A QUESTÃO SINÓTICA

  1 - Veja em Powerpoint : A Questão Sinótica

  2 – A QUESTÃO SINÓTICA – BRUNO GLAAB

Questão Sinótica

1 – O problema

Os Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas são chamados os “evangelhos sinóticos” porque grande parte do material que contêm é comum a todos os três (e não a João), de tal maneira que podem ser colocados em três colunas, um ao lado do outro, podendo ser comparados entre si num só olhar (gr. σύνοψις = visão de conjunto).
Dos 661 versículos de Marcos, mais de 600 encontram-se, substancialmente, também em Mt, e uns 350 em Lc; Mt e Lc têm mais ou menos 250 versículos em comum, que não se encontram em Mc.

Mateus e Lucas têm também material próprio: Mt 330 versículos, Lc 548.

Os três sinóticos não têm apenas grande parte de seu material em comum; apresentam também inegável semelhança nos seguintes pontos:

  1. O plano geral do Evangelho e a ênfase dada a determinados fatos da vida pública de Jesus.
  2. A ordem de determinadas séries de acontecimentos e de determinados “Iogia” (palavra, frase, ensinamento, etc.) relacionados com os mesmos (p. ex., Mt 9,1-17, Mc 4,1-22; Lc 5, 17-39 – Mt 16,13-17,2; Mc 2,7-9,32; Lc 9,18-44 – Mt 24,1-44, Mc 13,1-37, Lc 21,5-33).
  3. O estilo o vocabulário a ordem das palavras (p. ex., Mt 9,1-17; Mc 2,1-22; Lc 5,17-39, onde há varias palavras que no NT só uma vez são usadas), mesmo em simples frases de transição (p. ex., Mt 8,16; Mc 1,32; Lc 4,40 – Mt 19,31; Mc 10,13; Lc 18,15).
  4. As citações bíblicas do AT: diversas vezes os três sinóticos têm: forma idêntica que não é a do Texto Massoreta nem a dos L XX (p. ex., Mt 3,3; Mc 1,3; Lc 3,4-Mt 11,10; Mc 1,2; Lc 7;27).
  5. De outro lado, apresentam diferenças notáveis: certos assuntos encontram-se em um Evangelho apenas (30 % de Mt é material exclusivo; 8% de Mc, 48% de Lc); muitos “logia” e fatos não se encontram no mesmo lugar nos três sinóticos, ou não são dados na mesma ordem (p. ex., o sermão da montanha, que falta em Mc, encontra-se em Mt nos capítulos 5- 7 e em Lc está espalhado pelos capítulos 6,11,13,14 e 16; muitas vezes divergem no vocabulário, na ordem das palavras, na formulação dos pensamentos mesmo em casos onde esperávamos igualdade perfeita (p. ex., Mt 6 9-13; Lc 11,2-4; Mt 26.26-28; Lc 14.22; Lc 22, 19-20) ou onde as semelhanças são, pelo resto, muito grandes (p. ex., Mc: 4, 19 e Lc 8,14; Mt 22,25 e Mc 12,20; Mc 16,7 e Lc 24,6). Como explicar esta concordia discors, essas curiosas semelhanças ao lado de diferenças não menos notáveis? Nessa pergunta resume-se todo o problema sinótico.

2 - Tentativas de solução

Não podemos dar aqui uma exposição detalhada e matizada de todas as soluções propostas nos últimos 150 anos, (antes dessa época os autores limitavam-se quase exclusivamente as tentativas de harmonização); citaremos apenas as tentativas principais, que até hoje têm algum valor.

Alguns autores procuram solucionar o problema na base da tradição oral: a pregação apostólica deu ao material dos evangelhos sua forma fixa: os três sinóticos teriam elaborado esse material, cada um à sua maneira, independentemente (Mt e Mc ter-se-iam baseado mais na pregação galiléia, Lc na de S. Paulo e dos helenistas).
Geralmente, porém, julga-se que essa hipótese não; basta para explicar certos fenômenos nos três sinóticos, p. ex., as muitas perícopes que se encontram nos três na mesma ordem, sem que haja nenhum nexo entre elas; o uso, por todos os três, das mesmas expressões pouco usadas e pouco importantes (Mt 9,5; Lc 5,23 comparados com Mc 2,9 – M19,6; Mc 2,10; Lc 5,24); certas diferenças na tradição do texto que num ensino oral unificado, não teriam sido toleradas (p. ex., no Pai-Nosso. nas palavras da instituição da Eucaristia); a existência da chamada tradição dupla (“logia” que Mt e Lc têm em comum, encontrando-se neles às vezes “dublês”, e que faltam em Mc).

Outros procuram uma solução numa dependência literária dos três sinóticos entre si; o segundo dependeria do primeiro, o terceiro do segundo e do primeiro (daí as semelhanças), mas cada evangelista teria utilizado as suas fontes próprias, tanto orais como escritas (daí as diferenças).

Dentro desta corrente foi proposta uma hipótese da seguinte maneira.

