TEXTOS EXCLUSIVOS DE JOÃO

 

TEXTOS EXCLUSIVOS DE JOÃO

NA NARRATIVA DA PAIXÃO,

MORTE E RESSURREIÇÃO DE JESUS

 

Todos os evangelhos narram a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus. Ao ler esses relatos, não é difícil perceber uma longa história de redação, condicionada pelas diferentes realidades das várias comunidades cristãs. A última palavra de Jesus na cruz, por exemplo, é boa amostra de recordações, reflexões e interpretações de cada comunidade:

– “Às três da tarde, Jesus deu um grande grito: ‘Eloi, Eloi, lamá sabactâni’, que traduzido significa: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’ Então Jesus, dando um grande grito, expirou” (Mc 15,34.37).

– “Perto das três da tarde, Jesus deu um forte grito: ‘Eli, Eli, lamá sabactâni?’ Quer dizer: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’ E de novo Jesus deu um forte grito e entregou o espírito” (Mt 27,46.50).

– “Jesus deu um forte grito: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’” (Lc 23,46).

– “‘Tudo está consumado’. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,30). Diferentemente dos sinóticos, em João, Jesus não morre: é Deus. Ele se entrega!

É evidente que a comunidade joanina interpreta a morte de Jesus como a consumação da obra designada pelo Pai. Nas bodas de Caná (Jo 2,1-11), o primeiro sinal, Jesus Cristo afirma: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4). Após a realização dos sete sinais, primeira parte do evangelho (Jo 2,1-11,54), Jesus Cristo, em sua despedida da comunidade (13,1-17,26), é descrito da seguinte forma: “Jesus sabia que tinha chegado a sua hora, a hora de passar deste mundo para o Pai. Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).

A morte de Jesus é compreendida como a vitória do amor, da verdade e da vida sobre o mundo da morte: “Eu venci o mundo” (16,33). E o último gesto de Jesus é “entregar o espírito”, o espírito do Pai, que acompanhou e orientou toda sua obra. Após a ressurreição, o mesmo Espírito voltará à comunidade para guiá-la no caminho da verdade e da vida: “Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo’” (Jo 20,22).

No relato da paixão, da morte e da ressurreição, a comunidade joanina acrescenta vários textos exclusivos em vista de sua realidade, de seus problemas e conflitos, sobretudo com o mundo (o império romano e os judeus fariseus). Era necessário para a comunidade, perseguida pelo mundo, elaborar mensagens e argumentos para fortalecer seus membros. Eis alguns desses textos exclusivos de João:

  • Jesus diante de Pilatos: “Jesus respondeu: ‘O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus servos teriam lutado para eu não ser entregue aos judeus. Mas agora meu reino não é daqui’” (Jo 18,36). O reino de Jesus não é da ordem – poder e dominação – do império romano. Sim, é Reino do Céu, ou seja, reino do “meu Pai”, caracterizado pelo amor: “Deus é Amor: quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1Jo 4,16). Na fidelidade e na firmeza na comunhão do amor de Jesus, o reinado da verdade de Deus se realiza: “Se vocês permanecem na minha palavra, são de fato meus discípulos; e conhecerão a verdade, e a verdade libertará vocês” (Jo 8,31-32); “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6); “Quem é da verdade ouve a minha voz” (Jo 18,37).
  • O rei Jesus: “Pilatos disse aos judeus: ‘Aqui está o rei de vocês’. Eles gritavam: ‘Fora! Fora! Crucifique-o!’ Pilatos lhes disse: ‘Mas eu vou crucificar o rei de vocês?’ Os chefes dos sacerdotes responderam: ‘Nós não temos outro rei, senão César’. Então Pilatos lhes entregou Jesus para ser crucificado” (Jo 19,14-16a). Depois de ameaçar Pilatos para condenar Jesus (Jo 19,12-13), a autoridade judaica aclama César seu único rei, para manter seu privilégio junto ao poder do império romano. Com a descrição da leviandade dos judeus, a comunidade joanina denuncia a falsidade e a perversidade dos judeus fariseus, a autoridade religiosa do seu tempo. Para a comunidade cristã, Jesus é o único rei com a força do amor, da justiça e da fidelidade.
  • Jesus e sua mãe: “Junto à cruz de Jesus estava sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à sua mãe: ‘Mulher, eis aí o seu filho!’ Depois disse ao discípulo: ‘Eis aí sua mãe!’ E desde essa hora o discípulo a recebeu em casa” (Jo 19,25-27). Enquanto os três evangelhos sinóticos registram a permanência das mulheres à distância da cruz, o Evangelho de João apresenta, junto à cruz, as mulheres e o discípulo amado. Nas falas de Jesus, Maria, sua mãe, recebe o tratamento de “mulher”, a discípula fiel ao amor de Jesus (Jo 2,4; 19,26), a qual, com o discípulo amado, funda nova comunidade de amor. E então nasce ao pé da cruz a Igreja com o Espírito Santo, nova humanidade e novo Israel, para continuar a missão do servo crucificado e morto por causa da prática da justiça, da solidariedade e do amor (Jo 19,30; 20,22).
  • O golpe de lança: “Quando se aproximaram de Jesus, viram que já estava morto; por isso, não lhe quebraram as pernas. Mas um dos soldados lhe perfurou o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água. Essas coisas aconteceram para se cumprir a Escritura: ‘Nenhum osso dele será quebrado’. E ainda outra passagem diz: ‘Olharam para aquele a quem traspassaram’” (Jo 19,33-34.36-37). Jesus morto na cruz é o verdadeiro messias. Nele, as palavras da Escritura são confirmadas: a primeira citação, que vem de Ex 12,46, testemunha Jesus como o cordeiro da nova Páscoa, a festa da libertação; a segunda, que vem de Zc 12,10, serve para comprovar a inocência de Jesus. Os homens, ao contemplar o “traspassado”, arrependem-se e entram em luto: “Quanto àqueles que traspassaram, chorarão por ele como se chora pelo filho único”. Confirma-se que a morte de Jesus não é o fim. Do sangue (a sede da vida, Gn 9,4) e da água (símbolo do Espírito, cf. Is 44,3) de Jesus Cristo brota a vida para todos e todas.
  • Crer sem ver: Tomé, ausente na ocasião da aparição de Jesus, ao reencontrar os demais discípulos (Jo 20,24-25), poderia ter acreditado no testemunho deles, afirmando sua fé sem ver e tocar (cf. Jo 20,8). Oito dias depois, Jesus volta ao meio deles, agora com a presença de Tomé. Vendo e ouvindo Jesus, sem tocá-lo, faz sua confissão de fé. Ao vacilar entre o ver e o crer, Tomé motivou o pronunciamento de Jesus sobre a bem-aventurança dos que creem sem ver o Ressuscitado: “Felizes os que não viram e acreditaram” (Jo 20,29). As narrativas de aparição são um fator de convencimento da comunidade sobre a presença de Jesus vivo em seu meio.

Todos esses textos exclusivos de João têm como pano de fundo a situação da comunidade joanina, que sofre com as perseguições e os conflitos internos. É preciso alimentar a fé na presença de Jesus crucificado e ressuscitado no meio da comunidade para orientar e fortalecer a missão e o testemunho cristão no mundo do império romano.

Hoje, somos chamados à convivência do amor do Crucificado (At 2,42-47) e à bem-aventurança dos que creem sem ver o Ressuscitado (Jo 20,19-20; cf. 1Pd 1,3-9). A fé em Jesus de Nazaré ressuscitado, que continua vivo entre nós, leva a reconhecer sua presença nos sinais do amor manifestado nas diversas comunidades e culturas dos nossos tempos. Assumir essa fé no Deus da vida nos move à solidariedade global pela paz e pela vida, superando o império da fome, da guerra e da morte.

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BIBLIOGRAFIA

(referente aos três artigos sobre o Evangelho de João)

BEASLEY-MURRAY, George R. John. World Biblical Commentary, Texas: Word Books, v. 36, 1987.

BORTOLINI, José. Como ler o Evangelho de João: o caminho da vida. São Paulo: Paulus, 1994.

BROWN, R. E. A comunidade do Discípulo Amado. São Paulo: Paulus, 1984.

______. Evangelio según San Juan. Madrid: Cristiandad, 1999.

CENTRO BÍBLICO VERBO. Da comunidade nasce a nova vida!: Evangelho de João: roteiro e subsídios para encontro. São Paulo: Paulus, 2000.

CONFERÊNCIA DOS RELIGIOSOS DO BRASIL (CRB). Caminho para a vida em abundância: uma leitura de João em perspectiva de festa. Brasília: CRB, 2009.

FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI, Bruno. Os evangelhos (II). São Paulo: Loyola, 1992.

KONING, Johan. Evangelho segundo João:  amor e fidelidade. São Paulo: Loyola, 2000.

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MATEUS, Juan; BARRETO, Juan. O Evangelho de João. São Paulo: Paulus, 1989.

______. O Evangelho de João: análise linguística e comentário exegético. São Paulo: Paulus, 1996.

ONUKI, Takashi. O Evangelho de João. Tóquio: Christian Church Publisher, 1996.

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DO EVANGELHO DE JOÃO – MÊS DA BIBLIA

Fonte: Revista Vida Pastoral

Setembro-outubro de 2015-ano 56- nº 305

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