ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE FRANCISCANA

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL
ANO A

Dia: 02/08/2020

18º Domingo do Tempo Comum
Evangelho: Mt 14,13-21
Primeira Leitura: Is 55,1-3
Segunda Leitura: Rm 8,35.37-39
Salmo: Sl 144,8-9.15-16.17-18

Evangelho
Nos tempos do Novo Testamento esperava-se o Messias que realizaria tudo o que foi prometido no AT. Este, como Moisés, reconduziria o povo ao deserto para uma nova e definitiva versão do que no passado se realizou de forma precária. A teologia de Mateus mostra que tudo isto acontece na pessoa de Jesus.

Há, nos quatro evangelhos, seis relatos da multiplicação dos pães

        • Mt 14,13-21; e 15,32-39;

        • Mc 6,30-44; e 8,1-10;

        • Lc 9,10-17;

        • Jo 6,1-16.

Provavelmente seja um único fato recontado e reinterpretado em diversas ocasiões, principalmente nas celebrações eucarísticas das comunidades primitivas, quando se evocava esta multiplicação.

Depois do assassinato de João Batista (Mt 14,3-12) que fecha o AT, o novo povo segue Jesus, como outrora o povo no deserto, alimentado pelo maná (Ex 16), havia seguido Moisés. Além do maná, o relato tem por base o profeta Eliseu (2Rs 4,42-44) que, com vinte pães de cevada alimentou cem pessoas e ainda sobrou comida. Desta forma, Jesus superou o profeta, pois os pães eram apenas cinco, os comensais eram cinco mil, sem contar mulheres e crianças – maneira judaica de contar, detalhe só mencionado por Mateus. Jesus, como o novo Moisés, alimenta seu povo no deserto (Sl 78,19).

O texto tem como pano de fundo o AT, mas também reflete a ceia de Jesus. O gesto de tomar o pão, erguer os olhos, dar graças a Deus e repartir o pão, é uma referência à ceia eucarística (Mt 16,20). Os doze são os encarregados de distribuir o pão entre o povo. Eles são os que, na comunidade, celebram a eucaristia e alimentam o povo com a palavra e com a eucaristia. No sentido cristológico pode-se destacar Jesus como o realizador do banquete da salvação como em Is 25,6-12. O povo, pela eucaristia, alimenta-se do corpo de Cristo através das mãos dos apóstolos que agem em nome de Jesus. Assim, originalmente, este relato apontava para Jesus como o realizador definitivo dos sinais realizados pelo maná (Ex 16) e por Eliseu (2Rs 4,42-44), ainda ilustrados por Is 25,6ss, bem como 55,1-3. Mais tarde, porém, este interesse cristológico foi enriquecido pela celebração eucarística administrada pelos apóstolos nas comunidades.

Como outrora, por meio de Moisés, Deus alimentou seu povo no deserto rumo à terra prometida, dando-lhe o maná, agora Jesus, no deserto, alimenta o novo povo, comunidade messiânica, rumo à nova terra prometida, o Reino de Deus.
Nesta nova etapa, Jesus sente profunda compaixão do povo faminto. Esta compaixão, já demonstrada por Deus no AT, agora é o fio condutor da ação de Jesus. Nesta compaixão, mais do que milagre, está uma nova maneira de encarar o problema da forme: a responsabilização dos discípulos diante da fome. Ele pede o que a comunidade tem: cinco pães e dois peixes (5+2 = 7). Sete é o número da totalidade. Logo, a comunidade que coloca tudo em comum, resolve o problema de todos e ainda sobra. Os cinco mil alimentados são o símbolo de Israel, os primeiros saciados. E os doze cestos que sobraram são o povo da nova aliança, representados pelos doze apóstolos. A Igreja agora, continua na história, ao celebrar a eucaristia, a missão de multiplicar o pão para todos, não como um milagre, mas como o compromisso dos seguidores de Jesus que põem tudo a serviço de todos.
Relação com Is 55,1-3
O povo estava no Exílio e explorado. Isaías quer reanimá-lo, anunciando a volta a sua pátria. Quando o profeta fala de comer e beber com fartura quer dizer mais do que ter alimentos abundantes. Entende a realização plena das necessidades do ser humano. Aqueles que voltaram do Exílio para Israel, porém, não viram se realizar estas promessas de forma mágica. Antes, encontraram um ambiente desolador, resultado da destruição. Isto só se realiza, cinco séculos mais tarde na nova aliança, —pela ação de Jesus e de seus seguidores, quando estes se comprometem a viver a prática de Jesus.

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Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF
Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló
Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

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17º Dom. T. Comum
26/07/2020
Primeira Leitura: 1Rs 3,5. 7-12
Salmo: Sl 119,57+72. 76-77. 127-128. 129-130 (R.97a)
Segunda Leitura: Rm 8,28-30
Evangelho: Mt 13,44-52

A comunidade refugiada e o horizonte do Reino.

Antes de comentar o texto é bom lembrar que deve ser feito sob a ótica de uma comunidade de pessoas refugiadas que sobrevivem ao massacre, e destruição do Templo do ano 70 d.C. O gênero das parábolas é comum aos Evangelhos Sinóticos e foi usado como método pedagógico-sapiencial usado por Jesus para ensinar sobre o “Evangelho do Reino”. As parábolas que estão em 13,24-30.44-50 lhe são exclusivas desta comunidade. Assim, partindo da audição da tradição de Jesus em Marcos, faz sua própria reflexão.

O lugar da pedagogia parabólica neste Evangelho
Mt 13,44-52, segundo Kümmel, está dentro da “Proclamação do Reino de Deus na Galileia” (4,17-16,20; cf. Introdução ao Novo Testamento, p.123). As parábolas focam ali o sentido político-existencial do Reino num conjunto, não casual, de sete parábolas; inspiradas na Parábola do Semeador; 13,1-9, comum aos três Evangelhos sinóticos. Fazem o resgate de Mc 4 (incluindo a parábola do Grão de Mostarda e excluindo as parábolas da Lâmpada e da Semente; cf. Mt 13,10-23.31-32.34-35 e Mc 4.10-20.30-32.33-34) e acrescentam o material próprio nas parábolas do joio (13.31-32), do fermento (13,33, depois citada em Lucas) e nas três parábolas de Mt 13,44-50. Desta forma apresentam a perspectiva da comunidade, mostrando que a brutalidade da repressão não é compatível com a estratégica política do Reino (o corte antecipado do joio sempre cobra o preço de vidas inocentes), e a necessidade de paciência histórica da fermentação e transformação da realidade.

O Reino como opção político-existencial

G. Hendriksen, diz que à respeito da parábola do tesouro que “o quadro corresponde à vida (…) devido às guerras e incursões inimigas (…) às vezes se recorria ao método de sepultar suas posses mais valiosas (…)” (El Evangelio según San Mateo, p. 602). O projeto do Reino e tudo o que “sobrou” para a comunidade que busca condições de sobreviver à repressão e migração forçada. À experiência masculina se soma a sabedoria feminina! Uma marca inclusiva desta comunidade. A parábola da pérola, que segundo Hendriksen, pode se referir à esposa do Imperador Calígula, Lolia Paulina (famosa pelo seu uso), reforça a opção político-existencial de desprezar os “bens” do império em favor dos “valores” do Reino. A parábola da rede, segundo este mesmo autor, é uma adaptação da parábola do joio, no contexto da pesca na Galileia. Reforça a experiência histórica de que mesmo num mundo dominado pelo império, através do critério político-existencial do Reino, é possível discernir o horizonte final – dos anjos – onde a justiça alcança sua plenitude.
Nos últimos versículos (13,51-52), a expressão “entendeste/suneimi”, etimologicamente composta de “com/sun” e “enviar/heimi”, pergunta: “seguiremos juntas/os?”. A resposta, a partir dos elementos sapienciais-político-existenciais apresentados, é um rotundo: “Sim!”. Agora como família, reunida no espaço seguro do Pai, é possível discernir o novo e o velho (cf. Mt 9,16-17).

Relacionando com os outros textos
A oração de Salomão (1 Rs 3,7-12) que logo adiante ele não a seguiu (1 Rs 10,14-11,13), reforça a ideia da falsidade (fetiche) das riquezas dos impérios, que prometem o bem-estar de todas as pessoas; mas acabam beneficiando poucas, empobrecendo muitas e destruindo tudo. Descoberta que a comunidade de Mateus faz ao ver a morte e destruição provada pela repressão romana em 70 d.C. Romanos 8,28-30 apresenta a “mal interpretada” doutrina da “predestinação”, fazendo crer que pessoas nascessem para ser boas ou ruins. Para a comunidade de Mateus “predestinação” é a capacidade de se reconhecer como participante de um projeto divino de vida e transformação.

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL
ANO A

Dia: 09 de agosto de 2020
19º Domingo do Tempo de Comum
Evangelho: Mt 14,22-33
Primeira Leitura: 1Rs 19,9a.11-13a.
Segunda Leitura: Rm 9,1-5
Salmo: Sl 83,9ab-10.11-12.13-14 (R. 8)

Evangelho
O Evangelho deste domingo é continuação da multiplicação dos pães, lida domingo passado. Em sua narrativa, Mateus apresenta o êxodo do Messias: o mesmo Deus que libertou o povo do Egito agora age por meio de Jesus, o novo Moisés.
Nos vv. 22-23, Jesus obriga os discípulos a entrarem no barco, enquanto ele próprio se encarrega de dispersar a multidão. Após despachar a multidão, Jesus subiu ao monte, em particular, para rezar. Esta é a primeira vez, em Mateus, que Jesus se afasta para rezar. Ele o fará apenas mais uma vez, no Getsemâni, em 26,36-39.
É necessário perguntar por que Jesus afasta os discípulos da multidão e os envia à sua frente. A resposta parece estar nas expectativas da comunidade mateana: como os primeiros discípulos, os membros daquela comunidade esperavam um grande líder que os levasse a superar as crises. No trecho de hoje, isso está figurado nas forças contrárias ao barco de Pedro: as ondas e o vento. Este barco, sem dúvida, é a Igreja (não só a comunidade de Mateus, mas também a nossa), que é convidada a se afastar do desejo de um messianismo triunfante. Não é à toa que o episódio está inserido logo após a grandiosa multiplicação dos pães: a maravilha operada por Jesus poderia levar o povo a aclamá-lo como aquele esperado líder.
O fato de Jesus obrigar os discípulos a embarcar, ir à sua frente e aguardá-lo na outra margem (v. 22) equivale a um mandato missionário: no barco, os discípulos são uma igreja em saída, que sai do lugar seguro e enfrenta as adversidades da missão. Os discípulos não podem se acomodar no lugar do triunfo, onde as multidões “viram” os sinais de Jesus: a obediência ao Mestre os obriga a assumir sempre novos desafios. Jesus não quer que seus discípulos cedam à tentação de um Messias triunfante, que manipula as massas a ponto de, com elas, formar um exército exasperado e truculento.
Mas Jesus não abandona seus discípulos: no meio da noite, Jesus foi até eles, caminhando sobre o mar (v. 25). Como era de se esperar, este ato de Jesus potencializa o desespero dos discípulos: à dificuldade em navegar em meio à turbulência agora acrescenta-se o terror. Andar sobre as águas era atributo de Deus (Jó 9,8) e, por isso, a visão de Jesus caminhando sobre o mar é interpretada como a aparição de um fantasma.
Àqueles homens apavorados, Jesus dirige uma palavra de confiança: “Coragem! Sou eu!” (v. 27). Jesus utiliza a mesma fórmula com a qual Deus havia se revelado a Moisés, em Ex 3,14: a visão não traz a destruição, mas a esperança e a salvação.
O primeiro a reagir é Pedro: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro sobre as águas” (v. 28). Normalmente, o pedido de Pedro é interpretado como piedade e submissão. Mas pode haver outra explicação: Pedro cede ao desejo de se igualar a Jesus e partilhar o seu poder. A tentativa, porém, é frustrada. Pedro percebe que continua sendo o mesmo de sempre: um simples ser humano, repleto de limitações e de medo. Por isso a censura: “Homem de fé pequena, por que duvidaste?”
Em geral, o termo grego oligópistos é traduzido como “homem de pouca fé” ou “homem de fé pequena”. Mas há nele uma nuança pejorativa: homem de fezinha, de fé mesquinha; homem que tem uma fé baseada nos próprios interesses, e não no compromisso. É natural que uma fé deste tipo, na primeira dificuldade, esmoreça. Neste sentido, a fala de Jesus é uma questão retórica que quer fazer Pedro refletir: “Você tem uma fé mesquinha e interesseira. Entendeu por que, diante da dificuldade, você duvidou?”
Relacionando com os outros textos
1ª leitura 1Rs 19,9a.11-13a.
A primeira leitura mostra o Elias perseguido pela rainha Jezabel. Na fuga, ele se abriga numa gruta no monte Horeb. Há um claro paralelo com o evangelho de hoje: após um acontecimento milagroso, o profeta enfrenta perigosa oposição, tal como os discípulos, que foram forçados a navegar para a outra margem.
De fato, a primeira leitura apresenta três fenômenos cósmicos típicos das teofanias: vento, terremoto e fogo. Supreendentemente, porém, o autor de 1Reis apresenta um quarto elemento – a brisa leve – e é nele que o profeta experimenta a presença de Javé. Convém lembrar que Elias foi um grande crítico ao culto a Baal, que era não somente o deus da chuva e da tempestade, mas também o deus da guerra. Ao afirmar que Javé não está no furacão, no terremoto e no fogo, o autor de 1Reis faz uma crítica aos profetas que, em nome de uma missão supostamente recebida da divindade, conduzem o povo à destruição e à morte.
Isso fica reforçado no fato de Elias encontrar força e consolo não nas manifestações violentas da natureza, e sim na brisa suave: somente a paz interior pode trazer esperança e vida para a pessoa e para a sociedade.

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL
ANO A

Dia:16 de agosto 2020
Assunção de Nossa Senhora
Evangelho: Lc 1,39-56
Primeira Leitura: Ap 11,19a;12,1.3-6a.10ab
Segunda Leitura: 1Cor 15,20-27a
Salmo: 44,10bc. 11.12ab.16 (R.10b)

Evangelho
Depois do anúncio a Maria, vem este texto de cumprimento e de júbilo. Isabel reconhece Maria como a “mãe do salvador” e a proclama “bem aventurada” pela sua adesão de fé a Palavra de Deus. A maternidade da Virgem vem relacionada à escuta da Palavra de Deus, da qual ela representa o modelo mais excelso na Igreja. Maria, até então taciturna, explode num hino de agradecimento, transbordante de alegria, pelas maravilhas operadas nela por Deus. O texto se articula em duas partes: o encontro de Maria com Isabel (v. 39-45), o Magnificat (v. 46-55).
O estremecimento de João no ventre de Isabel assume o significado de um testemunho antecipado do precursor (cf. v.15). Isabel, sob a ação do Espírito Santo, grita de júbilo e evoca as aclamações diante da Arca (1Cr 15,28; 16,4-5).
No v.45 temos o primeiro macarismo (bem-aventurança) de Lucas. Maria pertence à verdadeira família de Jesus, a escatológica, porque escutou a Palavra e a guardou. Ela tornou-se a Theotókos (Mãe de Deus) em sentido físico e espiritual pelo fato biológico de gerar Jesus e pela sua adesão de fé à Palavra de Deus.
O cântico (1,46-55) chamado Magnificat por causa da sua primeira palavra na versão latina da Bíblia, recapitula a esperança messiânica do povo eleito. Maria, primeiramente, agradece a Deus por tudo quanto operou nela (v.46-50); depois o louva pelo cumprimento das promessas (v.51-55). A primeira parte convém à situação concreta na qual se encontra Maria, depois da anunciação e o encontro com Isabel; a segunda é um hino de ação de graças e de louvor coletivo inspirado no cântico de Ana (1Sm 2,1-10).
É curioso observar que nos tempos verbais a partir do v.51, o futuro da salvação é descrito como evento presente porque começa a cumprir-se com a concepção do Messias. São surpreendentes as expressões fortes derivadas do cântico de Ana e colocadas sobre os lábios da humilde jovem de Nazaré. A celebração da ação divina através dos sete verbos revela a radical diferença da escala de valores aos olhos de Deus: “seu poder é exercido”, “dispersa os soberbos”, “derruba poderosos”, “exalta humildes”, “cumula de bens os famintos”, “despede vazios os ricos”, “socorre Israel”.
Lc apresenta Maria como mulher vigorosa, que exemplifica, como prenúncio, uma transformação na história, com repercussões concretas na situação social do mundo. Ela celebra a salvação operada por Deus em favor dos pobres e dos que vivem à margem, contra a as prepotências e opressões provocadas pelo egoísmo e pecado.
Relacionando com os outros textos
A pressa (v.39) indica o dinamismo provocado pela alegria com a vinda do Messias e também a prontidão de Maria em corresponder à vontade divina. A sua viagem evoca a história da transferência da arca da casa de Abinadab para a de Obed-Edom, onde ficou três meses; depois Davi a transferiu solenemente a Jerusalém (2Sm 6,1-15). Maria representa a arca vivente do NT.
A leitura do Apocalipse põe em relevo que a “arca da (nova) aliança” (a comunidade, Maria), é vista no céu. E uma voz proclama o “agora” da salvação, advérbio chave para interpretar a Assunção.
A Assunção é uma forma privilegiada de Ressurreição. Tem a sua origem na Páscoa de Jesus e manifesta a emergência de uma nova humanidade, em que Cristo é a cabeça, como novo Adão. A salvação é um processo dinâmico, do qual é sinal poderoso a Assunção de Maria.
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL
ANO A
Dia: 21º Dom. T. Comum
20/09/2020
Primeira Leitura: Is 22,19-23
Salmo: Sl 137,1-2a.2bc-3.6.8bc (R. 8bc)
Segunda Leitura: Rm 11,33-36
Evangelho: Mt 16,13-20

