INTRODUÇÃO AO APOCALIPSE

INTRODUCAO ao apocalipse – Alejandro von Rechnitz em PDF para imprimir em formato livrinho

INTRODUÇÃO

AO

APOCALIPSE

 

Alejandro von Rechnitz

Traduzido do original castelhano por Maria Suzete Caselleto

Toda introdução ao livro do Apocalipse de João deve abordar primeiramente o fenômeno da profecia em Israel. A apocalíptica, como gênero literário generalizado, só apareceu em Israel depois da profecia, e quando esta começava a cair em quase total desprestígio.

Se definirmos profecia como o ato de falar em nome de Deus, de denunciar, em nome de Deus, as injustiças, e anunciar, em nome de Deus, o que, dentro do processo da salvação, viria a se estender a toda a humanidade, facilmente nos daremos conta da relação permanente que o profetismo e a apocalíptica possuíam como fenômenos religiosos e literários.

1. TRÊS TIPOS DE PROFETAS EM ISRAEL

            Como sabemos muito bem, houve pelo menos três tipos de profetismo em Israel. O primeiro tipo é o daqueles que podemos chamar de “profetas exaltados”. Estes se caracterizavam por um frenesi extático, contagioso e crescente (ver, por exemplo: 2 Re 9,11; Jr 29,26; Os 9,7). Tinham visões e sonhos (ver Nm 12,6 e 8). Sentiam-se possuídos por “forças ou espíritos”, não pela palavra de Deus. Passavam por uma preparação física imediatamente antes de receber cada revelação (dançavam, ouviam música, gritavam, se flagelavam, etc.). Sua mensagem se dirigia a uma pessoa determinada, não ao povo em geral.

O segundo é o daqueles que poderíamos chamar de “discípulos de profeta” ou “filhos de profeta”. Caracterizavam-se por viver em comunidades, dirigidos por um “mestre” ou “pai” (por exemplo, Eliseu; ver 2 Re 4,38; 6,1.2.12.21; 2,12). Residiam junto a um santuário (ver 1 Sm 19,8 e ss.). Assinalavam a si mesmos por meio de tatuagens (ver 1 Re 20,38 e 41; Zc 13,6; 1 Re 18,28). Viviam segundo uma espécie de regra. Em geral tinham moradia e alimentação muito pobres (2 Re 4,1-7). Possuíam uma fé intransigente em Javé e independência absoluta frente à sociedade e à economia.

O terceiro era formado por aqueles que conhecemos como “profetas clássicos” ou “escritores”. Caracterizavam-se por deixar em segundo plano, o que se referisse a sua vida pessoal, ou seja, o narrativo ou anedótico. Expressavam-se por escrito na forma hebraica de poesia e através do gênero literário conhecido como “mensagem”. Consideravam-se proclamadores da palavra, não se sentindo “possuídos” por espíritos ou forças. A inspiração lhes vinha de improviso, sem qualquer preparação técnica ou física anterior. Não transmitiam um comunicado acidental ou pessoal, mas sim uma mensagem permanente e dirigida a todo o povo.

 

2. VERDADEIROS E FALSOS PROFETAS

            Havia inúmeros profetas; havia profetas israelitas e estrangeiros, havia falsos profetas e profetas verdadeiros. Quais eram os critérios utilizados para distingui-los? A vida do profeta não constituía uma prova. Se os que eram denunciados como falsos tivessem sido explicitamente corruptos, enganadores ou mentirosos, não teria sido nada difícil desmascará-los. Além disso, os profetas verdadeiros não facilitavam o discernimento porque, para a mentalidade do povo da época, eles não eram nenhum modelo de santidade.

Falando de maneira mais complexa: o profeta não era falso por dizer algo objetivamente errado ou que não se cumpriria; recordemos o caso de Jonas, ou o de Jeremias e a invasão cita, que nunca aconteceu, ou o de Isaías e sua profecia de morte ao rei Ezequias. Hoje, a posteriori, sabemos muito bem quem, dentre todos os profetas mencionados na Bíblia, era verdadeiro ou falso profeta. Contudo, sabia Jeremias que ele era verdadeiro e que Jananías era falso? Sabia Jananías que ele próprio era um falso profeta? (ver Jeremias 28). Sabia o povo qual dos dois era o verdadeiro e qual o falso?

3. CRITÉRIOS DE DISCERNIMENTO

            O profeta verdadeiro sempre denuncia a manipulação de Deus, manipulação que pretende domesticar ao Absoluto, ao imanipulável, na linguagem em que fala Dele.

