ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE FRANCISCANA

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

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LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

3º Domingo do Tempo comum
Dia: 24 de janeiro de 2021

Primeira Leitura: Jn 3,1-5.10
Salmo: 24,4ab.6-7bc.8-9
Segunda Leitura: 1Cor 7,29-31
Evangelho: Mc1,14-20

 

O evangelho deste domingo pertence ao bloco conhecido como “Ministério de Jesus na Galileia” (1,14–7,23). Para compreendermos bem os versículos que lemos nesta liturgia (1,14-20), é necessário dividi-los em dois pequenos blocos.

O primeiro (vv. 14-15) é um sumário, no qual está resumido o projeto teológico de todo o livro de Marcos. Nesses dois versículos, ganha destaque o termo “evangelho”. Esta palavra não foi inventada por Jesus nem pelos cristãos. Ela já era usada na língua grega e seu significado nós sabemos: “boa notícia”. A questão é saber: Que tipo de boa notícia? Ou melhor: Boa notícia para quem?

No mundo greco-romano, “evangelho” era qualquer notícia ligada ao poder de Roma e do imperador: vitórias militares e derrota dos inimigos, bem como a entronização do imperador. Em suas cartas, Paulo se apropria deste termo e muda totalmente o significado: o conteúdo do “evangelho” é a salvação atuada por Jesus Cristo. O primeiro a usar aquela palavra para designar um livro é Marcos (Mc 1,1). Este autor diz abertamente que o evangelho que Jesus anuncia não é uma boa notícia do Império Romano, mas é “de Deus”. Com este acréscimo, o evangelista diz claramente que a boa notícia de Deus não é a boa notícia do Império; pois o que o Império oferece não é a salvação, e sim a chamada Pax Romana, um sistema de dominação baseado na violência e na destruição.

Não é à toa que Jesus inicia este anúncio crítico depois que João tinha sido entregue, isto é, depois que o Batista tinha sido aprisionado por criticar o Herodes Agripa, um rei fantoche e subserviente ao imperador Tibério César. A prisão do profeta João Batista é vista como o ápice da iniquidade de Herodes Agripa e sinal de que havia chegado o momento da intervenção de Deus para libertar seu povo. Por isso, o v. 15 afirma claramente:  Completou‑se o tempo oportuno e o Reino de Deus se aproximou. Convertei‑vos e crede no Evangelho.

O texto grego usa a palavra kairós: não se trata do tempo cronológico, mas do momento oportuno: a intervenção de Deus é agora!  Na continuação, Jesus diz que o Reino de Deus se fez próximo. A palavra kairós na primeira frase do versículo pode levar ao engano de interpretar que Jesus esteja falando da proximidade do tempo. Mas não: o verbo “aproximou-se” aqui não tem a ver com tempo, mas com espaço: o Reino de Deus está aqui, está ao alcance da nossa mão. Então, o Reino acontece agora (kairós, momento oportuno) e aqui (está ao nosso alcance).

Neste contexto devem ser lidos os dois imperativos do v. 15: Convertei-vos e crede no Evangelho. Converter-se, aqui, significa mudar de mentalidade, deixar de acreditar nas promessas enganosas do Império Romano, para acreditar no Evangelho de Deus. Em outras palavras, não se trata apenas de não mais ter medo do Império, mas também de não assumir como projeto pessoal e comunitário a Pax Romana, que, como vimos, é uma paz baseada no sangue e nos cadáveres dos inimigos e derrotados. A verdadeira força que salva não é a opressão do Imperador, mas o compromisso com o Reino de Deus!

O fato de Jesus ter escolhido como primeiros membros de seu grupo quatro pescadores, bem como as palavras que dirige a Simão e a André – Vinde após mim, e eu vos farei ser pescadores de homens – também merecem nossa atenção.

Nos vv.16-20 temos duas cenas semelhantes, narradas como típicos relatos de vocação: enquanto caminha, Jesus vê trabalhadores e os convida a deixar tudo e segui-lo. A eleição de pescadores e a insistência de Marcos neste particular vão além do sentido simbólico superficial, isto é, congregar pessoas para que recebam o perdão e a salvação. O convite a pescadores liga este episódio a dois textos proféticos, Am 4,2 e Jr 16,16, nos quais os pescadores simbolizam os exércitos inimigos que invadem Israel e Judá. A ação daqueles pescadores era a de dispersar e devorar o povo. Nos tempos de Jesus, assim agia o Império Romano. Ao qualificar seus primeiros discípulos como pescadores, Jesus os convida a agir de modo contrário, isto é, reunir e salvar o povo. Os discípulos, portanto, são convocados a se unir a ele na sua luta para restaurar a dignidade das pessoas e de toda a nação. Muitas vezes, isso implica deixar e combater privilégios ancorados na dominação romana. Por isso, o evangelista insiste que os primeiros vocacionados deixaram imediatamente redes e barcos, não para fugir do mundo, e sim para se inserir numa prática social alternativa, baseada não em vantagens interesseiras, mas na liberdade diante da vida e do futuro.

