APOCALIPSES

OS APOCALIPSES

Com o livro de Daniel irrompe de vez um novo gênero literário, o apocalipse – termo grego que significa revelação.  Revelação do que?

Os apocalipses são escritos típicos de tempos difíceis. Aparecem quando o povo é dominado por uma potência imperialista que o ameaça de todos os modos. A dominação se faz em três vertentes básicas:

  1. A opressão política, diminuindo ou até cancelando a liberdade;
  2. A exploração econômica, diminuindo o recurso aos bens da vida;
  3. A vigilância ideológica, procurando, a todo custo, conter a consciência crítica do povo dominado, a fim de que este não se rebele e ameace o poder imperialista dominador. Esta vigilância ideológica costuma influir grandemente na cultura e na religião do povo dominado, pois este sempre vai encontrar, na sua história e religião, motivos e modelos de resistência e luta.

Podemos, então, perceber que os apocalipses são livros subversivos em relação ao poder imperialista. É literatura dos dominados, dirigida a despertar o senso crítico, estimular a resistência e incentivar à luta contra o imperialismo. Tal gênero vinha há tempos se formando entre os judeus, à medida que os sucessivos impérios do Oriente Médio faziam sentir progressivamente o seu peso sufocante.

As primeiras raízes do gênero já são encontradas nos livros dos profetas como, por exemplo, Joel 3-4; Zacarias 12-14; Isaías 24-27; 34-35; 65-66 e outros. Contudo, é Ezequiel, o profeta exílico, que firma as bases de um novo modo de escrever. Em pleno império Babilônico, Ezequiel começa a recorrer extensivamente às imagens e alegorias, falando de modo a ser entendido pelos exilados, mas não pelos detentores do poder imperialista. Desta forma corria menos perigo.

Podemos dizer que o gênero apocalíptico tem duas fontes básicas: a profecia e a sabedoria.

  1. Da profecia ele (o gênero apocalíptico) herda a análise da história. Os profetas já faziam análise da história, seja a nacional (oráculos contra Israel e contra Judá) seja a internacional (oráculos contra as nações estrangeiras). Os apocalipses, literatura típica dos oprimidos contra os impérios, vão radicalizar esses oráculos proféticos contra as nações estrangeiras, ampliando o horizonte da análise sobre a política internacional.
  2. Da sabedoria, gênero dedicado à formação do discernimento crítico diante das situações e acontecimentos, ele (o gênero apocalíptico) herda o espírito de interpretação, aprofundando a análise política internacional.

Desta forma, os apocalipses podem ser chamados de livros subversivos, profundamente interessados em derrotar, pela base, o espírito imperialista. Em outras palavras, livros de crítica subversiva e popular contra as políticas subversivas das elites imperialistas. Os Apocalipses são verdadeiros manuais para a formação do espírito de resistência e de luta.

RECURSOS DO GÊNERO APOCALÍPTICO

Um apocalipse é, antes e tudo, um livro de ficção. Que não se entenda mal: a ficção é usada pelo autor para falar, de modo cifrado, de situações perigosas e de projetos ousados, que poderiam facilmente acarretar ameaças para o próprio autor  e para seus leitores. Usa, então, o recurso de escrever um livro que pode simplesmente ser entendido como ficção, mas que os destinatários saberão decifrar e aplicar à realidade. Embora de gênero diferente, o livro de Daniel é parente próximo de outros livros de ficção, como Tobias, Judite e Ester – que se referem, de um ou de outro modo, ao mesmo contexto histórico ou a contextos históricos semelhantes.

Entre os recursos empregados pelo autor podemos elencar os principais: pseudonimia, antedatação, sonhos, visões, imagens, cores, alegorias, números simbólicos…

a)      Um autor de apocalipse costuma não assinar o livro. Usa um pseudônimo, em geral, o nome de uma personagem famosa do passado, como Moisés, Henoc, os patriarcas etc. Isso possibilita a proteção, pois o dominador vai pensar que se trata de livro antigo. Ao mesmo tempo, o recurso dá peso e importância ao livro.

b)      A antedatação decorre do pseudônimo. O autor retrocede ao passado e escreve sobre a sucessão histórica, como se estivesse profetizando, até chegar ao presente. Como o forte de um apocalipse é exatamente a análise e interpretação da história, esse recurso tem especial  importância: ensina a ler a história de modo crítico. Por outro lado, é fácil ter a datação real de um apocalipse: primeiro, quando o autor fala do passado, ele faz uma exposição genérica; ao chegar ao presente, ele fornece muitos detalhes – porque é nesse tempo que está escrevendo. Quando vai falar do futuro, o livro acaba, restando apenas um aceno: depois será ao fim, com o julgamento e o estabelecimento do Reinado de Deus, inaugurando uma nova era na qual, é claro, não haverá mais imperialismo.