O profeta verdadeiro sempre denuncia o vazio em que caem os símbolos sagrados quando deixam de ser ponte ou um meio de comunicação com o Deus verdadeiro.

O profeta verdadeiro denuncia sempre a confiança supersticiosa posta nas instituições: rei, Estado, templo, culto, lei, riqueza etc.

O verdadeiro profeta, e este poderia ser o critério mais importante de discernimento, está permanentemente des-instando-se e desinstalando o povo, porque o verdadeiro profeta fala sempre em nome do Deus de Abraão e de Moisés, um Deus nômade. O profeta, se é um profeta verdadeiro, é incapaz de acomodar-se até em sua consciência de profeta.

Os profetas clássicos ou escritores sempre tiveram um enorme interesse em jamais serem confundidos com os “profetas dervises” e, num dado momento, em sequer serem chamados de “profetas”.

 4. SER PROFETA EM ISRAEL

            Caso se tratasse apenas de saber o que é que Deus queria anunciar a seu povo como tal, não seria nada difícil ser profeta em Israel. Bastava conhecer o dinamismo interno da história da salvação; quer dizer, bastava conhecer o processo normal de evolução da história da salvação, processo que repetia sistematicamente cada um de seus passos. Quais eram os passos desse processo?

a. Deus elege seu povo e faz aliança com ele.

b. O povo peca, seguindo (prestando culto) a outros Deuses.

c. O Senhor abandona seu povo.

d. O povo é castigado pela mão de outros povos.

e. O povo se arrepende de seu pecado e clama a Deus.

f. Deus redime, liberta seu povo.

g. O povo renova sua aliança com Deus.

Bastava, pois, saber em que passo do processo normal o povo se encontrava em determinado momento para poder anunciar, em nome de Deus, o passo seguinte, e assim profetizar o futuro. Quando algum profeta abandonava esse procedimento e realizava uma profecia pontual, em geral se equivocava (recordar o caso do grande Isaías e o rei Ezequias, em 2 Re 20,1-11).

 5. PROFETISMO E POLÍTICA

            De onde tiramos a idéia de que os profetas não se envolviam nem deviam se envolver em política? É verdade que os profetas não fundavam partidos políticos, mas todos eles, praticamente sem exceção, se envolveram continuamente em política. Mais de uma dinastia do reino do norte foi derrubada por profetas verdadeiros, por exemplo. Se o que Samuel fez com Saul, ao consagrar como substituto do trono a Davi, não é se envolver em política, o que é então? Se o que Jeremias fez ao aconselhar abertamente ao povo que não se opusesse à invasão babilônica não era se envolver em política, a que é que devemos chamar de política? Não foi por vontade própria, nem por casualidade que os profetas sempre viram, como sinal da chegada dos tempos messiânicos, a destruição das armas ou sua transformação em instrumentos de caráter agrícola (ver, por exemplo, Is 9, 4; 2, 4; Mi 4, 3). A quantos governos ou donos de indústrias produtoras de armas não pareceria política uma profecia assim, atualmente?

6. O POVO DE VERDADE E OS PROFETAS

            Se estudarmos os profetas bíblicos nos daremos conta de que, pelo menos no tocante a eles,  não cabe a expressão “vox populi, vox Dei” (=voz do povo, voz de Deus). Quase infalivelmente o povo sempre seguiu os falsos profetas. O povo real, não o povo dos discursos demagógicos, está sempre disposto a seguir a quem lhe diz o que ele quer ouvir, a respaldar a quem lhe enche os ouvidos com promessas mentirosas, mas agradáveis. O profeta verdadeiro diz a verdade, recaiasobre quem recair, ainda que recaia sobre ele mesmo.

 7. O DESPRESTÍGIO DA PROFECIA

            Quatrocentos anos antes de Cristo a profecia se desprestigiou quase que totalmente. Por quê?, porque qualquer desequilibrado se apresentava dizendo “o Senhor me disse tal coisa”. Porque qualquer um, certamente com boa intenção, confundia os fenômenos de seu psiquismo profundo com manifestações de Deus. De fato, desde quatrocentos anos antes de Cristo, ser profeta passou a ser sinônimo, entre o povo, de “louco”, e falava-se, com toda a naturalidade, de “babar” para dizer que alguém profetizava (ver, por exemplo 2 Re 9, 6-11; Jr 29, 26, Os 9, 7). Como zombaria, pois todo mundo sabia que o rei Saul havia sofrido acessos de loucura, chegou-se a dizer, entre o povo, que ser profeta era tão fácil que “até Saul profetizava” (ver 1 Sm 10, 11-12).

