação sofrida pela virgem prometida em casamento que agora engravidou; mas nem o contexto, nem os correspondentes mais amplos com os relatos de nascimento do AT apoiam essa interpretação. Um correspondente mais próximo acha-se em 1Sm 1,11, em que o termo aparece em referência ao reverso da sorte de Ana em sua gravidez. Porém, como no cântico de Ana, em 1Sm 2,1-10, tapeinōsis também pode referir-se à humilhação do povo de Deus oprimido. Ou seja, evidencia-se uma importante conexão entre a sorte do indivíduo e o destino do povo de Deus. No v. 52, a expressão, hypsōsen tapeinous “exaltou os humildes” se pode denominar uma expressão estilizada, convencional (cf. Jó 5,11). O adjetivo tapeinous (“os humildes”) funciona como rótulo de status econômico e, também, como identificação que se refere ao povo de Deus.

Não pode ser desconsiderada a importância do reverso da sorte do “pobre” (ptōchos) em todo esse Evangelho (cf. 4,18; 6,20; 7,22; 14,13.21; 16,20-22).

Entre os vv. 49-51 aparecem explícitas referências que conectam este cântico ao AT. No AT, o título “o Poderoso” (ho dynatos) é usado em referência ao Deus guerreiro (cf. Sf 3,17) e “grandes coisas” (megala) lembra os feitos poderosos de Deus durante o êxodo (Dt 10,21). A expressão “sua misericórdia” (to eleos autou) pressupõe o relacionamento da aliança entre Deus e seu povo, e a afirmação de que “sua misericórdia passa de geração para geração para os que o temem” pertence à linguagem das tradições litúrgicas de Israel. Tanto nas tradições do êxodo (Ex 6,1-6; Dt 3,24; 7,12) quanto nas do novo êxodo (Is 51,5.9; 53,1), encontram-se as figuras do braço/mão de Deus em referência ao seu poder. O uso aqui do tempo aoristo (e em outros lugares do Magnificat) pode ser interpretado como afirmação de certeza dos atos escatológicos de Deus.

Três passagens do AT fornecem o contexto para o desfecho do Magnificat: Is 41,8-9; Sl 98,3 e Mq 7,20. Todas as três estabelecem a conexão entre as promessas abraâmicas e o ato redentor de Deus em favor de seu povo. As ideias (misericórdia, promessa aos antepassados, Abraão) apontam para a esperança escatológica da libertação definitiva, da qual a noção teológica da Assunção da mãe de Jesus é sinal prenhe de esperança.

 

 

19º Domingo do Tempo comum
Dia: 08 de agosto de 2021
Primeira Leitura: 1Reis 19,4-8
Salmo: 34/33,2-3.4-5.6-7.8-9
Segunda Leitura: Ef 4,30 – 5,2
Evangelho: Jo 6, 41-51

 

Jesus

O Evangelho de hoje pertence ao chamado “discurso do pão da vida” (Jo 6,26-59), que é uma releitura do episódio do maná, no início da peregrinação pelo deserto, em Êxodo 16.

A afirmação de que os judeus murmuravam (v. 41) é claramente uma releitura de Ex 16,2-8. Há, no entanto, diferenças. No Êxodo, o motivo da murmuração era a falta de pão; em João, os judeus murmuram porque Jesus afirmou: “Eu sou o pão que desceu do céu” (vv. 35 e 38). Eles não aceitam a origem celeste, proclamada por Jesus, porque partem da evidência da condição humana: Este não é Jesus o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? (v. 42). Esta incongruência faz parte do estilo de narração próprio de João chamado de “técnica do mal-entendido”: Jesus fala uma coisa, o interlocutor entende outra, e este engano provoca uma discussão catequética. Assim acontece com Nicodemos (Jo 3,1-21) e com a samaritana (Jo 4,7-42).

No v. 44, Jesus interrompe a murmuração e recomeça os ensinamentos: Ninguém pode vir a mim a não ser que o atraia o Pai que me mandou. Isso significa que, para chegar até Jesus, é preciso deixar-se levar pelo Pai. Sem dúvida, a fé tem como fonte primeira a iniciativa de Deus, mas não exclui a responsabilidade do ser humano. A ação de Jesus e a do Pai são circulares e interligadas: tudo passa por Jesus e, no entanto, tudo procede do Pai e no Pai terminará. O evangelista utiliza o verbo grego hélkō (atrair), que denota o uso de força, como sugere Os 11,4: Eu os atraía com vínculos humanos, com laços de amor. Esta afirmação de Oseias tem como pano de fundo a resistência humana à ação divina: o ser humano resiste a uma atração repleta de amor.

O mesmo v. 44 termina com a promessa sobre o destino de quem aceita entrar nesta dinâmica circular da ação divina. Jesus afirma: eu o ressuscitarei no último dia. A ressureição era aceita e defendida pelos fariseus como prêmio final para os que obedeciam a Lei. Para Jesus, a condição para a ressureição é adesão a ele: Em verdade, em verdade vos digo: quem crê tem a vida eterna. Esta ideia está repetida logo adiante, no v. 47 e em Jo 8,51; 11,25.

Para fundamentar sua afirmação, Jesus cita o profeta Isaias: E todos serão instruídos por Deus (54,13). Com isso, Jesus garante que a vontade salvífica do Pai é universal e não exclui ninguém: nem gênero, nem raça, nem credo. Jesus anuncia que a nova comunidade estará aberta a todos os que escutam e colocam em prática os ensinamentos do Pai (vv. 45-47).

No v. 48, Jesus repete o que já havia dito nos v. 35: eu sou o pão da vida. No Evangelho de João, o termo grego zōê (vida) não significa unicamente a vida física; define, mais adequadamente, qualidade de vida que é definitiva e que, portanto, não está sujeita à morte. Desde a criação, o Projeto de Deus é dar a vida. Este projeto de vida tem seu ápice na encarnação e missão do Filho (Jo 1,1-4). Por isso, Jesus – eu sou o pão da vida – deve ser entendida como “eu sou o pão que liberta da morte e faz participar da vida definitiva em Deus”. Fica clara a contraposição entre Jesus, como pão da vida, e o maná e a Lei. Na compreensão rabínica, a Lei é a fonte da vida e, por isso, é chamada de “pão”. Mas a vida trazida pela Lei não é eterna: um dia termina. O projeto salvífico do Pai realizado pelo Filho, o pão que desce do céu, supera a vida conforme a Lei: Quem comer deste pão viverá para sempre (v. 51b).

A condição para receber a vida é reconhecer o amor de Deus expresso no projeto de Jesus e aderir a ele. O evangelista usa metáforas para explicitar o que significa tal adesão: escutar a voz do Filho de Deus (5,25), aproxima-se dele (6,37), aceitar suas exigências (6,63), comer o pão da vida (6,50). Portanto, a missão de todos os cristãos é levar a vida definitiva a todos os seres humanos; para isso, é necessário demonstrar concretamente o amor na partilha (6,5-13).

A técnica do mal-entendido está na base dos vv. 51-58 e envolve a palavra “carne”. Convém recordar que, no evangelho de João, o que se poderia chamar de “instituição da Eucaristia”, não é ocorre na última ceia (Jo 13–16), como em Mt 26,26-29; Mc 14,22-25 e Lc 22,14-38, mas sim no capítulo 6, no “discurso do pão da vida”. No v. 51, Jesus afirma: O pão eu darei é a minha carne para a vida do mundo”. O pão dado por Jesus é agora qualificado como carne (sárx) e não corpo (sōma). Jesus retoma o que já fora afirmado no prólogo do Quarto Evangelho (Jo 1,14): O verbo tornou-se carne. Ao dizer “o pão é a minha carne” e “quem come minha carne”, Jesus afirma que a Eucaristia faz parte do mistério da sua encarnação; por isso, celebrar a Eucaristia não tem a finalidade de produzir objetos de culto e adoração (hóstias consagradas), mas consagrar o alimento que fortalece os cristãos para que possam se comprometer com o projeto de vida e libertação proposto por Jesus. Em outras palavras, quando celebramos a Eucaristia e comemos o pão-carne de Jesus, renovamos e atualizamos nossa opção de realizar o projeto de amor de Jesus em defesa da vida plena.

Isaías

A Eucaristia – a carne e o sangue de Jesus (cf. Jo 6,51-58) dão vida e coragem para o cristão, da mesma forma que, na primeira leitura de hoje, o pão e a água trazidos pelo anjo do Senhor fortaleceram Elias. Este profeta desenvolveu sua atividade no Reino do Norte, durante os governos de Acab (874-853 a.C.) e Ocozias (853-852 a.C.). Em hebraico, o nome Elias é ’ēliyyāhû e significa “Meu Deus é Yahweh”. O nome se torna o lema de seu trabalho: lutar contra os ídolos que legitimam a opressão do povo.

O chamado “ciclo do profeta Elias” ocupa poucos capítulos na Bíblia: 1Rs 17–21 + 2Rs 1–2. Todo ele é marcado pela luta contra o uso da religião para legitimar desmandos, arbitrariedades e assassinatos que provocavam o aumentou da pobreza e da injustiça. Os dois reis citados – Acab e Ocozias – sacrificaram a vida do povo para impulsionar a economia e o comércio internacional. Com a desculpa de enriquecer o país, esfolavam a população. Contra tal situação Elias se levanta em nome da fé dos antepassados: para ele, a religião ancestral, isto é, o javismo autêntico (“Meu Deus é Yahweh”), é um projeto de vida e dignidade para todos. Qualquer governante que não lute por isso é idólatra e genocida.

A primeira leitura de hoje (1Rs 19,4-8) mostra Elias fugindo da rainha Jezabel. Ele havia desmascarado o projeto idolátrico desta rainha e ela não perde tempo: manda perseguir e matar Elias. O texto é duplamente irônico. Primeiro, porque Elias tem o poder para fazer vir fogo do céu e devorar os representantes religiosos de Baal (1Rs 18,20-40), mas se sente fraco para enfrentar a rainha. A segunda ironia é que, para salvar sua vida, Elias foge para o deserto, o lugar da morte (19,4).

Estas ironias têm a função de demonstrar que o profeta é uma pessoa real, não desfigurada por um sentimento devocional falso, comum em quem pratica uma religião desencarnada. O narrador quer mostrar que a força de Elias não vem de uma imagem fantasiosa que ele faz de si mesmo, mas da consciência que tem de ser dependente de Yahweh. Isso está expresso na aparição do Anjo e no alimento trazido: Mas eis que um anjo o tocou e disse-lhe: “Levanta-te e come” (…), havia um pão cozido sobre pedras quentes e um jarro de água (vv. 5-6). O mesmo Deus que salvou o povo no deserto interrompe o esgotamento físico e mental de Elias, enviando duas vezes um anjo trazendo pão e água (v. 7). Fortalecido o profeta caminha quarenta dias e quarenta noites (v. 8) até a montanha de Deus, o Horeb. Ali Elias terá respostas para seus questionamentos. Mas sua missão continua, pois o “longo caminho a percorrer” ainda não acabou.

 

 

18º Domingo do Tempo Comum
Dia 1º de agosto de 2021
Primeira Leitura: Ex 16,2-4.12-15
Salmo: 78/77,3.4bc.23-24.25.54
Segunda Leitura: Ef 4,17.20-24
Evangelho: Jo 6,24-35

Evangelho

O texto vem na sequência da multiplicação dos pães e do caminhar sobre as águas (6,1-21). Assim sendo, pode-se ver os versículos 22-25 como transição entre estes relatos e o discurso do pão da vida (6,26-51a). A multidão que procura Jesus, não entendeu o sinal da multiplicação dos pães. Os saciados viram o milagre apenas no sentido material. Não foram capazes de transcender. Ao querer torná-lo rei (v.15a), eles esperam vida fácil, uma religião mágica. Buscaram em Jesus a solução de seus problemas, sem assimilar seu projeto de vida e se comprometer com ele. A luta pelo pão é necessária, mas não de forma mágica. Entender o gesto de Jesus e aderir pela fé (v. 29) é não esperar um milagre, mas entrar na lógica dele e com ele construir a sociedade onde já não falte o pão para ninguém. Se este projeto já estivesse em vigor, todos teriam pão e Jesus nem precisaria multiplicar o pão.

Jesus não cede ao pedido dos que o procuram em vista do milagre. Ele os conduz a outra realidade: procurar o alimento para a vida eterna (v.27). Ele inaugura uma nova realidade, novas relações com Deus e com as pessoas. Nesta nova realidade, o pão será partilhado (doze cestos – 6,13) e esta realidade conduz à vida eterna. Para que esta nova realidade aconteça, não se requer obras, como na lógica de Moisés (v.28), mas uma só obra: crer em Jesus, o enviado, o que tem o selo do Pai (v.29). Porém, crer é mais do que saber o que ele ensinou, mas é aderir e se envolver no seu programa de vida.

Os interlocutores de Jesus ainda não entenderam o sinal do dia anterior. Querem mais um sinal (v.30). Aludem a Moisés (v.31). Muita semelhança com certas pretensões hodiernas que querem testar cientificamente as verdades da fé. João se vale deste desejo para transmitir seu ensino. O verdadeiro alimento não foi o maná, mas o pão doado por Jesus, isto é, sua vida. Deus, por meio de Moisés, deu o maná, mas por meio de seu filho, que desceu do céu, deu o verdadeiro alimento para a vida do mundo. O maná, dado aos israelitas, é prefiguração do que o Pai realizou na pessoa de Jesus, a plenificação da revelação de Deus. Nele se realiza totalmente o projeto do Pai que conduz à vida plena que inicia aqui e culmina na eternidade. O maná foi o alimento que possibilitou ao antigo povo chegar à terra prometida, onde pode ganhar o pão com o suor de seu rosto. A multiplicação também deveria ser vista como a transição para uma nova realidade, onde não faltasse o pão a ninguém. O verdadeiro pão que Jesus dá, não era aquele da multiplicação, mas o espírito daí resultante: a partilha e o compromisso de todos com todos

João, de forma pedagógica, como já o fizera no diálogo da samaritana, também aqui aponta que a proposta de Jesus não é entendida. A samaritana quer água para lhe facilitar a vida (4,15), os interlocutores pedem deste pão com o mesmo intuito (v.34).

O v. 35 coroa esta lição. Não se trata de um determinado pão, mas do próprio Jesus que, aceito na fé se torna a realização plena dos anseios humanos. Fome e sede saciados são sinais messiânicos (Is 55,1ss). Aqui, porém, o pão ainda não é uma referência à eucaristia, que só se dará a partir de 6,51. O pão aqui é símbolo do ensino e da sabedoria de Deus (Pv 15,3; Eclo 15,3; 24,21(29). Portanto, aderindo a Jesus, pela fé, realiza-se a vida plena desejada pelo Pai, simbolizada pela não fome e não sede (v.35).

Relação com as outras leituras

Tanto a primeira, como a segunda leituras apelam à conversão. Em Ef 4,17 se exorta a não viver como os pagãos. Em Ex 16 se mostra que, ao coletar o maná, havia gananciosos que queriam acumular (16,16ss). Moisés, como Paulo exortam a evoluir no compromisso da fé. No evangelho percebe-se um crescendo: procura por pão, o que fazer para trabalhar nas obras de Deus, para ouvir de Jesus que se deve superar tudo isto e aderir totalmente ao Filho, o enviado do Pai. Conversão é, antes de tudo, mudança de mentalidade.

 

17º Domingo do Tempo Comum
Dia: 25 de julho de 2021
Evangelho: Jo 6, 1-15
Primeira Leitura: 2Rs 4, 42-44
Segunda Leitura: Ef 4, 1-6
Salmo: 145/144, 10-11.15-16.17-18

 

A comensalidade em João 6

O Quarto Evangelho, ou o Evangelho da Comunidade do Discípulo Amado tem algumas características contextuais que este autor resume em quatro fases:

  1. a) é uma comunidade de pessoas que tinham sido expulsas das sinagogas e tinham testemunhado a destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C.;
  2. b) ela busca, portanto uma identidade própria, gerando uma “cristologia mais alta” (da pré-existência da Palavra/Verbo/Logos), que busca dialogar com um mundo “pluralístico de crentes e não crentes”;
  3. c) há uma divisão entre dois grupos de discípulos de João que estão interpretando o Evangelho de maneiras opostas no que se refere à cristologia, à ética, à escatologia, e à pneumatologia”; c. a incorporação da teologia da pré-existência do Logos, fez com que da “aceitação joanina da estrutura autoritária de ensino da Igreja, provavelmente porque (…) o princípio do Paráclito como mestre não ofereceu defesa suficiente contra os separatistas. A comensalidade se transforma, então em um método, onde Jesus constrói a relação de amizade e amor que permite a comunhão além das diferenças (João 15,13-15). Vejamos como isto acontece em João 6,1-15.

Estrutura do texto

6,1-4. Apresenta apenas Jesus – sem a comunidade de discipulado – e a “multidão” (um termo usado com frequência neste capítulo para se referia ao mundo “pluralístico” do entorno da comunidade), colocado no contexto da “Páscoa dos judeus” (com a qual a comunidade expulsa da sinagoga não mais se identifica, por isso “dos judeus”).

6,5-9. Jesus foca na “multidão” e envolve a comunidade através de Felipe, representando as controvérsias que dividam a comunidade (é de Betsaida, como André e Pedro e promove o diálogo/conversão do Fariseu Natanael, superando o preconceito em relação às pessoas da Galileia; cf. 1,44-48). Também Felipe, depois, participa na controvérsia cristológica quando diz “mostra-nos o Pai e isso nos basta” (14,8).

6.10-13. Jesus apresenta o método da comensalidade:

  1. a. cria um “foco” comum de ação pedindo para as pessoas sem diferenciar “mulheres e crianças” como em Mateus (antropos/seres humanos) se assentarem, lembrando do número, certamente referência dos Evangelhos Sinóticos (Mt 14,21; Mc 6,44; Lc 9,14);
  2. b. celebra a Eucaristia (“dando graças”, eucaristésas, mesmo termo usado em Mc 8,6 – para a mesma ação – e em 14,23 para o Sacramento; cf. Mt 26,27; Lc 22,17.19).

6.11-15. De novo fazendo referência às narrativas dos Sinóticos, indica que sobraram doze cestos (um número sempre simbólico) indicando que este método é capaz de reunir todas as comunidades de discípulas e discípulos (cf. Mc 6,43; Mt 14,20; Lc 9,17).

A contribuição da comunidade joanina ao método da comensalidade

O Quarto Evangelho resgata o método da comensalidade já apresentado nos Sinóticos. Esta comunidade que percebe melhor a pluralidade dentro de fora da comunidade de fé, e que conhece as agruras da divisão e da perseguição, enfatiza que a mesa da partilha, que é ao mesmo tempo concreta – alimentando a quem tem fome de pão – e simbólica – alimentando a quem tem fome do amor de Deus, é capaz de unir as pessoas em sua diversidade.

Relação com os outros textos do Domingo

A narrativa de 2 Rs 4,42-44, levanta o milagre da partilha através do profeta Eliseu, algo semelhante ao que acontece com Elias, viúva de Serepta e seu filho (1 Rs 17,9-14). Não se trata de magia, mas da confiança de que através da partilha pode se transformar o mundo onde as pessoas acumulam riqueza sozinhas e morrem de fome sozinhas. Na leitura de Efésios se apresenta o princípio: “com toda humildade e mansidão, e com paciência, suportai-vos mutuamente em amor”, sendo que o termo “suportar” corresponde à palavra grega “anexo” que é a união de “ana” (entre) e “exo” (ter), o que seria “ter entre, ou ter mutuamente”. Portanto, não há como viver o amor sem partilhar o que temos, o que somos, em comunidade.