Do contexto para o significado
Nesta parte do Evangelho de Mateus (14,1-20,34) Jesus e sua comunidade apostólica fazem a última e derradeira viagem da Galileia até Jerusalém onde Jesus será crucificado. Para a comunidade de Mateus, formada por pessoas refugiadas e sobreviventes da destruição da cidade e do templo em 70 d.C. esta narrativa é de grande relevância.
Da memória à ressignificação
Mt 16,13-20 tem como fonte o Evangelho de Marcos (8,27-30), ou, no mínimo, um texto (logia) em comum. Não se trata, no entanto, de mera cópia. Mateus faz uma ressignificação. Isso se nota no título que Mateus acrescenta: Filho da humanidade (uion tou antropou) (Mt 16.13b). Joaquim Jeremias observa que este título nunca apareceu em nenhuma confissão de fé, aparecendo apenas quando dita pelo próprio Jesus. Provavelmente trata-se de uma expressão original dele. Em aramaico, a língua de Jesus, diz-se “bar ‘enasha”. No entanto, chama a atenção que seja apresentada sempre em terceira pessoa. A expressão tem suas origens nos escritos apocalípticos do judaísmo, como em Daniel (7,13;8,17). Jesus – em sua identidade messiânica – comunga com a humanidade sofrida, com a comunidade perseguida e martirizada, sendo “Filho da humanidade”, projetando-a para a vitória escatológica do Reinado dos Céus.
Outra inclusão de Mateus é a menção ao profeta Jeremias. É, certamente, o mais sofrido de todos os profetas, que chega a maldizer o dia do seu nascimento (Jr 20,14). A comunidade de Mateus vê em Jesus a expressão de todas estas heranças. Na resposta definitiva a comunidade de Mateus vai além do original de Marcos, acrescentando, além de Cristo: “Filho do Deus Vivo”! Esta é uma confissão que resgata Os 2,1: “filhos do Deus vivo” (uioi Theou zontos) – na versão grega dos LXX – significando a inclusão das comunidades no novo Israel.
Jesus, na confissão de fé pronunciada por Pedro, é o Cristo que gera em si uma nova humanidade de filhas e filhos do Deus Vivo. Da mesma forma, quando Pedro é chamado bem-aventurado (makarios), ele representa todas as pessoas das bem-aventuranças (Mt 5,1-12) e quando é qualificado como a “pedra/rocha” sobre a qual a Igreja (assembleia/ecclesia) é edificada, manifesta o sentido missionário da igreja como geradora de nova humanidade para todas as pessoas, vencendo a morte/inferno/submundo.
Relacionando com os outros textos
O texto de Isaías compara um servo personalista, que buscava se autopromover, chamado Sebna (Is 22,15) que não considerava a grandeza de Deus, mas se apropriava dela, com outro Eleakim (cujo nome significa Deus se estabelecerá, Is 22,20) que, em seus atos, refletia a presença de Deus. Pedro ao declarar a divindade de Jesus, não o faz para si, mas assumindo a voz desta nova humanidade que surge em Cristo. Da mesma forma, Paulo lembra a doxologia, pronunciada na Oração Eucarística: “porque dele, por ele e para ele, são todas as coisas” (Rm 11,36a).

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL ANO A

Dia:30/08/2020
XXIIº Domingo do Tempo de Comum
Evangelho: Mt 16,21-27
Primeira Leitura: Jr 20,7-9
Segunda Leitura: Rm 12,1-2
Salmo: Sl 62,2-6.8-9

Evangelho
O texto deve ser lido como consequência da Profissão de Pedro (Mt 16,13-20), quando se completa o ensino sobre esta profissão. Cinco vezes Jesus anuncia sua paixão, morte e ressurreição (Mt 16,21ss; 17,9; 17,22s; 20,17ss; 26,45). O texto de hoje, compreende o primeiro anúncio com suas consequências e pode ser dividido em três partes: o primeiro anúncio (v.21), a reação de Pedro (vv.22-23) e as consequências para os discípulos (vv.24-27).
Provavelmente o v. 21 seja o reflexo de um único dito original dos últimos dias de Jesus em Jerusalém (cf. Mc 14,41; Mt 26,45), mas que foi retomado em ambiente pós-pascal numa perspectiva apocalíptica do conceito de Filho do Homem de Dn 7,13s.27s onde este título é símbolo do resto fiel de Israel, que sofreu as agruras de Antíoco Epífanes, mas com a certeza da vitória final. Chamando para si o conceito de Filho do Homem, Jesus assume a morte trágica, bem como a exaltação gloriosa da ressurreição.
Não era difícil, nos últimos dias em Jerusalém, prever a própria morte de cruz. Neste contexto, Jesus teria se entendido à luz de Dn 7,13ss, assumindo a tragédia da morte, confiando na vitória da ressurreição. Mais tarde, as comunidades replicaram esta autointerpretação de Jesus e a colocaram nos diversos textos dos anúncios da paixão. O v. 21 usa o título Jesus Cristo, o que não se encontra em Mc 8,31, nem em Lc 9,22. Cristo é título messiânico pós-pascal, portanto, se confirma, que este versículo, é desenvolvimento da comunidade de Mateus. No texto paralelo de Mc 8,29-31 isto se torna mais evidente. Pedro professa Jesus como o Cristo (v.29) e Jesus corrige a perspectiva de Pedro com o título de Filho do Homem sofredor (v.31).
Jesus diz que devia ir a Jerusalém ao encontro da morte. Este dever ir não é fatalidade, mas sim, o preço do confronto com o império da morte representado pelas autoridades. Trata-se do preço inevitável que Jesus pagará em sua fidelidade ao Pai diante do poder de morte que impera no mundo. Ele sofrerá a sorte dos profetas (Mt 23,34) que enfrentaram toda sorte de oposições. Em tudo isto, no entanto, está a promessa da ressurreição. O poder da morte não tem a última palavra.
O messianismo do Cristo que vai ao encontro da morte (vv.22-23) não entra na concepção de Pedro. Por isto ele, de pedra-rocha (v.17) vai para pedra de tropeço (v.23). Ele quer desviar Jesus da fidelidade ao Pai e isto é, segundo Jesus, satânico. Pedro, o iluminado por Deus (v.17), agora tem um pensamento humano. Seu conceito de Cristo é segundo a lógica humana, que é insensatez diante de Deus (1Cor 1,17ss). A esperança messiânica ilustrada com sonhos de glória triunfalista sobre os adversários era muito comum desde o AT, mas isto é sonho humano ainda nos tempos da redação dos evangelhos (cf. Mc 10,35-45 e Mt 20,20-28). Pedro, como o demônio (Mt 4,10) quer desviar Jesus de seu projeto, por isto Jesus diz: “vai para trás de mim”. Ou seja, você se colocou na minha frente, quer me ensinar. Voltar para trás, é assumir novamente o lugar de discípulo.
Os ditos dos vv.24-27 são frases aleatoriamente ajuntadas (cf. Mt 10,38s), ilustram que, o messianismo que assume a morte terá de se traduzir também na vida dos discípulos. Assim, seguir um messias sofredor é bem diferente de seguir um triunfalista. Isto se demonstra em três momentos: a) renunciar a si: interesses próprios, b) tomar a cruz: enfrentar as adversidades e c) seguir Jesus: o caminho do Filho do Homem que vai à morte, enfrentando os poderes do antirreino.
Relação com Jr 20,7-9
O Profeta Jeremias, como mais tarde Pedro e os demais discípulos, teve de aprender que, ser fiel a Deus tem um preço: o sofrimento, o escárnio, e a perseguição. Daí resulta para todos os discípulos e discípulas que, ser fiel a Cristo hoje é, a exemplo de Jeremias e de Pedro, assumir as dores do confronto com os contra-valores que também hoje querem desviar o evangelho da fidelidade a Deus.

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL – ANO A

16º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Evangelho: Mt 13,24-43
Primeira Leitura: Sb 12,13.16-19
Sl 86,5-6.9-10.15-16a (R. 5a)
Segunda Leitura: Rm 8,26-27

Evangelho
Os textos proclamados neste final de semana formam um paralelo com a parábola do semeador. Trata-se ainda do destino da semente (= a palavra de Jesus), cujo crescimento é condicionado por vários impedimentos.

Enquanto na parábola do semeador boa parte dos grãos não produz fruto devido a fatores externos, aqui, na parábola do trigo e do joio, o obstáculo é constituído pela ação mal intencionada do inimigo que semeia o joio no meio do trigo. Para não danificar a boa semente, o joio não era extirpado antes da colheita. Ali, então, era possível separar o grão são do joio.

A parábola do joio e do trigo não encontra paralelos nos sinóticos.

Podemos condensar em três grupos as questões levantadas pelo texto:

  1. De onde vêm e por que não são arrancadas as plantas que não portam fruto? São as duas perguntas postas explicitamente na parábola do joio em meio ao trigo: donde provém o joio? Por que não extirpá-lo do meio do trigo?

  2. Por que é necessário suportar tribulações e perseguições por causa da Palavra? Este é um “mistério do Reino”: para dar fruto, é necessário que o grão morra debaixo da terra (parábolas do grão de mostarda e do fermento escondido na massa).

  3. Quando se manifestarão aqueles que terão dado todo o fruto possível, ou seja, os “filhos do Reino”? No “fim do mundo” (v.40), isto é, no juízo final (explicação da parábola do joio).

Segundo a disposição do relato que faz Mateus, os v. 24-33 relatam ditos de Jesus em público, sem precisar o lugar e a circunstância. Nos v. 36-43 todos estão num ambiente privado, “na casa”. O fato de deixar a multidão e reentrar em casa mostra uma intenção organizativa do evangelista. A atividade de Jesus em relação à multidão se limitará, mais e mais, às curas (cf. 14,14). Mateus conhecia a observação de Mc 4,34 sobre Jesus que “em particular, explicava tudo a seus discípulos”. Nada melhor que dar um exemplo dessa instrução privada através da pergunta dos discípulos: “explica-nos a parábola do joio no campo” (13,36).

Naturalmente, uma parábola não explica tudo, e pode suscitar ainda mais questões. Quem é o “dono da casa”, o proprietário que semeou a boa semente? É o mesmo semeador da parábola precedente, isto é, Jesus, ou Deus Pai? Quem é o “inimigo” que no meio da noite semeou o joio entre o trigo?

Mateus notou que estas perguntas eram graves e não podiam ser evitadas, por isso ele se reservou o direito de escrever uma explicação (v.36-43), que desloca o acento sobre o juízo final.

A resposta que segue (v.37-39) é um pequeno léxico alegórico dos sete termos principais da parábola:

  1. o semeador,

  2. o campo,

  3. a semente,

  4. o joio,

  5. o inimigo,

  6. a colheita e

  7. os ceifadores.

Estes textos, lidos em referência aos pecadores e aos heréticos no âmbito eclesial, ensinam paciência e misericórdia. Esta dilatação do Juízo não acontece porque seja árduo distinguir os justos dos pecadores. A cizânia se reconhece logo, basta ver seus caules. O tempo da maturação, antes da colheita, é concedido a todos para poder fazer penitência. Não se deve ceder à tentação de antecipar o juízo, pois seria uma presunção que arriscaria de corromper também os justos: colher a cizânia implica erradicar também o grão que é bom.
Deste modo Jesus, no Evangelho segundo Mateus quer explicar como é possível que nem o mundo, nem a própria Igreja sejam compostos somente por justos, e como se deve aprender a aceitar pacientemente este fato.
Toda a perícope destaca o contraste entre a pequenez do início e o esplendor do fim. Pode-se tirar uma lição bastante evidente desses textos: a perspectiva da fé reconhece mediante os austeros inícios de Jesus, a grandiosidade do fim.

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da
Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana
Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL ANO A

Dia:12/07/2020
15º Domingo do Tempo de Comum
Evangelho: Mt 13,1-23
Primeira Leitura: Is 55,10-11
Segunda Leitura: Rm 8,18-23
Salmo: Sl 66,10-14

Evangelho
Em Mt 13 encontram-se sete parábolas do Reino:

      1. o semeador (1-23),

      2. o joio e o trigo (24-30),

      3. o grão de mostarda (31-32),

      4. o fermento (33),

      5. o tesouro (44),

      6. a pérola preciosa (45-46) e

      7. a rede (47-50).

Todas estas parábolas querem revelar a realidade escondida do Reino. Ou seja, dizendo-a em parábolas, a mensagem do Reino penetra no coração e nas mentes de forma simbólica, mas viva.

A parábola do semeador se divide em três partes:

  • a) a parábola (vv.1-9), provavelmente vinda de Jesus,

  • b) a função da parábola (vv.10-17), em parte de Jesus, em parte teologia pós-pascal, ou trabalho redacional,

  • c) a explicação (vv.18-23), acréscimo posterior, ou explicação da comunidade. Nela a comunidade mudou a perspectiva da parábola.

  • a) A parábola (1-9): havia uma grande expectativa a respeito de Jesus, o Messias (Mt 16,16). Ele iria instaurar o Reino, porém, aos poucos, estas esperanças foram se frustrando, pois ele não realizou nada daquilo que dele se esperava. Parecia um fracassado. Ele encontrou muita rejeição (Mt 11,20-24). Os discípulos entravam em desânimo e a credibilidade do mestre teve queda. Muitos o abandonaram (Jo 6,66). Jesus quer fortalecer os desanimados, mostrando que as sementes do evangelho produzirão frutos, mesmo que algumas se tenham perdidas. Três tentativas foram nulas. Mas uma tentativa deu frutos muito acima do esperado. Em Israel se dizia que a colheita de trigo normalmente dava sete por um. Na melhor das hipóteses, dez por um. Mas na parábola se fala de cem, sessenta e trinta por um, o que é estupendo. Com isto, Jesus corrige o messianismo vigente. Ele não passa pelos sucessos, pelos triunfos costumeiros. Ele enfrenta derrotas e fracassos, mas os discípulos precisam mudar de mentalidade e crer na vitória que virá. Eles precisam semear, pois a semente da palavra, mesmo que muitas vezes não dá em nada, encontrará terra boa e frutificará. Os discípulos não podem se abater diante dos obstáculos, devem crer que, apesar dos fracassos, a vitória virá.

  • b) A função da parábola (10-17): quem se abriu a Jesus e o aceitou, facilmente entende que ele é a realização do projeto de Deus, ou seja, vê em sua ação Deus agindo na história. Quem não aceitou Jesus perde o senso de Deus revelado desde o AT. Como já em Is 6,9-10 os indiferentes se fizeram cegos e surdos, também agora esta indiferença torna impossível receber sua mensagem. Portanto, as parábolas: ou iluminam, ou cegam. Quem se abre ao mestre, cresce na compreensão e terá sempre mais. Quem se fecha, perde até o pouco que tinha. Os discípulos são felizes, pois superam até os profetas que não conheceram a Jesus, uma vez que ele é a chave de compreensão de todo AT (2Cor 3,14b). Pode ser uma resposta ao rabinato farisaico que mais tarde se revela em Jâmnia. Parece que os vv.11-12 e 16-17 sejam de Jesus, porém não estavam ligados a esta parábola, mas a Mt 11,25, já os vv. 13-15 supostamente seriam redacionais.

  • c) A explicação (18-23): as comunidades primitivas tinham problemas completamente diferentes de Jesus. Elas aplicaram sua palavra ao seu contexto concreto, com isto mudaram definitivamente o ensino original. Agora, o sucesso não depende da semente, como em 1-9, mas dos ouvintes, a qualidade da terra. Cabe o ouvinte se questionar, qual é sua terra (coração). Em 1-9 a adversidade era externa: rejeição a Jesus. Agora ela é interna: a disposição do ouvinte em acolher a palavra. É um apelo para os ouvintes se questionarem. Jesus queria incutir esperança nos discípulos diante das dificuldades (1-9). A Igreja quer incutir boa disposição nos ouvintes da palavra.

Relação com Is 55,10-11
O povo está no Exílio da Babilônia. Havia muitas promessas no AT de que Deus sempre estaria com seu povo. Em meio ao sofrimento, os exilados se questionam: teria Deus falhado em sua palavra? O profeta, como mais tarde a parábola de Mt 13,1-9) mostra que, mesmo em meio aos fracassos, deve-se confiar na palavra de Deus. Ela não falha nunca.
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL ANO A

Dia:05/07/2020
14º Domingo do tempo comum
Evangelho: Mt 11,25-30
Primeira Leitura: Zc 9,9-10
Segunda Leitura: Rm 8,9.11-13
Salmo: Sl 144,,1-2.8-9.10-11.13-14 (R.1)

Evangelho
No esquema teológico do evangelho de Mateus, o capítulo 10 apresenta a missão dos discípulos (isto é, de toda a Igreja). Logo em seguida, 11, 2-30 mostra a gradativa rejeição que Jesus enfrenta.
O capítulo 11 pode ser dividido em cinco partes:

  1. vv. 2-6: João Batista manifesta uma dúvida em relação à ação messiânica de Jesus;

  2. vv. 7-15: Jesus testemunha em favor João Batista;

  3. vv. 16-19: Jesus é recusado pelas autoridades, que se comportam como crianças;

  4. vv. 20-24: Jesus é rejeitado pelas cidades da Galileia;

  5. vv. 25-30: um cântico de louvor e um ensinamento sapiencial. Estes últimos versículos constituem o evangelho da liturgia hoje.

