FARISEUS

III. Grupos político-religiosos

Na sociedade do tempo de Jesus podemos distinguir vários grupos, que se diferenciam no modo de se relacionar com a política, economia e religião, e que têm grande importância no quadro social da época.

 3. Fariseus

Fariseu quer dizer separado. Inicialmente aliados à elite sacerdotal e aos grandes proprietários de terras, os fariseus deles se afastam para dirigir o povo, embora mantenham distância do povo mais simples (que não conhece a Lei). São nacionalistas e hostis ao império romano, mas sua resistência é do tipo passivo. O grupo dos fariseus é formado por leigos provindos de todas as camadas da sociedade, principalmente artesãos e pequenos comerciantes. A maioria do clero pobre, que se opõe à elite sacerdotal, também começa a pertencer a esse grupo.

No terreno religioso, os fariseus se caracterizam pelo rigoroso cumprimento da Lei em todos os campos e situações da vida diária. São conservadores zelosos e também criadores de novas tradições, através da interpretação da Lei para o momento histórico em que vivem. A maior expressão do farisaísmo é a criação da sinagoga, opondo-se ao Templo, dominado pelos saduceus. Desse modo a sinagoga, com a leitura, interpretação dos textos bíblicos e oração, torna-se expressão religiosa oposta ao sistema cultual e sacrifical do Templo.

Os fariseus acreditam na predestinação, na ressurreição e no messianismo. Esperam um messias político-espiritual, cuja função será precipitar o fim dos tempos e a libertação de Israel. Esse messias será alguém da descendência de Davi. E, para os fariseus, a estrita observância da Lei, a oração e o jejum provocarão a vinda do Messias. Os fariseus e os doutores da Lei simpatizam-se, a ponto de muitos doutores da Lei serem também fariseus.

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Marcos menciona os FARISEUS 12 vezes.
          (Em Marcos aparecem sempre contra JESUS – Não participam do SINÉDRIO)
      Fora de Jerusalém: Mc 2,16; 2,18; 2,18; 2, 24; 7,1; 7,3; 7,5;
            8,11;10,2;      Junto com Herodes ou herodianos: 3,6; 8,15

Em Jerusalém com os herodianos 12, 13

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Exceder a justiça dos escribas e fariseus

Jesus nunca foi contra os fariseus. Sua luta era contra os fariseus hipócritas.

O que Jesus quer mostrar é que a justiça do Reino não se baseia no cumprimento de normas. (Reproduz/ Pixabay)

Fabrício Veliq*

Pois digo a vós que se não exceder de vós a justiça mais do que a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus. (Mt 5,20)

Esse versículo, que se encontra nos ditos chamados Sermão do Monte na narrativa evangélica de Mateus, se mostra extremamente interessante. Porém, para compreendê-lo é necessário ter em mente o contexto do que representava o farisaísmo na época de Jesus. Os fariseus, nesse período, eram os responsáveis por garantir que as leis de seu povo fossem seguidas por todo aquele que se dizia servo de Deus. Esse prestígio alcançado tem muito a ver com toda a luta em favor da ortodoxia judaica que se estabeleceu desde a época em que Israel foi dominado pelo Império Grego e que pode ser lido nos livros de I e II Macabeus. Os fariseus e seu amor pela Torá foram os grandes responsáveis pelo estabelecimento do Monoteísmo na sociedade de Israel, principalmente no período conturbado da perseguição Selêucida que ocorreu, aproximadamente, ente 170 – 160 a.C.

Com isso em mente, não é difícil entender o prestígio que gozavam entre a sociedade judaica no tempo de Jesus. Da mesma forma, eram exímios cumpridores da Lei de Moisés, de maneira que poderiam ser vistos pelo povo como exemplo de pessoas justas, ou seja, aquelas que andam de acordo com a Torá.

Diante disso, é importante entender que Jesus nunca foi contra os fariseus. Sua luta era contra os fariseus hipócritas, i.e, pessoas que impunham fardos pesados sobre os ombros das pessoas e não moviam um dedo para ajudar, como nos diz o texto de Mateus 23. Jesus via, sim, justiça nos fariseus e nos escribas e tinha por eles grande apreço, até porque discutia com eles em uma cultura que dizia que somente se discutia com quem se respeitasse. Dessa forma, o discurso de que Jesus era contra todos os fariseus e escribas não é verdadeiro.

Ao mesmo tempo, Jesus, ao dizer que a justiça de seus discípulos deve exceder em muito a desses escribas e fariseus poderia gerar, a princípio, certo desconcerto na mente dos que o ouviam. Como seria possível exceder a justiça daqueles que eram considerados como os mais fiéis seguidores da lei de Moisés?

O que Jesus quer mostrar é que a justiça do Reino não se baseia no cumprimento de normas pré-estabelecidas que devem ser seguidas à risca para se garantir alguma benevolência da parte de Deus. Afinal, esse era o intuito de vários fariseus. Por meio de sua justiça demonstrada no cumprimento da Lei esperavam alcançar o beneplácito divino e também ser reconhecido pela sociedade de seu tempo. Nesse sentido, por serem exímios cumpridores da Lei, vários se consideravam moralmente superiores aos outros e mais dignos da salvação do que os que não seguiam tão fielmente às instruções dadas a Moisés. Em outras palavras, era uma justiça que se baseava na Lei e que visava o reconhecimento por parte da sociedade.

O evangelista Mateus, ao dizer que a justiça que é esperada para a entrada no Reino é uma que exceda a dos escribas e fariseus, coloca-nos diante de uma verdade que Paulo já havia desenvolvido de que não é possível por meio do cumprimento da lei alcançar a graça divina. A justiça do Reino é uma justiça que se baseia somente na fé e, nesse sentido, há uma mudança na perspectiva de seu significado. Justo não é mais aquele/a que se adequa às normas, antes, aquele/a que se volta para Deus e tem sua vida transformada por meio desse encontro.

Assim, a justiça não é mais algo a ser graduado, conforme consolidado por todo um sistema farisaico do tempo de Jesus e, muitas vezes, vivo ainda hoje. Antes, em Jesus, se inaugura um novo tipo de justiça, que se mostra fruto de um relacionamento e de um encontro com o Pai.

Diante disso, toda tentativa de estabelecer a entrada no Reino de Deus por meio de atos de justiça se torna sem sentido para a fé cristã. Muito pelo contrário, ao se reconhecer que a nossa justiça procede do amor de Deus que nos torna justos, é possível dizer que toda nossa boa obra deve ser um reflexo desse amor que nos alcançou em primeiro lugar, sendo somente assim o modo pelo qual nossa justiça excederá em muito a dos escribas e fariseus.

*Fabrício Veliq é teólogo. Mestre e doutorando em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven – Bélgica, formado em matemática, graduando em filosofia pela UFMG e graduando em Teologia pela UMESP. Membro do grupo de pesquisa Fundamental and Political Theology em KU Leuven e do Grupo de Pesquisa Estudos de Cristologia da FAJE. Ministra cursos de teologia no cursos de Teologia para Leigos do Colégio Santo Antônio, ligado à ordem Franciscana, no Centro de Formação e Cultura em Divinópolis e é também professor voluntário no CITEP na Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte. É protestante e ama falar sobre teologia em suas diversas conversas por aí, tanto presenciais, como online. Seu blog, caso queiram conhecer mais de seus textos, é www.fveliq.blogspot.com. Seu e-mail, caso queiram entrar em contato, é fveliq@gmail.com

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http://domtotal.com/noticia/1262620/2018/05/exceder-a-justica-dos-escribas-e-fariseus/

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