 

 

16º Domingo do Tempo Comum

Dia: 18 de julho de 2021
Primeira Leitura: Jr 23,1-6
Salmo: 23/22,1-3a.3b-4.5.6
Segunda Leitura: Ef 2,13-18
Evangelho: Mc 6,30-34

 

Mc não nos informa sobre o êxito da primeira experiência missionária dos apóstolos e tampouco nos diz o que Jesus teria feito neste intervalo. Sua intenção é mostrar a estreita ligação entre a ação dos Doze e o Mestre que é o ponto de referência para seu ministério.

O v. 30, com sua breve menção sobre o retorno dos apóstolos, se relaciona com o relato da missão.  É o único caso no qual Mc denomina os Doze como apóstolos. O seu status de ser-estado-enviado é realçado. A obra e o ensinamento dos enviados, “tudo o que tinham feito e ensinado”, se refere a 6,12s.

Em 1,35.45 encontramos o retiro a um lugar solitário como motivo redacional. Também a multidão que acorre (6,33), pode ser considerada frequentemente como uma preocupação do evangelista (2,2; 3,7s.20; 4,1s). O fato de eles não encontrarem tempo para comer é uma anotação que havia sido feita de forma introdutória em 3,20 a propósito de Jesus e de seus discípulos.

Segundo Mc, a partida a um lugar solitário tem sua origem na intenção de Jesus de procurar para os discípulos um pouco de refresco e repouso. Este gesto muito humano encontra em Mc uma explicação típica: eram tantas as pessoas que acorriam que eles “não tinham tempo nem de comer” (v.31). A solicitude de Jesus em conceder aos apóstolos um pouco de repouso é anotada só por Marcos.

Jesus e seus discípulos partem sobre a barca e são notados por muitos. A grande multidão é mais rápida que a barca e a precede (v.32). As pessoas que têm sucesso em chegar antes que a barca, se colocam em singular contraste com os discípulos que, na barca, não conseguem preceder Jesus (cf 6,45s).

O v. 34 fazendo referência ao ensinamento de Jesus, subordina a misericórdia de Jesus ao seu ensinamento. Descendo da barca, Jesus se dá conta da grande multidão. A sua misericórdia é mais que uma simpatia humana. Como no Antigo Testamento, a misericórdia é uma qualidade de Deus. Na(s) atitude(s) de Jesus se anuncia a compaixão de Deus pelos seres humanos.

A motivação geral se serve da imagem das ovelhas e do pastor. A ideia do rebanho sem pastor foi usada frequentemente na Bíblia. Como acusação, atinge os pastores que esqueceram seu dever (Jr 23,1; Ez 34,5; 1Rs 22,17) ou faz o povo compreender a punição divina (Zc 13,7). Moisés havia providenciado a nomeação de seu sucessor “para que a comunidade de Iahweh não seja como um rebanho sem pastor” (Nm 27,17).

Relação com as outras leituras

A Primeiera Leitura e o Salmo refletem essa realidade da importância do pastoreio como imagem escatológica do Pastor que reúne e guia o povo de Deus com ensinamento, oferecendo-lhe comida. Ao tema do pastor ausente ou malvado, a liturgia contrapõe a compaixão de Jesus para com a multidão.

A observação em Mc 6,34 que Jesus começa a ensinar o povo, indica em que coisa consista, antes de tudo, a sua atividade de pastor. Assim fazendo, o milagre que vem a seguir (banquete da multidão em 6,35-44) é colocado sob uma luz precisa, o milagre é subordinado ao ensinamento e inserido nele.

 

 

15º Domingo do Tempo Comum
Dia: 11 de julho de 2021
Primeira Leitura: Am 7,12-15
Salmo: 85/84,9ab-10.11-12.13-14
Segunda Leitura: Ef 1,3-14
Evangelho: Mc 6,7-13

O evangelho deste domingo pertence ao bloco conhecido como “Jesus e os discípulos” (6,6b–8,30). Para compreendermos bem o trecho que lemos nesta liturgia (6,7-13) e sua conclusão no próximo domingo (6,30-34), é necessário observar que Marcos usa a técnica das intercalações. Esta técnica consiste em inserir, entre o início e o fim de um episódio, outra cena. No nosso caso, ele insere outras duas narrações – Herodes ouve falar de Jesus (6,14-16) e a decapitação de João Batista (6,17-29) – com a finalidade de dar um tempo para que o processo chegue a seu fim: Jesus envia os doze (vv. 7-13), os doze retornam da missão (vv. 30-32).

V. 7a: E convocou os Doze e começou a enviá-los dois a dois. Em 3,13-15, Jesus havia constituído sua comunidade com duas finalidades: “para que estivessem com ele, para enviá‑los a pregar”. Até agora, o evangelho havia narrado o aprendizado com Jesus: “estar com ele”. Chegou o momento de os discípulos partirem em missão.

Por que enviá-los “dois a dois” (v.7b)? Já no Antigo Testamento, para uma afirmação ter credibilidade, era necessário o testemunho de ao menos duas pessoas (Dt 19,15). Tal prática foi assumida no início da Igreja, para dar à palavra proclamada peso e valor. É também um modo de dizer que as comunidades dão testemunho de igualdade e de solidariedade.

Ao enviar seus discípulos, Jesus lhes dá autoridade sobre os espíritos impuros. Devemos notar que não se fala de expulsar demônios, mas apenas de autoridade sobre os espíritos impuros. Ao evitar o termo “demônios”, o autor quer incluir também os próprios enviados: eles devem controlar seu próprio fanatismo e suas pretensões de superioridade sobre o povo. Tais sentimentos são obstáculos para o anúncio da boa nova

Nos vv. 8-9, um pequeno elenco de recomendações: Ordenou-lhes que não levassem nada no caminho, a não ser um bastão: nem pão, nem sacola, nem dinheiro no cinturão; mas, fossem calçados de sandálias e não usassem duas túnicas. Tais diretrizes podem ser lidas na perspectiva social: bem mais do que despojamento, o que está em jogo é a proteção da vida dos discípulos missionários. Nos tempos de Jesus, as estradas regionais que ligavam as aldeias eram muito perigosas: além de frequentadas também por animais selvagens que poderiam atacar os viajantes, os caminhos eram campo aberto para ladrões, bandidos armados e arruaceiros. Portanto, a sacola com dinheiro e os pertences extras despertariam o interesse dos salteadores, como se vê na parábola do samaritano misericordioso (Lc 10,30). O bastão era para autoproteção, contra animais e eventuais agressores.

V. 10: Onde quer que entreis numa casa, ficai ali até sairdes de lá. Na tradição judaica, a hospitalidade era muito valorizada. O Antigo Testamento apresenta Deus como o anfitrião que protege e alimenta seu povo no deserto (Sl 23). Por tal razão, Israel considera uma obrigação demonstrar hospitalidade para com os estrangeiros. Para o judaísmo antigo, este era um compromisso supremo, que deveria beneficiar sobretudo pobres e estrangeiros. A orientação dada por Jesus supõe que o senhor da casa proteja e alimente os discípulos missionários. Como agradecimento, o hóspede, se tivesses condições, agradecia com um presente; caso contrário, deixava apenas uma oração e uma invocação de bençãos.

V. 11: Sacudi a poeira da sola dos vossos pés em testemunho contra eles. Trata-se de um gesto de ruptura (At 10,51), isto é, daquela casa, povoado ou cidade que não pratica a hospitalidade e se recusa a receber o Evangelho, não se leva nada, nem mesmo a poeira grudada na sola dos calçados. Esta é uma ação simbólica, feita para levar o povo local a pensar; uma ação simbólica bem mais eficaz do que um ato de violência verbal.

V. 12: E saindo, eles proclamaram que se convertessem. O evangelista não diz o nome das aldeias, nem quanto tempo dura a missão; apenas que se colocam a caminho. Este anúncio, porém, não está explicitado no v. 7, que descreve o conteúdo da missão como “deu-lhes autoridade sobre os espíritos impuros”. O leitor agora é informado que o foco da missão não é a multiplicação de milagres e exorcismos, e sim o arrependimento. As curas e a expulsão dos muitos demônios (citados explicitamente somente no v. 13) são ações potenciadoras do anúncio, mas não o elemento mais importante e necessário.

14° Domingo do Tempo Comum
Dia: 04 de Julho de 2021
Primeira Leitura: Ez 2,2-5
Salmo: 123/122,1-2a.2bcd.3-4
Segunda Leitura: 2Cor 12,7-10
Evangelho: Mc 6,1-6

 

Evangelho

O relato poder ser a continuação lógica de Mc 3,20-35, quando Jesus se confronta com os familiares. Aqui ele se confronta com os conterrâneos de Nazaré e os parentes são novamente citados, agora, até pelo nome.

A perícope faz ligação com a seção dos milagres (4,35-5,43) e a seção da incompreensão (6,7-8,26). Reflete o ensino que se prolongará na próxima seção (v.2-3a) e os milagres da seção anterior (v.3b). Tanto o ensino, como os milagres impressionam, porém isto se choca com a imagem de Deus que os conterrâneos têm oriunda do Antigo Testamento. Eles professam um Deus forte, todo poderoso, justiceiro e vingador, cujo nome – Yahweh – não se poderia pronunciar. Daí resulta que o messias por ele enviado, deveria se enquadrar neste mesmo conceito: forte, imbatível, vingativo e justiceiro. Um messias vencedor.

Jesus, nem de longe se enquadrou nesta ideia de Deus e, por isto mesmo, sua função de messias, também nada tinha a ver com tal concepção. O messias, pensavam seus conterrâneos, vem de lugar desconhecido (Jo 7,27). Ele, no entanto, é o carpinteiro de origem humilde e conhecida. É citado como o filho de Maria, o que pode ser um desprezo, pois israelita que se preza é citado como filho de varão. Citar a mãe, indica viuvez da mesma, ou alguém que nem nome de pai tem. Não obstante sua origem humilde, ele realiza sinais (ensino e milagres) que causam espanto. Daí o escândalo. Sabem que Jesus nunca estudou (Jo 7,15) e acreditam que Deus não permite a um pecador fazer milagres (Jo 9,31). Como entender tudo isto? Pode, Deus se manifestar numa pessoa tão simples e frágil assim?

Esta cosmovisão religiosa dos conterrâneos foi o grande empecilho para aderir a Jesus, pois tal adesão, além de exigir conversão de mentalidade, exige fé. Sem a fé, nem o ensino e, menos ainda os milagres levam a aceitar Jesus. Os milagres nunca foram, em Jesus, espetáculos para convencer curiosos do sobrenatural. Sem a fé, os milagres não existem. Por isto, diante da incredulidade dos conterrâneos, Jesus ficou sem fazer milagres. Os conterrâneos não conseguiram entrar na lógica da cruz (1Cor 1,22-25). Sua messianidade não é apenas a encarnação humana, mas inserir-se na última situação em que vivem os humanos: a fraqueza desde o nascimento até a cruz. Diante disto se constata que o povo simples adere (Mc 1,22; 2,1ss; 3,20s), mas outros se recusam: as autoridades (Mc 3,6), os parentes (Mc 3,20ss), os conterrâneos (Mc 6,1ss). Talvez se possa explicar esta adesão/recusa de duas maneiras. 1) o povo simples sofre e por isto procura libertação; 2) o povo não estava tão condicionado pela teologia oficial que afastava o povo de Deus e Deus do povo. Já a elite, com sua visão teológica viciada, incorreu na frase de Is 6,9-10: tem olhos e não veem e, ouvindo, não entendem (Mc 4,12).

Jesus já ensinara na sinagoga de Cafarnaum (Mc 1,21ss). Tanto lá, como em Nazaré, ele ensina e causa boa impressão. Marcos não diz o que ele ensinava, mostra apenas o ensino com a prática libertadora. O texto paralelo de Lc 4,14-30 traz algumas ideias do seu ensino. Nazaré é a última ida de Jesus à sinagoga. Mais tarde, irá ao templo para o confronto final (Mc 11-12). Tanto no encontro com os parentes, como no presente relato, encontra-se um eco daquilo que mais tarde, nos anos 90, o quarto evangelho escreve: “Veio para o que era seu, mas os seus não o acolheram” (Jo 1,11).

Relação com as outras leituras

O profeta Ezequiel, apenas um filho de homem, mero homem, foi enviado aos israelitas para lembrar a palavra de Deus. Devido a sua humilde condição, não o ouvirão, como também os conterrâneos de Jesus. Estes, como aqueles, desprezam os apelos de Deus que se manifestam nos pequenos. O mesmo se percebe em Paulo que, não se gloria de suas grandezas, mas justamente de suas fraquezas. Ele mostra que Deus não precisa de homens fortes para realizar seus planos. Ele não escolhe os autossuficientes, mas dá a graça aos fracos e com eles realiza seus desígnios salvíficos. Esta é a lógica de Deus que se revela nas três leituras da liturgia deste domingo.

 

         13º Domingo do Tempo Comum

27 de junho de 2021
Evangelho: Mc 5, 21-43
Primeira Leitura: Sb 1, 13-15; 2, 23-24
Segunda Leitura: 2 Cor 8, 7.9.13-15
Salmo: 30/29, 2.4.5-6.11.12a.13b

 

Particularidades da narrativa em Marcos em relação aos demais sinóticos.

Esta narrativa que inclui a “Mulher com hemorragia” e “Jairo e Talita” apresenta uma construção particular. Possivelmente originada no Evangelho da comunidade de Marcos, também se apresenta nos outros sinóticos (Mt 9,18-26, Lc 8,40-56). Sendo assim, foi uma tradição comum, introduzida primeiramente por este Evangelho. Acontece que a comunidade de Mateus não se interessa tanto por esta narrativa e a apresenta de forma resumida, omitindo especialmente os detalhes referentes a Jairo (o diálogo com Jesus), os discípulos que lhe acompanharam ao aposento da menina e a ordem para que lhe dessem de comer, entre outros. Já Lucas se aproxima mais da narrativa da comunidade de Marcos, apenas omitindo as palavras em aramaico “Talita cumi” (Mc 5,41). Então, qual seria a intensão da comunidade de Marcos e manter com tanta fidelidade esta costura narrativa ao ponto de incluir a expressão em aramaico?

A costura narrativa e o sentido da inclusão além do “senso comum”

Marcos 5,21-43 apresenta dois milagres, ambos envolvendo mulheres, literalmente costurados em uma única narrativa, o que não pode ter sido por acaso. A costura é feita através de expressões estruturantes:

A- As apresentações – (v.21-26) Jesus passa para “o outro lado”, encontra “muita gente comum” (óxlos polús) em contraste como o “chefe/primeiro/principal da sinagoga” (archisunagógon) “Jairo” que “cai aos seus pés”. No versículo 23 é apresentada a “pequena/jovem filha” (tugáter).  Jesus vai junto com este homem, sendo seguido/acolitado (ekouloútei) e “apertado” pela “muita gente comum”. “Uma mulher que tinha um fluxo de sangue há doze anos” é apresentada. E logo se narra seu sofrimento, passando por muitos médicos (iatros), gastando/perdendo tudo o que tinha, e ficando ainda pior. Mas a chave simbólica está no número de anos!

B A primeira ação questionada pela presença da multidão – (v.27-33) Dá-se a primeira ação: a mulher anônima se apropria da bênção tocando nas vestes. Aqui aparecem novos personagens: os discípulos, que questionam Jesus sobre a reação após ser tocado pela mulher.

C – A fé exemplar da pessoa que excluída que se torna filha - (v.34-35) A mulher conta o que fez e sua fé é reconhecida por Jesus, chamando-a de “pequena/jovem filha” (o mesmo termo usado para a filha de Jairo em 5,23).

B’ – (v.35-37) – A segunda ação questionada pela morte da filha -  Chega a notícia da morte que a “pequena/jovem filha” está morta e, diante do que as pessoas da sinagoga questionam sobre a necessidade de “incomodar o Mestre” (em Marcos, Jesus é chamado de “Mestre” 12 vezes, estando apenas atrás de Lucas, 18 vezes). Com o apelo à fé (que a mulher já demostrou ter): “não tenhas medo, somente crê” (v.36b). Escolhendo, os mesmos discípulos que lhe acompanharam no monte da transfiguração (v.37; cf. 9,2).

A’ – (v.37-43) – A apresentação da menina/mulher -Agora a “pequena/jovem filha” é chamada, por primeira vez, de “menina” (paidou), o que corresponde ao termo aramaico “Talita” (v.39.40.41). Mencionando que a menina tinha doze anos, isto é, estava se tornando “mulher” (próxima ao tempo da menstruação).

Como vemos na descrição da costura narrativa apresentada acima, ela carrega o enfrentamento da incompreensão do sentido inclusivo da fé. A situação apresentada por estas mulheres/filinhas e seus desdobramentos é a forma de Jesus ensinar sobre isto, por isso é chamado de Mestre (didaskalon). O número doze une ambas as situações, ambas ações, o grupo dos discípulos e, portanto, a missão da comunidade de Jesus como um todo. É uma lição que se aprende a partir das pessoas anônimas, quando se está no meio das pessoas simples, quando se atravessa “para outro lado”, daquilo que o “senso comum” (o que geralmente é aceito como “normal” ou “possível”). Daí os questionamentos tanto do grupo de discípulos quanto do grupo da sinagoga. Se estabelece, então, o direito de ir além do senso comum! A mulher, embora tremendo de medo, se atreve a tocar nas vestes e tem sua fé reconhecida como capaz de promover cura, vida e inclusão. O chefe da sinagoga tem de suplicar, superar o medo, ter fé, para que sua filinha seja salva, o que só acontece quando Jesus revela a capacidade de levantar por si mesma, assumindo, inclusive, sua identidade e ancestralidade cultural, aramaica, daí a importância da expressão: “Talita cumi”.

A relação com os outros textos para este Domingo

O livro de Sabedoria aponta para o sentido vital de tudo o criado, inclusive tendo sentido terapêutico, assim como o sentido vital da existência humana. No entanto, este princípio sapiencial só é possível quando as pessoas antes excluídas, silenciadas, mantidas no anonimato, são reconhecidas em suas ações, que se atrevem a furar o cerco da exclusão e se negam a aceitar a morte como realidade insuperável. Na Segunda Carta aos Coríntios, neste sentido, chama a atenção a sensibilidade da igreja dos primeiros tempos em relação as exclusões e desigualdade a serem superadas pelo “sincero amor”, quando afirma: “Não se trata de que outros vivam tranquilamente e a vocês falte, mas que haja igualdade” (2 Cor 13-14a).

 

 

12º Domingo do Tempo Comum
Dia: 20 de junho de 2021
Primeira Leitura: Jó 38,1.8-11
Salmo: 107/106,23-24.25-26.28-29.30-31
Segunda Leitura: 2Cor 5,14-17
Evangelho: Mc 4,35-41

 

No início da perícope Marcos se preocupou em criar uma ligação com a cena anterior da grande pregação no lago. A barca com a qual Jesus atravessa o lago é a mesma que havia lhe havia servido de púlpito. As outras barcas presentes não serão mais mencionadas. A tarde que termina (escuridão que chega) funciona como pano de fundo eficaz ao relato.

O milagre da tempestade acalmada evoca a luta primordial de Deus contra o oceano, concebido no Antigo Testamento como aquele que devorava os seres humanos, submergindo-os no abismo. Somente Deus pôde domá-lo com a sua onipotência quando criou o mundo. Por isso a primeira leitura traz o discurso que o Senhor faz a Jó.

