ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE FRANCISCANA

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL – ANO B
Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF
Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló
Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE FRANCISCNA
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL – ANO C

20º Domingo do Tempo Comum
Dia 14 de Agosto de 2022
Primeira Leitura: Jr 38,4-6.8-10
Salmo: 40/39,2.3.4.18
Segunda Leitura: Hb 12,1-4
Evangelho: Lc 12,49-53

O Evangelho

Um contexto comum aos Evangelhos Sinóticos é o da perseguição, embora o Evangelho dedicado a Teófilo, ou da Comunidade de Lucas, tenha sido sistematizado em um tempo de relativa calmaria (após a destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C. e antes da grande perseguição de 94 d.C.). Neste caso Lucas faz uma versão própria da tradição, sendo esta muito mais universal e dramática. Para construir sua versão, Lucas cita literalmente,  no centro (v.51), o texto que também aparece de Mateus 10,34a: “Não pensem que vim trazer paz à terra”. Assim, sempre com sua preocupação catequética, quer advertir que o projeto de Jesus e fortemente antagônico em relação ao sistema econômico, político e social vigente da “Pax Romana” (isto é a “paz” mantida pela força militar e repressiva, tendo a cruz como um dos seus símbolos).

O tecido de Lucas

Podemos dizer que Lucas parte do fogo e chega à espada! Nessa construção, a terra (que aparece nos vs. 49 e 51) e a divisão (que aparece no versículo 51 e 52), conectam o antagonismo entre o projeto de Jesus e a “pax romana”.

v.49 – “Fogo na terra (palavra-chave: gostaria – telo – “é meu objetivo”).

v. 50 – “Um batismo” (palavra-chave:  angustiado – sunexomai – “oprimido, aflito, preocupado”).

v. 51 – “Não vim trazer paz na terra, mas divisão” (palavra-chave: contrário – ouxí – “negativamente, de jeito algum”)

v. 52 – “A casa de 5 pessoas dividida” (palavra-chave: contra – epi – “sobre, por cima de”).

v. 53 –  “pai x filho, filha x mãe, sogra x nora”.

Desta forma, Lucas adverte que o sistema da “pax romana”, ou da “casa patriarcal” ou “patrícia” (que era outra estrutura comum no Império Romano) não corresponde ao projeto do batismo de Jesus, que se manifesta na denúncia da angústia opressiva. O poder que domina a terra precisa queimar a partir das novas relações sistémicas e familiares transformadoras (figura que aponta para ação do Espírito Santo, cf. Lc 3,16). A divisão, não é uma proposta do projeto de Jesus, mas a consequência da não superação do poder dominante na terra.

Relacionando com as outras leituras

Jeremias, muito mal compreendido pelos governantes de sua época que o jogaram na cisterna para morrer, defendia que a superação do poder opressor babilônico não seria com as mesmas “armas” (Jr 38,4-6.8-10). O seguimento de Jesus, que enfrentou o sistema de morte na Cruz, nos capacita a não desistir, mas resistir (Hb 12,3-4).

19º Domingo do Tempo Comum
Dia: 07 de agosto de 2022
Primeira Leitura: Sb 18,6-9
Salmo: 33/32,1.12.18-19.20.22
Segunda Leitura: Hb 11,1-2.8-19
Evangelho: Lc 12,32-48

 

O Evangelho

As instruções pela busca do reino de Deus são acompanhadas, nesta perícope, com as palavras sobre o retorno de Jesus. Aqui temos uma pequena catequese sobre a diligente vigilância à espera do Filho da Humanidade para o julgamento final. Uma vez que a data da referida vinda não pode ser conhecida, Jesus nos convida à vigilância e à  fidelidade no caminho.

v. 32 “pequeno rebanho”: aqui temos uma familiaridade semelhante a de “meus amigos” em 12,4. A imagem do rebanho lembra a descrição de Israel como um rebanho conduzido pelo Senhor (Ez 34,11-24). Os discípulos representam aquele “pequeno rebanho” que constitui o núcleo do novo povo que se reúne em torno do Messias; Segue o texto: “o Pai achou por bem” (eudokeó) usado como uma expressão de vontade divina.

E ainda: “dar-vos o Reino”. Em Lc 11,2 os discípulos foram exortados a orar pela vinda do reino do Pai; aqui Jesus lhes diz que já foi dado (achou por bem) a eles. Compare isso com 22,29-30, onde Jesus prepara “um reino” (basileia) para os Doze. A premissa é que o Pai já estabeleceu seu domínio sobre eles (deu-lhes “o Reino”), para que não vivam mais em um mundo caótico imprevisto, mas em um mundo governado pelo dom gratuito de Deus.

v.35. Com as cinturas cingidas: Encontramos a mesma expressão em Ex 12,11, descrevendo o estado de alerta para estar pronto a viajar: a longa túnica é puxada para cima e apertada na altura dos quadris para poder andar rapidamente (cf. Elias fazendo o mesmo para escapar da chuva: 1Rs 18,46 e o ​​desafio lançado a Jó em 38,3).

v.36. Esperar pelo seu senhor: A passagem tem semelhanças (lâmpadas/casamento/serviço/espera/noite) com a parábola das dez virgens em Mt 24,42-51.

v.39.  Depois do v. 37, este é o décimo primeiro macarismo no texto de Lc, que será imediatamente seguido pelo décimo segundo no v.43.

v.40. “o Filho da Humanidade virá”. Exceto pelas passagens de 9,26 e 12,8, a maior parte dos ditos sobre o o “Filho da Humanidade” em Lucas se referia ao ministério de Jesus (5,24; 6,5.22; 7,34; 9,56.58; 11,30; 12,10) ou seu sofrimento (9,22.26.44). Deste ponto em adiante predomina a futura vinda do Filho da Humanidade como juiz (17,22.24.26.30; 18,8; 21,27.36; 22,69).

v. 41. “para nós… ou para todos?”: Esta intervenção de Pedro encontra-se apenas em Lc, e tem uma importante função redacional ao assegurar que a parábola se aplique aos futuros líderes do povo, apresentando a imagem do administrador da casa como uma metáfora de autoridade (cf. 9,12-17).

v.42.44 “que o Senhor porá à frente… confiará a administração”: O verbo kathistémi (constituirá) é utilizado por Lc no futuro acenando para o papel dos apóstolos como líderes do povo. “A porção de alimento”: em vez de “comida” (trophé) de Mt 24,45, Lucas usa sitometrion, mais raro (literalmente “medida de grão”). Como ele faz em sua escolha de therapeia (servidão) para descrever os servos ou escravos da casa, Lc usa termos deliberadamente mais refinados.

v.43. “Feliz o escravo que…”: O despenseiro (oikonomos) é frequentemente traduzido como “administrador”. Ele próprio é um escravo (doulos), como aqueles que estão abaixo dele; apesar da autoridade relativa de que goza, ele está igualmente sujeito à autoridade do senhor (kyrios). Esta linguagem não pode deixar de evocar o tipo de relação que existe entre cristãos e seu mestre, o Kyrios ressuscitado.

v.45: “Mas se o escravo… começar a espancar os criados e as criadas…”. É típico de Lc apontar ambos os gêneros gramaticais; Mt 24,49 traz “companheiros”.

v.46. ​​“o dividirá ao meio” (dichotomeó). Não há perspectiva de realmente cortar o servo em dois, mas sim uma punição severa. Ele é contraposto ao “fiel e sensato” do v. 42; O contraste é entre aqueles que são “dignos de confiança” e aqueles que “não são dignos de confiança”.

v.47. “O escravo que, conheceu a vontade do senhor”: Estas palavras explicam o grau de responsabilidade devido à consciência. O termo para “vontade” é thelēma, que também significa “desejo”.

v.48. “a quem muito se deu…, a quem muito se entregou…”: Os dois termos sugerem a atribuição de autoridade e servem como moral da parábola anterior: os líderes da comunidade serão julgados mais severamente pela posição de responsabilidade que ocupam.

Toda a existência cristã é, portanto, caracterizada por uma contínua expectativa. Seu cumprimento é certo, mas a hora permanece desconhecida. Uma atitude de alerta vigilante é, portanto, necessária, mesmo que o retorno do senhor possa parecer “retardado” (12,45). A realidade do julgamento, somos levados a entender, não é simplesmente temporal, mas existencial. Deus julga os seres humanos em qualquer momento e ele sabe se eles distribuíram “a porção de alimento no tempo devido”, ou se, por outro lado, se entregaram a espancar os criados.

O papel de administrador corresponde bem ao conceito que Lc tem sobre a autoridade na comunidade. O papel do administrador é o de gerir os outros servos, para que cada um faça o seu trabalho, mas também atender às suas necessidades. É responsável ante o senhor e diante dos seus pares. Não pode ser fiel a um sem respeitar os outros.

Vemos que a autoridade é apresentada na forma de serviço aos outros. Se todos os servos devem estar prontos para receber o senhor em seu retorno e fazer o seu trabalho de forma satisfatória, o administrador é responsável não só pelo seu próprio trabalho, mas também pelo trabalho da comunidade como um todo.

Relacionando com as outras leituras.

A 1ª. Leitura nos ensina que a vigilância da pessoa justa é uma expectativa orante. Porém, expectativa feita também de serviço, o serviço alegre de quem espera o Senhor.

 

 

Domingo da Assunção de Nossa Senhora

Dia 21 de gosto de 2022

Primeira Leitura: Ap 11,19a; 12,1.3-6a.10ab

Segunda Leitura: 1Cor 15,20-27a

Salmo: 44,10bc.11.12ab.16

Evangelho: Lc 1,39-56

 

O Evangelho

Ao celebrar a Assunção de Nossa Senhora, a Igreja nos apresenta uma perícope lucana do Evangelho da Infância (Lc 1-2). O texto se divide em duas partes: 1) O encontro das duas mães grávidas: Isabel e Maria; 2) o Magnificat.

1) O encontro das duas mães grávidas (Lc 1,39-45). Isabel traz em seu ventre aquele que é o último profeta do AT (Lc 16,16; Mt 11,13), que agora desemboca em Jesus que inicia seu percurso no ventre de Maria. Portanto, a alegria de Isabel, bem como a alegria da criança em seu ventre apontam para a transição do AT para o NT, pois no ventre de Maria está aquele que realizará a plenitude da Revelação de Deus, isto é, Jesus. Assim, Isabel traz em seu ventre o AT e Maria traz no seu seio o NT que realiza o que foi preparado pelo AT.

2) O Magníficat (Lc 1,46-55). Trata-se de um cântico da primitiva comunidade cristã que ganhou sua versão atual através da pena de Lucas. Melhor dizendo, a Igreja dos anos 80, inspirada pelo Espírito Santo, apresentou Maria desta maneira. Ao meditar o Magnificat os fiéis de todos os tempos têm uma imagem de como o Espírito Santo, que inspirou os textos bíblicos, queria que se entendesse a figura da mãe de Jesus. Ou ainda, Como Deus, através do Espírito Santo, apresenta Maria para a Igreja.

O texto é inspirado no Cântico de Ana (1Sm 2,1-10) e em outros textos do AT. Exalta o lugar das pessoas humildes, pequenas e desprezadas. É nelas que se realizam os desígnios de Deus. Maria, por excelência encarna o papel dos que não contam na sociedade: em primeiro lugar, por ser uma moça pobre de aldeia, em segundo lugar, por ser uma virgem, que na cosmovisão dos povos bíblicos, valia pouco. Assim sendo, a comunidade de Lucas, pobre, pequena, desprezada (Lc 12,32) vê nesta mulher o protótipo de sua própria realidade. Maria é figura que representa a verdadeira Igreja onde Deus realiza sua ação na história. Ela é o mais belo exemplo da Igreja de todos os tempos.

Olhando para Maria, a agraciada por Deus, e meditando seu cântico que o Espírito Santo inspirou, teremos um retrato falado de como deve ser a Igreja. Como Maria, há mais de dois mil anos, se colocou humildemente nas mãos de Deus e gestou o salvador do mundo, assim também a Igreja, espelhada nela, deve gestar Jesus para que todos os povos conheçam o salvador. A Igreja, depois de Jesus, tem em Maria, seu melhor exemplo.

Relacionando com as outras leituras

A Igreja, representada em Maria, é visualizada em Ap 12,1ss (1ª leitura). Ela, assim como Maria, tem o papel de gerar Jesus para os povos, ou seja, pregar Jesus a todas as nações. Nesta missão, em meio às dificuldades, a Igreja se identifica com a humilde e ameaçada mulher, perseguida pelas forças do mal, mas que, apesar das dificuldades, mesmo na clandestinidade, torna Jesus presente no mundo. Não há, aparentemente possibilidade de lutar contra as forças do dragão, porém, Deus ampara esta senhora grávida e sofredora diante do mal. A Igreja, através dos milênios, em sua missão de anunciar Jesus, enfrentou e enfrenta forças adversas, aparentemente invencíveis. Mas, como a mulher de Ap 12 recebe amparo de Deus, também a Igreja, em todos os tempos, é protegida pelas forças divinas.

Por isto, a liturgia de hoje coloca o texto de 1Cor 15,20ss, pois nela está o cumprimento da promessa da ressurreição. Maria é a mais próxima do ressuscitado e nesta figura, aparece o destino de toda Igreja.

Com base em tudo isto, bem como na Tradição, a Igreja, em 1950, depois de longa pesquisa, no pontificado do Papa Pio XII, proclamou o dogma da Assunção de Nossa Senhora de corpo e alma ao céu. Em Maria se realizou o que está prometido para todos os membros da Igreja, da qual ela é protótipo. Assim, celebrando a Assunção de Maria, a Igreja celebra sua própria esperança escatológica.

 

22º Domingo do Tempo Comum
Dia 28 de agosto de 2022

Primeira Leitura: Eclo 3,19-21.30-31

Salmo: 67,4-7ab.10-11

Segunda Leitura: Hb 12,18-19.22-24ª

Evangelho: Lc 14,1.7-14

 

O Evangelho

O evangelho de hoje mostra Jesus na casa de um dos chefes dos fariseus. É a terceira vez, no evangelho de Lucas, que um fariseu o convida Jesus para uma refeição (Lc 7,36; 11,37 e 14,1). Parece que Jesus teve muitos amigos fariseus, mas nem sempre eles concordavam com as opiniões de Jesus.

Os fariseus buscavam sinceramente cumprir a Lei de Deus em tudo. Mas esse desejo virou uma obsessão, a ponto de fazer deles pessoas orgulhosas e intransigentes, que achavam que não precisavam mais se converter.

No texto de hoje, Jesus observa como os convidados escolhiam as primeiras cadeiras (v. 7b). No tempo de Jesus, conseguir um lugar de destaque era importante porque dava a possibilidade de comer o que havia de melhor, uma vez que era gigantesca a diferença entre o que era servido na mesa principal o que era servido nas outras mesas.

Nos vv. 8-10, Jesus se dirige aos convidados e retoma regras de etiqueta ou de boas maneiras em uso na sociedade. São as mesmas sugeridas pela tradição sapiencial: Não ocupe o lugar dos grandes. É melhor que digam a você: “Suba até aqui”, do que ser humilhado na presença de uma autoridade (Pv 25,6-7; cf. Sr 31,18). Poderíamos concluir, com razão, que esse ensinamento sapiencial de Jesus é absolutamente trivial, um pequeno conselho dentro de um sistema cultural estabelecido. Porém, Jesus não está interessado em fazer recomendações sobre como se comportar durante uma refeição. Ele usa a circunstância como ponto de partida para um ensinamento sobre o Reino de Deus: para entrar no Reino, é necessário humildade.

Jesus adverte seus ouvintes acerca do perigo de um comportamento viciado pela soberba e pelo egoísmo: quem dá um alto valor a si mesmo pode passar pela humilhação de ser declarado alguém comum e igual aos outros. A falta de humildade é um perigo constante na Igreja. Muitos irmãos e irmãs de nossas comunidades começam bem sua caminhada, mas aos poucos vão ficando como os fariseus: orgulhosos e intransigentes, e acabam se achando os melhores.

Ao anfitrião, Jesus recomenda uma atitude de gratuidade: Quando deres uma festa ou um banquete, não chames teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos, para que eles não te convidem também e assim haja retribuição para ti (v. 12). Mesmo por trás do gesto generoso de receber convidados pode se esconder um sentimento de orgulho e egoísmo: convidar somente pessoas que, de algum modo, podem retribuir ao convite.

A escolha dos convidados pode ser motivada pelo interesse e por quais vantagens aquele convite pode render ao anfitrião. Para incentivar seus ouvintes a evitar este comportamento interesseiro, Jesus aconselha a convidar os pobres, estropiados, coxos e cegos (v. 13c). No ambiente judaico de Jesus, estas categorias de infelizes não podem participar de nenhuma cerimônia religiosa no Templo (cf. Lv 21,17-21). Mais ainda, tais pessoas nem sequer podiam fazer parte da comunidade religiosa dissidente que habitava Qumran.

No v. 14, Jesus profere uma bem-aventurança: e serás bem-aventurado, porque eles não têm com que te retribuir. Mas terás tua retribuição na ressurreição dos justos. Este desafio aos esquemas convencionais de reciprocidade é destacado pela condenação de Jesus ao hábito de convidar aqueles que podem retribuir (vv. 12-14). À luz de um julgamento humano, o que Jesus recomenda é uma ação sem compensação; mas o fiel sabe que será recompensado na vida futura, na qual resplandecerá a “justiça” ou a santidade daqueles que lutam por fraternidade, vida, direito etc. Jesus ensina que o bem deve ser realizado mesmo sem reconhecimento. Não obstante, tudo será compensado, pago. Desta vez o autor do Evangelho de Lucas não fala do banco celestial onde os tesouros estão seguros (cf. 12,33), mas ressalta o trabalho cristão à luz da vida após a morte. Esse é o critério do Reino. O evangelho é anunciado aos despossuídos, cegos, coxos e pobres (7,22). Os cristãos devem ser “misericordiosos, como o Pai é misericordioso” (6,36) para que sejam recompensados por Deus em vez de receberem a recompensa de outros homens.

Em nossas comunidades, as duas atitudes estão bem presentes: tanto a busca dos primeiros lugares como a falta de gratuidade. Ambas são atitudes egoístas e Jesus nos convida a combatê-las primeiramente em nós mesmos. Mas precisamos também estar atentos: não devemos confundir “buscar o último lugar na comunidade” com “sentar-se no último banco da igreja”. Buscar o último lugar é uma atitude de serviço e compromisso; sentar-se no último banco muitas vezes é uma atitude de oposição e indiferença.

