EVANGELHO DE JOÃO-MÊS DA BÍBLIA

 

EVANGELHO DE JOÃO

MÊS DA BIBLIA

Fonte: Revista Vida Pastoral

Setembro-outubro de 2015-ano 56- nº 305

 Neste ano, o livro proposto pela CNBB para aprofundamento no mês da Bíblia e o Evangelho de Joao. O lema escolhido é “Permanecei no meu amor para produzir muitos frutos”, e o tema, “Discípulos missionários a partir do Evangelho de João”. O mandamento do amor de uns para com os outros, sinal do discipulado, e o principal legado do Evangelho de João. Não se trata de um “amor” qualquer, lembrando que a palavra “amor” é muito banalizada e usada para tudo em nossos dias. Trata-se de amor que tem como meta e como ideal o amor de Cristo. A vivência desse amor nas comunidades cristãs e dos cristãos para com o todo da criação é a principal força missionária. Como tem repetido o Papa Francisco, a Igreja cresce não por proselitismo, mas pela força de atração que vem do testemunho.

Aspectos muito concretos do contexto da comunidade de João ocasionaram a ênfase dada ao mandamento do amor e a busca por fortalecer e aprofundar a fé. A comunidade era formada por significativa diversidade: judeus convertidos, samaritanos, pagãos e convertidos galileus, pobres, ricos, membros do grupo de João Batista. Isso exigiu maior abertura para conviver com pessoas de mentalidades diferentes. A convivência e os vínculos de fraternidade foram possíveis por meio do amor, força capaz de ultrapassar as barreiras e preconceitos e ideal de uma nova aliança baseada na solidariedade. A comunidade também era marcada por conflitos e perseguições por parte das autoridades judeu-farisaicas e do império romano, além de manter divergências com outras correntes filosóficas e religiosas. Tanto pela diversidade cultural como pelos conflitos e dificuldades gerados pelas perseguições, a comunidade precisou aprofundar os laços de amor e a fé para resistir e manter-se fiel.

Após a guerra dos judeus contra os romanos (66 d.C.), sobreviveram os fariseus e os judeus cristãos. Jerusalém e o Templo foram destruídos, e a vida dos habitantes da região foi desestruturada. O grupo dos fariseus assumiu a liderança, aliou-se aos romanos e procurou firmar uma identidade, expulsando os judeus cristãos das sinagogas e perseguindo-os. Exigiam o cumprimento minucioso dos seus 613 mandamentos, situando a lei acima da vida e das pessoas e exigindo, para a purificação, ofertas e tributos. Causaram com isso muita opressão, pois grande parte do povo não tinha condições econômicas para tanto e era considerada impura.

Nesse período surgiu o Evangelho de João, ao longo do qual, em suas entrelinhas, se percebe o conflito e a hostilidade entre luzes e trevas, entre a comunidade e o “mundo” – expressão usada para se referir ao sistema social injusto que se opunha ao projeto de vida trazido por Jesus e assumido por seus seguidores. 0 Evangelho oferece uma catequese, orienta e anima a comunidade para enfrentar essa situação, salienta a soberania e a divindade e humanidade de Jesus, o bom pastor que cuida de seu povo sofrido e o conduz; o pão da vida eterna, da vida em abundância. O caminho, a verdade e a vida e Jesus, e não um conjunto extenso de regras. Ressalta-se que não basta procurar Jesus superficialmente (6, 25-29); é preciso crer e aprofundar essa adesão, assumir o mandamento do amor e as consequências (15,18). Perante os 613 mandamentos dos fariseus, temos, no Evangelho de João, o único mandamento do amor e a constante ênfase na vida.

Procuremos iluminar a conjuntura atual com o Evangelho de João, tendo presente seu contexto e o nosso, uma realidade também marcada por conflitos e adversidades, divisões, preconceito e ódio, grande desigualdade social e diversidade cultural, laços afetivos e comunitários frágeis, crise de fé.

 

1 – “Permanecei no meu amor para dar muitos frutos” (Jo 15,8-9)

Introdução ao Evangelho de João

Diante do contexto de perseguição e sofrimento, a comunidade joanina precisou manter viva a fé. Permanecer fiel ao projeto da vida plena – traduzida em casa, comida, saúde, integração social e laços fraternos alicerçados no amor e na solidariedade – só foi possível por manterem viva a memória da vida e da prática de Jesus. Eles reforçaram a sua fé em Jesus como a ressurreição e a vida no tempo presente.

Há alguns anos, um padre missionário em outro país recebeu a notícia de que seu pai estava com câncer. A doença já estava num estágio muito avançado. Não havia mais recursos. O padre viajou e ficou ao lado do pai. Este viveu por mais seis meses. Nesse tempo, o filho, que estava ao lado dele, sentia-se totalmente impotente e muitas vezes reclamava com Deus, que parecia ausente e distante. Era muito duro ver o pai sofrendo daquele jeito, sem poder fazer nada. Mas, alguns momentos antes de morrer, o pai virou-se e com um sorriso lhe disse: “Padre José, muito obrigado! Sem a sua presença eu não aguentaria”. Nesse instante, o padre ficou surpreso e compreendeu o mistério do sagrado: o estar junto, o cuidado amoroso com o outro, mesmo não compreendendo.

“Amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, que vocês se amem uns aos outros!” (Jo 13,34). A comunidade do Discípulo Amado é chamada a assumir o amor até as últimas consequências. A vivência do amor como sinal do discipulado de Jesus é a principal herança que o Evangelho de João transmite à sua comunidade e que chega até os nossos dias: da mesma forma que padre José deixou tudo para estar com seu pai, cada pessoa da comunidade é chamada a viver esse cuidado amoroso para com as irmãs e os irmãos. E diríamos mais: um amor extensivo a todas as pessoas, independentemente de etnia, classe, religião e sexo.

Só o amor é capaz de ultrapassar as diversas formas de preconceito que impedem o relacionamento entre as pessoas. Essa comunidade era constituída por pessoas de diferentes grupos, culturas e mentalidades: judeus, discípulos de João Batista, galileus, samaritanos, estrangeiros, doentes, pobres, ricos. Pessoas chamadas a viver a nova aliança, baseada no amor e na solidariedade universal.

Perseguição do império romano, das autoridades judaicas, divergências com outras correntes filosóficas e religiosas faziam parte do cotidiano da comunidade: “Vão excluir vocês das sinagogas. E vai chegar a hora quando alguém, matando vocês, julgará estar prestando culto a Deus” (Jo 16,2). “Se o mundo odeia vocês, saiba que primeiro odiou a mim” (Jo 15,18). Diante do contexto de perseguição e sofrimento, a comunidade reforçou a necessidade de desenvolver profundos laços fraternos de amor e de solidariedade.

Perante as incertezas, é preciso apostar e ir em frente. A comunidade joanina precisou manter viva a fé. Permanecer fiel ao projeto da vida plena – traduzida em casa, comida, saúde, integração social – só foi possível por causa dos vínculos entre seus membros e por manterem viva a memória da vida e da prática de Jesus. Essas pessoas reforçaram a sua fé em Jesus como a ressurreição e a vida no tempo presente (cf. Jo 11,25). É um grupo que acreditou e vivenciou a experiência de que o Verbo se fez carne e vive no seu meio (Jo 1,14). Dessa comunidade recebemos como herança o seu Evangelho, cujo objetivo o autor deixou por escrito: “para que vocês acreditem que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, vocês tenham vida no nome dele” (Jo 20,31).

O Evangelho de João levou mais ou menos 60 anos para ser escrito. Provavelmente, foi sendo elaborado em vários lugares: no norte da Galileia, na Síria e na Ásia Menor. A última redação do livro teria acontecido em Éfeso, na Ásia Menor, por volta do ano 95, com alguns acréscimos posteriores. É um escrito que deve ser lido como interpretação e vivência da comunidade, com o objetivo claro de aprofundar a fé em Jesus como divino e humano: o Verbo encarnado.

Enfim, o Evangelho de João é fruto de uma caminhada comunitária, representada no texto pela figura do Discípulo Amado (Jo 1,35-42; 13,23-25; 18,15; 20,2-10). Quem era esse discípulo? Ele é anônimo; embora possa ter existido um discípulo que tenha sido reconhecido dessa forma, pode também representar todas as pessoas cristãs que viveram o amor mútuo e assumiram a prática da justiça. É o evangelho do Discípulo Amado! Para entender melhor esse texto, vamos olhar a história e colocar nossos pés no chão da vida dessa comunidade.

Conhecendo o chão da comunidade de João

A região da Judeia enfrentou diversas dominações imperiais, e a partir da dominação grega as condições de vida pioraram ainda mais (333 a.C.). As pessoas estavam sendo dominadas, exploradas e escravizadas. Muitos grupos populares resistiram à dominação e buscaram uma forma alternativa de viver. Em 63 a.C., os romanos dominaram a Palestina. No tempo de Jesus e um pouco depois, as revoltas e os descontentamentos com a opressão dos romanos atingiram o auge. Em 66 d.C., quando os romanos saquearam o Templo de Jerusalém, os vários grupos, mesmo tendo posições diferentes, uniram-se para lutar contra os dominadores. Esse movimento ficou conhecido como a Guerra Judaica (66-73 d.C.).

Nessa guerra, o povo judeu foi derrotado pelos romanos. Jerusalém, a cidade santa, e o Templo foram destruídos. O Templo era uma instituição central na vida do povo, controlava a sua vida em todos os aspectos. Os principais grupos que participaram da guerra, os saduceus, os essênios, os zelotas e os sicários, foram desarticulados e quase desapareceram. A guerra desestruturou a vida dos habitantes da região da Judeia. Os judeus cristãos e os judeus fariseus não assumiram a luta até o fim, por isso conseguiram sobreviver. Após a guerra, o grupo dos judeus fariseus começou a reorganizar a vida do povo.