O relato apresenta numerosas afinidades com a história de Jonas e relaciona-se com salvações milagrosas proclamadas no Sl 106. Na descrição é recorrente o motivo do poder do Senhor sobre ondas, tempestades e sobre o mar, repetidamente descrito e celebrado no Antigo Testamento. Domina a ideia que Deus salva da angústia: “Na sua angústia invocaram o Senhor, e Ele salvou-os da aflição. Transformou o temporal em brisa suave, e as ondas do mar amainaram” (Sl 106,28).

Literariamente a perícope tem afinidades com o relato do primeiro exorcismo operado por Jesus na sinagoga de Cafarnaum (1,21-28). Os elementos, vento e água, se rebelam. Jesus ordena que se acalmem e eles obedecem. Temos aqui um autêntico exorcismo sobre as forças “diabólicas” do vento e do mar.

O episódio assume um forte sentido cristológico: Jesus será submerso na tempestade da Paixão, a sua morte é aqui simbolizada pelo sono. A tempestade acalmada preludiava sua vitória sobre a morte. Cristo ressuscitado salva a humanidade das jornadas de abismo, doando a vida eterna.

Com a tempestade, descrita em detalhes, a barca é ameaçada de afundar. Em contraste com tudo isso, Jesus dorme na popa do barco. Seu sono é expressão da sua soberania e segurança. Contrariamente a Jesus, os discípulos estão excitados e o acordam com uma imprecação.

Além do acentuado caráter cristológico, percebe-se no relato uma intenção eclesiológica. A repreensão pela falta de fé dirigida por Jesus aos discípulos que estavam com ele na barca é endereçada pelo evangelista aos cristãos da sua comunidade desacorçoados no seu amor a Cristo. Note-se que a repreensão de Jesus no v.40: “Por que tendes medo? Ainda não tendes fé?” soa como resposta à repreensão que os discípulos haviam dirigido a ele anteriormente (v. 38): “Mestre, não te importa que pereçamos?”

Com os vers. 39-41 chega-se à culminação do drama. Jesus não reage ainda à bronca dos discípulos, mas pronuncia a palavra milagrosa. Aqui a tempestade e o mar são interpelados como seres viventes e lhes é ordenado de acalmarem-se.

É importante observar que a autoridade atribuída no Antigo Testamento a Javé (a prerrogativa de aplacar as tempestades era exclusiva do Criador), é concedida a Jesus, o qual não faz acontecer o prodígio por meio de uma oração, mas pela plenitude do seu poder. Somente depois de haver completado o milagre Jesus se dirige aos discípulos. Lamentando-se pela sua pusilanimidade e incredulidade. Onde está, então, a verdadeira falha dos discípulos? O seu erro consiste em pensar somente em si e não estarem prontos a partilhar os perigos entre eles e Jesus. A situação se repetira na sua fuga da Cruz. No comportamento de Pedro em Mc 8, 32s se exprime o mesmo espírito.

Os discípulos descritos por Marcos tornam-se um exemplo de advertência para a comunidade não cair não mesma incredulidade.

A incredulidade inicia onde os cristãos, por pusilanimidade e medo, não estão disponíveis a assumir os perigos junto com Jesus e com as outras pessoas. Quem crê segue Jesus na obscuridade do sofrimento. Assim, pode também esperar em comunhão com a Igreja.

 

 

11º Domingo do Tempo Comum
Dia: 13 de junho de 2021
Primeira Leitura: Ez 17, 22-24
Salmo: 92/91, 2-3.13-14.15-16
Segunda Leitura: 2 Cor 5, 6-l0
Evangelho: Mc 4, 26-34

 

O Evangelho de hoje conta duas parábolas. A parábola, no mundo judaico, era a forma para ensinar o povo simples. Mas a parábola ao mesmo tempo que revela, esconde, porque é sempre uma comparação com imagens. Só entende a parábola quem conhece as imagens. Quem conta a parábola parte de uma realidade conhecida pelos ouvintes e os leva a tirar uma conclusão, por vezes julgando os fatos e os personagens da história contada.

As parábolas do evangelho deste domingo apresentam dois aspectos do Reino de Deus. Na primeira parábola, um aspecto individual (Mc 4,26-29); na segunda parábola, um aspecto comunitário (Mc 4,30-34). As duas parábolas de hoje falam do ambiente rural, pois a maior parte da população da Judeia nos tempos de Jesus morava e trabalhava no campo. Para compreendê-las melhor, é necessário ter algumas informações.

As duas parábolas falam de um solo fértil. Nos tempos de Jesus, os terrenos mais férteis e produtivos encontravam-se na Galileia. Aliás, é onde Jesus reúne uma multidão para ensinar em parábolas (Mc 4,1).  Mas já havia naquele tempo uma concentração de propriedades rurais, em modo semelhante ao que hoje chamamos de “latifúndios”. Em alguns casos, os donos viviam longe (na Judeia ou até mesmo em Roma) e quem trabalhava a terra eram os diaristas, que recebiam baixos salários: uma dacma grega ou um denário romano. Ambas as moedas tinham valor equivalente: cerca de 4 gramas de prata (menos de R$ 20,00!). Este dinheiro era suficiente apenas para alimentar quatro pessoas por um dia.

A primeira parábola (4,26-29) é exclusiva de Marcos, isto é, não é encontrada nos outros evangelhos. Nela, o Reino de Deus é como o homem “que joga a semente na terra”. Devemos notar: é como o agricultor, e não como a semente. Não obstante, o desenvolvimento do Reino é um mistério: não depende do agricultor, e sim da força da terra: “Quer ele durma, quer desperte, noite e dia, a semente germina e cresce” (v.27). Isso não significa que a parábola estimule a acomodação e a preguiça; ao contrário, convoca à esperança: a semente semeada produzirá frutos e haverá colheita, pois o Reino tem sua própria dinâmica e sua própria força, independente dos conhecimentos e da vontade de quem trabalha por ele.

Para os hebreus, desde a germinação até o amadurecimento das plantas, o sucesso da lavoura dependia de uma intervenção direta de Deus. A colheita, portanto, era um dom divino. Por meio desta parábola, Jesus expressa sua certeza de que o Reino de Deus chegará, porque é obra do próprio Deus. A ação de quem se compromete com o Reino não substitui a ação de Deus: o discípulo planta, rega, mas quem dá o crescimento é Deus (mesma imagem usada por Paulo, em 1Cor 3,6). Por outro lado, Deus também não dispensa a colaboração das mulheres e dos homens comprometidos com a transformação da história e da sociedade.

A primeira parábola termina com a afirmação de que, “quando o fruto está pronto, imediatamente passa‑se a foice, porque chegou a colheita” (v. 29). O símbolo da colheita tem grande significado na tradição bíblica: é o tempo da festa e da alegria, é o tempo em que Deus presenteia seu povo com os frutos (Is 9,2; 17,5-7).

A segunda parábola (vv. 30-32) não fala da semente em geral, mas fala especificamente do grão de mostarda. Também não fala do crescimento misterioso do Reino, mas do contraste entre a situação inicial e o resultado. O ponto de comparação não é o sabor da mostarda, mas a força escondida no grão. A interpretação usualmente feita refere-se à menor semente que se torna a maior das hortaliças. De fato, as plantas de mostarda encontradas ao redor do lago da Galileia são arbustos que podem chegar a três metros de altura. Mas talvez haja outra possibilidade de ler esta parábola.

O escritor romano Plínio, o velho, (23-79 d.C.) escreveu que a mostarda, com seu sabor extremamente picante, era uma planta silvestre que se propagava e fugia rapidamente do controle, principalmente nas terras férteis da Galileia. O grão minúsculo era levado pelos ventos e os pés de mostarda se multiplicavam a ponto de ocupar as terras em que não era desejada e impedir o crescimento de outras plantas.

A mostarda, portanto, tem ao menos três características – o sabor marcante, o crescimento acima do aparente e a expansão além do terreno semeado – que ajudam a compreender a força do Reino de Deus: embora a ação dos cristãos seja modesta e aparentemente inútil, o Reino se realizará com toda a sua grandeza. Para quem espera um reino que chega em modo triunfal e com cataclismos cósmicos, Jesus afirma que a ação de Deus já está acontecendo, no ministério humilde e pouco espetacular dos discípulos.

Os vv. 33-34 são a conclusão do discurso parabólico do capítulo 4 do evangelho de Marcos. Devemos notar a diferença entre “multidão” e “discípulos”. A multidão é o povo em geral, que seguia Jesus e que, apesar de ouvir seus ensinamentos, não se comprometia com ele. Os discípulos são os que pertencem a um grupo mais próximo, que acompanha Jesus e recebe uma instrução mais aprofundada.  O texto não diz que Jesus fala o que o povo quer ouvir, nem o que o povo tem a capacidade de aceitar. Ao contrário, Jesus usa a linguagem que o povo entende até mesmo para repreender o povo. Mesmo assim, para a multidão, as parábolas permanecem um certo enigma, porque ao mesmo tempo em que revelam, escondem. Aos discípulos, porém, Jesus reserva um ensinamento mais explícito: desde o início, ele os prepara para a missão.

 

 

10º Domingo do Tempo Comum
Dia: 06 de Junho de 2021
Primeira Leitura: Gn 3,9-15
Salmo: 130/129, 1-2.3-4ab.4c-6.7-8
Segunda Leitura: 2Cor 4,13-5,1
Evangelho: Mc 3,20-35

Evangelho

O texto, como também o relato da filha de Jairo (Mc 5,21-43), vem na forma de sanduíche. Começa com o confronto com parentes (20-21), intercala o conflito com os escribas (22-30) e volta a falar dos parentes (31-35).

Para a compreensão do texto convém começar com a contraposição dos de dentro da casa que ouvem Jesus (v.20) e os de fora (v.31ss) que não ouvem. Os de dentro compreendem, os de fora, não (Mc 4,11). O povo simples entra na casa, como já o fizera em Mc 2,1ss para ouvi-lo, mas os consanguíneos ficam de fora e o julgam sem juízo. A lógica do Reino não é compreendida pelos laços familiares, mas por aqueles que acolhem Jesus e fazem a vontade do Pai que ele revela.

A nova família difere da velha. Na primeira importa a descendência de Abraão: laços sanguíneos. Na segunda, o que importa é aproximar-se de Jesus e fazer a vontade de Deus. Os da nova família, entram dentro da casa e se aglomeram para ouvir sem os critérios da oficialidade religiosa. Estão ávidos de assimilar a Boa Nova. Os da velha família de sangue, ficam fora, distantes, pois julgam a prática de Jesus como loucura. Qualquer semelhança com os irmãos da parábola do filho pródigo (Lc 15,11ss) não é mera coincidência. O filho mais velho, o que pratica a Lei, tem dificuldades diante da Boa Nova de Jesus que revela um Deus diferente daquele da religião oficial. Diante desta realidade, formam-se outras relações: nova família. Nesta não se entra por descendência, mas tão somente pela acolhida de Jesus e de seu evangelho.

O conflito com os escribas (22-30) é mais uma vez o conflito com a oficialidade religiosa. Para eles, a Boa Nova (Mc 1,1) destinada aos pobres e excluídos (cf. Lc 4,18-19) é um escândalo, por isto, atribuem-na a Beelzebu (Beel é uma variante de Baal, deus cananeu). Quando a Boa Nova da libertação dos sofredores é encarada como obra do diabo, então a pessoa que assim procede, cortou o canal de graça que vem de Deus por seu Filho que age no Espírito Santo (Mc 1,10). Isto é um pecado contra a ação do Espírito Santo que se manifesta em Jesus. Pecado este, que não tem perdão. Isto não significa que, quem uma vez assim pecou está irremediavelmente condenado ao inferno. O que o texto quer dizer é que todos os pecados que se cometa, podem ser vistos como lapsos, fraquezas e por isto mesmo, passíveis de perdão. Quem, porém, se fechar contra a Boa Nova de Jesus e atribuir isto ao demônio, a não ser que mude, rompeu com a graça, isto a lógica do Reino. Esta pessoa se auto exclui, e assim não chega ao perdão. Note-se que, neste caso não é Deus que condena, é a pessoa que se fecha ao amor de Deus.

Na resposta que Jesus dá aos escribas sobre entrar na casa do homem forte, amarrá-lo e saquear seus bens (v.27) está o ensino de que Jesus entra na posse do diabo (homem forte) e como mais forte do que ele, amarra-o e o vence (cf. Is 49,24s), como também o dirá em Jo 12,31 e 16,11, quando o príncipe deste mundo será derrotado: “eu venci o mundo” (Jo 16,33b). Ou seja, Jesus, na cruz, destruiu o que o demônio havia amealhado.

A Boa Nova de Jesus (Mc 1,1) é incompreendida, tanto pela parentela que quer detê-lo – nota apenas trazida por Marcos – como pelos escribas que, mais do que incompreendê-lo, atribuem sua ação ao demônio.

Reação com as demais leituras

Não entrar na lógica de Deus já foi um problema nas origens. Adão e Eva queriam prescindir de Deus, como os escribas queriam prescindir da Boa Nova de Deus revelado por Jesus. Isto leva à ruína (primeira leitura). A nova lógica de Jesus também se reflete na reflexão de Paulo quando contrapõem o homem exterior ao interior e nele vê a realização das esperanças cristãs.

 

 

Dia: 30 de Maio de 2021
Domingo da Santíssima Trindade
Evangelho: Mt 28, 16-20
Primeira Leitura: Dt 4,32-34.39-40
Segunda Leitura: Rm 8, 14-17
Salmo: Sl 33/32, 4-5.6.9.18.19.20.22

 

Evangelho

O Evangelho deste Domingo da Santíssima Trindade, segundo Gillermo Hendriksen (El Evangelio según San Mateo) recebe três nomes diferentes: “a grande declaração”, “o grande mandato” ou “a grande consolação”. Na verdade este autor capta bem esse tríplice sentido com que culmina o Evangelho de uma igreja perseguida e abatida pela violência que parece não ter fim. Uma “declaração”, porque anuncia o “poder/autoridade” (exousia) que lhe é dado no céu e na terra (26.18). Um “mandato”, porque tem o “ide/vai” (poreutentes) e “discipulai/fazei discípulos/as” (mateteusate) em 26.19. E uma “consolação”: “estarei com vocês todos os dias até o fim do tempo” (eon).

Podemos dizer que o final do Evangelho segundo a comunidade de Mateus é um abraço trinitário que empodera, envia e anima. Por outro lado, a formulação única da Trindade neste texto – único em que aparece a fórmula “do Pai e do Filho e do Espírito Santo” – chama a atenção e gera questionamentos: como será que esta comunidade chegou a esta fórmula trinitária tão clara e vinculada ao batismo? Certamente, foi fruto deste abraço particular com que Jesus reencontra seus discípulos onde tudo começou: na Galileia.

Não esquecer o ponto de partida (26,16)

O texto faz questão de criar um contexto. Enfim, a declaração, o mandato e a consolação poderiam ter sido ditas em qualquer lugar, até mesmo em Jerusalém. Mas, a Jerusalém que esta comunidade lembra está destruída e banhada em sangue (inclusive de pessoas das comunidades cristãs). No versículo 16, diz que “quando os discípulos foram para Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha ordenado”. Jesus é que “ordena” (etassato) buscar o ponto de partida – princípio depois adotado por Santa Clara de Assis – e a uma montanha onde tudo pode se ver e compreender em amplitude e profundidade (assim como no sermão em Mt 5-7 ou na transfiguração Mt 17.1-9, lugar que é mais lembrado neste Evangelho do que em qualquer outro).

Viver a adoração e superar a dúvida (26,17)

A atitude de “adorar” (proskineo) também é mais usada neste Evangelho do que em qualquer outro. Os primeiro a adorá-lo foram os Sábios de Oriente (Mt 2,2.8.11). Jesus lembra do mandamento de “adorar somente ao Senhor teu Deus” para vencer Satanás (Mt 4.10), às pessoas lhe adoraram pedindo cura para si ou para outras pessoas (Mt 8,2;9,18;15,25), e também os próprios discípulos e discípulas reconhecendo sua divindade e ressurreição (Mt 14,33;20,20, 28,9). Mas, tem aquelas pessoas que ainda duvidavam (edistaxan), uma palavra que aparece somente neste Evangelho e apenas duas vezes, aqui e quando Pedro afundava na água por duvidar (14,31). Esta comunidade tinha fé (adorava), mas isso não apagava a dor, a dúvida, a incerteza, que precisava ser empoderada, enviada para a missão e animada pela presença permanente de Jesus.

O abraço trinitário do discipulado e do batismo (26,18-20)

A revelação da Trindade emerge do abraço amoroso do Senhor Crucificado/Ressuscitado. Desde a montanha onde tudo começou, onde Jesus abraça esta comunidade fragilizada pela dor, cheia de fé e dúvidas, se dá ordem da caminhada final, até o fim deste tempo de violência e injustiça, de desamor e abandono. Por isso Jesus “chega perto”, se “aproxima”, “senta junto”, todos significados da expressão proselton, em grego. Então lhes declara que eles têm, em seu nome, “todo o poder” (contra o qual poder algum poderá, nem mesmo estes que agora causam tanto sofrimento. v. 18), lhes envia a dar esse mesmo abraço parental, fraternal e empoderador. Abraço que se partilha discipulando e batizando, sem exclusão (a todas as nações) e, consolando, pois não acaba enquanto este tempo (eon) carente amor, justiça e paz, durar (v.20).

Relacionando com os outros textos

A Santíssima Trindade é Deus que abraça, da mesma forma que desde a criação abraçou amorosamente a humanidade e depois abraçou o povo oprimido e sem terra, dando um rumo e um sentido para sua caminhada (Dt 4.32-34.39-40). Abraço trinitário que se revela através do Espírito de adoção e não de escravidão que o apóstolo Paulo apresenta para a comunidade de Roma (Rm 8,15-16).

 

 

Pentecostes
Dia: 23 de maio de 2021
Primeira Leitura: At 2,1-11
Salmo: 104/103, 1ab e 24ac.29bc-30.31.34
Segunda Leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13
Evangelho: Jo 20,19-23

O texto do Evangelho de João se compõe de duas partes: reconhecimento de Jesus (vers. 19-20) e mandato missionário aos discípulos com a efusão do Espírito (vers. 21-22). Os dois momentos são articulados através da saudação: “a paz esteja convosco”.

Jesus havia aparecido a Maria Madalena junto ao sepulcro no domingo da ressurreição pela manhã. À tarde comparece, de repente, em um local onde as portas estão fechadas. As portas fechadas são um dado importante para percebermos a concepção que o evangelista quer transmitir de como o corpo de Jesus se transformou a ponto de passar através de portas fechadas. No entanto, mantém a imanência das marcas da crucifixão nas mãos e no flanco.

Jesus aparece aos discípulos para inaugurar o tempo escatológico, marcado pelo dom do Espírito. Ao medo dos discípulos, refugiados num espaço fechado, se contrapõe a liberdade do Ressuscitado que entra de supetão ignorando as portas fechadas.

A expressão “a paz esteja convosco”, repetida duas vezes não é uma simples saudação: expressa a concessão do dom messiânico por excelência, a paz.

Jesus retornou a seus discípulos pouco depois de sua partida, como havia prometido durante a última ceia (16,16-22), mas não no mesmo estado precedente de caducidade terrena, mas com o corpo transfigurado. A paz e a alegria representam os dons preditos pelos profetas para o tempo messiânico. Bastou que Jesus se fizesse reconhecer, mostrando as feridas nas mãos e o flanco perfurado, para os discípulos ficarem “cheios de alegria”. Curioso o fato de não se mencionarem os pés (como em Lc 24,40, em que, no entanto, não se menciona o flanco, em virtude de só em João o flanco de Jesus ser trespassado pela lança do soldado).