 

18º Domingo do Tempo Comum
Dia: 31 de julho de 2022
Primeira Leitura: Ecle 1,2; 2,21-23
Salmo: 89,3-6.12-14.17
Segunda Leitura: Cl 3,1-5.9-11
Evangelho: Lc 12,13-21

 

O Evangelho

A primeira parte deste capítulo 12 de Lucas é composta por uma série de ensinamentos de Jesus à multidão. No trecho de hoje (Lc 12,13- 21), Jesus é interrompido por alguém da multidão que o desafia, como mestre da Lei, a resolver uma disputa de herança familiar: Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança (v. 13). A resposta de Jesus talvez nos pareça desconcertante: Homem, quem me constituiu juiz ou mediador sobre vós? (v.14). Jesus deixa claro que ele não veio para resolver tais questões legais. Jesus rejeita o papel de juiz em disputas familiares sobre herança, mas aproveita para alertar sobre o perigo da ganância.

O v.15 expõe a cobiça por trás do pedido de intervenção jurídica. Jesus adverte contra esse tipo de ganância: E guardai-vos de toda avareza (v.15c). O termo grego pleonexia é normalmente traduzido por “avareza”. Esta tradução é possível, mas não diz tudo. Pleonexia indica o vício de desejar ter mais do que é merecido, a insaciedade da pessoa obcecada por adquirir e acumular dinheiro. Não é à toa que Paulo, em Cl 3,5, qualifica a avareza como idolatria.

Na continuação de sua resposta, Jesus afirma: Porque a vida de alguém não está naquilo que sobra das suas riquezas (v.15d). Jesus estabelece uma distinção fundamental bastante clara entre a vida e as riquezas: a vida é um dom de Deus; nenhuma posse, por mais abundante que seja, pode torná-la maior nem mais segura. Muito mais importante ter, é ser: ser alguém que ouve a Palavra de Deus e age de acordo com ela, é mais importante do que viver em uma abundância desnecessária.

Nos vv.16-21, Jesus conta uma parábola: um homem muito rico, que por sua boa administração se torna ainda mais rico. Mas a inteligência para os negócios não faz deste homem um sábio. Jesus não fala de pecado e não diz que é pecado ser rico. Jesus fala de ser sábio e ser insensato. Para o mundo, é sábio quem tem a capacidade de ganhar dinheiro e enriquecer. Mas Jesus não pensa assim. Aquele homem foi insensato, não porque buscou administrar bem sua riqueza, e sim porque se esqueceu que, diante da morte, a riqueza é inútil. Ele queria desfrutar as riquezas só para esta vida: descansa, come, bebe, regala-te (v.19). Mas não pensou em aproveitá-las para garantir também a outra vida. Em outras palavras, ele acumulou riquezas só para si mesmo (cf. v.21).

Relacionando com as outras leituras

Na mesma linha da parábola do evangelho, o sábio do Antigo Testamento afirma: Há quem trabalhe com sabedoria, ciência e êxito, mas deixará a sua porção a alguém não se esforçou em nada. [...] Sim, todos os seus dias são dores, e sua ocupação é só sofrimento; nem de noite seu coração descansa (Ecl 2,21.23).

Ao contrário de Qohélet, Jesus não fala do homem rico como alguém que sofre e não consegue dormir; em vez disso, conta a história de alguém que conseguiu enriquecer graças a uma superprodução agrícola. Na parábola de Jesus, a dureza nos trabalhos no campo não tem nenhuma relevância. Diferente de Qohélet, Jesus não critica o esforço do dono do campo (latifundiário?) para atingir tal sucesso. O que Jesus condena é a ilusão daquele homem de aproveitar de modo egoísta seu capital e sua riqueza: descansar, comer, beber e festejar. Não obstante, Jesus concorda com Qohélet: nenhum deles será capaz de manter sua riqueza pois, antes ou depois, a morte fará com que ela passe para descendentes ou outra pessoa.

As duras reflexões de Qohélet: a alegria de usufruir dos bens do sucesso e das conquistas não se prolonga além da morte. Nisso, Jesus não discorda de Qohélet: a morte põe fim a todos os projetos. Mas sua conclusão é bem diferente: Assim é aquele que entesoura para si mesmo e não é rico diante de Deus (v. 21). Em outras palavras, Jesus aconselha uma atitude prática e positiva: enriquecer-se aos olhos de Deus.

17º Domingo do Tempo Comum
Dia 24 de Julho de 2022
Primeira Leitura: Gn 18,20-32
Segunda Leitura: Cl 2,12-14
Salmo: 138/137,1-3.6-8
Evangelho: Lc 11,1-13 

O Evangelho

Quando o assunto é oração, nem sempre os cristãos e as cristãs têm clareza do que se trata. Para muitas pessoas oração é algo mágico que se faz para atrair as benesses divinas, ou para espantar os males que ameaçam a vida todos os dias. Assim, muitas pessoas só se lembram de rezar quando têm algum problema, quando necessitam de algo: acendem velas, fazem novenas, procissões, etc. Em muitas comunidades se percebe que tem mais afluência de fiéis nas novenas de quarta-feira, do que nas missas de domingo. É que nas quartas-feiras se faz novenas para pedir graças especiais. Nos domingos se celebra a fé comprometida, o que para muitas pessoas, não interessa.

Lc 11,1 nos diz que antes de ensinar a rezar, o próprio Jesus rezou. Por que ele precisava rezar, se podia fazer milagres? A oração não é mágica. Ele rezava para estar em comunhão com o Pai e conhecer sua vontade. Aliás, os evangelhos atestam que Jesus rezou muitas vezes (Mt 14,23; 26,39; Lc 6,12, etc.).

Jesus ensina que o orante chame a Deus de Pai (Lc 11,2b), o que requer uma atitude de filho por parte do orante. Trata-se de um novo relacionamento com Deus, diferente daquele do AT, onde ele é visto apenas como amigo de Abraão e de outros personagens, outras vezes, até como o terrível Javé (Ex 19,12). Santificar o nome do Pai é assumir um compromisso: empenhar-se pela justiça e fraternidade. O reino vem quando os cristãos se abrem ao projeto de Jesus, isto é, vida para todos. Pedir o pão é mais do que esperar recebê-lo pronto de Deus, mas partilhá-lo (cfr. At 2,42ss; 4,32ss), para que haja pão para todos. O perdão, mais do que apenas ofensas, envolve o bolso, pois Lc 11,4 diz: “perdoa-nos nossos  hamartias (pecados), pois nós também perdoamos a todo o que nos ofeilonti (deve). Não cair na tentação é não se desviar do projeto do Reino (Lc 4,1-13). Como se vê, oração, mais do que pedir coisas, é comprometer-se com a proposta do reino.

A insistência na oração (vizinho impertinente) não é para mudar Deus, mas é para mudar o coração do orante. Se a oração não for constante, o discípulo não sintoniza com Deus, pois isto leva tempo e só acontece com quem se dirige a Deus com insistência e perseverança. Deus é melhor que todos os pais deste mundo, que dão coisas boas a seus filhos. Ele sempre dá o Espírito para sintonizar com Jesus e com o reino por ele instaurado.

Relacionando com as outras leituras

Gn 18,20-32: O texto quase parece uma anedota. Deus aqui é apresentado de forma humana: ele precisa descer para verificar a maldade dos moradores de Sodoma, como também na Torre de Babel (Gn 11,5). Além do mais, ele muda de opinião diante da insistência de Abraão, que é impertinente. Ele dialoga com Deus, mas de forma pouco comum entre amigos. Mas, note-se bem, é uma oração a favor de uma cidade. Não é uma oração decorada e repetida de maneira mecânica, mas é espontânea. Ele não pede nada para si, mas intercede pela comunidade. Está aqui uma imagem de oração persistente e a de um Deus que se deixa demover de seu intento, pela oração do patriarca.

Cl 2,12-14: na cruz de Jesus aconteceu a superação da situação pecadora. Os batizados receberam vida nova nele. Ninguém foi justificado por méritos próprios, mas tão somente pelo sacrifício de Cristo. Logo, a oração deve nos manter sintonizados com esta vida nova oriunda de Cristo.

A mensagem que a liturgia de hoje nos deixa é que, somos agraciados por Deus em Jesus Cristo, não porque nós merecemos algo, mas porque Deus em seu infinito amor assim o fez por seu filho. A nós, cabe, agora, por meio da oração constante, sintonizar com esta graça. Assim, a oração, mais do que pedir benesses, ou nos livrar das dificuldades da vida, deve ser uma constante sintonia e compromisso com o Reino de Deus que Jesus trouxe na história para culminar na eternidade. Quem reza de verdade, experimenta a antessala do céu, ou seja, já saboreia aqui na terra, de forma limitada, o que se vive no céu. Por isto, toda oração deve ser um espaço de alegria e de gozo.

 

16º Domingo do Tempo Comum
Dia 17 de Julho de 2022
Primeira Leitura: Gn 18,1-10a
Salmo: 15/14 ,2-3a.3cd-4ab.5
Segunda Leitura: Cl 1,24-28
Evangelho: Lc 10,38-42

 

O contexto deste Evangelho

O texto deste Domingo é exclusivo do Evangelho de Lucas. Ele aborda a tradição sobre Marta, Maria. João – posterior a Lucas – também trata o tema e acrescenta a referência a Lázaro (irmão de Marta e Maria, cf. Jo 11,1.19). Jesus entra em “um povoado/aldeia” (kómen) onde morava uma mulher chamada Marta que “lhe tinha sido apresentada” ou que “tinha uma casa” (conforme alguns manuscritos). Tudo indica que se trate de uma “igreja doméstica” onde as mulheres tinham um papel importante de liderança. Lucas resgata a Igreja da casa de Lídia (At 16,15), de Maria, mãe de João (At 12,12) e possivelmente de “Tabita/Dorcas” (At 9,36).

O texto e sua discussão

Sempre devemos considerar na obra de Lucas a preocupação didática na descrição de um conflito “intracomunitário”. O fato de ser uma discussão envolvendo duas mulheres tem a ver com o papel que era e ainda é atribuído à mulher na Igreja. A mulher é facilmente vista como serva, administradora, coordenadora, mas dificilmente é valorizada como teóloga.

v.38 – “Certa mulher de nome Marta o hospedou na sua casa”. Há versões que mencionam “na sua casa” e outras não. Embora hoje todas as versões incluam isso, mostra que houve, em algum momento, a dificuldade de atribuir, no contexto judaico, a chefia de uma casa (família/igreja doméstica) a uma mulher.

v. 39 – “uma irmã chamada Maria, assentada aos pés do Senhor, ouvia suas palavras”. Enquanto Marta tem um “nome” (onómati), Maria é apenas “chamada” assim (kaloumén). Isto indica que seria uma “irmã menor”, com menos “hierarquia na casa”. A palavra “assentada” (paraketesteisa) só aparece neste texto em toda Bíblia. Em grego, a palavra para significa “sentar-se abaixo” ou como geralmente é traduzido, “sentar-se aos pés”. Maria está ouvindo suas palavras (logon autou). Uma atitude de aprendizado, de extrema atenção e reconhecimento.

v.40 – “Marta”, seguindo o sentido literal grego, ficava “andava em volta”, fazendo muito “serviço” (diakonian). “Diaconia” é o serviço para o bem comum. Será que se refere a uma situação injusta em que uma “serve” à comunidade e outra apenas “disfruta” do aprendizado de Jesus? Ou se discute a primazia do serviço (diaconia) sobre o sentido da missão e pastoral (teologia)? Ou se discute, diante do Senhor, o papel das mulheres na “igreja”, onde além de servir e coordenar, podem teologar?

v.41 – “Marta, Marta, estas preocupada/ansiosa (merimnas) e atrapalhada/confusa (torubaxe) na volta de tudo”. Aqui se remete a Lc 12.22-26 “não se preocupem por si mesmo, ou pela comida (…) se nada podem fazer em relação a estas coisas, por que se preocupam pelas outras?”  (cf. Mt 6,25-34.19-21). Assim devemos entender a “crítica” a Marta como uma crítica ao “senso-comum” que diz que as necessidades primárias são mais importantes que o sentido da vida como um todo.

v.42 – “Maria escolheu a melhor parte e não lhe será retirada”. Assim se conclui que o papel da mulher “na igreja doméstica” é preferencialmente teológico! A mulher que escolheu ser teóloga, escolheu a melhor parte e ninguém poderia negar isso a ela.

O texto reafirma ambas atribuições das mulheres na igreja doméstica: chefiar a casa/igreja no sentido diaconal, e refletir teologicamente a partir do Evangelho de Jesus. No entanto, a segunda que podia ser “retirada” pelo poder patriarcal é preservada e reafirmada.

Relacionando com as outras leituras

O “senso-comum”, combatido no texto de Lucas, está presente na narrativa de Sara e Abraão. Sara “serve”, prepara a comida; Abraão fala com Deus. No entanto, como poderia isso acontecer sem Sara? De fato, as três pessoas divinas perguntam: “Onde está Sara, a tua mulher?” (Gn 18,9a). Da mesma forma devemos interpretar a “Igreja Corpo de Cristo” e toda pessoa a quem é confiado o ministério dela, como sendo igualmente mulher e homem, em igual dignidade e importância.

 

15º Domingo do Tempo Comum
Dia: 10 de julho de 2022
Primeira Leitura: Dt 30,10-14
Salmo: 69/68,14.17.30-31.33-34.36ab.37
Segunda Leitura: Cl 1,15-20
Evangelho: Lc 10,25-37

 

O amor de Deus que se traduz no amor ao próximo (v. 25-37) é condição essencial para herdar a vida eterna. Esta seção lucana representa uma pequena catequese centrada no duplo mandamento do amor, que constitui o coração do ensino de Jesus. À controvérsia com um doutor da Lei (v.25-28), Lc faz seguir como exemplo a parábola do bom samaritano (v.29-37). O verbo poieó “fazer” (v.25,28,37bis) é um termo chave que confere unidade literária à composição, centrada na prática cristã.

Lc faz uso deste diálogo entre Jesus e um doutor da Lei para apresentar a parábola do samaritano. Em Mt (22,34-40) e Mc (12,28- 34) o episódio é relatado no final da vida de Jesus.

v.25. “Levantou-se um doutor da Lei e, para testá-lo, perguntou…”. No relato de Mc, o escriba parece bem-intencionado, pede esclarecimentos sobre um problema profundamente sentido no judaísmo, dado o exorbitante número de mandamentos classificados pelos rabinos: eram 613. Em Mt e Lc o doutor da Lei faz a pergunta com uma intenção capciosa para com Jesus, (ekpeirazó) “para colocá-lo à prova”. O diálogo didático de Mc se transforma em Mt e Lc em uma polêmica, denotando a tensão entre a igreja e a sinagoga. No entanto, o episódio demonstra a concordância entre o ensino de Jesus e as Escrituras. Em Lc, a questão do escriba não é tanto sobre o conhecimento do mandamento mais importante, mas sim o procedimento a ser seguido a fim de obter a vida eterna: um problema de casuística farisaica é transferido para o nível da vida concreta dos seguidores de Jesus.

v.27. O escriba menciona o início do Shemá (Dt 6,5), que todo israelita piedoso recitava de manhã e à noite; então segue imediatamente o mandamento de amar o próximo, embora derivado de outro texto (Lv 19,18). Os dois preceitos, combinados em uma única frase, resultam mais intimamente ligados. Para Lc eles são inseparáveis, porque a verdadeira religiosidade deve se materializar nas relações interpessoais da vida diária. Não é relevante para o evangelista se foi Jesus quem os associou, porque ao contrário de Mt e Mc, ele apresenta a resposta na boca do doutor da Lei.

v.28. “Respondeste bem. Faze isso e viverás”. Jesus aprova a resposta do escriba: não basta teoria, é preciso prática. O acento recai sobre “fazer”, que será repetido na conclusão da parábola de bom samaritano (v.37), formando uma inclusão.

A parábola está ligada ao mandamento do amor ao próximo. Não era fácil estabelecer no ambiente judaico quem deveria ser considerado “próximo”: certamente cada membro de Israel o era, mas também o estrangeiro que vivia entre os judeus (Lv 19,34), mais tarde também o prosélito pagão. O âmbito do preceito constituía um problema controverso nas escolas rabínicas. Em nenhum caso um judeu devia se preocupar em salvar um samaritano.

Jesus, ao invés de insistir em questões teóricas, prefere dar um exemplo concreto, para ilustrar em que consiste o verdadeiro amor ao próximo. O conto é um exemplo parabólico, que constitui uma verdadeira joia do evangelho e tem inspirado muitas pessoas a fazerem o máximo pelos necessitados, acima de qualquer discriminação.

v.30. O cenário da narrativa tem um alto grau de verossimilhança, o suficiente para dar a impressão de que Jesus se refere a um fato que realmente aconteceu. Quem vai para a Cidade santa “sobe”, quem volta de lá “desce”. A estrada de Jerusalém (cerca de 750m acima do nível do mar) desce para Jericó (300m sob o nível do mar Mediterrâneo), tinha 27 km de extensão e cruzava a área desértica da Judeia com uma série de serpentinas entre ravinas e barrancos íngremes: um lugar ideal não só para rebeldes políticos, mas também para malfeitores, saqueadores, que atacavam os viajantes, despojando-os de tudo e espancando-os descontroladamente.

v.31-32. Em Jericó viviam muitos sacerdotes e levitas e iam a Jerusalém todos os anos para sua semana de turno no serviço litúrgico. Talvez Jesus especialmente escolha um sacerdote e um levita, homens religiosos, ao contrário de um samaritano, que era odiado e desprezado porque considerado herege. O amor não precisa conhecer barreiras raciais ou mesmo religiosas. Segundo outros comentadores, a escolha é motivada pela condenação de um ritualismo vazio e inútil, porque desprovido de amor. Para não se contaminar, era preciso evitar o contato com cadáveres ou “homem meio morto” (cf. Lv 21,1). Os dois, entre o amor ao próximo e pureza legal para o serviço do culto, não hesitam. Por isso, não se aproximam do homem ferido.

v.33-35. O samaritano se aproxima do infeliz, independentemente da nacionalidade a que pertença; provavelmente era um judeu, porque vinha de Jerusalém. É conhecido o ódio antigo que dividiu os samaritanos dos judeus, que os consideravam da mesma maneira que os pagãos. O bom samaritano não se importa com rancores nacionalistas ou desacordos religiosos, mas ele teve compaixão (esplanchnisthē, um verbo que na Bíblia indica frequentemente a compaixão de Deus) do homem ferido e que precisa de ajuda. Ele faz o possível por ele, trata de suas feridas, cuida dele e o transporta para uma hospedaria. Ele oferece ao hoteleiro duas moedas de prata, o que correspondia aproximadamente a dois dias de trabalho. O sentimento de compaixão prevaleceu sobre o preconceito, fazendo triunfar o amor. Nos personagens opostos, a preocupação com a pureza ritual extinguiu a caridade nos corações de dois homens que deviam encarnar o mandamento do amor de Deus.

v.36. “Na tua opinião, quem destes três se tornou próximo?…”. Jesus não responde à pergunta do seu interlocutor, sobre quem deve ser considerado próximo, mas pergunta a ele qual dos três se comportou como um próximo para o infeliz viajante. Ele elude as sutis discussões rabínicas sobre quem é o próximo, nem mesmo teoricamente afirma que o próximo é toda pessoa necessitada de ajuda, mas responde com um exemplo prático, para mostrar como é preciso se comportar para se tornar verdadeiramente próximo, ou seja, cumprir o mandamento do amor. Jesus não está interessado na definição exata de “próximo”, mas sim a prática do amor relacionada a quem precisa de ajuda, independentemente de qualquer distinção cultural, racial, social, religiosa.

v.37. Quem ouviu a palavra deve passar para a ação: “Vai e faze tu o mesmo”. O centro doutrinal do discurso da planície, expresso no mandamento de amor, vertia sobre a imitação da misericórdia do Pai celestial. Com o exemplo do bom samaritano Jesus ensina como o preceito do amor deve ser traduzido na vida cotidiana. Só quem escuta suas palavras e “as faz” constrói a casa espiritual na rocha.