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF

Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló

Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

 

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LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

Quarto Domingo do Tempo Comum

Dia: 31 de janeiro de 2021

Primeira Leitura: Dt 18,15-20

Salmo: 94,1-2.6-9

Segunda Leitura: 1Cor 7,32-35

Evangelho: Mc 1,21-28

 

No Evangelho de Marcos, Jesus inicia sua atividade em público com um exorcismo. Marcos inicia a perícope com dados situacionais: Cafarnaum, sábado, sinagoga. No v. 22 é constatado o ensinamento cheio de autoridade de Jesus e a reação de quem o escuta. No entanto, nada se diz sobre o conteúdo do ensinamento. É nítido o contraste/confronto com o ensinamento dos escribas. A autorizada doutrina de Jesus, que ultrapassa a doutrina dos escribas, pode fundar-se sobre o fato que Jesus fala por autoridade direta, enquanto que os escribas simplesmente explicam a Lei e a tradição.

Os vers. 23-28 contam uma clássica história de exorcismo, cujos elementos essenciais são: entrada em cena do endemoninhado, tentativa de defesa, ordem e expulsão por parte do exorcista, saída do espírito impuro e reação afirmativa das pessoas presentes.

Os personagens em ação são Jesus, o espírito impuro e aqueles que estão presente na sinagoga. O homem endemoninhado é como que um coadjuvante do espírito impuro que o possui. Aos discípulos se faz alusão somente na frase inicial como acompanhantes de Jesus.

É digno de nota que aquilo que o espírito impuro reconhece é justo, Jesus é “o Santo de Deus”. O reconhecimento se torna uma revelação. A expressão “santo de Deus” pode ser encontrada também em Lc 4,34; Jo 6,69 (cf., ainda Dt 7,6; Jz 16,17; 2sm 17,18; Sl 105,16; Sb 11,1). A pergunta subentendida é: basta reconhecer o senhorio de Jesus? Ecoa o convite do salmista: “não endureçais vossos corações” (Sl 94,8).

O grito se articula em repulsa–profissão de fé (vers. 23-24) e suplício (v.26; comparar com 9,26). Ao espírito impuro é ordenado de manter para si a sua consciência sobre Jesus. Sobre a epifania se baixa o véu do mistério.  Marcos nos convida a cotejar os gritos do espírito impuro (vers. 23-24.26) com a voz de comando de Jesus (v.25). A dessemelhança é reveladora. Esta diferença faz compreender a intenção de apresentar Jesus, conectado à imagem veterotestamentária, como o senhor da natureza e das forças que nela operam.

O fato que os espíritos impuros reconheçam Jesus constitui uma característica usual em Mc (3,11; 5,7). A pergunta “o que há entre nós e ti?” contém aspecto de repulsa que é formal e recorrente no Antigo Testamento (Jz 11,12; 2Sm 16,10; 1Rs 17,18; 2Rs 9,18).

A referência à vinda de Jesus (v.24) é geral e não diz respeito somente à sua chegada na sinagoga de Cafarnaum. A sua missão tem como meta a aniquilação do ser demoníaco.

A reação dos presentes na sinagoga é de surpresa e admiração. O raro ethambēthēsan (“ficaram estupefactos”), pode descrever também o espanto dos discípulos por uma palavra de Jesus (10,24.32). O novo ensinamento, dotado de autoridade e confirmado pela multidão (v.27), se manifestou na obediência dos espíritos impuros ao comando de Jesus. A reação torna transparente o conjunto do relato: ele se apresenta como história de missão, enquanto na reação confluem em um único gesto a assembleia da sinagoga e a assembleia cristã missionária. Também a difusão da fama de Jesus na circunvizinhança vai entendida como notícia relacionada à missão.

O texto do Dt mostra que os judeus esperavam um Messias que fosse como um novo Moisés. “As palavras de Deus em sua boca” (Dt 18,18) evidenciam o paralelismo entre Jesus e Moisés.

Para Mc a autoridade da palavra de Jesus aparece referendada pelo o fato de estar acompanhada por ações poderosas. A ação torna explícita a palavra. A história do exorcismo deve ser lida com esse pano de fundo. A derrota dos espíritos malignos anuncia que chegou o senhorio de Deus.

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF

Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló

Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

 

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LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

5º Domingo do Tempo Comum

Dia: 7 de  Fevereiro de 2021

Primeira Leitura: Jó 7,1-7.

Salmo: 146,1-2.3-4.5-6.

Segunda Leitura: I Cor 9,16-19.22-23.