c)      Os sonhos são outro recurso literário. Trata-se de sonhos cuidadosamente calculados e montados, em vista da interpretação que os refere à realidade histórica. São poderosos meios de comunicação, pois podem facilmente ser retidos na memória e, uma vez que se tenha a chave de interpretação, tornam-se profundas análises da realidade.

d)      As visões também são recurso literário. Como os sonhos, elas são construídas cuidadosamente, de modo a descortinar um panorama de interpretação de fatos e acontecimentos, quando não de projetos subversivos. Gozam de especial reputação pois, como os sonhos, são apresentadas como revelações feitas diretamente por Deus. Em geral às visões e aos sonhos se acrescenta a figura de um intérprete – quase sempre um anjo. As visões, portanto, fazem parte da linguagem cifrada do autor, principalmente para falar de análises, política e ideologicamente, delicadas.

e)      As imagens são recurso fundamental. É mais fácil guardar de memória uma imagem do que um texto. Os autores de apocalipses usam abundantemente esse recurso, em geral acompanhando-o de explicações para dar a chave de interpretação simbólica.

f)       Junto com a imagem contam muito as cores que pintam os acontecimentos: o preto lembra uma “situação preta”, o vermelho uma situação de violência etc..

g)      As alegorias são mosaicos de imagens. Para falar de uma realidade, o autor monta um quadro complexo pedacinho por pedacinho, cada pedacinho remetendo a um pormenor da realidade. As alegorias são a principal herança que os apocalipses receberam de Ezequiel, mestre por excelência na sua construção.

h)       Cuidado com os números. Nem sempre indicam quantidade. Podem indicar, simbolicamente, qualidades como totalidade ( 4, 12), perfeição (7). “Três anos e meio” foi o tempo que durou a perseguição desencadeada pelo rei selêucida Antiocos IV Epífanes contra os judeus – e ficou sendo o número que designa, simbolocamente, o “tempo de perseguição”.

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Tirado do livro: “Como ler O LIVRO DE DANIEL”  de Ivo Storniolo das Edições PAULUS, p. 7-11

APOCALIPSES

O livro do APOCALIPSE usa uma linguagem figurativa, simbólica que floresceu uns 200 anos a.C. (antes de Cristo) até uns 300 anos d.C. (depois de Cristo) por causa das perseguições que havia. Por isso, o Apocalipse não pode ser interpretado ao pé da letra. Precisa buscar o sentido, o significado das imagens, figuras, números, símbolos…

Além do Apocalipse há outros trechos na Bíblia escritos também com a mesma linguagem apocalíptica.

Há também outros livros, escritos com a mesma linguagem, que não fazem parte dá Bíblia.

OUTROS TEXTOS COM LINGUAGEM APOCALÍPTICA

NA BÍBLIA

ANTIGO TESTAMENTO

  • DANIEL: (esp Cap 7-12)
  • ISAÍAS: Capítulos 24-27 (chamado também: Apocalipse de Isaias) e
  • Capítulos 34-35
  • EZEQUIEL: Capítulos 40-48
  • JOEL: (alguns trechos)
  • ZACARIAS: Capítulos 9-14 (Déutero Zacarias)

NOVO TESTAMENTO

  • MATEUS: Cap. 24-25
  • MARCOS: Cap. 13
  • LUCAS: Cap. 21
  • 1ª CORINTO: 15, 1-58
  • 2ª CORINTO: 5, 1-5
  • GÁLATAS: 1,1-24
  • EFÉSIOS: 6, 1-20
  • 1ªTESSALONICENCES: 4, 13-17
  • 2ªTESSALONICENCES: 2, 1-12
  • 2ª PEDRO: 3, 1-13

 

OUTROS APOCALIPSES FORA DA BÍBLIA –

Conhecidos como APÓCRIFOS*)

Século 2º antes de Cristo:

  • LIVRO DE HENOC (HENOC ETÍOPE)
  • LIVRO DOS JUBILEUS conhecido também como (GÊNESES ou APOCALIPSE DE MOISÉS)

Século 1º antes de Cristo:

  • SALMOS DE SALOMÃO
  • A SIBILA* JUDAICA

Século 1º depois de Cristo:

  • A ASSUNÇÃO DE MOISÉS
  • LIVRO DOS SEGREDOS DE HENOC (HENOC ESLAVO)
  • 4º LIVRO DE ESDRAS; (O Apocalipse de ESDRAS)
  • O APOCALIPSE DE BARUC

Século 2º e 3º depois de Cristo:

  • APOCALIPSE DE PEDRO
  • APOCALIPSE DE PAULO
  • SIBILA** CRISTÃ

* Obs: Os livros APÓCRIFOS são os livros que não fazem parte dos livros canónicos, quer dizer: não são reconhecidos como escritos sagrados e portanto não fazem parte da Bíblia Sagrada.

** Sibila são oráculos.

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ÍNDICE GERAL DO APOCALIPSE

Responsável por este trabalho:

Xavier Cutajar

xacute@uol.com.br       http://xacute1.com

 

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