A liturgia ao associar a 1ª. Leitura ao Evangelho, põe em situação de proximidade a palavra de Deus e o amor fraterno.

 

Solenidade de São Pedro e São Paulo
Dia: 03 de julho de 2022
Primeira Leitura: At 12,1-11
Salmo: 34/33,2-9
Segunda Leitura: 2Tm 4,6-8.17-18
Evangelho: Mt 16,13-19

 

O trecho do evangelho de hoje apresenta o famoso diálogo em que Jesus constitui e confirma a Pedro como princípio de união da comunidade dos discípulos. Após questionar os discípulos sobre o que o povo diz a seu respeito, Jesus pergunta o que os próprios discípulos pensam. Em nome de todos os discípulos, Pedro responde: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo (v. 16). Em outras palavras, Pedro proclama sua fé: “Tu és o Filho do Deus da vida. Tu és aquele que vai nos ensinar o caminho para a vida”. As palavras e as ações de Jesus demonstram não só que ele é poderoso, o Filho de Deus, mas também que o poder de Jesus está direcionado para a vida e não para a morte.

Quem descobre e professa que esta é a verdadeira identidade de Jesus não pode mais ficar sem se comprometer com ele. É uma descoberta que chama ao discipulado e à missão. Não basta ser discípula/o, é necessário também ser missionária/o. Não basta descobrir para si mesmo que Deus é bom e que Jesus é a salvação encarnada. É necessário também dar um passo a mais e participar do projeto de Jesus.

Em reação à profissão de fé de Pedro, Jesus lhe diz: Tu és Pedro (Kefa’) e sobre esta rocha (kefa’) edificarei a minha Igreja, e as portas da mansão dos mortos não prevalecerão sobre ela (v. 18). A afirmação de Jesus confirma Pedro em uma missão. Mas o que torna Pedro capaz de cumprir tal tarefa não são as palavras de Jesus, mas as palavras do próprio Pedro, isto é, aquela mesma fé que ele acaba de professar. É como se Jesus dissesse: “Muito bem, Pedro. Você concluiu que eu sou o Cristo, e agora você pode ser ‘pedra’ para eu edificar minha Igreja”.

Em hebraico e aramaico, “rocha/pedra” se diz kefa’. Este termo significa uma gruta natural ou escavada nos rochedos, algo muito comum na Palestina. Estas grutas sempre serviram para abrigo de pastores e viajantes, peregrinos surpreendidos pela noite ou pela chuva encontravam nelas um local seguro de espera e pernoite. Elas eram igualmente usadas pelos pobres sem casa e sem teto e perseguidos em tempos de guerra; em algumas regiões, eram a moradia regular de famílias e grupos. Este uso é citado algumas vezes no Antigo Testamento. Apenas dois exemplos: toda a cidade fugiu: foram para os bosques ou subiram para as grutas (Jr 4,29); para habitar nos barrancos dos vales e nas cavernas da terra e das rochas (Jó 30,6). Estas rochas também eram usadas como sepultura.

Estas informações sobre a palavra kefa’ ajudam a repensar a teologia sobre a Igreja e sobre o papa, não só porque Jesus dá a Simão o apelido de kefa’, mas também porque a própria história de Jesus é marcada pela imagem da gruta. Jesus nasceu numa kefa’ e foi sepultado em outra kefa’. Ambas lhe foram emprestadas: a primeira por pastores; a segunda por José de Arimateia. É o destino do pobre: não tem onde nascer, nem onde cair morto! É para isso que ainda hoje servem as grutas da Palestina e do Oriente Médio.

Portanto, o kefa’ de Mateus não é uma rocha maciça, onde se constrói por cima um edifício. O kefa’ a que o evangelista se refere é uma gruta protetora, que cobre, protege e defende. Esta deve ser a vida e a missão da Igreja.

Em nossa casa, em nossa comunidade, em nossa sociedade, em todos os ambientes e situações que vivemos: é a coerência com nossa fé que nos faz “grutas/ kefa’” que servem de abrigo para Jesus trazer a salvação e o Reino de seu Pai, o Deus da vida.

No versículo que conclui a leitura de hoje – Eu te darei as chaves do Reino dos Céus (v. 19a) –, a imagem da porta e das chaves nos faz pensar nos grandes portões das antigas cidades. Por eles, saíam os exércitos para a guerra. Por eles, entrava o povo para encontrar proteção e abrigo em momentos de perigo e medo. Pedro tem as chaves: é ele quem vai encabeçar os que querem continuar a missão de Jesus, os que querem lutar para defender os que Deus ama, socorrer e acolher os que sofrem.

E Jesus continua: o que porventura ligares na terra estará ligado nos céus, e o que porventura desligares na terra estará desligado nos céus” (v. 19b). A imagem de “ligar” e “desligar” pode ser compreendida no sentido de reconhecer que alguém está em comunhão com Deus ou, ao contrário, que alguém se afastou dele. Como discípulas/os e missionárias/os, todas/os nós somos chamadas/os a ter a mesma fé de Pedro e a nos empenharmos para que a morte não vença a vida, para que as forças do inferno não esmaguem e sufoquem as forças da vida.

 

 

13º Domingo do Tempo Comum
Dia 26 de Junho de 2022
Primeira Leitura: 1Rs 19,16b.19-21
Salmo: 16/15,1-2a.5.7-8.9-10.11
Segunda Leitura: Gl 5,1.13-18
Evangelho: Lc 9,51-62

 

O Evangelho

A liturgia deste domingo reflete a radicalidade que se exige dos discípulos em vista do Reino. Em Lc 9,51 começa a subida para Jerusalém, onde se realizará a condenação e morte de Jesus. Por isto mesmo, quem quer ser discípulo do mestre, não pode titubear: ou assume todos os riscos da cruz, ou nada feito. Entre os seguidores não tem lugar para pessoas indecisas, ou que ainda tenham outros interesses a defender. Alguns estudiosos creem que este radicalismo era próprio de seguidores forasteiros que, como os apóstolos, abandonaram tudo, mas que nem todos os discípulos praticavam tudo isto. Havia muitos discípulos e discípulas que mantinham suas casas, suas famílias e, mesmo alguns bens. Percebe-se isto no relato de Ananias e Safira, quando Pedro lhe diz que ele poderia ter guardado seu patrimônio (At 5,4).

Em Lc 9,51 inicia a caminhada para Jerusalém. Esta jornada culmina em Lc 19,28 quando se inicia o conflito que o leva à cruz. Mais do que pensar num caminho geográfico, deve-se ver na narrativa um percurso teológico. Jesus vai resolutamente ao encontro da cruz (Lc 9,51b), por isto, quem o seguir, deve abrir os olhos. Agora se desenha a radicalidade da opção por Cristo, ou contra ele. Com isto Lucas indica que os discípulos devem ter a mesma firmeza do mestre, ou então, não podem ser discípulos. Quem tem outros interesses não segue um mestre que vai ao encontro da cruz.

No texto de hoje pode-se colher três lições fundamentais para quem quer seguir Jesus: 1) a questão com os samaritanos: havia velhas rixas entre judeus e samaritanos (2Rs 17). Jesus pede hospedagem na Samaria, o que um bom galileu não faria, pois os samaritanos eram considerados impuros. Ele não alimenta o preconceito racial. Diante da negativa dos samaritanos, proíbe a vingança desejada por Tiago e João. Nada de racismo, nem violência ou vingança; 2) a questão do teto: ninguém que queira seguir Jesus deve esperar mordomias. “O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. Logo, seguir Jesus requer assumir todas as consequências; 3) romper com o passado: enterrar os pais e despedir-se da casa. O verdadeiro seguidor de Jesus não deve ter outras preocupações, a não ser o Reino. Esta também era uma ética de andarilhos. Os discípulos comuns, permaneciam em seus lares, cuidavam dos pais, enterravam seus mortos. Portanto, o texto reflete a radicalidade de certos grupos que, literalmente abandonaram tudo, como mais tarde fez São Francisco, Santa Clara e tantos mais.

Quem, como Eliseu (1ªleitura) estiver com a mão no arado, não pode olhar para trás. Este sacrificou seu passado: bois e arado. E começou vida nova. Quem segue Jesus deve sacrificar o passado, isto é, seu mundo pessoal, seus próprios interesses e assumir a proposta do mestre que passa pela cruz. Os cristãos precisam colocar os interesses do Reino acima de todas as demais preocupações.

Relacionando com as outras leituras

1Rs 19,16b.19-21: nos tempos do Rei Acab (874-853 a.C.) o Reino do Norte (Israel) mergulhou na idolatria. O profeta Elias tem a árdua missão de chamar o povo de volta para o culto a Javé (1Rs 18,1ss). Porém, o profeta tem seu tempo. Ele não fica sempre. Por isto, ele precisa achar um continuador, pois sua missão continua. No gesto de Eliseu se percebe a disposição de responder de forma radical ao chamado. Ele rompe com seu passado: beija os pais e imola os bois. Pode-se dizer que o profeta mudou seu foco: seus interesses até então, isto é, sua família e sua roça onde lavrava, ficaram para trás. Agora, ele se põe a profetizar. Só quem deixa seu mundo é digno de viver uma verdadeira vocação.

Gl 5,1.13-18: quem optou por Cristo é livre, pois nele a velha lei caducou (Ef 2,15). Isto, no entanto, nunca deve ser entendido como liberdade para fazer o mal, ou libertinagem. Quem é de Cristo, faz as obras do espírito, e não as da carne. Em outras palavras, evita o mal e faz somente o bem. Relativiza tudo, como os andarilhos do evangelho e como o profeta Eliseu e vive somente para o Reino.

 

 

12º Dom. Tempo Comum
Dia 19 de Junho de 2022
Primeira Leitura: Zc 12,10-13,1
Segunda Leitura: Gl 3,26-29
Salmo: 63/62,2-6.8-9
Evangelho: Lc 9,18-24

 

O Evangelho

No Evangelho segundo Lucas, o autor diz que pretende apresentar: “uma narrativa organizada” (Lc 1,1a). Por causa disso, mesmo nos trechos já narrados nos outros “sinóticos”, o faz de forma mais compreensível paras as pessoas de matriz não-judaica. O Evangelho deste Domingo tem paralelos em Mc 8,27-31 e Mt 16,13-21. Isto não significa que Lucas leu e propositalmente modificou a narrativa, mas pode ter acessado boa parte deste material de forma indireta, a partir do uso nas comunidades, em especial a de Antioquia (cf. At 11,26).

O momento da pergunta: “Quem as multidões dizem que eu sou?”

Enquanto Mc e Mt colocam esta pergunta no caminho, Lc o faz na “oração” – “enquanto Jesus estava aparte/em particular, orando”. A pergunta emerge de um diálogo “intra-trinitário”. Algumas traduções dizem que Jesus orava “sozinho”, mas o próprio texto diz que, bem próximos dele, estavam os discípulos, o que o torna um momento “intra-comunitário”. Jesus vive sua relação pessoal com Deus no meio da comunidade do discipulado. É deste contexto que emerge a pergunta.

A dialética das perguntas: “Quem as multidões/vocês dizem que eu sou?” (v.18b e 20b).

A palavra grega para “multidão” é óxloi (multidões, massa de gente) se refere ao que hoje chamaríamos de “população de massa”, e o que as “massas” pensam ou dizem é frequentemente aquilo que se entende como “senso-comum”, isto é, “possíveis verdades” aceitas pelo conjunto da população. A pergunta a “vocês” (umeis), isto é, à comunidade do discipulado, mostra a diferença substancial entre o “senso-comum” e “senso-comunitário”. Não pergunta sobre o que “pensam”, mas, o que “comunicam” ou “dizem” para outras pessoas.

Quem que eu sou?

O “que” indica uma função social e não apenas identidade pessoal. No entanto, as respostas do “senso-comum” não conseguem distinguir entre uma coisa da outra. João Batista ou Elias (Mateus mencionará Jeremias), confundem a identidade pessoal com a função social. O senso-comum fala de algum profeta “ressuscitado”(para evitar a ideia de “reencarnação”; cf. Lc 9,19b; Mc 8,28b e Mt 16,14b). O “senso-comum” aponta para o passado. Pedro, então, representa o grupo que, sinodalmente ou comunitariamente, afirma, na versão de Lucas: “O Cristo de Deus” (Tón Xriston tou Teou). Lucas apresenta uma comunicação direta, clara, do “princípio messiânico”, mais completa que a de Marcos que não menciona Deus (“Tu és o Cristo”) e mais simples que a de Mateus (“Tu és o Cristo o Filho de Deus Vivo”). Lucas, comunica o sentido sócio-político-teológico de Jesus numa fórmula com duas partes “Cristo” (aquele ungido por Deus para levar adiante o projeto de libertação, vide Lc 4,18-19) e de “Deus” (a presença transcendental que une tudo em todos).

A advertência: quando e como comunicar?

Lucas segue a mesma linha de completar Marcos e simplificar Mateus. Marcos, e coloca a advertência, indo além do “que não dissessem isso a ninguém” (Mc 8,30), e não entrando nos meandros de Mateus que estabelece a liderança de Pedro sobre a “Igreja” (Mt 16,18-19). A preocupação de Lucas é dar a base material para afirmar que Jesus é o Cristo de Deus. Esta base é a Cruz e Ressurreição. A Cruz, em toda sua crueldade repressora, assassina, violenta, como instrumento de pessoas que agem em nome do mesmo Deus (anciãos, sacerdotes, escribas) e Ressurreição como vitória sobre tudo isso. É sobre esta base que o senso-comum pode virar senso-comunitário, ou senso-sinodal. Sobre esta base não se volta ao passado, mas é possibilitada a construção de um novo presente e de um futuro para as pessoas antes excluídas (cf. Lc 9,22b).

Relacionando com as outras leituras

A profecia de Zacarias supera o senso-comum através da figura do “transpassado”, e lamento do povo (Zc 12,10) que, longe de ser motivo de desânimo, ao igual que no Evangelho, é memória e desafio, que gera uma identidade popular capaz de resistir à violência. Já em Gálatas se supera o senso-comum que separa e exclui, e não iguala e inclui as pessoas em toda sua diversidade.

 

Santíssima Trindade
Dia: 12 de junho de 2022
Primeira Leitura: Pr 8,22-31
Salmo: 8,4-9
Segunda Leitura: Rm 5,1-5
Evangelho: Jo 16,12-15

 

O Evangelho

Os versículos do evangelho de hoje exprimem a consciência da comunidade joanina: o conteúdo do evangelho, que é fruto da ação do Espírito Santo, é “toda a verdade”. Vem esclarecido o papel do Espírito como um guia para assimilação plena da verdade, revelada por Jesus.

v. 12: “Muitas coisas ainda tenho para dizer-vos, mas não as podeis compreender agora”. Este é um v. de transição. Na passagem seguinte, o Espírito é apresentado em sua função de guiar os discípulos e discípulas. O ensino de Jesus durante o ministério público permaneceu, por vezes, obscuro e enigmático devido à incapacidade dos/as discípulos/as em apreender o sentido profundo da sua revelação, ligada à identidade humano/divina da sua pessoa. O Espírito, como mediador da revelação completa e definitiva, após a elevação de Jesus ao céu, revelou o mistério e o significado de sua missão.

v.13: “Quando vier o Espírito da verdade, ele os guiará em toda a verdade”. Vem aqui enunciada a função específica do “Espírito da verdade”, que consiste em fazer os/as discípulos/as assimilarem a revelação de Jesus e habilitá-los para sua missão. No Antigo Testamento, YHWH foi descrito como um pastor e guia do povo de Israel no Êxodo do Egito; Jesus se proclamou o bom pastor que conduz (agó) suas ovelhas (10,16); agora é o Espírito da verdade que é apresentado como o guia (hodégeó) dos/as discípulos/as à plena verdade. O Espírito não se encarrega de anunciar coisas novas, isto é, integrar ou expandir o conteúdo da verdade, mas reanunciá-la. Trata-se da compreensão mais plena das palavras reveladoras de Jesus, nas quais os eventos pascais estão incluídos.

A verdade (alētheia), à qual o Paráclito conduz os discípulos e discípulas ou na qual ele os guia, não pode ser entendida senão como é compreendida no resto do Evangelho segundo João: é a prometida revelação da vida, que Jesus Cristo trouxe. Não deve ser limitada à ação moral, mas nem mesmo interpretada em um sentido gnóstico. Se trata da penetração profunda no conteúdo da revelação e também de sua aplicação ao comportamento da comunidade em meio ao mundo.