Os fariseus e os escribas, menos dependentes do Templo, desenvolveram uma estrutura alternativa. Fazia tempo que eles exerciam suas atividades nas sinagogas, por meio da função de explicar e interpretar a Lei. No contexto de destruição das principais instituições judaicas, como o Templo e o sinédrio – conselho supremo dos judeus –, o povo buscou refúgio e segurança no movimento dos fariseus e escribas. Aos poucos, os judeus fariseus foram se fortalecendo, a sinagoga passou a ser forte instituição para garantir, proteger e controlar a vida do povo. Assim, os romanos perceberam que seria vantajoso se aliar aos judeus fariseus.

A aliança com os romanos favoreceu o desenvolvimento dos grupos de linha farisaica. Surgiram muitos grupos, entre os quais a Academia de Jâmnia, fundada pelo rabi Iohanan ben-Zakai. O chefe desse grupo foi reconhecido pelo império romano como representante do povo judeu. Como aliado dos romanos, eles tinham o direito de interpretar e aplicar a Lei, utilizando-a também para cobrar tributos dos judeus. Isso interessava aos romanos.

A principal Lei era a do sábado. Uma lei que nasceu para manter viva a memória da libertação e defender a dignidade humana se tornou, porém, no decorrer do tempo, uma lei opressora. O cumprimento da Lei foi colocado acima da pessoa. Outra Lei igualmente importante era a da pureza. Essa lei dividia as pessoas e as coisas em puras e impuras.

A lei do puro e do impuro definia quem estava mais perto e quem estava mais longe de Deus. Uma pessoa doente ou com alguma deficiência física era considerada impura por causa de algum pecado, uma vez que a doença era vista como castigo de Deus. O simples contato com pessoas ou coisas impuras já causava impureza. Estar impuro significava não poder participar do culto e, consequentemente, do povo de Deus e da salvação.

Muitas pessoas viviam em condições quase permanentes de impureza. As autoridades judaicas, por meio da Lei, tinham a pretensão de controlar o corpo e a vida das pessoas. Essa situação de opressão tinha maior peso para a mulher, que ficava impura por causa da menstruação (Lv 15,19), das relações sexuais (Lv 15,18) e do parto (Lv 12,2-5). Para se purificar, as pessoas deviam levar ofertas e pagar o tributo religioso em dia. Isso custava muito caro, dificultando aos pobres o cumprimento da Lei.

Os judeus fariseus viam o cumprimento da Lei como uma exigência do próprio Deus. Essa crença, unida à crença na ressurreição dos mortos e na teologia da retribuição, com prêmios e castigos para esta vida e a outra, era usada para manter o povo na obediência rigorosa às normas impostas pelos dirigentes fariseus. A teologia da retribuição estava ligada à ideia de troca: se a pessoa cumprisse a Lei, seria abençoada com terra, descendência e vida longa. Se não cumprisse, receberia o castigo: pobreza, esterilidade e vida breve (Dt 30,15-20).

O ensino da Lei era feito por meio da sinagoga. Por volta do ano 85, as sinagogas estavam espalhadas na Ásia Menor. Nessa região, a comunidade judaica vivia certa autonomia, como uma cidade dentro da cidade. A aliança com os romanos possibilitou que a religião judaica, organizada pelos judeus fariseus, fosse considerada religião lícita – religião permitida pela lei do império romano. Os judeus ligados à sinagoga conquistaram o direito de se reunir, manter uma caixa comum e ter propriedades. Eram dispensados de prestar culto às divindades do império romano, tinham o direito de observar o sábado, de praticar seu culto e sua Lei, e participavam, quando necessário, do exército só de judeus. Cada comunidade local tinha suas leis administrativas, estabelecia locais para estudo, culto e sepultamentos; oferecia ajuda aos indigentes e mantinha tribunais para julgar disputas entre judeus.

Os judeus fariseus, na tentativa de preservar a sua identidade como grupo e manter seus interesses, começaram a exigir uma observância rigorosa da Lei. Havia 613 regras para ser cumpridas. A opressão era muito grande. No interior da sinagoga surgiram alguns grupos, entre os quais o grupo dos cristãos, que começaram a relativizar a importância da Lei, pondo em primeiro lugar a vida humana. Isso provocou vários conflitos. Aqueles que não cumpriam a Lei foram perseguidos, torturados e expulsos da sinagoga e consequentemente ficaram sujeitos à perseguição do império romano (cf. Jo 16,1-2). No final do período do imperador Domiciano (81-96 d.C.), a perseguição contra os cristãos foi intensificada e generalizada, atingindo especialmente os grupos cristãos da Ásia Menor.

Entre esses grupos havia a comunidade joanina. Essa comunidade surgiu entre os judeus que acreditaram ser Jesus o Messias esperado por eles. A guerra dos judeus contra os romanos (66 d.C.) provocou a dispersão das comunidades cristãs. Essa comunidade foi para o norte da Palestina e de lá emigrou para a Síria e Éfeso.

A comunidade joanina era composta de pessoas pobres e marginalizadas que começaram a viver de um jeito diferente: irmãos e irmãs unidos não pela Lei, mas pelo amor. É muito provável que essas pessoas vivessem sob a opressão da Lei. Elas conseguiram ver na proposta cristã um caminho alternativo. Vivenciaram o amor mútuo e a certeza de que a presença do Verbo encarnado em cada mulher e homem era a base que sustentava e animava sua vida. Era comunidade mista, com pessoas provenientes de vários grupos e religiões.

A comunidade de João e suas características

A diversidade de grupos existentes na comunidade joanina exigiu-lhe maior abertura e constante aprendizagem para a convivência com pessoas de mentalidades diferentes. Essa experiência só foi possível por meio da vivência do amor (Jo 15,12-15). O grupo de Betânia, nome cujo sentido em hebraico é casa do pobre, representado por Lázaro, Maria e Marta (Jo 11,1-44), retrata bem essa comunidade. Um grupo que acredita na presença de Jesus como portador de vida nova e vive a experiência do amor; uma comunidade de amigos, de pessoas que se amam e cuidam umas das outras.

A presença forte de samaritanos e estrangeiros e a liderança das mulheres provocaram a perseguição dos judeus fariseus. A situação dos samaritanos, um povo marginalizado e desprezado que acolhe Jesus, era semelhante à situação dessa comunidade. Por professarem a fé em Jesus Cristo e assumirem a mesma prática sua, essas pessoas sofreram várias ameaças, chegando alguns membros a ser mortos (cf. Jo 11,16; 16,2). Neste contexto de sofrimento interno e externo e na tentativa de manter vivo o projeto de Jesus de Nazaré, nasce o Evangelho de João.

 

CONHECENDO O EVANGELHO DE JOÃO

O Evangelho da comunidade de João nasceu do anúncio vivo, da memória de homens e mulheres que guardavam e praticavam os ensinamentos transmitidos por Jesus. É a comunidade viva, com suas lutas e dificuldades em meio aos conflitos vividos com as autoridades judaicas, com o império romano e entre os seus próprios membros, com suas diferentes compreensões da mensagem de Jesus.

Diante das perseguições e das crises internas e externas, a comunidade sentiu a necessidade de reafirmar a própria fé e definir a sua identidade. Para isso, os autores selecionaram algumas expressões e acontecimentos marcantes da vida de Jesus com a finalidade de levar os seus primeiros leitores à fé em Jesus como o Messias, o Filho de Deus, presente na história: “E o Verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós” (Jo 1,14).

A situação de perseguição levou a comunidade joanina a usar uma linguagem simbólica que, porém, lhe era familiar, com imagens tiradas do cotidiano, da tradição judaica e do momento presente. Por exemplo, a apresentação de Jesus é feita por meio da expressão Eu sou, termo muito conhecido do povo judeu, o próprio nome de Javé (Ex 3,14). A comunidade acrescenta: eu sou o pão da vida (Jo 6, 35.48.51), a luz do mundo (Jo 8,12; 9,5), a porta das ovelhas (Jo 10, 7.9), o bom pastor (Jo 10, 11.14), a ressurreição e a vida (Jo 11,25) e a verdadeira videira (Jo 15,5). Imagens simbólicas, ligadas ao cotidiano das pessoas, que revelam o cuidado de Jesus com a vida de seus discípulos e discípulas.

IMAGENS SIMBÓLICAS

Ao longo do Evangelho de João, há grande variedade de imagens simbólicas. Podemos classificá-las em quatro tipos:

– Símbolos ligados a números: seis talhas de pedras vazias (Jo 2,6), uma referência às seis festas judaicas mencionadas no evangelho (Jo 2,13; 5,1; 6,4; 7,2; 10,22; 11,55). Os cinco maridos da mulher samaritana lembram os cinco povos que foram deportados de outras regiões para a Samaria (2Rs 17,24).

– Objetos: as talhas para a água, o poço de Jacó e o cântaro (Jo 2,6; 4, 12.28): podem ser uma referência à Lei.

– Natureza: a videira e os ramos (Jo 15,1-2), um símbolo da comunidade.

– Personagens: Discípulo Amado, mulher samaritana, Lázaro, Maria de Betânia, Marta e Maria Madalena – representantes das comunidades joaninas.

O uso de símbolos é característica marcante do Evangelho de João. Outra característica importante é o jeito de os autores organizarem a estrutura desse livro. Vamos ver como ele foi planejado.

 

PLANO DO EVANGELHO

O Evangelho de João pode ser estruturado de várias formas. Nós escolhemos a estrutura que divide o texto em duas grandes partes: a primeira apresenta os sete sinais realizados por Jesus, e a segunda, o grande sinal: a entrega de Jesus por amor.

A primeira parte (Jo 2,1-11,54) e a segunda (Jo 13,1-20,29) podem ser divididas pelo tema da hora: a hora não chegou (Jo 2,4), e a minha hora já chegou (Jo 13,1). Entre essas duas partes há um texto que marca a passagem de uma para a outra (Jo 11,55-12,50), no qual vemos que a hora de Jesus se aproxima.

É possível dividir o Evangelho de João da seguinte forma:

Prólogo – 1,1-18: abertura e síntese do livro. No prólogo encontramos um resumo de todos os temas que serão desenvolvidos ao longo do evangelho.

Seção introdutória – 1,19-51: pequena introdução na qual aparece João Batista, o seu testemunho a respeito de Jesus e os primeiros discípulos de Jesus.