Ser “profeta” chegou a estar tão desprestigiado que nem mesmo os verdadeiros profetas queriam ser tidos por tal (ver, por exemplo, Am 7, 14). Os profetas verdadeiros, os que eram chamados pelo próprio Deus a falar autorizadamente em seu nome, rechaçavam, a princípio, esse oficio (ver, por exemplo, Êx 34, 17; Jr 20, 7-18; 1,4-10) e só o exerciam forçados por Deus e contra sua própria vontade (o caso mais claro é o de Jeremias, durante toda a sua vida).

O desprestígio havia chegado a um tal extremo que, no Evangelho, João Batista se recusa a ser tido por profeta quando já o povo inteiro o considerava assim (ver João 1,19-27). E o próprio Jesus diz que em sua terra ninguém é respeitado por ser profeta (ver Mt 13, 57 e Jo 7, 52 o consigna assim) e que, na melhor das hipóteses, quem se apresentava como profeta não era outra coisa senão um lobo rapaz (Mt 7, 15).

            Com o desprestígio quase completo dos profetas, faz sua aparição o gênero apocalíptico. A apocalíptica veio preencher o vazio deixado na espiritualidade judaica pelo desaparecimento dos profetas; esse vazio de autoridade foi preenchido pelos rabinos e pelos livros apocalípticos que, por certo, jamais foram aceitos por aqueles. Converte-se a apocalíptica em um gênero literário a mais, como a poesia, os hinos, as cartas, a legislação codificada, a mensagem profética, ou a crônica histórica.

8. OS APOCALIPSES

            Houve Apocalipses de todos os tipos. Apocalipses judaicos, tais como o livro de Enoc, ou a assunção de Moisés, ou o Apocalipse de Baruc, ou os testamentos dos doze patriarcas, ou algumas partes do livro de Ezequiel, e grande parte do livro de Daniel; os manuscritos do Mar Morto têm vários livros ou partes de gênero claramente apocalíptico.

Entre os cristãos surgiram vários Apocalipses durante os primeiros séculos do cristianismo. Por exemplo: um Apocalipse de Pedro, outro de Tiago, outro de João (o único que foi incluído entre os livros canônicos da Sagrada Escritura do Novo Testamento), um Apocalipse chamado “Odes de Salomão” e, naturalmente, algumas partes dos quatro Evangelhos canônicos (como Mt 24; Mc 13; Lc 21, 5-33). Aqui abordaremos apenas o Apocalipse de João, o último livro das Sagradas Escrituras.

9. EM QUE CONSISTE O APOCALIPSE DE JOÃO?

1. No ano 96 ou um pouco antes, em plena perseguição de Domiciano, escreve-se um livro como se tivesse sido  escrito ao redor do ano 68 (sob a perseguição de Nero) e

2. Apresenta-se tudo o que ocorreu entre o ano 68 e o ano 96 como profecias feitas no ano 68.

3. Se tudo o que foi profetizado desde o ano 68 já ocorreu, diz-se, ocorrerá também o que falta por se cumprir:

que Cristo acabará triunfando.

4. Seu objetivo é dar esperanças e forças aos cristãos e comunidades perseguidas; não devem fraquejar porque

Cristo triunfará e o perseguidor desaparecerá.

5. Tudo isso se diz de forma tal que apenas os iniciados podem entender os escritos (essa a justificativa para  todos os símbolos e as imagens empregados para descrever os acontecimentos).

Como foi escrito na época e linguagem apocalípticos, atribui-se o escrito a um autor antigo e prestigioso (não se trata – recordemos o desprestígio da profecia – de uma profecia moderna, diz o autor).

Como foi escrito em plena perseguição, as indicações que se dão têm o objetivo de despistar quem o tome entre as mãos e não tenha sido iniciado no sentido verdadeiro. Por isso se diz que é de João, para despistar; não é de João, o evangelista. Declara-se no texto que foi escrito em Patmos; não foi escrito em Patmos. Diz-se que foi escrito entre o ano 68 e o ano 70 por um tal “João, o ancião”, mas dá-se essa data para despistar os perseguidores (para que iriam eles buscar, no ano 96, um autor que já era um ancião no ano 68 e que, portanto, já estaria morto no momento da perseguição?).

 

10. PARA QUANDO SÃO

AS REVELAÇÕES DO APOCALIPSE?