Evangelho: Mc 1,29-39

 

Introdução: Intimidade e Empatia.

O Evangelho deste domingo mostra as ligações entre intimidade, empatia e solidariedade popular. Na intimidade e a empatia vivenciada no círculo pessoal/familiar da casa de Simão e André se gera a comunidade de serviço em favor das pessoas mais vulneráveis. A intimidade da consciência humana em Jó lança o desafio empático com as pessoas que são vítimas de relações de opressão e escravização. Paulo parte de sua experiência pessoal de missão e declara a vivência empática entre as pessoas fracas. Um domingo onde as leituras bíblicas ligam a vivência pessoal da fé com o compromisso social e político.

Marcos: intimidade e empatia

Em Mc 1,29  está o final de uma narrativa da “sinagoga de Cafarnaum”, que inicia em 1,21. Embora em outras narrativas se fale que Jesus entrou em sinagogas (3,1), pregou (1,39) e ensinou (6,2), este é o único texto onde se menciona que ele e os discípulos “saíram da sinagoga” indo para a “casa” (oikia). Este movimento marca quando a comunidade de Marcos visualiza o surgimento da comunidade “cristã”. Na intimidade da casa, a comunidade vive o encontro com Jesus. A casa aparece novamente em 9,33; quando “partindo para Cafarnaum” entraram na casa. Na casa Jesus se revela como “servo de todos” (9,35). A casa tem como referência inicial Simão e seu irmão André (portanto é a casa materna/paterna de ambos, 1,16). Simão ainda não é conhecido como “Pedro” (cf. 3,16). O texto dá entender que ambos falaram para Jesus (intercederam) pela sogra de Simão, que estava acamada (1,30). Esta mulher vulnerável é imagem de toda a comunidade de Marcos, perseguida, ferida, frustrada. Jesus a toma pela mão (outro gesto de profunda intimidade e ternura) e a febre desaparece imediatamente. A mulher/comunidade tocada por Jesus, começou a servir!

Na segunda parte do texto, a “casa” se torna referência para todas as pessoas vulneráveis, doentes e excluídas. A referência “quando o sol se pôs”, indica que o sábado passou, o que permite que, sem exclusão, “todas” as pessoas doentes ou “possuídas” vão ao encontro de Jesus (1,32), ampliando-se no versículo seguinte quando “toda a cidade” se reúne na porta da casa (1,33). Verifica-se um movimento de igreja de saída, que vai da intimidade empática, para a empatia inclusiva em relação às pessoas mais vulneráveis, e daí parte para a missão que faz a ação política solidária (cidade/pólis).

Uma primeira conclusão em 1,34 substitui “todos/as” (pas), por “muitos/as” (polús). Os “demônios” como forças espirituais da morte e do sofrimento perceberem quem era Jesus (eído, de “ver”, não de “saber”), mas ele não deixa estes “falar” (laleo). Esta é uma prévia do chamado “segredo messiânico” em Marcos. As forças de morte percebem logo quem é Jesus e qual é sua missão, mas esta missão deve ser desenvolvida a partir da comunidade, da intimidade, da empatia e do compromisso social e político. Jesus é o Messias que emerge da comunidade, não imposto ou implantado por nenhum poder.

O dia em que a comunidade foi gerada segue. Ainda escuro, no amanhecer do primeiro dia da semana – dia da ressurreição, como é dito em Mc 16,2- Jesus se afasta, gerando, na comunidade, um sentimento de abandono muito semelhante ao da sua morte (1,35). A comunidade, liderada por Simão, sai em busca de Jesus, como no episódio da ressurreição (1,36-37; cf. 16,7). Jesus anuncia a missão de compromisso social e político a partir da comunidade, dizendo literalmente “dentro disso, pois eu vim/vou” (eis touto exelton). Jesus provoca a “eclesiogênese” (cf. Clodovis e Leonardo Boff) desde a intimidade, passando pela empatia e projetando o compromisso social e político. Jesus continua pregando por toda a Galileia, nas “sinagogas deles” (sunagogas auton), mas sempre voltando para a casa/comunidade como referência, expulsando as forças de morte (1,39).

Ligação com os outros textos

O texto de Jó exige o mesmo cuidado do que o texto de Marcos, em não ver na pessoa (sogra de Pedro) apenas ela, mas a expressão de muitas outras na mesma situação. Assim quando no livro de Jó se pergunta: “não está o homem condenado a trabalhos forçados aqui na terra?” (7,1-3), não se conecta a intimidade do sofrimento humano, com a empatia e o compromisso social e político? Quando ao apóstolo Paulo afirma “para os fracos, fiz-me fraco, a fim de ganhar os fracos”, não expressa ali, através da sua intimidade de fé, a empatia e o compromisso social e político? Assim podemos ver, através destas leituras, que este é o caminho da fé, da construção comunitária e da missão de Deus.