Primeira parte – 2,1-11,54: a hora de Jesus ainda não chegou (2,4). O Livro dos Sinais apresenta sete sinais, número que significa perfeição. Os sinais indicam a realização do tempo messiânico.

1º sinal (2,1-12): bodas em Caná.

2º sinal (4,46-54): a cura do filho de um funcionário real.

3º sinal (5,1-9): a cura de um paralítico.

4º sinal (6,1-15): a multiplicação dos pães.

5º sinal (6,16-21): Jesus caminha sobre as águas.

6º sinal (9,1-41): a cura de um cego de nascença.

7º sinal (11,1-44): a ressurreição de Lázaro.

– Passagem – 11,55-12,50: a hora de Jesus está se aproximando.

Segunda parte – 13,1-20,29: chegou a hora de Jesus (“Jesus sabia que tinha chegado a sua hora, a hora de passar deste mundo para o Pai”, 13,1). Essa parte é conhecida como o Livro da Glorificação. É uma catequese para a comunidade e pode ser subdividida em três unidades:

– Os capítulos 13 a 17 são chamados o livro da comunidade. Antes de entregar sua vida, Jesus reúne os seus para um jantar de despedida no qual realiza um gesto simbólico e profético: o lava-pés (13,1-20). Nessa ocasião, Jesus faz um discurso de despedida e deixa como herança à comunidade o novo mandamento do amor mútuo (13,34-35; 15,12-17), promete que enviará o Espírito da Verdade (14,26; 16,12-15), faz uma avaliação de sua vida e missão e reza ao Pai pela unidade (17).

– Relato da paixão (18-19), parte que culmina com uma última palavra de Jesus: “Tudo está consumado” (19,30)

– Cenas da ressurreição (20): privilegia a narração do encontro de Jesus com Maria Madalena (20,11-18).

– Epílogo – 20,30-31: a primeira conclusão.

– Apêndice – 21,1-23: nova manifestação de Jesus aos discípulos.

– 2ª conclusão – 21,24-25.

 

Algumas mensagens do Evangelho de João

O Evangelho de João continua nos desafiando para a vivência do amor até as últimas consequências: “Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). O único mandamento que encontramos nesse evangelho é o mandamento do amor: “Eu dou a vocês um mandamento novo: amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, que vocês se amem uns aos outros!” (Jo 13,34; 15,17).

A medida do nosso amor é o amor de Cristo: amar até dar a vida! É um projeto de vida muito exigente! Significa trilhar o mesmo caminho de Jesus, assumindo a condição de servo. Jesus declara ser Mestre e Senhor pelo serviço e desafia seus seguidores a fazer o mesmo (Jo 13,13-14). Será que estamos dispostos a seguir esse caminho de amoroso cuidado uns com os outros em nossas comunidades, igrejas, grupos e diversas associações?

Para assumir as atitudes de Jesus, é preciso permanecer, conviver com ele, reavivar nossa experiência de fé. Como discípulas e discípulos, queremos conviver com o Mestre, refazer a nossa experiência de discipulado e dar continuidade ao nosso seguimento de Jesus nos tempos de hoje. O amor é o caminho. É ele que cria, recria, transforma e ressuscita. O caminho é aberto a todas as pessoas que querem viver o amor-serviço.

 

VEJAMOS ALGUMAS MENSAGENS IMPORTANTES:

Solidariedade e sensibilidade. As bodas de Caná (Jo 2,1-11). Jesus e seus discípulos são convidados a uma festa de casamento. A mãe já estava lá, o que pode indicar que não era convidada, e sim fazia parte da organização. Ela representa a Israel que percebe a falta do vinho, ao passo que o chefe da cerimônia representa os judeus preocupados com a falta de água para a purificação. A falta do vinho – alegria, bênção de Deus – simboliza o sofrimento do povo por causa de uma religião ritualista, a ausência de relações de amor e cuidado.

De acordo com a religião oficial, defendida pelas autoridades da sinagoga, a salvação de Deus vinha somente pela observância rigorosa da Lei e não pela prática da solidariedade e do serviço ao próximo. A religião ritualista aprisionava o povo. Jesus Cristo, salvador, transforma a água das talhas, usada nos rituais de purificação, em vinho bom, símbolo da vida plena. É importante observar que o milagre da vida acontece com a participação das pessoas sensíveis e solidárias como a mãe de Jesus e os serventes.

Superação de preconceitos. O encontro entre Jesus e a mulher samaritana (Jo 4,4-42). Ao reler essa narrativa, somos convocados para reavivar a nossa experiência de encontro com Jesus e anunciá-lo. O encontro começa com a sede de Jesus: ele pede água à mulher samaritana. Como havia desentendimentos entre judeus e samaritanos, a mulher imediatamente refuta o pedido. Após a mulher apresentar algumas objeções, Jesus explica que pode dar uma água que tem o poder de acabar definitivamente com a sede.

A mulher, representando o povo samaritano, também à espera do Messias, abre-se para o encontro com Jesus: “Eu sou esse Messias, eu que estou falando com você” (Jo 4,26). Ela deixa o cântaro e vai para a cidade com a certeza de que Jesus é o Messias. Havia muitos samaritanos nas comunidades cristãs, como também muitos estrangeiros; uma realidade conflituosa e difícil de aceitar, sobretudo para os judeus cristãos, enraizados na tradição judaica. Fazer memória da prática de Jesus é uma forma de voltar às raízes da proposta cristã e abrir-se para os outros povos, romper com os preconceitos e discriminações de etnia, origem, religião, gênero e idade.

Ser pastores e pastoras uns para os outros. O bom pastor (Jo 10,1-18). Essa narrativa apresenta a liderança de Jesus e nos convoca para rever nosso modelo de liderança. No Antigo Oriente, pastor era um título dado aos reis e aos governadores, que tinham o dever de defender e conduzir o povo. No tempo do Evangelho de João, Jesus é apresentado como o bom pastor que veio para dar a vida por suas ovelhas em oposição ao mercenário, que rouba, destrói e mata. Por trás desse texto está o conflito entre a comunidade cristã e as autoridades judaicas, de tendência farisaica, que buscam seus próprios interesses.

O bom pastor dá a vida por suas ovelhas e busca a vida plena para as pessoas. A comunidade joanina reforça qual é a missão de Jesus e das pessoas que seguem a sua prática: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Vida em abundância significa condições dignas de vida. Ouvir a voz do pastor é assumir o mesmo projeto. É comprometer-se com o projeto da justiça até o fim. É um convite para revermos se a nossa liderança conduz para a liberdade ou para a dependência e a passividade.

Amar e servir. “Vocês também devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,1-20). O episódio do lava-pés apresenta Jesus ajoelhado, lavando os pés de seus discípulos. É um exemplo do que as comunidades cantavam desde a década de 50 d.C.: “Ele esvaziou-se a si mesmo e tomou a forma de servo” (Fl 2,7). No Antigo Oriente, lavar os pés constituía gesto de acolhida e hospitalidade que, em sua origem, era feito pelo dono da casa. No decorrer do tempo, tornou-se um serviço desprezado, feito por escravos. Em casa que não havia escravos, era realizado pelas filhas ou pela esposa do dono da casa.

Em uma sociedade escravista e hierárquica, um mundo organizado para que o escravo servisse o senhor, Jesus, Mestre e Senhor, assume o serviço de lavar os pés, eliminando a desigualdade e as diferenças sociais e, ao mesmo tempo, propondo uma sociedade igualitária e fraterna. Que esse gesto profético possa inspirar nossa vida e missão e reforçar nossa consciência de que seguir Jesus implica assumir a prática do amor-serviço e concretizar relações de cuidado recíproco nos meios em que vivemos. A comunidade deixa claro: Jesus é Mestre e Senhor pela capacidade de amar e servir. Essa é a nossa missão!

Reavivar a fé em Jesus ressuscitado. “Eu vi o Senhor” (Jo 20,11-18). Maria Madalena representa a comunidade junto ao sepulcro. Ela experimentou dor, angústia e sofrimento (Jo 20,11-15). Sua busca foi escrita tendo por inspiração a atitude da amada de Cântico dos Cânticos, que enfrenta várias dificuldades para encontrar o amado e não desiste enquanto não atinge seus objetivos (Ct 3,1-4). Mesmo sofrendo, a mulher permanece próxima ao túmulo e faz a experiência de encontro com o Ressuscitado ao ser chamada pelo nome.

A certeza que impulsionou a comunidade joanina e que continua nos impulsionando e nos enviando em missão é a de que Jesus está vivo e presente em nosso meio. Maria Madalena é a primeira testemunha da ressurreição. Esse encontro aconteceu porque ela venceu o medo. Em meio à situação de morte, a mulher resistiu, permaneceu até encontrar o Senhor. Na comunidade de João há muitas mulheres discípulas fiéis a Jesus que animam os outros a fazer o mesmo. Que o testemunho dessa comunidade cristã continue nos iluminando e nos enviando em missão.

 

UMA PALAVRA FINAL

A leitura do Evangelho de João é sempre nova e atual. É fonte que sempre borbulha novas águas para a nossa vida e missão. Ela reaviva, de diversas formas, a certeza de que Jesus é o enviado de Deus e que a intrínseca ligação entre Jesus e a comunidade tem sua fonte em Deus: “Da mesma forma que o Pai me amou, eu também amei a vocês: permaneçam no meu amor” (Jo 15,9).

Permanecer no amor de Jesus é ser fiel ao projeto do Pai. Esse é o testemunho da comunidade joanina. O mandamento do amor não pede que amemos a Deus, mas que amemos os irmãos: “Amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês” (Jo 15,12; cf. 13,34; 15,17). A melhor forma de amar a Deus é a vivência do amor até o fim, até a entrega da própria vida.

E mais, acreditamos que a única forma de Deus continuar se encarnando é pela vivência do amor: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará. Eu e meu Pai viremos e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23). O Evangelho de João está em nossas mãos! É a nossa herança! Que a vivência da comunidade joanina nos ajude a encontrar caminhos para vivenciar o projeto de Jesus e continuar abrindo espaço para que o Verbo se faça carne entre nós!