            Tudo o que se diz no Apocalipse faz referência “direta” ao momento em que foi escrito o livro (ver Ap 1, 1-3; 22, 6.7.10.12.20). No Apocalipse não há uma só palavra sobre o ano 2000, nem sobre o presidente dos Estados Unidos, nem sobre os computadores, ou cartões de crédito, nem sobre a Rússia. Em todo o livro do Apocalipse há uma só profecia sobre o futuro: Cristo triunfará e nós com Ele.

Para o livro do Apocalipse o fim dos tempos não está adiante, de forma que se tenha de tentar predizê-lo ou prevê-lo. Para o livro do Apocalipse o fim dos tempos (ou seja: o tempo último por ser definitivo, e definitivo por ser o último) chegou já com o acontecimento decisivo da morte/ressurreição de Jesus. Para o livro do Apocalipse Deus está já aqui conosco, e a presença de Deus entre nós é assegurada por Jesus, e não pelo templo, o sacerdócio, ou o sacrifício.

11. O TEMA DO LIVRO DO APOCALIPSE

            O Apocalipse foi escrito para falar de Jesus, não da Besta ou do Anticristo. Todo o livro do Apocalipse se destina a falar do triunfo efetivo e total do Cordeiro (a forma simbólica de referir-se a Jesus no Apocalipse). O centro e essência do livro é Cristo, não a Besta. O centro e essência do livro é a graça, não o pecado. O centro e essência do livro é a ressurreição, não a morte (nem a de Cristo nem a de ninguém). O centro e essência do livro é Cristo, não o diabo. O centro e essência do livro é o Reino de Deus (em Cristo), não o inferno ou a destruição. E o mais atraente no Apocalipse (em todo o Novo Testamento) é precisamente que é Cristo Jesus quem no Apocalipse nos fala de Jesus, o Cristo (justamente para dar autoridade ou força à mensagem do livro, que só aparece uns 50 ou 60 anos depois da morte e ressurreição de Cristo).

O Apocalipse todo parte da ressurreição de Jesus Cristo. Se Jesus não tivesse ressuscitado, nos diz o Apocalipse, nossa fé seria uma mentira e nós, uns idiotas (ver 1 Co 15), mas Jesus ressuscitou. Tudo, no Apocalipse, se projeta e se anima na esperança de sua “volta” gloriosa. Ele não é apenas “Aquele que era” e “Aquele que é”, mas também, e sobretudo, é “Aquele que virá” (Ap 4,8;1,4); Ele é o “Ômega” (Ap 22,13); Ele é “o último” (Ap 22,13); Ele é o fim de tudo (Ap 22,13); Ele é aquele cuja “vinda” imploram o Espírito e a Esposa (Ap 22,17;1,7-8). Toda esta acumulação de títulos para dizermos, o mais claramente possível, que o futuro, o verdadeiro futuro, o futuro definitivo, é de Jesus Cristo e tão-somente Dele.

Ao contrário do que ocorre nos Evangelhos, no livro do Apocalipse toda a atenção do escritor está voltada para o acontecimento decisivo da vida de Jesus: sua morte e ressurreição (o que o Evangelho de João chama “a hora”). Mas, nós cremos na ressurreição de Jesus Cristo? Cremos de verdade que ele “virá” como Senhor?, quer dizer: que a última palavra na vida dos seres humanos e do universo todo pertence a Deus, não ao dinheiro, ou ao poder, ou à violência, ou à injustiça, ou à morte, ou à ideologia, ou a um partido político?

 

 12. ESQUEMA GERAL DO APOCALIPSE

            O livro está dividido em duas grandes partes:

– Do capítulo 4 ao 11 revela “o Cordeiro”. Só o Cordeiro (o próprio Jesus) pode abrir o livro selado (ver Ap 5). Nada, pois, de revelações sobre o futuro trazidas por ninguém mais; só Cristo pode nos revelar o futuro porque só Ele é dono desse futuro. Só Cristo, só o Cordeiro pode iluminar todo o sentido do Antigo Testamento. E emprega-se a figura de um cordeiro para simbolizar que Cristo não vem fazer mal a ninguém, que Ele pode apenas dar vida, não tomá-la ou destruí-la.

– Do capítulo 12 ao 22 revela-se o “filho do homem”, o homem de Deus, o homem no qual Deus reina plenamente, o homem no qual se nos revela o que é o Reino de Deus.