Como podemos observar, o capítulo 11 enfatiza a rejeição: ela é forte e não se limita a Jesus, mas se estende também aos discípulos e a toda a Igreja. Por que, então, a descrição desta sempre maior rejeição termina com um cântico de louvor? Para responder a esta pergunta, é necessário ver mais profundamente o texto.
No cântico de louvor, vv. 25-27, Jesus quase se assusta ao descobrir que o anúncio do Reino foi recusado pelos chefes, mas acolhido pelo povo simples.

Na fala de Jesus, há uma fusão entre “revelar” e “aceitar”: o Pai não revelou aos “sábios e inteligentes”, isto é, aos que acham que não precisam aprender nada. A revelação não é excludente por natureza, mas ela é graça; alguns, porém, estão fechados na sua autossuficiência e só aceitam o que podem apresentar como uma conquista ou um mérito. Em outras palavras, não valorizam o que é “graça”, isto é, recebido “grátis”. Os simples, ao contrário, estão abertos ao dom (graça) de Deus. Por isso, o cântico de louvor ao Pai é o resultado desta descoberta espantosa: os sábios não sabem, os simples (isto é, os ignorantes) sabem!
O v. 27 é uma afirmação teológica: aquilo que o Filho sabe, ele não o guarda só para si mesmo; ao contrário, ele o divulga a todos os que estão abertos para ouvir. O Filho torna o Pai conhecido. Este conhecimento não é aquele dos sábio e entendidos, não é aquele dos mestres da Lei, que pensam que conhecem a Deus porque dominam regras e proibições. O verdadeiro conhecimento do Pai é fazer a experiência do amor, que só é possível alcançar trilhando o caminho de Jesus na prática do acolhimento, da misericórdia, da justiça e da paz.
Os vv. 28-30 são afirmações em estilo sapiencial: Jesus se coloca como o verdadeiro mestre da sabedoria que convida a todos os que estão cansados e oprimidos para a sua escola. Jesus quer que todos sejam instruídos na verdadeira Lei, que não é pesada como o jugo dos fariseus (cf. Mt 23,4). De fato, a tradição farisaica tinha estipulado tantos mandamentos, preceitos e advertências, que era impossível alguém que não sabia ler e escrever conhecê-los e praticá-los. Era mesmo um fardo pesado, um “jugo”, algo quase insuportável para cumprir à risca e até impossível de jamais transgredir.
O convite final – Aprendei de mim, que sou manso e humilde coração – é típico do mestre sapiencial que contrapõe sua proposta de vida ao que outros líderes apresentam como comportamento a ser seguido. A mansidão e a humildade estão presentes também na primeira leitura, tirada do profeta Zacarias.

Primeira Leitura: Zc 9,9-10

Nesta leitura o profeta anuncia a entrada triunfante do verdadeiro Messias. O profeta faz um breve elenco das qualidades que comprovam que aquela pessoa não é um farsante, que usurpou o título messiânico, mas, ao contrário, exerce com autoridade recebida de Deus. As qualidades são: o verdadeiro Messias é justo e vitorioso, mas, ao mesmo tempo, humilde.
O profeta ainda diz que ele vem montado num jumentinho. Pode parecer depreciativo, mas não é. O verdadeiro Messias não vem montado num cavalo, desfilando diante de um povo que busca o enfrentamento e a violência. Ao contrário, ele vem montado em um jumentinho bem novo, que é a montaria para os tempos de paz, não para os tempos de guerra e truculência. Em outras palavras, o profeta acrescenta ainda uma característica ao personagem: ele propõe a paz, ele deseja a paz, ele é o Messias da paz. Por isso, seu projeto político-social é o desarmamento da população: transformar as armas em ferramentas para trazer vida e prosperidade a todos, começando pelos mais pobres.
Este projeto político-social tem a aceitação de Deus, que confirma o domínio desse governante: de uma extremidade à outra da terra.
Ainda aguardamos a chegada desse Messias da paz. Por isso, é necessário ter os olhos abertos e o coração firme, para ninguém nos engane nem nos desanime. Ao contrário, que nossa esperança seja renovada a cada dia.

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL
ANO A
Dia:
13º Domingo do Tempo Comum
Evangelho: Mt 16,13-19
Primeira Leitura: At 12,1-11
Segunda Leitura: 2Tm 4,6-8.17-18
Salmo: 34,2-9 (R.5
Do contexto para a escuta.

O Evangelho segundo a comunidade de Mateus tem como contexto a destruição de Jerusalém em 70 d.C. As pessoas judaico-cristãs que formavam esta comunidade tinham um carinho muito grande por Jerusalém. Lucas nos conta que estas comunidades frequentavam o Templo (At 2,46). Nesta parte do Evangelho (14,1-20,34) Jesus e sua comunidade apostólica vão por última vez – antes da crucifixão – para a Galileia e empreendem a viagem definitiva para Jerusalém. É uma parte do Evangelho carregada de sentimentos e de fé, porque a comunidade embarca junto com Jesus para sua última jornada, a jornada. Na lembrança destas comunidades há de muitas outras pessoas, inclusive Pedro, que já tinham sido mártires da fé quando a narrativa foi escrita.
Da escuta para a reflexão.
Mt 16,13-19 possivelmente usou como fonte o Evangelho segundo a comunidade de Marcos (8,27-30), ou um texto (logia) em comum. Não apenas copiou, mas o carregou de emoção e propósito missionário! Vejamos as diferenças.
A comunidade de Mateus acrescenta, já na pergunta de Jesus, o primeiro título: “uion tou antropou” (Mt 16.13b). Joaquim Jeremias observa que esta denominação nunca apareceu em nenhuma confissão de fé. Apenas aparece dita pelo próprio Jesus, por isso, deve ter sido uma expressão original dele, em aramaico, “bar ‘enasha”. No entanto, é apresentada em terceira pessoa. A expressão tem suas origens nos escritos apocalípticos do judaísmo, como em Daniel (7,13;8,17). Jesus – em sua identidade messiânica – comunga com a humanidade sofrida, com a comunidade perseguida e martirizada, sendo Filho da Humanidade, projetando-a para a vitória escatológica do Reinado dos Céus.
Na resposta da comunidade está a inclusão do profeta Jeremias, que é certamente, o mais sofrido de todos os profetas. Ele chega a maldizer o dia do seu nascimento (Jr 20,14), sem deixar de anunciar a vontade divina (Jr 4,19). Jesus, era portador da herança de todos eles. Mas a resposta definitiva é “o Cristo”. Também aqui a comunidade de Mateus vai além do original de Marcos colocando: “Filho do Deus Vivo”! Tata-se de uma confissão própria da comunidade de Mateus, que regata, Os 2,1: “filhos do Deus vivo” (uioi Theou zontos) – na versão grega dos LXX – como proclamação do novo Israel. O Jesus apresentado na confissão de fé pronunciada por Pedro é o Cristo que gera em si uma nova humanidade, de filhas e filhos do Deus Vivo. Da mesma forma, quando Pedro é chamado bem-aventurado (makarios) representa todas as pessoas das bem-aventuranças (Mt 5,1-12) e quando é qualificado como a “pedra/rocha” sobre a qual a Igreja (assembleia/eclesia) é edificada, manifesta o sentido missionário da igreja como geradora de nova humanidade para todas as pessoas, que vence a morte/inferno/submundo.
Relacionando com os outros textos
Pedro, que é portador desta nova visão de Jesus junto com a Igreja, também aparece em Atos 12,1-12 testemunhando que nenhum governante repressor (Herodes Antipas) poderá impedir a ação do Deus Libertador. Depois de libertado vai em busca da comunidade reunida e ali celebra a vitória sobre o poder da violência e da morte (At 12,9-12). Isso vale para o resumo do labor missionário do apóstolo Paulo em 2 Tm 4,6-8.17-18, onde reconhece que ele não o portador desta graça, mas instrumento, para que a presença de Deus seja reconhecida por todo povo.
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL – ANO A

12º. DOM. TEMPO COMUM
Evangelho: Mt 10,26-33
Primeira Leitura: Jr 20,10-13
Sl 69,8-10.14.17.33-35 (R.14c)
Segunda Leitura: Rm 5,12-15

Evangelho
Os versículos anteriores (24-25) estabeleceram uma identidade entre o discípulo e o mestre, entre o enviado e aquele que envia. Isto para dizer que o discípulo deve compartilhar o mesmo destino de sofrimentos do seu mestre: o discípulo não pode iludir-se pensando que vai subtrair-se.
Jesus prepara os seus apóstolos a não sucumbir diante das dificuldades que encontrarão pelo caminho.
A primeira consequência que deriva da igualdade entre o discípulo e o mestre é que se deve ter a coragem de pregar o evangelho com franqueza, sem deixa-se atemorizar com as ameaças dos opositores. O verdadeiro ensinamento de Jesus não deve incentivar a timidez no testemunho dado pelos discípulos (“dizei-o à luz do dia… proclamai-o sobre os telhados”). Somente o Senhor é para ser temido, não as pessoas.
Os vários ditos de Jesus são articulados em torno da expressão “não tenhais medo”. O discípulo deve professar a própria fé com coragem.
Na perícope destacam-se quatro temáticas: proclamação pública do Evangelho (v. 26-27); disponibilidade para enfrentar o martírio, sacrificando a vida física para obter a vida eterna (v.28); motivos de confiança na Providência (v.29-31); profissão corajosa da fé messiânica (v.32-33).
A distinção entre alma e corpo (“os que matam o corpo, mas não podem matar a alma”) é surpreendente em Mt, que normalmente raciocina com categorias hebraicas, onde esta distinção não subsiste. É ainda mais curioso, porque o próprio Lc 12,4 evita esse tipo de dicotomia. Mas um autor de língua grega, ainda que de matriz semita, não podia não ser influenciado pelas categorias helenísticas muito comuns, que são muito sutis e se prestam à reflexão sobre o estado depois da morte. Para um semita era inconcebível a vida sem o corpo. O dito se refere à totalidade da vida do ser humano, conservada por Deus também depois da morte.
Nos v. 29-31 se retorna a um modo de ver muito bíblico: a providência do Pai com os passarinhos, e inclusive com os cabelos de nossa cabeça! O raciocínio é “valeis mais do que muitos pássaros”, que equivale a “de todos os pássaros”.
O verbo homologhéo equivale a “confessar” (3,6), “louvar” (11,25), mas também “declarar-se publicamente em favor alguém”, e é o caso do nosso texto (en emoí por mim: v.32).
Note-se a distinção entre “vosso Pai” (v.29) e “meu Pai” (v. 32.33). A menção insistente do Pai evoca o motivo da paternidade divina num sentido afetivo bem familiar, que está expressa no Pai-Nosso como novidade central do Evangelho.
Em Mc 8,38 e Lc 12,8 se cria certa tensão entre o “reconhecer” Jesus e “ser reconhecido” pelo Filho do homem. Mateus resolve a aparente a aparente aporia. O contrário de “reconhecer” é “renegar” (arnéomai), um verbo que retornará na paixão (26,70), e que quer dizer “desconfessar” Jesus, não reconhecer-se mais n’Ele. Jesus dirá: “Eu não vos conheço”, aos que o renegam; conquanto tenha perdoado a Pedro (Jo 21,15-19).
A perícope inteira nos convida a levar em consideração “o silêncio de Deus”, que não liberta os seus filhos e filhas de todos os sofrimentos e tribulações, às vezes submetidos inclusive ao martírio.
Para a vivência da fé, tudo se encaixa no desígnio de salvação.
Não obstante a soberania de Deus sobre o mundo, Ele não se opõe ao curso normal da natureza, que se renova fazendo da morte florescer nova vida.
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL
ANO A
Dia: 14 de junho de 2020
11° Domingo do Tempo Comum
Evangelho: Mt 9,36-10,8
Primeira Leitura: Ex 19,2-6a
Segunda Leitura: Rm 5,6-11
Salmo: 100

Mt 9,36-10,8
Situando o Texto
O presente texto é estratégico, como um elo de ligação entre Mt 8-9 que mostram os sinais do Reino (milagres) e Mt 10 que trata da missão.
A compaixão que Jesus (Mt 9,36) já se constata antes, ao fazer curas (Mt 8-9) e traduz a compaixão de Deus pelo povo (Is 45,15). Mas agora ela é expressa em palavras diante da omissão dos líderes de seu tempo, como também já atestado no AT (Lv 27,27; 1Rs 22,17). No AT os líderes não cuidavam do povo, preocupados, apenas com seus interesses (Ez 34; Zc 10,2). Já então, Deus é visto como o pastor do povo (Sl 23). Agora, Jesus assume esta perspectiva da compaixão de Deus. A compaixão de Jesus pelo povo sofrido, continua na ação de seus seguidores. Aos Doze, o novo povo de Deus, ele confere os mesmos poderes de realizar as suas obras: curas, exorcismos, ressuscitar mortos. Tudo isto, com os critérios de então, significa lutar contra o mal, contra as situações de morte. A palavra vem acompanhada da ação. Jesus instaura o Reino pela sua ação e pregação. Agora cabe aos discípulos continuar esta missão, que brota da compaixão para com os sofredores: leprosos, paralíticos, possessos, etc. que são as situações concretas vividas pelo povo, e que seus seguidores devem continuar. A compaixão de Deus, se realiza em Jesus e agora se expressa na missão dos discípulos, que assumem o lugar dos guias do povo, que falharam. Assim na pessoa de Jesus e dos seus seguidores, realiza-se o verdadeiro projeto de Deus revelado ainda no AT.
Doze é número simbólico, lembram as doze tribos de Israel, portanto, são o novo povo de Deus (cf. Mt 19,28) e por isto mesmo, assim como as doze tribos eram todo Israel, aqui também, os “Doze” não se refere apenas a um pequeno grupo, mas a todos os membros do novo povo de Deus. Nem tampouco se quer dizer que os Doze receberam poderes extraordinários de cura, simplesmente que eles, isto é, todos, devem lutar contra as situações de morte e sofrimento que afligem o povo, como vem sonhado para os tempos messiânicos (Is 42,18). Como “Doze” é totalidade, significa que todo discípulo e discípula têm esta missão. Entre eles há pescadores, cobrador de imposto, zelote e até um traidor. Classes impossíveis de conviver no antigo povo. No novo povo tudo isto é possível. Doze quer dizer todos, bons e maus. O novo povo de Deus não é formado por perfeitos.
Pedir ao Senhor da Messe o envio de operários não é sinônimo de despertar vocações sacerdotais ou religiosas. Nem é convencer Deus da necessidade de mandar operários. Mas é convencer todas as pessoas a assumir a missão de Jesus. Para isto, sim, precisa de oração.
Tem algo estranho no texto: a proibição de ir à Samaria. Seria isto um sinal de racismo? Não. Trata-se de ir aos pobres, abandonados e sem pastor, conforme se lê em Nm 27,27; ou seja, eram os que estavam sem pastor (Ez 34). Por isto, a missão começa pelos últimos, onde mais precisa. Reflete também a comunidade de Mateus, que inicialmente só evangelizava judeus (10,5s; 15,23s), mas que depois se abre a todos os povos (Mt 28,19). Na caneta de Mateus, o procedimento de sua comunidade já foi praticado por Jesus. Quem se sentiu agraciado e despertou para a missão, de graça se põe a caminho.
Resumindo:
Mt 9,36-38: tudo brota da compaixão (Ex 3,7; Ez 34; Zc 10,2).
Mt 10,1.8a: chama os Doze e lhes dá poder contra o mal. A comunidade cristã recebe o poder de dar continuidade à obra de Jesus.
Mt 2-6: todos, bons e maus são destinados ao povo sem pastor, devido aos maus líderes de Israel.
Mt 7.8b: o anúncio e a ação acompanhado de sinais são gratuitos.
Relação com Ex 19,2-6a
Deus, pela sua misericórdia, ouviu o clamor do povo no Egito (Ex 3,7). Agora, já livre, preparando-se para a Terra Prometida, Deus o consagra como um reino de sacerdotes (v.6). Está aqui o chamado, que mais tarde Jesus fará aos Doze, para continuar a compaixão de Deus na história.
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL
ANO A

Dia:07/06/2020
Domingo: Festa da Santíssima Trindade
Evangelho: Jo 3,16-18
Primeira Leitura: Ex 34,4b-6. 8-9
Segunda Leitura: 2Cor 13,11-13
Salmo: Dn 3,52. 53. 54. 55. 56 (R.52b)