O Espírito “não falará de si mesmo”, afirma Jesus, “mas do que ouvir, e vos anunciará as coisas futuras” (v.13b). O ensinamento do Espírito virá da própria revelação de Jesus ele ouvirá (akousei) e anunciará (anangelei) as coisas que virão, ou seja, fará com que as pessoas entendam os acontecimentos relativos ao drama da cruz e à glorificação de Jesus à direita do Pai. O anúncio das coisas futuras consiste em interpretar em relação a cada geração futura o significado contemporâneo daquilo que Jesus disse e fez. Assim como Jesus possui o escopo de conduzir os seres humanos ao Pai, o Espírito irá iluminá-los e guiá-los para Jesus.

v.14-15 “Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vos anunciará”. Jesus teve a missão de glorificar o Pai, anunciando e implementando seu plano de salvação; assim, o Espírito Santo irá “glorificar” Jesus, manifestando a sua grandeza ao lado do Pai. Jesus foi o revelador e o guia para com o Pai (1,18) por sua união íntima com ele. Assim o Espírito guiará os que creem a Jesus, porque está intimamente unido a ele, e anunciará o que recebeu dele. Dada a perfeita reciprocidade subsistente entre as Pessoas divinas pela comunhão total de vida, o Pai comunica ao Filho “tudo o que ele tem” (v.15) e o Filho compartilha ao Espírito, que o transmitirá em plenitude aos discípulos e discípulas de Jesus.

Relacionando com as outras leituras

A vida nova em Cristo que doa paz e esperança (2ª. Leitura) é expressão do Verbo encarnado e espírito de sabedoria prenunciado no hino de Pr 8 (1ª. Leitura).

Toda a Igreja, através do Paráclito, está ligada à revelação de Jesus Cristo, e também orientada em seu aprofundamento mediante as situações históricas requerem posicionamentos e decisões novas. Graças à ajuda do Paráclito, a verdade do evangelho está disponível aos discípulos e discípulas de Jesus e sua mensagem se torna sempre uma nova força. No e pelo Espírito a Igreja conhece o que foi dito, dado e prometido por Jesus. Por mais que seja difícil descobrir a verdade, vale aquilo dito em 1Jo 3,24: “Pelo Espírito que nos deu, sabemos que ele permanece em nós”.

 

Domingo de Pentecostes

Dia: 05 de 06 de 2022

Primeira Leitura: At 2,1-11

Salmo: 103, 1ab e 24ac.29bc-30.31.34

Segunda Leitura: 1Cor 12, 3b-7.12-13 ou Rm 8,8-17

Evangelho: Jo 20,19-23

 

O Evangelho

O evangelho deste domingo se encontra nos relatos pascais do capítulo 20 de João. Segundo Jo 20,19-23, Jesus dá o Espírito Santo no mesmo domingo da ressurreição.

Literalmente, o v.19 diz: quando já tinha anoitecido, desse mesmo dia, o primeiro da semana, pondo-se no meio deles. A referência ao horário – quando já tinha anoitecido – é uma referência a Ex 12,42: “Aquela foi a noite durante a qual o Senhor velou para os fazer sair do Egito”. A ênfase ao primeiro dia da semana indica que a ressurreição de Jesus é uma nova criação. O ressuscitado cumpre o que fora prometido em 14,18: não vos deixarei desamparados. Há de se notar que Jesus caminha desde a porta: ele simplesmente aparece no meio. Não é tanto uma presença física, e sim espiritual: Jesus está presente quando a comunidade está reunida.

O Senhor Ressuscitado vem para ficar com os seus e trazer-lhe a paz: “Paz a vós!” (v. 19). É esta saudação que provoca o reconhecimento: Jesus está presente no meio deles (14,27-28) e sua vitória (16,33) elimina o medo e a incerteza citados no início do texto hoje lido.

No v. 20, Jesus mostra “as mãos e o lado”, isto é, os ferimentos. Deste modo, os discípulos podem comprovar que o ressuscitado é o mesmo que fora crucificado. Os sinais da cruz permanecem: isso indica que o amor que levou Jesus à cruz também permanece. A mesma missão de Jesus agora é dos discípulos: como o Pai me enviou também eu vos envio (v. 21). E eles devem cumpri-la do mesmo modo como Jesus a cumpriu, com o amor até o fim, isto é, até as últimas consequências.

O v. 22 – Soprou sobre eles… recebam o Espírito Santo –, o verbo usado pelo evangelista é o mesmo de Gn 2,7, quando Deus criou o homem. Lembremo-nos: a ressurreição de Jesus é uma nova criação. Por isso, ao contrário do Jesus de Lucas, que faz o Espírito esperar cinquenta dias até Pentecostes, o Jesus do Quarto Evangelho sopra o Espírito no mesmo dia da ressurreição: não pode haver criação sem o Espírito de Deus (Gn 1,2; 2,7).

O arremate do v. 23 – aqueles a quem perdoardes, serão perdoados… – leva a perguntar: A quem Jesus dá essa missão? Alguns afirmam que se trata dos apóstolos (e seus sucessores): um grupo reduzido e privilegiado. Mas devemos notar que o Quarto Evangelho fala de “discípulos”, sem especificar o grupo dos Doze. Em todo caso, a missão de perdoar, isto é, de transmitir a todos a misericórdia de Deus, é agora estendido à comunidade cristã. Somos, portanto, a comunidade da salvação, que denuncia e se opõe ao pecado. No Quarto Evangelho, pecar equivale a negar a Luz e, portanto, não aderir à verdade e ao amor.

Um acontecimento, duas versões diferentes

Na liturgia da Igreja, a manifestação do Espírito Santo é comemorada não no mesmo dia da Ressurreição, mas na Solenidade de Pentecostes. Nisso, o calendário cristão segue o relato de Lucas, que relata a vinda o Espírito Santo cinquenta dias depois da ressurreição. Tradicionalmente, tal opção lucana é interpretada à luz do calendário judaico: Páscoa e Pentecostes são festas agrárias, ligadas, respectivamente, à semeadura e à colheita dos primeiros frutos. Ao escolher Pentecostes como o dia da manifestação do Espírito, Lucas quer que leitor compreenda que o Espírito Santo é o primeiro fruto que a comunidade colhe da ressurreição do Senhor.

Logo se vê que a opção teológica de João é bem outra. Para ele, a Ressurreição de Jesus é uma nova criação e, por isso, na tarde do primeiro dia da semana, é necessário que o Espírito venha e fecunde a comunidade, que está vazia e sem esperança.

Esta diferença de teologias nos faz compreender que cada evangelista responde às necessidades de sua comunidade, mas o Espírito é o mesmo, com seus muitos dons de vida, força e luz.

 

 

 

 

Domingo do Ascensão
Dia 29 de maio de 2022
Primeira Leitura: At 1,1-11
Segunda Leitura: Ef 1,17-23
Salmo: 47/46,2-3.6-9
Evangelho: Lc 24,46-53

 

O Evangelho

Para maior clareza seria oportuno ler o texto mais amplo, isto é, Lc 24,36-53, depois comparar com At 1,1-11 e anotar todas as diferenças: o local, o gesto de Jesus e o tempo não conferem, embora os dois textos sejam do mesmo autor: Lucas. Por que ele modificou o relato? Nem At 1,1-11, nem Lc 24,36-53 são crônicas históricas, mas teológicas. O que é a ascensão? Qual seu sentido teológico?

A ascensão é a culminância de toda missão de Jesus. Agora tudo está consumado. O Pai deu razão a seu Filho sobre todos os poderes deste mundo. Depois da ascensão de Jesus, os discípulos voltam para Jerusalém, cheios de alegria. A Igreja que crê no Ressuscitado, vivendo em meio aos conflitos deste mundo, mesmo sem ter a presença física de Jesus, tem todos os motivos de estar alegre, pois ele envia o que o Pai prometeu: o Espírito Santo.

A fé testemunhada por quem experimentou a ressurreição, confirmada pela vinda do Espírito Santo (At 1,6-8; 2,1-13) é a base de toda ação evangelizadora da Igreja. Crer no Cristo vivo, sentado à direita do Pai é o motivo que lança homens e mulheres para a missão através dos séculos e milênios. Esta certeza do Cristo vivo se expressa também na certeza da vitória da vida sobre a morte de todos os seguidores do mestre. É também a certeza da vitória do bem sobre o mal. Este mesmo Senhor vivo não se afastou da comunidade. A fé diz que ele continua presente em todas as pessoas que se reúnem em seu nome (Mt 28,20).

Relacionando com as outras leituras

Entre a Páscoa e a Ascensão se vão quarenta dias (At 1,1-11). Nem Mc 16,16ss, nem mesmo Lc 24,46ss afirmam isto. Mateus e João não narram a ascensão de Jesus. Os quarenta dias não são relatos históricos, mas teologicamente lembram os quarenta anos do Povo de Deus no deserto (Ex 16ss), bem como os quarenta dias de Moisés no Monte Sinai (Ex 24,15-18); lembram também os quarenta dias de chuva do dilúvio (Gn 7,4); Elias caminhou por quarenta dias até o Horeb (1Rs 19,8); Jesus, antes de iniciar sua vida pública, foi para o deserto, onde rezou, jejuou por quarenta dias (Mc 1,12s; Mt 4,1ss; Lc 4,1ss). Quarenta significa tempo de preparação. Assim os escravos libertos, Moisés, o dilúvio, Elias e Jesus se prepararam para uma nova realidade deixando para trás um estilo de vida para assumir outro. Uma vez que, agora Jesus não estará mais fisicamente presente na Igreja, os discípulos se preparam por quarenta dias para depois ir ao mundo e anunciar o Evangelho. Quem vai evangelizar precisa ter experiência do Cristo Vivo. A mensagem da paixão, morte e ressurreição é central no anúncio dos pregadores. Por isto, agora eles têm base para testemunhar. Ainda hoje, a Igreja se prepara durante quarenta dias (quaresma), todos os anos, para celebrar a Páscoa.

E por fim, o que dizer da ascensão? A arte sacra representa Jesus subindo como um foguete para o céu. Mas vale dizer: o mistério da Ascensão escapa da observação física. Já a arte sacra, e mesmo os textos bíblicos representam este mistério de forma palpável, para que se possa entender. Certamente Jesus foi ao céu, mas isto não deve ser visto como fenômeno observável pelos sentidos, até porque o céu não está lá encima, ou seja, não é um lugar geográfico. Este mistério só pode ser abarcado pela fé. A verdade é que, Ele, o Ressuscitado está vivo junto ao Pai e é o Senhor da história. Não é mais visível como foi quando vivia aqui na terra. Agora, a realidade é outra. Jesus está vivo, mas não está mais dentro dos limites físicos: geográficos e temporais. Os discípulos o experimentaram vivo e agora devem continuar a obra iniciada por Jesus, para isto se requer seu firme testemunho sob o impulso do Espírito Santo (At 1,6-8; 2,1-13). Eles não devem ficar olhando para céu com saudades do passado, esperando sua volta, mas devem ir ao mundo, evangelizar. Seu compromisso é anunciar o Cristo vivo a todos os povos.

Ef 1,17-23: é preciso pedir a sabedoria a Deus para conhecer o mistério realizado na pessoa de Jesus Cristo, quando o Pai o ressuscitou dos mortos.

Sexto Domingo do Tempo Pascal
Dia 22 de Maio de 2022
Primeira Leitura: At 15,1-2.22-29
Segunda Leitura: Ap 21,10-14.22-23
Salmo: 66,2-3.5.6.8
Evangelho: Jo 14,23-29

O Evangelho

Esta parte do Quarto Evangelho encontra-se no chamado “Livro da Hora” (13,1-20,9) ou do caminho de volta para o Pai. No capítulo 13 a “hora” é marcada por Jesus reunido com sua comunidade, pano de fundo de todo o “discurso de despedida” que vai do capítulo 13 ao 17. Este “testamento” de Jesus resume seu legado de diferentes formas: “a primazia do serviço” no lava-pés (13,12-20), o “novo mandamento” de amar como ele amou (13,21-35), o lar místico de Jesus e quem lhe segue seguindo os mandamentos nas “muitas moradas” (14,1-15), chegando ao sentido da continuidade da missão de Jesus através do “Paráclito”, “Consolador”, ou “Espírito da Verdade” (14,16-31). Neste domingo se dá a transição entre o Tempo Pascal e o tempo do Pentecostes. O Lecionário pinça uma parte da perícope para conseguir este objetivo. Qual é, então, o possível sentido que a “tradição” da igreja (lecionário) dá à leitura do Evangelho de hoje?

O amor: ponto de partida e gerador de sentido (14,23): Começa com a resposta de uma pergunta que aparece em 14,22. Judas – não o Iscariotes –  pergunta por que ele se manifesta para a comunidade e não ao mundo. A resposta condiciona tudo ao amor: quem ama recebe amor, quem ama guarda a Palavra, quem ama habita com Deus em Cristo. No “mundo” está “quem não me ama” (14,24).  O seguimento da “palavra” (logos) é o seguimento do próprio Cristo. A tradição viu que, no amor, tudo tem seu ponto de partida, lembrando de Santo Agostinho: “ama e faz o que quiseres”.

O Consolador que ensina o sentido (14,26): Também aqui temos que voltar para a primeira parte da perícope, quando em 14,16 se anuncia que o Pai vai enviar este “Consolador” (em grego paráclitos que quer dizer “advogado”, “aquele que fica do lado da pessoa”). O “Espírito da Verdade” (pneumas tes aletéias) concretiza a presença amorosa de Deus na vida das pessoas que amam e levam amor ao mundo através da Palavra, e isto é recebem a Verdade.

A Paz, sentido da presença divina na vida de quem ama (14,27): A Paz (em grego eirene) deve ser lida no sentido hebraico/aramaico de shalom. No sentido grego “paz” é “tranquilidade de espírito”; mas, no sentido hebraico/aramaico é fartura, felicidade e plenitude. Jesus não vai para nenhum “limbo”, mas para junto do Pai (14,28), que por sua vez permanece junto à comunidade que ama através do Espírito da Verdade/Santo que lhe defende e ampara no caminho da missão no mundo.

Aviso para que creiam (14.29). O Quarto Evangelho é escrito por volta do ano 100 d.C. Nessa época havia muita gente sentindo falta de Jesus. Muitas das pessoas que lhe seguiram tinham morrido. Será que nos abandonou? Este aviso quer lembrar que Jesus está na comunidade que vive o amor através da ação do Espírito da Verdade/Santo, que entende a dor, que a fortalece. A amor é, como quer nos mostrar a tradição, o ponto de partida capaz de superar frustrações e exclusões, e dar sentido a ser comunidade de amor em um mundo que clama por amor e paz.

Relacionando com as outras leituras

A leitura de Atos nos fala da inclusão das pessoas não judias que se convertiam à fé cristã. Dois critérios se confrontaram: impor a elas as exigências da lei bíblica (circuncisão) ou admitir que a presença do Espírito da Verdade/Santo, do amor vivendo nelas, era suficiente. A sentença final diz: “na verdade pareceu bem ao Espírito Santo não lhes impor mais nenhuma carga, exceto o essencial” (At 15,28). Não era uma “concessão” de quem tinha mais dignidade ou autoridade institucional, mas o reconhecimento de uma ação amorosa do Espírito Santo, capaz de curar divisões e exclusões. Assim também podemos interpretar a visão da Nova Jerusalém no Livro de Apocalipse, com 12 portas abertas para os quatro pontos cardiais da terra, que não são algumas portas, mas todas as portas para todas as pessoas que desejam entrar, 12 tribos, que não são apenas um povo, mas expressão de todos os povos, 12 alicerces desse mundo novo onde há moradas para todas as pessoas que amam (Ap 21,10-14). Um mundo do Cordeiro que se entrega por amor e que se torna luz para todas as pessoas em todos os lugares (Ap 21,22-23).

 

Quinto Domingo do Tempo Pascal
Dia 15 de maio de 2022
Primeira Leitura: At 14,21b-27
Salmo: 145/144, 8-13ab
Segunda Leitura: Ap 21,1-5a
Evangelho: Jo 13,31-33a.34-35

 

Na passagem dos v. 31-35 João associa a partida de Judas do Cenáculo com início do drama da Paixão de Jesus, que levaria à sua glorificação em céu. Jesus mesmo dá o anúncio aqui para os discípulos em tom alegre, porque já era iminente voltar para o Pai. Os discípulos não deviam afligir-se pelo seu afastamento momentâneo, mas permanecer unidos em seu amor, amando-se como irmãos e irmãs, para expressar sua pertença à comunidade messiânica fundada por ele.

vv. 31-32: “Agora o filho da humanidade foi glorificado, e também Deus foi glorificado nele”. Jesus retoma um tema anunciado na vinda dos gregos posteriormente à sua entrada em Jerusalém (12,23.28). A chegada dos pagãos preludiava sua morte-glorificação; agora a saída de Judas dá início à paixão e representa sinal do processo que leva Jesus à morte e, por meio dela, à glorificação. O título “filho da humanidade” refere-se sobretudo à figura humana histórica de Jesus, solidária com o destino humano, enquanto o “filho” absoluto na passagem paralela 14,13, enfatiza sua divindade. “Foi glorificado” (edoxasthē) expressa o momento decisivo da missão de Jesus e se refere de forma global à sua paixão-morte e ressurreição-ascensão, isto é para a elevação na cruz e para a glória do céu (cf. 3,14; 8,28; 12,32). É Deus quem glorifica o Filho, mas ele a si mesmo é glorificado na entrega voluntária do Filho para cumprir seu plano de salvação. No v.32 a glorificação de Jesus aparece subordinada à do Pai e se expressa no futuro: “Deus o glorificará”, com referência ao segundo momento de glorificação, que em breve aconteceria em sua ressurreição e exaltação no céu, em seu retorno ao Pai no primeiro dia da semana (20,1), ou seja, no domingo de Páscoa. Sob o ponto de vista confiante do evangelista, exatamente a hora mais obscura na vida terrena de Jesus se revela como a hora da glorificação.

v.33: “Filhinhos, só por pouco tempo estarei convosco, … para onde eu vou, vós não podeis ir”. Jesus se dirige aos discípulos com este título (teknia) cheio de ternura, usado apenas aqui em Jo (sete vezes na primeira carta). Ele evoca a pregação feita anteriormente aos judeus (7,33-34; 8,21). Mas enquanto eles não o encontraram por causa de sua incredulidade, os discípulos/as o seguirão mais tarde (v. 36), para estar sempre com ele, porque conheciam o caminho (14,3-4).

v.34-35: “Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros…”. Jesus no contexto do tempo pascal pretende sancionar a Nova Aliança, que terá como estatuto fundamental o mandamento do amor. Ele resume a Lei mosaica em um único preceito, que será a marca registrada de sua comunidade. Os profetas haviam predito uma nova aliança, não mais escrita em tábuas de pedra, mas colocado no coração (Jr 31,31-34; Ez 36,24-28). Lv 19,18 também prescreveu amor ao próximo. Mas a novidade do mandamento de Jesus está na segunda parte do v.34: “Assim como eu vos amei, [Eu ordeno!] amai-vos também uns aos outros”. “Como” (kathōs) indica o fundamento do qual brota e sobre a qual esse amor repousa, que se expressa no serviço aos irmãos e irmãs com a disposição de um sacrificar até a própria vida, imitando seu exemplo. Jesus torna-se norma e fundamento, fonte e modelo do amor cristão autêntico. A nova Lei é o próprio Jesus, como sinal elevado que manifesta e exprime o amor de Deus. Essa relação amorosa mostrada por Jesus desafia o mundo e leva as pessoas a fazer sua escolha em favor da luz.

