APOCALÍPTICA

**  Apocalíptica: busca de um tempo sem fronteirasAirton José da Silva

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REVISTA

APOCALÍPTICA – EDITORIAL – RIBLA – 1990

A Leitura Popular da Bíblia hoje em dia na América Latina está resgatando positivamente a literatura apocalíptica e reinterpretando-a a partir de uma perspectiva histórica e libertadora. A Teologia Apocalíptica é apropriada

  • ·        como teologia politica,
  • ·        como teologia da esperança,
  • ·        como teologia da história.

A apocalíptica surge em períodos de perseguição para animar a esperança do povo de Deus; O apocalipse anuncia a juízo de Deus que põe fim a crise que o povo sofre e anuncia a chegada iminente do Reino de Deus na história; O apocalipse descobre a realidade de Deus na história que é a realidade do povo pobre de Deus; o apocalipse é a momento da verdade e da justiça. Nesse sentido a apocalíptica é a esperança dos oprimidos.

A apropriação da literatura apocalíptica exige um estudo exegético e um discernimento histórico. Há muita literatura apocalíptica “extra-terrestre”, com uma linguagem e simbologia extravagante e confusa. Mas há também a apocalíptica histórica, cuja mensagem libertadora é possível reconstruir a partir da analise literária, exegética e histórica. Uma primeira lista desta literatura apocalíptica histórica seria a seguinte:

- Daniel (1-12)

- Livro dos Sonhos de Enoc (1En 83-90).

- Apocalipse das Semanas (1En 93,1-10 + 91,11-17)

- Livro dos Jubileus (esp. 23,16-32)

- Judite

- Da literatura de Qumran: Documento de Damasco (CD),

       Regra da Comuniclade (1QS), Rolo dos Hinos (1QH).

- Testamento de Levi

- Testamento de Moisés (Assunção de Moisés)

- Salmos de Salomão

- Livro 3 dos Oráculos Sibilinos

- Adições ao livro de Ester

- 2Enoc

- 3Macabeus

- Sabedoria de Salomão

- 2Baruc (ou Apocalipse Baruc Siríaco)

- 4Esdras

- Apocalipse de Abraão

- 3Baruc (ou Apocalipse Baruc Grego)

- Apocalipse de João (canônico do NT)

 

         Já com esta lista termos todo um programa de estudo. Com a edição de Alejandro Diez Macho dos Apócrifos do Antigo Testamento (Madrid, Ediciones Cristiandad, 5 volumes publicados de 1984 em diante), este estudo da literatura apocalíptica de caráter histórico se torna já possível e produtivo. Nesta lista destacamos os livros de Daniel (1-12) e Apocalipse de João, que são os dois apocalipses canônicos mais elaborados e que marcam o horizonte visível da literatura apocalíptica. Esta literatura, por sua vez, é o testemunho visível de muitos e variados movimentos apocalípticos. Estes movimentos e essa literatura, desde Daniel até o Apocalipse, é o contexto histórico, cultural, religioso, teológico e espiritual dentro do qual surgirão o movimento de Jesus e a primeira missão apostólica. Cada dia se descobre mais o pano de fundo apocalíptico de Jesus e de Paulo.

 

A literatura apocalíptica tem, como contexto histórico fundamental, a confrontação Povo de DeusImpério. Não se trata tanto de um confronto político-militar e sim de uma confrontação cultural, ética, espiritual e teológica. O Império idolátrico e assassino se defronta com o Povo de Deus, que procura construir o Reino de Deus aqui na terra. Os que estão com o Império, estão contra o Reino de Deus. Os que estão com o Reino, estão contra o Império. O Reino de Deus, realidade espiritual e teológica, adquire na apocalíptica uma radical densidade histórica e politica. Por isto mesmo a apocalíptica adquire tanta importância hoje em dia na América Latina, especialmente nas Comunidades Eclesiais de Base. Também hoje os cristãos se defrontam com o Império,

  • ·        com sua cultura consumista, individualista e espiritualista;
  • ·        com sua ética da morte e da mentira;
  • ·        com sua espiritualidade fetichista e idólatra.