Evangelho
Neste domingo, lemos um trecho do diálogo de Jesus com Nicodemos, no terceiro capítulo do evangelho de João. Nicodemos é um fariseu que veio conversar com Jesus durante a noite (Jo 3,2). O horário da conversa pode ser simbólico: ele está nas trevas e vem procurar a luz.
Os fariseus eram um partido político-religioso que se opunham a Jesus. Embora Nicodemos pertencesse a este grupo, sua atitude não é hostil, mas de interesse e de busca pela verdade. Só isso já nos questiona: diante de quem discorda de nós, temos uma atitude de fechamento e de preconceito, ou estamos abertos a dialogar e a aprender?
O diálogo de Jesus com Nicodemos tem vários momentos, mas o tema é um só: a fé em Jesus como filho de Deus e como salvador. Podemos dividir o diálogo em duas grandes partes: vv. 3-10: a necessidade de nascer de novo; vv. 11-21: a salvação trazida pelo Filho de Deus. Estas duas partes estão interligadas e se completam mutuamente.
Os versículos lidos na liturgia de hoje são tirados da segunda parte e têm como ideia que se repete a fé no Filho como fonte da vida. A missão do Filho é realizar o projeto do Pai; e o projeto do Pai é a salvação da humanidade. Este é o objetivo último da encarnação (Jo 1,14) e da morte-ressurreição (Jo 19-20) de Jesus. Significa que toda a vida de Jesus está marcada pelo desejo do Pai de dar a vida eterna aos seres humanos. Quem decide se este desejo do Pai se realizará ou não é a própria pessoa, que pode aceitar ou não este desejo em sua vida. É o que Jesus diz no v. 16: “Pois Deus amou de tal maneira o mundo, que deu seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”
Esta ideia continua nos versículos seguintes. No v. 17, Jesus afirma: “Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio dele”. O Filho não foi enviado para julgar, isto é, condenar o mundo: o Filho foi enviado para salvar.
Esta afirmação de Jesus no faz perguntar: Então a salvação é para todos indistintamente? Jesus responde que sim, mas há uma condição, apresentada no v. 18: “Quem nele crê não é julgado; mas quem não crê já está julgado, porque não crê no nome do Unigênito Filho de Deus”. Com isso, Jesus afirma que a salvação não é o privilégio de um grupo, de uma igreja ou de um único povo: a salvação é destinada a toda a humanidade.
No evangelho de João, é muito importante o verbo pisteuo: “crer, acreditar”. Crer em Jesus não significa somente saber que ele existe e respeitá-lo; significa aderir ao seu projeto salvífico. Aderir não somente para receber a salvação; mas também para fazer a salvação acontecer hoje, por meio da prática do amor (Jo 15,12).
Portanto, “crer no Filho” não é sentimentalismo, mas um comportamento concreto: ajudar o Filho a realizar o projeto salvífico do Pai. E com isso, entramos no acontecimento que celebramos hoje: a Santíssima Trindade.
Costumamos dizer que “a Santíssima Trindade é um mistério”. A palavra mistério vem do grego mystérion, que usada para designar não um segredo qualquer, mas aquele segredo que deve ser revelado aos poucos, porque é grande demais para entendermos tudo de uma vez. Ou seja, o “mistério” é algo que sempre escapa à nossa capacidade de compreender plenamente, ele sempre reserva uma surpresa, sempre tem uma novidade guardada. O mistério pode e deve ser entendido pela nossa inteligência, só que quanto mais nós o compreendemos, tanto mais descobrimos que não cabe tudo na nossa cabeça: sempre haverá algo novo a aprender e que nunca poderemos dizer que o assunto está esgotado.
Assim é a Santíssima Trindade: ela sempre escapa aos nossos esquemas teológicos e mentais. Deus não se resume àquilo que nós pensamos sobre ele. Nicodemos estava disposto a aceitar isso: o projeto do Pai não se encaixava na doutrina dos fariseus e, por isso, Nicodemos entrou em crise e foi procurar Jesus para aprender.
E Jesus responde que só pode minimamente compreender Deus quem participa da dinâmica da vida de Deus, que é o amor. O amor das três pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo – os torna tão unidos que são um só. A Trindade é a melhor sociedade. Nós somos convidados a repetir entre nós o mesmo princípio do amor, que tornará nossa sociedade humana mais semelhante à sociedade trinitária, “para que todos tenham vida e a tenham plenamente” (Jo 10,10).

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL - ANO A

Dia: 31 de Maio de 2020

PENTECOSTES

Evangelho: Jo 20,19-23
Primeira Leitura: At 2,1-11
Segunda Leitura: 1Cor 12,3b-7. 12-13
Salmo: 104,1ab+24ac. 29bc-30. 31+34 (R. 30)

O Evangelho está dentro do chamado “Livro da Hora” (Jo 13-20). Esta parte apresenta o gênero literário “dos testamentos do judaísmo”. Este tipo de redação apresenta o discurso de despedida que um chefe de grande prestígio pronuncia em seu leito de morte, tendo como exemplos bíblicos (Gn 47,29-49,33 de Jacó; Dt 31-33 de Moisés; Js 23-24, de Josué; 1 Sm 12, de Samuel, e nos textos deuterocanônicos, em Tobias 14). Alguns elementos comuns são listados: “a evocação do próximo fim do herói”, “o futuro dos descendentes” e “providências”. No caso, o capítulo 20 deste Evangelho, estaria mais relacionado às “providências” a serem tomadas. Inicia com o relato de “quatro episódios passados em Jerusalém no primeiro dia da semana”, sendo eles: a ida de Maria de Magdala ao túmulo (20,1-10), o diálogo com Maria de Magdala (20,11-18), o envio para a Missão no mundo com o dom do Espírito Santo (20,19-23) e a dúvida de Tomé (20,24-29). O capítulo 20 e o Livro da Hora finalizam com uma conclusão sobre os sinais em 20.30-31.
Missão como ação do Espírito Santo (Jo 20,19-23)
Vejamos como se apresenta o texto:
A. Ação – Chegada do Ressuscitado no Primeiro Dia da Semana, trancados por “medo dos judeus” e primeiro anúncio da Paz (20,19).
B. Corporeidade – Mostra as mãos e o lado, provoca alegria (20,20).
C. Envio, segundo anúncio da Paz (20,21).
B’. Corporeidade – Sopro do Espírito sobre a comunidade apostólica (20,22).
A’. Ação – Saída – Perdoar ou reter os pecados (20,23).
A ação do Ressuscitado envolve, capacita e compromete. A Ressurreição não é um fato abstrato ou uma ideia. Jesus a demonstra em seu corpo! A Paz que vence o medo envolverá a comunidade apostólica que se torna portadora do Espírito que sai do Corpo de Jesus. O Espírito Santo é o Espírito da Palavra/Verbo Encarnado, Crucificado, Ressuscitado (parte A e A’).
No centro está o Projeto Missionário (v. 21). Embora em português as versões usem duas vezes o mesmo verbo: “Assim como o Pai em enviou, eu também lhes envio”; no grego não acontece assim. Para falar do envio do Pai, usa-se o verbo “apostélo” (mandar embora, enviar para um lugar, deixar a pessoa ir, dirigir-se para fora) e para nomear o “envio” de Jesus se usa o verbo “pempo” (entregar algo a ser carregado, ou enviar algo a outra pessoa). Então o sentido deste projeto é: assim como o Pai me deixou vir até aqui, eu lhes dou aquilo que meu Pai me entregou para que o levem a outras pessoas. Sentido que fecha com a teologia joanina de que Jesus é a imagem do Pai, e que a Missão de Jesus é a Missão do Pai (Jo 14,10-11; 17,21).
O Espírito Santo, não é, portanto, um outro “ser”, mas a expressão do ser do Pai no ser do Filho, pois vem de dentro do Filho. Não pode assim haver contradição entre a ação do Espírito e a ação de Jesus Encarnado/Crucificado/Ressuscitado.
O medo é provocado pela religião dominante, que é repressora e legalista (“judeus”, cf. 20,21). Do outro lado, em consequência da ação do Espírito Santo, a comunidade é empoderada! (B e B’). Agora a comunidade pode, ou não, perdoar os pecados. O empoderamento do Espírito de Jesus permite que a comunidade possa discernir, através da ação trinitária do Pai, no Filho através do Espírito, a sua atitude profética perante o “pecado”, perdoando, ou não (20,23).
Relacionando com os outros textos
Em Atos vemos o Espírito Santo que age empoderando a comunidade apostólica que pode se comunicar com pessoas de todas a etnias. A ação do Espírito derruba barreiras, mas não elimina a diversidade, pois cada pessoa ouvia em sua própria língua. Em 1 Coríntios 12 novamente o Espírito age empoderando através de diversidades de dons, mas tornando todas as pessoas um só Corpo (1 Cor 12,6.12). Quer dizer que a ação do Espírito Santo supera a religião do medo, integra a diversidade humana em uma comunhão transformadora, e leva ao mundo a ação amorosa do Pai no Filho através de comunidades apostólicas e missionárias.

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7º Domingo do Tempo Pascal – Ascensão do Senhor

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL – ANO A
Evangelho: Mt 28,16-20
Primeira Leitura: At 1,1-11
Sl 47,2-3.6-7.8-9 (R.6)
Segunda Leitura: Ef 1,17-23

Mt 28, 16-20
Mateus desenvolve o tema da aparição na Galileia em termos teológicos muito pessoais como verdadeiro epílogo não só das aparições pós-pascais, mas de todo o seu evangelho.
O Jesus que aparece sobre a montanha aos seus onze discípulos é antes de tudo o Kýrios. O termo não é explícito, mas resulta da adoração dos discípulos que se prostram diante dele (proskynéo: cf. 14,33). É o “Senhor” da Igreja, aquele que é objeto de adoração e de oração da parte dos seus discípulos. Estes formam um grupo variado (trigo e joio, peixes bons e que não prestam): “alguns, porém, duvidaram” mesmo diante do Ressuscitado. Pouca fé das pessoas de fé (cf. 14,31 onde ocorre o mesmo verbo, distázo).
Em segundo lugar, é Filho do homem investido por Deus com “toda a autoridade no céu e na terra” (cf. Dn 7,14). É o juiz escatológico, “sentado à direita do Todo-poderoso” (26,64). Mateus não cancela do seu horizonte a parusia, o retorno glorioso do Messias no fim dos tempos. Mas desde agora, isto é, da morte e ressurreição, consideradas como evento único e dotado de uma força verdadeiramente última, final, decisiva, Jesus é tal qual aparecerá ao final dos tempos.
Aparece no texto uma tarefa que antecipa o fim dos tempos: é a evangelização de “todas as nações” (28,19 → 24,14). Pánta tà éthne é uma designação standard das nações pagãs, e é claro que, para Mt, o campo missionário dos cristãos é o mundo inteiro (13,38).
Dilatação da parusia e percepção do mandato missionário universal são duas realidades corelatas.
Mas a abertura aos pagãos não ocorre conjuntamente a um fechamento da Igreja em relação ao povo hebreu (25,32).
As modalidades da missão ad gentes, do grande mandato missionário que conclui o Evangelho de Mateus, são duas: o batismo e a didaqué apostólica. Trata-se de “fazer discípulos” (matheteúo) todas as nações, batizando-as e ensinando a elas, todas as coisas ordenadas por Jesus, ou seja, evangelizando-as.
A forma trinitária do batismo é surpreendente, inusual em Mateus. O que se diz literalmente é batizar “para o nome” (eis tò ônoma) do Pai etc. É sabido que a primitiva fórmula batismal era “em nome de Jesus Cristo” (At 2,38). O batismo “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” se encontra também na Didaqué (VII, 1) e indubitavelmente confere à conclusão de Mt um andamento particularmente solene e teologicamente sintético.
Quanto à evangelização, Mt sublinha seu aspecto legal, normativo. Menciona a “observância”, o “mandato”. Não se trata somente do anúncio festivo, mas também de uma exigência pela qual não somente a Torá continua em vigor (5,17), mas o próprio ensinamento rabínico (28,20 → 23,3 onde recorre ao mesmo verbo teréo, observar).
Ao final (v. 20) aparece uma grande promessa, que é verdadeiramente a última palavra de Jesus: “Eu estou convosco”. Não somente: “Venho muito em breve” (AP 22,20). Mas “Eu já estou convosco”. Todos esses dias que vivemos na expectativa são já preenchidos por uma presença. A linguagem usada aqui por Mt é aquela da aliança do “Deus conosco” que inaugura o relato desde a anunciação (1,23) e vem retomada numa síntese maior ao final do Evangelho.
Se relacionarmos início e fim do Evangelho de Mateus percebemos que vida inteira de Jesus é uma profecia da nova aliança e da permanente presença de Deus na história humana, que se atualiza com a ressurreição de Jesus e se exprime na promessa do Ressuscitado à sua Igreja, com a qual conclui o Evangelho: “Eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos”.
Esta grande inclusão entre o início (1,23: meth’ hemôn, conosco) e o final do Evangelho (28,20: meth’ hymôn, convosco) é eloquente. A ressurreição de Jesus universaliza (todas as nações) e eterniza (por todos os dias) até o fim da história a experiência de comunhão vivida por ele, “Deus conosco”, junto aos seus discípulos.
A experiência do Ressuscitado que Mateus nos transmite não se trata de uma aparição, ou uma ocasional cristofania, nem tampouco se relaciona com a parusia. Trata-se de uma presença discreta e silenciosa que nos acompanha por todos os dias de nossa vida. Jesus ressuscitado e sentado à direita do Pai é presença de Deus na história do mundo.
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6º Domingo da Páscoa - 17/05/2020

SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL - ANO A
Evangelho: Jo 14,15-21
Primeira Leitura: At 8,5-8.14-17
Segunda Leitura: 1Pd 3,15-18
Salmo: 66,1-7.16.20

Evangelho: Jo 14,15-17
1 – Situando o texto
A perícope tem duas partes: a) vv. 15-17; b) vv.18-21.
a) vv.17-17: É clima de despedida física de Jesus. A obra iniciada por ele continua nos discípulos que amam. Eles receberão do Pai, o “outro Paráclito” que pode ser traduzido por ajudante, assistente, sustentador, protetor, advogado, procurador, animador, iluminador. Este Espírito da verdade torna a comunidade viva e a torna atual na história. Desta forma, os que guardam os mandamentos de Jesus, pelo Espírito permanecem nele que permanece no Pai. Em outras palavras, naqueles que guardam os mandamentos, a obra de Jesus estará presente de forma renovada, através do Paráclito. Não é menos real estar na comunidade de fé pós-pascal, do que estar fisicamente com Jesus, como estiveram seus discípulos.
Amar a Jesus e guardar seus mandamentos é a nova versão do que se lê em Ex 20,6; Dt 5,10 e principalmente em Dt 6,4ss. e Dt 7,9, onde sempre se une o amor a Deus com a observância dos seus mandamentos.
Quando Jesus diz: “um outro Paráclito” entende que o primeiro Paráclito é o próprio Jesus (cf. 1Jo 2,1). Quando este se retirar de forma física, o outro o trará de volta junto com o Pai para fazer morada nos que observam seus mandamentos, o que lembra Ez 36,26s. Ele vem em lugar de Jesus, mandado pelo Pai, para auxiliar a comunidade de fé.
b) vv18,21: A nova vinda de Jesus (v.18) não se reporta a vinda escatológica, no fim dos tempos como em Mc13,26, mas já na história. Ou seja, a Igreja animada pelo Espírito terá sempre a presença de Cristo, mas não de forma física. Assim como o ressuscitado se manifestou à comunidade reunida (Jo 20,19.26), ele estará sempre com os seus, como também atesta Mt 28,20: “eu estou convosco todos os dias até o fim dos tempos”. Nesta vinda, no período pós-pascal, o mundo não o verá, pois sem o amor e a observância, a ausência física significa o fim. O amor e a observância dos mandamentos pelos discípulos, no entanto, tornam Jesus novamente presente. Assim, pela fé, depois da páscoa, os discípulos participarão da vida de Jesus e nele viverão. O mundo não o verá, pois só pelo amor e pela observância isto será real. Naquele dia (v.20), depois da páscoa, reconhecerão que Jesus está no Pai, nos discípulos e estes em Jesus. Como consequência do amor a Jesus, o discípulo será amado pelo Filho e pelo Pai e receberá a manifestação dele.
Resumindo: Jesus legou à sua comunidade o mandamento do amor. Para permanecer fiéis neste mandamento, ele foi o apoio da comunidade em sua vida terrena. Agora, porém, na sua ausência física, um outro Paráclito ajudará a comunidade a vivenciar estes ensinos de Jesus. O Pai, atendendo ao pedido do Filho, enviará este Espírito da verdade para continuar o que ele iniciou. Este Espírito não é conhecido pelo mundo, apenas pelos discípulos, pois permanecem em Jesus.
A comunidade não ficará órfã, pois o ressuscitado virá de uma nova maneira de estar com os seus que só se pode conhecer pela fé. Pela fé se participa desta vida nova, já aqui e agora. Assim, no ressuscitado a escatologia já se realiza na história, uma vez que os discípulos saberão que Jesus está no Pai, os fiéis estarão em Jesus e Jesus neles. A verdadeira experiência da ressurreição antecipa a experiência da Trindade na história e é uma antessala da escatologia. Quem pratica os mandamentos de Jesus e o ama, se reencontra com Cristo vivo no tempo pós-pascal, mesmo antes do fim dos tempos.
2 – Relação At 8,5-8.14-17
A comunidade cristã original era formada somente por judeus. Aos poucos a Igreja se expande e ultrapassa as fronteiras, chegando à Samaria e outras nações (cf. At 1,6-8). Isto é obra do Espírito Santo, como visto no evangelho. Também na Samaria e nas demais nações, o Ressuscitado se torna presente pelo testemunho dos discípulos e do Espírito Santo, ou seja, a Igreja se torna real onde for levado o anúncio, onde as pessoas se convertem ao amor, aos mandamentos pela ação do Espírito.

