APOCALIPSE – MARIA DO SOCORRO

O APOCALIPSE

 

Maria do Socorro  Marcos  da  Silva

  

1- Quando foi escrito o Apocalípse?

 

O apocalipse foi escrito entre o ano 90 e 100. Não se sabe o ano certo. Para facilitar, vamos dizer que foi no ano 95. era uma época de perseguição.

Depois da morte e ressurreição de Jesus, o evangelho espalhou-se rapidamente. Em toda parte surgiam pequenas comunidades. Em pouco tempo, a Boa Nova de Jesus atravessou as fronteiras da Palestina. Entrou pelo império romano: Ásia Menor, Grécia, Itália. Não foi uma caminhada fácil. Houve muitas dificuldades e perseguições. Mas,  apesar de tudo, o sol brilhava. O vento era favorável.

Aos poucos, porém, o céu se cobria de nuvens.Uma tempestade se armava. A escola de império romano ensinava que o imperador era o senhor do mundo (13, 4.14). Os cristãos diziam o contrário: ‘Jesus o senhor dos Senhores!’ (17, 14; 19, 16). e não era uma briga só de palavras! O império tinha os seus deuses (2,14). era em nome destes falsos deuses que o imperador se declarava Senhor do mundo! Todos deviam prestar culto a ele (13, 8-15). Assim, ajudado pela religião, o imperador conseguiu montar um sistema que controlava a vida do povo (13,16-17) e que explorava os pobres para aumentar o luxo dos grandes (18,3.9.11-19).

Para os cristãos, Deus é um só. E se Deus é um só, Pai de todos, então todos são irmãos! Por isso, em nome da sua fé, os cristãos procuravam viver como irmãos. Colocavam em comum os seus bens(At 2,44-45; 4,32.34). Diziam que todos eram iguais (GL 3,28; 1Cor 12,13; Cl 3,11) Condenavam os ricos que exploravam os trabalhadores (Tg 5, 1-6). Não queriam apoiar o sistema injusto do império romano(18,4).

Portanto, não era uma briga só de palavras, nem uma discussão sobre deuses lá no céu. Tratava-se também da organização da vida do povo aqui na terra. A nova organização iniciada e anunciada pelos cristãos ameaçava o sistema do império! Um conflito aberto não podia demorar. De fato, uns trinta anos depois da morte de Jesus, o imperador Nero decretou a primeira grande perseguição. Foi o início dos males. Foi no mês de julho do ano 64!

Depois de Nero, a paz voltou. Mas não era paz. Era apenas uma parada. Todos sabiam que o império não ia permitir que as comunidades crescessem e se espalhassem. As comunidade eram como cupim. Subvertiam o sistema do império por baixo. Por isso, em torno do ano 90, o imperador domiciano decretou uma nova perseguição. Desta vez, mais violenta e mais organizada. Domiciano torturava os cristãos para que abandonassem a fé!

Assim, com a chegada do fim do primeiro século, parecia ter chegado também o fim da caminhada das comunidades. Todas as portas estavam fechadas. Todo o poder do mundo se voltava contra os cristãos. Muitos abandonavam o Evangelho por medo e passavam para o lado do império. Na comunidade se dizia: ‘Jesus é o Senhor1′. Mas lá fora, quem mandava mesmo como Senhor todo-poderoso era o imperado de Roma! É neste fim do primeiro século, época de perseguição, que foi escrito o livro do Apocalipse.

 

2- Para quem foi escrito o Apocalipse?

João escreveu o Apocalipse para o povo das pequenas comunidades, espalhadas pelo império romano, sobretudo na Ásia Menor (1,4.11).

 

Qual era a situação desse povo?

             Era um povo perseguido(1,9). O próprio João, no momento de escrever o Apocalipse, estava preso por causa da sua fé (1,9). A perseguição era violenta(12,13.17;13,7) Havia prisões(2,10), e muitos já tinham sido martirizados (2, 13; 6, 9 -11; 7,13 -14; 16,6; 17,6; 18,24; 20,4). Era muito difícil sustentar a fé (2,3-4).

O controle da polícia era total: ninguém podia escapar de sua vigilância (13,16). Quem não apoiava o regime do império, não podia vender nem comprar nada (13,17). A propaganda era enorme (13,13) e se infiltrava nas comunidades (2,14.20).

O imperador era apresentado como se fosse um novo Jesus! Diziam até que ele era um ressuscitado (13,3.12,14). A terra inteira o adorava como se fosse um deus e apoiava o seu regime (13,4.12-14).