 

 

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6º Domingo Do Tempo Comum

 

Dia: 14 de fevereiro de 2021

Primeira Leitura: Lv 13,1-2.44-46

Salmo: 31.1-2.5.7.11

Segunda Leitura: 1Cor 10,31-11.1

Evangelho: Mc 1,40-45

 

Evangelho

Na tradição do Antigo Testamento (Lv 13-14) pode-se descrever a lepra como um mal aterrorizante. Além da questão sanitária, havia o problema teológico. O leproso era impuro, tanto no sentido biológico como moral. Via-se esta doença como uma maldição de Deus. Portanto, a lepra era uma sentença de morte muito desoladora, pois o acometido deste mal perdia seu lar e sua comunidade, vivendo em lugares retirados até a terrível morte no abandono e ainda era julgado amaldiçoado por Deus. Pode-se dizer, o leproso era um excomungado, sem acesso à vida social e sem acesso a Deus. Ele devia esperar a morte abandonado por todos e sem perdão. Não havia cura, pois os recursos da medicina de então não alcançavam este mal. Curar um leproso, só aconteceria mesmo por milagre e equivalia a ressuscitar um morto. Por isto mesmo, ao leproso não restava nenhuma esperança. Os sacerdotes eram os encarregados de examinar as pessoas para constatar a lepra e também e uma eventual cura.

Na leitura do evangelho de hoje, algo de novo acontece: um leproso que, apesar de toda esta situação, ainda tem esperança. Ele se liberta da cosmovisão comum da época. Buscou em Jesus o que sabia que não encontraria no Deus domesticado pelos sacerdotes do templo. Busca a cura, não na instituição sacerdotal, mas na pessoa de Jesus. Ele se aproxima e, portanto, desobedece ao Lv 13,45-46 que estabelecia que ele deveria viver afastado e alertar as pessoas de que estava impuro (Lv 13,45s). Ele não se afasta, mas vai ao encontro do homem que, mais do que a instituição sacerdotal, podia lhe dar esperança e, com fé, diz: “se queres, podes…”. Por sua vez, também Jesus quebra as prescrições do Levítico. Toca no suposto impuro e amaldiçoado, mostrando que seu Deus não é aquele dos sacerdotes e escribas. Ele não exclui os impuros, mas derruba a cosmovisão teológica da oficialidade.

Algumas Bíblias traduzem o v. 41 como: “Jesus sentiu compaixão”. Outras traduzem, como “irado”. As duas são possíveis. Talvez esta última tradução nos chame atenção para o mais importante na ação de Jesus. Jesus não manifesta ira contra o leproso, mas contra o sistema excludente que condenava os “impuros” ao ostracismo.

Como instaurador do Reino, Jesus mostra sinais messiânicos já apontados pelos profetas (Is 35,5ss; 61,1ss). Ele apresenta as curas como a chegada deste Reino (Mt 11,5), quando a velha lei será superada. Isto, na comunidade Marcos, reflete a passagem de uma religião legalista para a nova práxis cristã, onde, mais do que um milagre no sentido de superação das leis da natureza, se supera uma visão teológica viciada e excludente.

Nesta nova realidade, o que conta é a compaixão que, na visão cristã, está acima da lei. Jesus mostra que o serviço ao ser humano supera a lei, pois como Ele ensina, a lei (sábado) foi feita para o ser humano e não o ser humano para a lei. Por isto ele cura e reintegra o ser humano contrariando a lei. Nisto consiste sua autoridade: ele revela o verdadeiro rosto de Deus e, para tanto, pode contrariar a lei.

Ao mandar o curado aos sacerdotes para testemunhar sua nova condição, Jesus confronta o sistema de pureza legal representado por eles. Eles devem perceber que os tempos messiânicos, preanunciados por Isaías, estão chegando. O Reino de Deus está próximo.

Como conseqüência de sua ação de superação do sistema preconceituoso, o leproso volta para o convívio dos seus e Jesus vai para o lugar do leproso, pois fica retirado dos locais públicos. Percebe-se aqui uma consequência de Is 53,4: “ele carregava nossas doenças”.

Relação com Lv 13,1-2.44-46

A descrição que Lv 13 e 14 faz dos leprosos mostra, no mínimo duas coisas: a preocupação de não contaminar as demais pessoas e, ao mesmo tempo, a grave situação de exclusão que os contaminados viviam, bem como seus familiares que perdiam seus entes queridos. O NT, na pessoa de Jesus, supera completamente esta visão. Os cristãos também devem cuidar para não contaminar ninguém, mas tiram dos ombros dos doentes, a grave chaga da maldição divina, dando-lhe atendimento e acolhida.