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL – ANO A
QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM
Evangelho: Mateus 5,13-16
Primeira Leitura: Isaías 58,7-10
Segunda Leitura: 1 1Cor 2,1-5
Salmo: 111 (112)

O Evangelho
A comunidade de Mateus sistematiza este Evangelho sob o impacto da dura repressão romana contra a revolta judaica que provocou a destruição definitiva do Templo de Jerusalém e a morte de praticamente todas as outras testemunhas do ministério público de Jesus em 70 d.C..
O conjunto de Mt 5,13-16 é o chamado “Sermão do Monte ou da Montanha” (cf. Mt 5,1). Dentro dele é uma sessão introdutória do mesmo, junto com as chamadas “bem-aventuranças” (5,3-16). Segue uma releitura sobre a “Lei” (5,17- 6,18), ou “da justiça cristã”; os princípios do seguimento ou do discipulado (6,19-7,12) e um tríplice aconselhamento (7,13-27). Sendo que 5,1-2 e 7,28-29 são marcos deste resumo. No centro está o novo discipulado!
Estrutura do texto em si e seus desdobramentos hermenêuticos
O texto é formado por duas afirmativas independentes que tem a mesma estrutura, como se fossem provérbios:
a – Vocês são… (5,13a e 14a).
b – Apresentação da afirmativa pela sua negação (“se o sal perde o gosto”, 5,13b; “Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte, nem se ascende um lampião para coloca-la debaixo da mesa”, 5,14b-15).
c – Mandamento (apenas relativo à luz) em 5,16.
Questões levantadas:
O Sal é dado como certo. O simples seguimento de Jesus – sem fazer mais esforço – parece ser suficiente para outorgar sabor à terra (aqui interpretada como “país”, “espaço comum”). A Luz não é para a “terra” e sim para a “humanidade” e deve ser revelada na nova “práxis”.
Interpretação a partir do contexto da comunidade de Mateus:
Estas pessoas sentem-se perseguidas e maltratadas – que viu isso acontecer durante a dura repressão do império romano e com a traição das lideranças do próprio povo – assim como aconteceu com as pessoas que profetizaram antes de Jesus (cf. final das “bem-aventuranças”, em 5,11-12).
Estas pessoas se sentem deslocadas das tradições antigas – que levaram à violência e à morte – embora ligadas a elas pela história em comum (conforme as perícopes subsequentes, dos “ouvistes”, em 5,17-48).
Ser Sal e Luz faz resgatar a profecia e dar um novo significado à tradição. Sal é presença profética no espaço da sociedade, na vida da terra, dar sabor à criação. Luz é a nova práxis da comunidade que mostra o novo caminho para a humanidade.
Primeira leitura (Is 58,7-10) e sua conexão com o Evangelho
O contexto literário desta leitura é um dos mais belos textos do Primeiro Testamento, chamado “Trito-Isaías” (Is 56-66). Assim como no caso do Evangelho, este texto não faz parte do centro do livro, tendo um caráter introdutório. Esta obra também propõe uma nova práxis que seja capaz de gerar uma nova realidade para o povo que estava voltando do Exílio na Babilônia (entre 592 e 538 a.C.). Possivelmente esta obra escrita por gente jovem que projetava junto com Deus uma nova vida onde seriam superadas todas as mazelas do passado.
O Lecionário, corta uma perícope que inicia em 58,3b respondendo a duas perguntas feitas para Deus: “Por que jejuamos e não atendes? Porque afligimos nossas almas e não o levas em conta?”. Depois de denunciar que, estas mesmas pessoas que perguntam, promovem a violência, oprimem e exploram as pessoas que trabalham para elas, o texto apresenta o que chamaríamos do “verdadeiro jejum” (cf. 58,6 “porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as amarras da injustiça (…) livres as pessoas oprimidas e quebres o jugo?”).
O versículo 7 indica então a nova práxis, a mesma recomendada pelo Evangelho, “que repartas o teu pão com quem passa fome, que dês abrigo a quem não tem teto, que vistas quem está nú, e não te escondas de teu semelhante”).
O versículo 8 indica que só assim a luz deste povo de Deus poderá ser vista (no centro da afirmativa). Encerra, então, com a reafirmação de que a justiça para com as pessoas “famintas” (como representação de todas as pobres e excluídas das condições mais básicas) é a fonte da luz que resplandece sobre as trevas.
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL ANO A

Dia:10/05/2020
5º Domingo da Páscoa
Evangelho: Jo 14,1-12
Primeira Leitura: At 6,1-7
Segunda Leitura: 1Pd 2,4-9
Salmo: Sl 32,1-2. 4-5. 18-19 (R.22)

Evangelho
O evangelho deste domingo é uma mensagem de encorajamento: Jesus convida seus discípulos a permanecer fiéis e não temer. É um diálogo que deve ser lido frase a frase.
A afirmação inicial de Jesus é enigmática: “Credes em Deus. Crede também em mim!” (Jo 14,1). O texto grego usa o verbo pisteuete, que pode ser tanto o indicativo presente como o imperativo. Jesus pode estar dizendo: “Acreditem em Deus, acreditem em mim também”, ou “Vocês acreditam em Deus e acreditam em mim também”, ou “Vocês acreditam em Deus e, por isso, acreditem em mim também”. Normalmente, as nossas Bíblias seguem esta última interpretação: a fé em Jesus é consequência natural da fé em Deus Pai e, portanto, a comunidade é convidada a não esmorecer.
“Na casa de meu Pai há muitas moradas” (v. 2): A expressão “cada do pai” designa não só a construção, mas também a família que mora nela: o pai, a mãe, os filhos homens casados com suas esposas, as moças solteiras, os adolescentes e as crianças. A moça, quando se casava, ia morar na casa do pai do esposo. Por isso, a construção precisava ser grande suficiente para todos caberem lá dentro. E, obviamente, cada pequeno subnúcleo familiar, com suas próprias dependências, suas “moradas”.
Sobre este pano de fundo, podemos compreender a promessa que Jesus faz nos vv. 2-3: como um filho que tem autoridade na casa do Pai, Jesus vai preparar as moradas de seus discípulos, de modo que todos tenham vida e dignidade garantidas.
Jesus continua e afirma: “E para onde eu me dirijo, vós conheceis o caminho” (v. 4), mas Tomé nega ter tal conhecimento: “Não sabemos para onde te diriges. Como podemos saber o caminho?” (v. 5). Por essa pergunta e pelo episódio da aparição do ressuscitado (Jo 20,19-29), Tomé ficou com a fama de ser teimoso. Mas será mesmo? Ou Tomé é apenas o personagem que faz as mesmas perguntas que nós faríamos se estivéssemos no lugar dele?
A pergunta de Tomé é clara e natural: se você não sabe para onde alguém vai, como você pode saber também o caminho? Jesus responde a Tomé, dizendo que vai para o Pai. Não mais o espaço físico, e sim a pessoa: o Pai é o “lugar” em que Jesus está (vv. 3 e 10-11).
Se o Pai é o destino, só Jesus é o “caminho” para chegar lá: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (v. 6). A verdade designa a realidade divina enquanto se manifesta e pode ser conhecida pelas pessoas. O que percebemos desta verdade divina é o amor sem limite. Portanto este amor é a verdade de Deus. O caminho é o meio para se chegar ao objetivo: a vida. Jesus é o único caminho porque com sua vida e morte mostra a todos que ele é quem pode comunicar a vida plena. Esta afirmação de Jesus corresponde ao pedido do Sl 43,3: “Envia tua luz e verdade: elas me guiarão… até as tuas moradas”. Jesus é a luz e verdade que nos conduz (caminho) até casa do Pai, onde está preparado o nosso lugar na qualidade de filhos e filhas.
Tomé não é o único a ter dúvidas. Também Felipe, que diz: “Mostra nos o Pai e para nós é suficiente” (v. 8). Felipe parece estar pedindo uma teofania exclusiva ao seu grupo. Este tipo de desejo também é comum nos dias de hoje: muitas pessoas querem, de modo privilegiado, ver o poder de Deus.
Jesus responde questionando a lerdeza de Filipe: “Há tanto tempo estou convosco e não me conheces? “(v. 9). Conhecer e reconhecer Jesus não é ação do intelecto, mas a experiência pessoal e comunitária do Cristo ressuscitado. Por isso, Jesus continua: “Quem me vê, vê o Pai.”
O último versículo que lemos nesta liturgia é uma promessa: “Em verdade, em verdade eu vos digo: quem crê em mim fará também ele as obras que eu faço e fará maiores do que essas, porque vou para junto do Pai” (v. 12). Isso significa que as ações de Jesus foram só o começo: as comunidades cristãs dão continuam, prolongam e alargam a prática de Jesus quando dão testemunho fraterno e anunciam o Reino de Deus.
A resposta de Jesus a Felipe e a promessa subsequente deveriam nos questionar: nossa prática ajuda ou atrapalha as pessoas a verem Deus? As pessoas com quem convivemos “veem Deus” nas nossas ações e em nossas atitudes? Nossas comunidades dão verdadeiro testemunho de que encontraram o caminho para a verdadeira vida?

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL
ANO A

Dia: 03 de Maio de 2020
4º DOMINGO DA PÁSCOA
Evangelho: João 10,1-10
Primeira Leitura: Atos 2,1.4a. 36-41
Segunda Leitura: 1 Pedro 2,20b-25
Salmo: 23,1-3a.3b-4.5.6 (R.1)

João 10 é bem conhecido pelo peso teológico que tem a imagem do “Bom Pastor” (10,11). Mas, há outra imagem menos celebrada de Jesus dentro deste texto, a qual é a imagem central nestes primeiros dez versículos. A partir da figura do “aprisco” ou “curral”, Jesus se apresenta como “a porta”. Como veremos no comentário, esta imagem cristológica representa uma ênfase dentro da grande mensagem do novo pastorado proposto por este Quarto Evangelho
O texto dentro do Quarto Evangelho
O texto se situa no chamado de “Livro dos Sinais” (1,19-12,50). Dentro desta parte, podemos situá-lo no conjunto formado pelos capítulos 7 a 12 que é marcada por controvérsias com a teologia dos teólogos de Jerusalém, que é denunciada através da acusação aos “ladrões” e “assaltantes” (10,1.8) em oposição àquele que pastoreia e que dá vida em abundância (10,10).
Tecido do texto: a nova porta que supera a velha religião excludente.
O texto de João 1,1-10 apresenta num tecido cuidadosamente entrelaçado ao redor da imagem da porta que aparece nos versículos 1, 7 e 9. Assim podemos estruturar a parábola em três etapas:
1ª Etapa – A falta de percepção por parte da comunidade de Jesus sobre o sentido da porta que leva ao novo pastorado, distinto dos pastorado dos ladrões, assaltantes e estranhos (v. 1-6).
2ª Etapa – “Jesus, pois, lhes afirmou de novo (…) eu sou a porta” (v.7) e nova denúncia de ladrões e assaltantes (v.8).
3ª Etapa – O “Eu Sou” através da imagem da porta, traz vida em abundância e supera definitivamente o sistema “ladrão” (v. 9-10).
O que se quer afirmar é a nova proposta oferecida por Deus em Jesus (“Eu Sou”) resgatando, nesta linguagem, a apresentação de Javé a Moisés no Êxodo (3,14). A apresentação que caracteriza o Quarto Evangelho (“Eu Sou”) aqui se aplica a um conflito com “todos os que vieram antes de mim” (v.8a). Estes são os “judeus” como religião dominante que não aceita o caráter inclusivo das novas comunidades do amor onde pessoas também judias, junto a samaritanas e de outros povos. Este sistema religioso dominante é acusado de usar a fé para roubar a vida do povo. É uma apropriação sutil, porque as pessoas que seguiam Jesus, mesmo excluídas pela religião dominante, tinham dificuldade de entender o sentido da parábola (v.6). A nova “voz” do pastor acolhe cada pessoa pelo seu nome (que na antiguidade significa sua identidade completa, todas suas características) e por isso essa voz é reconhecida e seguida. Assim, o texto proclama uma nova porta de entrada para a vida a partir de Deus revelado em Jesus.
Relacionando com os outros textos
Esta nova porta de uma fé que acolhe todas as pessoas, em oposição à fé que exclui e discrimina, se manifesta publicamente, para todas as pessoas, através do Espírito Santo (Atos 2,1-4a). Jesus, o crucificado pela aliança entre a religião dominante e o poder dominante, segundo o discurso de Pedro (2,36), oferece agora uma nova porta de entrada através do batismo por, onde todas as pessoas podem entrar, e onde todas tem a mesma dignidade como filhas e filhos, portadoras e portadores do mesmo Espírito Santo. Já a Primeira Carta de Pedro, dirigida às pessoas “sem teto”, refugiadas, perseguidas, lhes anuncia que, em Cristo, o Crucificado “em nosso lugar” (1 Pe 2,21b) pode-se viver a justiça. E que, embora sofrendo a exclusão pelo poder dominante, elas são “ovelhas” deste Cristo que é “bispo e pastor” de suas vidas!

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF
Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló
Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE FRANCISCNA
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL – ANO A
26 de abril
TERCEIRO DOMINGO DA PÁSCOA
Evangelho: Lc 24,13-35
Primeira Leitura: At 2,14.22-33
Sl 16,1-2a.5.7-8.9-10.11
Segunda Leitura: 2Pd 1,17-21

Nesta “aparição de reconhecimento” Lc recapitula os temas mais significativos do seu evangelho em uma densa síntese catequética de caráter narrativo. Ilustra como na comunidade se possa experimentar a presença do Cristo ressuscitado com a leitura das Escrituras e a Eucaristia.
As articulações principais do texto são duas: dois discípulos se afastam de Jerusalém (v.13-24); reconhecimento de Jesus ao partir o pão e regresso a Jerusalém (v. 25-35).
A conversa revela atitudes típicas de expectativas populares.
v. 13-14 Os dois não pertenciam ao grupo dos “onze” (v.33). Regressavam a Emaus. Somente Lc menciona a missão dos setenta e dois discípulos próximos a Jesus (10,1-12). Um dos discípulos é chamado Cléofas, o outro (outra?) é anônimo. Quase como se Lc quisesse convidar-nos a identificarmo-nos com este/a outro/a discípulo/a.
v. 15-17 Jesus se aproximou dos dois discípulos sem ser reconhecido. O seu corpo, ainda que real, estava espiritualizado. A tristeza dos dois discípulos exprime o fracasso das suas expectativas messiânicas. A crucificação significava para eles o fim de toda esperança.
v. 18-21 A expressão “profeta poderoso em obras e palavras” alude ao profeta equiparado a Moisés (Dt 18,15; At 3,22-23). Cléofas, com suas palavras (v.20) antecipava o primeiro elemento do kerygma apostólico (1Cor 15,3-5), mas omitia a parte mais importante, deixando de lado a ressurreição de Jesus (v.21): tudo indica que se considerava definitiva a morte.
v. 22-24 Os dois discípulos conheciam o relato da descoberta do túmulo vazio da parte de algumas mulheres, confirmado por “alguns dos nossos” referente à visita de Pedro (v.12). A descrição tipicamente lucana da “visão (optasía) de anjos a declararem que ele está vivo”, coloca em destaque a novidade da vida do Ressuscitado, bem diferente daquela de um cadáver reanimado.
v. 25-27 Lc ilustra pela boca de Jesus como experimentar-lhe a presença através das Escrituras e da Eucaristia. Jesus critica esses discípulos por serem desprovidos de “inteligência” (anóêtoi) e de rapidez “no coração” (kardía), focando assim o lado intelectual e emocional da fé.
Partindo de Moisés e dos Profetas, “interpretou-lhes” as Escrituras no que dizia respeito a ele. Temos aqui a legitimação da peculiar leitura cristã do AT, o tema implícito da Escritura judaica é Jesus.
Note-se o verbo diermêneusen (interpretou-lhes) cognato da palavra “hermenêutica”.
v. 28-30 O evangelista sugere que para entrar em comunhão com Jesus é necessário rezar. Os dois discípulos convidam Jesus com uma súplica, “Fica conosco”. Jesus se faz presente em vários modos na comunidade, com a escuta da Palavra, a acolhida aos pobres, aos forasteiros, mas, sobretudo, na eucaristia. “E ele entrou para ficar com eles”, colocando-se todos em torno à mesa. Estas expressões revelam a experiência forte do encontro com o Ressuscitado.
Dois aspectos aparecem intimamente unidos no relato. Por todo o Evangelho de Lucas, a comensalidade é vista como teste decisivo da solidariedade social. Comer juntos significa que um laço permeava profundamente todos os participantes. Nos v. 30 e 35 a linguagem lucana, ao empregar o termo técnico “fração do pão” que retomará em At 2,42, aponta sem dúvida para a eucaristia.
Com conotações eucarísticas óbvias, a refeição conduz também a um acontecimento chave de interação social, levando a concluir que o Messias ressuscitado e seus seguidores estão unidos. A conclusão retoma o ponto central da narrativa: o reconhecimento do Ressuscitado na fração do pão.
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Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana:
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL
ANO A
19 de abril – SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA
Evangelho: Jo 20,19-31
Primeira Leitura: At 2,42-47
Segunda Leitura: 1Pd 1,3-9
Salmo: 118,2-4.13-15.22-24

Jo 20,19-31 – Situando o texto
Pode-se dividir o texto em três partes: 1) a Igreja que faz a experiência do Ressuscitado (vv.19-23); 2) Tomé: a crise de fé (vv.24-29); epílogo (vv.30-31).
1) Experiência do ressuscitado (19-23). A comunidade se reunia domingo (1ºdia) de tarde para a celebração. Embora se tratasse de uma Igreja medrosa, pois estava com portas fechadas, é neste ambiente que o Ressuscitado se manifesta. Ele está presente, não mais na forma física, pois passa pelas portas fechadas; embora ao mostrar as chagas atesta ser o mesmo que passou pela cruz. Deseja a paz e agora que a fé está madura, começa a missão: “como Pai me enviou, eu vos envio”. Para tanto, os discípulos são batizados no Espírito (sopro que lembra a criação – Gn 2,7; Ez 37). O Espírito vem do sopro de Jesus e recria a comunidade dos apóstolos para a missão. Eles têm, no Espírito, o poder de perdoar e reter os pecados. Trata-se de pregar e denunciar, mas também de receber de volta aquelas pessoas que se afastaram de Jesus, o que na concepção joanina é o pecado por excelência.
2) Tomé e a crise de fé (24-29). Ao que parece, todos os discípulos tiveram crise de fé, não apenas Tomé. Pode-se perceber isto em Mc 16,14, quando o Ressuscitado lhes censura a incredulidade. Em Mt 28,17 se afirma que, diante do Ressuscitado, alguns tiveram dúvidas e em Lc 24,38 se esclarece que, novamente Jesus questiona o porquê da perturbação diante da ressurreição.
Em Jo 20,24-29, como também nos sinóticos, está um retrato falado das comunidades cristãs do período pós-pascal, entre fiéis que não conheceram o Jesus histórico. Muitos se questionavam: ele de fato está vivo? João centra as dúvidas das comunidades na pessoa de Tomé. Este, como tantos outros, não acreditava no testemunho da comunidade. Queria ver e tocar.
João, através do relato, mostra que a experiência do Ressuscitado é feita na comunidade que se reúne no primeiro dia da semana: domingo vv.19.26). É lá que a fé amadurece e se solidifica. Trata-se de uma Igreja reunida em eucaristia, mas medrosa, pois as portas estão fechadas. O Ressuscitado lhe traz a paz e envia seus membros para dar continuidade à sua missão. Estar em comunidade, no primeiro dia é fundamental para crer na ressurreição. Tomé não estava na comunidade, por isto teve de esperar mais oito dias, portanto, novamente o primeiro dia e estar com a comunidade, para enfim, fazer a experiência de fé que os demais já haviam feito antes.
Mais do que pensar em Tomé, convém aqui pensar nos leitores do quarto evangelho, dos anos 90. O texto quer conscientizar que é preciso crer sem ter visto, mas para isto, duas coisas são necessárias: a comunidade e a celebração no primeiro dia. É neste ambiente que os discípulos, assim como Tomé, encontrarão o Cristo Ressuscitado. É neste contexto que Tomé faz a grande profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus”. Na comunidade celebrativa se professa Jesus como o Senhor e Deus. Tomé, como os cristãos das comunidades joaninas, devem passar do ver, para o crer sem ter visto.
3) Epílogo (30-31). Provavelmente a conclusão original da obra de João, antes do acréscimo do capítulo 21. Apresenta a ação de Jesus, para que a comunidade creia e receba a vida eterna.
Relação com At 2,42-47
A experiência do Ressuscitado foi a base de uma nova sociedade. Ou seja, ela transformou a vida dos fiéis. Por isto mesmo, os que acreditavam eram assíduos ao ensino dos apóstolos (palavras de Jesus, a base doutrinal), à comunhão fraterna (partilha dos bens), à fração do pão (refeição, eucaristia) e às orações.
Os que faziam a adesão ao Cristo Vivo, nas comunidades pós-pascais se transformavam em novas criaturas. Por isto mesmo, os de fora, vendo a vida exemplar, na alegria da partilha, da fé e da oração, se sentiam contagiados a também viver este modelo. Foi assim que a comunidade exercia seu zelo missionário: fé e exemplo de vida.