O povo das comunidades tinha ainda outras dificuldades. Havia o cansaço natural, depois de tantos anos de caminhada (2,2). Havia a diminuição do primeiro fervor (2,4). Havia os falsos líderes que se presentavam como apóstolos e não eram (2,2).

Havia as doutrinas erradas que traziam confusão (2,6.15); as perseguições por parte dos judeus (2,9; 3,9); o problema das outras religiões que se misturavam com a fé em Jesus (2,14-15.20).

Algumas comunidades estavam morrendo (3,1). Outras, bem fraquinhas, continuavam firmaes na fé (3,8). em geral, era gente pobre, indigente até (2,9).

As comunidades mais ricas se acomodaram, iludidas pela sua riqueza (3,16-17). Não eram frias nem quentes (3,15)!

É para este povo das pequenas comunidades que João escreve o seu livro. Como hoje, também naquele tempo havia os fracos e os pobres que continuavam firmes na fé e na luta.

Havia os que estavam perdidos, sem enxergar o rumo. Havia os que misturavam as coisas, sem entender direito o sentido. Todos perseguidos! Todos precisando de uma palavra de esclarecimento, de conforto e de coragem!

Naquele tempo, os nomes eram outros. Hoje eles se chamam Maria, José, Romero e Raimundo…!

 

3- Quem escreveu o apocalipse?

O autor do Apocalipse não assinou o seu livro nem colocou data. Pouco sabemos da sua vida. Mas ele deixou algumas informaçãoes.

Ele se apresenta assim: ‘Eu, João, vosso irmão e companheiro na tribulação, na realeza e na perseverança em Jesus, encontrava-me na ilha de Patmos, por causa da Palavra de Deus e do Testemunho de Jesus’ (1,9).

O seu nome é João. Ele não apresenta nenhum título, nem de bispo, nem de padre, nem de evangelista nem de apóstolo.

O título que vale para ele é: ‘Irmão e companheiro na tribulação’(1,9). Ele mesmo é um perseguido por causa de sua fé. Sofre a mesma coisa que os outros. Conhece por dentro o drama dos companheiros. Por isso, tem condições para animá-los!

João tem consciência de ser o portador de uma profecia por parte de  Deus para o povo das comunidades (1,1-3; 22, 6-8). ele se apresenta com autoridade e pede obediencia (22, 18-19).

A sua autoridade vem da palavra de Deus (1,2). ele mesmo encarnou esta palavra na sua própria vida (10, 8-11). Por isso, tem autoridade para falar.

Ao que parece, João era o coordenador geral das comuniades da Ásia Menor, pois é para lá que ele manda o seu livro (1,4.11). Além disso, ele está bem por dentro da situação e dos problemas de cada uma das sete comuniades, como mostra nas sete cartas (2,1-3,22).

Apesar da sua autoridade, João parece ter sido uma pessoa humilde que não tinha medo nem vergonha de confessar o que não sabia (5,4; 7,13-14).

João não escreve para todos indistintamente. Escreve para os ‘irmãos e companheiros’ perseguidos(1,9).

À primeira vista, ele só se dirige aos irmãos perseguidos das ‘sete comunidades que estão na Ásia’(1,4.11). Mas no apocalipse, o número sete, muitas vezes, significa todos. Por isso, escrevendo para aquelas sete comunidades, João quer é esclarecer e animar todas as comunidades, inclusive as de hoje!

 

4- O que o Apocalípse tem a dizer ao povo das comunidades?

             Apocalípse é uma palavra que vem do grego.  Quer dizer revelação.

Revelação é o mesmo que tirar o véu. Quando uma coisa está encoberta por um véu, ninguém pode vê-la.

Qual era o assunto encoberto, do qual João vai tirar o véu para mostrá-lo ao povo?

O assunto encoberto era a própria situaçaõ do povo das comundades. Ninguém estava enxergando direito as coisas. Já não entendiam a perseguição. O povo estava impaciente e dizia: ‘Até quando, Senhor?’(6,10).

             Se Deus era o dono do mundo, como é que Ele permitia essa perseguição tão demorada?

Deus parecia ter perdido o controle da situação. Quem mandava mesmo no mundo era o imperador de Roma!

Ora, o livro do Apocalipse é a resposta de Deus ao povo aflito e perseguido das comunidades. Foi escrito por ordem de Deus (1,11. 19) para ser revelação, isto é, para tirar o véu e clarear a situação do povo com a luz da fé.

O livro começa com estas palavras solenes: ‘revelação de Jesus Cristo’(1,1)!