 13. O APOCALIPSE

É PURO EVANGELHO, PURA BOA NOVA

            O Apocalipse pretende ser pura boa noticia, puro Eu-anguelion. O Apocalipse é um grande livro de esperança, já que celebra a vitória definitiva do Cordeiro sobre a Besta, a vitória definitiva da vida sobre a morte, a vitória definitiva do amor sobre o ódio, sobre a violência e a perseguição (ver Ap 5,12). O Apocalipse tem, como objetivo essencial, encorajar os crentes em meio a suas tribulações e exortá-los a não desanimarem, a perderem o medo, a serem perseverantes. O Apocalipse é, essencialmente, boa notícia cumulada de bem-aventuranças e aleluias (ver as 7 bem-aventuranças do Apocalipse: Ap 1,3; 14,13; 16,15; 19,9; 20,6; 22,7; 22,14).

Para o Apocalipse, porque é pura boa nova, o fim, o definitivo, está nas mãos de Deus, não nas dos romanos, ou nas do império, ou nas do dinheiro, ou da violência, ou da morte, ou do poder atômico, ou da injustiça; não será essa uma boa notícia? E, além disso, o que Deus quer é a salvação da humanidade.O mundo, o universo, será transformado radicalmente até se converter em um mundo novo, em um mundo renovado segundo as concepções de Deus. E, assim, onde abundou o pecado, vai superabundar a graça (ver Ap 7,9-17; Rm 5,20). O Éden, o Paraíso, segundo o Apocalipse, não se encontra lá atrás, no passado, mas no futuro; o Reino efetivo de Deus está adiante, não atrás, ou fora, num mundo paralelo (ver Ap 22,2-5; Gn 1-4).

 

14. O APOCALIPSE É UM LIVRO LITÚRGICO

            Nele uma comunidade louva a Deus, o santo e onipotente, e associa Cristo a esse louvor. O povo, a comunidade que louva a Deus através de Cristo, é uma comunidade de sacerdotes (ver Ap 1, 6; 5,10; 20,6). Assim como há nele sete bem-aventuranças, há sete louvores: Ap 1,4-7; 5,9-10; 5,12; 5,13; 7,10; 11,15; 19,6-7. Na mesma linha da Carta aos Hebreus e de 1 Pedro 2,9, o Apocalipse diz que Cristo é o único sacerdote e que, fazendo parte de seu corpo, todos os membros da comunidade, corpo de Cristo, todos são agora sacerdotes (ver Ap 5,10). Por ser o Apocalipse um livro litúrgico, tudo nele ocorre em um só dia, que é, precisamente, um domingo, dia da ressurreição de Cristo (ver Ap 1,10).

15. DETALHES IMPORTANTES A ESCLARECER

            1. Como já mencionamos acima, tudo o que se diz no Apocalipse é para referência “direta” ao tempo em o que o livro foi escrito (ou seja: ao final do século I da era cristã). Para que não nos reste a menor dúvida, o autor repete isso duas vezes já nos três primeiros versículos do livro e o diz cinco vezes no capítulo final (ver Ap 22,6; 22,7; 22,10; 22,12; 22,20). Prova, além disso, desse mesmo fato é que todos os Apocalipses judaicos diziam coisas que tinham de cumprir-se no momento em que se estava publicando o livro e nunca faziam afirmações sobre futuros remotos no tempo; o Apocalipse de João não é nenhuma exceção nesse ponto.

2. O fato de as igrejas às quais se dirigem as sete cartas no início do livro serem apenas sete implica, precisamente pelo uso do número sete (sempre simbólico na mentalidade judaica), que a necessidade de crítica recaia sobre todas as comunidades cristãs, e que todas essas críticas possam dirigir-se a cada uma das igrejas do mundo. As expressões usadas nessas cartas significam o seguinte: só a Igreja que passe por esses sete filtros é uma Igreja perfeita, é uma Igreja como Cristo a quer. O relato segue um esquema bem claro: as igrejas pares nessa numeração de sete (a segunda, a quarta e a sexta) são elogiadas; as igrejas ímpares, e em ordem crescente (a primeira, a terceira, a quinta e a sétima) são qualificadas como negativas. Nesse esquema, a Igreja de Tiatira, muito pequena e de muito pouca importância na história da Igreja, é colocada numa posição de grande valor e em lugar central na avaliação feita pelo autor do Apocalipse. Não se chama a Igreja de Tiatira à conversão, ao invés disso, elogia-se seu amor, sua integridade, sua fé, sua entrega ao serviço, sua perseverança e outras boas obras. É na carta à Igreja de Tiatira que se dá a Cristo o título mais elevado ao falar de sua divindade (o título de “Filho de Deus”, ver Ap 2,18), título que só volta a aparecer, ainda assim apenas implicitamente, ao final da carta (ver Ap 2,28).