 

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1º Domingo da quaresma

Dia: 21 de fevereiro de 2021

Primeira Leitura: Gn 9,8-15

Salmo: 24, 4bc-5ab. 6-7bc. 8-9

Segunda Leitura: 1Pd3,18-22

Evangelho: Mc 1,12-15

 

O evangelho deste primeiro domingo da Quaresma é composto por dois pequenos blocos: a tentação de Jesus (vv. 12-13) e o início do ministério de Jesus na Galileia (vv. 14-15).

O relato marcano da tentação de Jesus no deserto é extremamente sumário: apenas dois versículos (vv. 12-13). No entanto, no plano narrativo de Marcos é de extrema importância: primeiro Jesus vence a tentação e só depois começa a expulsar o mal que ameaça o projeto do Reino de Deus.

O v. 12 afirma que, após Jesus ser batizado, o Espírito o conduz ao deserto. O deserto, mais do que um lugar geográfico, é o espaço que desperta a memória da experiencia libertadora do Êxodo como proteção divina (Ex 15,22–18,27). O deserto é também o lugar do encontro com Deus (Dt 32,10), é o lugar para refazer a aliança (Os 2,16). Os profetas do exílio recorreram à imagem do deserto para anunciar que, como no passado, Deus viria salvar seu povo e fazer com ele um “novo êxodo” (Is 40,3). Todos esses elementos ajudam a compreender a importância do deserto na vida de Jesus: é a transição da vida oculta para a vida pública, para o tempo em que Jesus atua a salvação prometida por Deus pelos profetas.

O v. 13 afirma que Jesus permaneceu no deserto quarenta dias. Quarenta é um número simbólico, como muitos exemplos na tradição bíblica (Ex 34,28; Dt 8,2; 1Rs 19,8 etc.). No Antigo Testamento, o livro dos Números narra a tentação de Israel no deserto; agora, Jesus refaz simbolicamente o caminho de Israel no deserto (40 anos / 40 dias). Mas, a atitude de Jesus é totalmente diferente da atitude do povo da Antiga Aliança: Israel caiu na tentação da rebeldia e da murmuração; Jesus, ao contrário, vence a tentação. A liturgia cristã apropriou-se deste simbolismo e instituiu um tempo de 40 dias – a “quaresma” – de penitência e preparação para a Páscoa.

O mesmo v. 13 afirma que Jesus era tentado por Satanás, o inimigo de Deus e dos seres humanos. A palavra “satanás” tem o significado de “advogado de acusação; adversário, inimigo”. Este não é o único confronto entre Jesus e Satanás no evangelho de Marcos. Em outras ocasiões, Satanás tentará frustrar o projeto do Reino de Deus (3,23.26; 8,33).

O v. 13 termina com a conclusão de que Jesus estava no meio das feras e os anjos o serviam. É uma referência a textos do profeta Isaías que falam da paz prometida para o tempo messiânico (Is 11,6-9; 65,25;). Desse modo, Jesus é apresentado como o Messias que realiza o projeto de Deus, caracterizado pela vitória sobre o poder do mal e pela completa harmonia e paz na criação.

Ao derrotar o poder do mal em si mesmo, Jesus começa a derrotar o poder do mal no mundo. Os vv. 14-15 são um sumário, um resumo do projeto teológico de todo o livro de Marcos.

Não é à toa que Jesus inicia este anúncio crítico depois que João tinha sido entregue, isto é, depois que o Batista tinha sido aprisionado por criticar o Herodes Agripa, um rei fantoche e subserviente ao imperador Tibério César. A prisão do profeta João Batista é vista como o ápice da iniquidade de Herodes Agripa e sinal de que havia chegado o momento da intervenção de Deus para libertar seu povo. Por isso, o v. 15 afirma claramente:  Completou‑se o tempo oportuno e o Reino de Deus se aproximou. Convertei‑vos e crede no Evangelho.

O texto grego usa a palavra kairós: não se trata do tempo cronológico, mas do momento oportuno: a intervenção de Deus é agora!  Na continuação, Jesus diz que o Reino de Deus se fez próximo. A palavra kairós na primeira frase do versículo pode levar ao engano de interpretar que Jesus esteja falando da proximidade do tempo. Mas não: o verbo “aproximou-se” aqui não tem a ver com tempo, mas com espaço: o Reino de Deus está aqui, está ao alcance da nossa mão. Então, o Reino acontece agora (kairós, momento oportuno) e aqui (está ao nosso alcance).

Neste contexto devem ser lidos os dois imperativos do v. 15: Convertei-vos e crede no Evangelho. Converter-se, aqui, significa mudar de mentalidade, deixar de acreditar nas promessas enganosas do Império Romano, para acreditar no Evangelho de Deus. Em outras palavras, não se trata apenas de não mais ter medo do Império, mas também de não assumir como projeto pessoal e comunitário uma paz baseada no sangue e nos cadáveres dos inimigos e derrotados. A verdadeira força que salva não é a opressão do Imperador, mas o compromisso com o Reino de Deus!