 

2 – Eu sou o bom pastor: uma leitura de Jo 10,1-21

A intensificação da perseguição dos judeus fariseus e do império romano mergulhou a comunidade joanina em uma crise profunda. Surgiu então o Evangelho de João, para orientar e animar a caminhada da comunidade. De modo especial, João 10,1-21 aborda a figura da liderança: o bom pastor e o falso pastor. Para os cristãos, Jesus é seu pastor, aquele que realiza a esperança de um messias-pastor que protege e conduz seu povo sofrido.

        Em 2005, seu Antônio, do Parque Santo Antônio, em São Paulo, faleceu por causa de um tumor na cabeça. Não recebeu tratamento adequado por motivo bem conhecido: atendimento ruim no sistema público de saúde. Ele fez longa romaria: espera desesperada por atendimento; falta de leito e de material para o tratamento. Passou alguns dias no corredor do hospital e acabou falecendo na enfermaria. Este foi o último pedido do seu Antônio: “Reze para mim aquela oração do bom pastor: ‘O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Em verdejantes pastagens me faz descansar e sobre águas tranquilas me conduz’”. O bom pastor do Salmo 23 – figura forte na espiritualidade do povo sofrido!

O Novo Testamento também registra várias menções ao bom pastor. Um dos textos mais conhecidos está no Evangelho de João: “Eu sou o bom pastor: conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai, e exponho minha vida pelas ovelhas” (Jo 10,14-15).

Por volta do ano 95 d.C., os judeus fariseus e o império romano intensificaram a perseguição, mergulhando a comunidade joanina em profunda crise. O grupo sofreu e foi perseguido até mesmo pelos próprios governantes. Surgiu então o Evangelho de João, para orientar e animar a caminhada da comunidade. De modo especial, João 10,1-21 aborda a figura da liderança: o bom pastor e o falso pastor.

A – A imagem do pastor no Antigo Testamento

A imagem do pastor, frequente na Bíblia, surgiu do trabalho cotidiano do povo do Antigo Oriente. A tarefa de pastorear era assumida pelos membros da família, sobretudo pelos homens, por causa dos riscos de enfrentar feras e outros perigos, como assaltos e roubos. Mulheres e crianças cuidavam do rebanho somente nas proximidades da casa (cf. Ex 2,16-17; 1Sm 16).

Os pastores deviam ser prudentes, pacientes e dedicados. No verão, era muito difícil encontrar novas pastagens e manter o equilíbrio entre o pastoreio, o abastecimento de água, o descanso e a viagem. O pastor devia cuidar incansavelmente dos animais indefesos. As feras e os bandos de salteadores atacavam os rebanhos com bastante frequência (cf. Gn 31,39; 1Sm 17,34-37).

No Antigo Oriente, o rei era comparado ao pastor. Esse título era comum entre os governantes na Assíria e na Babilônia. Usavam muito os verbos conduzir e pastorear para falar da ação de governar. Ser chamado de pastor era uma honra, especialmente pelas características de cuidado e proteção. Neste sentido, Ezequiel, profeta exilado para a Babilônia junto com o rei Joaquin, na primeira deportação (597-587 a.C.), critica o rei Sedecias e os governantes de Jerusalém pelos abusos e descuidos com o rebanho:

Ai dos pastores de Israel que são pastores de si mesmos! Não é do rebanho que os pastores deveriam cuidar? Vocês bebem o leite, vestem a lã, sacrificam as ovelhas gordas, mas não cuidam do rebanho. Vocês não procuram fortalecer as ovelhas fracas, não curam as que estão doentes, não tratam as feridas daquelas que sofrem fratura, não trazem de volta aquelas que se desgarraram e não procuram aquelas que extraviaram. Pelo contrário, vocês dominam sobre elas com violência e opressão (Ez 34,2-4).

Para apascentar o rebanho, o grupo de Ezequiel apresenta Javé mesmo como o pastor do seu povo: “Assim diz o Senhor Javé: eu mesmo vou procurar minhas ovelhas para cuidar delas. Como o pastor conta seu rebanho quando está no meio de suas ovelhas que se haviam dispersado, eu também contarei minhas ovelhas e as reunirei de todos os lugares por onde se haviam dispersado, nos dias nebulosos e escuros” (Ez 34,11-12).

No exílio, surge a promessa de que o próprio Javé-pastor dará ao seu povo o messias-pastor, como Davi, que liberta seu povo e o reúne num só rebanho: “Providenciarei um só pastor para cuidar de minhas ovelhas. Será o meu servo Davi. Ele cuidará delas e será seu pastor” (Ez 34,23). Segundo o grupo de Ezequiel, Javé, por meio do seu Messias como rei, governará seu povo. É o messias rei que as autoridades religiosas judaicas pregariam ao longo dos anos posteriores até o tempo do Novo Testamento. Na época de Jesus, por exemplo, o povo judeu sonhava com um messias pastor como o rei Davi, que poderia estabelecer o reinado definitivo de Israel, derrotando os romanos e expulsando os governantes corruptos e opressores.

No exílio, os camponeses, chamados “pobres da terra” (Am 8,4; Sf 2,3), também foram deportados para a Babilônia, na segunda deportação (587 a.C.). O grupo não teve a mesma sorte dos primeiros deportados junto com Ezequiel, foi tratado como escravo e despojo de guerra. A Babilônia “não teve compaixão dele e colocou um jugo pesado nos ombros dos anciãos” (Is 47,6). “Os pobres e os indigentes buscam água, mas não a encontram! Estão com a língua seca de sede” (Is 41,17). Os deportados estavam cansados e enfraquecidos, sem esperança no futuro (Is 40,29). Levavam uma vida de prisioneiros como semiescravos!

Em meio à realidade de sofrimento e de abandono, os pobres da terra também sonham com Javé como pastor: “Como um pastor, ele cuida do rebanho e com seu braço o reúne. Leva os cordeirinhos no colo e guia mansamente as ovelhas que amamentam” (Is 40,11). Todavia, enquanto o grupo de Ezequiel apresenta o messias como o rei Davi, os pobres da terra propõem o messias servo para proteger e conduzir seu povo sofrido:

Vejam meu servo, a quem eu sustento. Ele é o meu escolhido, nele tenho o meu agrado. Eu coloquei sobre ele meu espírito, para que promova o direito entre as nações. Eu, Javé, chamei você para a justiça, tomei-o pela mão e lhe dei forma. E o coloquei como aliança de um povo e luz para as nações, para você abrir os olhos dos cegos, para tirar os presos da cadeia, e do cárcere os que vivem no escuro (Is 42,1.6-7).

O grupo dos pobres da terra lança um olhar sobre a história e constata que há muitos anos o povo vem sendo oprimido pela tirania dos grandes impérios e explorado pelos próprios governantes da monarquia. Com base em sua memória das aldeias comunitárias e também de sua experiência da sobrevivência comunitária dos exilados escravos, o grupo projeta nova liderança – a do “Servo”, com características diferentes dos tiranos e dos reis injustos: uma liderança baseada no amor, na ternura, na gratuidade, na não violência; na justiça, na solidariedade e, sobretudo, no maior cuidado com os sofridos, imagem que os cânticos do servo nos apresentam (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11). O messias servo dá até sua própria vida por amor ao seu povo (Is 53,12).

Nos evangelhos sinóticos, as comunidades cristãs compreendem e apresentam o seguimento de Jesus no caminho do messias servo: “Se alguém quiser seguir após mim, negue-se a si mesmo, carregue sua cruz e me siga” (Mc 8,34). A fidelidade ao amor e à justiça do Deus da vida leva Jesus à perseguição, à cruz e até à morte. Sua prática como o messias servo é do carinho e do amor de um pastor: “Quando Jesus desceu da barca, viu uma grande multidão e se encheu de compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34).

No Evangelho de João, Jesus é descrito mais diretamente como o bom pastor, com características do messias servo (Jo 10,1-18). Ele conhece suas ovelhas e elas o conhecem, e ninguém pode arrebatá-las de sua mão. Como os pobres da terra no exílio da Babilônia, a comunidade sofrida de João sonha e reza para que seja conduzida e protegida por Jesus, o bom pastor.

B – Eu sou o bom pastor

A narrativa do bom pastor tem como pano de fundo o conflito com os fariseus, as autoridades religiosas do tempo do Evangelho de João, como está descrito no capítulo anterior, no episódio do cego de nascença (Jo 9). O modo de agir dos fariseus está em conflito com as obras de Jesus. Eles, que se julgam líderes dos judeus e donos de Deus e da Escritura, perseguiram e expulsaram o cego – seguidores de Jesus – da sinagoga, centro comunitário dos judeus. No final desse episódio, os fariseus são condenados como falsos pastores: “cegos” e “pecadores” (Jo 9,41), eles veem um cego não como pessoa que necessita da solidariedade, mas como pecado. São chamados de “ladrão” e “assaltante” na narrativa do bom pastor.

Diferentemente da narrativa da cura do cego de nascença, com a longa discussão entre o cego e os fariseus, a primeira cena da narrativa do bom pastor é a parábola da porta do curral (Jo 10,1-6). É parábola que nasce no cotidiano da vida do campo: de manhã, o pastor chama cada ovelha pelo nome para levá-la à pastagem e, à tarde, ele reúne o rebanho num recinto para a noite. Nessa parábola, o autor descreve as características e os deveres do bom pastor e de seus seguidores:

a) “Ele chama cada uma de suas ovelhas pelo nome” (Jo 10,13). Chamar a pessoa pelo nome na Bíblia significa um relacionamento de amor e de comunhão: “Não tenha medo, porque eu o protegi e o chamei pelo nome. Você é meu” (Is 43,1; Jo 20,16). Conhecer as ovelhas e ser reconhecido por elas são virtudes fundamentais da liderança de ontem e de hoje. “O pastor tem de sentir o cheiro de suas ovelhas”, afirmou recentemente o papa

b) “Ele as conduz para fora e caminha na frente delas” (Jo 10,3-4). O bom pastor conduz suas ovelhas às pastagens verdejantes e as protege contra predadores e ladrões. Entrega até a própria vida em favor de suas ovelhas. Ontem e hoje, o bom pastor é a imagem do líder que conduz, apascenta e protege a vida do povo e, ao mesmo tempo, é uma advertência contra a liderança que assume esta posição por interesses de lucro, poder e vaidade e, na dificuldade, abandona suas ovelhas.

c)  “Elas nunca vão seguir um estranho” (Jo 10,5). As ovelhas devem ouvir a voz do seu pastor, sem se deixar seduzir ou enganar pela voz dos estranhos. Para os cristãos, Jesus é seu pastor. Seguindo sua palavra e prática, eles podem encontrar a plenitude da vida.