Jesus confere aos discípulos o encargo missionário: “Como o Pai me enviou, eu envio a vós” (v.21). Jo estabelece um paralelo entre a missão que Jesus havia recebido do Pai e o mandato que ele agora ele confia aos apóstolos. O advérbio kathōs, “como”, não indica somente semelhança, mas também fundamento. Os discípulos devem continuar a missão confiada pelo Pai a Jesus, tendo ele como modelo e buscando dele a força para seu ministério.

A santificação dos discípulos advém mediante a palavra reveladora de Jesus e a ação do Espírito Santo. Por isso a necessidade da efusão do Espírito como princípio da vida nova e como animador e auxílio indispensável para a missão.

A simetria da expressão ao início dos vers. 20 e 22 (“e dizendo isso”) assinala o nexo estreito entre a ostensão do flanco perfurado e o dom do Espírito Santo: a sua ação é inseparável daquela de Cristo. A efusão do Espírito Santo antecipada simbolicamente pela saída do sangue e água do costado de Cristo representa o ponto culminante da missão de Jesus. O sopro de Jesus sobre os discípulos se conecta ao testemunho inicial de João Batista no Jordão, quando o proclamou: “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo’ e o apresentou como “Aquele que batiza com o Espírito Santo” (1,29.33).

O verbo “soprou” (enephýsēsen = insuflou) evoca a obra da criação, quando Deus plasmou o ser humano com o barro e soprou (enephýsēsen) em suas narinas um hálito de vida, tornando-o um ser vivente (Gn 2,7; Sl 103,29-30; cf. Sb 15,11; Ez 37,9). O gesto em Jo 20,22 significa que Jesus suscita nos discípulos uma vida nova no Espírito Santo. As palavras do Ressuscitado tornam explícito o que fora insinuado na cena do Calvário: o Espírito provém do corpo traspassado e glorificado do Senhor, como seu dom à humanidade. Ele será comunicado plenamente, porém, só em Pentecostes (At 2,1-11).

A perícope se conclui relacionando o dom do Espírito Santo com a remissão dos pecados. Em Jo o poder de “reter” ou “perdoar” os pecados tem como objetivo a reconciliação e o retorno dos pecadores a Deus.

 

 

Domingo Ascenção do Senhor
Dia: 16 de maio de 2021
Primeira Leitura: At 1,1-11
Salmo: 46,2-3.6-9
Segunda Leitura: Ef 1,17-23
Evangelho: Mc 16,15-20

 

Evangelho: Marcos 16,15-20

O relato da ascensão em Marcos faz parte da aparição de Jesus aos Onze, o grupo ao qual Jesus confia a responsabilidade da missão. Onze pessoas não poderiam “ir ao mundo todo”. Assim, a manifestação aos Onze é um relato simbólico da entrega da missão a todas as discípulas/os.

Pregação e batismo vv. 15-16: Jesus não diz explicitamente “batizai”, mas o v. 16 deixa claro que o batizar faz parte da missão dos discípulos. Por outro lado, a combinação “fé + batismo = salvação”, e o contrário “não-fé = não-salvação” lembra o diálogo de Jesus com Nicodemos (Jo 3) e vários trechos de Paulo. O que temos, então, é um reflexo da pregação e da prática do início da Igreja.

Os sinais que acompanharão os fiéis vv. 17-18: São cinco sinais e, exceto a resistência ao veneno, todos são atestados na história e na vida da comunidade primitiva. São sinais que acompanharão os fiéis em geral, e não apenas os Onze. Tais sinais confirmam a palavra anunciada. Confirmação que acontece em quem acolhe, e não apenas em quem anuncia. Apenas um comentário: “falar línguas novas” não significa o “falar em línguas inexprimíveis”. É a afirmação de que os discípulos, para levar o evangelho a toda criatura, deverão aprender a língua dos ouvintes….

Jesus foi elevado ao céu e sentou-se à direita de Deus v. 19: Os discípulos podem ter visto Jesus subindo, mas… sentar-se à direita de Deus? Esta é mais profissão de fé do que algo realmente visto. Ressurreição, ascensão/assunção e instalação à direita do Pai são artigos da fé da Igreja. Quem ofereceu o instrumental para crer nisso foi a literatura apocalíptica: Jesus venceu a morte, foi elevado acima dos poderes humanos e cósmicos, e agora é juiz do cosmo e da história.

Jesus, o Senhor, acompanhava os discípulos v. 20: Parece haver uma contradição: Jesus está nos céus, sentado à direita do Pai, mas ao mesmo tempo acompanha os discípulos na terra. Note-se que não é o Espírito quem acompanha os pregadores, mas o próprio Senhor! Esta “bi locação” de Jesus à direita do Pai e, ao mesmo tempo, junto aos discípulos exprime um ponto forte na fé da Igreja: o fato de Jesus estar no céu, à direita do Pai, permite que ele esteja também com todos os anunciadores do evangelho, algo que seria impossível se ele tivesse permanecido fisicamente na terra. O poder com que operam os anunciadores do evangelho provém, por meio de Jesus, do próprio Deus.

Em outras palavras, a Ascensão não é só o remate necessário para a história terrena de Jesus, mas também o complemento necessário para o milagre da Páscoa: o Homem-Deus, já vitorioso sobre a morte, começa a exercer seu poder de justiça e de paz, e oferece a todos a mensagem da salvação, por meio da pregação das/os discípulas/os.

Primeira Leitura: At 1,1-11

A primeira leitura deste domingo pode ser dividida em duas partes: o endereçamento do livro (vv. 1-2) e a narrativa propriamente dita (vv. 3-11). De fato, no v. 2, em apenas uma linha, Lucas faz um resumo de todo o evangelho. Mas é necessário notar também que, no v. 4, as palavras do narrador, de repente, se transformam nas palavras de Jesus: mandou “que esperassem ‘a promessa do Pai, a qual de mim ouvistes’”. Trata-se de um recurso literário pelo qual o narrador elimina a distância entre o leitor e os acontecimentos que vai narrar.

No v. 5, a distinção “batismo com água x batismo no Espírito Santo” marca a diferença entre o batismo de João e o batismo da comunidade cristã. No entanto, a comunidade cristã continua batizando com água. Sem água não se batiza! Qual a diferença?

A frase “batismo no Espírito Santo” indica que as profecias foram cumpridas, enquanto “batismo com água” é expressão para falar que essas mesmas profecias estão prestes a se realizar. Em outras palavras, “batismo com água” = preparação para o cumprimento das promessas; “batismo no Espírito Santo” = cumprimento efetivo das promessas.

É por isso que os discípulos se confundem e não entendem nada! Jesus fala de uma coisa, os discípulos perguntam por outra. Jesus fala da promessa do reino escatológico; os discípulos perguntam se é naquele exato momento que se cumprirá a promessa de que Israel voltará a ser um reino poderoso, um império (v. 6).

A resposta de Jesus parece mal-educada: “não é da conta de vocês quando será tempo cronológico exato (chrónos) nem o momento oportuno (kairós)…” (v. 7). Em outras palavras: “vocês têm algo mais importante pra fazer do que se preocuparem com isso!” E o que é mais importante? É o testemunho sobre Jesus. Por isso, o v. 8 já emenda a promessa do Espírito Santo, que dará as condições necessárias para isso.

Enfim, a cena específica da Ascensão. Note-se como o acontecimento é descrito: Jesus FOI ELEVADO, uma nuvem O ENCOBRIU (o levou), ele FOI ASSUNTO (vv. 9.11). É necessário lembrar que o mesmo acontece a respeito da ressurreição: é dito que “o Pai ressuscitou Jesus”, isto é, Jesus foi ressuscitado, e não ressuscitou por si mesmo! Convém repetir: trata-se da primeira compreensão da comunidade cristã. Só num segundo momento (mas que não vai demorar muito) é que se passa a enfatizar a ação própria de Jesus: ele ressuscitou (e não “foi ressuscitado”) dos mortos e subiu (e não “foi elevado”) aos céus.

No livro dos Atos, a Ascensão/Assunção de Jesus é descrita em tons apocalípticos: uma nuvem encobre Jesus e aparecem dois homens vestidos de branco.

A nuvem é o típico elemento das manifestações de Deus. Mas é também, na apocalíptica, o veículo do Filho do Homem (cf. Dn 7,13). Paulo acredita que, no dia da parusia, Jesus VOLTARÁ e, com ele, todos os mortos ressuscitados e os vivos irão surfando sobre uma nuvem sabe-se lá para onde (1Ts 4,16-17)!

Os homens de branco são os anjos que sempre aparecem em visões apocalípticas para explicar o sentido dos acontecimentos. Normalmente, quem tem a visão não entende nada e um mensageiro divino precisa explicar tudo. Mas os homens-anjos não explicam nada, e sim fazem uma pergunta e uma promessa: “Por que vocês ficam olhando o céu? Ele voltará da mesma maneira como partiu!”  Em outras palavras, a ascensão-sumiço de alguém provoca a esperança de que tal personagem voltará. As palavras dos homens-anjos garantem que tal esperança será realizada.

Mas, Jesus voltará sobre as nuvens? A apocalíptica diz que sim! No entanto, o importante é o contraste: “não fiquem aí olhando para o alto e babando… voltem o olhar para a terra, porque é a hora da missão…”

 

 

6º  Domingo da Páscoa
Dia: 09 de Maio, de 2021
Primeira Leitura: At 10,25-26.34-35
Salmo: 98/97,1.2-3ab.3cd-4
Segunda Leitura: 1Jo 4,710
Evangelho: Jo 15, 9-17

 

Evangelho

O texto deve ser lido dentro do discurso de despedida de Jesus (Jo 13-17) e, portanto, tem valor de testamento. Alguns biblistas creem que estes capítulos receberam influência das celebrações eucarísticas narradas nos evangelhos sinóticos (Mc 14,22-25; Mt 26,26-29; Lc 22,15-20), onde se renova a Aliança. Ora, a Antiga Aliança era a observância das leis. Jo 15,9-17 ilustra esta observância a partir na perspectiva de Jesus, onde há apenas uma lei: o amor.

A presente perícope é o desdobramento da alegoria da videira verdadeira (Jo 15,1-8). A palavra chave que perpassa a perícope, pode ser definida como “permanecer”: no amor de Jesus, no amor do Pai e no amor da comunidade. O amor, síntese de toda Lei, é o elo  deste “permanecer”. Assim sendo:

a)     Vv 9-10 – o amor entre o Pai e o Filho se expressa na comunidade através dos discípulos que amam. O amor do Pai no Filho produz a comunidade, portanto, nela se faz a experiência do amor de Deus através de Jesus, que é a imagem (Cl 1,15) e o resplendor do Pai (Hb 1,3). Este amor requer da comunidade, frutos. O membro da comunidade que não se deixa atingir pelo amor do Pai no Filho, se exclui a si mesmo como o ramo decepado que não recebe a seiva do tronco;

b)     V 11 – O amor traduzido em compromisso, gera a felicidade, tema muito presente no evangelho de João (Jo 3,29; 14,28) e chega à culminância durante a experiência da ressurreição, quando os amedrontados discípulos se enchem de alegria (Jo 20,20);

c)     Vv. 12-13 – Já no AT existe o mandamento do amor (Lv 19,18). Porém, aqui se substituiu “o amar como a si mesmo” por “amar como eu vos amei”. Este preceito remete à experiência da cruz.  Amor que levou Jesus a assumir a doação total deve ser a máxima para os seguidores. A cruz é a marca maior do amor de Jesus: doar a vida pelos amigos;

d)     Vv.14-17 – O amor de Cristo vivido na comunidade muda as relações de servos em amigos, isto é, comunidade sem distinção com comunhão total. Amigos diferem de servos nas relações. Esta novidade é iniciativa de Jesus, pois foi ele que escolheu os amigos. A estes cabe responder na gratuidade, dando frutos que são a consequência do amor.

Na concepção do AT, havia 623 leis com comentários explicativos que tornavam a prática religiosa um peso insuportável (Mt 11,28) que nem Pedro conseguiu suportar (Gl 2,14). Observando todas estas leis, o fiel estaria cumprindo com fidelidade a vontade de Deus. Jesus, em Mc 12,29-31 resume todas estas leis em dois mandamentos: amor a Deus e amor ao próximo. Já no quarto evangelho ele reduz tudo a um único mandamento: o amor ao próximo, como também em se lê em Gl 5,15. João, porém, acrescenta “como eu vos amei”. Portanto, na nova aliança, não é preciso conhecer 613 leis, nem seus comentários detalhados. Basta apenas permanecer no amor de Jesus, pois assim, sintoniza com o Pai e se produz frutos na comunidade e se cumpre tudo o que a velha Lei nunca conseguiu.

No amor do discípulo, manifesta-se o amor de Deus revelado em seu Filho na doação da vida e aí os frutos serão a lógica do caminho da cruz. Como o ramo produz frutos ao receber a seiva do tronco (Jesus), cultivado pelo agricultor (Pai), a pessoa de fé produz frutos oriundos do amor de Jesus que tem sua origem no amor do Pai. Aqui as boas obras não são méritos humanos para agradar a Deus, mas antes, são as consequências de quem mergulhou no amor de Deus que perpassa toda a vida da comunidade.

Relação com as outras leituras

O amor de Deus manifestado em Jesus (1Jo 4,10) chega a todas as pessoas indistintamente, o que não era assim entendido pelos primeiros discípulos de origem judaica, pois achavam que a salvação era só para os circuncisos. Ora, se este amor gratuito chega a todos, Pedro (At 10,25-26.34-35) é o primeiro a fazer a passagem de uma visão exclusivista e racial para uma nova realidade: o pagão Cornélio, um oficial romano, é admitido na comunidade. É o amor de Deus revelado em Jesus que produz frutos entre os discípulos que agora acolhem a todos.

Dia: 2 de Maio de 2021
5º Domingo da Páscoa
Evangelho: Jo 3, 18-24 ??? Jo 15,1-8
Primeira Leitura: At 9,26-31
Segunda Leitura: 1 Jo 3, 18-24
Salmo: Sl 21, 26b-27.28.30.31-32 

Evangelho

O capítulo 3 do Evangelho de João é um dos lugares onde se trabalham os conflitos entre uma visão humanizada e inclusiva de Jesus e outra visão desumanizada e indiferente em relação à condição humana. A inclusão proposta por Jesus, segundo se apresenta aqui, se dá pela fé, como diz a perícope anterior: “todo aquele que crê”. Crer que se expressa na práxis de amor. A partir do versículo 18, também se fala de quem “não crê”, o que não deve ser interpretado como sendo uma pessoa “ateia”, possibilidade impensada na época, mas aquelas pessoas que não crendo no amor inclusivo de Jesus não entendiam a prática amorosa e solidária como exercício da fé. Vejamos como se apresenta o texto:

A. Quem crê não é condenado, quem não crê é condenado, poia não crê no Filho de Deus (v.18).

B. A prática que quem não crê leva para as trevas, pois quem faz mal odeia a luz contra quem pratica a verdade está na luz (v.19 -21).

A’. O Batismo por Jesus (na Judéia) e o Batismo de João (em Enom) antes da prisão deste último (v.22-24).

O esquema acima evidencia que há, no texto, a abordagem de algumas discussões soteriológicas (de salvação/condenação) e cristológicas (sobre a natureza e missão de Jesus Cristo). O versículo 18 (A) se refere ao “Filho de Deus” e o v. 22 fala “Jesus”. Assim se mostra que não há diferença entre o divino “Filho de Deus” e o humano “Jesus”. É o reconhecimento do sentido completo da encarnação que liberta da condenação. A reconhecer a divindade/humanidade da Palavra Encarnada, ser reconhece que todas as pessoas são igualmente dignas de crer e de dar/receber amor.

No centro (B) a prática excludente e desumana – não solidária que despreza outras pessoas ou sua forma de viver a fé – colabora com as trevas. Pessoas que não conseguem ver a luz, que inclui pela fé condenam-se a viver nas trevas do ódio.

Condenação como consequência da prática excludente

A palavra grega que aqui traduzimos como “condenação” tem o sentido de “julgamento” (do verbo krino que é usado geralmente no sentido de “julgar”). No próprio Evangelho de João, só em 3,17-18 é colocado esta conotação condenatória. Em todas as outras vezes em que é usada, significa “julgar”. Tal sentido é bem claro em Jo 12,47: “E se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo”. Então, a condenação é a consequência de uma prática motivada pelo julgamento exclusivista, excludente, discriminatório. Tais atitudes revelam o não crer, o permanecer nas trevas e não ver o amor de Jesus que vem para salvar o mundo.

O sentido do Batismo

Certamente havia, nas primeiras comunidades cristãs, alguma tensão interna entre o batismo de Jesus e o batismo de João Batista. Possivelmente João não batizava gentios e os seguidores de João Batista, presentes nas primeiras comunidades cristãs, continuavam com esta prática discriminatória. Eles continuavam separando os judeus dos gentios. Estes “separatistas” não negavam a humanidade de Jesus, mas a viam como algo secundário. Para eles Jesus teria passado pela humanidade apenas para salvar o que é eterno.

Para os que se identificam com o batismo de Jesus, este deve ser vivido com a prática inclusiva, humana, solidária da luz, vendendo assim o julgamento excludente das trevas.

Relacionando com os outros textos

Na narrativa lucana dos Atos dos Apóstolos, Paulo enfrenta a barreira de não ser reconhecido como discípulo. Bernabé, solidário com Paulo, o acompanha para que o apóstolo dos pagãos pudesse mostrar, através de sua ação evangelizadora, que era igualmente discípulo de Jesus (9,26-27). A Primeira Carta de João, por sua vez, exorta as comunidades a não amar apenas de palavra, mas com gestos concretos que dignificam e acolhem a todas as pessoas como iguais, pois ali reside a verdade que nos salva, mutuamente, da condenação (1 Jo 3,18-20).

 

 

4º Domingo da Páscoa
Dia: 25 de abril de 2021
Primeira Leitura: At 4,8-12
Salmo: 118/117,1 e 8-9.21-23.26.28cd.29
Segunda Leitura: 1Jo 3, 1-2
Evangelho: Jo 10, 11-18

 

No contexto jubiloso da festa das Tendas, o evangelista sublinha a messianidade e a identidade sobrenatural de Jesus. Na seção 7,1–10,21 há um progresso na revelação do mistério de Cristo, concomitante ao agravamento da hostilidade contra ele da parte das autoridades judaicas. As articulações mais significativas são três: o debate no templo (7,1–8,59); a cura do cego de nascença (9,1-41); o discurso de Jesus sobre o bom pastor (10,1-18).

Os chefes dos sacerdotes haviam expulso o cego curado (9,34), mas ele é acolhido por Jesus (9,35-38), o bom pastor que ama e guia com solicitude. A imagem do verdadeiro pastor, que ocorre frequentemente nas Escrituras (Ez 34; Jr 23,1-6; Zc 11,4-17), é referida a Jesus também nos sinóticos (Mc 6,34; Mt 9,36; 10,6; 15,24; 26,31). Note-se a sugestiva parábola da ovelha perdida (Lc 15,4-7). Jo reelabora de modo original esse tema da pregação de Jesus.

Nos vers. 11-13 vêm ilustrada a imagem do pastor. Jesus se identifica duas vezes com o bom pastor (vers. 11.14) em contraposição à figura do mercenário. O adjetivo grego é kalós (literalmente “belo” = “ideal”, “bom”, “generoso”), que, significando secundariamente “bom”, tem como sentido primário “belo”. Jesus é o “belo pastor” à maneira de Davi, como se lê em 1Sm 16,11-12. Nesse episódio do Antigo Testamento, Samuel pergunta a Jessé pelo filho ausente. Jessé responde: “está apascentando as ovelhas”. Samuel ordena que Davi seja chamado. “Jessé mandou então buscá-lo. Davi era de belo semblante e admirável presença”.