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL
ANO A

Dia 12 de abril
Domingo de Páscoa
Evangelho: Jo 20,1-9
Primeira Leitura: At 10,34a. 37-43
Segunda Leitura: Cl 3,1-4
Salmo: 117,1-2. 16-17. 22-24

Evangelho
Os relatos joaninos da ressurreição e das primeiras aparições é composto por dois quadros. O primeiro no capítulo 20 e o segundo no capítulo 21. Cada um deles, por sua vez, é composto por várias cenas. Na liturgia de hoje temos a primeira cena: Maria Madalena e os dois discípulos no sepulcro.
O Relato inicia com Maria Madalena nos vv.1-2a, mas o foco da narrativa está voltado para os dois discípulos que correm até o sepulcro.
O primeiro dia da semana (v.1): No Quarto Evangelho, a ressurreição de Jesus é uma nova criação. A primeira criação terminou em 19,30: Está consumada. Começa agora um novo ciclo. – ainda estava escuro: Literalmente: “ainda havia trevas”. É uma escuridão cronológica (o sol ainda não tinha nascido) ou espiritual (Madalena ainda não tinha experimentado a ressurreição e tudo para ela estava escuro, triste e sem perspectivas) ou ideológica (as “trevas”, no Quarto Evangelho são as forças contrárias à verdade e à vida: as forças ideológicas da morte ainda parecem ter vencido) ou criacional: as trevas cobriam o abismo; cf. Gn 1,2)? Talvez um pouco de tudo. Podemos considerar ainda outra referência: Cântico dos Cânticos 3,1: em meu leito, pela noite, procurei o amado de minha alma. Procurei-o e não o encontrei! Pelas ruas e pelas praças… não o encontrei.
Vai a Simão Pedro e ao outro discípulo, que Jesus amava (v.2): É só no Quarto Evangelho que estes dois discípulos vão sozinhos ao sepulcro. O querigma oficial fala da aparição a Pedro, mas não que ele estava acompanhado quando foi ao sepulcro vazio.
O outro discípulo correu mais depressa (v.4): O “outro discípulo” é aquele que está na origem da tradição joanina. Notar, quem ama corre mais depressa e chega na frente. O discípulo sabe que o líder do grupo dos apóstolos é Pedro e respeita sua liderança, por isso não entrou mas esperou Pedro.
Nos vv.5-6a não precisamos exagerar em um contraste entre igreja carismática: o outro discípulo e igreja hierárquica: Pedro. Nem precisamos exagerar a posição de Pedro, vendo aqui o primado papal. O acento é: quem ama chega primeiro, mas sabe respeitar quem precisa começar a fazer a experiência com o amado.
Vê os panos de linho por terra e o sudário… enrolado em um lugar à parte (vv.6b-7): O sepulcro é descrito como um quarto nupcial: a vida e a fecundidade que anulam a morte. O fato de o lenço que cobria a cabeça estar enrolado a parte, para alguns indica que não foi obra de um ladrão. Mas é considerado também uma alusão ao véu que cobria o rosto de Moisés depois que falava com Deus (Ex 34,33). Segundo Paulo (2Cor 3,7-18), o véu que escondia a glória de Deus foi removido por Cristo: enrolado em um lugar à parte.
Viu e creu (v.8): Devemos notar a relação entre ver e crer. É uma visão apenas física ou uma descoberta espiritual? É a segunda vez que o outro discípulo vê (v.5), e Pedro também vê (v.6). Essa segunda vez é a visão da fé. Mas, como explicar o v.9?
Ainda não tinham compreendido (v.9): O texto parece dizer que “até aquele momento, ainda não tinham entendido que, segundo a Escritura, Jesus deveria ressuscitar.
Os discípulos foram de novo para casa (v.10): Mas não anunciam o que viram, nem conversam entre si sobre o acontecido. Não basta saber que Jesus está vivo, é preciso fazer a experiência dele presente.
Salmo117,1-2.16ab-17.22-24 (118)
Neste domingo, com o salmista cantamos a vitória sobre a morte. O salmo 117 (118) é uma ação de graças que a liturgia relê à luz dos acontecimentos que hoje celebramos: Jesus rejeitado e exaltado, morto e ressuscitado. Deste modo, somos convidados a renovar nossa esperança na vitória da vida sobre a morte em nosso tempo e em nosso país.
Os vv.22-24 fala da obra maravilhosa de Deus: a pedra rejeita se tornou a pedra principal, a coluna que sustenta a casa. Na releitura cristã deste salmo, a pedra principal é Jesus, o Messias Filho de Deus, vencedor do pecado e morte, que é a pedra angular para vida do mundo, a “casa comum”, como nos recorda o Papa Francisco.

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL – ANO A
PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA
Evangelho: Mt 4,1-11
Primeira Leitura: Gn 2,7-9; 3,1-7
Sl 51,3-4.5-6a.12-13.14.17 (R.Cf.3a)
Segunda Leitura: Rm 5,12-19

Mt 4,1-11
Mateus estrutura seu relato em três partes: apresenta os atores (v.1-2), narra a tríplice tentativa de Satanás (v.3-10), e a conclusão (v.11).
Os personagens são: o Espírito, Jesus, Satanás, os anjos. O relato inicia com o Espírito conduzindo Jesus ao deserto e conclui-se com a presença dos anjos servindo-o. No centro da narrativa, Mateus apresenta as tentações de Jesus.
A mensagem teológica é percebida no significado messiânico da tentação, secundariamente na sua valência exemplar para cada cristão. Resumidamente, Jesus rechaça a submissão dos poderes espirituais aos fins terrenos; não aceita pleitear milagres divinos para se salvar; e a servir Satanás para dominar o mundo. Ou seja, a afirmação central do relato é a recusa do messianismo terreno.
Jesus, em Marcos é “impelido” ao deserto pelo Espírito, em Mateus ele é “conduzido”, “transportado”, o verbo indica um movimento em direção ao alto.
“Diabo” é uma palavra grega (diábolos) que substitui a expressão mais antiga “Satanás” (ha-satan, “o adversário”, em hebraico quase sempre com artigo). Diábolos quer dizer “aquele que divide”, ou melhor, “aquele que distrai”, que separa de Deus. É o exato contrário de sýmbolos, que designa uma realidade que une, que junta. Mateus o chama também “o tentador” (ho peirázon: v.3).
“Tentar” significa também “provar”, “examinar”. Diversos foram os tentadores de Jesus durante sua vida (16,1; 19,3; 22,18.35), a narrativa de Mt 4,1-11 fornece o escopo dessas diversas tentações. Segundo o NT emerge que Jesus tenha sido posto à dura prova durante toda a sua existência. Hb 4,15 vai resumir dizendo: “passou pelas mesmas provações que nós, com exceção do pecado”.
A narração dá a impressão de um debate bíblico entre Satanás e Jesus.
A sua retirada ao deserto é relacionada com o êxodo dos hebreus dos Egito e a permanência de Moisés no monte Sinai. O texto evangélico evoca as provas sofridas pelos descendentes de Jacó no deserto. As três citações se referem ao sinal do maná (Ex 16), da água (Ex 17) e ao dom da terra (Ex 23). Ora, enquanto os israelitas diante das duras provas do êxodo não souberam perseverar com confiança no socorro de Deus, Jesus se colocou à sua disposição, confiando firmemente na sua palavra.
Entre Jesus e o tentador a disputa é hermenêutica, tudo se joga sobre o “está escrito” (ghégraptai). Também o diabo conhece e cita ao pé da letra a Escritura, mas não para cumpri-la.
A primeira tentação é a do pão (v.3-4). Diante da sugestão diabólica Jesus, o obediente à Escritura, se reconhece “homem”, necessitado da “palavra que sai da boca de Deus”.
A segunda tentação é a do pináculo do templo (v.5-7). O diabo cita o Sl 91, omitindo algo. O texto integral diz assim: “Pois aos seus anjos dará ordens a teu respeito para que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te levarão nas mãos, para que teu pé não tropece numa pedra”. É o salmo que promete a cada pessoa de fé uma proteção angélica “em todos os caminhos”, isto é, na existência diária do ser humano; não uma espécie de confiança milagreira que tudo seja possível, como Satanás deseja induzir a acreditar.
A terceira tentação (v.8-10) é aquela do monte muito alto não localizado. É importante notar que para Mateus o “monte alto” é um topos literário (cf. 5,1; 17,1). Nesta terceira tentação faltam as palavras “Se és Filho de Deus”. Os reinos do mundo efetivamente estão sob o poder de Satanás, até o momento em que seja concretizada a vitória messiânica (28,18).
Concluídas as tentações, “o diabo o deixou e anjos se aproximaram para servi-lo”. O serviço dos anjos (diakonéo) no contexto de Mt está conectado com a fome de Jesus. Ou seja, lhe oferecem comida, indicando, antes de tudo, o serviço à mesa. Também Israel durante o êxodo foi assistido pelos anjos (Ex 14,19; 32,34; 33,2).
Se associarmos as tentações de Jesus ao batismo, podemos colher uma proposta de sentido para existência cristã: cada filho e filha de Deus triunfaram do demônio.
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ANO A
SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA
Evangelho: Mt 17,1-9
Primeira Leitura: Gn 12,1-4
Segunda Leitura: 2 Tm 1,8b-10.
Salmo: Sl 33,4-5. 18-19. 20+22 (R.22)
O lugar do texto dentro da narrativa da comunidade de Mateus
O texto do Evangelho segundo a comunidade de Mateus para este Segundo Domingo da Quaresma está dentro da segunda parte do Evangelho que narra o caminho de Jesus para Jerusalém apresentando a predição da sua paixão. É bom lembrar que esta comunidade é formada por pessoas refugiadas, sobreviventes da destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. Esta comunidade resgata a figura de Jesus chorando por Jerusalém e dizendo: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!”( Mt 23,37, replicada em Lc 13.34). Podemos chamar esta parte de “caminho do martírio”. Neste caminho há três anúncios da paixão que estruturam a narrativa: 16,21-13; 17,22-23; 20,17-19. Não cabe dúvida de que há uma identificação entre o sofrimento das comunidades cristãs durante a dura repressão romana contra a revolta judaica, e o caminho que leva para Cruz. O texto imediatamente anterior à perícope para este domingo adverte sobre a perseguição e morte a que estarão expostas as pessoas que seguem Jesus, e a necessidade de resistir dando a vida (16,24-28). Logo após na narrativa cura de um jovem que sofre de epilepsia se exalta o poder da fé como caminho de resistência diante das impossibilidades (20-21). Embora a narrativa da Transfiguração seja comum a todos os Evangelhos Sinóticos (cf. Mc 9,2-8 e Lc 9,28-36), aqui assume o sentido da resistência diante da repressão e a violência.
A perícope em si: questões de delimitação e estrutura
Há dificuldades na delimitação desta perícope, pois alguns comentaristas apresentam 17,1-13 como uma unidade, não subdividindo-a. A questão gira ao redor do versículo 9 que apresenta uma dificuldade particular pois é o nexo entre o que está sendo narrado nos primeiros oito versículos e o é narrado nos seguintes cinco versículos. Uma das características do grego koiné é levar adiante a narrativa usando o vocábulo kai (e, então). Encontramos este recurso no início dos versículos 1,2 e 3, depois reaparece no 5b, 6,7 e 9, 10.
Portanto, os versículos 4 a 5ª, e se tomarmos todo o texto até 13, os versículos 11 a 13, são paradas na narrativa. O versículo 4 começa com a palavra apocriteis geralmente usada com o sentido de “responder” (cf. Mt 3,15;4,4;8,8;11,4.25;12,38.39.48; 13,11.37 e muitos outros); inclusive em relação a respostas dadas por Pedro, como em 14,28;15,15; 16,16 e 19,27. Mas, aqui não temos uma pergunta a ser respondida. Seria esta a única vez em todo o Evangelho que esta palavra é usada no sentido de manifestar uma opinião e não responder uma pergunta? Ou o texto quer indicar que a visão mística da transfiguração era uma questão que exigia uma resposta? Vamos nos aventurar nesta última possibilidade, pois a situação vivida pela comunidade de Mateus, envolvendo perseguição e morte, certamente gerava muitas perguntas que só poderiam ser respondidas de forma correta, como diz o versículo 5b, se ouvida a voz do “Filho Amado”. De certa forma o versículo 8 deixa isso novamente claro quando, ao levantar a vista, encontram que contam apenas com Jesus. A descida do monte – no versículo 9 – como foi a subida, é apenas com Jesus, dando a pista de que as respostas estão na ressurreição. Ao descer, novas questões, e uma nova resposta de Jesus encerrando com mais um aviso da paixão. Isto é não ressurreição sem Cruz.
Pistas de interpretação da Transfiguração na narrativa da comunidade de Mateus
A Transfiguração é uma jornada de subida e descida. Temos diversas pistas do sentido do “monte” (em grego oros) neste Evangelho. O chamado “Sermão do Monte” que se inicia com as bem-aventuranças no capítulo 5, destaca estes lugares como espaços sagrados de encontro e revelação (“Vendo as multidões subiu ao monte”). Também é lugar de “retiro” de Jesus onde, seguindo a ideia de “novo Moisés” proposta por este Evangelho, recebe as instruções divinas e as repassa para as pessoas que lhe seguem (cf. 8,1 e 17,9). O que há de novo nesta narrativa é que a comunidade das pessoas que seguem Jesus está representada em João, Tiago e Pedro. Estes três discípulos representam a diversidade dentro da comunidade o que permite haver diversas percepções.
Moisés e Elias são figuras centrais na teologia de Jesus. Mas, ambas entendidas a partir da sensibilidade solidária! Há uma instrumentalização de Moisés é o instrumento de uma religiosidade hipócrita (cf. Mt 23.1-3). A presença de Moisés junto a Jesus mostra que o caminho do amor e da justiça, que passa pela Cruz e Ressurreição, é o pleno cumprimento do projeto divino do Êxodo plasmado na “lei”. Elias é ligado diretamente a João Batista (cf. 11,10-14; 17,13). Não é um profetismo abstrato, mas a ação concreta de um profeta mártir. Assim a comunidade pode se identificar com ambos: Moisés na vivência do projeto do Reinado Divino em Jesus, Elias na presença concreta de denúncia e anúncio dos sistemas anti-evangélicos (especialmente na superação da religiosidade opressora) e do projeto do Evangelho (já apresentado por Jesus no Sermão do Monte).
Conexões entre o Evangelho e os outros textos para este Domingo
O texto de Gn 12,1-4 abre a narrativa dos clãs familiares de pastores e pastoras seminômades que segue até o final do livro. Essas são também narrativas de resistência de pessoas que viviam à margem do Sistema de Produção Asiático Escravagista e suas monarquias. Deus acompanha a jornada de resistência e alimenta a esperança da vida com sua bênção, não apenas para uma família, mas para todas. No versículo Gn 12,3 a palavra bênção se repete três vezes, e a palavra usada para terra é a “adamáh”, isto é, a terra cultivável, a terra do povo camponês excluído pelo sistema.
As Cartas a Timóteo, embora não se descarte que contenham trechos escritos por Paulo, são consideradas “deutero-paulinas”, isto é, escritas como continuidade do labor missionário do apóstolo. Paulo, assim como a igreja dos primeiros tempos, sofre perseguição e morte por causa do Evangelho. A manifestação gloriosa de Deus em Cristo é vista na resistência que supera o poder da morte (2 Tm 1,10).
Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da
Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana:
Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS
PARA A LITURGIA DOMINICAL
ANO A
TERCEIRO DOMINGO DA QUARESAMA
Evangelho: Jo 4,5-42
Primeira Leitura: Ex 17,3-7
Segunda Leitura: Rm 5,1-2. 5-8
Salmo: Sl 95,1-2. 6-7. 8-9 (R.8)

