MARCOS – PAGOLA

Evangelho de Marcos

José Antonio Pagola

Marcos não escreve uma “vida de Jesus” no estilo como Tácito ou Suetônio escreveram a história dos imperadores. Como se diz no título de seu pequeno escrito, o que ele quer é anunciar  “a Boa Nova (=Evangelho) de Jesus, Messias, Filho de Deus” (1,1).  Desde as primeiras páginas a atuação de Jesus cria “suspense”.  Sua maneira de agir coloca interrogações: “O que é isto?”,  “quem é este?” (1,27; 4,41; 6,3). Os discípulos não conseguem entende-lo. Seus adversários pedem um “sinal do céu” (8,11-13) em vez de descobri-lo no próprio Jesus. Os demônios conhecem seu segredo, mas Jesus os manda calar, porque não sabem adorar seu mistério nem sua ação salvadora. Marcos irá mostrar o itinerário que pode levar a confessar Jesus como verdadeiro Messias e Filho de Deus.

O mistério de Jesus, Messias ou Cristo, começa a esclarecer-se na região de Cesaréia de Filipe. Entre as pessoas correm opiniões diversas: uns dizem que ele é João Batista que voltou a vida, alguns pensam em Elias, outros dizem que é algum profeta. Quando Jesus faz a pergunta decisiva aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?”, Pedro, como porta-voz de todos, responde: “Tu és o Messias” (8,29). Pedro está pensando num Messias que conduza Israel a sua libertação, destruindo todos os seus adversários. Jesus começa então a ensinar-lhes pacientemente que seu destino é passar por uma morte ignominiosa ate chegar a ressurreição. Não é o Messias poderoso e glorioso no qual eles estão pensando. E um Messias que seguirá o caminho da cruz, que se fará o último e o servo de todos, porque “não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida como resgate por muitos” (10,45). Seus discípulos entenderão sua verdadeira identidade messiânica quando tornarem a cruz, aprenderem a ser os últimos, os servos de todos, e o seguirem até à crucificação. Na cruz ser-lhes-á revelado seu mistério. (0 ensino de Jesus sobre seu caminho de sofrimento e ignomínia até a morte-ressurreição e a incompreensão de seus discípulos encontram se em três seções: 8,31-34;  9,30-35; 10,32-44.)

0 mistério de Jesus, Filho de Deus, é revelado ao leitor desde o início. É o próprio Deus quem o apresenta como seu Filho. Jesus acaba de sair das águas do Jordão, onde foi batizado; rasgam-se os céus e ouve-se uma voz: “Tu és meu filho amado. Em ti eu me agrado” (1,11)  Ninguém parece estar presente. E preciso esperar a ação decisiva de Deus para confessá-lo, mas Jesus está atuando “secretamente” como Filho querido de Deus. Mais uma vez ouve-se a voz do céu. Acontece no alto de uma montanha onde Jesus “se transfigura”. Desta vez está presente o círculo mais intimo de discípulos. Também eles ouvem a voz: “Este e meu Filho amado.  Escutai-o” (9,7). Deus os convida a ver em Jesus seu Filho e a escutar o que ele está lhes ensinando sobre o caminho da cruz e da ressurreição. No entanto, ao descer do monte, Jesus os adverte a não contarem a ninguém o que viram ate que ele  “ressuscite dos mortos” (9,9-10) ” Então poderão captar seu mistério e confessa-lo. Só no final um centurião pagão vendo Jesus expirar abandonado por todos confessa: “Verdadeiramente este era o Filho de Deus”(15,39). É precisamente no abandono da crucificação que se pode confessar Jesus não como Filho poderoso de um Deus onipotente mas como Filho crucificado, entregue por seu Pai por amor à humanidade.

Não e fácil, e Marcos o sabe. Os discípulos que seguiram Jesus até Jerusalém, ao aproximar-se a crucificação, “o abandonam e fogem todos” (14,50). As mulheres ocupam então o lugar dos varões. Elas seguem Jesus ate a cruz. Mas, uma vez morto, quando se lhes anuncia que o crucificado “ressuscitou”, saem fugindo do sepulcro pois  “um grande tremor e espanto se havia apoderado delas e não disseram nada a ninguém porque tinham medo” (16,8)… Dá medo mergulhar no mistério da morte e ressurreição de Jesus. E fácil fugir e abandona-lo… No entanto, para crer nele, verdadeiro Messias e Filho de Deus, Marcos convida seus leitores a colocar-se diante de “Jesus crucificado” e diante de seu “sepulcro vazio”. É ali que Deus pode revelar-nos seu Filho.

Esta vida do Messias Jesus, Filho de Deus, que termina crucificado por seus adversários mas ressuscitado por Deus, é a proclamação da “Boa Nova (=Evangelho) de Deus”. Marcos resume a mensagem de Jesus dizendo que ele proclamava: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede nesta Boa Nova (=Evangelho)” (1,14-15). De acordo com o relato, são os gestos de Jesus e não tanto suas palavras que vão aproximando o Reino de Deus das pessoas: “A multidão acorria a ele para ver o que fazia” (3,8). Cheio do Espirito de Deus, sua vida se transforma em fonte de vida e cura. À medida que ele vai avançando pela Galileia, os espíritos malignos saem das pessoas fugindo (1,27; 5,13).  Com sua autoridade de Filho ele oferece o perdão gratuito de Deus: “Filho, teus pecados estão perdoados” (2,1-12). Sua forca salvadora purifica os leprosos, cura os cegos e devolve a vida à filha de Jairo (5,37-43). Jesus é o Filho de Deus que traz consigo a salvação de Deus, não como o imperador de Roma, a quem chamam “filho de deus” (divi filius), embora não possa salvar. Jesus o Messias e Filho querido, e a Boa Nova (=Evangelho) de Deus, porque traz consigo sua salvação.

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Texto transcrito do livro “JESUS: aproximação histórica” de José Antonio Pagola, Editora Vozes – 2012 – pp 531-533.

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MAPA DA PALESTINA

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  Responsável por este trabalho

    Xavier Cutajar

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