O bom pastor, “se despoja (tithēsin) de sua vida pelas suas ovelhas”, ao invés de “dar a vida”. A terminologia também é usada para as vestes de Jesus na Ceia com os discípulos (13,4). O termo acentua, de modo particular, a liberdade e a voluntariedade e, ao mesmo tempo, o amor e a generosidade. A expressão “despoja” (tithēsin), revela a consciência e a liberdade com as quais Jesus “se despoja” da própria vida como uma veste (13,4.12) para depois retomá-la na ressurreição. Ele expõe a sua vida pelas (hyper, em favor) suas ovelhas. Em oposição, o comportamento do mercenário se contrapõe radicalmente ao do bom pastor.

O evangelista sublinha a bondade do Pastor/Jesus com uma segunda motivação: ele além de expor a sua vida por suas ovelhas, conhece-as, ou seja, ama-as profundamente. Entre o Pastor e as ovelhas subsiste uma comunhão de vida, que possui como modelo o amor recíproco com o Pai. Na linguagem semítica, o sentido de “conhecer” ultrapassa o saber cognitivo, indicando uma experiência concreta de relacionamento íntimo. Este “conhecimento” é desde agora, para nós, a vida eterna (2ª. Leitura 1Jo 3,2).

O v. 16 introduz o tema da salvação universal: todos os povos formarão um só rebanho. A comunidade messiânica será composta por todos aqueles que escutarão a voz de Jesus, crendo nele. O texto fala em mia poimnē,  “um rebanho”. Não se diz “um só aprisco”, porque a unidade não é considerada do ponto de vista externo e institucional, mas interior e dinâmico (genēsontai “haverá”, literalmente “se tornarão)

Nos vers. 17-18 aparece a ideia da plena adesão de Jesus à vontade do Pai. Jesus despoja-se de sua vida com a certeza de poder retomá-la de novo. Nos sinóticos é o Pai que “entrega” o Filho. Em João, Jesus mesmo oferece livremente sua vida. Ele possui o poder de doá-la, mas também o poder/direito de resgatá-la.

A liturgia do 4º. Dom de Páscoa com a 1ª leitura (At 4,11) e o Sl 117,22, ao elencar o tema da pedra rejeitada que se torna pedra angular  faz uma nítida alusão à ressurreição de Jesus.

 

Domingo 3ºda Páscoa
Dia: 18 de 04 de 2021
Primeira Leitura: At 3,13-15.17-19
Salmo: 4,2.4.7.9
Segunda Leitura: 1Jo 2,1-5a
Evangelho: Lc 24,35-48.

 

No capítulo 24, os relatos das aparições do Ressuscitado constituem a solene conclusão do evangelho lucano.  Este capítulo está dividido em três seções: o anúncio da ressurreição às mulheres (vv. 1-12); a aparição aos discípulos de Emaús (vv. 13-35) e a aparição final de Jesus aos onze (vv. 36-53). O autor demonstra duas preocupações: provar que as Escrituras revelam o plano salvífico de Deus em Jesus e atribuir ao próprio Jesus a iniciativa missionária dos discípulos, que marcará a comunidade de Lucas e, de modo mais abrangente, toda a Igreja. Por isso, o evangelista finaliza seu primeiro livro respondendo às dúvidas e dificuldades dos discípulos a respeito da ressurreição de Jesus.

No trecho de hoje, as primeiras palavras que Jesus ressuscitado aos discípulos são “paz a vós” (v. 36). No evangelho de Lucas, o tema “paz” é muito importante e está presente em todo o livro. A palavra grega eirēnē é usada 14 vezes em Lucas e está associada intimamente à ação do Messias: ele guiará o povo de Deus para a verdadeira paz (Lc 1,79), que é dom de Deus a quem é fiel (Lc 2,14.29), mas também é fruto da ação de Jesus como aquele que cura as enfermidades físicas (7,50; 8,48). Por isso, a invocação da paz faz parte da missão dos apóstolos (10,5-6). Estes breves exemplos demonstram que, em Lucas, o projeto de Jesus está intimamente associado à paz.

Para compreendermos mais claramente isso, é necessário situar no contexto do Império Romano não apenas a pessoa e as palavras de Jesus, mas também a comunidade lucana. O Terceiro Evangelho foi escrito em torno do ano 85 de nossa era. A dominação romana era fortemente propagandeada como “pacificação”: Roma impuna a chamada Pax Romana, um projeto de paz caracterizado pela submissão dos que se opunham à dominação imperial, uma paz manchada de sangue, garantida pela força das armas e pelo acúmulo de cadáveres. A Pax Romana foi estabelecida e consolidada por Otaviano, o primeiro imperador. Ele mudou seu próprio nome para César Augusto e se fazia chamar de “Salvador”, porque suas vitórias evitaram que o enorme território conquistado pelos romanos se fragmentasse. Neste sentido, ele “salvou” o império.

Lucas não se cansa de afirmr que César Augusto não é o Salvador (aliás, esta é a afirmação do anjo, em Lc 2,11: “o verdadeiro salvador está em Belém, não em Roma”) e que a verdadeira paz não é aquela imposta violentamente por Roma, mas aquela que Deus oferece para quem com liberdade a aceita (Lc 2,14). Em outras palavras, Lucas desmascara a mentira de uma paz banhada no sangue dos que não se submentem ao imperador romano. Por isso, as primeiras palavras de Jesus Ressuscitado são “Paz a vós”. Esta saudação, porém, provoca não apenas o reconhecimento de que Jesus está ali presente, mas também medo e dúvida: “eles pensavam ver um espírito” (v.37).

A comunidade lucana vive no ambiente grego e, conforme a compreensão da época, quando alguém morre, seu espírito se separa do corpo. Por isso, é necessário demonstrar que Jesus Ressuscitado não é um espírito desencarnado que vaga e aparece a seus amigos e parentes. Jesus não é um fantasma e, por tal razão, os discípulos podem vê-lo, ouvi-lo e tocá-lo. O evangelista ainda acrescenta o detalhe de que ele se alimenta na presença dos discípulos, como modo de garantir que não é uma “alma penada”. Ao contrário, os discípulos constatam que o mesmo Jesus que morreu na cruz está agora ressuscitado: “Vede minhas mãos e meus pés. Sou eu mesmo” (v. 39).

Jesus se apresenta não como alguém glorioso (como se fazia representar o imperador), mas como aquele que carrega os sinais da crucifixão. As marcas dos cravos nas mãos e nos pés são os resultados das escolhas e da coerência de Jesus. Ao mostrá-las a seus discípulos, Jesus quer convencê-los de que seus ideais, suas ações, suas lutas em defesa da vida e da verdade não morreram na cruz nem podem ser apagadas pela tirania do império. Mais ainda: ele convida os discípulos e toda a Igreja a se engajarem no seu projeto de paz, marcado pela vida, pelo perdão, pela verdade, pelo acolhimento e pela justiça.

No v. 44, Jesus afirma: “é necessário que se cumpra tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Deste modo, ele faz os discípulos compreender o significado dos acontecimentos à luz das Escrituras: “Então, abriu‑lhes a mente para que compreendessem as Escrituras” (v. 45). A exemplo do que acontece no episódio de Emaús, temos reminiscências eucarísticas: Jesus se faz presente no meio da comunidade reunida e toma refeição com os discípulos. Antes de partir, porém, ele explica o sentido das Escrituras numa linguagem que todos possam entender e aplica a eles as antigas profecias, acerca do anúncio da conversão a todas as nações (vv. 46-47), de modo que, a partir desta aparição, eles se tornem as testemunhas (v. 48) de um novo projeto de paz e vida plena.

 

 2º Domingo do Tempo da Páscoa

Dia: 11 de abril de 2021
Primeira Leitura: At 4,32-35
Salmo: 118/117,1-2.16ab-18.22-24
Segunda Leitura: 1Jo 5,1-6
Evangelho: Jo 20,19-31

 

Evangelho

O texto deve ser lido dentro do capítulo 20, pois todo ele é perpassado por uma cristologia e eclesiologia joanina: a ressurreição, a comunidade dos discípulos que se reúne no primeiro dia (20,1.19.26) e a missão, para a qual se requer a fé que se obtém ao participar da comunidade.

Pode-se dividir o texto em três partes: 1) a experiência do Ressuscitado (vv.19-23); 2) Tomé: a crise de fé (vv.24-29); epílogo (vv.30-31).

1) A experiência do Ressuscitado (19-23.26). A comunidade se reunia aos domingos (1º dia) de tarde para a celebração, embora ainda não tivesse uma fé madura, pois por medo, mantinha as portas fechadas. É neste ambiente reunido que o Ressuscitado se manifesta e confirma a fé dos discípulos. Agora a sua presença extrapola as leis da física, pois entra com as portas fechadas, mas ainda é o mesmo e para provar isto, mostra as chagas. O Ressuscitado é o crucificado redivivo. Ele deseja a paz, como prometera antes da paixão (Jo 14.27) e os discípulos se alegram (cf. Jo 15,11;16,20-24;17,13). Uma vez que a fé está confirmada, começa a missão: “como Pai me enviou, eu vos envio”. A igreja continua a obra do Pai que se manifesta em seu Filho. Para tanto, os discípulos são batizados no Espírito (sopro que lembra a criação – Gn 2,7; Sb 15,11; Ez 37). O Espírito vem de Jesus (cf. Jo 7,37-39; 19,34) e recria a comunidade dos apóstolos para a missão. Eles recebem, o poder de perdoar e reter os pecados, que é a continuação da missão do cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo 1.29; Jr 31,34). Trata-se de pregar e denunciar, mas também de receber de volta aquelas pessoas que se afastaram de Jesus, o que na concepção joanina é o pecado por excelência. Perdoar os pecados é anunciar Jesus, pois quem nele crê, não é julgado e reter os pecados é declarar que alguém ainda não possui a fé para receber a graça de Jesus através da igreja.

2) Tomé e a crise de fé (24-29). Todos os discípulos tiveram crise de fé (Mt 28,17; Mc 16,14; Lc 24,38). Em Jo 20,24-29, como também nos sinóticos, está um retrato falado das comunidades cristãs do período pós-pascal, que não conheceram o Jesus histórico. Muitos se questionavam: ele de fato está vivo? João centra as dúvidas das comunidades na pessoa de Tomé. Através do relato, mostra que a experiência do Ressuscitado é feita pelo testemunho da comunidade que se reúne no primeiro dia da semana: domingo vv.19.26). Estar em comunidade, no primeiro dia é fundamental para crer na ressurreição. Tomé não estava na comunidade, por isto teve de esperar mais oito dias (v.26), portanto, novamente o primeiro dia e estar com a comunidade, para enfim, fazer a experiência de fé que os demais já haviam feito antes. Aqui convém pensar nos leitores de João, dos anos 90. O texto quer conscientizar que é preciso crer sem ter visto, mas para isto, duas coisas são necessárias: a comunidade que celebra no primeiro dia e o testemunho desta mesma comunidade. É neste ambiente que se encontra o Ressuscitado. É então que Tomé faz a grande profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus”. Na comunidade celebrativa se professa Jesus como o Senhor e Deus (cf. Jo 1,1.18). O título duplo “Senhor e Deus” vem de “Javé Elohim” (2Sm 7,28; 1Rs 18,39). As comunidades cristãs devem passar do ver, para o crer sem ter visto. A verdadeira fé já não mais se baseia nas relações físicas, pois estas, são somente sinais que adquirem sentido, apenas com a fé. Sem a fé, os sinais são vazios.

3) Epílogo (30-31). Provavelmente a conclusão original da obra de João, antes do acréscimo do capítulo 21. Apresenta a ação de Jesus, para que a comunidade creia e receba a vida eterna.

 

Relação com as outras leituras

A fé no Ressuscitado não era apenas uma formulação dogmática. Ela era encarnada e transformava os discípulos que relativizavam tudo para tornar real a obra de Jesus, colocando tudo em comum (At 4,32ss). Esta fé já é a vitória e produz o amor ao próximo. Os neo-convertidos, pela fé em Cristo, amavam a Deus e ao próximo. Portanto, a fé no Ressuscitado transforma as relações humanas (1Jo 5,1-5).

 

Domingo da Páscoa

Dia: 04 de abril de 2021

Primeira Leitura: At 10,34.37-43

Salmo: 118/117 1-2.16ab-17.22-23

Segunda Leitura: Col 3,1-4

Evangelho: Jo 20,1-9

 

Os relatos joaninos da ressurreição e das primeiras aparições formam os dois quadros de um díptico. O primeiro encontra-se no capítulo 20, o segundo no capítulo 21. Cada um deles, por sua vez, é composto por várias cenas. Nesta liturgia, lemos Jo 20,1-9. Trata-se da primeira cena: Maria Madalena e os dois discípulos no sepulcro. O narrador começa falando de Maria Madalena (vv. 1-2a), mas muda rapidamente seu foco para os dois discípulos que correm até o sepulcro.

O primeiro dia da semana (v. 1): No Quarto Evangelho, a ressurreição de Jesus é uma nova criação. A primeira criação terminou em 19,30. De fato, Jesus afirma: “Tudo está consumado”. Após uma noite e uma manhã (referência ao primeiro relato da criação, em Gn 1), a descoberta do sepulcro vazia marca o início de um novo ciclo. O texto afira que “ainda estava escuro”. Literalmente: “ainda havia trevas”. Esta afirmação pode ser compreendida de vários modos. Pode ser uma escuridão cronológica (o sol ainda não tinha nascido), uma escuridão espiritual (Madalena ainda não tinha experimentado a ressurreição e tudo para ela estava sombrio, triste e sem perspectivas), uma escuridão ideológica (no Quarto Evangelho, as “trevas” são as forças contrárias à verdade e à vida, isto é, as forças ideológicas da morte que aparentemente venceram), uma escuridão criacional (conforme Gn 1,2; “as trevas cobriam o abismo”). O evangelista parece não querer que o leitor opte por uma delas e, por isso, o relato pode ser interpretado em todas essas dimensões ao mesmo tempo.

Por outro lado, a afirmação de Maria Madalena – “Não sabemos onde o colocaram” (v. 2) –e, logo em seguida, a busca frustrada dos discípulos (vv. 4-10) remetem o leitor a Cântico dos Cânticos 3,1: “Em meu leito, pela noite, procurei o amado de minha alma. Procurei-o e não o encontrei!… Pelas ruas e pelas praças… não o encontrei”. O vínculo com Cântico dos Cânticos ficará ainda mais explícito nos vv. 11-18 (que não fazem parte desta liturgia).

Diferente do que é narrado nos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), Maria Madalena vai sozinha ao túmulo. Ninguém está lá para explicar o que aconteceu. Por isso, ela sai de lá desconsertada e vai contar o fato a dois líderes dos discípulos: “Vai a Simão Pedro e ao outro discípulo, que Jesus amava” (v. 2). É também só no Quarto Evangelho que estes dois discípulos vão sozinhos ao sepulcro.

O evangelista preocupa-se em esclarecer que “os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa” (v. 4). O “outro discípulo” é aquele que está na origem da tradição joanina e que neste relato é identificado como “o discípulo amado”. Mas o texto não afirma unicamente que quem ama mais corre mais depressa e chega na frente. O evangelista quer evitar que seu relato promova uma competição entre os membros das comunidades e, de modo mais amplo, entre as próprias comunidades. Por isso, o discípulo que chega primeiro não entra no túmulo. Ele sabe que o líder do grupo dos discípulos é Pedro e respeita esta liderança e autoridade: o discípulo amado esperou Pedro e deixou que ele entrasse antes (vv. 5-6a).

O evangelista não poupa outros detalhes: o discípulo amado “vê os panos de linho por terra e o sudário… enrolado em um lugar à parte” (vv. 6b-7). O sepulcro é descrito como um quarto nupcial, no qual a vida e a fecundidade anulam a morte. A minúcia de que o lenço que cobria a cabeça estava cuidadosamente dobrado em um lugar à parte confirma o fato de que o desaparecimento do corpo de Jesus não foi obra de um ladrão. Mais ainda, é também uma alusão ao véu que cobria o rosto de Moisés depois que ele falou com Deus em Ex 34,33. Pode também estar ligado ao que Paulo afirma em 2 Cor 3,7-18: o véu que escondia a glória de Deus foi removido por Cristo.

O evangelista não revela o que Pedro pensou acerca do que viu. Pelo contrário, diz explicitamente qual foi o sentimento do discípulo amado: “ele viu e acreditou” (v. 8). O texto, aliás, afirma que o discípulo amado viu duas vezes: no v. 5, antes de entrar, ele olha para dentro do túmulo e vê; no v. 6, quando Pedro chega, entra e vê, o discípulo amado também entre e novamente vê e, desta vez, crê. É forte, portanto, a relação entre ver e crer. Trata-se de uma visão apenas física ou de uma descoberta espiritual? O evangelista parece induzir o leitor a considerar que é necessário estar em comunhão com Pedro para que a visão física (v. 5) se torne a visão da fé (v. 6).

Não obstante, o v. 9 parece enigmático: “Eles ainda não tinham compreendido a Escritura”. Sem dúvida, temos a surpresa provocada por algo inesperado e novo. Mas devemos também levar em conta a dificuldade dos discípulos de compreender que, segundo a Escritura, Jesus deveria ressuscitar.

No versículo seguinte ao trecho que é lido hoje, o evangelista afirma que “os discípulos voltaram para casa” (v. 10). Eles não compreenderam nada e, por isso, não sabem explicar para si mesmos nem para seu grupo o que havia acontecido; muito menos anunciar a alguém de fora. Afinal, para engajar-se na missão é necessário antes experimentar a presença de Jesus ressuscitado. Ele se manifestará à comunidade dos discípulos somente na tarde daquele dia, nos vv. 19-23. Até lá, Pedro e o discípulo amado ruminarão a dúvida, enquanto Maria Madalena, que inesperadamente reaparece junto ao túmulo. Mas esta já é outra cena, além dos limites do trecho de hoje (vv. 11-18).

 

 DOMINGO DE RAMOS

Dia: 28 de março de 2021
Leitura antes da procissão: Mc 11,1-10
Primeira Leitura: Is 50,4-7
Salmo: 21,8-9.17-18a.19-20.23-24
Segunda Leitura: Fl 2,6-11
Evangelho: Mc 14, 1– 15,47;

Mc 11,1-10

O evangelho proclamado no início da celebração de Ramos manifesta uma orientação messiânica não somente na aclamação do povo, mas ainda pela deposição das vestes no caminho (2Rs 9,13). Mc apresenta uma história de Cristo, anunciando Jesus como Messias, fazendo referência ao Antigo Testamento.

Jerusalém é citada em primeiro lugar. Das duas grafias recorrentes na Escritura, Hierosolyma e Hierousalēm, Marcos usa sempre a primeira. Enquanto a segunda possui dignidade e tons sacros, a primeira forma (helenizada) é o termo profano usual para designar a cidade. A escolha de Mc não é casual, visto que Jerusalém é para ele a sede dos adversários de Jesus (3,22; 7,1), onde estes o matarão (10,32; 15,41). Tampouco é sem intenção se depois da primeira visita à cidade Jesus se retira (11,11). O relato acena ao fato que a cidade lhe pertence enquanto descendente de Davi, mas a mesma cidade lhe oporá recusa.

De Betfagé pouco sabemos com exatidão. Betânia é expressamente nomeada junto ao Monte das Oliveiras devido ao significado que este monte possui no AT como lugar de oração (Ez 11,23; 2Sm 15,32). Segundo Zc 14,4 no dia do juízo o Senhor se revelará sobre o Monte das Oliveiras e fenderá em dois o monte.