Ao contrário do bom pastor, os falsos pastores são chamados de ladrões e assaltantes, termos associados a uma ação violenta, ou seja, arrebatar, flagelar, roubar, o que também acontecia nas sinagogas (Mt 10,17; Jo 16,2). Flávio Josefo, historiador judeu do século I d.C., e os rabinos usavam esses termos para falar dos métodos empregados pelos zelotas e outros grupos nacionalistas em suas práticas de guerrilha. Nos evangelhos, esses termos designam os assaltantes e bandidos que roubam, machucam e matam as pessoas (Mc 15,27; Mt 27,44; Lc 10,30; Jo 18,40).

Enfim, os termos ladrão e assaltante são usados para enfatizar o uso da força, da ação violenta de entrar no curral para roubar, destruir e matar as ovelhas. E na realidade, é uma prática corrente das lideranças político-religiosas contra o povo no tempo das comunidades joaninas. Eles não estão preocupados com a vida do povo, mas com a segurança de suas instituições e a manutenção do poder, para defender seus interesses e privilégios.

A descrição sobre o contraste entre a maneira de Jesus, bom pastor, agir e a das autoridades judaicas junto com o império romano é ampliada e detalhada na segunda cena, marcada pelos dois discursos: Jesus é a porta das ovelhas (Jo 10,7-10); Jesus é o bom pastor (Jo 10,11-18).

No primeiro discurso, a afirmação mais importante é “eu sou a porta”. De que porta se trata? Da porta do redil… Aprofundando o contexto bíblico, a porta de uma cidade ou de uma aldeia era importante espaço da vida cotidiana, era o local de comércio e também do tribunal. Acontecia ali muita injustiça: “Eles odeiam aqueles que se defendem na porta e têm horror de quem fala a verdade. Porque esmagam o fraco, cobrando dele o imposto do trigo. […] Pois eu sei como são numerosos seus crimes e graves seus pecados: exploram o justo, aceitam subornos e enganam os necessitados junto à porta” (Am 5,10-12).

“Todos os que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes” (Jo 10,8). Os fariseus, os adversários por excelência das comunidades joaninas, perseguiram e expulsaram os cristãos da sinagoga, deixando-os na pobreza, na miséria e no risco de morte. Os conflitos com os fariseus eram, portanto, não só na teologia, mas também no cotidiano da vida: comércio, trabalho, justiça etc. Jesus é porta. Os autênticos pastores são aqueles que entram pela porta de Jesus – porta da gratuidade, da partilha e da justiça que faz brotar a vida: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

No segundo discurso, o tema principal é aprofundar a qualidade fundamental do bom pastor: “Eu sou o bom pastor” (Jo 10,11a). Só nesse momento Jesus se apresenta de maneira explícita como o “bom pastor”. Essa afirmação de Jesus, “eu sou”, evoca a apresentação de Deus a Moisés na sarça ardente como “Eu sou” (Ex 3,14). É o nome próprio de Javé! Portanto, a obra de Jesus “Eu sou” é divina e autêntica com as imagens conhecidas: porta, pão da vida, pão descido do céu, caminho, verdade e vida.

Jesus, o “Eu sou” que conduz as ovelhas até os pastos, demonstra ser o autêntico guardião do rebanho, como o bom pastor na hora do perigo, aquele que não foge e arrisca a própria vida para defender suas ovelhas. A figura de oposição é o assalariado, com a finalidade de excluir aqueles que almejam o título de pastor. Da mesma forma que os ladrões, os salteadores e os estranhos ficaram desqualificados como pastores, assim se dá com o mercenário.

Em Jo 10,12-13 a imagem do mercenário aparece de maneira negativa. Na vida rural da Palestina, os pastores contratados eram comuns e deles se exigia que fizessem todo o possível para afastar os animais selvagens. Conforme a Mishná, as opiniões rabínicas, em caso de descuido, os mercenários eram obrigados a reparar os danos materiais. O relacionamento entre os mercenários e as ovelhas era mediado somente pelo aspecto econômico, por isso eles não criavam vínculos amorosos com elas. Nesse contexto, a imagem do bom pastor torna-se ainda mais apaixonante: é aquele que está profundamente unido, por laços de amor e amizade, às suas ovelhas. Podemos nos perguntar: como ficam os dirigentes políticos e religiosos que, em nome da Lei, expulsam o povo da sinagoga (Jo 9,22.34; 12,42) e se preocupam unicamente em manter seus próprios interesses (Jo 11,48)?

A imagem do lobo assaltando os rebanhos é aplicada aos falsos profetas e doutores (Mt 7,15; At 20,29). Jesus envia seus discípulos no meio de lobos (Mt 10,16; Lc 10,3), ou seja, em situações difíceis, de perseguição e risco de vida. Em Jo 10,12 aparece duas vezes a palavra lobo para se referir às ameaças a que a comunidade, as pessoas, simbolizadas pelas ovelhas, estavam expostas. Ao mesmo tempo, o texto indica que a fonte de vida e proteção está em Jesus, o verdadeiro pastor.

O bom pastor estabelece relação de conhecimento e amor recíprocos com suas ovelhas: “Eu sou o bom pastor: conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou a vida pelas ovelhas” (Jo 10,14-15). Jesus estabelece com as pessoas relações de amizade e confiança. Conhecer significa ter relações de intimidade e de comunhão. É o amor que cria a união: “Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1; 16,27; 17,26).

A relação de amor entre Deus Pai e seu Filho é o modelo e o fundamento da comunhão entre Jesus e os seus. João 10,27-30 mostra que Jesus conhece as ovelhas que o seguem. Mas o vínculo permanente que une as suas ovelhas está fundamentado no Pai, que cuida para que ninguém as roube. Com base na unidade com o Pai, Jesus pode cumprir sua missão. Não é um conhecimento teórico-racional, mas compreensão que conduz a nova volta ao Deus que elege e salva (Os 11,1-4). Jesus dá a vida pelos seus, porque os conhece e os ama.

A missão do pastor é conduzir também as outras ovelhas que não são deste curral (Jo 10,16). Aqui, o olhar da comunidade vai além do pequeno grupo que se encontra no ambiente judaico, mas tem um horizonte amplo que inclui os samaritanos, os gregos, os romanos, enfim, todas as pessoas que aceitam o projeto de vida de Jesus em todos os lugares e em todos os tempos.

A condição de pastor, própria de Jesus, atinge o seu ponto culminante: “O Pai me ama: porque eu dou a minha vida para retomá-la de novo” (Jo 10,17). Jesus assume o projeto do Pai (Jo 6,39). A memória dos gestos de amor faz a comunidade identificar Jesus com Deus Pai. Dar a vida é gesto máximo de liberdade e amor até o fim. A liberdade de Jesus e o seu compromisso com a defesa da vida ameaçada provocam o ódio dos dirigentes judaicos (Jo 7,1.19; 8,37.40).

Jesus é livre diante da entrega de sua vida (Jo 3,35; 13,3). Existe forte relação de intimidade entre Jesus e o Pai, marcada pelo amor e pelo respeito. O Pai nada força. É da relação entre Jesus e o Pai que brota nova relação entre Jesus e aquelas e aqueles que o Pai lhe confiou. Notemos bem: Jesus é o bom pastor, mas não é o dono do rebanho (Jo 10,29; 17,12). Ele é a porta, o caminho… (Jo 10,9; 14,6). Jesus não é o ponto de chegada, mas a passagem. O seu pastoreio se realiza na liberdade. O seu sonho é que os seus tenham vida plena: saúde, educação, família, comida, casa, lazer, convivência humana na igualdade e na fraternidade; enfim, que cada pessoa viva de maneira digna.

Jesus propõe um único mandamento: amar até o extremo (Jo 10,18; 13,1). Esse mandamento é vivenciado por Jesus, que o transmite às comunidades joaninas: “amem-se uns aos outros” (Jo 13,34; 15,12.17). É o amor que cria e renova a comunidade: “Se vocês tiverem amor uns aos outros, todos vão reconhecer que vocês são meus discípulos” (Jo 13,35). O amor fortalece a comunidade e a impulsiona a trabalhar em busca de mais vida para todas as pessoas.

“Ninguém tira a minha vida; eu a dou livremente. Tenho poder de dar a vida e tenho poder de recebê-la” (Jo 10,18). Dessa forma, a comunidade apresenta Jesus rompendo com o poder e a hierarquia. A entrega de sua vida gera nova vida. O poderio de Jesus se desdobra em gestos de amor e serviço. Lembremo-nos da famosa cena do lava-pés: Jesus tira o manto e coloca a toalha. O manto é símbolo do poder. A toalha significa serviço. Ao voltar para a mesa, ele retoma o manto, mas não tira a toalha. É apenas um detalhe, mas pleno de significado: o poder só tem sentido se está a serviço do bem comum.

Na última cena da narrativa (Jo 10,19-21), a comunidade joanina apresenta a reação dos ouvintes diante dos discursos, ou seja, a reação dos fariseus e seus seguidores: “Muitos diziam: ‘Ele tem um demônio! Está louco! Por que vocês o escutam?’” A reação de rejeição! Demonizar é a melhor maneira de contestar e rejeitar seu inimigo. Os chefes das sinagogas rejeitam Jesus e oprimem o povo, cuidando apenas do seu interesse e do poder que sua função proporciona.

Mas outros diziam: “Essas palavras não são de um possesso; será que um demônio poderia abrir os olhos de cegos?” (Jo 10,20-21). Ou seja, como diz o cego de nascença: “Sabemos que Deus não ouve os pecadores, mas aquele que o respeita e faz a sua vontade, a este Deus ouve. Nunca se ouviu falar de ninguém que tenha aberto os olhos de alguém que nasceu cego. Se esse homem não tivesse vindo de Deus, não poderia fazer nada” (Jo 9,31-33). A obra de Deus, que cria e alimenta a vida, desafia os seus opositores.