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LITURGIA DOMINICAL – ANO B

 

Segundo Domingo da Quaresma

Dia: 28 de fevereiro de 2021

Primeira Leitura: Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18

Salmo: 115, 10 e 15. 16-17.18-19

Segunda Leitura: Rm 8,31b-34

Evangelho: Mc 9,2-10

 

O Evangelho

O episódio da transfiguração é estreitamente relacionado ao batismo de Jesus, quando Ele foi denominado por Deus “filho amado”. Agora, enquanto Jesus está para empreender o caminho em direção à cruz, o Pai o credita diante dos três discípulos privilegiados, Pedro, Tiago e João, exortando-os a escutá-lo. A profissão de fé de Pedro (8,29) que havia reconhecido Jesus como o Cristo, é confirmada pelo Pai, que o proclama de novo seu “filho amado” (9,7→1,11).

A perícope se abre com a ambientação cênica (v.2); segue a descrição da transfiguração de Jesus e a aparição de Elias com Moisés (v.4). Depois da reação de Pedro (v.5), Deus desvela o significado do evento (v.7). A parte conclusiva menciona o fim repentino da visão (v.8), a ordem do silêncio (v.9) e a execução da parte dos discípulos com a dúvida sobre a ressurreição.

Pela forma do relato, podemos compará-lo a Ex 24,1-9. Da mesma forma que Moisés, Jesus sobe o monte e leva consigo três acompanhantes expressamente nominados. Ao sétimo dia chega a Moisés a voz de Deus. Daqui se explicam os seis dias transcorridos para Jesus subir o monte (v. 2). A nuvem é, como em Ex 24,16s, sinal da presença de Deus. Uma concordância importante é verificada pelo fato que a voz de Deus ressoa da nuvem. Estes elementos são suficientes para caracterizar a perícope como narrativa de teofania: Jesus é envolto na aparição celeste, da qual os discípulos são testemunhas. A voz escutada o declara como Filho de Deus. Assim, o conjunto do relato se transforma em uma entronização. Jesus é apresentado como ser celeste do mundo transfigurado.

O termo “transfiguração” que habitualmente vem empregado para referir esse momento epifânico, devia, a rigor, ser substituído por “metamorfose”, já que esse é o vocábulo usado explicitamente por Mc 9,2 e Mt 17,2 quando referem que Jesus foi mudado de forma (metemorphōthē) à frente dos três discípulos. Ademais o verbo grego metamorphoūn tem um significado não-moral, como em Rm 12,2, mas físico. Denota uma mudança, ainda que momentânea, das qualidades externas de Jesus.

À transfiguração de Jesus se acrescenta a aparição de dois personagens do Antigo Testamento. A aparição, dirigida aos discípulos, vem descrita com as mesmas palavras que se usam para as aparições pascais do Ressuscitado (ōphthē: 1Cor 15,5; Lc 24,34) e para as aparições do anjo (Lc 1,11; 22,43; At 7,30). As pessoas que aparecem falam com Jesus, o transfigurado. No evangelho de Marcos, nada se diz sobre o conteúdo do colóquio (diversamente de Lc 9,31). Note-se que no v. 4, contrariamente ao que acontece no v. 5, Elias é nomeado primeiro que Moisés. Mc introduz essa mudança para pôr em evidência o seu interesse por Elias. É sabido que no judaísmo existia/existe a expectativa que Elias é o precursor do tempo messiânico. O evangelista, ao colocar Elias em primeiro, revela que para ele é mais importante o componente escatológico: Jesus introduz o fim dos tempos.

A palavra que Pedro dirige a Jesus é apresentada como resposta e reação ao que está acontecendo. Ele se dirige a Jesus com o termo Rabi (Mt 17,4: Senhor; Lc 9,33: Mestre). A exclamação “é bonito estarmos aqui” faz pensar na antecipação da bem-aventurança celeste que os discípulos experimentam. Mc interessa-se pela resistência do discípulo em compreender. A falta de compreensão de Pedro está no mesmo nível de 8,32s. Querendo reter a bem-aventurança celeste, o discípulo se defende novamente da necessidade do sofrimento.

Relacionando com as outras leituras

Devemos buscar o significado do texto na aceitação positiva da sua mensagem de fé e na disponibilidade em seguir Jesus no itinerário da cruz, sabendo que o percurso não se conclui com a cruz. Aqui a conexão com primeira leitura é nítida, pois o sacrifício de Isaac é figura da Paixão de Jesus, o Filho único. Podemos considerar que a perícope constitui a soma das experiências relacionadas à história de Jesus, que considera a sua atividade um evento escatológico-histórico.