Contra o Império as Comunidades assumem o projeto do Reino do Deus.

A apocalíptica é, sobretudo, uma “reconstrução do céu”. Quando a terra parece destruída e ameaçada de morte, quando as maiorias pobres e oprimidas são cada dia mais excluídas das possibilidades da vida, então se torna imperioso reconstruir na consciência o projeto de Deus, esse mistério de Deus, oculto aos poderosos, mas revelado aos humildes (Mt 11,25-26). A apocalíptica é a conquista da consciência (a reconstrução do céu), para a transformação da terra. Quando a destruição da vida é tão intensa, o povo de Deus necessita de apocalipse, de revelação, para ter claro onde Deus está e onde está o demónio nesta nossa história. A revelação vai contra o ocultamento; o apocalipse é o contrário da ideologia. O que o Império oculta, a apocalíptica revela, mas revela aos pobres, aos oprimidos pelo Império.

Outro aspecto da apocalíptica que a torna importante no hoje da América Latina é sua concepção da escatologia. Na apocalíptica de tipo histórico, o escatológico é que põe fim a uma situação de crise e sofrimento do povo. O escatológico não é fundamentalmente o que está no final da história, mas a que na história põe fim a crise que o povo sofre. O juízo de Deus, que destroi os Animais-Impérios e dá todo o poder ao povo dos santos (cf.  Dn 7) é que põe fim à crise. O que vem depois da crise é o Reino de Deus, realidade oposta, dentro da história, ao poder dos Impérios. Nasce assim uma escatologia histórica, que anima a esperança do povo em sua luta contra os impérios e pelo Reino de Deus.

Neste número de RIBLA apresentamos 7 artigos que nos introduzem nesta leitura popular e libertadora da literatura apocalíptica.

1.   O primeiro artigo, de Severimo Croatto, Apocalíptica e esperança dos oprimidos, tem um caráter introdutório e nos introduz especialmente no contexto sócio-político e cultural do gênero apocalíptico.

2.   O segundo artigo, de Pablo Richard, O Povo de Deus contra o Império, é um estudo do contexto literário e histórico de Daniel, capitulo 7. Procura também introduzir, com um exemplo concreto, na literatura apocalíptica com uma chave libertadora.

3.   O terceiro artigo, de Néstor Miguez , Para não ficar sem esperança, é um estudo da apocalíptica em Paulo, no caso concreto da Primeira Carta aos Tessalonicenses.

4.   O quarto artigo, de Dagoberto Ramírez, Compromisso e perseverança.Estudo sobre Marcos 13, é um estudo exegético e uma tentativa de leitura deste texto apocalíptico a partir da realidade das Igrejas da América Latina.

5.   O quinto artigo, de Jorge Pixley, versa sobre as perseguições, estuda o conflito de alguns cristãos com o Império como chave para entender a teologia apocalíptica.

6.   O sexto artigo, de Juan Snoek trata do difícil tema da ética apocalíptica. Aborda o tema a partir de Joel, capítulos 1 e 2.

7.   Por último, Uriel Molina nos oferece uma reflexão sobre o pequeno apocalipse de Isaias (Is 26,16-19) no contexto atual da Nicarágua.

Com todos estes artigos esperarmos ter contribuído para a leitura popular da apocalíptica em perspectiva latino-americana. Como o método tradicional de nossa revista, procuramos combinar a exegese mais rigorosa possível com o espirito e o trabalho de interpretação bíblica das Comunidades Eclesiais de Base. Cremos que nossa revista nasce dessa fecunda convergência entre ciência bíblica e prática profética de nossas comunidades cristãs. Convergência que se faz sobre a base do processo histórico de libertação dos pobres e oprimidos de nosso continente.

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Tradução de Jaime A. Clasen

Pablo Richard Apartado 389, 2070 Sabanilla, San José, Costa Rica

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ÍNDICE GERAL DO APOCALIPSE

Responsável por este trabalho:

Xavier Cutajar

xacute@uol.com.br       http://xacute1.com

 

 

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