Hoje, Jesus bom pastor e “Eu sou” continua agindo no meio de nós, sobretudo no meio das pessoas injustiçadas e empobrecidas. O projeto do bom pastor é muito claro, objetivo e exigente: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Seguir o bom pastor é dar continuidade a esse projeto; é tornar vivo o sonho de Deus para todos. Assim, cabe-nos aceitar o desafio de ser conduzidos por Jesus: O Senhor é o meu pastor, nada me faltará…

 

2 – A origem de Jesus e a sua humanidade

     segundo o Evangelho de João

Ao ler o Evangelho de João, percebe-se que a comunidade, na discussão e no conflito com os judeus fariseus e o império romano, salienta a soberania e a divindade de Jesus. Nesse evangelho, Jesus aparece aclamado com a afirmação da divindade e da realeza. Já no prólogo lemos: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Diante de Pilatos, Jesus fala com autoridade e afirma sua realeza (Jo 18,28-40).

Não é difícil, porém, também constatar a afirmação da humanidade de Jesus no Evangelho de João. No mesmo prólogo, lemos: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). O Verbo encarnado no meio de nós. Ele é carne! É o bom pastor que conduz, apascenta e dá até sua vida pela vida do povo. Eis aqui alguns textos exclusivos de João que descrevem a origem e a humanidade de Jesus:

  • “Tendo ouvido essas palavras, alguns da multidão diziam: ‘Ele é mesmo o Profeta!’ Outros diziam: ‘Ele é o Cristo’. Mas outros diziam: ‘Por acaso o Cristo vem da Galileia? A Escritura não disse que o Cristo vem da descendência de Davi e de Belém, a aldeia de onde era Davi?’” (Jo 7,40-42). Jesus viveu na aldeia de Nazaré e passou a maior parte de sua vida na Galileia. Era uma região de terra fértil para a agricultura e de rica pesca. Mas o povo das aldeias e dos vilarejos da Galileia sofria com a exploração, opressão e violência do poder civil e religioso: os impostos e a presença do exército romano; a extorsão e ladroagem dos líderes religiosos de Jerusalém. Fome, miséria e doenças eram realidades constantes. Então Jesus de Nazaré experimentou na própria pele a dureza e o sofrimento: “Quando Jesus desceu da barca, viu uma grande multidão e se encheu de compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34).
  • “Algumas pessoas de Jerusalém diziam: ‘Não é a esse que estão procurando para matar? Ele está aí falando abertamente, e ninguém lhe diz nada! Será que as autoridades se convenceram de que ele é o Cristo? Mas este, nós sabemos de onde vem; quando o Cristo vier, ninguém saberá de onde ele vem’” (Jo 7,25-27). Na tradição apocalíptica do tempo do Novo Testamento (cf. Ap 14,14), o Messias viria de um lugar misterioso e ninguém saberia a sua origem. Porém, Jesus, o filho de José, de Nazaré (Jo 1,45; 6,42), viveu no meio do povo, pregando, atuando e andando de uma aldeia a outra na Galileia, convivendo com os pobres, empobrecidos e excluídos: “Enquanto eles continuavam pelo caminho, alguém disse a Jesus: ‘Eu te seguirei aonde quer que fores’. Jesus lhe respondeu: ‘As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça’” (Lc 9,57-58).
  • “Quando a festa já estava pela metade, Jesus subiu ao Templo e começou a ensinar. Os judeus ficaram admirados e diziam: ‘Como é que esse homem tem tanta instrução, se nunca estudou?’” (Jo 7,14-15). Jesus não frequentou a escola dos rabinos! Mas, em Nazaré, na pequena vila dos judeus, Jesus foi criado, aprendeu e guardou as tradições de Moisés e dos profetas, vivenciadas e transmitidas pelos pobres camponeses que lutavam pela sobrevivência. Os atos, ensinamentos, ditos e parábolas de Jesus estavam enraizados em sua experiência da vida camponesa da sua terra; sobretudo, nas instruções sapienciais decorrentes das preocupações e angústias cotidianas dos pobres da Galileia: “Nessa mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: ‘Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos’” (Lc 10,21).
  • “Quando chegou ao lugar onde estava Jesus e o viu, Maria caiu a seus pés e disse: ‘Senhor, se estivesse aqui, meu irmão não teria morrido’. Ao ver que Maria e os judeus que iam com ela estavam chorando, Jesus se comoveu interiormente e se perturbou. E disse: ‘Onde vocês colocaram Lázaro?’ Disseram-lhe: ‘Senhor, vem e vê’. E Jesus chorou” (Jo 11,32-35). O episódio da ressurreição de Lázaro (Jo 11,1-44), o último dos setes sinais, descreve o poder de Jesus sobre a morte, preparando os leitores para o Grande Sinal: sua morte e a ressurreição. Apesar de ser marcado pela ação libertadora e pela soberania de Jesus, o episódio traz à tona a memória da vida de Jesus com seus seguidores e seguidoras, representados por Lázaro, Marta e Maria. Diante da fragilidade da existência humana – a morte –, Jesus chora sozinho ao ver o túmulo. O sentimento de perda! A vida ensina e faz o ser humano crescer… Assim foi a vida do homem Jesus de Nazaré.

Em comparação com os evangelhos sinóticos, o Evangelho de João destaca a soberania e a divindade de Jesus. Mas, ao mesmo tempo, procura descrever a humanidade de Jesus: ele é o Verbo encarnado, o filho de José, de Nazaré, que age na história e na vida cotidiana do povo da Galileia.

A descrição da humanidade de Jesus tem sua importância na comunidade joanina, porque ela sofre com o movimento da “gnose”. É um movimento, com influência grega, que separa o humano do divino, a terra do céu. Os cristãos gnósticos procuram obter a salvação somente pelo conhecimento da divindade de Cristo Jesus – o Verbo encarnado – e chegam a ponto de negar sua humanidade. Pregam um Jesus divino e soberano, desprezando a palavra e a prática de Jesus nazareno em sua existência humana: ele é carne.

Por isso, o Evangelho de João emprega o termo “conhecer” no sentido existencial (Jo 14,4-17; 17,20-26; cf. 2Jo 1-2). Nesse evangelho, o conhecimento não provém de um exercício puramente intelectual, espiritual e elitista, mas da experiência e convivência humana. O verdadeiro conhecimento do amor de Deus é conhecer e praticar o amor de Jesus em suas palavras e seus atos: “Eu sou o bom pastor: conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai, e exponho a minha vida pelas ovelhas” (Jo 10,14-15).

Hoje como ontem, podemos constatar a existência de muitos movimentos cristãos que acentuam o Jesus divino e glorioso, menosprezando o Jesus humano, o Verbo encarnado na história. Quem confessa e segue Cristo Jesus, bom pastor, como um dos caminhos para construir o Reino de Deus é chamado a praticar as palavras e os atos de Jesus de Nazaré nas atividades cotidianas: conscientizar e promover a vida; ser solidário com os mais desprezados e rejeitados pelos poderes do mundo, seduzidos pela ambição desenfreada de bens, poder, prazer e honra que promove a morte: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

 

3- A ressurreição de Jesus segundo a comunidade joanina:

    uma leitura de João 20,11-18

Maria Madalena, diante do sepulcro vazio, representa a comunidade. A ausência do corpo de Jesus provoca angústia, dor e tristeza. É o sofrimento que distorce e dificulta a visão e a compreensão. Há vários motivos que abatem e dificultam a crença da comunidade no Senhor ressuscitado. Eles precisam reavivar sua fé e reacender a esperança para resistir aos sofrimentos e perseguições e crer na possibilidade da vida nova.

        Jesus ainda não tinha chegado à aldeia; estava no lugar onde Marta o havia encontrado. Quando os judeus que estavam na casa com Maria, procurando consolá-la, a viram levantar-se depressa e sair, foram atrás dela, pensando que iria ao túmulo para aí chorar. Ao chegar ao lugar onde estava Jesus, ela o viu. Maria caiu a seus pés e disse: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11,30-32).

O encontro entre Maria e Jesus é pleno de sentimentos. Ela se prostra, não tem receio de ser ela mesma, de expressar sua dor e tristeza pela perda do seu irmão Lázaro. Uma cena comovente: de um lado estão os judeus que se comovem e choram a morte de seu amigo; de outro, Jesus, que se compadece e se emociona (Jo 11,33). Morte, dor, angústia, sofrimento e muita tristeza!

O episódio, que narra a doença, a morte e a ressurreição de Lázaro, inicia-se mostrando o sofrimento: em João 11,1-6 a palavra “doença” aparece cinco vezes. A repetição desse termo reflete a situação de sofrimento das comunidades joaninas, provocada pela perseguição; da comunidade representada por Lázaro, cujo nome significa “a quem Deus ajuda”, Marta, “dona de casa” ou “senhora”, e Maria, “a amada”. Eles estão localizados em Betânia, a “casa do pobre” ou “da aflição”. Esse grupo abraçou a fé cristã e, por isso, foi perseguido pelo império romano e pelas autoridades judaicas. Os judeus fariseus chegaram a ponto de expulsar os judeus cristãos da sinagoga, o centro comunitário dos judeus da época: “Eu tenho falado todas essas coisas, para que vocês não fiquem escandalizados. Vão excluir vocês das sinagogas. E vai chegar a hora quando alguém, matando vocês, julgará estar prestando culto a Deus” (Jo 16,1-2).

        No episódio de Lázaro, o sinal de morte transparece na palavra de Tomé ao ouvir de Jesus a decisão de ir para a Judeia: “Vamos nós também para morrermos com ele” (Jo 11,16). Os membros da comunidade joanina estão sendo torturados e mortos na perseguição. A comunidade descreve que a morte de Lázaro é definitiva: ele já está morto há quatro dias. O fim de todas as esperanças da vida! Ainda mais: a crença na ressurreição do último dia, conforme à tradição farisaica, torna difícil para a comunidade crer na vida nova: “Eu sei que ele vai ressuscitar na ressurreição, no último dia” (Jo 11,24). Não há a “ressurreição” na vida da comunidade?