Dado o caráter particular da “hora de Jesus”, não se pode compreender interpretar em um sentido estritamente temporal os tempos dos verbos usados na perícope, ou seja, os aoristos dos primeiros versículos e os tempos futuros das últimas linhas. O aoristo edoxasthē é certamente escolhido em relação à saída do traidor. Precisamente com ela Jesus foi glorificado, a hora começou. Se, então, nos últimos versos fala-se da glória de Deus para o futuro, isso é explicado pelo caráter de correspondência que tem seu ato. É quase um futuro lógico (veja a frase introduzida por ei v.32), mas não exclusivamente; na verdade, esta ação é colocada no futuro e nele se prolonga. O ponto de vista principal é aquele da recíproca glorificação do filho da humanidade e Deus.

No v.32 euthys, imediatamente, volta a sublinhar que a glorificação operada pelo Pai retorna na ora na qual o filho da humanidade glorifica a Deus no modo mais elevado. Mas a glorificação não consiste apenas em retomar no céu a glória que lhe pertence, mas sobretudo na transmissão da salvação, no dom da vida para todos os que creem. Esta finalização da “glorificação” de Jesus em função daqueles que lhe foram confiados e das pessoas que no futuro se juntarão a ele, nunca será suficientemente destacada.

O “novo mandamento” do amor mútuo, que Jesus dá aos seus discípulos e discípulas como uma disposição testamentária e atribui-lhes como uma marca de seu seguimento (v.35), pode-se compreender e interpretar muito bem, colocado como está imediatamente após as palavras da separação iminente: nas dificuldades em que os/as discípulos/as virão a encontrar-se devem manter o relacionamento com ele, voltando seus cuidados para outros, como ele fez.

Este amor constituirá verdadeiramente a característica essencial da comunidade cristã (1ª. Leitura). Note-se a evidente relação entre o “novo céu e a nova terra” (Ap 21,1) como frutos da ação amorosa de Deus e do compromisso cristão.

 

 

 

Quarto Domingo do Tempo Pascal
Dia 08 de maio de 2022
Primeira Leitura: At 13,14.43-52
Salmo: 100/99,2.4.5.6.11.12.13b
Segunda Leitura: Ap 7,9.14b-17
Evangelho: Jo 10, 27-30

 

O Evangelho

No capítulo 10 do Evangelho de João, Jesus usa uma comparação tirada do ambiente rural e pastoril: as ovelhas e o pastor. Jesus se apresenta como o pastor que conduz e protege o rebanho.

As minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e elas me seguem v.27. Este versículo 27 tem seu realce no versículo 26 quando diz que os que não creem, não pertencem ao seu rebanho. Jesus diz que as ovelhas que são dele o conhecem, não só de forma teórica, mas por adesão: me seguem, comprometendo-se com o seu projeto de vida que todos tenham vida e tenham de sobra (Jo10,10). Essas ovelhas nele encontram a vida eterna. A vida eterna não significa em primeiro lugar o céu e o paraíso. Significa a força e a coragem que nos fazem caminhar com segurança no dia a dia, diante do que nos ameaça, entristece e amedronta. Portanto, não basta escutar, é necessário seguir, é necessário confiar e arriscar-se. Sabemos se escutamos e seguimos observando nosso comportamento, nosso compromisso, nossa entrega.

Por isso Jesus diz que as ovelhas a quem ele deu vida eterna nunca perecerão e nunca serão arrebatadas de sua mão (v. 28). Com esta afirmação, Jesus quer encorajar seus discípulos: quem escuta e segue a sua voz não enfrentará sozinho as dificuldades e os perigos, porque Jesus é o pastor que defende os seus e lhes dá a vida.

Hoje há muitas vozes que querem nos desviar da voz de Jesus: o consumismo, o prazer, a ganância, a vingança, o poder. Mas estas vozes são vozes dos ladrões, dos violentos que querem nos arrebatar da mão de Jesus. Para sabermos qual voz estamos escutando e seguindo, é necessário observar se encontramos uma vida, uma alegria e uma paz que são firmes, que são “eternas”, ou se somos pessoas cada vez mais tristes e amargas. A vida que Jesus nos oferece é um novo nascimento, que faz com que sejamos pessoas novas, mais comprometidas com a verdade, a justiça e a paz. A vida que Jesus nos oferece não é um dom para ser aproveitado de modo egoísta e individualista. É um dom que deve ser partilhado. Portanto temos vida eterna quando levamos a vida eterna para os outros.

Jesus diz que seu Pai é maior do que tudo e todos e ninguém pode arrancar as ovelhas de Jesus da mão do Pai (v.29). Quem escuta e segue a voz de Jesus conta com a força e a proteção do próprio Deus. A vida que Jesus promete é a vida do Pai. A vida que Jesus promete é maior do que a vida que as vozes do mundo podem oferecer. Mas somos nós que escolhemos qual voz queremos escutar e seguir. As ovelhas que pertencem ao rebanho de Jesus reconhecem a sua voz. É por Jesus, com Jesus e em Jesus que encontramos vida, e vida em abundância, vida eterna. Por isso, podemos repetir o que tantas vezes rezamos em nossa liturgia eucarística: “Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós Deus Pai, todo-poderoso, toda honra e toda glória, agora e para sempre. Amém.”

Eu e o Pai somos um (v.30) Jesus é expressão perfeita do Pai (12,45). Esta união faz de Jesus a presença do Pai no mundo (14,9), o seu santuário: o Verbo tornou-se carne e armou sua tenda entre nós (1,14). Seu ser e sua atividade são a explicação do que é o Pai: amor, doação. É nas atividades de Jesus que faz presente o amor do Pai para com a humanidade. Por Jesus e em Jesus que o Pai nos ama como amou a Jesus, e demonstrou comunicando-nos o Espírito por seu intermédio (Jo 17,32.26; 19,30).

Relacionando com as outras leituras

Na unidade do Pai e do Filho, o Salmo 99 recorda o Deus altíssimo, mas ele é, acima de tudo, o Deus da Aliança que olha com misericórdia e justiça para com o seu povo. Sua Santidade é a Santidade daquele que estabelece a justiça e o amor.

Na oração dominical do “Pai nosso” pedimos: santificado seja o teu nome, pedimos que todos reconheçam a Santidade de Deus, que esse reconhecimento se torne denúncia contra todas as tentativas de menosprezar ou manipular a imagem de Deus e seu projeto para que todos tenham vida e tenham de sobra (Jo10,10). Assim como oração do “Pai nosso” e o Salmo 99, confessamos Deus como soberano e pedimos que venha seu Reino.

O Deus Pai, soberano do universal justo e misericordioso é o nosso Deus!

 

 

Terceiro Domingo do Tempo Pascal
Dia 01 de maio de 2022
Primeira Leitura: At 5,27b-32.40b-41
Segunda Leitura: Ap 5,11-14
Salmo: 30/29,2.4-6.11-12a.13b
Evangelho: Jo 21,1-19

 

O Evangelho

Pode-se destacar dois grandes temas no Evangelho de hoje: o Cristo ressuscitado e a vocação de Pedro. Ele, e não o discípulo amado, é chamado a apascentar o rebanho, mas para isto, assume os atributos deste outro discípulo: o amor três vezes exigido.

O capítulo 21 do quarto evangelho é visto pelos estudiosos como acréscimo posterior e, embora tenha proximidade com Jo 1-20, reflete também os evangelhos sinóticos. É também conhecido como Atos dos Apóstolos de João, pois conta os primeiros passos da Igreja depois da ressurreição, quando Jesus já não está presente de forma física.

O relato parece um tanto estranho, pois os apóstolos que abandonaram tudo para seguir Jesus (Mc 10,28), agora, depois da crucificação, voltaram a pescar na Galileia. Teriam, eles, esquecido sua opção? Não. O texto é simbólico. A pesca é figura da Igreja na árdua tarefa de evangelizar. Sete pescadores representam a missão universal. Todos estão agindo sob a chefia de Pedro (é bom lembrar que no quarto evangelho não se destaca muito a liderança de Pedro como nos sinóticos). Alguns estudiosos julgam que este capítulo foi acrescentado tardiamente para harmonizar as comunidades joaninas com a Igreja dos sinóticos, onde Pedro era figura proeminente.

Aqui se realiza o que Jesus prometeu: “vos farei pescadores de homens” (Mc 1,17; Lc 5,10). O número de peixes que abarrota as redes demonstra a missão universal: todos os povos fazem parte da Igreja e ela se mantém una, não rompe. A Igreja deve acolher judeus e gregos, escravos e livres; homens e mulheres (Gl 3,28).

Como também em Lc 5,1-11, eles passam a noite sem nada pescar. Sem a presença do Ressuscitado, a Igreja se torna estéril. Clareando o dia, vem a Luz. Jesus é a alma da evangelização. Reconhecendo o Ressuscitado a pesca será abundante. O sucesso da missão depende da experiência do Ressuscitado que os discípulos devem testemunhar e da obediência à sua palavra.

Trata-se de uma cena de refeição da Igreja primitiva (cf. At 2,42ss). A pesca serviria como preparo desta refeição, mas antes de os discípulos terem conseguido o alimento, Jesus já preparou pão e peixe assados sobre um braseiro (21,9). Agora eles a completam com o produto de seu trabalho.

Pedro, aquele que traiu Jesus três vezes, agora, chamado a liderar a Igreja, deve ressarcir suas traições pela tríplice profissão de amor. Esta é a versão joanina de Mt 16,16ss. Pedro e o discípulo amado representam carismas diferentes. Este último reconheceu o Ressuscitado antes de Pedro, mas Pedro, embora mais lento, é o chamado a apascentar o rebanho de Jesus. Para continuar esta obra, ele deve estar disposto a morrer por amor. Quando velho, Pedro estenderá as mãos e outro o conduzirá. Esta frase é uma referência ao rito de crucificação. O condenado abria as mãos para carregar a cruz, algum soldado o cingia e o levava para onde ele não queria ir. A tríplice prova de amor é a superação da ambição de Pedro. Ele, que não queria ter seus pés lavados, pois achava que o superior deve ser servido, um dia, como coordenador, saberá dar a vida e não se fazer servir. Sem o amor isto é impossível.

Relacionando com as outras leituras

At 5,27b-32.40b-41: diante das dificuldades, Pedro e os demais apóstolos dão testemunho da ressurreição e apresentam o Ressuscitado como o salvador. Alegram-se por poder sofrer pelo nome de Jesus, conforme última Bem-aventurança (Mt 5,11s; Lc 6,22s). Aqui fica claro que os apóstolos, de fato, abandonaram tudo, como visto em Mt 10,28) para enfrentar as dificuldades e levar o Evangelho aos povos, mesmo enfrentando os maiores perigos.

Ap 5,11-14: o Cordeiro (o Ressuscitado) recebe os atributos divinos: tudo, no céu e na terra, adora ao Pai (Ap 4) e igualmente ao cordeiro (Ap 5).

As três leituras apontam para a ressurreição de Jesus. Esta fé levou Pedro e seus companheiros a enfrentar todas as dificuldades até o martírio. Quem presenciou Jesus morto e ressuscitado, pode arriscar tudo e levar esta Boa Notícia a todos os povos, pois ela é a mensagem central da fé cristã.

 

Segundo Domingo da Páscoa

Dia 24 de Abri de 2022
Primeira Leitura: At 5,12-16
Segunda Leitura: Ap 1,9-11a.12-13.17-19
Salmo: 118/117,2-4.16ab-18.22-24
Evangelho: Jo 20,19-31

 

O Evangelho

O texto do Quarto Evangelho, está situado no chamado “Livro da Hora” do Evangelho de João (cap. 13-20), que apresenta a primeira “conclusão” ou “objetivo” de toda a obra em 20,30-31. O Quarto Evangelho seria resultado de um longo processo de compilação que poderia ter iniciado em 50 d.C. (antes dos Sinóticos, Mt, Mc e Lc) e até das Cartas Paulinas. Esta comunidade teria nascido com João Batista e desenvolvido uma cristologia peculiar que lhe afastava tanto do docetismo que defendia que a humanidade de Jesus Cristo era apenas aparente, sendo completamente divino. Mas o quarto evangelho também se diferenciados chamados “revisionistas” para quem todo o sentido da revelação estava em Jesus “vindo na carne”.

Ambas opções – docetismo e revisionismo – eram inaceitáveis para o judaísmo sacerdotal. A primeira porque havia um único Deus e Pai, conforme o Shemáh Israel (Dt 6,4); e a segunda porque um mero ser humano não poderia perdoar os pecados (Mc 2,7). O objetivo de buscar a convergência que promove a vida para o mundo, está bem presente no texto deste domingo, com a comunidade que se encontra com o Cristo Ressuscitado (recebendo a missão de perdoar os pecados pelo poder do Espírito Santo, v.19-23); reconstruindo sua unidade a partir da dúvida (v.24-29) e expressando o sentido dos sinais (semeion) resgatados no livro, para que todas pessoas possam crer e ter vida (v.30-31).

Dentro e fora: fio condutor dos encontros com o Ressuscitado

Cothenet usa a chave “dentro-fora” para ler os capítulos 18 e 19 (p.26). Mas essa mesma chave também ajuda a encontrar um fio condutor no capítulo 20. No texto deste domingo os discípulos estão dentro, fechados e trancados, por “medo dos judeus” (autoridades religiosas de Jerusalém). Jesus vem de fora para dentro e se encontra com a comunidade, empoderando-a e enviando-a (v.19-23). Tomé, que está fora, duvida, e quer as mãos e dedos dentro das feridas de Jesus para comprovar sua corporeidade material (v.24-25). Finalmente Jesus aparece dentro da comunidade (fechada dentro de si), ainda com medo, e autoriza Tomé a colocar as mãos dentro de suas feridas, mas ele acredita sem precisar tocar dentro de Jesus, gerando a bem-aventurança para todas as pessoas que creem.

Jesus, após o primeiro movimento para fora, de saída do túmulo; sempre vem de fora para dentro, quebrando a barreira do medo. O medo, que tranca a comunidade dentro, se refere aos poderes políticos repressores. Mas, também, em Tomé há o medo individualista que faz com que a pessoa se feche dentro de si mesma.

O medo se supera com a Paz. Mas qual Paz? A expressão hevenu shalom (“a paz seja com vocês”, v.19b,21a) era uma saudação coloquial tanto em hebraico quanto em aramaico. Mas este Evangelho, dedicado também ao mundo grego (“eirene ümin”) se referia à paz interior ameaçada pelo medo individualista. O medo deve ser superado pelos encontros, pela abertura, por uma igreja que sai de seu isolamento: “assim como o Pai em enviou, eu lhes envio”, v.21).

A superação comunitária da dúvida mostra Tomé não como uma pessoa “teimosa” ou “rebelde”, mas alguém cuja atitude mostra quão difícil é, para que não participa da comunidade, crer na presença viva do Ressuscitado. Quando Tomé vem para dentro, ao encontro com o Ressuscitado, tudo muda. Tomé pode apenas crer, e ao crer abre as portas para todas as outras pessoas que estão fora, vir para dentro e crer (v.29).

O sentido que o Ressuscitado dá a proclamação remete aos sinais (semeion) que foram sete (contidos no chamado “Livro dos Sinais” nos primeiros 12 capítulos). Essas manifestações de Jesus (sinais) feitas fora, são resgatadas nesta conclusão para que a comunidade que crê dentro as proclame fora (v.30-31). Portanto, o sentido deste “livro” (Evangelho) é capacitar a comunidade para ser sinal e fazer com que creiam (dentro) e fora possam ter vida em seu nome.

Relacionando com as outras leituras

Neste Domingos de Páscoa, a primeira leitura é do Livro de Atos, e logo no primeiro versículo da leitura diz: “Pelas mãos dos apóstolos muitos sinais e prodígios foram feitos entre o povo” (At 5,12). O sentido da missão apostólica é ser sinal entre o povo. Já, no Livro de Apocalipse, escrito no meio da perseguição que antecedeu o Quarto Evangelho, se afirma: “Não tenhas medo” (Ap 1,17b). A missão, o envio do Ressuscitado, é superar o medo, ser igreja de e em saída e ser sinal, levando vida a todas as pessoas.

 

 

 

Dom. da Páscoa

Dia: 17 de abril de 2022

Primeira Leitura: At 10,34.37-43

Salmo: 117,1-2.16ab-17.22-23

Segunda Leitura: Cl 3,1-4

Evangelho: Jo 20,1-9

 

O Evangelho

Enquanto os sinóticos falam de mais mulheres que foram ao túmulo de Jesus, Jo apenas menciona Madalena, citada como protagonista também em Mt e Mc. No entanto, Jo não diz o propósito de sua visita ao túmulo. Talvez ela tenha ido lá para fazer o lamento que, de acordo com o costume da época, durava três dias no túmulo do falecido. De acordo com Mc e Lc, as mulheres foram ao túmulo para ungir o corpo de Jesus.. De acordo com Mt, para visitar o túmulo, que era guardado pelos guardas. Na história narrada por Jo, há um duplo movimento: Madalena corre do túmulo até os discípulos (v.1-2), Pedro e o outro discípulo correm em direção ao túmulo (v.3-4). A vinda de Pedro ao túmulo de Jesus também é confirmada por Lc 24,12 e está relacionada com a visita das mulheres, atestada pela tradição sinótica. Jo, portanto, relata um fato autêntico, mas dando ênfase à figura do discípulo amado pelo Senhor.

Existem desarmonias dentro das duas unidades narrativas: a) no v.1 Maria Madalena visita o sepulcro sozinha; mas no v.2 diz aos discípulos: “não sabemos onde (= o Senhor) puseram”; b) do discípulo dileto é dito com ênfase que “ele viu e creu” (v.8), contradizendo a sentença causal do v. 9 onde é dito que ambos os discípulos não tinham ainda entendido as Escrituras.