3. Os números, como sempre na Sagrada Escritura, são utilizados no Apocalipse com todo o seu sentido simbólico. Recordemos que, na mentalidade judaica, os números têm valor de letras, como todas as letras têm valor numérico. Por isso, pode-se encontrar o valor numérico (a cifra) de qualquer nome e, também, um número qualquer pode ser expresso em letras e, portanto, por um nome.

Na mentalidade judaica no tocante à Bíblia o sete é o número de Deus e, por isso, daquilo que é perfeito. O que se faz sete vezes está feito com perfeição (a prata mais pura, no Salmo 12,6, ou as sete petições no Pai Nosso que, de fato, é a repetição septenária do único pedido que se há de fazer: que venha a nós o vosso Reino)

O número doze significa, sempre, a totalidade do povo (as doze tribos). Dizer que tenha chamado os doze implica que tenha chamado todo o povo.

O número mil representava, em Israel, o incontável; como quando dizemos “já lhe disse isso mil vezes”.

O número três é o número de Deus (significa a santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo); mostra quando se trata em repetir três vezes, ou menciona três coisas em seguida, significa o superlativo ou o mais perfeito (assim Santo, Santo, Santo significa totalmente Santo);

O número três quando se trata de três e meio (a metade de sete), representa, a partir do livro de Daniel, a duração de qualquer tipo de perseguição (por exemplo em Lc 4,25, ou em Tg 5,17). Esses três tempos e meio aparecem como três meses e meio, como três anos e meio, como 42 meses, como 1.260 dias etc. Aludem sempre a feitos históricos que eles, os redatores, vivenciaram. Por exemplo: Nero desapareceu de Roma por três meses e meio e, em seguida, reapareceu para mandar matar aqueles que se haviam alegrado com seu desaparecimento.

O número seis (não consegue nunca chegar a sete) emprega-se sempre que se quer aludir a alguém que pretendia ser considerado como Deus, sem sê-lo.

O número quatro é usado sempre que se quer aludir ao universo inteiro, uma vez que tem a ver com as quatro direções do cosmos.

O número dez se usa para tudo aquilo que pode ser contado, mas se acaba, e deve ser aprendido de memória (naturalmente, tem a ver com o que se pode enumerar com os dedos das mãos).

Mais adiante falaremos de dois números muito importantes: o 666 e o número dos 144.000 salvos.

4. O Apocalipse, como todos os livros escritos segundo o gênero literário apocalíptico, é um livro escrito durante uma perseguição contra pessoas de mentalidade judaica, por isso está cheio de símbolos. Esses símbolos só eram claramente compreensíveis para o judeu iniciado nos “mistérios” cristãos. Que poderia revelar a um soldado romano a expressão “o cordeiro triunfará sobre a besta”? Mas um cristão, que tivesse participado das reuniões clandestinas da comunidade, entenderia perfeitamente que o que se queria dizer era que Cristo acabaria triunfando sobre o império romano e seu representante oficial, o imperador. Precisamente porque o Apocalipse tinha um sentido político muito forte, falava continuamente através de expressões simbólicas. E assim haviam feito sempre todos os livros apocalípticos judaicos.

No Apocalipse trata-se de descrever o indescritível e, para isso usam-se imagens já utilizadas pelo povo judeu e outras imagens conhecidas usadas pelos pagãos, mas com um sentido novo, com um sentido cristão. As imagens do Apocalipse eram perfeitamente compreensíveis para judeus que haviam lido os livros de Jeremias, Ezequiel, Daniel, Joel ou Isaías. Para descrever o indescritível usam-se até mesmo símbolos da astrologia ou da mitologia pagã.

5. Todas as aparições relatadas no Apocalipse têm exatamente o mesmo sentido que tem toda aparição no Novo Testamento: justificar e autorizar uma missão ou apostolado de alguém. A aparição bíblica nunca tem sentido em si mesma, tem sempre uma função. Por isso, em todas essas aparições o relator não dá importância ao como, mas à finalidade da aparição (contra todo o nosso sensacionalismo e “milagreirismo” atual).

6. Observemos que, no Apocalipse, sempre se diz que Cristo vem, não que nós tenhamos de ir a algum lugar. Não se diz que nós vamos para o céu, mas sim que o céu (ou seja “Deus”) tem de vir aqui. É este mundo, diz o Apocalipse, o que tem de se converter plenamente no Reino de Deus, num mundo como Deus o quer, num mundo em que reine visivelmente o amor (Deus), não o dinheiro, ou o poder, ou a morte, ou a injustiça, ou a enfermidade, ou a dor. “Ele vem” significa o mesmo que “venha a nós o vosso Reino” ou a jaculatória contínua dos leitores do Apocalipse: “Maranatha”: vem, Senhor.

