EU SOU A RESSURREIÇÃO E A VIDA – TOMAZ HUGHES

QUINTO DOMINGO DE QUARESMA (02.04.17)

Jo 11, 1-45

“Eu sou a Ressurreição e a Vida” TOMAZ HUGHES

Para entender melhor este texto, temos que situá-lo no seu contexto dentro do Quarto Evangelho, o do Discípulo Amado. Cumpre lembrar a divisão literária e teológica deste Evangelho. Nele, os primeiros onze capítulos formam que é normalmente intitulado “O Livros dos Sinais”, ou seja, relatam sete sinais (tradução melhor do que “milagres”) operados por Jesus. Um sinal aponta para algo mais além, e os sinais relatados por João apontam para uma realidade mais profunda – eles revelam algo mais profundo sobre a pessoa e missão de Jesus. São: a mudança de água em vinho em Caná (2, 1-11), a cura do filho de um funcionário real (4, 46-54), a cura do paralítico em Betesda (5, 1-18), a partilha de pães (6, 1-15), caminhar sobre as águas (6, 16-21), a cura do cego de nascença (9, 1-41), e o sinal culminante, a Ressurreição de Lázaro (11, 1-45), o texto de hoje. Como bloco, formam o Livro dos Sinais, preparação para Capítulos 13-20, o Livro da Glorificação.

Nos desafiam a ir por trás das palavras e imagens, ou seja, não parar no visível, mas descobrir o que sinalizam sobre a pessoa e missão de Jesus – portanto, a nossa missão também. Assim, devemos sempre ter presente que o relato de um sinal sempre quer revelar algo sobre Jesus. Diferente dos milagres em Marcos, onde não se faz milagre a não ser que já se tem a fé em Jesus, os sinais em João revelam uma verdade sobre Jesus e levam as pessoas a aprofundar a sua fé n’Ele. Assim, no texto de hoje, não devemos centralizarmo-nos sobre a pessoa de Lázaro, ou sobre os pormenores da história, mas, descobrir o que João quer dizer sobre a pessoa de Jesus e a sua missão, através do texto.

Talvez possamos dizer que o centro do relato se encontra nos versículos 21-27. Partindo da fé na ressurreição dos mortos, já corrente desde o tempo dos Macabeus entre as camadas populares do judaísmo, mas, rejeitada pela classe dominante dos saduceus, João tece um diálogo entre Jesus e Marta, que culmina com a declaração que a Ressurreição e a Vida acontece através da fé n’Ele, o Enviado de Deus, que veio para que todos tivessem plena vida, dando a sua vida para que isso acontecesse (Jo 10, 10-11). Vale notar que, no Evangelho de João, a primeira pessoa a professar fé no messianismo divino de Jesus é uma mulher, Marta. Nos Sinóticos, isso cabe a Pedro (Mc 8, 29). Como a cegueira do cego de nascença servia para que a glória de Deus fosse revelada através da sua cura, revelando Jesus como Luz do mundo (Jo 9, 3-5), a morte de Lázaro serve para revelar Jesus como Ressurreição e Vida (11, 25-27).

Jesus traz esta Vida para todos, através da entrega da sua própria vida. Pois, o relato de João enfatiza que Ele dará a sua vida para que todos tenham a vida eterna, colocando na boca do Sumo Sacerdote a frase famosa: “É melhor um homem morrer pelo povo do que a nação toda perecer” (11, 50). A libertação total que Jesus trouxe não acontece sem que Ele se esbarre contra os interesses dos poderosos da sociedade que procurarão conter esta libertação, matando-O. É a maneira joanina de dizer a verdade que Marcos sublinha quando ele faz Jesus dizer “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga me” (Mc 8, 34). A verdadeira vida exige luta contra tudo que é de morte, de dominação, de exploração, de exclusão.

Notemos que, no fim da história, Lázaro é desatado dos panos e sudário – pois Ele vai precisá-los de novo, pois ainda passará pela morte! A Ressurreição de Jesus, que logo celebraremos, é diferente. Cap. 20 de João faz questão de mencionar que, quando os discípulos entram no túmulo vazio, eles veem o sudário e os panos no chão – pois Jesus não foi simplesmente ressuscitado, mas passou pela Ressurreição, para a vida definitiva! O que aconteceu com Lázaro simplesmente prefigura o que aconteceria com Jesus de uma maneira mais definitiva, e por conseguinte, a todos nós. Que a nossa fé n’Aquele que é “a Ressurreição e a Vida”, que veio “para que todos tenham vida e a vida plena” nos leve, não à religião intimista e individualista, sem maiores consequências na vida comunitária, social, política e econômica, mas, a um engajamento na construção do mundo que Deus quer, o mundo da verdadeira “Shalom” – um conceito que vai muito além do sentido do termo Português “paz”, para indicar a plenitude do bem-estar, tudo que Deus deseja para todos os seus filhos e filhas, como nos lembra o tema do programa catequético-bíblico da CNBB nestes quatro anos: “Para que n’Ele nossos povos tenham vida”, o que implica levar a sério a Campanha da Fraternidade deste ano, em defesa dos biomas brasileiros (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal, Pampa), elementos essenciais para uma vida plena.

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