NASCIMENTO E INFÂNCIA DE JESUS

NASCIMENTO E INFÂNCIA DE JESUS

REGINA MARIA DE ALMEIDA

JESUS É O SALVADOR ESPERADO

Um estudo sobre Jesus Cristo pressupõe que tenhamos em mente o povo do Antigo Testamento. A partir desse re­ferencial podemos entender qual é a Boa Notícia que Jesus trouxe para as pessoas de seu tempo e fazer a ponte para nós hoje.

Essa história, que se inicia com uma experiência libertadora (Êxodo), expressa uma dura realidade de opressão da monarquia até Jesus (cerca de 1.000 anos). Por isso, há uma grande preocupação profética e sapiencial no sentido de manter firme a fé, numa crença de que Deus continua fiel à Aliança e vai novamente se mostrar na história como salvador.

Deus arma sua tenda entre nós

O Novo Testamento nos revela que, em Jesus, a oração do Antigo Testamento (e de toda a humanidade) tem uma resposta. Jesus é a realização das promessas do Antigo Testamento – e as supera em muito, pois sua ação e pregação, e as experiências inéditas da encarnação e da ressurreição, estão além de qualquer expectativa que se poderia ter.

Os capítulos 1 e 2 de Mateus e de Lucas evidenciam essa ligação de Jesus com as profecias vétero-testamentárias. Esses relatos da infância figuram entre os mais elaborados da teologia do Novo Testamento.

A vinda e a missão de Jesus são descritas por um anjo (Mt 1,18-25 e Lc 1,26-38), comprovando sua veracidade e sua ligação com Deus. Por isso, seu nome é Jesus (= Javé é o Salvador), Emanuel (=Deus Conosco, cf. Mt 1,23; Is 7,14).

Ele é gerado como verdadeiro homem (de Maria) e verdadeiro Deus (por obra do Espírito Santo). Ele é Filho de Deus (Salmo 110,1-4; Jo 1,13) e nasceu na cidade de Belém, na tribo de Judá (Mt 2,1; Lc 2,1-7, cf. Mq 5,1).

A propósito de Jesus, o Novo Testamento afirma que seu nascimento ocorreu na plenitude dos tempos (Gl 4,4; Ef 1,10). Para Mateus, isto significa a salvação para os judeus (1,1-17). Já em Lucas (3,23-38), essas promessas de salvação se estendem para toda a humanidade. E João vai mais longe: em seu prólogo (1,1-18), ele afirma que Jesus está presente como criador e salvador desde sempre (cf. também os escritos paulinos).

Deus, através de Jesus, arma sua tenda no meio do povo e caminha com ele (Ex 25,8). É o mistério da encarnação. Mas esse Deus encarnado não é recebido pelos seus (cf. Jo 1,5.10-11 e Mt 2,13-18), pois revela as contradições existentes na sociedade de seu tempo.

Os pobres acolhem Jesus

Lucas vai completar esse quadro: quem vai acolher Jesus com entusiasmo são os pobres (2,8-20). É através do Canto de Maria, Magnificat (1,46-55), que se resgata a predileção de Deus pelos pobres desde o Antigo Testamento (Salmo 146/145) e que seu Filho vai realizar.

A última passagem da infância de Jesus na Bíblia fala do episódio dele conversando com os doutores da Lei no Templo. Lucas o exalta como verdadeiro Mestre. E Jesus cresce “em sabedoria e graça” (Lc 2,52), amadurecendo em seu coração a missão que o Pai lhe confiou.

 

A LUZ VENCE A ESCURIDÃO

Os cristãos, pela Bíblia, não têm como saber a data do nascimento de Jesus Cristo. Nada foi documentado. Também, através de uma leitura teológica, vemos Cristo como Deus, e por isso presente na história desde sempre: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1).

Mas, como faz parte de nossa cultura celebrar as fases marcantes da vida, os cristãos quiseram comemorar o nascimento de Jesus. Apesar de não saberem quando Jesus nasceu, as comunidades, desde o tempo de Tertuliano, no século III, comemoram simbolicamente essa data.

Nessa época, eram obrigados a adorar o deus pagão Mitras. Segundo os romanos, esse deus nascia como o símbolo do sol, vindo da noite para o dia, transformando a escuridão.

Essa festa pagã tinha muitas características que se adaptavam perfeitamente a Jesus Cristo, o verdadeiro Deus. Ele é a luz do mundo, que surge para instituir a vitória da vida sobre a morte.

Outras denominações religiosas, porém, celebram ainda hoje o nascimento de Jesus em outras datas, como os ortodoxos (6 de janeiro).

25 de dezembro é um dia puramente simbólico. De fato, Jesus não nasceu no tempo de inverno (hemisfério norte), mas certamente no verão, época em que os pastores estavam no campo.