7. Observemos, também, a repetição da expressão “não temas” no início das revelações (em Ap 1,17). Toda manifestação/revelação de Deus (ou seja: toda “teofania”) começa por afastar o temor. E assim acontece no Evangelho cada vez que há uma revelação/manifestação de Deus (ver Mt 1,20; 14,27; 17,7; 28,5; Mc 4,40; 6,50; 16,6; Lc 1,13; 1,30; 2,10; Jo 6,20). Se o Novo Testamento revela algo é a proximidade de Deus conosco através da encarnação, e que essa proximidade é salvadora; se Deus se aproxima do homem é para salvá-lo, é por amor. Se Deus é amor, e o amor expulsa o temor (ver 1Jo 4,18), toda manifestação de Deus traz a paz e afasta o temor.

8. Marcar com um selo ou tatuar sobre a pele o nome do dono era coisa muito comum na época em que foi escrito o Apocalipse. Entre os cristãos se dizia “marcar com o selo” ao ato de fazer o sinal da cruz sobre a fronte do catecúmeno no dia de seu batismo/confirmação. Também se chamava “o selo” ao Espírito Santo que vinha sobre o cristão e o possuía para sempre no momento de seu batismo/confirmação. Como contraposição se diz, no Apocalipse, que há gente que, em vez de levar o selo de Cristo, leva a marca da Besta, pois pertencem a ela e a ela servem; em vez de pertencer ao Reino de Deus, se orgulham de pertencer ao reino da Besta, ao império romano, e servem precisamente a quem persegue a Cristo e a seus servidores (ver Ap 7,2-17; 9,4; 13,16-18).

9. Para quem está a par do que significam as imagens e símbolos do Apocalipse, o número de 144.000 salvos (ver Ap 14,1-5; 7,2-17) não pode ser mais claro. Trata-se de doze vezes doze vezes mil, isto é: o povo inteiro, de todos os povos da terra, até tornar-se uma multidão incontável. E isso é, exatamente, o que se diz no mesmo lugar em o que se mencionam  esses 144.000 (ver Ap 7,4-9; 19,1 e 6; 20,4; 13,7 e 16). Não se trata, pois, de um número matemático exato, não é 143.999 +1, e sim, um número simbólico, ocorrência típica deste livro, de uma multidão incontável de todos os povos, raças, nações, de todas as idades e de toda condição social.

10. O Apocalipse é, naturalmente, um livro político. A isso precisamente se deve que nele se utilizem tantos símbolos e imagens: para que só entendesse seu sentido claro o cristão iniciado e não qualquer soldado romano que lançasse mão do livro. Os romanos eram absolutamente intransigentes com quem questionava de algum modo o poder do imperador ou do império romano. Isso, exatamente isso, é o que se faz no Apocalipse. Quem louva ao Cordeiro que reina para sempre não é amigo do César (ver Jo 19,12-15). O Apocalipse afirma que tudo será transformado, que nada no universo se subtrai ou pode subtrair-se ao poder de Cristo. Até as estruturas mais físicas do universo serão transformadas pelo reinado efetivo de Cristo. Se para alguém está claro que não se pode servir a dois senhores é para o autor do Apocalipse (ver Mt 6,24; Lc 16,13). Segundo o livro do Apocalipse, Roma, e com ela o império romano inteiro, deve cair e caíra (ver Ap 17 e 18). Para que não nos reste a menor dúvida do que pensava o autor sobre Roma, capital do império, ele a denomina (sessenta anos depois da morte e ressurreição de Cristo, e trinta anos depois de ali terem sido mortos  Pedro e Paulo) a grande prostituta, a que fez multiplicarem-se por toda a Terra as abominações, a Babilônia que deve ser destruída. Claro que o Apocalipse é um livro com sentido político! Em nome do livro do Apocalipse não se pode, legitimamente, pedir a um cristão que se mantenha apartado da política, porque o Apocalipse não só tinha sentido político quando foi escrito, mas continua a ter no presente.