A tarefa misteriosa confiada aos dois discípulos (vers. 2-3) é compreendida a partir de Zc 9,9 e Gn 49,11. Segundo Zc 9,9s o rei messiânico cavalga um jumento e trará paz aos povos. A montaria amarrada é uma reminiscência de Gn 49,11, onde a bênção de Jacó sobre Judá menciona o surgimento daquele que possuirá o cetro de comando. O jumento escolhido para a tarefa de levar o Messias é adequado também porque ninguém ainda o montou. No judaísmo a integridade é o pressuposto para o uso dos animais na esfera religiosa e cultual. Assim, p. ex., segundo 1Sm 6,7 somente vacas de leite sobre as quais não tenha sido colocada canga podem puxar o carro da Arca da Aliança.

Com a tarefa dada aos discípulos, Jesus inicia o cumprimento daquilo que foi dito nas Escrituras a propósito do Messias, e anuncia, assim, que já na entrada da cidade ele se atém totalmente à vontade de Deus.

Mc faz referência ao Kyrios (Senhor) que necessita do jumento. Kyrios é um predicado cristológico que quer fazer conhecer o poder que ele possui. Talvez, o contraste paradoxal, que contemporaneamente se manifesta em relação a este poder, deseje destacar a pobreza deste Senhor.

São colocados sobre o animal vestidos a modo de ornamentos e Jesus o monta. Este gesto e a cena toda a seguir recorda uma entronização do rei em Israel (1Rs 1,38-40; 2Rs 9,13).

Nos vers. 8-10 são mencionadas pessoas que saúdam Jesus. Mc dá a entender (v.9: “iam à frente dele e o seguiam”) que a multidão não vem da cidade para dar-lhe as boas vindas (comparar com Jo 12,13), mas se trata daquelas pessoas que vieram com ele da Galileia.

Estender vestes pelo caminho – para Mc é a estrada que conduz à Paixão – faz uma certa tensão com os ramos apanhados nos campos. A história se conecta com a crucifixão de Jesus como rei dos judeus.

O cortejo que acompanha Jesus lhe grita Hosana e o saúda com as palavras do Sl 117,26. Hosana literalmente significa “salva-nos” que é o sentido próprio do Sl 117,25 (2Sm 14,4; 2Rs 6,26).

O significado do ingresso é esclarecido com o aceno ao “Reino do nosso pai Davi” (v.10) que vem com Jesus. Tal reino era nostalgicamente esperado no judaísmo. O reino de Davi devia ser restaurado. Jesus entra na cidade (de Davi) realizando as promessas messiânicas. No entanto, não vem para satisfazer expectativas políticas. A ausência do título de rei não é um acaso (comparar com Lc 19,38; Jo 12,13), este é reservado ao relato da paixão no qual se manifesta a verdadeira dignidade real de Jesus. Certamente poder real de Davi aguarda a Jesus, mas o modo do seu reino não pode ser compreendido ainda por ninguém. Será o título da cruz a proclamá-lo.

Mc 14,1—15,47

No domingo que antecede à Páscoa, lemos a história da Paixão de Jesus. Para as histórias da Paixão, nos quatro evangelhos, surpreende o fato que apareça um mesmo decurso dos acontecimentos, que vão da captura de Jesus ao interrogatório judaico, ao processo diante de Pilatos, à crucifixão, à morte em cruz, à sepultura até a descoberta do sepulcro vazio.

A Paixão em Mc está relacionada também temporalmente com o cômputo dos dias e com a passagem da noite para a manhã: dois dias antes da Páscoa, os chefes buscam uma razão para matar Jesus (14,1); no dia da preparação da páscoa são enviados à cidade dois discípulos (14,12); ao cair da tarde, chega Jesus com os Doze (14,17); ao canto do galo, Pedro renega o seu Mestre (14,72); pela manhã Jesus é entregue a Pilatos (15,1). Crucifixão e morte são colocadas cada uma em uma série de três horas (15,25.33s) e, à tarde, Jesus é sepultado (15,42). Ao início e ao final da Paixão aparecem a unção de Jesus da parte de uma mulher (14,3) e, respectivamente, a intenção de algumas mulheres ungirem o cadáver (16,1).

Uma outra característica dos relatos da Paixão é a frequência de precisas indicações de lugar. A cena se desenvolve, sobretudo, em Jerusalém, mas a unção acontece em Betânia, na casa de Simão, o leproso (14,3), a agonia e a captura no Getsêmani (14,32), a crucifixão sobre o Gólgota (15,22). Sabia-se, além  disso, onde era o lugar do sepulcro de Jesus.

À história da Paixão são relacionados diversos personagens. Aparecem, em primeiro plano, os já conhecidos membros do grupo de discípulos. Pensa-se a Pedro, que renega Jesus e Judas Iscariotes que o trai. Os Sumos Sacerdotes e os membros do Sinédrio da parte judaica e Pilatos da parte romana, são os atores principais alinhados contra Jesus. A esses se adicionam o centurião do pelotão de execução e os soldados, como também os servos e servas do sumo sacerdote. A acompanhar Jesus pela estrada do seu sofrimento estão Simão Cirineu (15,21), Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago (15,40), outra mulheres (15,41), talvez, também, José de Arimateia (15,42s).

É característica a influência de citações veterotestamentárias que são tomadas dos Salmos que tratam do Servo Sofredor (em particular o Sl 21). Se, por um lado, desse modo, vem indicada uma precisa diretriz para a interpretação da Paixão de Jesus, por outro, o discurso vem completado na primeira parte da narrativa da Paixão sublinhando seja que Jesus conhecia antecipadamente o sofrimento que o esperava, seja que ele naquela ocasião foi capaz de anunciar as coisas, em vez de ordená-las (14,7.13-15.18.20s.25.27s.30.41s).

Grandeza e humilhação, portanto, se encontram próximas uma da outra. Note-se a interpretação paulina associando o mistério da encarnação com a realidade da crucifixão em Fl 2,6-11.

A poderosa palavra de Jesus se cumpre do mesmo modo (14,72) que a palavra da Escritura que o Crucificado cita com seu grito de morte (15,34). O caminho de Jesus na estrada do sofrimento é um itinerário de solidão que atinge uma intensidade dramática envolvente.

 

5º Domingo da Quaresma

Dia: 21 de março de 2021
Primeira Leitura: Jr 31,31-34
Salmo: 51/50,3-4.12-13.14-15
Segunda Leitura: Hb 5,7-9
Evangelho: Jo 12,20-33

O capítulo 12 de João é composto por várias pequenas cenas que encerram o chamado “Livro dos Sinais” (Jo 2–12). O evangelho deste 5º domingo da Quaresma, Jo 12,20-33, é a quarta cena. Trata-se de um discurso dialogado em que Jesus revela sua missão como doador da vida e, ao mesmo tempo, explicita a missão da comunidade.

O início narrativo (v. 20) fala de gregos que subiram a Jerusalém para participar dos festejos da Páscoa. Estes gregos não são judeus da diáspora, mas simpatizantes do judaísmo, isto é, não judeus que querem percorrer um caminho de fé. Todavia, não são ainda circuncidados e, por isso, não são considerados membros a pleno direito da comunidade judaica. No v. 21 essas pessoas vão ter com Felipe e André. Estes dois discípulos desempenham um papel importante no evangelho de João. André é um dos discípulos de João Batista que se juntam a Jesus. Após permanecer todo um dia com Jesus, André apresenta seu novo Mestre a Pedro (Jo 1,41-42). Filipe é o primeiro ser chamado diretamente por Jesus e depois o anuncia a Natanael. André e Filipe são protótipos do discípulo-missionário: o encontro pessoal com Jesus impulsiona o discípulo ao anúncio. Este anúncio, todavia, não é uma imposição amarga e legalista, mas uma partilha entusiasmada e aberta, que deixa a pessoa que a recebe totalmente livre para questionar, para fazer sua própria experiência antes de aderir à proposta de Jesus.

O desejo dos gregos é ver Jesus (v. 22). Não é o desejo dos bisbilhoteiros que querem “tirar uma selfie e postar nas redes sociais”. No Quarto Evangelho, o verbo “ver” designa a descoberta do que está além das aparências, até alcançar o mistério. Por isso, um dos temas centrais é a “visão”, que equivale à experiência pessoal com Jesus e a resposta de adesão.

Ao ser informado deste desejo dos gregos, Jesus dá uma resposta estranha e parece ignorar o pedido daquelas pessoas. Suas palavras, no entanto, conduzem o leitor ao âmago do pedido. O que ele diz nos vv. 23b-24 indica o caminho para o discipulado.

Jesus começa afirmando: É chegada a hora de o Filho do Homem ser glorificado (v. 23b): Jesus declara que a hora chegou e que ela conduz à glória (vv. 23.28). Desde o início do Evangelho de João, há uma expectativa acerca da “hora de Jesus”. Em Jo 2,4, 7,30 e 8,20, afirma-se que a sua hora ainda não havia chegado. Mas agora, em 12,23 “a hora chegou”, porque o fato de os gregos buscarem Jesus indica o rompimento das barreiras raciais e culturais e o universalismo da mensagem do cristianismo.

Em seguida, ele usa uma metáfora para dar o sentido dos acontecimentos: Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo que caiu na terra não morre, permanece só. Mas, se morre, produz muito fruto (v. 24). Esta afirmação de Jesus faz lembrar a parábola do semeador (Mc 4,3-9 e paralelos). Nos sinóticos, a semente é usada como símbolo tanto da Palavra como do Reino de Deus. Em João, porém, a semente/grão é Jesus mesmo, que aqui faz entender o significado de sua morte. A morte é a condição para que se libere toda a energia vital que a semente contém: o fruto começa no grão que morre. Esta dinâmica é a própria vida-morte-ressurreição de Jesus, é a história da Salvação.

O v. 25 completa a metáfora: Quem quer bem a sua vida a perde, e quem odeia sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna. Jesus afirma que morre, não como ato final, mas como passo necessário para recuperar qualidade de vida. Portanto, o amor-próprio e o sentimento egoísta são incompatíveis com a adesão ao compromisso; são limitações que levam ao insucesso o projeto de Jesus pela “vida de sobra”. O egoísmo e o apego à vida levam a ceder diante das ameaças e, portanto, não só tornarão impossível amar sem limite, mas também acabarão cedendo ao mecanismo da injustiça.

No relato joanino da Paixão (Jo 18–19) não há nenhuma cena de agonia como nos sinóticos (Mc 14,21-42 e paralelos). A única referência em João a uma crise pessoal de Jesus diante de seu destino é o v. 27 do evangelho de hoje: Neste momento minha alma está perturbada. E, que direi? Pai, salva-me desta hora? Não obstante, Jesus manifesta a plena adesão ao projeto do Pai: Mas foi para isto que cheguei a esta hora. Esta é a hora para a qual sua vida está orientada desde o início. No Quarto Evangelho fica claro o conceito de que a cruz é o fruto de uma decisão consciente, um ato de doação livremente assumido.

Jesus continua: Pai, glorifica o teu nome! (v. 28), o que corresponde ao pedido do Pai Nosso “Santificado seja teu nome” (Mt 6,9). Este pedido não é que que os homens glorifiquem a Deus, mas o próprio Deus se faça conhecer ao mundo.

O Pai responde. Para Jesus (e para os leitores) a resposta é clara: Já o glorifiquei e o glorificarei ainda (v. 28). Para os presentes, porém, tudo parece um trovão. A voz/ trovão recorda as antigas teofanias em que Deus se dirigia ao povo por meio de um porta-voz (Ex 19,16.19). No êxodo do Egito, os israelitas e o próprio Moisés não puderam ver a glória de Deus (Ex 33,18; 34,29). Agora, porém, o Pai se manifesta diferentemente: com autoridade de Filho de Deus, Jesus promete acesso direto a esta nova teofania, para que, ali onde ele está, estejam também as suas discipulas e seus discípulos (v. 26). Não há mais, portanto, necessidade de mediador: a glória de Deus será visível em Jesus (Jo 12,45; 14,9). De certo modo, isso é cumprimento do que está na primeira leitura de hoje (Jr 31,31-34), mais especificamente o v. 34: Eles não terão mais de instruir seu próximo ou seu irmão, dizendo “Conhecei a Yhwh!”, porque todos me conhecerão, dos menores aos maiores.

 

4o Domingo da Quaresma Ano B
Dia: 14 de março de 2021
Primeira Leitura: 2Cr 36,14-16.19-23
Salmo: 137/136,1-2.3.4-5.6
Segunda Leitura: Ef 2,4-10
Evangelho: Jo 3,14-21

Evangelho

O texto da liturgia de hoje faz parte do diálogo de Jesus com Nicodemos (Jo 3,1-21). No entanto, os versículos 11-21 já não parecem diálogo, mas um monólogo do mestre. Nele, o evangelista apresenta uma cristologia pós-pascal sobre o papel de Jesus, aquele que desceu do céu (v.13), o revelador máximo do amor de Deus. A perícope da presente liturgia se divide em duas partes:

a) Os vv.14-15 referem-se à crucificação (hypsóo - elevado/exaltado) de Jesus, tema já presente no diálogo com Nicodemos: nascer do alto (vv.3.5). Para tanto, o autor se vale do relato da serpente de bronze (Nm 21,4-9), talvez um antigo culto idolátrico que os rabinos reinterpretaram, dizendo que a cura não acontecia pela serpente, mas pelo fato de as pessoas se voltarem para Deus. Os mordidos eram salvos pelo Senhor e não pelo objeto contemplado (Sb 16,7). O texto de João, se vale desta memória como uma prefiguração da crucificação. Como outrora as vítimas das cobras, agora, quem contemplar o Filho de Deus exaltado na cruz e nele crer, tem a vida eterna.

Crer no elevado, porém, não é um ato mágico, mas implica em assimilar a lógica da cruz (1Cor 1,17ss; 2,6-9). Crer é entrar no caminho escandaloso do que será elevado. A salvação não se dá de forma automática. Embora oferecida de forma gratuita no Filho elevado, ela requer a relativização de tudo até às últimas consequências, inclusive na doação da própria vida. Gesto este que só se consegue pela fé na pessoa de Jesus. Olhar para o crucificado e crer nele é mais do que sentimento de piedade. É revestir-se da lógica que animou o Filho de Deus.

b) Os vv.16-21 tiram as consequências desta elevação. O que se vê no elevado (cruz) é o símbolo máximo do amor de Deus. Assim, o Filho, o que desceu do céu, é a autoridade impar para demonstrar o amor do Pai. Quem nele crê, tem a vida. Crer nele, assimilar a sua lógica é entrar no projeto de Deus que conduz à vida eterna. Não crer nele, é optar contra a vida. Logo, não é Jesus que condena, mas a opção de quem não crê e, portanto, não opta pela vida e assim, zela sua própria sorte.

Nos textos joaninos, mundo tem mais de um sentido. Aqui, mundo é o lugar humano onde o amor de Deus chega com sua graça através do Filho. Deus busca as pessoas na situação em que elas se encontram, pois, sua graça é o antídoto para todo pecado, fato ilustrado por Paulo, quando queria se ver livre do espinho na carne e recebeu de Deus a resposta: “basta-te a minha graça” (2Cor 12,9). Jesus é esta graça de Deus em meio ao mundo. Estes versículos mudam a compreensão que se tinha de Deus no Antigo Testamento e que ainda persiste nas mentes moralistas de todos os tempos. Deus não quer a condenação de ninguém, mas a pessoa tem de aceitar pela fé esta proposta que se manifesta naquele que desceu do céu.

Nos sinóticos, o julgamento se realiza no fim dos tempos (Mt 26,31-46). Em João isto já se realiza na história: aceitar pela fé, ou rejeitar é o julgamento (v.18).

Jesus se apresenta como luz do mundo (Jo 8,12). Assim, preferir as trevas (vv.19-20) é claramente optar contra o projeto de Deus revelado em Jesus. Não se trata, pois, de um pecado, ou ato isolado, fruto das fraquezas humanas. Antes, trata-se de opção clara contra Jesus, o revelador do Pai. Isto é, opção contra Deus. O mesmo se dá com ‘praticar a verdade” (v.21). Esta verdade não é conceito cognitivo segundo a concepção grega, mas antes, aderir à luz, manifestada na exaltação de Jesus, que, em última análise, é o caminho de Deus para este mundo.

Relação com as outras leituras (2Cr 36,14-16.19-23 e Ef 2,4-10)

Tanto na primeira leitura como em Efésios, mostra-se a situação de pecado do ser humano. Mas Deus, rico em misericórdia, não olhando os merecimentos do povo, em sua bondade envia a graça: a volta do exílio (primeira leitura) e a remissão quando estávamos em pecado (segunda leitura). A iniciativa sempre é dele. Por isto. Ele enviou ao mundo o seu Filho amado, não para condenar, mas para salvar.

 

Dia: 07 de março de 2021
3º Domingo da Quaresma
Evangelho: Jo 2,13-25
Primeira Leitura: Ex 20,1-17
Segunda Leitura: 1 Cor 1,22-25.
Salmo: Sl 19/18,8.9.10.11

 

 

Evangelho

Esta passagem do Cap. 2 do Quarto Evangelho tem uma estrutura interna bem marcada. A referência à festa da Páscoa abre e fecha a perícope:

  • v.13-17 (expulsão dos mercadores do templo durante a festa da Páscoa);
  • v.18-22 (destruição do templo e apresentação do Corpo como espaço de unidade);
  • v.23-25 (fechamento como nova menção da festa da Páscoa e o verdadeiro caráter destes representantes da religião dominante).

Como vemos, no centro, está a nova proposta da passagem do sentido do “templo” e para o sentido do “corpo”. O conjunto e, nele, a presença do episódio da expulsão dos mercadores no começo do Evangelho, à diferença dos Sinóticos (Mt, Mc, Lc), reflete o fato do Templo já ter sido destruído e a necessidade das comunidades cristãs se construir como referências, isto é, “Corpo de Cristo”.

A Páscoa evidencia a oposição entre mercado e libertação (v.13-17)

A Páscoa é o referencial teológico através do qual o Quarto Evangelho estrutura toda sua narrativa de início ao fim. Neste Cap. 2 é chamada de “Páscoa dos judeus” (paska tôn ioudaion) no v.13, mas no versículo 23 (já no anúncio do novo sentido da Páscoa/Ressurreição, cf. v.22) aparece apenas “Páscoa”. Esta diferenciação vai aparecer novamente em 6,4, literalmente, “estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus”, preparando o sentido eucarístico da nova comunhão entre as comunidades do discipulado amoroso que se desenvolve nesse capítulo, ligada novamente à Cruz-Ressurreição (cf. 6,54). O mesmo acontece em 11,55 e 12,1 (fazendo menção a ressurreição de Lázaro e à preparação de Jesus para a Cruz Ressurreição), em 13,1 (abrindo as falas do legado de Jesus na mesa eucarística), até chegarmos à narrativa em si em 18,28.39 e 19.14). O templo, como centro de um “mercado da fé” perdeu totalmente seu sentido pascal, isto é, libertador. O zelo que “consome” Jesus é um zelo do sentido da revelação do caráter libertador de Deus na Páscoa, sentido que será resgatado na Cruz-Ressurreição.

Corpo do Crucificado-Ressuscitado, caminho de libertação e vida (v.18-22)

O anúncio da destruição, ou melhor desconstrução-reconstrução, deixa bem clara a referência à Cruz-Ressurreição, “em três dias o levantarei” e a glosa (explicação) “mas ele falava do templo do seu próprio corpo” (2,19.21).

Neste Evangelho o verbo “levantar” (egeíro) é usado frequentemente para sinalizar a superação sofrimento e da morte ou para falar da ressurreição em si (cf. v.22; 5,8.21; 12,1.9.17;21.14).