Por meio desta ‘revelação de Jesus’, transmitida por João, Deus vai tirar o véu e revelar ao povo o seu plano de salvação, etapa por etapa. Vai ‘mostrar aos seus servos as coisas que devem acontecer muito em breve’ (1,1). Vai esclarecer o povo e desmacarar a falsa propaganda do império.

As coisas que Deus realiza para o seu povo, ‘tanto as coisas presentes como as que deverão acontecer depois destas’ (1,19), existem escondidas dentro dos acontecimentos da vida. Mas o povo não as enxergava. Por isso, estava impaciente e triste.

Para poder enxergar a ação de Deus dentro da vida, não bssta que João tire o véu. É necessário que o povo colabore, escutando e praticando a palavra de Deus que João lhes transmite. Assim, reencontrará a alegria. ‘Feliz o que lê e os que escutam as palavras desta profecia, se praticarem o que nela está escrito, pois o tempo está próximo’ (1,3)!

Esta é a Boa Nova que o Apocalípse quer revelar ao povo das comunidades: ‘O tempo está próximo’ (1,3)!

Dentro do tempo da história, marcado pelas perseguições, existe o tempo de Deus, a hora de Deus, o plano de Deus. Este plano entrou na sua fase final. Esgotou-se o prazo. Deus está para chegar! Ele vai mudar a situação e libertar o seu povo!

O Apocalípse vai tirando o véu, para que o povo descubra, dentro dos acontecimentos da perseguição, a Boa Nova da chegada de Deus que vem para libertar!

  

5- Breve explicação de alguns dos símbolos:

 ·        A mulher grávida  (12, 1-2 ): é o povo de Deus, Maria gerando o Messias, o Libertdor.

  • Dragão ou Serpente ( 12,3.9): é o poder do mal que opera no mundo, o satanás.
  • Sete cabeças (12,3): são as sete colinas da cidade de Roma (17, 9), ou sete reis (17, 9-10).
  • Dez chifres (12,3); chifre é sinal de poder ou de rei (17,12); dez indica totalidade.
  • 1260 dias (12,6), 42 meses (11,2), tempo, tempos, meio tempo (12,14): é a metade de 7 anos. Indica um tempo limitado e imperfeito. Deus limita o tempo do perseguidor.
  • Asas de águia (12.14): é a proteção com que Deus conduz o seu povo (Dt 32, 11; Êx 19,4).
  • Besta-fera (13,1): é o império romano, o poder que encarna o mal; capanga do dragão.
  • Besta-fera com aparência de cordeiro e voz de dragão (13,11): são os falsos profetas que se colocam a serviço do império romano para legitimá-lo diante do povo.
  • Pantera, urso, leão  (13, 2): símbolos de voracidade e de exploração.
  • Cordeiro (14,1): é Jesus, cordeiro pascal, cujo sangue opera a libertação do povo.
  • 144.000 virgens (14, 1-4): é o número completo: 12 x12 x1000; 12 do AT e 12 do NT. São virgens, isto é, nunca andaram atrás dos falsos deuses do império romano.
  • Babilônia (14, 8; 18,2): é Roma que explora os povos para se enriquecer (18, 3.9-13).
  • Filho do Homem (14,14): imagem de Jesus Messias, tirada do profeta Daniel (Dn 7,13).
  • Harmaguedon (16,16): símbolo da derrota dos exércitos inimigos, tirado de (Zc12,11).
  • Cor branca (19,14): símbolo da vitória.
  • Mil anos (20, 2-7): é o tempo completo entre o fim da perseguição e o fim do mundo.
  • Lago de fogo (20,14): símbolo do destino de tudo que se opõe ao plano de Deus.
  • Segunda morte (20,14): é a morte da própria morte. No fim, só vai sobrar a vida!
  • Nova Jerusalém (21,2): símbolo do novo povo de Deus.
  • Núpcias do cordeiro (21,2: 19,9): vitória e festa final da união de todos com Deus.
  • Alfa e Ômega (21,6): primeira e última letra do alfabeto grego; princípio e fim.

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Bibliografia

 ODORÍSSIO, Mauro.  Apocalípse : testos e leitura facilitada. Editora: Ave-maria, São Paulo.143p.  2002.

MESTERS, Carlos e ORFINO, Francisco. CEBI – Série: A Palavra na vida.

 

 

 

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ÍNDICE GERAL DO APOCALIPSE

Responsável por este trabalho:

Xavier Cutajar

xacute@uol.com.br       http://xacute1.com

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