A historicidade da vinda das mulheres postula também a dos discípulos, pelo menos de alguns. A menção dos dois discípulos, lembrados juntos também durante a última ceia para a denúncia de Judas (13,23-25) e para a pesca milagrosa (c. 21), prova a amizade entre eles. Mas alguns detalhes do presente episódio parecem implicar uma certa emulação entre os dois, o que provavelmente reflete alguma tensão entre os ambientes petrino e joanino. Também foneticamente a prioridade do outro discípulo é enfatizada com proedramen e prōtos v. 4 e 8, mas sobretudo no decorrer da história. Contudo, Pedro não é descrito como uma figura contrastante.

Os dois discípulos vão ao túmulo com pressa, atitude bem compreensível dada a circunstância; Maria também “correu” (v.2). A anotação de que os discípulos correm juntos serve apenas para preparar a narrativa que se segue.

v.1-2 A indicação cronológica do primeiro dia da semana concorda com os sinóticos; mas a expressão “quando ainda estava escuro” não concorda com a notação de Mc, “ao nascer do sol” (16,2). A escuridão (skotias) é uma característica do estilo joanino. Possivelmente Jo pretende aludir simbolicamente à escuridão na qual os discípulos e discípulas estavam tateando por causa da ausência de Jesus. Pela primeira vez em Jo “o outro discípulo” é identificado com o discípulo amado por Jesus (v.2), que provavelmente representa a testemunha na origem da tradição do quarto evangelho.

v.5-7 Os panos de linho deitados (keimena ta othonia) onde o corpo foi colocado indicam que Jesus não poderia ser contido pelos “laços da morte” (Sl 116,3). O sudário (v.7) consistia em um pedaço que envolvia a cabeça do falecido, para evitar que a boca se abrisse. “Enrolado” traduz entetyligmenon, significando que a mortalha tinha mantido a forma da cabeça de Jesus. No entanto, os dois discípulos perceberam que o corpo de Jesus não havia sido roubado, porque os ladrões não se preocupariam em despir um cadáver antes de removê-lo da tumba.

v.8-10 “o outro discípulo, que entrou na tumba, viu e creu” (v.8). O uso absoluto de “ver e acreditar” destaca o tema da fé em todo este capítulo. Do v. 9 entretanto não parece que o discípulo amado veio imediatamente para uma fé completa. O verbo aoristo episteusen (acreditou), pode significar “começou a acreditar”. Era de uma fé inicial, talvez baseada no “sinal” da pedra removida, da presença das vestes funerárias, do sepulcro vazio. O discípulo, espantado com a ausência do corpo de Jesus, não entende, ainda não sabe que o Senhor ressuscitou. Isso explica a reserva do versículo seguinte. “Eles ainda não tinham compreendido a Escritura que diz: Ele deve ressuscitar dos mortos” (v.9). A frase implica a ignorância da Escritura em um sentido global, mas com referência particular ao Salmo 16,9-10 e a Oseias 6,2.

Pedro verifica o estado dos eventos na tumba, que – no modo de ver do evangelista e no horizonte de pensamento daquela época – é extremamente importante para a questão da ressurreição: as pistas levam a concluir que Jesus ressuscitou.

No v. 5, também deve ser notado que o discípulo se inclina para dentro do sepulcro: esta é a situação de quem ainda não quer entrar. O principal fato é que o discípulo vê (blepei) os panos caídos no chão. Sob o aspecto narrativo está uma progressão intencional: Maria vê a pedra retirada do túmulo (v.1b), o outro discípulo vê os panos no sepulcro, finalmente Pedro observa (theōrei) os panos e a mortalha, dobrados e deitado à parte (v.6-7). O leitor é progressivamente informado do significativo estado de coisas.

v.6-7. Pedro, que seguia o outro discípulo (akolouthōn) aqui representa seguir materialmente, (18,15), entra na tumba e examina tudo atentamente. Ele também vê não só os panos, mas também o sudário, que foi colocada sobre a cabeça de Jesus. Mas a forma de encontrar os objetos e a disposição das coisas encontradas revelam uma intenção particular do narrador.

É natural a comparação deste evento com a revivificação de Lázaro. Na descrição de Lázaro saindo da tumba está também mencionado o sudário, com o qual “seu rosto estava envolto” (11,44). Objetivamente, no entanto, se impõe ao leitor a comparação: Lázaro chamado de volta à vida terrena deve ser libertado das ataduras, Jesus que realmente ressurge realmente se liberta delas e as deixa como um sinal de sua ressurreição.

Relação com os outros textos.

O discurso de Pedro em At é uma síntese do anúncio pascal: a pregação do Batista, o batismo de Jesus, seu ministério público assinalado pela luta contra o mal, a crucifixão e ressureição, as aparições pascais aos discípulos e discípulas e a missão direcionada ao mundo inteiro.

 

Domingo de Ramos
Dia: 10 de 04 de 2022
Primeira Leitura: Is 50,4-7
Salmo: 22/21,8-9.17-18a.19-20.23-24
Segunda Leitura: Fl 2,6-11
Evangelho: Lc 22,14 -23,56

 

O Evangelho

O Domingo de Ramos, ao mesmo tempo que encerra a Quaresma, inicia a Semana Santa. A entrada de Jesus em Jerusalém conclui a grande “viagem” de Jesus a Jerusalém (Lc 9,51–19,27), que é o centro do evangelho de Lucas. Trata-se do “caminho de Jesus”. A narração da entrada de Jesus em Jerusalém está presente em todos os evangelhos canônicos (Mt 21,1-9; Mc 11,1-10 e Jo 12,12-19).

O trecho de hoje inicia-se com a afirmação de que Jesus “aproximou-se de Betfagé e Betânia, junto ao monte chamado das Oliveira” (v. 29. cf. Zc 14,4). Deste ponto intermediário entre as duas localidades citadas, Jesus “enviou dois discípulos” (v. 29). Lucas usa o verbo apostellō, que no Terceiro Evangelho é frequentemente utilizado para “enviar em missão”: 4,18.43; 7,20,27; 9,2.48.52; etc. Os discípulos enviados aqui não são nomeados. O fato de serem dois liga-se à determinação de Dt 19,15, que expõe as condições para que o testemunho de alguém seja válido. Assim também em Lc 9,30; 24,4; At 1,10.

Enquanto a multidão chega a pé em Jerusalém para festa da Páscoa, Jesus entra montado num jumento. Tal atitude evoca novamente o profeta Zacarias: “Ele é justo e vitorioso, humilde, montado em um jumento, num jumentinho, filho de jumenta” (Zc 9,9). O cuidado em descrever o animal sobre o qual Jesus monta em sua entrada na cidade não é um detalhe secundário. Um rei guerreiro e conquistador entraria montado em um cavalo ou uma égua que, no mundo antigo, eram animais de guerra. Neste caso, Jesus teria se apresentado como um imperador ou um governante militar, que exerce o poder como um ditador e busca a guerra. Diferentemente, Jesus opta por entrar na cidade montando um jumento. O passeio por Jerusalém sobre este animal fazia parte do ritual de entronização de um monarca (cf. 1Rs 1,38-40), para simbolizar que se trata de um rei que vem trazer a paz, um rei que caminha com o povo sobre o qual passa a governar. Em outras palavras, toda a narração do evangelho evoca a esperança salvífica messiânica.

O evangelista enfatiza o papel desempenhado pelos apóstolos na manifestação: eles não apenas pegam o jumentinho, mas estendem sobre ele suas capas e fazem Jesus sentar-se.

Não deixa de estranhar o fato de que eles (quem: os discípulos? as pessoas da multidão?) “estendiam suas vestes no caminho” (v. 36). Que significa tal gesto? Em 2Rs 9,13, temos um paralelo exato, no relato da proclamação de Jeú como rei do Israel do Norte. Novamente, portanto, temos um gesto que equivale a anunciar e reconhecer que Jesus é rei. O povo parece compreender logo o significado. O evangelista, porém, acrescenta outro elemento: “Toda a multidão dos discípulos começou, cheia de alegria, a louvar a Deus em alta voz por todos os milagres que tinham visto” (v. 37). Das pessoas ao redor, surge um louvor a Deus; todavia, a motivação está nos milagres realizados por Jesus durante a sua atividade anterior na Galileia e a caminho de Jerusalém.

Lucas omite a aclamação em hebraico: “Hosana!” e a referência ao reino de Davi (cf. Mc 11,10), e transforma a aclamação final em uma referência à paz e à glória, repetindo as palavras utilizadas antes, no relato do nascimento de Jesus, em 2,14: o que anteriormente era proclamado pelos anjos, agora é cantado pelo povo, mas com uma mudança explícita: “paz no céu [não mais na terra] e glória nas alturas” (v. 38). Tal mudança acentua ainda mais o que já fora afirmado em 2,14: a verdadeira paz não é a Pax Romana, e sim a que Jesus traz; a verdadeira glória não pertence ao imperador, mas a Deus. Por outro lado, antecipa também o lamento de Jesus por Jerusalém, em Lc 19,42-44: a cidade ignora a proposta de paz e a consequência é a guerra.

Proclamar Jesus rei é extremamente perigoso e trará uma violenta reação dos romanos. Sabedores disso, os fariseus, que anteriormente aconselharam Jesus a agir com prudência (13,31), agora pedem que ele repreenda seus discípulos (v. 39). Jesus responde com um provérbio: “se estes se calarem, as pedras gritarão” (v. 40; retomando Hab 2,11). Trata-se de uma ameaça velada, pois não se manda o profeta, a discípula e o discípulo calarem a boca (Am 2,12b; 7,12-13).

Cabe, por fim, perguntar: O que esses versículos devem provocar nos leitores de Lucas? Em primeiro lugar, o discernimento crítico para discernir se o projeto de nossos governantes (principalmente aqueles que se apresentam em nome de Deus) conduzem à paz e à vida, ou à violência e à morte. O verdadeiro Messias é humilde, manso e reconstrói a sociedade por meio do diálogo, do acolhimento e dos direitos de todos (saúde, moradia, emprego, salário justo, alimentação etc.).

Mas também deve levar à consciência da missão: a boa-nova está agora nas mãos da Igreja, das discípulas e dos discípulos. São eles que conduzem Jesus a Jerusalém e o “conduzem” até os confins da terra (At 1,8).

 

5º Domingo do Tempo Quaresma
Dia 03 de Abril de 2022
Primeira Leitura: Is 43,16-21
Salmo: 125,1-6
Segunda Leitura: Fl 3,8-14
Evangelho: Jo 8,1-11

 

O Evangelho

O tema deste domingo poderia ser chamado de “a volta dos pecadores e a novidade de Deus”.

O relato comumente chamado de “a mulher adúltera” (Jo 8,1-11) parece que originalmente não era do evangelho de João, mas foi colocado aqui bem mais tarde. Uma leitura atenta do quarto evangelho notará que se quebrou a lógica da narrativa em relação ao que vem antes e depois do referido texto. Fica evidente que a perícope foi interpolada de forma um tanto artificial. Alguns estudiosos julgam que o texto tem características lucanas e que o mesmo foi intercalado no evangelho de João por volta do século IV, quando a Igreja recebeu muitos adeptos oriundos do paganismo. Gente que, muitas vezes, tinha uma vida moral aberta. Os cristãos mais conservadores ficavam furiosos, pois não queriam conviver na mesma comunidade com adúlteros que aderiam ao evangelho. Já outros, descontentes com este espírito moralista que freava a missão, valeram-se então, de um texto, provavelmente lucano, e o intercalaram no evangelho de João. Assim resolveram problemas concretos de comunidades onde o quarto evangelho era mais conhecido.

No AT a lei era rígida e não conhecia misericórdia. O casal adúltero, pego em flagrante, devia ser apedrejado (Lv 20,10; Dt 22,22). Mas no caso da mulher adúltera, os escribas e fariseus deixaram o homem livre. Aplicaram a lei do AT conforme suas conveniências. Aliás, os escribas desenvolviam suas tradições, onde eles aplicavam as leis do Pentateuco à realidade cotidiana. Como todos os escribas eram homens, foram brandos com o homem adúltero, que nem sequer é mencionado, mas duros com a mulher.

Jesus não entra na lógica dos autointitulados guardiões dos bons costumes. Ele mostra que 1) ninguém tem o direito de julgar os outros e que 2) antes de tudo, é preciso analisar-se a si mesmo, pois ninguém está sem pecados. Talvez o pecado dos doutores e fariseus fosse mais grave do que o pecado da adúltera. Seu pecado era a arrogância de se julgarem perfeitos e condenar os outros. Eles, com suas tradições, proibiam que as mulheres administrassem seus bens, o que obrigava muitas viúvas a se prostituírem para não morrer de fome. Jesus ensina também que devemos alegrar-nos com quem volta, principalmente os que estão mais distantes, como também se lê no relato do filho reencontrado (Lc 15,11ss).

Neste domingo urge refletir sobre a volta de todos os extraviados e a novidade de Deus, que está pronto para receber os pecadores de braços aberto. Ao mesmo tempo refletir que todos precisam olhar com humildade para dentro da própria vida, sem condenar a ninguém e ser imparcial diante dos fatos evitando o machismo na questão moral. Alegrar-se com a volta de um irmão, ou irmã que se aproxima da comunidade em busca do perdão e ser apoio sem jamais atirar pedras. Neste ponto, ainda hoje, há muitas falhas nas comunidades cristãs que muitas vezes estão mais propensas a condenar do que a se alegrar e apoiar quem volta depois do erro.

Relacionando com as outras leituras

Is 43,16-21: parte do povo de Jerusalém está no exílio da Babilônia, como fruto de políticas desastradas e da idolatria. Mas agora, Deus, por meio do profeta, por volta de 550 a.C., consola os exilados, lembrando-lhes a libertação de outrora do Egito. Novamente Deus estará com seu povo e, como então conduziu o povo por meio do mar, agora irá conduzi-lo pelo deserto, lugar inóspito. Deus está com seu povo nesta nova libertação. Deus, na alegria acompanha seu povo na volta.

Fl 3,8-14: em Filipos, depois de Paulo, passaram missionários judaizantes, induzindo os féis ao rito da circuncisão e observância de Lei. Paulo mostra que tudo isto já não tem mais nenhum valor. Ele foi encontrado por Jesus, por isto, todo o passado da observância da Lei, perdeu seu sentido. Sua justiça já não é a da Lei, mas a da fé em Jesus Cristo. Por isto Paulo corre, pois em Cristo o fiel nunca está pronto. Conversão é um processo que só termina na morte. A conversão, para Paulo é, antes de tudo, mudança de perspectiva. Bem mais do que prática de obras, permitir que a graça de Cristo entre na vida e a transforma.

 

 

 

Quarto Domingo da Quaresma
Dia 27 de Março de 2022
1ª Leitura – Js 5,9a.10-12
Salmo – Sl 34/33,2-3.4-5.6-7
2ª Leitura – 2Cor 5,17-21
Evangelho – Lc 15,1-3.11-32

O Evangelho

O Evangelho deste domingo se apresenta dentro de um conjunto de “três parábolas do que foi perdido” (“A ovelha perdida” em 15,3-7; “A moeda perdida” em 15,8-10 e “O filho perdido” em 15,11-32), embora a leitura indicada pule a primeira parábola, ficando as últimas duas (especialmente a terceira que é mais extensa e, de certa forma, canaliza o sentido das duas primeiras). Em 15,1-2, apresenta a introdução, ou o contexto político-teológico-pedagógico em que se apresentam as parábolas. Ali há uma tensão entre dois grupos: um excluído e discriminado que está na mesa com Jesus (“todos os publicanos e pecadores”); o outro que rotulava, discriminava e excluía, formado por fariseus e escribas. O versículo 15,3 indica que se trata de parábolas, isto é, composições simbólicas de caráter pedagógico.

O exemplo das mulheres (15,8-10)

A parábola não trata apenas de uma mulher, que perde uma das suas dez moedas e ilumina e varre a casa em sua busca (15,8), mas do relacionamento com “as amigas” (fílas, isto é, “amadas”) e “vizinhas”, com quem se alegra (15,9). Lucas reconhece que as mulheres foram companheiras na missão, administradoras de bens e financiadoras do movimento de Jesus (8,1-3). As mulheres também eram discriminadas pelos defensores da sociedade e da fé excludente. Jesus convida a seguir o exemplo das pessoas por eles discriminadas e excluídas. Convida a iluminar o espaço vital – a Casa Comum – e varrer os cantos esquecidos e abandonados, pois, então, haverá grande alegria para todas as pessoas amadas e todas as que moram ao seu redor (15,10).

O reencontro com o filho perdido

Este texto é comumente conhecido como a “Parábola do Filho Pródigo”, mas aqui fica evidente que a ênfase, como nas outras parábolas, está no filho perdido que foi encontrado. As palavras “perdido/a” (apololós/apólesa) e “encontrado” (eúron/euréte), aparecem nas três parábolas como um refrão: “encontrei minha/meu…que havia perdido” (15,6b.9b.24b). No entanto, nesta última parábola o “refrão” é dito duas vezes. A primeira, no v. 24ab, quando o filho retorna: “Porque este filho meu estava morto e voltou a vida (do verbo anaxao, no sentido de voltar do pecado), estava perdido e foi encontrado” (tradução própria). A segunda, após a reclamação do irmão, no v. 32bc: “…estava morto e vive (aqui é usada diretamente a palavra vida exen), e perdido e foi encontrado”.

O paralelo dialético é evidente: o irmão mais novo perde tudo “vivendo de forma extravagante/licenciosa” (cf. 15,13b). Depois de perder tudo, passar fome e perder também a dignidade, assume seus pecados e pensa em ser como um dos trabalhadores assalariados (mistoi) em 15,19; embora ao falar com o pai diga que ser tratado como quem serve sem esperar recompensa (doulous). Em 15,29, o filho mais velho, se apresenta como aquele que “durante anos” serviu (douléuo) e afirma que “nunca deixou passar/negligenciou um mandamento” (usando a palavra dos mandamentos da lei, entolén), no entanto, nunca pode “celebrar com os amigos” (filón…eufratô).

Assim, no final se estabelece o contraponto entre aquelas pessoas pecadoras que sentavam na mesa com Jesus, são o motivo da alegria, e quem não consegue participar da celebração na mesa da vida, porque – embora tenha servido com afinco – não entende a festa do reencontro e da alegria.