A comunidade precisa reavivar a fé e reacender a esperança para resistir aos sofrimentos e às perseguições! No episódio de Lázaro, é possível afirmar que uma profunda relação de amizade e amor, capaz de gerar vida nova entre os membros, ajuda a comunidade a superar o abandono e o sofrimento. Em tal contexto, esse episódio relata uma relação de intimidade e afeto entre Jesus e suas amigas e amigos.

“Jesus chorou” (Jo 11,35). Jesus é tomado por um sentimento intenso de perda e tristeza. Diante do choro, os judeus concluem: “Vejam como ele o amava!” (Jo 11,36). Essa é a principal característica das comunidades joaninas do discípulo amado: o amor mútuo entre Jesus e os membros da comunidade. “Se vocês tiverem amor uns aos outros, todos vão reconhecer que vocês são meus discípulos” (Jo 13,35).

Por trás da reação de Jesus, tão humana e afetiva, podemos ler as atitudes cotidianas das comunidades joaninas: a convivência e os laços de amor que unem os membros entre si na dor e na alegria. Sinal da presença de Jesus ressuscitado na comunidade. Essa força transparece na cena em que Lázaro passa da morte à vida: “Jesus gritou em alta voz: ‘Lázaro, venha para fora!’” (Jo 11,43). Lázaro sai com os pés e as mãos enfaixados e com o rosto recoberto com um sudário. Jesus diz à comunidade: “Soltem-no e deixem que ele ande” (Jo 11,44).

É a comunidade que ajuda a ressuscitar Lázaro, desata-lhe as mãos e os pés. A comunidade colabora para devolver a vida a seus membros. O grito de Jesus e da comunidade expressa o clamor pela vida! É a convivência, sedimentada pelo laço de amor, que faz a comunidade defender a vida e ressuscitar. A vida nova depende da ação solidária e amorosa da comunidade. À medida que as pessoas vão sendo libertas de suas amarras, elas se abrem para uma nova vida.

A ressurreição de Lázaro encerra o Livro dos Sinais (Jo 2,1-11,54). É o maior sinal realizado por Jesus: a vida que supera a morte. Ao mesmo tempo, é anúncio e preparação do grande sinal: a própria morte e ressurreição de Jesus (Jo 18-20). Na perspectiva cristã, Jesus é a ressurreição e a vida (Jo 11,25-26). Quem crê nele viverá na prática da fraternidade, da justiça e do amor como ressuscitado.

Como o episódio de Lázaro, o relato da ressurreição de Jesus é, inicialmente, marcado por angústia, dor e sofrimento:

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi bem cedo ao túmulo de Jesus, quando ainda estava escuro. E logo viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Então saiu correndo e foi encontrar com Simão Pedro e o outro discípulo, aquele a quem Jesus amava. E lhes disse: “Tiraram do túmulo o Senhor, e não sabemos onde o colocaram”. Maria continuava ali, chorando junto ao túmulo (Jo 20,1-2.11a).

Maria, representando a comunidade que busca o corpo de Jesus para ungi-lo, vai ao sepulcro em que ele fora colocado e encontra a pedra removida e o local vazio. A ausência do corpo de Jesus provoca angústia, dor e tristeza. É o sofrimento que distorce e dificulta a visão e a compreensão da realidade. A comunidade, então, compreende que o corpo de Jesus foi roubado. Não compreende que a ausência do corpo indica o sinal da vida nova: a ressurreição. Há vários motivos que abatem e dificultam a crença da comunidade no Senhor ressuscitado:

  • Os cristãos sofrem com a perseguição: “Se perseguiram a mim, vão perseguir a vocês também” (Jo 15,20). Há falta de esperança em meio ao sofrimento, à miséria e à desolação. Alguns membros da comunidade ficam prisioneiros do círculo do sofrimento e da morte.
  • Segundo a cultura greco-romana, o ser humano é dividido em duas partes: a alma e o corpo. Enquanto a alma é imortal, o corpo é mortal. Não há nenhuma possibilidade da ressurreição do corpo. As comunidades cristãs sofrem com a influência de diferentes ideias e crenças sobre a morte. Alguns membros da comunidade cristã de Corinto, por exemplo, rejeitam a ressurreição de Jesus e a dos mortos: “De que maneira os mortos ressuscitarão? Com que corpo voltarão” (1Cor 15,35).
  • A tradição farisaica prega que a pessoa justa por cumprir a Lei é ressuscitada para a vida eterna e o injusto vai para o castigo eterno. Por isso, Paulo testemunha: “Nós anunciamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus” (1Cor 1,23). É escândalo porque Jesus rompe as barreiras da lei do puro e do impuro e morre na cruz, considerada “maldição de Deus” e “ato de impureza” (Dt 21,22-23).

Tudo isso põe em dúvida a ressurreição de Jesus. É necessário levar a comunidade a depositar sua fé no Senhor ressuscitado, o Senhor da vida. Com o relato da aparição a Maria Madalena, o Evangelho de João, então, prepara o leitor para fortalecer a esperança e, nela, entrar na presença do Ressuscitado.

O Evangelho de João 20,11-18 relata o encontro entre Maria Madalena e Jesus: ela começa o processo de superar a prisão do círculo do sofrimento e morte e encontra Jesus Cristo ressuscitado. O relato do encontro se inspira no Cântico dos Cânticos, um poema do amor e, ao mesmo tempo, um grito de libertação, no qual a amada procura pelo amado. Uma busca intensa que termina com o encontro: “Encontrei o amado da minha vida, agarrei-o e não o soltarei…” (Ct 3,4).

Jesus e Maria Madalena no jardim (Jo 20,11-18)

“No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi bem cedo ao túmulo de Jesus, quando ainda estava escuro. E logo viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo” (Jo 20,1). A comunidade continua no escuro, ainda não vivenciou a experiência da ressurreição. Todos os evangelhos citam a presença de Maria Madalena no momento da morte como testemunha e anunciadora da ressurreição. Quem é essa mulher?

Maria Madalena foi uma liderança importante nas origens do movimento de Jesus. Eis algumas observações sobre Maria Madalena nos evangelhos:

– Seguiu Jesus desde a Galileia até o momento da morte: “Também algumas mulheres estavam aí, olhando de longe, entre elas Maria Madalena, Maria mãe de Tiago Menor e de Joset, e Salomé. Elas seguiam e serviam Jesus, quando ele estava na Galileia. E muitas outras que tinham subido com ele para Jerusalém” (Mc 15,40-41; Mt 27,55-56; Lc 23,49).

– Ela, juntamente com outras mulheres, mesmo de longe, observou o sepultamento de Jesus (Mc 15,45-47). É fiel até o fim!

– Ao lado de outras mulheres, ela vai ao túmulo no primeiro dia da semana (Mc 16,1-2; Mt 28,1; Lc 24,1.10).

– Está entre as primeiras a receber e comunicar a notícia de que Jesus ressuscitou (Mt 28,5-8).

– Ela e outras mulheres são as primeiras que veem Jesus depois da ressurreição: “Eis que Jesus foi ao encontro delas e disse: ‘Alegrem-se!’ Elas então se aproximaram, abraçaram-lhe os pés e se ajoelharam diante dele. Então Jesus lhes disse: ‘Não tenham medo! Vão avisar meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Aí eles me verão’” (Mt 28,9-10).

Além dos evangelhos canônicos, há outros textos antigos que citam a presença de Maria Madalena, existe até mesmo um evangelho cuja autoria lhe é atribuída. Nos primeiros séculos, Maria Madalena foi referência muito importante e significativa para as comunidades cristãs. No Evangelho de João, ela representa a comunidade, chamada a vivenciar e anunciar a ressurreição (Jo 20,18). Vejamos, passo a passo, como esse autor descreve o encontro no jardim entre Jesus e Maria Madalena.

Mesmo encontrando o túmulo vazio, a sua busca continua: “Maria continuava ali, chorando junto ao túmulo” (Jo 20,11). Ela é imagem da comunidade inconsolada com a morte de seus membros e com dificuldade de perceber os sinais de ressurreição. Essa situação é descrita numa linguagem simbólica, inspirada no livro do Cântico dos Cânticos. Nesse livro, a jovem sai ao encontro do amado: “Em meu leito, durante as noites, saí à procura do amado da minha vida. Eu o procurei, mas não o encontrei! Preciso levantar-me, dar uma volta pela cidade, pelas ruas e praças à procura do amado da minha vida. Eu o procurei, mas não o encontrei!” (Ct 3,1-2). Maria vai ao sepulcro chorar a morte do Senhor. Ela está presa à ideia da morte como o fim de tudo. De longe, no escuro, Maria Madalena percebe que o túmulo está vazio. Desesperada, vai ao encontro dos discípulos, que constatam o fato e retornam para casa. Maria permanece chorando junto ao sepulcro.

A mulher, angustiada e ainda chorando, olha para o interior do túmulo e vê dois anjos. No livro do Cântico dos Cânticos, a jovem pergunta aos guardas: “Acaso vocês viram o amado de minha vida?” (Ct 3,3). No Evangelho de João, são os anjos que perguntam a Maria a razão de sua dor. A mulher responde: “Tiraram o meu Senhor daqui, e não sei onde o colocaram” (Jo 20,13), expressão da dificuldade da comunidade em tomar consciência da ressurreição de Jesus. A dor, o desespero e o medo não deixam a comunidade perceber que a vida é mais forte que a morte.