11. A Besta aparece muitas vezes no livro do Apocalipse (ver Ap 11,7; todo o cap. 13; 14,9-11;16, 2.10.13; 17,3; 19,19-20). A imagem da Besta foi tomada do livro de Daniel 7. O que no livro de Daniel se diz sobre as quatro bestas se resumiu no Apocalipse em uma só Besta, que é Roma, o império romano, e seu representante oficial, o imperador desse império. Todo o Apocalipse trata, na verdade, de uma luta entre a Besta e Cristo e de como a Besta é totalmente vencida por Cristo. Uma vez mais, é Cristo quem agora detém todo o poder no universo (Mt 28,18; Fl 2, 9-11) e é Cristo quem terminará vencendo a quem se oponha a Ele. Por forte que pareça o império ou o imperador, diz o autor do Apocalipse, por fraco que pareçam Cristo (um Cordeiro) ou os cristãos, Cristo acabará triunfando e os cristãos com Ele. Justamente pelo conteúdo político de uma tal afirmação os cristãos dos primeiros séculos tinham de usar de símbolos para dizê-la, símbolos só compreensíveis para o cristão iniciado daquele tempo.

12. A mulher vestida de sol (Ap 11,15-19) é, no campo do bem, o que é a mulher vestida de vermelho escarlate no campo do mal. A mulher vestida de escarlate é a cidade de Roma, com tudo o que ela representava para o império romano. Assim, a mulher vestida de sol representa a Igreja, povo de Deus, de fato o grupo fiel de judeus que, na época da perseguição levada a efeito por Domiciano, se tornara cristão e se mantinha fiel a Cristo.

Essa mulher vestida de sol (ainda que tenha servido como símbolo de Maria na festa litúrgica da assunção, não é, no Apocalipse, a santíssima Virgem Maria, porque essa mulher vestida de sol, como Eva por causa de seu pecado, dá a luz em meio à dor (ver Ap 12,2).

13. Na mentalidade judaica se tornara tradição igualar a idolatria à prostituição (ver Os 1,2; Ez 16; 20,30; 23) e a fidelidade absoluta a Javé à virgindade (ver Ap 19,9; 21,2; 2Co 11,2), por isso a menção a esses virgens vestidos de branco (Ap 14,4). A virgindade de que fala o Apocalipse não tem nada a ver com virgindade física, mas é simplesmente uma imagem (mais uma imagem!) para descrever a virgindade teológica: a fidelidade absoluta ao Cordeiro (Cristo).

14. De uma vez por todas!: o Apocalipse não menciona ninguém, nem uma só vez, com o nome de “anticristo”. Onde encontraremos o nome de “anticristo” é nas cartas de são João (1Jo 2,18.22; 4,3; 2Jo 7). E, por certo, para João, anticristo é todo aquele que se opõe à doutrina de Jesus Cristo. Não há, segundo João,um anticristo, mas muitos, todo aquele que, em qualquer época, se oponha a Cristo.

15. Falemos do número da Besta (o 666 ou o 616). Recordemos que em hebraico toda letra tem valor numérico, e todo número tem valor de letra. Em numerosas versões originais do Apocalipse aparece, em vez do número 666, o número 616. Em hebraico, a expressão “Nero-César” soma 666 pontos. Em letras gregas, a expressão “César-Deus” soma 616 pontos. Uma vez mais, no momento em que foi escrito o Apocalipse, tratou-se de representar, desta vez por meio de números, uma mensagem político-teológica em relação a Cristo, ao imperador de Roma, e aos cristãos dessa época.

16. A expressão “novos céus” e “nova Terra” (Ap 21,1) jamais significou que a Terra ou o universo viessem a ser destruídos, mas sim, renovados. O Apocalipse não faz senão utilizar uma imagem de Isaías (51,16; 65,17; 66,22) para explicar a renovação que ocorrerá no reinado do Messias. E assim o utiliza são Paulo (Rm 8,18-19). O Novo Adão não é um homem diferente que tenha aparecido pela destruição do homem velho, mas sim o homem, o mesmo homem, mas totalmente renovado, graças a Cristo.

 

            Nota final: O Apocalipse é um livro escrito para animar, para dar esperanças, para fortalecer o cristão. Nada nele foi escrito para assustar, ameaçar ou revelar algo sobre a história como ciência. Nele não há uma só palavra que tenha sido escrita para falar do ano dois mil do nascimento de Jesus (que, por certo, já passou há muito tempo). Para o Apocalipse, como para todo o Evangelho, o Reino de Deus já está aqui, entre nós, e aqui deve produzir seu fruto; o semeado por Deus deve chegar aqui à colheita plena. Nos, cristãos, somos os únicos que sabemos, por fé, que o universo não acabará em uma hecatombe de nenhum tipo, mas no triunfo definitivo, total, absoluto e evidente de Cristo, no que chamamos, e o Evangelho chama, o “Reino de Deus”.

Alejandro von Rechnitz

 

 

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ÍNDICE GERAL DO APOCALIPSE

Responsável por este trabalho:

Xavier Cutajar

xacute@uol.com.br       http://xacute1.com

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