A expressão é “o templo do seu próprio corpo”, apresenta o Corpo de Cristo – seja em referência à Eucaristia, seja em referência à Comunidade – como o lugar onde a morte se transforma em vida, a opressão e o sofrimento dão lugar à alegria da libertação; onde o mercado se transforma em partilha. Esta transformação, ou reconstrução da referência de fé, foi o caminho (quaresmal) que preparou aquelas pessoas que seguiam Cristo para crerem, inclusive, no testemunho da “Escritura” (grafê) e nas “palavras” (logon), isto é, reconhecer a presença do “logos” ressuscitado (v.22).

Sinais de Jesus geram a nova comunidade e desmascaram a hipocrisia (v.23-25)

Os “sinais” (semeion) são o caminho da revelação de Cristo no Quarto Evangelho aparecendo 17 vezes, mais do que em qualquer outro escrito do Segundo Testamento. A palavra semeion também pode ser traduzida como “milagre”, mas, embora no Quarto Evangelho todo milagre seja um sinal, nem todo sinal é um milagre. Aqui por exemplo, quais seriam estes sinais? Mesmo que inclua o milagre das Bodas de Caná da Galileia (2.1-12) não se refere somente a ele, mas também ao “sinal” de ter acabado com a mercantilização da fé no templo e ter apontado para o corpo crucificado ressuscitado como referência da fé libertadora. Por outro lado, havia quem, diante desses sinais, ficavam em um silêncio omisso, numa “tolerância” conveniente… Diante da situação de perseguição e morte vividas pelas comunidades do final do primeiro século, época em que foi escrito o Evangelho, essa atitude devia ser denunciada, pois passava uma imagem enganosa que depois se revelaria entregando as irmãs e os irmãos à morte.

Relacionando com os outros textos

A primeira leitura nos traz a versão mais conhecida dos 10 mandamentos (sendo que há outra em Dt 5,6-21), que iniciam com o sentido libertador da revelação divina: “Eu sou Javé teu Deus que tirou da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20,2). Assim estes mandamentos, muito além de uma mera regra moral, são a carta de princípios do projeto libertador de Deus para seu povo. A Páscoa que o Quarto Evangelho toma como referência para a desconstrução da mercantilização da fé e reconstrução do sentido do “corpo”, aqui também apoia a leitura libertadora dos mandamentos como projeto econômico, político e social. Páscoa libertadora da exploração do mercado, reveladora do “templo-corpo”, espaço de encontro das pessoas que creem neste projeto que, diante das estruturas opressivas e repressivas, se apresenta como loucura ou escândalo (1 Cor 1,22-25).

 

 

Segundo Domingo da Quaresma
Dia: 28 de fevereiro de 2021
Primeira Leitura: Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18
Salmo: 115, 10 e 15. 16-17.18-19
Segunda Leitura: Rm 8,31b-34
Evangelho: Mc 9,2-10

 

O Evangelho

O episódio da transfiguração é estreitamente relacionado ao batismo de Jesus, quando Ele foi denominado por Deus “filho amado”. Agora, enquanto Jesus está para empreender o caminho em direção à cruz, o Pai o credita diante dos três discípulos privilegiados, Pedro, Tiago e João, exortando-os a escutá-lo. A profissão de fé de Pedro (8,29) que havia reconhecido Jesus como o Cristo, é confirmada pelo Pai, que o proclama de novo seu “filho amado” (9,7→1,11).

A perícope se abre com a ambientação cênica (v.2); segue a descrição da transfiguração de Jesus e a aparição de Elias com Moisés (v.4). Depois da reação de Pedro (v.5), Deus desvela o significado do evento (v.7). A parte conclusiva menciona o fim repentino da visão (v.8), a ordem do silêncio (v.9) e a execução da parte dos discípulos com a dúvida sobre a ressurreição.

Pela forma do relato, podemos compará-lo a Ex 24,1-9. Da mesma forma que Moisés, Jesus sobe o monte e leva consigo três acompanhantes expressamente nominados. Ao sétimo dia chega a Moisés a voz de Deus. Daqui se explicam os seis dias transcorridos para Jesus subir o monte (v. 2). A nuvem é, como em Ex 24,16s, sinal da presença de Deus. Uma concordância importante é verificada pelo fato que a voz de Deus ressoa da nuvem. Estes elementos são suficientes para caracterizar a perícope como narrativa de teofania: Jesus é envolto na aparição celeste, da qual os discípulos são testemunhas. A voz escutada o declara como Filho de Deus. Assim, o conjunto do relato se transforma em uma entronização. Jesus é apresentado como ser celeste do mundo transfigurado.

O termo “transfiguração” que habitualmente vem empregado para referir esse momento epifânico, devia, a rigor, ser substituído por “metamorfose”, já que esse é o vocábulo usado explicitamente por Mc 9,2 e Mt 17,2 quando referem que Jesus foi mudado de forma (metemorphōthē) à frente dos três discípulos. Ademais o verbo grego metamorphoūn tem um significado não-moral, como em Rm 12,2, mas físico. Denota uma mudança, ainda que momentânea, das qualidades externas de Jesus.

À transfiguração de Jesus se acrescenta a aparição de dois personagens do Antigo Testamento. A aparição, dirigida aos discípulos, vem descrita com as mesmas palavras que se usam para as aparições pascais do Ressuscitado (ōphthē: 1Cor 15,5; Lc 24,34) e para as aparições do anjo (Lc 1,11; 22,43; At 7,30). As pessoas que aparecem falam com Jesus, o transfigurado. No evangelho de Marcos, nada se diz sobre o conteúdo do colóquio (diversamente de Lc 9,31). Note-se que no v. 4, contrariamente ao que acontece no v. 5, Elias é nomeado primeiro que Moisés. Mc introduz essa mudança para pôr em evidência o seu interesse por Elias. É sabido que no judaísmo existia/existe a expectativa que Elias é o precursor do tempo messiânico. O evangelista, ao colocar Elias em primeiro, revela que para ele é mais importante o componente escatológico: Jesus introduz o fim dos tempos.

A palavra que Pedro dirige a Jesus é apresentada como resposta e reação ao que está acontecendo. Ele se dirige a Jesus com o termo Rabi (Mt 17,4: Senhor; Lc 9,33: Mestre). A exclamação “é bonito estarmos aqui” faz pensar na antecipação da bem-aventurança celeste que os discípulos experimentam. Mc interessa-se pela resistência do discípulo em compreender. A falta de compreensão de Pedro está no mesmo nível de 8,32s. Querendo reter a bem-aventurança celeste, o discípulo se defende novamente da necessidade do sofrimento.

Relacionando com as outras leituras

Devemos buscar o significado do texto na aceitação positiva da sua mensagem de fé e na disponibilidade em seguir Jesus no itinerário da cruz, sabendo que o percurso não se conclui com a cruz. Aqui a conexão com primeira leitura é nítida, pois o sacrifício de Isaac é figura da Paixão de Jesus, o Filho único. Podemos considerar que a perícope constitui a soma das experiências relacionadas à história de Jesus, que considera a sua atividade um evento escatológico-histórico.

 

 

 

1º Domingo da quaresma
Dia: 21 de fevereiro de 2021
Primeira Leitura: Gn 9,8-15
Salmo: 25/24, 4bc-5ab. 6-7bc. 8-9
Segunda Leitura: 1Pd3,18-22
Evangelho: Mc 1,12-15

O evangelho deste primeiro domingo da Quaresma é composto por dois pequenos blocos: a tentação de Jesus (vv. 12-13) e o início do ministério de Jesus na Galileia (vv. 14-15).

O relato marcano da tentação de Jesus no deserto é extremamente sumário: apenas dois versículos (vv. 12-13). No entanto, no plano narrativo de Marcos é de extrema importância: primeiro Jesus vence a tentação e só depois começa a expulsar o mal que ameaça o projeto do Reino de Deus.

O v. 12 afirma que, após Jesus ser batizado, o Espírito o conduz ao deserto. O deserto, mais do que um lugar geográfico, é o espaço que desperta a memória da experiencia libertadora do Êxodo como proteção divina (Ex 15,22–18,27). O deserto é também o lugar do encontro com Deus (Dt 32,10), é o lugar para refazer a aliança (Os 2,16). Os profetas do exílio recorreram à imagem do deserto para anunciar que, como no passado, Deus viria salvar seu povo e fazer com ele um “novo êxodo” (Is 40,3). Todos esses elementos ajudam a compreender a importância do deserto na vida de Jesus: é a transição da vida oculta para a vida pública, para o tempo em que Jesus atua a salvação prometida por Deus pelos profetas.

O v. 13 afirma que Jesus permaneceu no deserto quarenta dias. Quarenta é um número simbólico, como muitos exemplos na tradição bíblica (Ex 34,28; Dt 8,2; 1Rs 19,8 etc.). No Antigo Testamento, o livro dos Números narra a tentação de Israel no deserto; agora, Jesus refaz simbolicamente o caminho de Israel no deserto (40 anos / 40 dias). Mas, a atitude de Jesus é totalmente diferente da atitude do povo da Antiga Aliança: Israel caiu na tentação da rebeldia e da murmuração; Jesus, ao contrário, vence a tentação. A liturgia cristã apropriou-se deste simbolismo e instituiu um tempo de 40 dias – a “quaresma” – de penitência e preparação para a Páscoa.

O mesmo v. 13 afirma que Jesus era tentado por Satanás, o inimigo de Deus e dos seres humanos. A palavra “satanás” tem o significado de “advogado de acusação; adversário, inimigo”. Este não é o único confronto entre Jesus e Satanás no evangelho de Marcos. Em outras ocasiões, Satanás tentará frustrar o projeto do Reino de Deus (3,23.26; 8,33).

O v. 13 termina com a conclusão de que Jesus estava no meio das feras e os anjos o serviam. É uma referência a textos do profeta Isaías que falam da paz prometida para o tempo messiânico (Is 11,6-9; 65,25;). Desse modo, Jesus é apresentado como o Messias que realiza o projeto de Deus, caracterizado pela vitória sobre o poder do mal e pela completa harmonia e paz na criação.

Ao derrotar o poder do mal em si mesmo, Jesus começa a derrotar o poder do mal no mundo. Os vv. 14-15 são um sumário, um resumo do projeto teológico de todo o livro de Marcos.

Não é à toa que Jesus inicia este anúncio crítico depois que João tinha sido entregue, isto é, depois que o Batista tinha sido aprisionado por criticar o Herodes Agripa, um rei fantoche e subserviente ao imperador Tibério César. A prisão do profeta João Batista é vista como o ápice da iniquidade de Herodes Agripa e sinal de que havia chegado o momento da intervenção de Deus para libertar seu povo. Por isso, o v. 15 afirma claramente:  Completou‑se o tempo oportuno e o Reino de Deus se aproximou. Convertei‑vos e crede no Evangelho.

O texto grego usa a palavra kairós: não se trata do tempo cronológico, mas do momento oportuno: a intervenção de Deus é agora!  Na continuação, Jesus diz que o Reino de Deus se fez próximo. A palavra kairós na primeira frase do versículo pode levar ao engano de interpretar que Jesus esteja falando da proximidade do tempo. Mas não: o verbo “aproximou-se” aqui não tem a ver com tempo, mas com espaço: o Reino de Deus está aqui, está ao alcance da nossa mão. Então, o Reino acontece agora (kairós, momento oportuno) e aqui (está ao nosso alcance).

Neste contexto devem ser lidos os dois imperativos do v. 15: Convertei-vos e crede no Evangelho. Converter-se, aqui, significa mudar de mentalidade, deixar de acreditar nas promessas enganosas do Império Romano, para acreditar no Evangelho de Deus. Em outras palavras, não se trata apenas de não mais ter medo do Império, mas também de não assumir como projeto pessoal e comunitário uma paz baseada no sangue e nos cadáveres dos inimigos e derrotados. A verdadeira força que salva não é a opressão do Imperador, mas o compromisso com o Reino de Deus!

6º Domingo Do Tempo Comum

Dia: 14 de fevereiro de 2021
Primeira Leitura: Lv 13,1-2.44-46
Salmo: 32/31,1-2.5.7.11
Segunda Leitura: 1Cor 10,31-11.1
Evangelho: Mc 1,40-45

 

Evangelho

Na tradição do Antigo Testamento (Lv 13-14) pode-se descrever a lepra como um mal aterrorizante. Além da questão sanitária, havia o problema teológico. O leproso era impuro, tanto no sentido biológico como moral. Via-se esta doença como uma maldição de Deus. Portanto, a lepra era uma sentença de morte muito desoladora, pois o acometido deste mal perdia seu lar e sua comunidade, vivendo em lugares retirados até a terrível morte no abandono e ainda era julgado amaldiçoado por Deus. Pode-se dizer, o leproso era um excomungado, sem acesso à vida social e sem acesso a Deus. Ele devia esperar a morte abandonado por todos e sem perdão. Não havia cura, pois os recursos da medicina de então não alcançavam este mal. Curar um leproso, só aconteceria mesmo por milagre e equivalia a ressuscitar um morto. Por isto mesmo, ao leproso não restava nenhuma esperança. Os sacerdotes eram os encarregados de examinar as pessoas para constatar a lepra e também e uma eventual cura.

Na leitura do evangelho de hoje, algo de novo acontece: um leproso que, apesar de toda esta situação, ainda tem esperança. Ele se liberta da cosmovisão comum da época. Buscou em Jesus o que sabia que não encontraria no Deus domesticado pelos sacerdotes do templo. Busca a cura, não na instituição sacerdotal, mas na pessoa de Jesus. Ele se aproxima e, portanto, desobedece ao Lv 13,45-46 que estabelecia que ele deveria viver afastado e alertar as pessoas de que estava impuro (Lv 13,45s). Ele não se afasta, mas vai ao encontro do homem que, mais do que a instituição sacerdotal, podia lhe dar esperança e, com fé, diz: “se queres, podes…”. Por sua vez, também Jesus quebra as prescrições do Levítico. Toca no suposto impuro e amaldiçoado, mostrando que seu Deus não é aquele dos sacerdotes e escribas. Ele não exclui os impuros, mas derruba a cosmovisão teológica da oficialidade.

Algumas Bíblias traduzem o v. 41 como: “Jesus sentiu compaixão”. Outras traduzem, como “irado”. As duas são possíveis. Talvez esta última tradução nos chame atenção para o mais importante na ação de Jesus. Jesus não manifesta ira contra o leproso, mas contra o sistema excludente que condenava os “impuros” ao ostracismo.

Como instaurador do Reino, Jesus mostra sinais messiânicos já apontados pelos profetas (Is 35,5ss; 61,1ss). Ele apresenta as curas como a chegada deste Reino (Mt 11,5), quando a velha lei será superada. Isto, na comunidade Marcos, reflete a passagem de uma religião legalista para a nova práxis cristã, onde, mais do que um milagre no sentido de superação das leis da natureza, se supera uma visão teológica viciada e excludente.

Nesta nova realidade, o que conta é a compaixão que, na visão cristã, está acima da lei. Jesus mostra que o serviço ao ser humano supera a lei, pois como Ele ensina, a lei (sábado) foi feita para o ser humano e não o ser humano para a lei. Por isto ele cura e reintegra o ser humano contrariando a lei. Nisto consiste sua autoridade: ele revela o verdadeiro rosto de Deus e, para tanto, pode contrariar a lei.

Ao mandar o curado aos sacerdotes para testemunhar sua nova condição, Jesus confronta o sistema de pureza legal representado por eles. Eles devem perceber que os tempos messiânicos, preanunciados por Isaías, estão chegando. O Reino de Deus está próximo.

Como conseqüência de sua ação de superação do sistema preconceituoso, o leproso volta para o convívio dos seus e Jesus vai para o lugar do leproso, pois fica retirado dos locais públicos. Percebe-se aqui uma consequência de Is 53,4: “ele carregava nossas doenças”.

Relação com Lv 13,1-2.44-46

A descrição que Lv 13 e 14 faz dos leprosos mostra, no mínimo duas coisas: a preocupação de não contaminar as demais pessoas e, ao mesmo tempo, a grave situação de exclusão que os contaminados viviam, bem como seus familiares que perdiam seus entes queridos. O NT, na pessoa de Jesus, supera completamente esta visão. Os cristãos também devem cuidar para não contaminar ninguém, mas tiram dos ombros dos doentes, a grave chaga da maldição divina, dando-lhe atendimento e acolhida.

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

5º Domingo do Tempo Comum
Dia: 7 de Fevereiro de 2021
Primeira Leitura: Jó 7,1-7.
Salmo: 146,1-2.3-4.5-6.
Segunda Leitura: I Cor 9,16-19.22-23.
Evangelho: Mc 1,29-39

 

Introdução: Intimidade e Empatia.

O Evangelho deste domingo mostra as ligações entre intimidade, empatia e solidariedade popular. Na intimidade e a empatia vivenciada no círculo pessoal/familiar da casa de Simão e André se gera a comunidade de serviço em favor das pessoas mais vulneráveis. A intimidade da consciência humana em Jó lança o desafio empático com as pessoas que são vítimas de relações de opressão e escravização. Paulo parte de sua experiência pessoal de missão e declara a vivência empática entre as pessoas fracas. Um domingo onde as leituras bíblicas ligam a vivência pessoal da fé com o compromisso social e político.

Marcos: intimidade e empatia

Em Mc 1,29  está o final de uma narrativa da “sinagoga de Cafarnaum”, que inicia em 1,21. Embora em outras narrativas se fale que Jesus entrou em sinagogas (3,1), pregou (1,39) e ensinou (6,2), este é o único texto onde se menciona que ele e os discípulos “saíram da sinagoga” indo para a “casa” (oikia). Este movimento marca quando a comunidade de Marcos visualiza o surgimento da comunidade “cristã”. Na intimidade da casa, a comunidade vive o encontro com Jesus. A casa aparece novamente em 9,33; quando “partindo para Cafarnaum” entraram na casa. Na casa Jesus se revela como “servo de todos” (9,35). A casa tem como referência inicial Simão e seu irmão André (portanto é a casa materna/paterna de ambos, 1,16). Simão ainda não é conhecido como “Pedro” (cf. 3,16). O texto dá entender que ambos falaram para Jesus (intercederam) pela sogra de Simão, que estava acamada (1,30). Esta mulher vulnerável é imagem de toda a comunidade de Marcos, perseguida, ferida, frustrada. Jesus a toma pela mão (outro gesto de profunda intimidade e ternura) e a febre desaparece imediatamente. A mulher/comunidade tocada por Jesus, começou a servir!

Na segunda parte do texto, a “casa” se torna referência para todas as pessoas vulneráveis, doentes e excluídas. A referência “quando o sol se pôs”, indica que o sábado passou, o que permite que, sem exclusão, “todas” as pessoas doentes ou “possuídas” vão ao encontro de Jesus (1,32), ampliando-se no versículo seguinte quando “toda a cidade” se reúne na porta da casa (1,33). Verifica-se um movimento de igreja de saída, que vai da intimidade empática, para a empatia inclusiva em relação às pessoas mais vulneráveis, e daí parte para a missão que faz a ação política solidária (cidade/pólis).

Uma primeira conclusão em 1,34 substitui “todos/as” (pas), por “muitos/as” (polús). Os “demônios” como forças espirituais da morte e do sofrimento perceberem quem era Jesus (eído, de “ver”, não de “saber”), mas ele não deixa estes “falar” (laleo). Esta é uma prévia do chamado “segredo messiânico” em Marcos. As forças de morte percebem logo quem é Jesus e qual é sua missão, mas esta missão deve ser desenvolvida a partir da comunidade, da intimidade, da empatia e do compromisso social e político. Jesus é o Messias que emerge da comunidade, não imposto ou implantado por nenhum poder.