  • Primeiro foi escrito o Mt aramaico (sigla M), do qual se fizeram depois diversas traduções gregas completas e parciais (sigla Mg), enquanto a tradição oral (sigla T) também. continuava.
  • Depois vem Mc, que se utilizou de uma daquelas traduções, dependendo também da catequese romana de Pedro (sigla Pi); Lc utilizou Mg e Mc (em forma escrita e oral), mais algumas fontes particulares. Onde Lc e o nosso Mt canônico têm material comum que falta em Mc (a “tradição dupla”) explica-se isso pela suposição de ambos terem utilizado um suplemento de M (sigla Ms) ou sua tradução grega (Msg). O nosso Mt canônico, afinal, teria guardado melhor tudo o que havia em M (ou Mg), mas dependeria também de Mc e de Msg) e ainda de outras fontes próprias.

Entre os exegetas não-católicos a hipótese das duas fontes teve muita aceitação. Conforme eles, dois documentos formam a base dos três sinóticos:

3 - Para o material narrativo:

o Mc original ou um proto-Mc (sigla: pMc). Alegam-se: o fato de que quase todo o material de Mc foi aproveitado por Mt e Lc; a riqueza em detalhes e o estilo vivo de Mc, provas de seu texto ser original; a simplicidade de seu plano; o fato de Mt e Lc diversas vezes causarem a impressão de ter corrigido um texto de Mc.

Para as palavras (logia) de Jesus: um livro com palavras ou Lógia de Jesus (chamado Q = Quelle = fonte ou L = Logia), que para eles não teria sido um Evangelho propriamente dito, mas um documento no qual o material narrativo se teria revezado com logia.

O nosso Mc canônico, então, teria sido formado na base de pMc, ao passo que Mt e Lc dependeriam muito de pMc e de Q (de Q particularmente, nas passagens em que Mt e Lc usam um material comum que difere de Mc ou falta em Mc.
Diante da reserva da Comissão Bíblica frente a esta hipótese, exegetas católicos constroem uma hipótese de duas fontes aceitável para católicos.

Conforme eles os seguintes documentos teriam sido a base da tradição sinótica: Mc e Mg (um verdadeiro Evangelho, ao contrário de Q), fonte principal do nosso Mt canônico, que, direta ou indiretamente, teria influenciado também Lc, e Mc, que é um relatório da pregação de S. Pedro.

4 -A situação atual

         Visto que a questão sinótica se resume praticamente nos problemas em torno da tradição tríplice (aquilo que Mt, Mc e Lc têm em comum) e da tradição dupla (o que Mt e Lc tem em comum), limitar-nos-emos a um estudo desses dois pontos.

Quanto à tradição tríplice, a maior parte dos autores tenta explicar as semelhanças entre os sinóticos, admitem que. Mt e Lc dependem de Mc. A dependência literária de Le em relação a Mc é admitida quase sem discussão. A maioria dos autores admite a mesma coisa para o nosso Mt canônico, mas aqui muitos exegetas hesitam, hesitam, porque acontece, não raramente que em textos da tríplice tradição Mt e Lc concordam em vocabulário e formulação e, mais ainda, na omissão de certas particularidades, enquanto ambos diferem de Mc (p. ex. Mt 17, 14-21; Mc 9,14-29; Lc 9,37-438). Ora, os defensores da teoria das duas fontes consideram Mt e Lc como independentes um do outro. Como, de outro lado, Mc não pode ser alegado para explicar aquelas semelhanças, admitem muitos uma ou mais fontes marcianas, diferentes do nosso Mc canônico; a maior parte pensa num proto-Mc (que outros rejeitam energicamente), numa dupla recensão de Mc, em variantes do texto, em adições redacionais, numa tríplice redação de Mc ou num texto ocidental de Mc que teria divergido do nosso.

Vários autores admitem que Mc utilizou diversas fontes, uma das quais teria sido um verdadeiro evangelho palestinense, redigido em aramaico, por volta de 40, e publicado sob a autoridade de Pedro; com isso, portanto, já estamos longe da hipótese original das duas fontes.

Para muitos autores, base dos nossos três sinóticos foi o Mt aramaico (M), nas suas diversas traduções gregas (Mg).
Para outros autores, os três sinóticos têm por fundamento um escrito aramaico de origem apostólica, desde cedo traduzido para o grego (mais ou menos Mt, menos Q), do qual Mc teria sido apenas um resumo destinado aos gentios cristãos. Para todos esses autores surge então o problema da riqueza em detalhes e do estilo pitoresco que caracterizam Mc (pelos quais ele causa a impressão.de ser original).

Eles resolvem este problema dizendo que Mc traduz a pregação de Pedro em Roma (acrescentando detalhes à narrativa muito esquemática de Mg. Este Mg resumiria a pregação de Pedro em Jerusalém).
Muitos autores admitem que Mt e Lc não dependem entre si, mas não concordam, porém, quanto à fonte comum que tenham tido.

A solução definitiva da questão sinótica ainda está longe.

As semelhanças constatadas provam que os sinóticos utilizaram uma documentação substancialmente idêntica.
Não se pode esquecer que, entre a tradição apostólica escrita original e a redação dos sinóticos, existiu um período de tradição oral que teve influência também na redação dos sinóticos atuais (portanto, não apenas na formação do material evangélico origina).

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Texto extraído de HEUSCHEN, J. A questão sinótica, in VAN DEN BORN, A. (org.), Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Petrópolis/Porto: Vozes/C.L.B., 1971.

 

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MAPA DA PALESTINA

 ÍNDICE GERAL -EVANGELHO DE MARCOS

  Responsável por este trabalho

    Xavier Cutajar

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