 

 

 

 

Segundo Domingo do Tempo Comum
Dia: 17 de janeiro de 2021

Primeira Leitura: 1Sm 3,3b-10.19
Salmo: 39,2.7-10
Segunda Leitura: 1Cor 6,13c-15a.17-20
Evangelho: Jo 1,35-42

 

Evangelho

O texto deve ser lido dentro da unidade maior (Jo 1,19-2,11) que se apresenta como uma semana teológica, parafraseando Gn 1,1-2,4a. Assim, em Jo 1,19-28 se relata o primeiro dia: testemunho de João Batista diante dos enviados de Jerusalém. Em Jo 1,29-34 está o segundo dia: testemunho de João diante de Jesus, como Cordeiro de Deus, sobre o qual viu descer o Espírito. No terceiro dia (Jo 1,35-39) o Batista testemunha diante dos discípulos que aderem a Jesus. Já no quarto dia (Jo 1,40-42), André testemunha diante de Simão. No quinto dia (Jo 1,43-51) Filipe testemunha diante de Natanael. A culminância desta semana teológica acontece no sétimo dia, ou seja, no terceiro dia, ou dois dias depois do quinto dia (Jo 2,1-11) quando a glória plena de Jesus se revela e os discípulos creem nele (2,11).

Nesta semana teológica, a dinâmica geradora da comunidade de fé, é o testemunho. Num primeiro momento, é João que dá seu testemunho: “eis o Cordeiro de Deus”, conceito haurido de Ex 12 e Is 53. No segundo momento, os dois discípulos que passaram de João a Jesus, atribuem a ele o conceito de Mestre (Rabi). Um destes discípulos, depois de ter permanecido o dia na Sua presença, apresenta-O a Simão, como o Messias/Cristo. Se continuarmos a leitura na próxima perícope, Filipe o apresenta a Natanael como “aquele de quem está escrito na lei de Moisés e nos profetas” (v.45). Por fim Natanael o define como “rabi, Filho de Deus e rei de Israel” (v.49). Ao que o próprio Jesus completa: “vereis o céu aberto… sobre o Filho do Homem” (v.51 cf. Gn 28,12 – visão de Jacó). Como se percebe, é uma cristologia crescente que culmina com o testemunho dos discípulos e é completada pela palavra de Jesus.

A cena se dá onde João batiza. Ele, como o último representante da antiga Lei, dá testemunho sobre Jesus e, imediatamente, dois de seus discípulos, passam da antiga Lei para a pessoa de Jesus. João está parado e Jesus anda. Isto é, o papel de João está chegando ao fim, o Antigo Testamento cumpriu sua função. João dirá, logo adiante: “É preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). Agora inicia a missão de Jesus. Os fiéis do antigo Povo de Deus chegam a Jesus pelo testemunho de João e o testemunho dos que já aderiram é a dinâmica para trazer outras pessoas (cf. At 1,6-8). Assim, João (AT) entende que não deve formar discípulos para si, mas encaminhá-los ao verdadeiro esposo (Jo 3,29ss).

Os conceitos usados: Cordeiro de Deus, Mestre, Messias, etc. são conceitos pós-pascais, quando a comunidade relê Jesus à luz do AT. O cristão que tem esta fé passa tranquilamente da antiga Aliança para a pessoa de Jesus e está apto a testemunhar e assumir a missão de evangelizar. Esta dinâmica fica clara na ação daqueles que usufruíram do primeiro testemunho e levaram a missão de João até Natanael, passando por Pedro.

Assim, parafraseando o primeiro relato da criação, o evangelista mostra que a nova criação está acontecendo de forma plena na pessoa de Jesus. Claro, para isto conta o testemunho vindo do AT que prepara a missão de Jesus e este, por sua vez, requer a adesão dos discípulos que, agora, continuam a missão através do testemunho. Dir-se-ia: só pela adesão a Jesus, a plenitude da revelação de Deus (cf. Gl 4,1ss; Hb 1,1ss; Ef 1,10; Cl 1,19) a criação preconizada em Gn 1 chega à plenitude.

Relação com 1Sm 3,3b-10.19

Como os discípulos de Jesus, também Samuel faz a experiência de Deus que o chama para a missão. Assim como os discípulos chegaram a Jesus pelo testemunho de João, de André e de Filipe, também Samuel, ouvindo a voz de Deus, precisou do testemunho e da orientação de Eli. A verdadeira fé é um dom de Deus, mas este não cai do céu. Se expressa na comunidade e, para chegar à verdade, precisa do testemunho das pessoas disponíveis a Deus. Samuel teve sua fé amadurecida por Eli, os discípulos chegaram à verdade pelo testemunho de João e dos demais. Hoje, a verdadeira fé vem pelo testemunho da igreja, isto é, pelo povo que vive com autenticidade os valores revelados na Bíblia e plenificados na pessoa de Jesus Cristo.