O dia em que a comunidade foi gerada segue. Ainda escuro, no amanhecer do primeiro dia da semana – dia da ressurreição, como é dito em Mc 16,2- Jesus se afasta, gerando, na comunidade, um sentimento de abandono muito semelhante ao da sua morte (1,35). A comunidade, liderada por Simão, sai em busca de Jesus, como no episódio da ressurreição (1,36-37; cf. 16,7). Jesus anuncia a missão de compromisso social e político a partir da comunidade, dizendo literalmente “dentro disso, pois eu vim/vou” (eis touto exelton). Jesus provoca a “eclesiogênese” (cf. Clodovis e Leonardo Boff) desde a intimidade, passando pela empatia e projetando o compromisso social e político. Jesus continua pregando por toda a Galileia, nas “sinagogas deles” (sunagogas auton), mas sempre voltando para a casa/comunidade como referência, expulsando as forças de morte (1,39).

Ligação com os outros textos

O texto de Jó exige o mesmo cuidado do que o texto de Marcos, em não ver na pessoa (sogra de Pedro) apenas ela, mas a expressão de muitas outras na mesma situação. Assim quando no livro de Jó se pergunta: “não está o homem condenado a trabalhos forçados aqui na terra?” (7,1-3), não se conecta a intimidade do sofrimento humano, com a empatia e o compromisso social e político? Quando ao apóstolo Paulo afirma “para os fracos, fiz-me fraco, a fim de ganhar os fracos”, não expressa ali, através da sua intimidade de fé, a empatia e o compromisso social e político? Assim podemos ver, através destas leituras, que este é o caminho da fé, da construção comunitária e da missão de Deus.

 

 

Quarto Domingo do Tempo Comum
Dia: 31 de Janeiro de 2021
Primeira Leitura: Dt 18,15-20
Salmo: 94,1-2.6-9
Segunda Leitura: 1Cor 7,32-35
Evangelho: Mc 1,21-28

 No Evangelho de Marcos, Jesus inicia sua atividade em público com um exorcismo. Marcos inicia a perícope com dados situacionais: Cafarnaum, sábado, sinagoga. No v. 22 é constatado o ensinamento cheio de autoridade de Jesus e a reação de quem o escuta. No entanto, nada se diz sobre o conteúdo do ensinamento. É nítido o contraste/confronto com o ensinamento dos escribas. A autorizada doutrina de Jesus, que ultrapassa a doutrina dos escribas, pode fundar-se sobre o fato que Jesus fala por autoridade direta, enquanto que os escribas simplesmente explicam a Lei e a tradição.

Os vers. 23-28 contam uma clássica história de exorcismo, cujos elementos essenciais são: entrada em cena do endemoninhado, tentativa de defesa, ordem e expulsão por parte do exorcista, saída do espírito impuro e reação afirmativa das pessoas presentes.

Os personagens em ação são Jesus, o espírito impuro e aqueles que estão presente na sinagoga. O homem endemoninhado é como que um coadjuvante do espírito impuro que o possui. Aos discípulos se faz alusão somente na frase inicial como acompanhantes de Jesus.

É digno de nota que aquilo que o espírito impuro reconhece é justo, Jesus é “o Santo de Deus”. O reconhecimento se torna uma revelação. A expressão “santo de Deus” pode ser encontrada também em Lc 4,34; Jo 6,69 (cf., ainda Dt 7,6; Jz 16,17; 2sm 17,18; Sl 105,16; Sb 11,1). A pergunta subentendida é: basta reconhecer o senhorio de Jesus? Ecoa o convite do salmista: “não endureçais vossos corações” (Sl 94,8).

O grito se articula em repulsa–profissão de fé (vers. 23-24) e suplício (v.26; comparar com 9,26). Ao espírito impuro é ordenado de manter para si a sua consciência sobre Jesus. Sobre a epifania se baixa o véu do mistério.  Marcos nos convida a cotejar os gritos do espírito impuro (vers. 23-24.26) com a voz de comando de Jesus (v.25). A dessemelhança é reveladora. Esta diferença faz compreender a intenção de apresentar Jesus, conectado à imagem veterotestamentária, como o senhor da natureza e das forças que nela operam.

O fato que os espíritos impuros reconheçam Jesus constitui uma característica usual em Mc (3,11; 5,7). A pergunta “o que há entre nós e ti?” contém aspecto de repulsa que é formal e recorrente no Antigo Testamento (Jz 11,12; 2Sm 16,10; 1Rs 17,18; 2Rs 9,18).

A referência à vinda de Jesus (v.24) é geral e não diz respeito somente à sua chegada na sinagoga de Cafarnaum. A sua missão tem como meta a aniquilação do ser demoníaco.

A reação dos presentes na sinagoga é de surpresa e admiração. O raro ethambēthēsan (“ficaram estupefactos”), pode descrever também o espanto dos discípulos por uma palavra de Jesus (10,24.32). O novo ensinamento, dotado de autoridade e confirmado pela multidão (v.27), se manifestou na obediência dos espíritos impuros ao comando de Jesus. A reação torna transparente o conjunto do relato: ele se apresenta como história de missão, enquanto na reação confluem em um único gesto a assembleia da sinagoga e a assembleia cristã missionária. Também a difusão da fama de Jesus na circunvizinhança vai entendida como notícia relacionada à missão.

O texto do Dt mostra que os judeus esperavam um Messias que fosse como um novo Moisés. “As palavras de Deus em sua boca” (Dt 18,18) evidenciam o paralelismo entre Jesus e Moisés.

Para Mc a autoridade da palavra de Jesus aparece referendada pelo o fato de estar acompanhada por ações poderosas. A ação torna explícita a palavra. A história do exorcismo deve ser lida com esse pano de fundo. A derrota dos espíritos malignos anuncia que chegou o senhorio de Deus.

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF

Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló

Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

 

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

3º Domingo do Tempo comum

Dia: 24 de janeiro de 2021

Primeira Leitura: Jn 3,1-5.10
Salmo: 24,4ab.6-7bc.8-9
Segunda Leitura: 1Cor 7,29-31
Evangelho: Mc1,14-20

 

O evangelho deste domingo pertence ao bloco conhecido como “Ministério de Jesus na Galileia” (1,14–7,23). Para compreendermos bem os versículos que lemos nesta liturgia (1,14-20), é necessário dividi-los em dois pequenos blocos.

O primeiro (vv. 14-15) é um sumário, no qual está resumido o projeto teológico de todo o livro de Marcos. Nesses dois versículos, ganha destaque o termo “evangelho”. Esta palavra não foi inventada por Jesus nem pelos cristãos. Ela já era usada na língua grega e seu significado nós sabemos: “boa notícia”. A questão é saber: Que tipo de boa notícia? Ou melhor: Boa notícia para quem?

No mundo greco-romano, “evangelho” era qualquer notícia ligada ao poder de Roma e do imperador: vitórias militares e derrota dos inimigos, bem como a entronização do imperador. Em suas cartas, Paulo se apropria deste termo e muda totalmente o significado: o conteúdo do “evangelho” é a salvação atuada por Jesus Cristo. O primeiro a usar aquela palavra para designar um livro é Marcos (Mc 1,1). Este autor diz abertamente que o evangelho que Jesus anuncia não é uma boa notícia do Império Romano, mas é “de Deus”. Com este acréscimo, o evangelista diz claramente que a boa notícia de Deus não é a boa notícia do Império; pois o que o Império oferece não é a salvação, e sim a chamada Pax Romana, um sistema de dominação baseado na violência e na destruição.

Não é à toa que Jesus inicia este anúncio crítico depois que João tinha sido entregue, isto é, depois que o Batista tinha sido aprisionado por criticar o Herodes Agripa, um rei fantoche e subserviente ao imperador Tibério César. A prisão do profeta João Batista é vista como o ápice da iniquidade de Herodes Agripa e sinal de que havia chegado o momento da intervenção de Deus para libertar seu povo. Por isso, o v. 15 afirma claramente:  Completou‑se o tempo oportuno e o Reino de Deus se aproximou. Convertei‑vos e crede no Evangelho.

O texto grego usa a palavra kairós: não se trata do tempo cronológico, mas do momento oportuno: a intervenção de Deus é agora!  Na continuação, Jesus diz que o Reino de Deus se fez próximo. A palavra kairós na primeira frase do versículo pode levar ao engano de interpretar que Jesus esteja falando da proximidade do tempo. Mas não: o verbo “aproximou-se” aqui não tem a ver com tempo, mas com espaço: o Reino de Deus está aqui, está ao alcance da nossa mão. Então, o Reino acontece agora (kairós, momento oportuno) e aqui (está ao nosso alcance).

Neste contexto devem ser lidos os dois imperativos do v. 15: Convertei-vos e crede no Evangelho. Converter-se, aqui, significa mudar de mentalidade, deixar de acreditar nas promessas enganosas do Império Romano, para acreditar no Evangelho de Deus. Em outras palavras, não se trata apenas de não mais ter medo do Império, mas também de não assumir como projeto pessoal e comunitário a Pax Romana, que, como vimos, é uma paz baseada no sangue e nos cadáveres dos inimigos e derrotados. A verdadeira força que salva não é a opressão do Imperador, mas o compromisso com o Reino de Deus!

O fato de Jesus ter escolhido como primeiros membros de seu grupo quatro pescadores, bem como as palavras que dirige a Simão e a André – Vinde após mim, e eu vos farei ser pescadores de homens – também merecem nossa atenção.

Nos vv.16-20 temos duas cenas semelhantes, narradas como típicos relatos de vocação: enquanto caminha, Jesus vê trabalhadores e os convida a deixar tudo e segui-lo. A eleição de pescadores e a insistência de Marcos neste particular vão além do sentido simbólico superficial, isto é, congregar pessoas para que recebam o perdão e a salvação. O convite a pescadores liga este episódio a dois textos proféticos, Am 4,2 e Jr 16,16, nos quais os pescadores simbolizam os exércitos inimigos que invadem Israel e Judá. A ação daqueles pescadores era a de dispersar e devorar o povo. Nos tempos de Jesus, assim agia o Império Romano. Ao qualificar seus primeiros discípulos como pescadores, Jesus os convida a agir de modo contrário, isto é, reunir e salvar o povo. Os discípulos, portanto, são convocados a se unir a ele na sua luta para restaurar a dignidade das pessoas e de toda a nação. Muitas vezes, isso implica deixar e combater privilégios ancorados na dominação romana. Por isso, o evangelista insiste que os primeiros vocacionados deixaram imediatamente redes e barcos, não para fugir do mundo, e sim para se inserir numa prática social alternativa, baseada não em vantagens interesseiras, mas na liberdade diante da vida e do futuro.

 

 

 

 

 

 

Segundo Domingo do Tempo Comum
Dia: 17 de janeiro de 2021

Primeira Leitura: 1Sm 3,3b-10.19
Salmo: 39,2.7-10
Segunda Leitura: 1Cor 6,13c-15a.17-20
Evangelho: Jo 1,35-42

 

Evangelho

O texto deve ser lido dentro da unidade maior (Jo 1,19-2,11) que se apresenta como uma semana teológica, parafraseando Gn 1,1-2,4a. Assim, em Jo 1,19-28 se relata o primeiro dia: testemunho de João Batista diante dos enviados de Jerusalém. Em Jo 1,29-34 está o segundo dia: testemunho de João diante de Jesus, como Cordeiro de Deus, sobre o qual viu descer o Espírito. No terceiro dia (Jo 1,35-39) o Batista testemunha diante dos discípulos que aderem a Jesus. Já no quarto dia (Jo 1,40-42), André testemunha diante de Simão. No quinto dia (Jo 1,43-51) Filipe testemunha diante de Natanael. A culminância desta semana teológica acontece no sétimo dia, ou seja, no terceiro dia, ou dois dias depois do quinto dia (Jo 2,1-11) quando a glória plena de Jesus se revela e os discípulos creem nele (2,11).

Nesta semana teológica, a dinâmica geradora da comunidade de fé, é o testemunho. Num primeiro momento, é João que dá seu testemunho: “eis o Cordeiro de Deus”, conceito haurido de Ex 12 e Is 53. No segundo momento, os dois discípulos que passaram de João a Jesus, atribuem a ele o conceito de Mestre (Rabi). Um destes discípulos, depois de ter permanecido o dia na Sua presença, apresenta-O a Simão, como o Messias/Cristo. Se continuarmos a leitura na próxima perícope, Filipe o apresenta a Natanael como “aquele de quem está escrito na lei de Moisés e nos profetas” (v.45). Por fim Natanael o define como “rabi, Filho de Deus e rei de Israel” (v.49). Ao que o próprio Jesus completa: “vereis o céu aberto… sobre o Filho do Homem” (v.51 cf. Gn 28,12 – visão de Jacó). Como se percebe, é uma cristologia crescente que culmina com o testemunho dos discípulos e é completada pela palavra de Jesus.

A cena se dá onde João batiza. Ele, como o último representante da antiga Lei, dá testemunho sobre Jesus e, imediatamente, dois de seus discípulos, passam da antiga Lei para a pessoa de Jesus. João está parado e Jesus anda. Isto é, o papel de João está chegando ao fim, o Antigo Testamento cumpriu sua função. João dirá, logo adiante: “É preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). Agora inicia a missão de Jesus. Os fiéis do antigo Povo de Deus chegam a Jesus pelo testemunho de João e o testemunho dos que já aderiram é a dinâmica para trazer outras pessoas (cf. At 1,6-8). Assim, João (AT) entende que não deve formar discípulos para si, mas encaminhá-los ao verdadeiro esposo (Jo 3,29ss).

Os conceitos usados: Cordeiro de Deus, Mestre, Messias, etc. são conceitos pós-pascais, quando a comunidade relê Jesus à luz do AT. O cristão que tem esta fé passa tranquilamente da antiga Aliança para a pessoa de Jesus e está apto a testemunhar e assumir a missão de evangelizar. Esta dinâmica fica clara na ação daqueles que usufruíram do primeiro testemunho e levaram a missão de João até Natanael, passando por Pedro.

Assim, parafraseando o primeiro relato da criação, o evangelista mostra que a nova criação está acontecendo de forma plena na pessoa de Jesus. Claro, para isto conta o testemunho vindo do AT que prepara a missão de Jesus e este, por sua vez, requer a adesão dos discípulos que, agora, continuam a missão através do testemunho. Dir-se-ia: só pela adesão a Jesus, a plenitude da revelação de Deus (cf. Gl 4,1ss; Hb 1,1ss; Ef 1,10; Cl 1,19) a criação preconizada em Gn 1 chega à plenitude.

Relação com 1Sm 3,3b-10.19

Como os discípulos de Jesus, também Samuel faz a experiência de Deus que o chama para a missão. Assim como os discípulos chegaram a Jesus pelo testemunho de João, de André e de Filipe, também Samuel, ouvindo a voz de Deus, precisou do testemunho e da orientação de Eli. A verdadeira fé é um dom de Deus, mas este não cai do céu. Se expressa na comunidade e, para chegar à verdade, precisa do testemunho das pessoas disponíveis a Deus. Samuel teve sua fé amadurecida por Eli, os discípulos chegaram à verdade pelo testemunho de João e dos demais. Hoje, a verdadeira fé vem pelo testemunho da igreja, isto é, pelo povo que vive com autenticidade os valores revelados na Bíblia e plenificados na pessoa de Jesus Cristo.

 

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Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló

Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

 

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Batismo do Senhor – Ano B

Dia 10 de Janeiro de 2021

Primeira Leitura: Is 42,1-4.6-7

Salmo: 28,1a.2.3ac-43b.9b.-10

Segunda Leitura: At 10,34-38

Evangelho: Mc1,7-11

Introdução

O Evangelho da comunidade de Marcos é o pioneiro no gênero literário chamado “evangelho”. Comparado com os outros dois Evangelhos Sinóticos (Mt e Lc) é quase um sumário. É claro que devemos lembrar que os primeiros textos do Novo Testamento foram as Cartas de Paulo, que podem ter influenciado esta primeira narrativa sobre a trajetória ministerial de Jesus Cristo sob o título “Evangelho” (cf. Gl 1,6-9; Rm 1,3s; 1 Cor 9,14;15,3-5). Mas, este termo tinha uma origem anterior nas narrativas do Império Helenista de Alexandre e no Império Romano quando se anunciava o nascimento de um imperador como “deus”. O Batismo de Jesus, por sua vez, faz parte das narrativas confessionais da comunidade que busca descrever a glória única e incomparável de Jesus com auxílio de traços lendários. Elas também sinalizam o Batismo como a necessidade de estabelecer o vínculo de continuidade entre os movimentos proféticos de João Batista e de Jesus de Nazaré (Mc 1,2-11 e 6,14-19).

O texto em si

A narrativa tem duas partes, claramente diferenciadas: 1,7-8 (Pregação de João Batista sobre “aquele que é mais forte do que eu”) e 1,9-11 (Narrativa do Batismo). A primeira parte refere-se à continuidade entre os movimentos proféticos de João Batista e Jesus. Quando João Batista afirma que Jesus é “mais forte” (termo que usará depois em 3,27 para falar da casa de um homem “forte”). A dimensão comparativa entre os dois movimentos usando a expressão geralmente traduzida como “eu não mereço”, mas a palavra grega hikanós não se refere ao “mérito”, mas à “quantidade”, isto é, “não tenho o suficiente para…” ou “não tenho a capacidade de…” (cf. Mc 10.46, “numerosa”; 15,15; “multidão”). Aqui fica claro que João Batista e Jesus simbolizam seus movimentos proféticos!  João Batista declara que seu movimento – cuja marca era o batismo nas águas do rio Jordão, por onde o povo ingressou à Terra Prometida – deve se incorporar ao movimento de Jesus – cuja marca é a ação do Espírito Santo – para completar a missão transformadora. Chegou a hora de aderir a um novo movimento, um novo batismo que incorpora a força divina.

A segunda parte é uma declaração de fé da comunidade de Marcos, aberta pelo título formal “naqueles dias”. Este tipo de introdução aparece neste Evangelho para falar de grandes sinais de Jesus como em 8,1 quando Jesus faz o gesto eucarístico da partilha com multidão, ou ainda em 13,24 quando se anuncia a volta do “Filho do ser humano” após a “grande tribulação”. Jesus, apresentado em relação à Nazaré da Galileia, e não como “Cristo” (cf. Mc 1,1), mostra que o movimento profético do Evangelho emerge do chão da história. Com Jesus, batizar – lavar, desconstruir a relação de pecado – assume o sentido maior da entrega na Cruz (central na teologia de Marcos; cf. 10.38-39).

Relacionando os textos

A alegria que se proclama neste Domingo - Gaudete - está em Jesus, Logos criativo, que é Vida Luz e chama para um testemunho profético que se vive no chão de nossa história concreta, como foi com João Batista e Jesus, e vai além dos estreitos limites de nossos parâmetros “religiosos”. A leituras proclamam a alegria de anunciar a “boa notícia para as pessoas pobres” (Is 61,1) e, como Maria, se alegrar “em Deus meu/nosso Salvador” (Lc 1,47) pois, Ele “encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias” (Lc 1,53). Se alegrar na oração e no discernimento que reside em “não apagar o Espírito”, “não desprezar as profecias” e “reter o que é bom”, se abstendo “de toda forma de mal” (cf. 1 Ts 5.16,19-22). Este alegre movimento da profecia só pode ser realizado quando nossa prática de fé não se fecha em parâmetros estreitos, limitando a revelação ao nosso poder como “autoridade religiosa”, mas se abre o sentido (Logos) da Vida e da Luz, capaz de iluminar as trevas de quem perdeu a capacidade de testemunhar e acolher.

 

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