Evangelho:
Rápidas observações exegéticas para uma melhor compreensão do texto. O episódio narrado em Jo 4 é fortemente simbólico. Aqui, apenas dois pontos importantes: os “maridos” da samaritana e o gênero literário “encontro junto ao poço”.
Os “maridos” da samaritana: Que significa “marido”? Em hebraico: baʽal: marido, senhor, divindade. Porém, para entender o texto, é necessário ler e compreender 2Rs 17,29-33: a Assíria invadiu o reino do Norte e promoveu uma troca de populações, com pessoas de outros povos conquistados, para destruir a identidade cultural e religiosa.
Portanto, o relato de 2Rs 17,29-33 serve de apoio para entender que a mulher não é uma adúltera nem uma prostituta: ela é a personificação da Samaria, a capital do antigo reino do Norte. Os cinco maridos não são seres humanos do sexo masculino, e sim cinco divindades cultuadas pelos povos que foram transplantados para a Samaria durante a dominação assíria.
Encontro junto ao poço: Gênero literário comum a vários relatos bíblicos, que têm o mesmo esquema: um homem chega ao poço e senta (ou deita), chega a mulher, eles conversam, ele oferece água para ela, ela volta para casa e conta sobre o encontro, ele é convidado para uma refeição, os dois se casam. Portanto, Jo 4 usa o gênero do encontro junto ao poço para descrever a acolhida do evangelho pelos samaritanos, isto é, como a Samaria “se casou” com Jesus.
Mais alguns detalhes: Além dessas observações, alguns detalhes ajudam a entender melhor a perícope.
O v. 6: “Ali se encontrava a fonte de Jacó. Jesus, cansado da caminhada ficou sentado junto à fonte…” O primeiro interesse do narrador não é pela cidade, e sim pelo poço/fonte de Jacó. Aliás, ele prefere o termo “fonte”, que tem uma forte tradição na Bíblia: o doador de um poço no deserto é o próprio Deus, e a água deste poço é fonte que sobe. Estes dois aspectos, dom e fonte, explicam perfeitamente a temática da narrativa: Jesus dirá à samaritana “Se conhecesses o dom de Deus” (v. 10) e falará de uma “fonte que jorra” (v. 14).
Jesus ficou sentado a beira do poço/fonte: ele veio ocupar seu lugar, ele é o verdadeiro manancial. Isso também sugere uma continuidade entre o presente e a experiência passada de Israel: é junto do poço patriarcal que a mulher/Samaria vai descobrir a fonte que aplaca toda sede, isto é, o Cristo.
Em tempos de misoginia e de intolerâncias religiosas, torna-se importante destacar que o diálogo de Jesus com a samaritana rompe todas as barreiras culturais daquela época. Os mestres da Lei, por exemplo, proibiam conversar com uma mulher em público, mesmo que fosse sua esposa: “Todo aquele que conversa excessivamente com uma mulher prejudica a si próprio, negligencia o estudo da Torá e por fim herdará o inferno”. Jesus conversa não apenas com uma mulher, mas com uma samaritana, população que os judeus consideravam impuros e de quem era necessário se afastar. Só pelo fato de conversar com ela, Jesus rompe as barreiras da separação religiosa e étnica.
Vv. 20-24: A expressão “em espírito e verdade” não se refere a um culto interior e individualista. O significado de “verdade” é fidelidade/lealdade; mas a palavra “verdade” é usada para dar ênfase ao primeiro substantivo: “espírito/pneuma”, que é força vital. Portanto, em espírito e verdade designa a realidade divina que se manifesta e pode ser conhecida pela humanidade. O que a humanidade percebe dela é o amor sem fim: “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho” (Jo 3,16). O amor é a verdade de Deus, e Deus é Espírito, isto é, força ativa do amor.
1ª leitura:
A primeira leitura reflete os eventos do século XIII a.C., no Egito; todavia, é um texto escrito nos séculos VI-V a.C., isto é, na chamada era pós-exílica, época na qual todo o Pentateuco foi escrito e finalizado. A redação final é obra da escola sacerdotal que coloca em um passado remoto o povo exilado na Babilônia e o retorno à terra prometida como em um novo êxodo. Na Babilônia, o povo judeu não era escravo, eram deportados; mesmo assim, muitos enriqueceram e, por isso, quando foi dada a autorização para voltarem a Jerusalém, muitos preferiram ficar na Mesopotâmia do que retornar à terra devastada.
Neste contexto, vários textos do Pentateuco são um convite ao povo para que volte o olhar para Deus e restaure o Templo e o país. Um deles é o trecho da primeira leitura de hoje: o povo exige água e ataca Moisés. É um povo vulnerável e disposto a trocar a liberdade pelas necessidades básicas: melhor ser escravo no Egito (= deportado na Babilônia) e ter água, do que ser livre (= voltar à terra de Israel) e enfrentar a seca.
A vulnerabilidade política, econômica e religiosa leva o povo a não acreditar na ação de Iahweh: “ele não tem capacidade para providenciar água no deserto”. Mas também leva o povo a não acreditar em si mesmo e na sua força, e a preferir soluções rápidas e fáceis: melhor voltar para o Egito do que lutar pela liberdade e pela vida.
Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da ESTEF
Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló
Edição: Dr. Vanildo Luiz Zugno

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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL – ANO A

QUARTO DOMINGO DA QUARESMA
Evangelho: Jo 9,1-41
Primeira Leitura: 1Sm 16,1b.6-7.10-13a
Segunda Leitura: Ef 5,8-14
Salmo: 23,1-6

O Evangelho
Já no prólogo do quarto evangelho, Jesus é apresentado como luz do mundo (Jo 1,4-9). Agora este tema é ilustrado de forma concreta. Mais do que pensar em cegueira biológica, deve-se ver no relato o confronto entre a luz (Jesus) e as trevas (adversários de Jesus: autoridades religiosas). No primeiro dia da criação, Deus criou a luz (Gn 1,3s). Mas esta luz foi ofuscada pelo pecado. A própria religião do AT era uma petrificação casuísta da Lei, da Profecia e da Sabedoria. Tudo isto deixava as pessoas na cegueira. Jesus, o logos de Deus é a luz definitiva que agora plenifica a luz iniciada no primeiro dia da criação. Em Jesus toda obra de Deus chega a sua realização total.
De acordo com Ex 20,2ss Deus castigava os pais nos filhos e netos. Os discípulos veem a deficiência física do cego como castigo de pecados, talvez praticados por antepassados deste homem. Esta visão, no entanto, é falsa. Jesus, a verdadeira luz, vem iluminar esta situação. A prática de Jesus se choca com a visão do AT. Ou seja, a Lei e a Sabedoria eram vistas como a luz dos israelitas. Mas no relato de hoje, a Lei (sábado) e a sabedoria (interpretação como castigo) são justamente o empecilho da verdade. Na realidade, são trevas e opressão. Jesus assume o lugar da Lei e da Sabedoria com sua luz e muda o cenário. Agora os representantes do AT entram em conflito com Jesus. A verdadeira luz ilumina os que a aceitam (Jo 1,11-12). A luta travada pelos representantes da Lei (sábado) com Jesus mostra a caducidade da compreensão empedernida de uma prática religiosa que já não pode iluminar as pessoas. Isto só acontece na pessoa e na prática de Jesus.
A liturgia do quarto domingo da quaresma coloca este relato, não para realçar um milagre no estrito sentido do termo, mas para preparar os catecúmenos que iriam ingressar na comunidade de fé. Todo candidato ao batismo deveria ver no relato a sua própria história. Antes da conversão era um cego condicionado por uma teologia ultrapassada (Ex 20,2ss – um Deus que castiga pais nos filhos), mas agora, mediante a palavra de Jesus, simbolizada na saliva, era recriado. A saliva de Jesus fez barro (cf. Gn 2,7), cria o homem novo e através da água do batismo (piscina de Siloé) leva o batizado a enxergar a verdade de Deus. Os novos membros da Igreja eram iluminados. Já não podiam mais estar nas trevas como antes do batismo. O evangelho os transformava em novas criaturas.
Mas agora inicia um novo capítulo: o iluminado já não é mais reconhecido e entra em choque com os valores tradicionais (sábado). Os batizados viviam novas maneiras que deixavam os de fora perplexos. Prova de que a evangelização e o batismo transformavam as pessoas. Agora, vivendo na luz de Cristo, a incompreensão se torna evidente. Os cristãos vivem na contracorrente da história. Os representantes do sábado (religião petrificada, mantenedora da cegueira) não suportam a vida nova em Cristo e perseguem os convertidos.
Relação com 1Sm 16,1b.6-7.10-13a
A lógica de Deus não é a lógica humana. Samuel tinha a missão de ungir um rei para Israel. Pensou no primogênito de Jessé, o mais forte, o mais astuto, o mais belo. Mas o escolhido foi o último, um adolescente, quase uma criança. A cegueira humana vê as aparências, julga a partir de critérios diferentes de Deus. Pedro pensava as coisas dos homens e não de Deus (Mc 8,32-33), os coríntios pensavam em milagres e belos discursos (1Cor 1,18ss), mas em todos estes acontecimentos, entra em cena a lógica de Deus que escolheu a humilde serva, menina virgem, como mãe de seu filho (Lc 1,26ss). Quem recebeu a luz de Cristo, como Samuel, como Pedro, como Paulo deve enxergar o mundo com outra luz. As pessoas verdadeiramente evangelizadas se baseiam em valores que a lógica meramente humana não consegue abarcar. Fica um apelo: o olhar cristão, iluminado pelo evangelho, pode se conformar com os valores que norteiam as relações comerciais e ideológicas deste mundo?
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL – ANO A
QUINTO DOMINGO DA QUARESMA
Evangelho: Jo 11,1-45
Primeira Leitura: Ez 37,12-14
Sl 130,1-2.3-4ab.5-6.7-8 (R.7)
Segunda Leitura: Rm 8,8-11

Jo 11,1-45
Curiosamente o sinal mais extraordinário realizado por Jesus é relatado somente por João. Surpreende o silêncio dos sinóticos sobre esse fato estrepitoso. João redige uma página estupenda de cristologia. O evangelista subordina a precisão factual da revivificação de Lázaro ao seu valor simbólico: Jesus se destaca em todo o relato; Lázaro não diz nenhuma palavra.
A estrutura do episódio: ambientação e personagens (v.1-6); encontro com Marta e Maria (v.17-27. 28-37); relato do sinal/milagre (38-44).
O centro conceitual da perícope está focalizado sobre a solene autorrevelação de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida” (v.25). Jesus se proclama a ressurreição personificada. O retorno de Lázaro à vida física assume um valor prenhe de significado: preludiava ao evento pascal e à ressurreição dos mortos, pela possessão da vida eterna. Este sinal representa o coroamento das “obras” de Jesus, Senhor da vida e da morte.
v. 3: “aquele que amas está doente”; v.36: “Como ele o amava”. O discípulo amado e Lázaro seriam a mesma pessoa?
v. 11: “Lázaro dorme”. No grego e no hebraico adormecer é um eufemismo para morrer. Mencionando sono, quando na realidade Lázaro está morto, Jo acentua o mal-entendido. Pode-se ver aqui uma sugestão de que Jesus oferece uma nova compreensão a respeito da morte.
Os v. 23-27 constituem o ponto central do relato. Jesus se apresenta como dispensador da vida escatológica comunicada desde agora aos que creem na sua palavra.
Note-se a passagem do futuro “viverá” (v.25) ao presente “vive” (v.26). No v.25 com as palavras “ainda que morra”, Jesus se refere à morte física de Lázaro, enquanto no v.26 fala da morte escatológica. Marta indica entender o verbo anastésetai (v.23) no sentido da escatologia judaica: na morte a pessoa desce ao Xeol, mas ressuscitará no último dia. Jesus ressignifica essa ideia para uma escatologia já realizada: ele mesmo é a ressurreição, anástasis (v.25). Quem nele crê já passou da morte à vida. A morte física é um fato secundário e transitório, o que importa é a vida eterna, que somente Jesus pode comunicar.
A revivificação de Lázaro constitui um sinal do poder de Jesus de doar a verdadeira vida a quantos creem no seu nome, contexto que deve ser relacionado com a realidade do fim dos tempos, quando os mortos escutarão a voz do Filho de Deus (5,25.28).
A ressurreição e a vida eterna são dons eminentemente escatológicos; no entanto são parcialmente antecipados aos que creem em Jesus. Quem está unido a ele através da fé, já participa à vida divina, que lhe consentirá de fugir da morte eterna. A resposta de Marta (v.27) representa uma profissão de fé cristológica.
O diálogo entre Marta e Jesus antes do sinal/milagre oferece a chave para avaliar a importância dos milagres: Marta confessa que Jesus é o Filho de Deus que devia vir ao mundo, antes ainda que Jesus cumpra o milagre. Por isso representa o ideal da pessoa de fé que acredita sem ter visto (1,34 e 20,29). Outros creem somente depois do milagre. A importância do sinal/milagre é confirmada por uma forte tensão literária que se exprime nas atitudes de todos aqueles que fazem parte dela: os sentimentos das duas irmãs, a comoção de Jesus, a admiração dos presentes…
Pode-se comparar, ainda, Jo 11,27 com Mt 16,16-17. Em Mateus, a profissão de fé está na boca de Pedro. Em João, a confissão de fé está na boca de Marta.
v. 28-37 A descrição do encontro de Jesus com Maria, segue em forma reduzida aquele com Marta. O verbo “consternou-se” (enebrimésato, v.33) indica a sua cólera contra os poderes da morte; “perturbado” (etáraxen heautón v.33) exprime a agitação no seu espírito e a profunda comoção diante da tumba de Lázaro. O pranto de Jesus é assinalado por Jo somente aqui e por Lc 19,41 quando chora sobre a cidade de Jerusalém.
v. 38 A tumba de Lázaro consistia numa gruta natural, fechada por uma pedra. Não existiam cemitérios públicos.
V. 41-42 A descrição do sinal é extremamente sóbria. Jo quer concentrar a atenção do leitor/ouvinte sobre seu significado cristológico. Jesus “ergueu os olhos para o alto”, um gesto habitual em Jesus (cf. 17,1; Mc 6,41) para indicar a fonte da onde provinha seu poder taumatúrgico: da comunhão de vida e unidade de ação com o Pai. Ele não o invoca para obter o milagre, mas para agradecê-lo, havendo a certeza de ser atendido: “Pai dou-te graças porque me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves” (v.41).
v. 43-44 Jesus com um comando solene (gritou) restaurou a vida física a Lázaro, como sinal do seu poder de dar a vida eterna a quem nele crê. O verbo “gritar” kraugázein, que só aparece uma vez em Mt 12,19 e uma vez em Lc 4,41, é usado seis vezes por João. Quatro dessas seis ocorrências descrevem os gritos da multidão que quer crucificar Jesus. Que contraste entre o grito da multidão que pede a morte de Jesus e o grito de Jesus que restitui a vida a Lázaro! É desconcertante a veracidade com a qual é descrita a decomposição do cadáver (v.39) e a saída de Lázaro do sepulcro, envolto em faixas e panos.
A revivificação de Lázaro evidencia a filiação divina de Jesus. A realização deste sinal constitui o ponto de partida dos vários acontecimentos que conduzirão à morte de Jesus (11,45-54), ou seja, sua glorificação na cruz. O relato no evangelho de João manifesta que a todos os que creem será oferecida a possibilidade de partilhar da sua ressurreição, visto que, pela cruz se efetivará a manifestação da glória escatológica.
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS PARA A LITURGIA DOMINICAL ANO A - DOMINGO DE RAMOS
Evangelho: Mt 21,1-11; 26,14-27,66.
Primeira Leitura: Is 50,4-7
Segunda Leitura: Fl 2,6-11
Salmos: 22,8-9.17-18.19-20.23-24 (R 2a).