Relacionando com as outras leituras

A leitura do Livro de Josué nos fala também de comensalidade. O povo que tinha superado a escravidão e opressão do Egito, podia finalmente sentar na mesa pascal. Este povo em seu processo de libertação não é mais dependente do maná, mas pode se sustentar e construir a vida. Assim o texto do Evangelho indica que a superação da discriminação, do preconceito e da exclusão, permite que a mesa eucarística e a sociedade sejam para todas as pessoas. Na Segunda Carta aos Coríntios o tema é a reconciliação, isto é, o reencontro promovido por Cristo que, não tendo pecado, acolhe pessoas pecadoras fazendo delas “novas criaturas” e promovendo uma nova justiça.

 

 

 

 

Terceiro Domingo da Quaresma
20 de março de 2022
Primeira Leitura: Ex 3,1-8a.13-15
Salmo: 103/102,1-4.6-8.11
Segunda Leitura: 1Cor 10,1-6.10-12
Evangelho: Lc 13,1-9

O Evangelho

Os dois episódios relatados em 13,1-5 são encontrados exclusivamente em Lucas. O tema central é constituído pelo convite ao povo de Israel a converter-se acolhendo a ocasião do perdão que Deus oferece àqueles que aderem ao Evangelho. Os dois episódios tristes narrados no início do capítulo (v.1-5), que servem como uma introdução à parábola a seguir (v. 6-9), formam uma unidade literária de caráter apotegmático, escrita de forma simétrica: a primeira parte (v. 2-3) corresponde à segunda (v. 4-5); ambas incluem um logion quase idêntico de Jesus (v. 3-5).

Há uma ligação lógica entre as duas perícopes (v.1-5. 6-9), que ilustram os dois elementos essenciais da conversão: romper com o pecadodar frutos. Através da boca de João Batista, Lc havia sublinhado como a conversão deve ser seguida pelos frutos (3,8.10ss.). A novidade do evangelho emerge nos v.8-9 da parábola, onde Jesus destaca a paciência do dono e a iniciativa preveniente do agricultor, para aludir à misericórdia de Deus, que dá salvação por meio de sua missão.

Lc apresenta Jesus reagindo à notícia das mortes na cidade no clássico estilo profético: os desastres são apresentados como exemplos de alerta para seus ouvintes. “Por terem sofrido tal sorte”: o “por” traduz uma expressão sugerida por hoti (“porque eles têm imediatamente esse destino”). Na piedade popular (com base em promessas deuteronômicas, cf. Dt 28-30) os desastres foram interpretados como uma punição pelos pecados (cf. Jó 4,17; Ez 18,26) e essa convicção se reflete em Jo 9,2-3, bem como em algumas das curas descritas por Lc (p.ex. 5,20-24). Jesus não contesta a equação pecado-punição, mas apenas se pergunta se os pecados deles foram piores do que os dos outros. As pessoas que morreram não mereciam morrer mais do que os outros. De uma morte repentina e violenta não se pode inferir a gravidade do pecado. Na verdade, o próprio Jesus irá encontrar uma morte que terá toda a aparência de um castigo pelos pecados. Mas o que o Messias quer dizer é que a própria morte, com o julgamento concomitante de Deus, está sempre muito perto. Isso pode acontecer enquanto alguém está realizando um sacrifício ritual. Isso pode acontecer enquanto a pessoa está passando por baixo de uma torre. E quando chega tão de repente, não há mais tempo para se converter. A conversão a que chama Jesus não consiste em apenas evitar o pecado, mas é uma aceitação da visita de Deus na proclamação de seu reino.

Para o/a leitor/a, porém, a notícia dessas mortes serve para lembrá-lo/a de que o próprio Senhor está inexoravelmente se dirigindo para a cidade em que essas terríveis coisas podem acontecer facilmente.

Particularmente interessante é o uso que Lc faz da tradição da figueira (13,6-9). Mateus e Marcos descrevem Jesus encontrando uma árvore de figos que não dá fruto. Mas em Lc este encontro é uma parábola que cumpre claramente a função de interpretar esta parte de sua história. A árvore não foi cortada sumariamente. Ele ganha mais um ano, apesar de já ter tido tempo de dar frutos. O encorajamento para os ouvintes de Jesus, é que o Messias ainda está a caminho da cidade; há ainda há tempo para dar frutos a ele. A ressalva é que, se não o fizerem, eles serão certamente cortados. Com esta parábola, a necessidade urgente de conversão é reafirmada.

A figueira estéril simboliza a falta de frutos por parte do povo judeu. Há ameaça de condenação escatológica, isto é, de exclusão do reino, se ele não se apressar em se converter. No entanto, o adiamento do corte da planta indica que a resipiscência ainda é possível. No contexto de Mt e Mc, o veredicto divino já foi pronunciado e é definitivo. De acordo com Lc, no entanto, Jesus com sua atividade ministerial concedeu ao povo de Israel uma última oportunidade de penitência e conversão. Era, no entanto, essencial aproveitar o momento certo (kairós), constituído da sua presença e pregação.

Jesus toma o exemplo de dois eventos trágicos para reiterar a urgência da decisão pela conversão. Segundo a tradicional tese da retribuição do pecado com um castigo, os ouvintes de Jesus viam nestes eventos a punição divina sobre os pecadores e o fato de alguns serem poupados os tranquilizava e confirmava sobre sua justiça. Jesus rechaça esta visão simplista e admoesta todos ao arrependimento das próprias culpas, de outra forma o juízo divino será inexorável. Na mesma linha, deve ser lida a parábola da figueira estéril.

Relação com as outras leituras

A revelação do nome de YHWH, na 1ª. Leitura, aparece ao lado da reiterada admoestação à conversão descrita em na 2ª. Leitura.  Deus se faz conhecer como o Deus da compaixão e não da punição e da vingança.

As três leituras lançam luz sobre o senso da leitura da história segundo o Espírito: Deus é o mesmo o tempo todo e ama os seres humanos de todos os tempos, mas das pessoas de todos os tempos espera uma resposta correspondente. Esse é o sentido da metanoeó, conversão da qual fala Jesus em Lc.

 

 

Segundo Domingo da Quaresma
Dia: 13 de 03 de 2022
Primeira Leitura: Gn 15,5-12.17-18
Salmo: 27/26,1.7-8.9abc.13-14
Segunda Leitura: Fl 3, 17-4,1
Evangelho: Lc 9, 28b-36

 

O Evangelho

O evangelho de hoje começa afirmando que Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago. A escolha de três discípulos para que presenciem um evento importante deve ser interpretada à luz da norma legal formulada em Dt 19,15: Uma só testemunha não basta… só é válida quando for feita por duas ou três testemunhas. Em outras palavras, os discípulos foram escolhidos para que seu testemunho fosse válido, conforme o requerido pela Torá. Nos evangelhos sinóticos, estes três são os protótipos dos discípulos, não apenas do grupo dos doze, mas também de todos os tempos.

Lucas é o único evangelista que dá grande destaque à oração de Jesus. Antes e depois de algo importante, Jesus reza: enquanto cura (5,16), antes de escolher os doze apóstolos (6,12) e antes de ensinar seus discípulos a rezar (11,1-2). Não é de estranhar que Lucas seja o único evangelista a dizer que Jesus se transfigura durante sua oração. A oração de Jesus é símbolo de comunhão: o poder de Jesus para operar milagres procede do Pai.

Dois detalhes diferenciam o relato de Lucas daquele de Marcos. Em primeiro lugar, como já vimos, Lucas enfatiza que a mudança ocorre enquanto Jesus estava rezando; Marcos dá ênfase à roupa (Mc 9,3), enquanto Lucas destaca a mudança no rosto de Jesus: “A aparência do seu rosto ficou diferente, e sua vestimenta, branca fulgurante” (v. 29). Deste modo, Lucas faz uma antecipação das aparições do Ressuscitado.

Como nos demais sinóticos, os dois homens que aparecem conversando com Jesus são identificados como Moisés e Elias. Moisés foi o grande mediador entre Deus e seu povo. Segundo a tradição bíblica, sem Moisés, o povo de Israel e sua religião não teriam existido. Elias, por sua vez, foi o profeta que salvou essa religião em seu maior momento de crise. Sem Elias, toda a obra de Moisés teria caído por terra. O encontro dos três revela que Jesus dá continuidade ao projeto de liberdade, fraternidade e justiça iniciado por Moisés e atualizado por Elias e pelos demais profetas.

Outro detalhe exclusivo de Lucas é o assunto da conversa entre os três homens: “Falavam do êxodo de Jesus, que estava para consumar-se em Jerusalém”. Várias edições da Bíblia traduzem a palavra grega êxodos por “morte”. Esta, no entanto, é uma tradução (e interpretação) errônea. Na verdade, este “êxodo” é a passagem de Jesus deste mundo para o Pai, isto é, a ascensão. Isso condiz plenamente com o conjunto do Evangelho de Lucas, o único a narrar a subida de Jesus aos céus, relato repetido e ligeiramente modificado no início dos Atos dos Apóstolos (At 1,9-11). O termo “êxodo”, no AT, é ligado diretamente a Moisés, que conduziu Israel para a liberdade e para a Terra Prometida. Por outro lado, também Elias fez seu êxodo pessoal e foi levado aos céus, conforme o espetaculoso relato de 2Reis 2. Por todas essas ligações com o AT, Lucas serve-se da palavra “êxodo” para definir a missão de Jesus junto ao seu povo.

Em Lucas, somente quando Moisés e Elias vão se afastando é que Pedro intervém e chama Jesus de epístatēs. Esta palavra, exclusiva de Lucas em todo o NT, equivale a “chefe, superior” e, portanto, acentua o sentimento de respeito e admiração. No Terceiro Evangelho, ela aparece sempre nos lábios dos discípulos (5,5;8,24.45;9,33.49) ou de suplicantes (17,13). Mesmo tratando Jesus com tanta deferência, tal como nas versões de Marcos e Mateus, Pedro não sabe o que diz: ele só pensa em eternizar aquela situação de algum modo celestial.

“Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias”. A proposta de colaboração de Pedro coloca Jesus e seu projeto messiânico na linha dos projetos de libertação do AT: sob Moisés, a libertação de Israel veio com a morte dos inimigos; Elias, literalmente, ardia de zelo reformador e violento. Pedro vê na manifestação uma oportunidade de colocar a missão de Jesus a serviço de ideais de violência e poder na restauração de Israel. Nesta perspectiva, compreende-se mais profundamente por que Lucas afirma que Pedro falava assim “sem saber o que dizia”.

Dá-se então a teofania: “formou-se uma nuvem e os envolvia; então temeram ao entrarem na nuvem”. Deus se manifesta na nuvem e nas palavras. A nuvem é símbolo da presença divina (Ex 40,34-38). As palavras de Deus recordam as do batismo: “Tu és o meu filho amado, em ti me comprazo” (Lc 3,22). Agora as palavras não se dirigem a Jesus, mas aos três discípulos: “Este é o meu Filho escolhido. Ouvi‑o”. Lucas muda “amado” para “escolhido”, e acrescenta: “Ouvi‑o!”

A ordem dada pelo Pai está diretamente relacionada às palavras anteriores de Jesus, sobre seu próprio destino (Lc 9,22) e sobre o seguimento e a cruz de seus discípulos (Lc 9,23-27). Ou seja, o episódio da transfiguração não é contado para falar de um Jesus esbanjando raios de luz, mas para motivar os discípulos ao seguimento: “Se alguém quiser me seguir, tome a sua cruz dia após dia e siga-me” (Lc 9,23). Assim como acontece com Jesus, o destino da comunidade fiel não é o fracasso, mas a glória. A voz de Deus que continua ecoando do céu ensina-nos que seguir Jesus não é loucura, mas a atitude mais coerente com o Plano de Deus.

 

 

 

Primeiro Domingo do Tempo Quaresma

Dia 06 de março de 2022

Primeira Leitura: Dt 26,4-10

Segunda Leitura: Rm 10,8-13

Salmo: 90,1-2.10-15

Evangelho: Lc 4,1-13

 

O Evangelho 

O texto de Lc 4,1-13, mais que uma crônica histórica, deve ser lido, como uma interpretação teológica da pessoa de Jesus à luz do AT. Ninguém pode ficar 40 dias sem comer e só depois sentir fome. Jesus que era igual a nós, em tudo, menos no pecado (Hb 4,15), não suportaria todo este tempo sem se alimentar. O número 40 lembra os quarenta anos no deserto (Ex 16ss), como também Moisés no monte (Ex 24,18; Dt 9,9). As tentações não são um fato ocorrido num determinado dia. Antes, estamos diante de um fato teológico que recapitula a história do AT na pessoa de Jesus. Onde o velho Israel falhou, Jesus permaneceu fiel. Certamente ele não foi tentado uma única vez, mas como todos os seres humanos, enfrentou esta realidade durante toda a sua vida.

No batismo (Lc 3,21-22), Jesus refaz a caminhada do antigo povo que passou o Mar Vermelho (Ex 14). Nesta caminhada, como outrora, acontecem as tentações:

A primeira tentação lembra a fome e o maná do povo no deserto (Ex 16). Transformar pedra em pão é ter acúmulo de alimentos. Portanto, não se trata de fazer uma mágica, ou milagre. O antigo povo acumulou o maná que apodreceu (Ex 16,20). Jesus fiel a Deus, não quis acumular comida, pois ela é de todos. Ele, como ser humano (Jo 1,14), sentiu o que todas as pessoas sentem: garantir seu próprio bem-estar. Porém, ele colocou a vida de todos acima de seus interesses pessoais. Fidelidade a Deus não comporta egoísmo.

A segunda tentação, ser dono do mundo, também encontra paralelo no povo do deserto (Ex 18), quando Moisés se tornou um novo faraó, acumulando o poder, tornando-se assim opressor, pois sempre que um só manda, ou decide a sorte de todos, a opressão e as injustiças, começam. Jesus poderia dominar devido à sua lucidez e espírito de liderança, pois até queriam torná-lo rei (Jo 6,15). Mas se assim agisse estaria na lógica do opressor, que ele contradisse (Mc 10,42-45). Jesus quer nova maneira de exercer o poder, isto é, que todos participem, pelo servir (Jo 13,1ss).

A terceora tentação reflete o bezerro de ouro (Ex 32). É o desejo de ter um deus fácil. Ao invés de se tornar servo de Deus, deseja Deus como seu servo para satisfazer seus interesses pessoais. É a ilusão de uma religião sem compromissos.

Estas três tentações marcam a história da humanidade: acúmulo de comida, acúmulo de poder e uma religião alienada, um deus do tamanho dos interesses dos fiéis. Hoje, muitos males que afligem o mundo têm suas raízes nestas três tentações: O acúmulo de bens que causa a fome dos menos favorecidos: salários exorbitantes que oneram o erário público e salários de fome para a maioria. A ânsia de domínio dos coronéis de certos partidos que compram seus eleitores, para depois impor seus interesses. O pior é que, em todas igrejas, numas mais, noutras menos, se prega um evangelho sem compromisso. Ou seja, se reduz a mensagem de Jesus a milagres, a fenômenos carismáticos, a moralismos, sem se importar com as injustiças sociais. Ou melhor, até se foge de tudo que aponta para a justiça social. Desta forma, as pessoas se iludem de serem muito religiosas, mas fogem dos compromissos da fé, transformando Deus, num ídolo.

Relacionando com as outras leituras

Dt 26,4-10: a memória da história do povo está na mente dos fiéis que nunca esquecem de que foi Javé que os libertou e deu terra. Isto resultou no credo histórico que era repetido todos os anos, ao colher os primeiros frutos. Assim, sempre se lembra que tudo vem de Deus e a ele pertence. Os frutos oferecidos depois eram doados aos levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas (vv.11-13). Deus é honrado pela gratidão, pela profissão de fé, pela adoração, mas principalmente pela partilha com os pobres. Todo culto adquire sentido, quando resulta em partilha com os menos favorecidos.

Rm 10,8-13: o credo cristão central é que Deus ressuscitou Jesus dos mortos, por isto, ele é o Senhor. Tal fé proclamada leva à universalidade: todos, judeus e gregos encontram em Deus o generoso salvador.

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO C

 

 

Oitavo Domingo do Tempo Comum
Dia 27 de Fevereiro de 2022
Primeira Leitura: Eclo 27,5-8
Segunda Leitura: 1 Cor 15, 54-58
Salmo: 92/91,2-3.13-16
Evangelho: Lc 6, 39-45

 

O Evangelho

O Evangelho segundo Lucas, ou “Evangelho para Teófilo”, assim como o Livro de Atos, tem o objetivo explícito de oferecer para as pessoas que se aproximavam ao cristianismo no final do século 1º, uma base “práxica” (isto é, da mensagem feita prática), daquilo que Jesus tinha significado (como realização das promessas ao Povo de Deus), o que tinha feito e anunciado (a partir da pregação de João Batista e a nova esperança gerada pela Cruz-Ressurreição). Neste Domingo estamos na parte do Evangelho dedicada ao que podemos chamar de “Atitudes de Jesus” (4,14-7,7). No momento em que este Evangelho foi sistematizado, a cidade de Jerusalém já tinha sido totalmente destruída (em 70 d.C.) e a fé cristã mostrava-se como o caminho para superar a violência, a desigualdade, a morte, a perseguição. Mas era preciso mostrar isso na prática. Teófilas e Teófilos deviam ser agentes de transformação e esperança para todas as outras pessoas. A partir daí é que devemos entender questionamentos como: “Como pode um cego, guiar outro cego?” (Lc 6,39).

O texto em si

O texto segue um conjunto de questionamentos, que é um recurso pedagógico para analisar a realidade: “Se vocês amam quem ama vocês, que recompensa terão? Também os pecadores amam quem lhes ama” (Lc 6,32); “Se emprestam para quem esperam receber, que recompensa terão? (Lc 6,34). No entanto, no versículo 39 se dá uma ênfase ao afirmar: “E lhes disse uma parábola…”. Na verdade o que se apresenta aqui é um método de avaliar a prática evangélica. A parábola anunciada só está no final: “É semelhante a um homem que edificou sua casa…” (Lc 7,48s). A parábola esta retirada da tradição de Mateus (7,22-29) onde também se insta à práxis do Evangelho. Lucas vai resumir a introdução de Mateus 7,22-24a, enfatizando de forma mais genérica a práxis evangélica com a frase: “Porque me chamam ‘Senhor, Senhor” se não fazem o que lhes digo?” (Lc 7,46).