Atualmente, o Natal representa para nós, do hemisfério sul, a comemoração da plenitude da luz. É um dos dias mais longos do ano. Que nesse dia possamos estar em comunhão com Cristo, agradecendo e partilhando a própria vida com os irmãos.

ANTES E DEPOIS DE CRISTO

Jesus é tão importante para a humanidade que os Papas da Idade Média resolveram dividir a história em antes e depois dele. Segundo escritos do monge Dio­nísio, o Pequeno (550 dC), Cristo teria nascido no ano 754 depois da fundação de Roma. Ele designou esse ano como o ano 1 da nova numeração da história, permanecendo em uso até hoje.

Posteriormente, descobriu-se que esse cálculo tinha um erro: Herodes, o Grande, que estava ainda no trono no tempo do nascimento de Jesus, morreu no ano 750 da fundação de Roma. A data mais provável do “recenseamento” do imperador Augusto é 747. Esta data concordaria também com a da a­parição da “estrela de Belém”, levando-se em consideração a conjunção dos planetas nesse ano.

Obtém-se, assim, como data mais provável do nascimento de Cristo, o ano 7 “antes de Cristo”, ou seja, antes do ano calculado pelo monge Dionísio.

Para estabelecer uma comparação entre a vida de Jesus e a história da época, o único ponto de referência na Bíblia aparece em Lucas: “No ano décimo quinto de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia, Herodes tetrarca da Galiléia… sendo sumo sacerdote Anás, e Caifás, a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto” (3,1-2).

Já que o imperador Augusto morreu no ano 14 da nossa era, o décimo quinto ano de Tibério é 29 dC. Nos escritos do monge Dionísio, o Pequeno, esta data vinha confirmar a notícia de Lc 3,23, segundo a qual Jesus tinha cerca de trinta anos quando deu início à sua vida pública. Todavia, já que Augusto nos últimos anos de vida já tinha associado ao governo o enteado Tibério, o ano décimo quinto deste poderia coincidir também com o ano 26 dC.

Embora não seja possível fixar exatamente o ano do nascimento de Jesus, pode-se concluir que este aconteceu nos últimos anos de vida do rei Herodes (8 a 4 aC). Sua morte e ressurreição teve lugar numa festa de Páscoa entre 28 e 33 dC, sob o governo do procurador romano Pôncio Pilatos (que governou essa região de 26 a 36 dC).

 

A INFÂNCIA DE JESUS

Todos os escritos do Novo Testamen­to são posteriores à morte de Jesus. Pri­meiramente, surgiram de tradições orais dos discípulos e das primeiras comu­nidades, e tinham como tema central a ressurreição e o apelo à conversão.

Paulo, pelos anos 50, usa desses teste­munhos de fé em suas cartas (por ex: 1Cor 15,1-11 e Fl 2,6-11). Fala de um Cris­­­to muito vivo e atuante. Mais tarde, o livro dos Atos dos Apóstolos vai resgatar esse primeiro anúncio de Cristo morto e ressus­ci­­tado (querigma) de uma forma mais sis­­­­­te­­mática (cf. At 2,14-40; 10,34-43 e outros textos).

Com o passar do tempo, as co­mu­nidades querem saber mais. Então, bus­ca-se reunir mais tradições sobre ele. Primeiro, suas ações e palavras. Depois, onde e como viveu. Por fim, como ele nasceu. Os escritos surgem de forma inversa, pois não são biografias, mas frutos da necessidade de se conhecer melhor Jesus para poder segui-lo.

Assim, o evangelho de Marcos, mais antigo (por volta do ano 70), vai citar Jesus em sua vida pública. Mateus e Lucas, posteriores a ele (anos 80/90), apresentam tradições sobre o nascimento e a infância. João, já quase no ano 100, vai mais longe e coloca Jesus Cristo presente desde a criação do mundo, o verbo de Deus.

As passagens sobre a infância (Mt 1 e 2; Lc 1 e 2) são leituras teológicas das origens do Jesus histórico. As genealogias o apresentam como o messias esperado, descendente de Davi e de Abraão. O can­­­to de Maria expressa a certeza de que as promessas do Antigo Testamento vão ser cumpridas na pessoa dele.

Nesses textos, diversas profecias vão sendo confirmadas: Jesus nasceu em Belém, de uma virgem, passou pe­­­las si­tua­ções de morte que o povo tinha sofrido no passado (matança de crianças, fuga para o Egito) e foi viver em Nazaré.

Os escritos sobre a infância de Jesus ajudam a entender melhor o que significou a vinda do Messias para o povo da época. Também, nos auxilia hoje na busca de uma fé mais consciente, que seja semente fecunda na construção do Reino.

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REGINA MARIA DE ALMEIDA – Teóloga e assessora do CEBI-SP

www.partilhando.com.br – e-mail: reginama6@uol.com.br

 

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Responsável por este trabalho:

Xavier Cutajar

xacute@uol.com.br       http://xacute1.com

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