A narrativa da Entrada em Jerusalém (Mt 21,1-11)
Esta narrativa é uma ponte entre o bloco de perícopes que marca o caminho para Jerusalém com seus anúncios da paixão (sendo que o terceiro e último está em 20,17-19) e o confronto entre o projeto de Jesus e os poderes de morte, este evidente nas duas perícopes seguintes (21,12-17 e 18 a 22). Embora haja um clima festivo, na narrativa se desenha o conflito, ou se abre a questão: que (rei) é este? (cf. 21.10; também presente no diálogo final entre Pilatos e Jesus, cf. 27,11). A referência direta ao “rei pobre” da profecia de Deutero-Zacarias (9,9-10), marca a tensão entre o poder representado por Jesus e os poderes presentes em Jerusalém (Sinédrio/Templo, Pilatos e Herodes Antipas/ Império).
21,1-7 – Jesus planeja a estratégia de chegada em Jerusalém e, portanto, quer intencionalmente ser esse “rei” pobre de quem fala a profecia, enquanto os discípulos são agentes da missão (muito claro no uso do mesmo vocábulo “ide” (poreuthentes) que em 28,19.
21,8-9 – Apresenta a atitude da “maior parte da multidão” (ho de pleistos oxlos), que celebra e se manifesta, mostrando que não havia uma “unanimidade”.
21,10-11 – A entrada em si, passa a sinalizar “toda a cidade” (passa polis) que questiona a mobilização popular perguntando: “quem é este?” (21,10) enquanto, do outro lado, as multidões o aclamavam como profeta (21,11).
No centro (21,8-9) está a festa e mobilização da esperança do povo gritando “hosana”! Um grito popular que expressa as dores e todos os desejos do povo oprimido. A palavra em si é uma corruptela da expressão presente no Salmo 117/118,25 em hebraico, hoshia’h na’: “Salva-nos! Liberta-nos!”. O povo pobre, o povo que busca justiça na porta da cidade, o povo peregrino, vendo a profecia sendo cumprida grita por libertação e salvação. Este é o mesmo clamor do Êxodo (Êx 2,23;3,7.9).
A primeira parte (21,1-7) mostra que Jesus tem um projeto que envolve as pessoas que o seguem como sujeitos históricos e que vai ao encontro da esperança e do clamor popular. A última parte (21,10-11) mostra que, embora os poderes dominantes (toda a cidade) questionem a legitimidade da intervenção histórico-profética de Jesus, o povo que o ocupa a cidade com ele sabe quem ele é e o que representa. O que não impede que o povo também seja manipulado durante o julgamento público (27,20).
Narrativa da Paixão e Sepultamento (26,14-27,66)
Em geral 26,14 até 27,56 é considerado um conjunto. Já os últimos dez versículos (27,57-66) seria uma narrativa a parte.
Tudo gira ao redor da forma injusta e traiçoeira como agem os poderes de morte, não apenas com Jesus, mas com todas as pessoas compradas e manipuladas. Desde esse momento a paixão de Jesus é a paixão da Igreja Profética perseguida pela causa do Evangelho.
Os últimos dez versículos 27,57-66, apresentam uma ênfase diferente. O amor e a solidariedade voltam a cena em contraste com a tortura e a violência. Na figura de um rico, religioso, convertido se mostra um novo mundo possível. Mas, o que une ambos os relatos é a presença das mulheres! Elas são o fio condutor! Elas são as grandes testemunhas e sinal da resistência (cf. 27,55-56.61 e 28,1).
Conexão com as outras leituras do Domingo
A leitura de Deutero-Isaías 50,4-7 (segunda parte do Livro do Profeta Isaías escrito no final do Exílio Babilônico; Is 40-55) é um dos Cânticos do Servo Sofredor. Esta figura foi o instrumento simbólico para articular a resistência contra os opressores babilônicos e preparar um novo tempo de consolação e vida após o exílio. O Cântico dá sentido ao sofrimento, que deixa de ser passivo para ser ativo e fermentador de uma nova realidade. São “palavras para quem sofre o cansaço” da opressão e da violência (50,4). A leitura de Filipenses é outro cântico da igreja dos primeiros tempos resgatado nesta carta paulina. Ali Jesus se esvazia de pode (kenosis) para gerar um novo povo de resistência contra a morte. Mostra como os cânticos são instrumentos poderosos de unidade e resistência, assim foi que Jesus e as pessoas que celebraram com ele a Eucaristia, saíram para enfrentar a morte! (Mt 26,30).
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SUBSÍDIOS EXEGÉTICOS  PARA A LITURGIA DOMINICAL ANO A

QUARTO DOMINGO DO ADVENTO

Evangelho:  Mt 1,18-24 Primeira Leitura: Is 7,10-14 Segunda  Leitura: Rm 1,1-7 Salmo: 23,1-6

Mt 1,18-24 está no Prólogo deste Evangelho. Embora existam diferentes interpretações da extensão deste prólogo (incluindo apenas os primeiros dois capítulos ou indo até 4,16), não cabe dúvida de que Mt 1-2 é uma unidade. O texto é uma inclusão da comunidade de Mateus que, se acredita, venha da memória ou tradição oral, isto é, da preservação da memória comunitária que proclamou a identidade de Jesus como “Cristo” (Mt 1,1 e 1,18). Outro paralelo importante entre a perícope deste domingo e a genealogia com que abre o Evangelho (1,1-17) está no uso do substantivo genesis (origem), autorizando a interpretar um texto à luz do outro. Este texto mostra como a comunidade de Mateus – formada por sobreviventes da repressão romana contra a revolta judaica de 70 d.C, em Jerusalém -  preocupa-se em afirmar que Jesus cumpre as profecias do Primeiro Testamento e que dá um novo sentido à lei (Toráh), o que alguns comentaristas qualificam como um “novo Moisés”.  O texto apresenta uma estrutura em que estas dimensões estão bem evidentes, colocando Maria e sua gravidez como centro, a partir do que tudo é transformado:

* 1,18 – Título e contexto existencial e legal em que se apresenta a gravidez de Maria e sua relação com José.

**1,19-20a – Apresenta de José – apontando para sua descendência davídica que é importante no sentido do cumprimento da profecia – e o qualifica como “homem justo”, demonstrado isto na forma digna com que pretendia resolver o problema.

1,20b-21 – Apresentação da situação de Maria em sonho, aludindo ao espírito profético transcendental – isto é, além do mero cumprimento da lei – que envolve sua gravidez e o futuro nascimento de Jesus, pela ação do Espírito Santo.

**1,22-23 – O cumprimento da profecia, seguindo a fórmula “como disse o profeta” (tou profetou legontos) igual que como o faz em 2,15.17;   3,3;4,14;8,17;12,17;13,35;21,4;27,9.

*1,24-25 – Novo contexto marcado pelo cumprimento da profecia de Jesus.

A estrutura tem como centro 1,20b-21. A ação divina tem por finalidade vencer o medo, usando a fórmula “não temas” (cf. Mt 10,26, “portanto, não tenhais medo deles”). A mudança de atitude, da situação de exclusão para o acolhimento de Maria, é o movimento pelo qual o povo pecador será salvo.  A Primeira leitura: Is 7,10-14 Este é um texto do chamado “Isaías Histórico”, cujo legado profético está fixado dentro do conjunto formado pelos primeiros 39 capítulos do livro. Isaías, que atua nos anos que antecedem ao cerco do Império Assírio a Jerusalém (701 a.C.) é uma pessoa próxima à corte e ao Templo, muito provavelmente um sacerdote e conselheiro do rei, que se pronuncia durante a reforma de centralização religiosa promovida pelo rei Ezequias (cf. 2 Rs 19,20-34). Ele é contemporâneo de Miquéias tendo, inclusive, um texto em comum (Mq 4,1-4 e Is 2,1-4). A vocação de Isaías acontece dentro do Templo (Is 6,1-6), mas anuncia o fim da violência dos impérios e da subserviência dos governantes de Israel. Neste texto o alvo é o sucessor de Ezequias, o rei Acaz, que insiste em seguir o caminho que balança entre subserviência e violência. A paz se anuncia através de uma virgem (em hebraico pode ser “moça”, alemah) que conceberá “Emanuel” (Deus-conosco). A mulher, e especialmente mulher jovem, que era vista como uma mercadoria (cf, Ct 8,8-9), ou como ameaça sedutora (Pr 30.19), aqui aparece como protagonista do caminho da Paz. A mulher jovem, geradora desta criança/promessa, é sujeito de um novo tempo de esperança.

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana: Dr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de Cácia Ló Edição: Dr. Vanildo Luiz Zugno Disponível em: www.tuaradio.com/noticias/religiao/liturgia

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1º DOMINGO DO NATAL – FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA Evangelho: Mt 2,13-15.19-23 Primeira Leitura: Sir (Eclo) 3,3-7.14-17a Segunda Leitura: Cl 3,12-21 Salmo: 128,1-2.3.4-5  Mt 2,13-15.19-23 1 – Situando o texto: O texto está teologicamente construído sobre o pano de fundo do Antigo Testamento. Um novo Êxodo inicia. Em Jesus as Escrituras se realizam (vv.15.17.23): a perseguição e a fuga para o Egito lembram o nascimento de Moisés (Ex 2,1ss). A matança dos meninos lembra Ex 1,15ss. Como nesta ocasião, diante da morte dos recém-nascidos, Moisés conseguiu ser salvo, também Jesus não é trucidado por Herodes. A fuga para o Egito também tem por base a fuga de Moisés diante da ameaça de faraó (Ex 2,14-15) e sua volta, depois da morte do mesmo (Ex 4,19ss). A volta do Egito lembra também Os 11,1 (Jesus é filho de Deus e ao mesmo tempo, personificação do povo de Deus). Há controvérsias sobre o v. 23, o nazireu/nazoreu. Para alguns biblistas, seria uma referência ao juiz Sansão, que em Jz 13,5-7 é chamado de nazireu, que significa separado, ou consagrado (cf. Nm 6,2), ou ainda no rebento de Is 11,1 (nazir). Pode, também ter algo a ver com a residência, agora, em Nazaré, daí nazireu, talvez corruptela de nazareno.  A morte de Herodes, pelos conhecimentos atuais, é fixada para o ano 4 a.C. Isto aponta para o fato de Jesus supostamente ter nascido uns 6 ou 7 anos antes da data hoje celebrada. A figura de José liga o menino com a dinastia de Davi para se realizar a promessa de Deus à descendência deste rei (2Sm 7,11ss). Jesus, Maria e José, como outrora a família de Jacó migrou para o Egito (Gn 46,1ss), também migram para esta terra. Ao retornar para Israel, a sagrada família lembra o retorno dos israelitas à Terra Prometida, depois da estadia no Egito (Js 2,1ss). Assim, o início da vida de Jesus é ilustrado com as cores do início do povo de Israel. O que no antigo povo foi pré-anunciado, vai se realizar plenamente na pessoa de Jesus. Jesus é visto como o novo Moisés que trará a nova lei e formará o novo povo de Deus (Mt 5-7). É  também  o  descendente  de  Davi,  o  primeiro  grande  rei  que  unificou  Israel.  Assim Israel  que  refaz  a  história  do  antigo  povo  de  Deus e  a  leva  à  plenitude mas plan tada  sobre  a  história do povo de  Israel. Levando em  conta todos  estes dados, deve. Jesus  é  a  total  novidade, se  afirmar: muito mais do que  uma crônica  histórica  do nascimento  de  Jesus,  que  nos  tempos  de  Mateus  certamente  não  era  conhecida,  está  aqui  um tratado  teológico,  ou  cristoló gico  da  novidade  trazida  por  Jesus,  desde  sua  origem.  Como,  outrora, o povo de  Israel, perseguido, oprimido, com Deus  faz  o caminho de  libertação, agora  Jesus que irá formar  o  novo  povo  de  Deus,  passará  por  situações  iguais,  e  no  germe  desta  nova  realidade caminho  da  libertação,  da  escravidão,  do  pecado  e  da  morte.  Podetem  o se  então  afirmar,  o  que  se experimentou  na  história  do  povo  de  Israel  de  forma  incipiente,  desde  a  origem,  vai  se  realizar com  plenitude  na  pessoa  de  Jesus  e  do  novo  povo  que  ele  forma rá:  a  Nova  e  Eterna  Aliança.  Ou seja,  velho  povo  dará  lugar  ao  novo  povo  (Mt  21,4143).  Segundo  a  cristologia  de  Mateus,  este menino é  o messias, pois nele  se realizam plenamente as profecias do AT. 2 Relacionando com  Sir 3,3 Deus,  ao  se  encarna7.14,17: r  na  história  humana,  realizando  os  desígnios  já  antevistos  no  AT,  quis precisar  de  um  homem  e  uma  mulher.  Em  outras  palavras,  tudo  isto  se  realizou  numa  família.  Nos planos  de  Deus,  para  as  novas  gerações,  que  devem,  hoje  e  no  futuro  realizar  o  reino  inst aurado por  Jesus,  a  família  tem  um  papel  fundamental.  Como  no  passado,  Deus  quis  contar  com  a participação  de  homens  e  mulheres  para  realizar  seus  desígnios  eternos,  agora,  na  pessoa  de  Jesus, novamente  um  homem  e  uma  mulher  são  escolhidos  para  levar  a  efe ito  o  que  Deus  quer  realizar em  Jesus.  A  sagrada  família,  é  por  excelência,  o  lugar  da  realização  do  início  da  nova  história  do povo  de  Deus.  Por  isto  mesmo,  na  liturgia  da  Igreja,  José  e  Maria,  com  Jesus,  têm  um  papel  de destaque.  Se,  por  um  lado,  toda  es ta  novidade  se  realiza  na  pessoa  de  Jesus,  por  outro  lado,  José  e Maria, formam com ele  a  família  onde  Jesus pode realizar os desígnios do Pai.

Subsídio  elaborado  pelo  grupo  de  biblistas  da Escola  Superior  de  Teologia  e  Espiritualidade  Franciscana Dr.  Bruno  Glaab Me.  Carlos  Rodrigo  Dutra Disponível  em: Dr.  Humberto  Maiztegui Me.  Rita  de  Cácia  Ló www.tuaradio.com

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Segundo Domingo do Natal – Festa da Epifania do SenhorEvangelho: Mt 2,1-12 Primeira Leitura:  Is 60,1-6Segunda Leitura:  Ef 3,2-3a.5-6Salmo: 71,1-2.7-8.10-13.Mt 2,1-12O texto do evangelho que lemos hoje inicia com uma informação de lugar: Belém e de tempo: notempo do rei Herodes governou a Judeia entre 44 a 4 a.C. Herodes era um representante romano,conhecido como hábil político e por suas crueldades. A semelhança de Mateus 2 com Ex 1,8–2,10é gritante: o grande Herodes e toda Jerusalém temem o menino recém-nascido, tal como o faraó etodo o Egito, que temiam os recém-nascidos dos hebreus; Herodes trama a morte de crianças erepete a decisão assassina do Faraó.Os magos do Oriente eram membros da classe sacerdotal persa, que servia ao soberano. Issoexplica por que, ao chegarem à capital da Judeia, tenham se dirigido Herodes.Propositalmente, o texto apresenta uma série de contrastes: o Rei Herodes e o rei dos judeus; agrande Jerusalém e a pequena aldeia de Belém; os magos vindos do Oriente e os sumos sacerdotese escribas de Jerusalém; Herodes dizer querer prostra-se diante do menino, os magos efetivamentese prostram; os magos encontram o menino, Herodes não; os magos oferecem ao menino o que têmde mais precioso, Herodes oferece ao menino o que tem de pior; os tesouros dos magos são para avida, o presente de Herodes é a morte. As autoridades de Jerusalém não perceberam o que ospagãos enxergaram: o nascimento do novo rei. Isso provoca uma ironia no texto: os pagãos vêm aJerusalém anunciar o nascimento do messias salvador dos judeus. Vimos sua estrela no Oriente: A estrela alude a Nm 24,17: Surgirá uma estrela de Jacó e surgiráum cetro em Israel. Por trás, está uma crença popular no mundo antigo, segundo a qual osurgimento de uma estrela é associado ao nascimento de um grande líder (político ou religioso):esta estrela iluminaria a criança por toda a vida; quanto mais poderosa uma pessoa, mais brilhanteera sua estrela. Em Mateus, a estrela não é apenas uma metáfora do Messias. Ela guia os magos e, assim, ela setorna sinal de Deus. A manifestação da estrela não é uma visão particular: ela está à vista de todosque querem enxergar no caso os pagãos. Então, a questão é: os habitantes de Jerusalém não viram aestrela, ou não quiseram ver?Mas o curioso é que, quando os magos entram em Jerusalém, eles deixam de enxergar a estrela: elasó reaparece a eles quando saem do círculo do poder, quando abandonam seus velhos conceitos eas ideias seguras sobre onde está a verdade.

Os magos afirmam: viemos nos prostrar diante dele. O termo prostrar-se expressa, primeiramente,a fidelidade a Deus (Ex 20,5). Mas é também um termo politico: curvar-se ou prostrar-se é formacorreta de cumprimentar um soberano. Os magos não se prostraram diante de Herodes, e simdiante de Jesus: isso indica qual rei eles reconhecem como legítimo.O texto de Mateus também é rico em detalhes, e é necessário lê-lo em si mesmo, sem corrigi-locom a versão de Lucas. No texto de Mateus, Jesus não nasce numa gruta nem está numamanjedoura, não há pastores nem anjos. Significa que o nascimento de Jesus ocorre numa pequenacidade, não no campo. E, mais ainda, que José e Maria estão em sua casa, isto é, não estão emviagem por causa de um recenseamento, como em Lucas. Em Mateus, Jesus nasce numa casa e, nesta casa, os magos veem o menino e sua mãe. O texto nãofala de José. Este novo detalhe pinta a seguinte cena: o rei, em seu trono, com a rainha-mãe, à suadireita (1Rs 2,19). Em outras palavras, esses três elementos: a casa, o menino e a mãe remetem aocenário da monarquia, e os pagãos que chegam dizem explicitamente o objetivo de sua viagem:vieram prostrar-se diante do novo rei. Os dons que trazem não são presentes para um recém-nascido. O gesto de prostrar-se e o tipo de presentes ouro, incenso e mirra, citados nesta exata ordem, têm a ver com o costume dos tempos antigos no Oriente: uma vez por ano ou, quando o novo rei assume o trono, os governantes dos povos dominados deveriam apresentar-se diante o soberano e prestar um juramento de submissão efidelidade, bem como pagar tributos. Deste modo, cumpre-se a profecia da primeira leitura de hoje e do salmo responsorial.

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas daEscola Superior de Teologia e Espiritualidade FranciscanaDr. Bruno Glaab – Me. Carlos Rodrigo Dutra – Dr. Humberto Maiztegui – Me. Rita de CáciaLóEdição: Dr. Vanildo Luiz Zugno

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