Mas, de onde vem o conjunto de afirmações que estão em Lc 7,39-45? A afirmação do versículo 39 sobre “cego guiando cego”, encontra paralelo na tradição de Mateus (15,14); o versículo 40 onde se questiona se o discípulo pode ser maior que o mestre está em Mt 10,24; a hipocrisia de olhar a trave no olho de irmãos ou irmãs, nos versículo 41-42, está em Mt 7,3-5 (copiada quase que literalmente); e o critério de conhecer a árvore pelos seu frutos, nos versículo 43-44; está em Mt 7,16-18, ou pode ser de Mt 12,33; finalmente a afirmativa sobre o coração humano, está em Mt 12,35. Seriam estes pequenos trechos (chamados logia) recolhidos tanto pela tradição de Mateus e por Lucas? O fato é que Lucas os juntou em um só lugar. Por quê?

Lucas parece aplicar – como no caminho de Emaús – o método “ver, julgar e agir”. Primeiro apontando para o problema de não ver a realidade e a necessidade de perceber o contexto (v.39). O julgar aparece com a crítica a quem pretende ser mais que o mestre, quem julga as outras pessoas de forma preconceituosa e carece de autocrítica, quem não consegue avaliar os frutos de quem age em favor da maldade, ou de quem destila do coração palavras violentas, preconceituosas, ou ternas e cheias de bondade (v.40-45). O agir é apresentado a partir da crítica de quem acha que apenas falar “em Deus” ou “no Senhor” é suficiente para alicerçar a prática do Evangelho.

Relacionando com as outras leituras

Na leitura de Eclesiástico ou Sirácida, que tem a mesma preocupação pedagógica que Lucas, aparece a pergunta: “A quem foi revelada a raiz da sabedoria” (Eclo 27,6). De fato, Jesus revela uma sabedoria radical, que emerge da raiz, baseada no olhar aberto e profundo da realidade, o julgamento autocrítico e livre de preconceitos e a relação coerente entre o que se diz e o que se faz. O apóstolo Paulo usa da pergunta: “Onde está, ó morte, teu aguilhão? Onde está. ó reino dos mortos/hades/inferno, tua vitória?” (1 Cor 15,55). De fato, a sabedoria da morte-ressurreição permite um novo olhar e uma nova prática, onde o medo e morte não são mais as que motivam ou movem nossa prática, mas sim o poder da vida.

 

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS

LITURGIA DOMINICAL – ANO C

Sétimo Domingo do Tempo Comum

Dia: 20 de fevereiro de 2022
Primeira Leitura: 1Sm 26,2.7-9.12-13.22-23
Salmo: 103/102,1-2.3-4.8.10.12-13
Segunda Leitura: 1Cor 15,45-49
Evangelho: Lc 6,27-38

 

O corpo central do discurso tem como tema o mandamento do amor ilimitado. É uma composição parenética, que devido à precisão da forma e da estrutura parece um poema didático, com cunho sapiencial. As frases se sucedem na forma de dísticos perfeitamente equilibrados, de acordo com a lei do paralelismo bíblico.

É possível distinguir duas unidades literárias: v.27-35: o mandamento do amor universal; v.36-38: a prática da misericórdia na vida comunitária.

v.27-31 abre com as palavras: “Mas eu digo a vós que me escutais”. Esta frase, que marca um afastamento dos quatro “ai de vós” anteriores, expressa a autoridade do ensino que Jesus está prestes a propor. Os ouvintes são todos aqueles nomeados no v.17. O mandamento do amor é marcado por quatro imperativos: amem, façam o bem, abençoem, rezem (v.27-28). O tema dominante é destacado na primeira prescrição: “Amai os vossos inimigos”, que, como é explicado imediatamente, são aqueles que odeiam, amaldiçoam, caluniam. Não se trata apenas de adversários externos, hostis aos cristãos, mas também de inimigos pessoais internos comunidade. Jesus ordena aos discípulos e discípulas que respondam ao ódio com o bem, à maldição com bênção, à calunia com a oração.

Ao mandamento do amor, formulado com os quatro imperativos (v.27-28), Jesus menciona quatro exemplificações referindo-se a uma atitude mais profunda, que vem do coração, a fim de destacar a disposição de responder ao mal com o bem (v.29-30). “A quem te bater numa face, oferece também a outra” (v.29a). O/A discípulo/a deve estar disposto/a a não reagir à ofensa, mas sim receber uma ainda maior. “e a quem tomar o teu manto, não impeças de levar também a túnica”. Lc inverte a ordem de Mt. A expressão, no entanto, resulta mais lógica para o leitor helenístico: quem segue Jesus é convidado/a a dar também sua túnica a quem leva seu manto externo. Jesus, portanto, inculca a renúncia até mesmo aos próprios direitos e a não resistir ao mal com o mal. “Da a todo aquele que te pedir e não reclames de quem tirar o que é teu” (v.30).

A linguagem de Jesus é paradoxal e não deve ser entendida em um sentido regulatório. Ele não quer ditar regras de comportamento, mas indicar a atitude profunda do/a discípulo/a, que deve estar disponível a amar sempre, mesmo aqueles que o prejudicam. Obviamente não se trata de um mero sentimento de simpatia, mas de uma firme disposição para cumprir o preceito fundamental de evangelho, que envolve não apenas suportar o inimigo, mas o compromisso ativo de fazer o bem a ele. Com este amor universal e desinteressado é a realidade do reino que irrompe no mundo, para libertar a humanidade do egoísmo e do ódio.

A regra de ouro (v.31) conclui este primeiro ponto: a lei do amor não se limita a excluir o mal, mas implica diligência para fazer o bem ao próximo. Este ditado, relacionado à sabedoria, não deve ser considerado como um regateio. É o bem dos outros que é desejado. A reciprocidade deve ser entendida como objeto de esperança.

v.32-35. Destaque para o tom sapiencial do discurso. É composto por três proposições no modo condicional (v.32-34), que ilustram com outros exemplos como o/a discípulo/a com prática de amor ilimitado não busca seu próprio interesse e a retribuição, mas imita a bondade gratuita de Deus. Deste modo, o amor cristão assume uma especificidade diferente da “profana”, na medida em que não se volta sobre si mesmo, ele não faz cálculos: ele ama primeiro sem esperar retorno, e então se mostra semelhante ao amor de Deus para com o ser humano.

O logion final (v.35) é uma sentença normativa, formulada de forma quiástica, que sintetiza o sentido dos três exemplos anteriores e relembra, a título de inclusão, o tema fundamental enunciado no início da perícope (v.27). Apenas imitando a bondade universal de Deus, os discípulos e discípulas se tornam “filhos do Altíssimo”, porque “Ele é bondoso para com ingratos e maus” (v.35). Egoísmo não deve obscurecer a prática do amor autêntico: quem segue Jesus pratica um amor original e criativo que expressa a essência do evangelho, permitindo irradiar no mundo a misericordiosa bondade de Deus.

Os versos finais ilustram a prática de misericórdia, por meio do perdão (v.37) e a partilha de bens (v.38). Do tema do amor universal, passamos agora às normas evangélicas sobre conduta do/a discípulo/a nas relações interpessoais dentro da comunidade. O agrupamento de frases nos v.37-38 constitui um desenvolvimento do v.36; e são introduzidos com quatro verbos imperativos (dois negativos e dois positivos).

“Não julgueis…” (v.37) não tem um sentido legal, mas refere-se ao comportamento normal na vida diária que não deve criticar o próximo. “Não condeneis…”: Jesus comanda evitar avaliação negativa e estar aberto ao perdão (“perdoai…”) por ofensas pessoais, em imitação do Pai, que mostra misericórdia para com todos. Os três verbos no passivo krithēte, katadikasthēte, apolythēsesthe (não sereis julgados, … condenados, sereis perdoados) implicam Deus como agente.

“Dai e vos será dado…” (v.38):  a imitação do Deus misericordioso exige não só (negativamente) o perdão (v.37), mas também (positivamente) o dar.

A 1ª. Leitura, com os eventos relacionados a Davi e Saul, faz ver concretamente a magnanimidade de quem experimenta no cotidiano a presença do Senhor.

Sexto Domingo do Tempo Comum
Dia: 13 de fevereiro de 2022
Primeira Leitura: Jr 17,5-8
Salmo: 1,1-2.3.4.6
Segunda Leitura: 1Cor 15,12.16-20
Evangelho: Lc 6,17.20-26

O Evangelho de hoje pertence ao assim chamado “Sermão da Planície” (Lc 6,17-49), que equivale ao “Sermão da Montanha” de Mt 5–7. No trecho que lemos na liturgia, temos a versão lucana das bem-aventuranças. A palavra grega para “bem-aventurança” é macarismo. Trata-se de um anúncio de felicitação no qual se afirma que um determinado modo de viver faz com que a pessoa mereça ser feliz.

A bem-aventurança é um gênero literário bem conhecido na Bíblia, muito usada pelos profetas e pelos sábios: Is 30,18; 56,2; Dn 12,12; Pr 3,13; 8,34; Ecl 10,17; Sl 1,2; 2,12 ;17,5; 32,1.2; 40,5.

Há dois tipos de bem-aventurança. O primeiro é a bem-aventurança breve: apenas elogia um tipo de comportamento. Assim em Sl 2,12 e Ap 19,9. O segundo é a bem-aventurança longa: após elogiar o comportamento, explica qual a alegria que aquele comportamento trará. As bem-aventuranças do evangelho de hoje são do segundo tipo: os pobres são felizes, não porque são pobres, mas porque “deles é o Reino de Deus”; os famintos são felizes, não porque são famintos, mas porque serão saciados, e assim por diante.

A expressão “Reino de Deus” (v. 20) refere-se à realidade totalmente nova que tem início com a comunidade dos discípulos e das discípulas de Jesus. Esta realidade nova se prolonga na história até o fim dos tempos e tem sua plenitude na eternidade. Portanto, o/as discípulo/as ou fiéis são declarados felizes pelo seu encontro com a salvação de Deus que se revelou em Jesus (Lc 10,23-24; 11,27-28). Assim, não se trata de felicitação abstrata nem de um desejo de piedade religiosa, mas de uma declaração solene, feita com a autoridade e a força do Deus que age na história para efetuar sua justiça.

No Evangelho, os “bem-aventurados” são os pobres, os famintos, os aflitos, os perseguidos. Mas quem são estes? Segundo o termo bíblico, são os anawim, pessoas privadas de segurança material e social. É preciso repetir e salientar que tais pessoas não são “bem-aventuradas” por sua condição social precária, mas porque, com Jesus, Deus toma a defesa dos pobres, faz justiça a quem está privado dela, oferece uma esperança e um futuro a quem se acha sem futuro e sem esperança. Repetindo, os pobres são bem-aventurados, não porque são pobres, e sim porque deles é o Reino de Deus…

Em outras palavras, as “bem-aventuranças” de Jesus não abençoam nem consagram a situação dos pobres, dos famintos ou dos aflitos como condição ideal para acolher o Reino de Deus. Isto é, a pobreza, aqui, não deve ser tomada como consequência da renúncia aos bens materiais. Ler o texto do evangelho desta forma equivale a tornar-se cúmplice da injustiça e da prepotência humana. Aliás, a continuação do trecho lido hoje vai exatamente na direção de desmascarar tudo o que é egoísmo e falta de solidariedade. Lucas (e somente ele) acrescenta o contrário das “bem-aventuranças”. É o assim chamado “ai”, que pode ser considerado uma “mal-aventurança”. Trata-se de outro tipo de declaração, também frequente na Bíblia, caracterizado pela denúncia de um comportamento contrário à vontade de Deus e, normalmente, seguido do castigo correspondente: ruína, derrota na guerra, empobrecimento etc.

O “ai” ou “mal-aventurança” tem suas raízes nos cantos fúnebres, para lamentar a morte de uma pessoa, principalmente se a morte foi trágica. Assim, por exemplo, em 1Rs 13,30. Nos profetas, o “ai” é o principal modo de decretar a condenação de uma pessoa, de um grupo de pessoas ou de toda uma nação. Em Isaías 5, temos seis “ais” contra vários grupos que promovem e enriquecem com as injustiças. Por exemplo, Is 5,8-9: “Ai dos que acrescentam casas a casas [...] suas muitas casas serão reduzidas a ruinas”.

No evangelho de hoje, nos vv. 24-26, lemos quatro “ais”. Devemos notar que esses “ais” são exatamente o reverso das “bem-aventuranças” dos vv. 20-22: “bem-aventurados vós, os pobres” X “ai de vós, os ricos” (vv. 20 e 24); “bem-aventurados vós, os que agora passais fome” X “ai de vós, os que agora estais saciados (vv. 21 e 25), e assim por diante.

Diferentes da bem-aventuranças de Mateus, que são dirigidas na terceira pessoa (“aqueles que”), as bem-aventuranças (bem como os ais) de Lucas são dirigidas na segunda pessoa (“vós”). Além disso, há outra grande diferença, que fica bem evidente quando fazemos o confronto com os “ais”. Mateus é mais espiritual: “os pobres em espírito”; “fome e sede de justiça”; Lucas é bem concreto: “vós, os pobres (de recursos financeiros)”, “vós, os que agora passais fome (de comida)”.

Por outro lado, as “mal-aventuranças” não são maldições! A melhor interpretação é que são lamentações que trazem embutidas acusações e o anúncio do castigo. Muitas vezes, elas funcionam como um convite à conversão ou à mudança radical. Por isso, na boca de Jesus, as “mal-aventuranças” de hoje são uma advertência para a comunidade cristã: que ninguém se iluda com o sucesso fácil, a fama, o prestígio e a vida sem compromisso.

Em resumo, tanto as “bem-aventuranças” como as “mal-aventuranças” são um convite urgente dirigido à comunidade dos discípulos e das discípulas, para que se confrontem seriamente com a alternativa proposta por Jesus: ou com os “pobres”, para o Reino de Deus; ou com os ricos, na ilusão que leva à falência. Depois das bem e das mal-aventuranças, não há mais lugar para uma neutralidade tranquila ou uma falsa consciência cristã.

 

Quinto Domingo do Tempo Comum
Dia 06 de fevereiro de 2022
Primeira Leitura: Is 6,1-2a.3-8
Salmo: 138/137,1-2a.2c-3.4-5.7c-8
Segunda Leitura: 1Cor 15,1-11
Evangelho: Lc 5,1-11

 

O Evangelho

O texto de Lc 5,1-11 tem um paralelo próximo em Jo 21,1-11: a pesca milagrosa. De forma um pouco mais distante, tratando da vocação de Pedro e companheiros, tem paralelos em Mt 4,18-22 e Mc 1,16-20. Nestes dois últimos relatos se fala do chamado e dos barcos, mas não da pesca milagrosa. Com base em Jo 21,1-11, julgam alguns biblistas, que a perícope de Lc 5,1-11, na realidade, também reflete um fato pós-pascal que foi antecipado na história por motivos próprios de Lucas. O barco de Pedro é uma figura da Igreja que recebe o envio em missão: pescar homens. É nesta barca que se chama pessoas não perfeitas para assumir o compromisso e isto acontece, não nas sinagogas, nas liturgias, mas no mundo do trabalho. Destaca-se, também, o carisma de Pedro, com o ministério de coordenar esta missão, ouvindo a voz do mestre e sendo obediente a ela.

O presente relato relê a vocação de Pedro e de seus companheiros à luz da vocação de Isaías (6,1-8). Tanto o profeta como Pedro e os outros apóstolos fazem a experiência de Deus. Isaías no templo, pois era este seu mundo; Pedro e os companheiros, no lago, pois eram pescadores. Deus entrou na vida de cada um no seu próprio local de trabalho. Ambos, surpreendidos pela ação de Deus, reagem: Isaías se considera impuro, Pedro se sabe pecador e ambos se sentem inaptos. Mas depois da experiência da ação de Deus, mudam sua postura, assumem a vocação. Pedro tem a mesma reação de Isaías diante da ação de Deus que aqui se manifesta na pessoa de Jesus. Ambos se sentem indignos, mas ambos estão prontos a responder positivamente à vocação. Isaías diz: “Aqui estou! Envia-me (Is 6,8). Pedro e seus companheiros: “deixando tudo, eles o seguiram” (Lc 5,11).

Isaías e Pedro, assim como toda a Igreja, são chamados por Deus para a missão. Para tanto deve-se ouvir as palavras e orientações do mestre, mais do que confiar nas intuições humanas. Pedro era pescador experiente. Sabia que o tempo propício para a pesca era de noite. A ordem de Jesus lhe parecia sem sentido, mas diz: “confiando na tua palavra, eu vou lançar as redes” (Lc 5,5). Ou seja, a missão dos discípulos, quando apenas baseada na sua própria intuição, se torna estéril (pescaram a noite toda, sem nada conseguir – 5,4); ouvindo, porém, de forma obediente a palavra de Jesus, o milagre acontece. Reconhecendo a grandeza de Deus e a pobreza humana, está preparado o ambiente da vocação. Falta ainda a decisão: apesar da imperfeição dos chamados, a missão acontece como dom de Deus que os discípulos assumem na liberdade.

Todas as pessoas batizadas são vocacionadas, mas para que esta vocação se torne efetiva, precisam fazer a experiência da transcendência de Deus, como Isaías, como Pedro, Tiago e João. Precisam se dar conta de que a vocação vem dele e que só obedecendo as ordens divinas, podem realizar a missão, apesar de suas limitações. Isto exige discernimento e prontidão para se pôr a caminho. Isaías, depois da vocação, se tornou o grande profeta entre seus contemporâneos; Pedro e seus companheiros, deixaram suas barcas para seguir o mestre e levaram o evangelho aos povos de então.

Relacionando com as outras leituras

Is 6,1-8: Isaías fez experiência da transcendência de Deus no templo e ao mesmo tempo, reconheceu seu pecado, bem como o pecado do povo, do qual ele fazia parte (lábios impuros Is 6,5). A base de toda vocação é a profunda experiência de Deus e o conhecimento de si mesmo. Quem não experimentou a Deus e nem reconhece sua fraqueza, não desperta para o verdadeiro chamado.

1Cor 15,1-11: Paulo faz aqui o relato central da fé cristã: a ressurreição de Cristo e, por conseguinte, a ressurreição de todas as pessoas. Em Corinto se admitia a imortalidade da alma, mas havia um desprezo pelo corpo. Assim, acreditava-se na sobrevivência espiritual, mas não se admitia a ressurreição da carne. Ora, isto contradizia o dogma central da fé cristã: Cristo ressuscitou e esta é a garantia da ressurreição de todos. Nesta fé está toda a esperança cristã. Dali nasce também a vocação de Paulo.

 

Responsável por este trabalho

    Xavier Cutajar

            xacute@uol.com.br       http://xacute1.com

 

 

 

 

 

 

 

 

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