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF

Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló

Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

 

ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE FRANCISCNA

Rua Tomas Edson, 212 – Bairro Santo Antônio – Porto Alegre RS

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Batismo do Senhor – Ano B

Dia 10 de Janeiro de 2021

Primeira Leitura: Is 42,1-4.6-7

Salmo: 28,1a.2.3ac-43b.9b.-10

Segunda Leitura: At 10,34-38

Evangelho: Mc1,7-11

Introdução

O Evangelho da comunidade de Marcos é o pioneiro no gênero literário chamado “evangelho”. Comparado com os outros dois Evangelhos Sinóticos (Mt e Lc) é quase um sumário. É claro que devemos lembrar que os primeiros textos do Novo Testamento foram as Cartas de Paulo, que podem ter influenciado esta primeira narrativa sobre a trajetória ministerial de Jesus Cristo sob o título “Evangelho” (cf. Gl 1,6-9; Rm 1,3s; 1 Cor 9,14;15,3-5). Mas, este termo tinha uma origem anterior nas narrativas do Império Helenista de Alexandre e no Império Romano quando se anunciava o nascimento de um imperador como “deus”. O Batismo de Jesus, por sua vez, faz parte das narrativas confessionais da comunidade que busca descrever a glória única e incomparável de Jesus com auxílio de traços lendários. Elas também sinalizam o Batismo como a necessidade de estabelecer o vínculo de continuidade entre os movimentos proféticos de João Batista e de Jesus de Nazaré (Mc 1,2-11 e 6,14-19).

O texto em si

A narrativa tem duas partes, claramente diferenciadas: 1,7-8 (Pregação de João Batista sobre “aquele que é mais forte do que eu”) e 1,9-11 (Narrativa do Batismo). A primeira parte refere-se à continuidade entre os movimentos proféticos de João Batista e Jesus. Quando João Batista afirma que Jesus é “mais forte” (termo que usará depois em 3,27 para falar da casa de um homem “forte”). A dimensão comparativa entre os dois movimentos usando a expressão geralmente traduzida como “eu não mereço”, mas a palavra grega hikanós não se refere ao “mérito”, mas à “quantidade”, isto é, “não tenho o suficiente para…” ou “não tenho a capacidade de…” (cf. Mc 10.46, “numerosa”; 15,15; “multidão”). Aqui fica claro que João Batista e Jesus simbolizam seus movimentos proféticos!  João Batista declara que seu movimento – cuja marca era o batismo nas águas do rio Jordão, por onde o povo ingressou à Terra Prometida – deve se incorporar ao movimento de Jesus – cuja marca é a ação do Espírito Santo – para completar a missão transformadora. Chegou a hora de aderir a um novo movimento, um novo batismo que incorpora a força divina.

A segunda parte é uma declaração de fé da comunidade de Marcos, aberta pelo título formal “naqueles dias”. Este tipo de introdução aparece neste Evangelho para falar de grandes sinais de Jesus como em 8,1 quando Jesus faz o gesto eucarístico da partilha com multidão, ou ainda em 13,24 quando se anuncia a volta do “Filho do ser humano” após a “grande tribulação”. Jesus, apresentado em relação à Nazaré da Galileia, e não como “Cristo” (cf. Mc 1,1), mostra que o movimento profético do Evangelho emerge do chão da história. Com Jesus, batizar – lavar, desconstruir a relação de pecado – assume o sentido maior da entrega na Cruz (central na teologia de Marcos; cf. 10.38-39).

Relacionando os textos

A alegria que se proclama neste Domingo - Gaudete - está em Jesus, Logos criativo, que é Vida Luz e chama para um testemunho profético que se vive no chão de nossa história concreta, como foi com João Batista e Jesus, e vai além dos estreitos limites de nossos parâmetros “religiosos”. A leituras proclamam a alegria de anunciar a “boa notícia para as pessoas pobres” (Is 61,1) e, como Maria, se alegrar “em Deus meu/nosso Salvador” (Lc 1,47) pois, Ele “encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias” (Lc 1,53). Se alegrar na oração e no discernimento que reside em “não apagar o Espírito”, “não desprezar as profecias” e “reter o que é bom”, se abstendo “de toda forma de mal” (cf. 1 Ts 5.16,19-22). Este alegre movimento da profecia só pode ser realizado quando nossa prática de fé não se fecha em parâmetros estreitos, limitando a revelação ao nosso poder como “autoridade religiosa”, mas se abre o sentido (Logos) da Vida e da Luz, capaz de iluminar as trevas de quem perdeu a capacidade de testemunhar e acolher.

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF

Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló

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