O seu objetivo é encontrar o corpo do Senhor. Jesus se aproxima e lhe pergunta: “‘Mulher, por que você está chorando? A quem está procurando?’ Maria pensou que fosse o jardineiro e disse: ‘Se foi você que o levou, diga-me onde o colocou, eu vou buscá-lo’” (Jo 20,15). Enquanto Maria continuar olhando para o túmulo, não poderá encontrar-se com Jesus, pois ele não está no sepulcro. A mulher continua sem esperança, ainda não conseguiu ver os sinais de vida, mas, apesar disso, persiste na busca. O termo mulher foi usado para a Mãe, em Caná e na cruz, e para a Samaritana (Jo 2,4; 19,26; 4,21). Maria Madalena representa a comunidade como “esposa” da nova aliança, que busca o esposo no meio da desolação. Ela chama Jesus de meu Senhor, tratamento dado ao marido conforme o costume da época. Porém, ela continua perplexa, sem nada entender…

Maria Madalena reconhece Jesus só quando ele a chama pelo nome: “‘Maria’. Ela voltou-se e exclamou em hebraico: ‘Rabuni!’, que quer dizer ‘Mestre’” (Jo 20,16). Agora, ela já não olha para o sepulcro. Seu olhar é dirigido para o Ressuscitado. É o início da nova criação. Maria faz a experiência de ser amada e acolhida como discípula: “Não tenha medo, porque eu o protegi e o chamei pelo nome. Você é meu” (Is 43,1). Ela é a ovelha que reconhece a voz do pastor (Jo 10,2-3). Uma situação semelhante é descrita no Cântico dos Cânticos: “Eu dormia, mas meu coração estava desperto a ouvir a voz do meu amado” (Ct 5,2).

É a experiência humana de intimidade, de convivência no amor, que faz a pessoa viver. Quando Maria encontra o amado, é um momento de grande alegria e emoção. Ela quer abraçar e prender o Senhor. No entanto, Jesus lhe diz: “Não me retenhas, pois ainda não subi para junto do Pai. Mas vá encontrar os meus irmãos e diga a eles: ‘Eu estou subindo para junto do meu Pai e Pai de vocês, do meu Deus e Deus de vocês’” (Jo 20,17).

Não, a missão ainda não acabou. É preciso continuar as obras de Jesus. O Reino de Deus é para todos, por isso é necessário que Maria vá anunciar aos “meus irmãos”; e isso, no contexto da comunidade de João, não é apenas para os discípulos e discípulas: o anúncio é universal. Todos são chamados ao amor, a experimentar o Ressuscitado vivo na comunidade (Jo 20,19-31).

É preciso ir além da narrativa e ver o simbolismo dessa cena. Jesus é o esposo da nova aliança, da nova criação (Jo 2,1-11), e Maria Madalena é a comunidade como a nova esposa. Como no livro do Gênesis, eles estão no jardim: a morte e a glorificação de Jesus dá origem a nova humanidade. É a nova criação. Maria Madalena procura, encontra, vê, ouve, acredita e anuncia. O amor vence o temor, e a vida desabrocha e floresce até os nossos dias! A vida triunfou! Ele continua vivo e presente entre nós!

 

Textos exclusivos de João

na narrativa da paixão, morte e ressurreição de Jesus

Todos os evangelhos narram a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus. Ao ler esses relatos, não é difícil perceber uma longa história de redação, condicionada pelas diferentes realidades das várias comunidades cristãs. A última palavra de Jesus na cruz, por exemplo, é boa amostra de recordações, reflexões e interpretações de cada comunidade:

– “Às três da tarde, Jesus deu um grande grito: ‘Eloi, Eloi, lamá sabactâni’, que traduzido significa: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’ Então Jesus, dando um grande grito, expirou” (Mc 15,34.37).

– “Perto das três da tarde, Jesus deu um forte grito: ‘Eli, Eli, lamá sabactâni?’ Quer dizer: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’ E de novo Jesus deu um forte grito e entregou o espírito” (Mt 27,46.50).

– “Jesus deu um forte grito: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’” (Lc 23,46).

– “‘Tudo está consumado’. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,30). Diferentemente dos sinóticos, em João, Jesus não morre: é Deus. Ele se entrega!

É evidente que a comunidade joanina interpreta a morte de Jesus como a consumação da obra designada pelo Pai. Nas bodas de Caná (Jo 2,1-11), o primeiro sinal, Jesus Cristo afirma: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4). Após a realização dos sete sinais, primeira parte do evangelho (Jo 2,1-11,54), Jesus Cristo, em sua despedida da comunidade (13,1-17,26), é descrito da seguinte forma: “Jesus sabia que tinha chegado a sua hora, a hora de passar deste mundo para o Pai. Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).

A morte de Jesus é compreendida como a vitória do amor, da verdade e da vida sobre o mundo da morte: “Eu venci o mundo” (16,33). E o último gesto de Jesus é “entregar o espírito”, o espírito do Pai, que acompanhou e orientou toda sua obra. Após a ressurreição, o mesmo Espírito voltará à comunidade para guiá-la no caminho da verdade e da vida: “Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo’” (Jo 20,22).

No relato da paixão, da morte e da ressurreição, a comunidade joanina acrescenta vários textos exclusivos em vista de sua realidade, de seus problemas e conflitos, sobretudo com o mundo (o império romano e os judeus fariseus). Era necessário para a comunidade, perseguida pelo mundo, elaborar mensagens e argumentos para fortalecer seus membros. Eis alguns desses textos exclusivos de João:

  • Jesus diante de Pilatos: “Jesus respondeu: ‘O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus servos teriam lutado para eu não ser entregue aos judeus. Mas agora meu reino não é daqui’” (Jo 18,36). O reino de Jesus não é da ordem – poder e dominação – do império romano. Sim, é Reino do Céu, ou seja, reino do “meu Pai”, caracterizado pelo amor: “Deus é Amor: quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1Jo 4,16). Na fidelidade e na firmeza na comunhão do amor de Jesus, o reinado da verdade de Deus se realiza: “Se vocês permanecem na minha palavra, são de fato meus discípulos; e conhecerão a verdade, e a verdade libertará vocês” (Jo 8,31-32); “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6); “Quem é da verdade ouve a minha voz” (Jo 18,37).
  • O rei Jesus: “Pilatos disse aos judeus: ‘Aqui está o rei de vocês’. Eles gritavam: ‘Fora! Fora! Crucifique-o!’ Pilatos lhes disse: ‘Mas eu vou crucificar o rei de vocês?’ Os chefes dos sacerdotes responderam: ‘Nós não temos outro rei, senão César’. Então Pilatos lhes entregou Jesus para ser crucificado” (Jo 19,14-16a). Depois de ameaçar Pilatos para condenar Jesus (Jo 19,12-13), a autoridade judaica aclama César seu único rei, para manter seu privilégio junto ao poder do império romano. Com a descrição da leviandade dos judeus, a comunidade joanina denuncia a falsidade e a perversidade dos judeus fariseus, a autoridade religiosa do seu tempo. Para a comunidade cristã, Jesus é o único rei com a força do amor, da justiça e da fidelidade.
  • Jesus e sua mãe: “Junto à cruz de Jesus estava sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à sua mãe: ‘Mulher, eis aí o seu filho!’ Depois disse ao discípulo: ‘Eis aí sua mãe!’ E desde essa hora o discípulo a recebeu em casa” (Jo 19,25-27). Enquanto os três evangelhos sinóticos registram a permanência das mulheres à distância da cruz, o Evangelho de João apresenta, junto à cruz, as mulheres e o discípulo amado. Nas falas de Jesus, Maria, sua mãe, recebe o tratamento de “mulher”, a discípula fiel ao amor de Jesus (Jo 2,4; 19,26), a qual, com o discípulo amado, funda nova comunidade de amor. E então nasce ao pé da cruz a Igreja com o Espírito Santo, nova humanidade e novo Israel, para continuar a missão do servo crucificado e morto por causa da prática da justiça, da solidariedade e do amor (Jo 19,30; 20,22).
  • O golpe de lança: “Quando se aproximaram de Jesus, viram que já estava morto; por isso, não lhe quebraram as pernas. Mas um dos soldados lhe perfurou o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água. Essas coisas aconteceram para se cumprir a Escritura: ‘Nenhum osso dele será quebrado’. E ainda outra passagem diz: ‘Olharam para aquele a quem traspassaram’” (Jo 19,33-34.36-37). Jesus morto na cruz é o verdadeiro messias. Nele, as palavras da Escritura são confirmadas: a primeira citação, que vem de Ex 12,46, testemunha Jesus como o cordeiro da nova Páscoa, a festa da libertação; a segunda, que vem de Zc 12,10, serve para comprovar a inocência de Jesus. Os homens, ao contemplar o “traspassado”, arrependem-se e entram em luto: “Quanto àqueles que traspassaram, chorarão por ele como se chora pelo filho único”. Confirma-se que a morte de Jesus não é o fim. Do sangue (a sede da vida, Gn 9,4) e da água (símbolo do Espírito, cf. Is 44,3) de Jesus Cristo brota a vida para todos e todas.
  • Crer sem ver: Tomé, ausente na ocasião da aparição de Jesus, ao reencontrar os demais discípulos (Jo 20,24-25), poderia ter acreditado no testemunho deles, afirmando sua fé sem ver e tocar (cf. Jo 20,8). Oito dias depois, Jesus volta ao meio deles, agora com a presença de Tomé. Vendo e ouvindo Jesus, sem tocá-lo, faz sua confissão de fé. Ao vacilar entre o ver e o crer, Tomé motivou o pronunciamento de Jesus sobre a bem-aventurança dos que creem sem ver o Ressuscitado: “Felizes os que não viram e acreditaram” (Jo 20,29). As narrativas de aparição são um fator de convencimento da comunidade sobre a presença de Jesus vivo em seu meio.

Todos esses textos exclusivos de João têm como pano de fundo a situação da comunidade joanina, que sofre com as perseguições e os conflitos internos. É preciso alimentar a fé na presença de Jesus crucificado e ressuscitado no meio da comunidade para orientar e fortalecer a missão e o testemunho cristão no mundo do império romano.

Hoje, somos chamados à convivência do amor do Crucificado (At 2,42-47) e à bem-aventurança dos que creem sem ver o Ressuscitado (Jo 20,19-20; cf. 1Pd 1,3-9). A fé em Jesus de Nazaré ressuscitado, que continua vivo entre nós, leva a reconhecer sua presença nos sinais do amor manifestado nas diversas comunidades e culturas dos nossos tempos. Assumir essa fé no Deus da vida nos move à solidariedade global pela paz e pela vida, superando o império da fome, da guerra e da morte.

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BIBLIOGRAFIA

(referente aos três artigos sobre o Evangelho de João)

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